Descendência

III

Agosto de 2008

O sol apenas despontava e Toshiko já saía do banho com um fino e curto robe, estilo kimono japonês de tecido azul-bebé, que se pegava ao seu corpo belamente proporcionado como uma segunda camada de pele. A asiática parou frente ao espelho a admirar a curva do seu ventre avantajado de sete meses de gestação e acariciou amorosamente a barriga onde repousava o fruto do seu amor pelo soldado de outra era.

Toshiko abre as portas duplas do guarda-fatos e seleciona um vestido leve e fresco, adequado para aquela época do ano, tão quente e sufocante. De seguida, dirigiu-se à cómoda do quarto e abriu a caixa de joias, retirando uma bonita pulseira de fios de ouro, colocando-a e vendo a barriga avantajada ser coberta por uma ilusão e desaparecer na imagem do espelho. Levou a mão direita ao ventre e constatou que estava totalmente camuflada e era impossível sentir a protuberância no seu ventre. À simples vista e ao toque, ninguém poderia dizer que estava a dois meses de dar à luz.

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A mulher de rasgos asiáticos, vestindo um florido vestido branco com tons rosados, entrou na pastelaria da esquina, ordenando uma boa dose de panquecas com calda de morango e comendo com gosto a delícia que tanto desejara desde que acordara.

Num canto do recinto encontrava-se uma mulher de negros cabelos apanhados firmemente, observando atentamente Toshiko sem que a mesma se apercebesse.

A especialista em computadores levantou-se do assento, sentindo-se mais ligeira do que seria comum no seu estado avançado de gestação graças aos efeitos da bracelete, rumou ao balcão para pagar a conta, saindo seguidamente e encaminhando-se ao Hub para mais um longo dia de trabalho.

Torchwood teve um dia relativamente calmo, tendo em conta que se mantiveram entre testes de rotina ao equipamento informático e Jack estava nomeadamente calmo, ao constatar que Ianto não se aproximara a Toshiko durante todo o dia, mais ocupado em concluir rapidamente as suas tarefas e sair antes que o Capitão pudesse interceptá-lo, como vinha a tentar nos últimos dias, sem sucesso.

A jornada de trabalho concluiu por fim, e um a um, os membros de Torchwood foram abandonando os seus postos de trabalho e regressando às suas casas ou no caso de Owen, encaminhando-se ao bar mais próximo com a maior afluente de mulheres desesperadas por atenção.

Jack suspirou ao ver Ianto correr para fora do Hub como se a sua vida dependesse disso.

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Toshiko lutou contra a mala até vencer a batalha contra as suas chaves e abrir por fim a porta do apartamento. Estava prestes a fechar a porta, quando um intruso surgiu do nada e colocou um pé a travar a porta, forçando a entrada da moradia da japonesa.

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Dois dias depois

A asiática continuava sem dar notícias… Não atendia as chamadas, não respondia aos sms ou e-mails e não havia atividade no cartão de multibanco ou de crédito. A equipa começava a ficar verdadeiramente preocupada com a ausência repentina da japonesa. Como tal, decidiram que iriam visitá-la no final do dia e ver com os seus próprios olhos se estava tudo bem com Toshiko.

Quando finalmente terminou o horário de expediente, Jack pegou no SUV e conduziu em direção ao condomínio onde vivia a mulher. O carro parou numa vaga de estacionamento próxima e os membros de Torchwood desceram, rumando para a porta do edifício e por conseguinte para o elevador e depois para o andar onde residia a japonesa. Ainda à distância, o Capitão Harkness visualizou a porta entreaberta e ordenou aos seus subordinados que se armassem e preparassem para um possível confronto.

Jack abriu a porta com cautela, revelando a mobília bangunçada e diversos vasos partidos, com terra espalhada por todos os lados.

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31 de Outubro de 2008

Dois meses e nem uma única pista sobre a localização do membro desaparecido da equipa, que fora presumivelmente sequestrado.

Ianto ainda se culpava por não ter acompanhado a japonesa a casa, como viera fazendo desde à uns tempos para lá. A única noite em que deixou Toshiko regressar a casa sozinha… Esta foi sequestrada! Poderia estar ferida… Deus sabe que Ianto não queria imaginar um cenário pior, mesmo que fosse completamente verosímil.

Jack nota o olhar nostálgico do Tea Boy e consola-o, abraçando-o pelas costas e repousando o queixo no ombro direito do homem, deixando um casto beijo na bochecha rosada pela vergonha.

― Jack, estamos no trabalho. Gwen e Owen podem ver-nos…

― Então, deixa-os ver! És o meu namorado! Tenho todo o direito de te beijar ou abraçar quando bem quiser ― disse o Capitão, escondendo um sorriso travesso contra o ombro de Ianto e deixando a sua mão direita deslizar para a zona sul do corpo do homem mais alto, mas sendo imediatamente impedida pela mão do Tea Boy.

― Isso é assédio sexual, Sir! ― brincou Ianto, recordando todas as vezes que dissera aquela frase anteriormente.

Desde que haviam assumido o seu relacionamento, Ianto não podia deixar de sentir-se culpado pela sensação de felicidade que o embargava, enquanto Toshiko estava lá fora… perdida…

Gwen observou o casal pelo canto do olho com inveja e fulminou Ianto ao vê-lo dar a volta e receber um beijo inocente e carinhoso no canto dos lábios. No momento em que conhecera Jack Harkness, a ex-polícia tinha-se sentido imediatamente atraída pelo jeito rebelde do homem e desejado ser a única para ele, mas este nem sequer a olhava. Esta chegara ao ponto de dormir com Owen, para se fazer notar e causar ciúmes no Capitão, mas este parecia nem se aperceber da sua existência e isso dava-lhe nos nervos. Enviou uma última mirada de desdém na direção do Tea Boy e deu meia volta, regressando ao seu posto de trabalho.

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― Haaaaaaaaaaa!

O grito agónico escutou-se por todo o recinto. Toshiko contraiu as mãos ao sentir uma nova contração, deixando escapar umas poucas lágrimas travessas.

― Agora! Só mais uma vez… Já vejo a cabeça!

Com um último esforço, Toshiko empurrou, sentindo a cabeça do bebé passar pelas paredes vaginais rasgando-as no caminho para a ansiada liberdade de viver no mundo exterior.

A mulher de negros cabelos e roupas que mais pareciam ter vindo diretamente do século passado ou até mesmo de épocas anteriores, pegou no bebé e puxou-o, soltando-o do aperto materno. O choro do recém-nascido deixou-se escutar pela primeira vez.

― Um menino ― disse a mulher para a sombra que se escondia por detrás de uma janela do quarto, daquele prédio abandonado e nada higiénico.

A parteira pousou o bebé numa cestinha, após limpá-lo e procedeu a retirar os restos da placenta do interior da asiática.

― Thomas… Meu Tommy… ― murmurou Toshiko, caindo no sono pelo sedativo que a mulher desconhecida lhe injetara.


Notas da Autora:

Comecei esta saga com três temporadas em mente e já terminei de escrever a primeira, pelo que irei postando os capítulos conforme surja a oportunidade.
Espero que estejam a gostar deste novo projeto.