Capítulo 47: Acordar para a realidade

Um ataque de tosse fora a única coisa que Hector Barbossa sentira depois de estar perdido numa escuridão sem fim. Sentindo os pulmões arderem e a garganta arranhar, o experiente pirata se levantou de sopetão, sentindo a cabeça latejar de tal forma que parecia que se tinha rachado em dois. Tossindo violentamente, Barbossa se encostara à parede rugosa daquele lugar, percebendo agora todo seu corpo doer. Ao aventurar abrir os olhos, este deu com uma luz mínima, proveniente da tocha jogada ao chão cujo fogo estava quase em ponto de extinção.

- Mas que raio... – a exclamação se fizera ao mesmo tempo que se arrastava e pegava na tocha, soprando um pouco para que o fogo se revivesse. Quando o conseguira, Barbossa olhara à sua volta, percebendo-se dentro do túnel que ligava à saída daquele templo.

Coçando a cabeça, algo muito querido se fizera ausente e Barbossa amaldiçoou a perda do chapéu. – SPARROW?

Sua voz se prolongara pelo eco, mas não obtivera resposta. As pedras que lhe barravam o caminho fizeram o velho capitão perceber que se encontrava retido e uma dúvida lhe pairara pela mente. Estaria Jack morto? Ou conseguira escapar a tempo? Fosse como fosse, ele o sabia. Sparrow era osso duro de roer e não seria aquele pequeno acidente que o iria matar.

Gemendo ao se levantar, Barbossa apoiara uma mão à parede, seguindo o caminho iluminado pela tocha, de volta à pequena entrada que só poderia ser percorrida de gatas. A vontade de o fazer era nenhuma, mas precisava achar uma saída. Mary havia desaparecido. O Olho havia sido roubado por aquela egípcia doida e agora, Jack se esfumara. Estava sozinho, mas como sempre, nunca desistiria.

- Eu já voltei da morte. Enfrentei tudo o que havia para enfrentar... não vou morrer dentro deste buraco no meio deste estúpido deserto! – agachando-se, Hector tornara a gatinhar, fazendo o caminho até à sala onde sabia se encontrar a estátua que dera origem a toda aquela confusão.

Ao alcançar seu objectivo, Barbossa afastou as teias de aranha de uma pira à entrada, acendendo-a. Durante um bom tempo, o velho pirata apenas se deteve a escorar à parede, respirando pesadamente, olhando os hieróglifos nas paredes. De nada adiantaria entendê-los, pois não tinha conhecimento de tal escrita simbólica. Sua atenção centrava-se exclusivamente na estátua onde três figuras repousavam. Ptah, Ramsés e Sekhmet. Agora ele ao menos sabia a quem aquele templo se dedicava.

Aproximando-se, Hector passara a mão pelo orifício onde deveria caber o Olho-de-Tigre. Sem ele, nada feito. Poderia acionar aquela alavanca milhares de vezes que ela só rodaria a estátua, trocando-a por outra. Precisava pensar. O tempo urgia e precisava arranjar um jeito de sair daquela sala. Sentando-se ao chão, Barbossa fez a única coisa que poderia fazer: pensar até não poder mais.


O som do crepitar de uma fogueira se fizera aos ouvidos de Jack, fazendo-o sentir o calor desta a enrolar-se nos cobertores. Tudo lhe parecera demasiado aconchegante se não fosse o grito de sua pequena a ecoar na sua mente, ao vê-la no meio de um mar de lava, chorando e pedindo-lhe ajuda. Sobressaltado, o pirata abrira os olhos, dando com o céu estrelado do deserto e mais ao lado, com os orbes castanhos de sua amada, lhe sorrindo.

- Jack! – Lara lhe sorriu, passando uma mão pelo seu rosto. – Pensei que nunca mais acordasses.

- Love... – zonzo, o moreno se erguera, percebendo o mundo à roda e aceitando prontamente um pouco de água. – Eu já disse que tenho primos lá em cima que ainda não querem a minha companhia? – convencido, ele falara. – E... nunca pensei gostar tanto de beber água.

- É tão ver-te novamente aqui. – Lara se abraçou a este, sentindo uma mão de Jack subir por seus cabelos. – Onde está a Mary?

- Lara... – Jack engolira em seco, os seus olhos vidraram-se nas chamas, nem se apercebendo que não estavam sozinhos. – A nossa filha...

- Ela estava contigo, não? – Lara o encarou. – Nós vimos que vocês entraram pelo mesmo portal que ela!

- Sim. Eu, Mary e o emplastro do Barbossa viemos ter a esse deserto de fim de mundo. – o pirata rolara os olhos. –E depois de muitas complicações, conseguimos chegar ao templo para onde apontava o Olho-de-Tigre e...

- O templo de Ptah?

- Como sabe? – Jack erguera o sobrolho, mirando-a.

- Se eu cheguei até aqui, por algum motivo foi. – Lara bufou. – Mas anda! Onde está a Mary? E o Barbossa?

- Tivemos um pequeno acidente no templo. Barbossa... eu acho que ele morreu. – Sparrow levara os dedos ao rosto da amada. – E a Mary... Circe a raptou há uns dias atrás.

- Minha filha está com aquela deusa doida? – Lara se levantara num salto. – Como isso foi acontecer?

- Calma, love! – se colocando em joelhos, ele lhe agarrara as mãos. – Circe precisa do Olho. Eu acho que ela tem a Mary como garantia.

- E onde está esse Olho? – uma outra voz se achegara, fazendo Jack trombar com Will e Alicia.

- Capitão assombroso! – Jack arregalara os olhos. – O que aconteceu às tuas barbatanas? E Alicia, darling... oush... impressão minha, ou engordou?

- Eu estou grávida, lembra?

- Ah pois... polvos a bordo. – Jack franziu o nariz. – Acerca do Olho... uma doida o roubou.

- A Circe? – Will perguntara.

- Ranya... se esse for o nome dela. Uma mulher que nos ajudou a chegar lá. Meia estranha e bonita...

Num tapa no ombro, Lara o calou quando o vira se colocar de pé. – Nós temos de achar a Mary Rose!

- Concordo. Mas há um problema, love. – Jack cravou os olhos nos da esposa. – O templo ruiu. A entrada para Este. Foi por isso que o zombie bateu a bota.

- Barbossa morreu? – mais uma vez, Jack se supreendera ao notar Elizabeth e logo atrás James Norrington.

- É... se zombies morrem, não? – Jack sorriu. – Que é feito do seu almofadinha futurista? Trocou-o pelo oficial pedinte? - Um silêncio constrangedor se instalara no grupo, fazendo Jack se sentir perdido. – Era uma piada...

- Thomas... – Lara viu Elizabeth se afastar, dando a notícia ao pirata. – Ele morreu, Jack.

- Logo a seguir a vocês desaparecerem. – Will explicou. – Aconteceu muita coisa depois disso.

- Não me digam? – Jack forçara um sorriso, não mais visualizando Will, mas quem por detrás deste se colocara. – Sr. Étel, há quanto tempo!

- Como vai, capitão? – Darius lhe perguntara, sem o mínimo receio. – Ainda bem que o encontramos são e salvo.

- São... e salvo... – Jack unira os polegares, levando-os aos próprios lábios. – Palavras curiosas porque... a salvo? Nnguém está a salvo com aquela deusa endiabrada à solta. Segundo, porque não me interessa estar são, quando já perdi dois membros da tripulação e a MINHA FILHA! – Jack lhe apontara um dedo. – E terceiro... eu espero que se tenha mantido afastado da minha mulher senão...

- Jack, pelo amor! – Lara o puxara. – Não é hora para ciúmes. Nossa filha está desaparecida. Temos de ir atrás dela antes que... antes que Circe a mate.

- Porque a mataria? – o pirata estreitara os olhos.

- Porque ela quer libertar a deusa leoa... – uma voz arrastada se pronunciara, fazendo Jack virar-se à figura deitada, encostada a uma rocha e com o chapéu lhe cobrindo o rosto. – E além do Olho... essa dama precisa do sangue de um pimpolho.

Caminhando lentamente, Sparrow se abeirara do estranho, levantando-lhe o chapéu, empalidecendo em seguida. – Oh bugger... você?

- Sim, Jackie. Eu. – Teague lhe abrira os olhos igualmente escuros, mirando o rosto do único filho, levantando-se em seguida.

- O QUE ELE 'TÁ FAZENDO AQUI? – Jack berrara.

- Ele nos ajudou. – Alicia se chegara na frente. – Se não fosse teu pai a esta hora seriamos comida de sereia.

- Eu não vou dividir esse tesouro consigo! – Jack exclamou.

- Pensei que tua preocupação fosse salvar a pequena. – Teague sorriu de canto. – Jackie, Jackie... não somos tão diferentes afinal.

- Somos em tudo. A começar que eu fiz uma filha e você só fez um filho. – Jack agarrara Lara pela cintura. – E não pretendo parar. Vou encher o mundo de Sparrow's!

- Jack! – Lara bufou em desagrado.

- Mas a principal diferença é que eu não abanadonarei minha filha. – os olhos escuros do mais novo perderam o brilho. – Como alguns pais fazem...

Virando costas, Jack deixara Teague no vácuo, mas este poupara a nora de qualquer palavra. – Ele tem razão.

- Temos de continuar o caminho. – Will dissera. – Não podemos deixar que Circe faça algum mal a Mary.

- Sem o Olho na mão... – Jack sentou-se naquilo que parecia uma pedra com um cobertor em cima, mas logo se estatelou quando esta se mexeu. – Que é isto?

- Ora! Que falta de senso. – Olga se descobrira, assustando-se com o pirata excêntrico. – Me deixem dormir.

- Aquele era um homem que parece uma mulher que tem cabelo de fogo mas fala como uma galinha? – Jack apontou. – Quem é você, marujo?

- Lady Olga McLean. Da Escócia. – a ruiva empinara o nariz.

- Escócia? Já lá estive. – Jack sorriu de canto, mostrando um dos anéis que possuía. – Roubei este a uma dama mais velha que si.

- Jack! – Lara lhe deu um safanão na cabeça. – Ela embarcou por acidente e é...

- Mãe do filho do Darius! – Alicia exclamara.

Jack olhara da lady para Darius, ficando confuso. – Deixe cá ver... a seduziu porque parecia com a Circe, assim como queria seduzir a minha mulher porque se parecia com a tal princesa doida?

- Eu já aturei muito, Capitão. – Darius suspirou. – Não pretendo regressar à sua tripulação. Agora eu sigo o destino que sempre se apresentou na minha frente. Por isso... cale a boca.

- Ele mandou-me calar a boca? – Jack riu. – Eu vou a ele e...

- NÃO! – Lara lhe puxara para um canto, desarmando-o. – Pára com isso. Precisamos de pensar na nossa filha, Jack.

- Eu sei, love. – Jack baixara os olhos, antes de mirar uma última vez o próprio pai.

- Porque o odeias assim, meu amor? – Lara lhe virara o rosto.

- Um dia... eu conto. Quando isto tudo passar. – suspirando, o capitão do Pearl levara uma mão aos cabelos escuros de Lara, puxando-a para si, depositando um beijo em seus lábios. As saudades do casal se materializaram num gesto profundo, enquanto as bocas se entreabriam, deixando ambas as respirações se unirem. – Aquele grego tentou alguma coisa na minha ausencia? – à sua boca, Jack lhe perguntou.

- Jack... eu aprendi a compreender o Darius. – Lara lhe sorriu. – E nada aconteceu, 'tá? Eu te amo. E tudo o que mais desejava era encontrar-te e à nossa menina.

- E nós vamos encontrá-la, darling.


- Não comeu nada. – Darius se agachara junto de Olga, olhando-a perdida na visão da fogueira.

- Não tenho fome. – a escocesa mentira.

- E eu a conheço demasiado bem para saber que está mentindo. – apoiando uma das mãos na areia do chão, Darius se sentara junto dela.

Olga virara o rosto em sua direção, mergulhando no azul dos seus olhos que com as chamas se tornavam tão dourados. – Porque vai fazer isso? Matar essa deusa?

- Porque é preciso.

- Para quem? Isso trará a sua princesa de volta?

Darius engolira em seco. – Não.

- Eu nem sei o que estou fazendo aqui! – Olga levara a mão ao rosto. – Nem sei porque saí da Inglaterra. Porque não fiquei em Alexandria com o meu filho.

- Nosso. – Darius emendara, prendendo a atenção dela. Seu peito enchia ao falar isso. Um filho. Algo que Darius nunca pensara vir a ter em toda aquela solidão milenar. – Como... como ele é? Eu pouco o vi.

- Ian... – Olga sorrira. – Quando... você foi embora eu caí de cama. Pouco depois me descobri grávida.

- Casou com o Peter?

- Não. Embora minha mãe me convencesse quando descobriu que esperava um filho seu. – Olga desviara os olhos do grego. – Eu contei ao Peter e ele disse que aceitava...

- Ele nunca aceitaria, Olga. – Darius crispara os lábios. – Um homem mesquinho, sem escrúpulos.

- No dia do noivado ele me humilhou na frente de todos e a gravidez fora descoberta perante a sociedade. – Olga explicara. – Meu pai me trancou em casa e quando eu estava quase no termo eu ouvi ele dizendo que... – Olga fechara os olhos ao relembrar. – Me poria num convento e mataria nosso filho ao nascer.

- Eu... – o coração do atlante apertara. – Não sei o que dizer.

- Também não precisa. – Olga o enxergara novamente. – Naquela mesma noite fugi. Fabio, meu amigo, me recebera e foi lá que Ian nasceu. Ele era tão lindo. Mas meu pai nunca me perdoou. Recusou ver o neto e eu não tive escolha senão viver em Londres na casa de Benjamin e Viviane, padrinhos do Ian.

- Até fazer a loucura de vir atrás de mim.

- Porque não me contou?

- Você acreditaria? – Darius ousara levar uma mão até ao rosto alheio, atraindo-o pelo queixo, mirando nos olhos tão negros da dama.

- Não... sei. – Olga falara, descendo os olhos até à boca do atlante. Os lábios finos e rosados de Darius a deixaram sem ação e assim ficara quando, por momentos, ele a atraíu mais para si, o suficiente para ambas as respirações se cruzarem.

A saudade que ela sentia dele poderia até ser maior que a alheia, mas ali, quando os pensamentos e preocupações de ambos pareceram voar para longe, Darius também sentira a fraqueza de outrora. Olga repetira o gesto, levando a mão ao rosto do atlante, deslizando os dedos até ao queixo onde um furo se fazia. Olhando uma última vez nos orbes tão cristalinos deles, a dama escocesa fechara os olhos, sentindo a maciez da boca alheia tomar a sua.

Os dedos dele adentraram pelos cabelos ruivos de Olga, ignorando os outros que dormiam enrolados nas cobertas, sendo apenas testemunhas daquele gesto os animais que a uns metros ruminavam em seco. Olga entreabrira os lábios, recebendo a umidade de Darius, aprofundando o beijo, perdendo-se nos movimentos que se faziam.

Porém, quando a língua cálida dela alcançara a dele, o beijo se desfez num vácuo e os bicudos se entreolharam confusos. – Me... desculpe. – Darius dissera num tom ofegante, mirando os lábios inchados de Olga.

- Você sempre pede desculpas!

- Eu não quero enganá-la. – Darius lhe disse. – Essa missão que tenho... não tem retorno, Olga. Por favor. Amanhã de manhã... você volta para Alexandria.

- Não... – a escocesa choramingou.

- Sim. Por favor. – Darius se levantara, fechando os olhos a algo de ardente que lhe tomava. Era tão difícil lhe registir. Amara tanto aquela mulher e agora se via, na recta final da sua missão e divido como nunca estivera. Mas ele sabia. Sabia que ao matar Circe, estaria a matar-se a si próprio.


Quando o novo dia raiara, mal o céu se pintara do primeiro laranja solar, uma ventania forte se fez, acordando os piratas. Ao princípio pensaram tratar-se de qualquer tempestade, mas fora com supresa que uma figura conhecida jazia em pé, tratando-os de colocá-los em sentido.

- Acabou-se o descanso, marujos! – Calypso falara num tom firme.

- Tem uma bruxa ali! – Olga exclamara, olhando a mulher excêntrica.

- Não é uma bruxa. – Alicia coçara os olhos. – É a Calypso. Uma deusa amiga.

- Deu...sa... – o cérebro da dama dera uma volta.

- Sim, minha querida Olga McLean. – Calypso lhe sorrira amistosa, mas tudo o que conseguira fora um afastamento da escocesa face a figura tão estranha. Mas para Olga, já nada era estranho. Havia-se colocado num cenário que lhe parecia digno de outro mundo. – Levantai-vos preguiçosos!

- CALYPSO! – Jack levantara-se num ápice correndo para esta. – Tens de nos ajudar, minha cara Dalma.

- Já há muito que deixei esse título. – a mulata olhou-se a si própria. – Embora o corpo me faça jeito. Enfim… é hora de acordarem para a realidade. Têm de chegar no templo de Ptah o mais rapidamente possível. Mary Rose está correndo um perigo imenso!

Mal a ouvira, Lara tratara de correr aos cavalos, mas um clique se fizera. – Mas como combateremos essa Circe? E se ela não estiver sozinha nesse plano? Jack me contou que havia uma mulher que os ajudou e depois lhes roubou o Olho.

- De certeza que era uma mulher? – Darius erguera o sobrolho.

- Claro que era uma mulher! – Jack arregalara os olhos para este. – Eu não sou grego… ao contrário de você.

- Homossexualidade não é problema e era bem compreendida na Grécia, Sparrow. – Calypso sorriu. – E com esse jeitinho… você seria o rei deles!

- Não precisa ofender. – Jack amuara num bico, vendo Lara se chegar a si.

- Nós precisamos do Olho-de-Tigre. Só assim teremos algo para trocar com a Mary. – a pirata dissera.

- Circe não vai trocar a Mary porque ela precisa da vossa menina. – Calypso endurecera o olhar. – Só o sangue de uma criança libertará Sekhmet e o Olho é a chave para lhe abrir o sarcófago.

- Nós vimos uma estátua onde o Olho cabia, mas uma ladra nos roubou antes! – Jack gesticulara. – Eu já não sei mais em quem confiar. Ela nos ajudou e nos traiu! Esse grego ou atlante ou sei lá mais o quê... – Sparrow apontara a Darius. – Se engajou e nos traiu.

- Eu não vos trai! – o de olhos azuis caminhara firme. – Eu omiti o que realmente pretendia, mas nunca vos traí.

- Eu mato ele! – Jack tentara puxar da pistola ao vê-lo trocar um olhar rápido com Lara, mas esta o impedira.

- Se ele omitiu... mas vos levou ao local do Olho... – Teague se aproximara, fazendo Jack se colocar atrás de Lara. – O que leva a pensar que essa tal mulher...

- Ranya! – Jack exclamou. – Mulher do diabo! Linda e assassina. Matou o Barbossa, sabiam?

- Não tinha sido um deslizamento de pedras? – Will ergueu o sobrolho.

- Sabe-se lá se não foi ela! – Jack sorrira, mas levara com o olhar enviezado de Lara.

- Eu só o fiz porque tive de proteger meu povo. – uma voz nova no local assustara o grupo, alertando-os para a figura feminina que se acercara deles, colocando-se próxima de Calypso.

- Ranya? – Jack abrira a boca, vendo-a. Mas da egípcia que fixara os olhos em si, pouco restava. A cara era a mesma, mas agora sua silhueta feminina se destacava num parco e elegante traje. A saia de linho branco era debruada a ouro e pedras preciosas, justa ao ponto de lhe acentuar a anca, abrindo-se numa longa racha a partir do joelho. A barriga lisa jazia exposta e os seios cobertos por uma camisa que de tecido transparente nos braços, se destacava pelo dourado nessa parte íntima. À cabeça, adornando os belos cabelos escuros e compridos, ostentava uma espécie de coroa, onde duas hastes emoldurando um pequeno disco solar se encontravam.

- Hathor... há quanto tempo! – Calypso sorrira sem vontade. – Soube que andavas a segui-los.

- Ha... – o cérebro de Jack dera um nó. – Quem é você?

- Hathor. Deusa egípcia do amor e da felicidade. – a anterior Ranya lhe explicara. – Me desculpe se o enganei, mas precisava de o fazer.

- Precisava... VOCÊ NOS ROUBOU O OLHO-DE-TIGRE! – Jack ficara fora de si, sendo agarrado por Lara e William. – Fazendo-se de santinha, com essa treta de amar seu povo...

- E eu amo meu povo! Foi para proteção deles que o fiz. – Hathor explicara. – Não entendem? Se Sekhmet for libertada... é o fim do Egipto. É o fim de toda a humanidade.

- Ouça! – Lara deixara Norrington e Will vigiarem Jack, aproximando-se da deusa. – Eu não quero saber de tesouro nenhum. De libertar quem seja que for! – Lara exclamara, tomando fôlego. – Eu só quero minha filha de volta.

- Se Circe apanhar o Olho... ela libertará Sekhmet. – Hathor, ou Ranya, lhe falara.

- Hathor... – Calypso respirara fundo. – A verdade é que... se não fizermos nada, Circe vai arranjar maneira de a libertar na mesma.

- Eu não posso arriscar, Calypso. – a egípcia lhe dissera, olhando os presentes. – Eu compreendo sua dor de mãe. É um mesmo sentimento que me leva a querer proteger meu povo.

- Seu povo? – Lara riu. – Você é imortal. E com vossos joguinhos acabam por prejudicar sempre quem querem proteger. Os humanos! – a morena não se ficara. – É imortal. Tem tudo na vida. Mas e eu? Eu só tenho minha filha.

- E tem o Jack. – uma sombra de tristeza passara pelos olhos da deusa.

- Sim. Mas quando se tem um filho, aprendesse a amá-lo mais que a própria alma. – a frase provinda de Jack fizera o grupo se supreender, principalmente Teague que engolira em seco.

- Pais e filhos... existe muita coisa aqui por acontecer. – Calypso dissera. – Relações cortadas, resgates de parte da nossa alma. – a deusa olhara de Teague para Jack e deste para Lara. – Paternidades ocultas... – acrescentara a olhar Olga e Darius. – E seres que ainda não nasceram mas que já são colocados em perigo. – a última frase viera acompanhada do olhar para Alicia e Will. – Hathor... eles são os únicos que conseguirão derrotar Circe. Está escrito. "O guerreiro desaparecido se erguerá do vale estéril por onde caminhará e triunfará na sua vingança."

Darius baixara os olhos, percebendo todo o peso da responsabilidade se abater sobre seus ombros. – Não podemos perder tempo. Circe tem de ser travada.

- Eu tenho um plano! – Alicia se chegara à frente, empunhando o dedo para surpresa de todos.

- Estamos fo... – Jack revirou os olhos.

- Cala a boca. – a senhora Turner resmungara. – Deusa Hathor... porque não entrega o Olho a Jack?

- Porque o faria?

- Circe precisa da Mary e desse Olho-de-Tigre para libertar Sekhmet. – Alicia avaliava a situação, andando por entre os presentes. – Mas ela não fará nada sem ter as duas partes... mesmo que se dê o Olho a ela, Circe fará jogo sujo... então... porque não fazer jogo sujo com ela?

- Como assim? – Calypso se interessara.

- Lhe damos o Olho. Deixamos Jack ser capturado por ela. – Alicia sorria ao que dizia.

- Estás louca? – Will perguntara.

- Não. Se estivesse, provavelmente vocês não saberiam como sair desta. – ela lhe dissera. – Quando Circe estiver pronta a fazer o tal ritual... Jack disparará na direção do Olho, o destruindo. Lara libertará Mary e...

- E eu condenarei Circe à reclusão eterna. – Darius completara.

- Céus...- Calypso arregalara os olhos. – Vejo que Serena ainda lhe povoa o espírito.

- Não. Apenas sou uma garota esperta.

- Então sabe que não continuará esta aventura. – a deusa a olhou.

- É demasiado perigoso, Alicia. – Lara lhe explicara. – Pensa no bébé. Não podes te arriscar assim.

- Mas eu estou bem! – ela resmungara. – Eu não quero abandonar o Will.

- Alicia! – o capitão falara firme, segurando-lhe o rosto, mirando os olhos marejados dela. – Protege nosso filho, por favor. Eu ficarei bem. Sou imortal por dez anos, lembra?

Ao ver a cena, Darius caminhara até Olga. – Eu...

- Vai dizer que eu tenho de ir, não? – a escocesa o encarara.

- Alicia tem um filho na barriga. Você tem um filho que precisa de si. – Darius lhe dissera.

- Ele precisa de um pai. – Olga mirara o mar nos olhos dele. – Darius...

- Percebe porque fugi? – levando uma mão ao rosto da ruiva, ele continuara. – Minha vida... eu não a mereço.

- Não? – Olga se afastara de pronto. – Você me deu algo precioso. Ian. E eu contarei a ele que... – as palavras falhavam. – O pai dele morreu no mar... a combater...

- Se quiser...

- Não! – Olga firmara a voz. – Eu não estarei aqui quando regressar.

- Eu não regressarei, Olga. – Darius comunicara. – Não há retorno para mim.

- Então... Adeus, Darius Étel. – virando costas, sentindo um sufoco na garganta, Olga se prostara junto de Alicia.

- Eu levarei essas duas de volta ao Pearl. – Calypso sorrira. - Hathor... os vai vigiando discretamente e entrega esse Olho ao Jack.

A egípcia juntara as mãos, fazendo algo brotar delas. Com admiração, eles viram o objeto tão procurado surgir. – Jack Sparrow.

Olhando os cantos, o pirata se aproximara com receio. – Vai-me dar isso, ou vai-me matar?

- Eu nunca o mataria. – Hathor lhe sorrira. – Pese o que o levou aqui... eu gostei de sua companhia.

- É... eu sou uma companhia e pêras. – os dentes de ouro surgiram ao sorrir dengosamente, mas logo desaparecera quando Hathor lhe colocara o Olho em mãos e lhe levara a mão ao queixo.

- Pena... que seja um homem de família, Jack. – a antiga Ranya sorrira, passando um dedo pelos lábios do capitão.

No segundo seguinte ela tinha desaparecido, deixando-o aéreo a baixar os olhos até ao objeto dourado.

- Que foi aquilo? – Lara lhe aparecera, furiosa.

- Aquilo o quê? – Jack se fizera de desentendido.

- Ela levou os dedos aos teus lábios! – Lara esbravejou.

- É... – enlançando-lhe a cintura, o pirata sorrira. – Agora estamos quites, love. – Mas tudo o que conseguira, fora uma chapada bem dada antes de voltar-se ao caminho.

Continua...


Olá leitoras e leitores! Aqui vai novo capítulo da Olhos Felinos! Como já deu para perceber, a partir de agora vai ser uma contagem decrescente para o final desta história. Não darei uma previsão certa de quantos capítulos faltam, pois sempre me surge algo novo a escrever, mas garanto que está para breve.

Quero agradecer os comentários lindos que me enviaram, sobretudo à Olg'Austen. Ela não é só uma fã desta fic, mas sim alguém que já faz parte dela, pois sempre me apoiou. Agradecer também à sra. sparrow por estar acompanhando esta história tal fielmente e espero que goste deste capítulo! E à leitora nova DeboraGrangerPotter por ter comentado e gostado desta trilogia que, com pena lhe digo que está na recta final, sim.

AGORA UM AVISO: depois desta fic, eu provavelmente não escreverei com tanta frequência fics de Potc. Neste momento, face aos estudos, estou também muito voltada às histórias originais. Mas, juntamente com a Olg'Austen, lancei uma nova fic que os leitores já devem ter visto por aí, chamada COMMEDIA. Ela é escrita pelas duas, embora seja a continuação da fic Maus Costumes da Olga. Se passa muitos anos depois dos acontecimentos dos filmes e da própria fic dela, e conta a história do filho do Jack Sparrow que vai em busca do pai, que se meteu numa grande alhada. É cheia de pirataria, mistérios e até romance com ocs originais, mas também com a presença de personagens de Potc.

O prólogo já foi publicado pela Olga e eu espero sinceramente: meus leitores, passem por lá e leiam e claro, comentem, pois se gostam da saga Potc, vão com certeza amar essa fic!

E sem mais, espero que gostem deste capítulo!

Saudações Piratas! :D

JODIVISE