Capítulo 38: O Velho Capitão

- Só a mim! – Lara exclamou, sentindo uma onda de exaustão e pânico alcançá-la. Andavam há já quinze minutos por entre a floresta densa da ilha. Bootstrap aconselhara a que passassem longe do pequeno aglomerado populacional. – Mas eles não podem ter sido levados para lá?

- Não me parece. O Pearl está ancorado na zona mais remota da ilha. – Bootstrap explicou. – O que quer que seja, não foram os colonos.

- Você disse que em determinada altura do ano, em noite de lua cheia... – Lara olhou para a chama da tocha e engoliu em seco. – Você e Will vêm coisas que mais ninguém vê. Não faz mesmo ideia do que seja?

- Se eu soubesse, já lhe teria dito. – o velho marinheiro olhou Lara.

- Para fazer desertar toda a minha tripulação... – Lara abanou a cabeça.

- Não creio que eles simplesmente desertassem. – Bootstrap falou em voz baixa, antes de mandar parar Lara.

- Algum problema? – Lara colocou a mão na pistola ao ver Bootstrap agachar-se.

- Pegadas. – este disse ao iluminar o chão lamacento. Uma pegada de bota era ainda bem visível.

- Estamos no caminho certo. – Lara sorriu.

Com o dobro da precaução, os dois piratas caminharam por entre a vegetação que lhe dificultava o andar. De vez em quando as pegadas desapareciam, para logo surgirem metros adiante.

- É rastro de uma só pessoa. – Bootstrap avisou, ao analisar uma folha partida no caule.

- Será que alguém escapou? Algum dos meus homens pode ter fugido. E perdeu-se nesta escuridão. – Lara observou.

A pergunta acabou por ficar em suspenso. Um barulho de vegetação abanando colocou os dois piratas de sobressalto, sacando ambos das armas que dispunham.

- Cubra-me. – Bootstrap disse, ao que Lara acedeu prontamente, colocando-se atrás do imediato do Holandês, enquanto iluminava todos os cantos com a tocha e na outra mão segurava a pistola engatilhada.

Como uma sombra desengonçada, os dois piratas viram um vulto vir na direcção de ambos. O luar deixava distinguir uma forma humana, andando cambaleante e tendo ares de ostentar um grande chapéu.

- Quem está aí? – Lara berrou, apontando a arma ao desconhecido. – Mostre-se!

A figura pareceu não ligar à voz ameaçadora de Lara, continuando no seu passo desengonçado. Bootstrap decidiu não esperar mais, disparando um tiro na direcção do desconhecido, não lhe acertando no pé por milímetros.

- IRRA! UMA PESSOA NÃO PODE CONTAR OS SEUS PRÓPRIOS PASSOS SEM LEVAR UM TIRO? – o desconhecido falou em voz alta. Lara teve a sensação de já conhecer aquela voz, mas a cautela era maior. Lentamente, Bootstrap caminhou até à estranha figura, iluminando-o com a tocha.

- Own, não sabia que era você! – Bootstrap exclamou num tom de desculpa.

- Mas que... – quando Lara se aproximou e deu de caras com o desconhecido, a verdade estampou-se na sua face. O chapéu espampanante decorado com compridas penas, as rastas castanhas acompanhadas de imensos dreadlocks, a barba no estilo típico que Lara conhecia, o casaco vermelho debroado a dourado. Lara não teve dúvidas de quem se tratava. E muito menos teve ao desejar ardentemente que aquele com quem partilhava a vida não ficasse naquela figura depois dos cinquenta. – Capitão Teague?

- Aye. – Teague sorriu no mesmo estilo que Jack. – O que é que tu, Bootstrap Bill Turner e você, minha cara nora, estão aqui a fazer?

- No...ra? – Lara abriu a boca. – Como... como sabe que eu sou...

- Lara Stevens, aquela por quem o meu filho perdeu a cabeça. Mãe da última descendente dos Sparrow's. Como eu não haveria de saber, filha? – Teague sorriu mais uma vez na sua voz arrastada.

- Mas... – Lara começou a divagar.

- O Jackie nunca me disse. É bem verdade. Mas eu tenho as minhas fontes. – Teague explicou. – Agora, o que vocês andam por aqui a fazer?

- A tripulação do Pearl desapareceu. – Bootstrap disse.

- Jackie metendo-se novamente em confusão?

- O Jack nem aqui está. – Lara disse, fazendo o velho capitão levantar o sobrolho. – Na verdade andamos atrás dele. Uma história longa. O que é certo é que eu acordei e quando vi, toda a minha tripulação desaparecera. Aí, o Bill contou a história de que uns seres vivem aqui e...

- Está a falar disto? – Teague colocou algo na frente dos olhos de Lara, fazendo-a dar um salto.

- O que é isso? – Lara perguntou assustada, olhando aquilo que lhe parecia um rabo de peixe esverdeado. A única diferença? Um enorme espigão saía do meio das barbatanas.

- Aquilo que provavelmente levou a sua tripulação. – Teague explicou.

- Como conseguiu apanhar um? – Bootstrap perguntou quando o mais idoso começou a caminhar pela floresta adentro.

- A minha tripulação foi comida por eles. – disse calmamente.

- Comida? – Lara arregalou os olhos.

- Aye. Comida, digerida, engolida, devorada... o que quiser.

- Você foi o único que sobreviveu?

- Estava a dormir. Quando dei por ela todos os energúmenos da minha tripulação tinham desaparecido.

- Tal como a mim. – Lara pensou alto.

- Vim atrás deles e cheguei a tempo de ver isto embrenhar-se na floresta. Consegui cortar a cauda do bicho, ouvi um grito estridente e nunca mais soube de alguém. – Teague explicou.

- Estava de passagem por aqui? – Lara tornou a perguntar.

- Não. Ando atrás de um tesouro. – Teague disse, apontando para um cenário mais à frente. – Que o nosso caro colega Kidd, deixou por aí.

- O tesouro do Capitão Kidd? – Lara perguntou. Lembrava-se muito bem da história do pirata britânico que saqueara os mares no século XVII e se não se enganava, ninguém tinha achado esse dito tesouro até ao século XXI. – Já experimentou descer até à caverna, onde dizem que ele o escondeu?

- Já percorri quase todos os lugares possíveis durante estes dias. Nada de nada. – Teague explicou. – Agora, se andam atrás dos ditos seres que mataram a minha tripulação e estão preparados para o fazerem com a sua, acho bem seguirmos.

Lara engoliu novamente em seco. Teague Sparrow tinha exactamente o mesmo andar que Jack. Ou seria o contrário? O que é certo, é que dentro de si Lara sentia uma enorme confiança naquele pirata. Sabia muito bem que Teague era uma raridade. Um dos últimos grandes piratas. Tão escorregadio como uma enguia e que escapara de perigos inimagináveis. Jack nunca falava do seu pai, mas Lara sabia que por muita mágoa que existisse entre os dois, Jack idolatrava o seu progenitor.

- O que é aquilo ali à frente? – Bootstrap perguntou. Iluminada pelo luar, da clareira surgiam imponentes, quatro colunas. Lara distinguiu aspectos greco romanos na base e capitel, mas como abraçando a coluna, pode perceber que esta decorada com seres pavorosos. Serpentes que se entrelaçavam, ameaçando quem se aproximasse.

- Que lugar é este? – Lara perguntou, iluminando o pequeno monumento.

- Aquilo porque andava à procura. – Teague sorriu, apontando para o chão. Aos pés da morena surgia um círculo em pedra. – A minha força já não é o que era.

Lara acusou o toque e juntamente com os dois homens empurrou o grande círculo em pedra. Quando este se moveu, deixando à vista a entrada para um buraco negro, Lara pode sentir o bafo de humidade, fazendo-a ter uma tontura.

- O que quer que sejam, esses asquerosos têm sempre um ninho. – Teague apontou.

- Como é que ninguém lutou contra eles? Esses monstros com rabo de peixe... devem ser horríveis! – Lara exclamou, enquanto Teague pegava num pedaço de madeira e fazia a sua própria tocha.

- Creio que eles deviam estar sob a espécie de um feitiço qualquer. – o velho capitão explicou. – Além do mais eles abandonaram o navio a nado.

Lara ficou breves segundos completamente estática, vendo Teague desaparecer à sua frente. Sentia um nó formar-se na sua garganta. Por instantes, quase esqueceu Jack e Mary, devido à preocupação que a assolava quando pensava em Alicia e Grace. Estariam vivas? Toda a sua cabeça parecia explodir.

Às escadas íngremes em pedra, seguiu-se um túnel que não mais parecia ter fim. Com Teague na frente e o velho Bill atrás, Lara sentia uma náusea cada vez mais forte tomar conta de si cada vez que se deparava com as gigantescas teias de aranhas ou quando as suas botas se misturavam com o muco viscoso que preenchia o chão.

- Lara... – Bootstrap chamou a morena. – Julgo que conhece isto.

- Oh meu Deus. – Lara sussurrou quando Bootstrap lhe colocara nas mãos o que achara no chão. Passou o dedo pelo pingente amarrado ao fio de ouro. Uma sereia dourada com a cauda cravejada de brilhantes verdes. – O colar da Alicia.

- Ela está bem, tenho a certeza. – Bootstrap sorriu fraco, mas não melhorou o estado de Lara.

Continuaram a caminhar até chegarem a um ponto onde o túnel se alargava consideravelmente. O som das gotas de água a cair das inúmeras estalactites confirmavam bem o arrepio que Lara sentiu. A temperatura tinha caído vertiginosamente.

- Eu não estou a gostar nada disto. – Lara disse, engolindo em seco. As próprias sombras projectadas nas paredes rugosas pelas chamas das tochas, só a faziam lembrar do inferno que passara na Ilha de Páscoa.

- Celas? – Bootstrap perguntou, quando reparou nos gradeamentos que substituíam a parede, dando acesso a pequenos nichos escavados.

- Porque esses seres iriam ter uma prisão aqui em baixo? – Lara perguntou.

- Talvez para guardarem a sobremesa. – Teague respondeu, mas o seu tom não demonstrava divertimento. – E eis a Rainha dos Piratas!

Teague iluminou o interior de uma das celas, permitindo que os outros dois distinguissem uma figura feminina deitada no chão. Os cabelos loiros não deixavam ver o rosto, mas Lara soube imediatamente de quem se tratava.

- Elizabeth! – exclamou, preparando-se para dar um tiro no cadeado.

- Não. – Teague impediu-a. – Não queremos atrair nada agora. – com a coronha da pistola conseguiu partir o cadeado, deixando Lara passar.

- Elizabeth. – Lara agachou-se junto da loira, afastando os cabelos do rosto desta e medindo-lhe a pulsação. – Está viva. Lizzie fala comigo.

- Ah...a – Elizabeth abriu os olhos a custo, tentando distinguir as figuras que a miravam iluminadas por fogo. – La...ra?

- Sim sou eu. O que aconteceu? – Lara ajudou Elizabeth a sentar-se. – Quando eu acordei, todos vocês tinham abandonado o navio!

- Abandona...do? – Elizabeth levou as mãos à cabeça. – Eu não... não me lembro de nada. Apenas... – a loira fazia um esforço para tentar colocar as lembranças em ordem, mas tudo não passava de imagens trémulas. – O James. Eu... estava com ele. Eu lembro-me disso. Depois algo atingiu a minha cabeça e aqui estou eu.

- Tudo bem. – Lara tentou parecer calma. – E a Alicia, sabes onde ela está?

- Ela... Não, não sei. – Elizabeth disse. – Achas que lhe aconteceu algo grave?

- Aqui! – Teague exclamou ao que Bootstrap acedeu prontamente.

- É melhor eu ir ver.

- Eu vou também. – Elizabeth disse.

- Não. Fica aqui. Estás demasiado fraca. – Lara pediu, deixando a loira sentada no meio da cela. Ao chegar ao túnel, os velhos piratas partiam já outro cadeado.

- Quem é? – Lara perguntou.

- A senhora Grace. – Bootstrap confirmou.

- Oh Grace! – Lara entrou como um furacão, vendo a mais velha sendo amparada por Teague. Parecia meia grogue, mas mais desperta que Elizabeth.

- Minha menina! – Grace exclamou aos soluços, abraçando-se a Lara. – Pensei que nunca mais a ia ver!

- Agora está tudo bem! – Lara exclamou. – Já encontramos a Elizabeth e...

- A menina Alicia! – Grace gritou. – Ela está para aí! Eu ouvi os gritos dela, pedindo socorro. Mas estava demasiado fraca. Só me lembro de estar no porão do Pearl e de repente tudo ficou escuro. – Grace explicou. – E agora tenho uma valente dor de cabeça!

- Parece que alguém as apagou por completo. – Teague disse.

- E quem é este? – Grace perguntou desconfiada.

- Capitão Teague ao seu dispôr. – o pai de Jack Sparrow apresentou-se com um sorriso.

Lara ouviu um barulho de metal a partir-se. Quando virou a cara, já Bill Turner trazia alguém nos braços.

- Alicia! – Lara exclamou, quando o sogro desta a depositou no chão frio. Alicia encontrava-se desmaiada. – Céus, acorda rapariga!

- Se ela também levou com algo na cabeça, ela não vai acordar tão cedo! – Elizabeth exclamou, arrastando-se até à cela de Grace.

- Muito bem. Nenhuma de vocês sabe onde os outros se meteram, pois não? – Lara perguntou, erguendo-se.

- Se eu soubesse já te teria dito! – Elizabeth exclamou. – O que aconteceu com o James? – perguntou quase num sussurro.

- As outras celas estão vazias. – Bootstrap confirmou.

- Talvez já tenham servido de... – Teague falou, mas Lara colocou uma mão no ar.

- Eles não foram comidos! – exclamou em desespero.

- Como assim? – Grace arregalou os olhos.

- O Capitão Teague diz que o mesmo que nos aconteceu, sucedeu com a tripulação dele. E também ele foi deixado para trás, como eu. – Lara explicou. – Mas como tem tanta certeza que a sua tripulação foi devorada?

- Para que é que serviria uma pilha de ossos completamente desmanchados, incompletos e com marcas de brutalidade gratuita, numa vala a poucos metros daqui? – Teague perguntou, vendo os quatro piratas engolirem em seco.

- Eu vou atrás deles. – Lara caminhou para o túnel. – A algum sítio isto vai dar.

- Eu vou contigo. – Elizabeth disse, sentindo-se recomposta.

- Ainda não estás bem.

- Ai isso é que estou. – Elizabeth insistiu.

- Muito bem. Bill fica com a Alicia e a Grace. Dá uma das tuas armas à Elizabeth. – Lara pediu, ao que este acedeu prontamente, passando a sua espada a Elizabeth. – Se demorarmos, e a Alicia não acordar, volta imediatamente para os navios. Eu não vos quero aqui. – disse olhando para Grace.

- Eu também irei com vocês. – Teague deu um passo em frente.

- Não precisa. A tripulação é minha e...

- Quem sabe se algum dos meus homens não estará vivo? – Teague perguntou. – Além do mais... é o máximo que eu posso fazer pelo Jackie. Proteger a família dele... quando eu não protegi a minha.

A conversa cessou por ali. Durante aquilo que lhe parecera uma eternidade, Lara e os restantes caminharam por um túnel sem fim, enquanto o receio pelo desconhecido ia-se tornando cada vez maior.

- Ele estava esquisito. – Elizabeth falou para si.

- Como?

- O James. Nessa noite. – Elizabeth explicou. – Quando te recolheste e avistamos Fernando de Noronha, o James estava esquisito. Ele só dizia que tinha um mau pressentimento. Quando eu lhe perguntei se não era melhor continuarmos viagem ele apenas respondeu... não posso.

- Achas que ele teve alguma coisa a ver com isto? – Lara arqueou o sobrolho.

- Não. Mas que está relacionado com aquilo que ele diz que viu há mais de uma semana, ai isso está.

- Desculpa.

- Pelo quê? – foi a vez de Lizzie arquear o sobrolho.

- Por ter ignorado os avisos do Norrington. Mas eu andava tão...

- Não precisas. Eu sei. Todos sabem o quanto estás a sofrer por causa do desaparecimento deles. – Elizabeth sorriu.

- Por aqui. – Teague chamou-as, pedindo que se escondessem num amontoado de rochas. Os três espreitaram para algo que iluminava o cenário seguinte.

Mais à frente, um lago reflectia a luz da lua cheia. À sua volta, inúmeras tochas e mesas faziam lembrar um cenário de banquete. E era isso mesmo que acontecia. Dezenas de homens fartavam-se com comida e bebida acompanhados de belas moças de vestidos finos e quase transparentes.

- Mas que... – Elizabeth abriu a boca de escândalo quando reconheceu que aquela era, a tripulação do Black Pearl. – Nós presas e eles a divertirem-se?

- Eles não me parecem muito animados. – Teague coçou a barba.

- Como assim? – Elizabeth não conseguia conter a raiva. – Olha o James! Deliciado com aquela loira!

Lara não respondeu. Os seus olhos estavam fixos numa mulher ruiva que beijava Darius. O seu sangue estava a ponto de fervilhar. "Ok, acalma-te Lara Sparrow. Ele não é o Jack. Porque se fosse eu já tinha decapitado os dois." Mas não era Jack e Lara estava em ebulição. "Mayara, se estás dentro de mim, acalma-te pelo amor de Deus!"

- O que fazemos? – Lara perguntou com os dentes cerrados.

- Disparamos e matamos todos. – Elizabeth disse.

- Senhoras... acalmem-se. – Teague respondeu. – Quer me parecer que eles estão sobre qualquer feitiço. Senão vejamos: das jarras escorre aquilo que eu tenho certeza ser água. Se fosse água, porque raio eles se comportam como se estivessem completamente encharcados em rum?

- Verdade. – as duas mulheres observaram melhor.

- Segundo, vejam bem as mulheres. Esbeltas como nunca se viu. Quando é que aquele bando de paralíticos iria conquistas beldades assim?

- É... – Lara engoliu em seco. Havia alguém ali no meio que deixava todas as beldades de quatro.

- Por último: como é que eles sabem os nomes delas? – Teague perguntou e deixou as duas mulheres de cara à banda. – Estão a ver aquele marujo ali?

- O Gibbs? – Lara perguntou.

- Eu conheço-o desde que o Jackie era pequeno. E uma das suas funções sempre foi protegê-lo!

- Por isso ele sempre foi fiel ao Jack. – Lara constatou de olhos arregalados.

- O Joshamee Gibbs só teve um único amor na vida dele. Quando era jovem. Uma linda rapariga chamada Lauren. – Teague sorriu. – Sinceramente, não acho que aquela beldade de cabelo castanho se chame Lauren, mas ele chamou-a assim.

- Quer dizer, que eles estão a ver aquelas que amam? – Elizabeth engoliu em seco. Na sua mente só fluía a constatação de que a mulher no colo de James era loira como ela própria.

- Faz sentido. – Lara compreendeu. – Olha o Raguetti. Lembras-te que ele tinha uma paixão pela Calipso? A mulher com ele é mulata.

- Eu disse. – Teague abanou a cabeça.

- Porque raio a mulher que está com o Darius é ruiva? – Elizabeth arqueou as sobrancelhas. – A Mayara era igual a ti. E tu tens cabelo castanho.

Lara ficou pensativa. Mas tinha de resolver de vez aquela situação. Era a sua tripulação que estava em jogo. Era a vida de Jack e Mary que dependia de si, algures neste Mundo.

- Como é que os vamos atacar? – Lara perguntou. – Eles não parecem estar no juízo perfeito e aquelas asquerosas não passam de mulheres quase nuas!

- Eu acho que elas não são tão inofensivas assim. – Teague disse, levantando-se. – Deixem comigo.

Lara e Elizabeth viram o velho capitão caminhar na direcção do banquete. Dentro de si, rezavam para qual fosse o plano daquele doido, este desse certo.

- Ora bem, ora bem! – Teague exclamou alto, atraindo a atenção das belas mulheres, mas não fazendo a menor mossa nos homens. – Tão grande banquete este que decorre. Sinto-me deveras desapontado em não ter sido convidado.

- Tal pai, tal filho. – Lara levou as mãos à cara.

- Há sempre lugar para mais um! – a voz suave de uma das mulheres exclamou. Alta, loira como o sol e com os olhos brilhantes como fogo, chegou-se até Teague mas este contornou-a.

- Espero bem que sim. – Teague respondeu. – Mas sabem, porque não preferem fazer esta festança lá fora? Ou então, porque não mandam esses esquisitóides dar uma volta?

- Quando ele der o sinal. – Elizabeth sussurrou, colocando a mão na espada.

- Porquê? – outra mulher, a que anteriormente estava com Gibbs aproximou-se. – Quer o exclusivo para si?

- Nossa, eu não sou tão egoísta assim! – Teague exclamou. – Mas enfim, se não pode ser… Sinto muito, mas vou ter de acabar com o vosso simpático bacanal.

- Você? Um homem sozinho? – a primeira riu, fazendo todos rirem-se.

- Sabem... – Teague deu um passo atrás. – Nunca se deve sobrestimar o valor de um homem! – o estalar de dedos foi entendido pelas duas mulheres.

Lara disparou na direcção de uma jarra em cristal, fazendo-a estalar em mil pedaços e assustando as mulheres. Elizabeth empunhou a espada que Bill lhe dera.

- Vim reclamar a minha tripulação, que tão deslealmente vocês me roubaram! – Lara exclamou.

- Roubámos? – a mulher loira perguntou. – Ora, que eu saiba eles estão aqui de livre vontade! – num ápice, ao passar a mão pelo rosto de um dos marujos, meia dúzia deles levantaram-se, empunhando as armas em direcção aos três piratas. – Matem-nos!

Lara ficou confusa. Eram os seus próprios homens que a atacavam. Mas nada podia fazer contra isso. Um deles investiu contra si, ao que Lara respondeu com golpes de espada.

- Por favor, tente não matar ninguém! – Lara gritou para Teague. – Eu preciso deles vivos!

- Uma boa altura para pensar nisso, já que eles não hesitaram em matá-la. – Teague respondeu, dando com a pistola na cabeça de Pintel, deixando este desacordado.

- Lara, eles estão caminhando na nossa direcção! Não vamos conseguir vencê-los. – Elizabeth constatou, lutando com um dos piratas.

- ALGUÉM CHAMOU REFORÇOS? – a voz de Bootstrap soou e os três piratas viram com satisfação a tripulação de Will surgir.

- Nada como piratas imortais para colocarem estes homens na ordem! – Lara exclamou. – Por favor Bill. Diz-lhes que não podem matar os meus homens.

- Eles vão fazer de tudo para que isso não aconteça. – Bootstrap relaxou-a.

As mulheres tinham-se afastado, vendo a luta desenrolar-se. Quando perceberam que alguns piratas iam ficando desmaiados, permitiram que a última vaga de homens atacasse os restantes.

- Ah não! – Elizabeth exclamou desgostosa, quando viu que James a confrontava. – Sou eu James! A Elizabeth. Não me podes matar.

- Sinto muito em lhe dizer, senhorita… - James olhou a sua própria espada. – Esse é um pedido recusado.

Elizabeth não teve outro remédio senão travar uma luta de espada contra James Norrington, rezando para que a perícia deste não a matasse, nem o contrário se sucedesse.

- Pronto Gibbs! Assim vais ficar melhor. – Lara disse esbaforida, quando acabara de fazer o mestre do Pearl perder os sentidos. Mas no mesmo instante sentiu uma lâmina roçar o seu pescoço, acompanhada por dois braços que a rodearam.

- É muito mau, tentar acabar com eles. Nem sabe como elas estão carentes. – uma voz soou no seu ouvido.

- Darius… - Lara disse, reconhecendo-o. – Não vai querer matar-me.

- E porque não? – Darius perguntou completamente enfeitiçado.

- Porque tu não serias capaz de me matar, Darius. – Lara disse, fazendo o grego voltá-la para si. Os olhos claros deste estavam mais brilhantes que nunca.

- Não vejo razão para não cortar o seu pescoço. – Darius disse, mas Lara afastou lentamente a lâmina de si.

- Não, Darius. – Lara pediu em tom de súplica. Estava em desvantagem e bastaria um golpe para este acabar com ela. – Tu sabes quem eu sou. Não me podes matar. – a morena tentava convencê-lo ao mesmo tempo que lhe acariciava o rosto. Poderia estar errada, mas sentia este ficar confuso.

- E porque não a poderia matar? – Darius disse, sentindo-se tentando a aproximar os seus lábios aos da morena.

- Porque tu amas a Mayara. – Lara lhe disse ao ouvido. – E és a pessoa mais justa e humana que conheci, Darius!

Lara tentou chamá-lo à razão. Ao princípio, este apenas ficou estático, como se processasse as palavras lentamente. Lara respirou fundo. Percebia que os piratas que tinham ficado inconscientes não mais se mexeram. Talvez isso resultasse, mas como fazê-lo funcionar com Darius?

- Que se dane! – Lara exclamou suspirando. Só esperava que Jack lhe perdoasse mais uma vez. Mesmo não tendo remédio. Num fôlego colou os seus lábios aos de Darius. Não se deu ao luxo de processar a informação, já que não deu tempo a que o beijo se prolongasse.

- Lara? – Darius arregalou os olhos. – Porque raio é que me...

- Óptimo! – Lara sorriu percebendo que o seu gesto não fora em vão. – É bom ter-te de volta, mas agora trata de me ajudar com esta trapalhada.

Darius abanou a cabeça tentando compreender mas depressa percebeu que a própria tripulação o atacava.

- Elizabeth! – Lara berrou vendo esta se debatendo com James.

- Será que me podem dar uma ajuda aqui? – Lizzie gritou desesperada, desviando-se de um golpe de Norrington.

- Não é preciso. Basta abrires os olhos do James. – Lara disse. – Faz ele voltar à realidade.

- Como assim? – Elizabeth arregalou os olhos.

- Beija-o. – Lara piscou o olho.

- O QUÊ? – Elizabeth berrou. Não podia fazer isso. Não seria justo consigo nem com James. E muito menos com a memória de Thomas. Lara só podia estar louca. Num golpe certeiro, James derrubou-a no chão, agachando-se sorrindo.

- Parece que perdeu a batalha, menina! – o ex-comodoro sorriu triunfante.

- Ai isso é o que pensas! – Lizzie exclamou e sem pensar duas vezes beijou James. Era só um toque de lábios, nada mais. Mas o beijo prolongou-se mais do que deveria e quando finalmente se separaram, Lizzie estava sem fôlego.

- Elizabeth... Por Deus, perdoe-me. – James Norrington estava tão confuso como uma barata desorientada.

- Não. Não precisa de... – Elizabeth respirou fundo. – Esqueça isto.

- Parece que o vosso feitiço chegou ao fim. – Lara falou em direcção das mulheres que permaneciam serenas. – Já sabemos as duas maneiras de acabar com ele.

A loira nada disse, fazendo apenas um gesto para as outras. No mesmo instante mergulharam no lago iluminado pela Lua, desaparecendo da vista de todos.

- Foram-se? – Bootstrap perguntou.

- Ai a minha cabeça. – Raguetti queixou-se.

- Levem os mais tontos daqui para fora. – Lara rolou os olhos. – Agora, Mr. Norrington, queira explicar porque nos meteu nesta trapalhada.

- Eu não faço a mínima ideia... – James não acabou de falar, pois do lago surgiam aquilo que os piratas horrorizados constataram ser serpentes. Gigantescas serpentes de olhos postos neles. A boca decorada com dentes pontiagudos era acompanhada por uma cauda, em formato de rabo de peixe com um espigão no meio.

- Agora sempre percebe porque lhe chamam rabo-de-peixe? – Teague perguntou.

- Está na hora. – Lara engoliu em seco. – Hora de FUGIR!

Os piratas, mesmo os mais zonzos, trataram de se fazer à vida, acotovelando-se para a saída da gruta. Os três últimos não tiveram tanta sorte. Os seus gritos foram ouvidos por todos, enquanto corriam para saírem o mais rapidamente do túnel.

- Por aqui. – Lara indicou a saída, subindo as escadas que davam acesso às quatro colunas no exterior.

- Não ouço nada. Talvez tenham desistido. – Elizabeth disse.

- Não fique tão convencida assim. – Darius disse. – Aquilo ali não desiste tão facilmente.

- Sabe o que elas são? – Lara perguntou, enquanto faziam o caminho de volta por entre a floresta densa.

- Mais ou menos. – Darius disse. – Uma lenda relacionada contava que existiria uma ilha para lá dos limites da Atlântida. Nela habitariam belas mulheres que com os seus encantos seduziriam os homens, fazendo-se passar por quem eles amavam. Mas na sua forma elas eram serpentes.

- E seduziam-vos para vos comerem? – Lara perguntou.

- Primeiro utilizariam-nos para procriar e depois sim... nos matariam. – Darius concluiu perante o olhar horrorizado de Lara.

- Por isso é que eu, a Alicia e a Grace fomos postas de lado! – Elizabeth exclamou.

Mal chegaram à praia sorriram ao ver os botes que os esperavam, mas sem que contassem, as serpentes romperam a água, rastejando agilmente até terra.

- Daqui não passam, malditas! – Teague berrou, conseguindo cortar a cabeça a uma.

- A elas! – Lara gritou empunhando a espada. No mesmo espaço, os piratas envolveram-se na luta pela sobrevivência.

- AAAAAh! – Raguetti berrou quando uma das serpentes negras o enroscou.

- Ninguém se mete com o meu amigo! – Pintel foi em seu auxílio, decepando a serpente.

Lara notou que a serpente que combatia era muito maior que as restantes, além de possuir duas linhas douradas que percorriam todo o corpo.

- Tu deves ser a asquerosa da chefe, não é? – Lara perguntou. Desviando-se de uma investida do monstro, a morena conseguiu passar por baixo desta, surpreendendo-a e cortando-lhe a cauda que ostentava o perigoso espigão. – Quem é a maior agora?

A serpente enfureceu-se, emitindo um síbilo que lhe torturou os ouvidos. Tentando se afastar, Lara tropeçou num tronco em meio à praia, espalhando-se na areia. Quando se virou, viu que a serpente avançava para si com a boca aberta, os dentes ensaguentados mostrando-lhe o quanto dolorosa seria a sua morte.

Fechou os olhos na iminência do pior, mas só sentiu algo molhar a sua camisa. Quando os abriu viu enojada que esta estava coberta de sangue. Sangue da cabeça que agora repousava ao seu lado. Imediatamente o olhar subiu até ao seu salvador.

- Eu não disse, que tenho de estar sempre protegendo-a? – Darius sorriu. – Só até o Capitão Jack voltar.

No mesmo momento, como morta a sua rainha, as cobras começaram a retirar para o interior da floresta. O seu sibilar medonho era ainda audível quando alcançaram os botes.

- Vamos sair daqui de uma vez. – Lara disse.

- E ele? – Elizabeth fez um gesto com a cabeça na direcção de Teague.

- Capitão Teague? – Lara interrogou-o. – Não será perigoso ficar aqui?

- O meu navio está inoperacional, filha. – Teague sorriu fraco.

- E o meu navio precisa de um capitão. – Lara sorriu. – O seu tesouro pode ficar para uma outra altura. Afinal, eu sei que nem mesmo daqui a 200 anos ele será achado.

- É... O Kidd soube-a fazer bem. – Teague disse. – Se não resta outra alternativa a este velho capitão, toca a embarcar!

Continua...


Oi meus lindos leitores! Aqui vai mais um capítulo. Agora que acabei o curso e estou de férias tenho mais tempo para continuar esta fic! YAY Quanto ao capítulo de hoje, temos o Capitão Teague! Quanto às lendas, acho que todos conhecem a lenda do tesouro do pirata Capitão Kidd em Fernando de Noronha. Quanto à lenda das serpentes eu inventei mesmo.=D

Espero que gostem!

Dupla Marota: Oi Dêh! Nossa sua review me EMOcionou! Você quer cursar egiptologia? Você sabe que eu sou formada em História. É um orgulho pra mim ouvir isso. Eu dei a entender que era mesmo a Angélica. Sabe Dêh, eu abominei a Penélope Cruz e aliás naquele filme eu só não abominei o Jack e o Barbossa. Porque pra mim saiu totalmente fora da linha. E vem aí o 5º... A ver vamos. Espero que goste deste capitulo que ficou grande demais. Bjs!:D

Olg'Austen: Oi amiga! Então este capítulo traz... DARIUSSSSS e companhia. :va: Você disse na última review que adorava a relação Jack/Lara, por favor eu não tentei estragá-la hoje. Apenas a Lara não teve opção. :va: Falou também no quinto elemento e... eu nunca vi o filme. :va: E enfim... você sabe que as suas reviews são óscar para mim. Eu me EMOciono com elas. :emux: Espero que goste deste e me perdoe a situação do Darius. :hebe: Bjs!:D

Yasmin Potter: Oi Yasmin! Que bom receber seu review! Então se o outro cap estava curto, este está grande demais. Mas eu espero que você goste! Bjs!:D

Saudações Piratas! :D

JODIVISE