Capítulo 6. Unidade.
O domínio próprio, segundo a professora Anna, era o verdadeiro instrutor de um bailarino. Era preciso alcançá-lo, de alguma forma, aliá-lo a características perigosas, porém imprescindíveis, como o orgulho e a confiança. Ao orgulho era preciso engoli-lo e usá-lo a seu favor conforme fosse conveniente. Era ele que impediria de rebaixar-se demais e era o controle absoluto sobre ele que impediria a confiança excessiva, outro fator fatal. Todo bailarino necessita de uma dose de insegurança. É a insegurança, a capacidade de duvidar de si mesmo, que o impulsiona a melhorar.
Só que Kari sentia que a sua dose de insegurança e dúvida estavam altas demais. Ela manteve-se imóvel enquanto a excêntrica Ming-Ming afastava-se do ringue com o seu grupinho, rindo e ridicularizando-a em voz alta. Não tinha jeito. Logo no primeiro dia já tinha uma nêmesis declarada – ela era popular, ela era minimamente atraente e ela era boa naquilo que fazia. Bom, talvez não tão boa quanto a Kari, mas digna de ser notada. Ming-Ming era uma adversária a altura, que detestava a competição. E se ela não podia mostrar a sua superioridade no ringue – ora, ela encontraria um jeito de o fazer fora dele.
Claro que Kari sabia que não devia deixar que isso a afetasse. Sabia que tinha um talento tremendo, capaz de engoli-la por inteiro, não duvidaria das suas capacidades só porque uma gordinha qualquer a olhava atravessado. Ela procurou o próprio reflexo no vidro. Gordinha?
— Kari — a voz conhecida do primo dispersou os seus pensamentos. — Olha.
Ele esticou um papel em sua direção. Era o cartaz para as audições de inverno. Era a primeira vez que a categoria infantil teria uma peça, ao invés de uma dança de dois minutos e meio. Prestando mais atenção, Kari percebeu que era porque estariam concorrendo os papeis com os alunos do iniciado.
— Mas você disse que não participava dos recitais da escola! — ele era muito enfático nos telefonemas.
— Idiota — o menino mandou-lhe um olhar quase censurador. — Não reparou sobre o que é? — era Cinderela. — Fizemos uma promessa, lembra?
— Quer dizer que... você quer ser o meu príncipe, Kai?
O jovem Hiwatari deu um raro sorriso.
— Eu vou ganhar essa para você, tá legal?
Não disse mais nada, só deu as costas ainda com aquele sorriso. Não importava. Kari apertou o pedaço de papel contra o peito, sentindo-se invulgarmente empolgada.
Enquanto isso, Yuri que, todavia continuava ignorando a irmã e quase tudo que lhe relacionava, ficou sabendo por Boris sobre a decisão do primo. A notícia naturalmente apoquentou-o; Kai não era de participar em eventos tais, tão dado ao seu individualismo como era. Procurou logo saber os seus motivos. O próprio Kai que os deu: Kari estava na competição também e estaria na corrida pelo papel da princesa. Imediatamente, o Ivanov primogênito também queria o papel masculino principal.
Boris não entendeu muito bem a disputa. Tinha decidido tentar o papel do rei e tinha imaginado que Tala também competiria por algum papel do tipo. De qualquer das formas, não se importou. A rivalidade ao seu ver era até saudável. Não. Era outra coisa que o estava preocupando. Ele fechou o cacifo, desejoso por esquecer o assunto.
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Assim que a notícia sobre as audições se espalhou, e tão mal os alunos decidiram quais papeis queriam concorrer, uma atmosfera tensa e o modo competitivo acomodou-se no ambiente da Abadia. Colegas olhavam-se tortos, os treinos intensificaram-se, as brigas e provocações nos corredores tornaram-se frequentes. Alguns dias antes das audições então começou algo bastante comum ali: a guerra. Era um termo comum usado pelos estudantes a fim de fazer com que a concorrência desistisse. No fundo, uma tentativa de eliminar os fracos. Embora fosse uma estratégia clandestina, e sobretudo utilizada pelos estudantes mais velhos, nada impediu que alguns alunos mais novos a recorressem naquela semana.
Kari estava sendo vítima de Ming-Ming e suas amigas. As garotas já tinham jogado neve em seus patins, sumido com eles duas vezes, estragado o seu uniforme, cortado uma mecha do seu cabelo e uma delas tinha-a empurrado perto das escadas. Kari permanecia firme, mas era óbvio que estava prestes a desmoronar quando a semana terminou. Ela encontrou um esconderijo numa das cabanas que serviam para guardar lenha, ao redor do pátio, e deixou-se ficar escondida ali. Estava mentalmente esgotada, de forma que foi só perceber que estava sozinha para se encolher no meio de toda aquela madeira e pôr-se a chorar.
Queria pensar em alguma coisa útil. Alguma coisa que a professora Anna diria. Ela limpou o rosto com a manga da camisa e abraçou aos próprios joelhos. Talvez fosse mais apropriado pensar em algo que o seu pai diria, pois certamente se resumiria em parar de chorar. Alguém abriu a porta e todo o escuro recinto iluminou-se.
Kari relaxou ao descobrir a figura de Kuztenov. Ele entrou bastante acanhado. Olhou-a e ficou decidindo o seu próximo passo. A menina fungou.
— Por quê você está em todos os lugares, Boris? Até agora...
O rapaz realmente estava observando-a durante todo aquele tempo. Ele desajeitadamente aproximou-se e apertou-se ao lado da mais nova, também abraçando os próprios joelhos.
— Aquelas garotas...
— Eu sei.
Eles ficaram em silêncio.
— Não precisa, sabe? Ficar comigo só porque é amigo do Tala.
— Ah... aquele cara é um teimoso.
— Você gosta muito dele — ela voltou a esconder a face nos joelhos.
— Ele só traz problemas... como você. Não entre na peça, Ivanov! Elas vão acabar com você!
— Apenas não conte nada para o Kai ou para o Yuri... Você não contou, não é? — ela virou-se para ele com desespero. Boris balançou a cabeça. — Isso já aconteceu antes — acrescentou, depois de um tempo. — Várias vezes. Olha — ela puxou a barra das calças para cima, deixando visível uma profunda cicatriz. — E essa também — afastou a manga da blusa. — Não são as únicas.
— Por quê você-
— Eu era a melhor bailarina da escola. Eu era a futura Odette. Todo mundo sabia disso, todo mundo dizia isso, todo mundo via isso. Naquele dia, uma semana antes da audição, aquela garota... ela era mais velha do que eu. Acho que as pessoas fazem coisas estranhas quando têm medo. Quando elas se sentem ameaçadas.
— Você devia contar para alguém. Mesmo que o teu irmão não te ouça, o Hiwatari-
— Papai sabe — o lavanda silenciou. — Papai sabe.
— Ele... não fez nada?
— Não foi a primeira nem a última vez, entende? Elas... as mães das minhas colegas também... querem que eu fracasse. Um dia eu contei. Eu entrei no escritório, mas- papai me disse para não ser fraca, quem decidiu ser bailarina tinha sido eu. A escolha tinha sido minha, a culpa era minha. A escolha foi minha e a culpa é minha, entende, Boris? Então não conte para ninguém, por favor!
Boris estremeceu. Kari abraçou os joelhos outra vez, entregando-se aos soluços, ao seu choro. Chorava, como nas descrições do irmão, mas chorava sozinha, apesar delas. Chorava como ele mesmo tinha feito durante toda a vida, escondido e sozinho; machucado e sangrando.
Ele também puxou a blusa para cima. A horrenda cicatriz ficou visível e confundiu a garotinha ao ponto de interromper o seu choro.
— Eu também tentei falar com o meu pai, um dia.
— Ele...
— Não. A mulher dele — ela o encarou. — As pessoas fazem coisas estranhas quando estão com medo. Eu não vou contar, se você não contar.
— Eu não vou contar — prometeu.
— Vamos — Boris levantou-se e esticou-lhe a mão. — Eu consegui guardar alguns bolos, partilharei com você. Você gosta disso, não é? De coisas doces. Vamos, não é bom ficar sentada no chão.
No dia da audição, Kari conferiu clinicamente a concorrência. Ela era o número onze em vinte garotas, sendo que entre elas estava inevitavelmente a sua arquirrival. A garota de cabelos azuis também estava concorrendo ao papel principal, e não perdeu a oportunidade de provocá-la ao vê-la. A Ivanov permaneceu nas arquibancadas assistindo aos testes.
Boris apresentou-se com mais três outros rapazes. Nenhum deles sobressaiu-se tanto quanto o liláceo. O menino tinha a sua própria luz no ringue. Mesmo que se apresentasse com o Kai ou com o Tala, as pessoas não deixariam de observá-lo. Boris era um falcão. Um falcão feroz e único, que se divertia fazendo maldades... a sua aura era obscura, mas nem por isso pouco deslumbrante. Era diferente da de Kai, que era luz e divino sem esforço. E do Tala... que era sofrimento puro. Ao vê-lo patinar, Kari sentia-lhe medo.
Só que fora do ringue, não tinha medo nenhum de Boris. Gostava-lhe muito. Ela apertou o bombom entre os dedos ao perceber que era a sua vez.
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Yuri travou uma batalha contraditória dentro de sua cabeça, ao permanecer nas arquibancadas mesmo depois da sua audição. Kai permanecia indiferente ao seu lado, e até Boris estava estancado na entrada do ringue. Tudo para vê-la dançar. Ele cerrou os olhos, era irritante. Os seus movimentos eram tão naturalmente graciosos, ela parecia sequer se esforçar. Como o Kai. Qualquer um diria que eram o reflexo um do outro, como se tivessem sido feito em pares. Pares; sim, o príncipe tinha encontrado a sua princesa; o artista a sua Monalisa. Aqueles dois definitivamente tinham sido desenhados no mesmo papel.
— A audição ainda não acabou, Tala — disse o mestre Hiwatari tão mal o ruivo deu as costas. — Fique. Ela é nossa irmã.
O empurrão foi tão violento e abrupto que Kai sequer viu o quê o tinha atingido. Ele encarou o primo do chão; o olhar de Yuri era tão assassino que era o que bastava para o ato. O rapaz piscou, confuso.
— Ela é minha irmã! Minha! Minha e de mais ninguém! Você não vai roubá-la também!
Os que presenciaram a cena silenciaram. Kai radicou-se no chão enquanto Yuri se afastava.
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— Você vai ficar de castigo por muito tempo?
Yuri não respondeu. Os seus olhos continuaram presos aos próprios sapatos, martirizando. Estava com medo até de pensar.
Kari sentou-se ao seu lado.
— O Kai não é teu inimigo, Yuri.
— Ele ficou com o papel, não ficou?
Ela encolheu os ombros desconfortavelmente.
— Apesar disso, você ainda é o meu príncipe — assegurou, sorrindo assim que os seus olhares se cruzaram. — Você ainda pode me proteger.
— Eu não tenho feito um bom trabalho.
Ela pegou-lhe a mão. — Mas você está aqui agora.
— Só que não basta, basta?
Kari ignorou a pergunta.
— O Kai também faz parte da nossa família. Eu, você, e ele... nós temos que ficar juntos. E o Boris — acrescentou.
— O Boris? — o menino tomou um momento para refletir, apesar de não ter objeções.
Ela assentiu. — Há espaço para todo mundo, não há?
Yuri não se deu ao trabalho de responder. Limitou-se a puxá-la para um abraço, apertado e repentino, completamente necessitado. Um abraço para lembrá-lo dos velhos tempos, onde tudo o que importava era ela, e ele. Onde o mundo era pequeno e estupidamente aconchegante. Onde apenas existia eles, e uma cama, talvez uma história para dormir. Um mundo totalmente descomplicado.
Espaço para todo mundo – não! Devia ter espaço só para ele! Devia ser assim, para sempre. Por que as pessoas queriam tanto assim roubar o que era seu? Kari era sua. Sempre tinha sido. Ele tinha sido o motivo da sua estadia naquele colégio, tinha que continuar sendo. Não queria Boris, nem Kai. Só a Kari.
No entanto, as coisas não podiam ser desse jeito, sabia. Na vida que levavam atualmente, existia, de fato Kai. Existia também o Boris. A ideia de dividi-la com eles era assustadora por si só, mas não tão mais assustadora quanto dividir a eles com ela.
Quando se tinham tornado tão dependentes, afinal?
— Eu ainda tenho que ser o mais importante para você — resmungou contra o ombro dela.
— Hm. Eu ainda sou o mais importante para você, não sou?
— Hm — respondeu ele por fim, apertando-a ainda mais nos magros braços. — Sim, você é.
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Boris surpreendeu-se quando uma pequena figura apareceu diante de si, na biblioteca, balançando um saco de doces no nível dos seus olhos. Olhou para cima. Kari sorria de um jeito acanhado.
— Você ficou com o papel do rei. Parabéns.
— Você também, não é? — ela sentou-se na poltrona ao seu lado. — Com o papel da princesa. Aquelas garotas devem estar furiosas contigo agora.
Ela encolheu os ombros, sem deixar de sorrir.
— Perdoe-me — disse a garotinha num tom envergonhado. — Eu sempre te causo problemas. Sei que me acha uma idiota.
— Eu realmente te acho uma idiota — o mais velho suspirou, inconscientemente afagando-lhe os cabelos. — Mas isso não importa mais. Não ande mais com aquelas garotas. Ande comigo. Comigo, com o teu primo e com o teu irmão, que não deixaremos que elas te façam mal.
— Obrigada.
Boris corou. Ao se aperceber disso, virou rapidamente a cabeça em outra direção.
— Não quero que pense que vou pegar leve com você por conta disso.
— Certo — mas ela sorria.
— Mas que inferno... venha — ele capturou-lhe a mão sem gentileza alguma. — Não podemos comer esses doces aqui na biblioteca.
Os doces no armário assombraram Boris e Kari por muito tempo, enquanto os dois cresciam e iam aprendendo aos poucos sobre a vida, a escola, as pessoas e a patinagem. Chegou o dia em que Kari não aceitava mais comer doces, mas que ficava ao seu lado, falando sobre coisas que, por algum motivo mórbido, lhe interessava. Boris um dia se pegou perguntando quando, pelos céus, se tornou num deles. Uma unidade que consistia em quatro jovens excêntricos e problemáticos, assunto na Abadia. E, sendo ainda muito jovem, viu-se querendo voltar atrás, porque não tinha como aquilo ser bom. Estava se tornando dependente também, necessitado também, da companhia deles, da presença deles.
Só que quando finalmente compreendeu isso era tarde demais, porque já não estava se importando. Aceitou se tornar um deles. E nunca mais se lembrou que um dia esteve só.
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N/A: Bom, acho que está na hora de dizer "tchau" para os nossos meninos fofinhos e abraçar a fase aborrecente que está por vir. Sobre Unidade, o capítulo foi completamente controlado por Boris, na minha opinião; ele tem ganhado vida e dominado a história. As partes dele escrevem-se sozinhas, juro. Espero que vocês tem gostado, galerinha, super beijo e até o capítulo 7.
