Capítulo 7. Pressão

O primeiro campeonato dos cadetes seria em uma semana. Boris retirou o papel do quadro de exposição e ficou por um bom tempo fitando o próprio nome como se aquilo fosse mudar, de alguma forma. Estrelando Kai Hiwatari, Yuri Ivanov, Boris Kuztenov e Yekaterina Ivanov.

Os quatro já eram vistos como os mais promissores da academia.

Considerou. Os desajeitados um metro e oitenta, adquiridos muito recentemente e de uma vez só, fizeram com que mexesse os ombros de um jeito estranho, envergonhado. Boris tinha crescido demais e os treinadores não se calavam com como aquilo era inconveniente. Um patinador artístico não deve ser tão alto! Tampouco forte daquele jeito – e ele, por um momento, teve que se impedir de esconder os próprios braços musculados.

Se você pensar que está derrotado – impediu-se de terminar o mantra, ensinado por ele mas repetido ao googol pelo idiota do Ivanov. O Ivanov que tinha um metro e setenta e cinco, que revezava o segundo e terceiro lugar com ele em todos os torneios, mas que agora era o preferido por causa... Droga! Ele amachucou e rasgou nervosamente o papel. Tinha crescido sim! O que tinha de tão espetacular nisso?!

― E você? Para onde está olhando, imbecil?

O menino – que devia ainda ser da categoria Benjamim – ficou tão assustado que esbarrou no caixote de lixo e caiu. Boris não o ajudou, tampouco os outros estudantes, que procuraram disfarçar os olhares enquanto o lavanda não desaparecia do corredor. Mas os murmúrios eram até óbvios: «Um dos melhores da escola», «Ouvi dizer que a produtividade dele tem caído», «Cresceu», «Ficou desajeitado», «Também! Com pernas daquele tamanho!»...

.

.

Yuri deixou-se esticar sobre o duro chão do ringue, exausto e arfando. Todo o seu corpo encontrava-se dorido e latejava devido às inúmeras quedas, mas pior do que isto era só conseguir ouvir ainda Aleksei gritando. Alma. Aparentemente, ser o melhor patinador técnico da escola não era bastante: estava longe de alcançar ainda aquele nível de magnificência, o tipo que coisa que emociona o auditório. Gemeu. Fora isso, a intricada coreografia exigia um dançarino com asas. Só que ele era um lobo, droga. Jamais voaria.

Com custo, voltou a erguer-se. Formando a figura elegante e feroz do animal que o apelidava. Um axel duplo perfeito, seguido de um salto isolado picado simples, os passos da coreografia um pião invertido e, finalmente... o salto isolado picado trip-

― Ai! ― tinha dado pouco impulso, caramba? Que tinha feito errado desta vez?

Asas – pensou amargamente, tentando apoiar o peso do corpo nos braços a fim de levantar. Alma e asas. Não tinha nada disso. Suspirou ao regressar à realidade e, para seu desespero, para os gritos do seu treinador.

.

.

Descer.

Subir.

Fechar os olhos.

Abrir os olhos.

Não ajudaria. Kari cerrou os punhos em desespero, descendo da balança. O vestiário estava vazio, mas havia barulho – alguma menina não tinha fechado a torneira direito. Olhou para trás, assustada. E a porta?

Fechada. Trancada – ela mesma a tinha trancado. Respirou fundo, tentando acalmar-se. Ploc, ploc, ploc. Subiu na balança novamente.

Não sumiriam fechando os olhos outra vez, Kari tentava convencer-se disso. Mas ela subiu outra vez no aparelho e fechou os olhos. E os abriu.

Suspiro. Desespero.

O seu próprio corpo estava a sabotando? Ridículo. Não precisava disso! Não agora. Não quando estava a um passo de ser reconhecida; a um passo de um objetivo que estava lhe custando três anos.

Céus, seria cortada do programa!

Descer.

Subir.

Fechar os olhos.

Abrir os olhos.

Todas as bailarinas tinham um corpo perfeito sem esforço. E Kari era uma bailarina. O que era isso? Um castigo cósmico por ter abandonado o seu futuro no ballet? Um castigo cósmico por não ser, por não querer ser uma patinadora a cem por cento?

Para o inferno com isso! Precisava participar naquele torneio! Tinha que estar lá! Estaria lá!

Subir, descer, fechar os olhos, abrir os olhos.

― Não... ― um soluço; a testa contra a parede fria de azulejo. Tentou pensar em algo que a Professora Anna diria.

A Professora Anna...

Quem era ela agora?

Ploc, ploc, ploc.

.

.

O barulho do chuveiro naquele momento era algo desconsolador para Kai. Ele tentava não se mover, embora estivesse deitado numa posição extremamente desconfortável há um bom tempo, encarando fixamente a parede do quarto. Os seus músculos estavam todos rijos e doridos e, mesmo que duvidasse que Ian fosse descobrir alguma coisa enquanto tomava distraidamente o seu banho, não conseguiu dispersar a sensação de que a própria respiração pudesse de alguma forma denunciá-lo.

Uma droga, sem dúvida. Para o seu horror, o sonho tinha sido ainda mais vívido daquela vez. Imagem, toque, som... recordava-se de tudo na perfeição, ainda por cima. Dos detalhes... das cores... dos movimentos... E isso tudo o levava acreditar que tinha alguma coisa muito errada com ele. Aliás, até isso era um eufemismo.

Suspirou. Sonhos daquele tipo eram comuns na sua idade, Kai não era nenhum inculto e tinha consciência disso. Mas por que justamente aquela pessoa? Por que sempre aquela pessoa?

A água cessou de escorrer. Ian aparecia, ainda de toalha e com os cabelos molhados, vestindo o uniforme de qualquer jeito.

― Kai, está acordado? Já são horas do café.

Café. Kai cerrou os olhos, querendo inventar uma desculpa, uma doença qualquer que o impedisse de ir lá para fora, sentar-se à mesa, ver...

De qualquer das formas, não era como se alguém fosse se importar muito caso realmente faltasse ao café da manhã ou até mesmo às aulas. A sua fama prosseguia da mesma forma, ele continuava sendo muitas vezes absolvido igual. E lembrar-se disso até fê-lo considerar não sair da cama, vestir a culpa e o sentimento nauseante como se tratasse de uma doença verdadeira. Aliás, ninguém garantia que não o fosse.

― Já vou ― disse, ao invés, convencendo-se de que não era hora de arranjar novos problemas. ― Já vou.

.

.

― Não posso ir, Kari. Não tenho tempo para isso.

A pequena Ivanov soltou um suspiro desesperado. Incerta sobre o que fazer, as revistas sobre dietas tinham sido a única ideia mais ou menos decente que se aflorara na sua mente nas últimas horas. Ela olhou suplicante para o irmão, enquanto ele limpava o suor e encarava vagamente o ringue.

― Por favor, Yuri. Sabe que não posso sair da escola enquanto não fizer catorze anos também.

― Não vou interromper o meu treino para comprar revistas de menina. Só temos uma semana até o torneio.

― Justamente por isso! É importante!

― Sinto muito. Peça a alguém que não precise treinar, como o Kai, por exemplo. Eu estou ocupado.

Kari observou o chão por alguns instantes. O seu estômago estava esquisito e esquisito ficaria enquanto não solucionasse aquele problema. Assustou-se ao sentir a mão de alguém sobre o seu ombro.

― Por que está aqui sozinha, Kari?

Yuri já tinha voltado para o ringue, onde rodopiava de maneira quase sádica.

― Boris... olha, você pode me fazer um favor?

O liláceo limitou-se a mandar-lhe um olhar curioso.

Kai começava a reparar que Kari e Boris estavam sempre juntos. Ele curvou-se para apertar os patins, brutalmente batendo-os contra o solo sem razão aparente. Era algo como um íman, como se um atraísse a companhia um do outro. Provavelmente algo bom para ambos, mas principalmente para Boris. Afinal, sendo alegadamente subestimado pelo bicolor e partilhando uma amizade altamente competitiva com Yuri, não era de se admirar que ele precisasse de um salvador. Alguém que o fizesse respirar e rir de besteiras.

A realização importunou-o, mas não mais do que o motivo para importuná-lo: ao contrário de Boris, Kai não tinha crescido grande coisa nos últimos anos. Continuava com um metro e sessenta e oito, uma altura risível para meros mortais, mas muito importante para os patinadores. A altura tornava-o o parceiro ideal de Kari: daí não poucas vezes a pirralha arrastá-lo para o ringue a fim de treinar passos que ela já sabia naturalmente ("Treine comigo, Kai!", "Você prometeu que seria o meu príncipe", "Sou tudo o que você tem", "Não é como se quisesse estar em outro lado"). Desculpas esfarrapadas. Olhando para o casal que se afastava sem dar por sua presença, Kai verificou que estavam os dois abusando delas ultimamente.

.

.

― Eu não entendo garotas... o que este cara tem de tão especial?

Kari não respondeu, enquanto Boris parecia analisar detalhes microscópicos do novo colírio da revista teen. Encolhida, como habitualmente, entre Boris e uma pilha de lenha (além de outra pilha de revistas para mulheres), folheava rapidamente até o meio da revista até encontrar o ansiado artigo. Dieta de três dias. Mordeu o lábio – até isso era muito.

― Por que está vendo coisas do tipo? ― ela fechou a revista na hora, para a surpresa do lavanda. ― Kari...

― Não é nada! Eu estava procurando outra coisa.

― O artigo de como mentir melhor?

― Engordei dois quilos ― despejou, tocando-lhe os joelhos e olhando-o nos olhos com desespero. ― Só falta uma semana. Se antes do teste eu não recuperar o meu peso original, eles irão me cortar do programa, Boris.

― Mais alguém sabe?

― Não ando me gabando por aí que estou pesando tanto quanto uma porca.

― Não seja ridícula. Você está bem do jeito que está.

― Você está perfeito do jeito que está, mas por que tenta parecer mais baixo do que é?

Boris a encarou.

― Talvez você não saiba, mas garotas gostam de rapazes altos. Já baleias...

― Kari, você não está gor-

― De qualquer das formas, eu não conto se você não contar.

O liláceo soltou um derrotado suspiro ao enganchar o seu mindinho no de Kari.

.

.

Petrov Sergei definitivamente não era uma boa companhia. Todos da Abadia sabia das coisas que ele fazia, as coisas com que mexia. Como muitos, tinha uma história trágica, pais divorciados e negligentes, via no esporte uma fuga do desastre familiar. Isso é, até completar os seus catorze anos, aventurar-se na fria e perigosa cidade de S. Petersburgo e encontrar gente muito pouco confiável, que, no seu dizer, eram seus "comparsas". A sua fuga agora era outra, muito pouco saudável, porém, lucrativa. Ele sorriu ao passar o saco de papel para o ruivo.

― Você entendeu o que eu disse, não entendeu, Ivanov?

Yuri acenou com descaso, entregando o maço de notas e olhando para dentro do saco. Finalmente encontrara as suas asas.

.

.

Boris olhou-se ao espelho, procurando alguma coisa de anormal. Os seus cabelos tinham uma cor estupidamente incomum, assim como os seus olhos, só que não era isso. Ele era um rapaz que praticamente não tinha família, que patinava porque era a única coisa que sabia fazer. E ele era um patinador com um estúpido um metro e oitenta.

Perfeito. Murmurou para si mesmo, antes de engolir em seco e sair do balneário, rumo ao ringue. Eu sou perfeito.

Mais tarde naquele dia, Boris conseguiu comprovar a teoria de Kari: garotas realmente gostam de rapazes altos.

.

.

Kari fechou a torneira e encarou-se no espelho. Viu uma patinadora e não uma bailarina.

Ela ainda queria ver uma bailarina.

.

.

.

N/A: "Desculpem o atraso, eu me perdi nos caminhos da vida" – Kakashi.