Descendência
II
Ainda meio atarantado, Ianto empurra Jack, enquanto pensa numa desculpa plausível para o que Toshiko acabara de assistir.
― Isto não é o que parece… Quero dizer, é o que parece, mas não significa nada… Foi uma coisa do momento… Não é um relacionamento…
Ianto sentia que se enterrava mais profundamente a cada nova frase pronunciada pelos seus trémulos lábios, mas sabendo que Jack não queria assumir nada sério em frente dos colegas de trabalho e sendo o relacionamento atualmente inexistente, o Tea Boy só desejava que uma desculpa mínimamente aceitável caísse do céu.
Jack fitou a expressão embaraçada do seu ex-amante e o rubor que tentava esconder juntamente com as roupas amassadas que alisava insistentemente sem parar. Pensado que o motivo deste o ter abandonado era por uma paixão secreta pela asiática, o Capitão agarra o homem pela cintura colando-o ao próprio corpo e fulminou Toshiko com a mirada.
― Ianto é meu! Nem sequer penses em tentar algo com ele, pois não vais conseguir roubar-mo…
Indignado por ser tratado qual vil possessão, Ianto afasta-se de Jack, dando-lhe uma joelhada na zona genital, que o forçou a cair de joelhos pela dor atroz que o acometia.
Ianto desce da plataforma e toma a mão da japonesa, deixando Jack só na base com as suas dores nas joias da família.
oOo
A noite estava escura e as ruas eram perigosas, pelo que como bom cavalheiro britânico que era, o Tea Boy escoltou a dama até casa. Já à porta, Toshiko sentiu uma nova tontura e a preocupação de Ianto ressurgiu com maior intensidade.
― O meu carro está perto! Vem! Vou levar-te ao hospital.
― Estou bem! Não é nada, Ianto.
― Tens a certeza? Estás mal há já algum tempo… Se precisares de algo liga que eu venho imediatamente. ― Toshiko sorriu comedidamente e entrou no edifício de apartamentos.
Uma semana depois
Toshiko descansa sobre a cama de casal e encara os objetos estranhos sobre a mesa de cabeceira.
O alarme soa, indicando que o tempo necessário para conseguir ler os resultados havia concluído.
A asiática pega no primeiro… Positivo… Segundo… Também acusou positivo… À terceira é de vez… Positivo!
― Um bebé! Tommy… Teremos um bebé!
As lágrimas de felicidade e amargura caem e misturam-se no regaço da mulher. Felicidade por ser mãe e amargura porque Tommy nunca iria saber que contribuíra para a criação de uma nova e pequena vida. Toshiko leva as mãos ao ventre e desce o rosto, vendo-o com um sorriso de ternura maternal.
oOo
Na manhã seguinte, a resolução de Toshiko viu-se deitada por terra. Como faria para criar um bebé? Tommy nunca deveria ter estado naquela época para começar. O seu regresso anulou a ida e apagou-a da memória do soldado. Assim sendo, aquela criança era uma anomalia temporal e se Torchwood descobrisse poderia considerar o bebé uma ameaça latente… Poderiam até mesmo obrigá-la a abortar! Jack sem dúvida tomaria essa decisão… Mas, era seu filho… Seu e de Tommy! Era o único que lhe restava daqueles maravilhosos dias. Era a prova de que aquela noite acontecera de facto e não fora apenas fruto da sua imaginação.
― Aconteça o que acontecer… Vou cuidar-te e proteger-te, meu pequeno! ― disse a mulher abraçando o ventre protetora e carinhosamente.
Toshiko vestiu uma camisola folgada, para que a mudança de look não fosse abrupta, pois teria de esconder a gravidez o máximo que conseguisse. Logo, quando a gravidez se fizesse notar teria de pensar na melhor forma de proceder para que ninguém ficasse ciente do seu estado.
oOo
O Hub estava relativamente calmo, sem nenhuma ameaça latente, todos estavam meio que relaxados e folgavam nos seus postos de trabalho. Rindo das piadas estapafúrdias de Owen e clamando por mais uma xícara de chá ou uma chávena de café bem carregado.
― Tosh, já descobriste como abrir a caixa? ― perguntou Gwen com curiosidade, pegando na caixa de marfim, finamente ornamentada com fios de ouro e pedras preciosas. ― É tão bonita que faz pensar que o quer quer seja que esteja lá dentro deve sê-lo ainda mais…
― Gwen, é melhor pousares a caixa. Ela exerce uma espécie de encantamento nas pessoas que a tocam, seduzindo-as para que a abram… Estás afetada!
― Oh! Certo! Alguma coisa?
― Ainda não. Seja o que for, está bem protegido. Esta tecnologia está para além do que se pode encontrar na Terra. É sem dúvida alienígena!
― O almoço chegou! ― exclamou Owen com entusiasmo, ao ver Ianto entrar com as caixas de pizza. Apropria-se da caixa superior e dá uma mordida, cuspindo de seguida. ― Que merda é esta? Está intragável!
― A sério? Deixa-me experimentar… ― Gwen dá uma mordida e tosse, sentindo os olhos marejar. ― Exageraram nos condimentos… Estão as duas assim? ― Dá uma mordida numa fatia da outra caixa e cospe imediatamente. ― Jack! Vou almoçar fora!
― Hmm!? O quê? ― pergunta o Capitão, mais interessado em avaliar discretamente a retaguarda de Ianto, sem que este se desse conta.
― A comida! Está horrível! Não dá para comer. Vamos comer fora ― disse Owen.
― Entendo! Vão todos?
― Sim! ― responde Gwen, notando a direção da mirada de Jack e torcendo o nariz desgostosa.
A equipa já estava a sair, quando Ianto se dá conta de que Toshiko permanecia no seu posto de trabalho sem se mover.
― Tosh! Almoço! Vens?
― Vão vocês. Estou à espera dos resultados de uns índices de leitura. Traz-me algo, por favor. O que seja. Não tenho apetite.
― Ok! Não devias trabalhar tanto. Faz-te mal! ― disse Ianto, fechando a porta e deixando a mulher sozinha no Hub.
Quinze minutos depois, o bip repetitivo indicou que os resultados estavam prontos.
Toshiko analisa os resultados admirada, esboçando um sorriso suave e destrói os dados de forma que não possam ser recuperados independentemente de quão bons sejam ou quanto tentem. Pega na caixa de marfim e delineia os fios de ouro por uma ordem específica, carregando por último numa pedra ametista e de seguida numa esmeralda. A caixa abre-se automaticamente, revelando uma bracelete de ouro, cujos fios se entrelaçavam delicadamente, conformando um conjunto simples, mas bonito. A japonesa retira a bracelete da caixa e esta fecha automaticamente, como se nunca tivesse sido aberta para começo de história.
