Renascimento

V

Abril de 2012

O imortal já não sabia o que fazer para conquistar o escorregadio nobre. Fora muito mais fácil com Ianto, sem todo aquele religiosismo exagerado de Nicolò.

Como resultado dos seus males de amor, ali estava o grande Jack Harkness a afogar as suas penas no que pareciam litros de álcool, a julgar pelo seu estado de completa embriaguez. Algo verdadeiramente raro devido ao seu metabolismo único.

Da bebedeira ao flerte, não demorou muito e quando se deu conta, o Capitão estava a despertar na madruga seguinte, num quarto estranho, ao lado de um homem, também ele desconhecido.

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Gwen observou a cara de sono do imortal que entrava no Hub, bocejando abertamente, quase tropeçando nela. O odor a cerveja era percetível no seu bafo, mesmo à distância.

"Assim que voltámos ao modo de luto… É a minha oportunidade! Neste estado ele dormirá com qualquer pessoa que se preste a consolá-lo… E sorte a minha… Estou a ovular! Apesar de tudo, Jack é um cavalheiro… Não irá deixar uma pobre donzela grávida lidar com as consequências de uma noite de paixão por si mesma." A mulher maquinava os seus planos maquiavélicos, pouco lhe importando o facto de que em casa a aguardava o seu sempre fiel e carinhoso noivo.

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Junho de 2012

Gwen acabava de sair de uma clínica de fertilidade. O seu plano não havia funcionado… mas como se a situação não pudesse piorar, Jack não se recordava de nada.

A mulher suspirou de frustração, encarando os frascos de cápsulas que a médica lhe receitara. Um para corrigir o distúrbio hormonal que a impedia de conceber e outro para aumentar o índice de fertilidade dela.

― Pelo menos não era nada grave que pudesse arruinar os meus planos definitivamente.

― Olá, Gwen querida! ― exclamou uma mulher que se aproximava tranquilamente, a passo lento.

― Missy, certo?

― Nem mais, doçura.

Missy espreitou a palavra escrita no frasco de cápsulas que a agente segurava firmemente e pensou brevemente onde a vira antes, perdendo interesse quase de seguida.

― O que é que queres? Deveria prender-te neste exato momento por ter sequestrado a Toshiko e roubado o bebé.

― Calma, calma… Trago notícias que serão de grande uso a Torchwood… ― Ao ver a sobrancelha erguida em questão muda, soltou a bomba: ― O Master regressou!

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Jack fitava desconfiadamente a sua "convidada" inesperada.

― Porque é que a trouxeste mesmo, Gwen?

― Missy sabe onde está o Master, mas só dará essa informação diretamente ao Doctor.

O imortal suspirou e assentiu desanimadamente.

A "convidada" seguiu a linha de visão do Capitão.

― Ianto Jones? Não era suposto estares morto?

― Tu… não… falas… com… ele… ― disse Jack, recordando que esta era em parte responsável pelo acontecido ao Tea Boy, pois estivera envolvida nos planos do Master.

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Vários séculos depois

Amy escuta o telefone tocar pela terceira vez e corre a atender a chamada, ainda de robe e com o cabelo a pingar água no chão da nave, que lança luzes de furioso descontentamento.

― Sim? O Doctor está… ocupado!? ― disse Amy, suando frio ao recordar quem mantinha o alien tão entretido. ― Espera um momento… ― Pousou o telefone e abriu a porta da Tardis e gritou na direção do Time Lord. ― Chamada do Jack Harkness… Algo sobre o Master e uma tal Missy!

O Doctor afasta-se da exigente boca que devorava ferozmente os seus lábios e vai ao encontro da ruiva. Entra na Tardis e atende o telefone.

― Como assim? Passa o telefone à Missy! Onde está o Master? ― exigiu o Décimo Primeiro Doutor ― Senão o quê? Isso não é novidade! O Master está sempre a ameaçar matar os humanos ou destruir a Terra… Está bem, está bem… Já vou! ― E desliga o telefone. ― Amy, veste-te! Onde está o outro Pond? Não importa, só assegura-te de que esteja na Tardis quando partirmos.

O Doctor sai da nave e é recebido por um par de braços possessivos.

― Não estás a pensar abandonar-me aqui, certo, querido? Pensas deixar uma pobre mulher indefesa sozinha neste planeta de selvagens?

― Amor, tu és tudo menos indefesa. Certo, River?

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Abril de 2012

Jack tentava arrancar a localização do inimigo à sua "convidada", mas esta conhecia os seus truques todos e não cedia nem sob ameaça de tortura. Não que ele fosse realmente torturá-la… Não desejava ficar ainda em piores termos com Nicolò, realizando um ato barbárico frente ao veneziano.

O familiar ruído dos motores da Tardis deu lugar à nave, que abriu deixando ver o Doctor.

Missy empurra o seu interrogador e joga-se nos braços do Time Lord, beijando-o apaixonadamente. O pobre Doctor queixa-se ao sentir o golpe que a sua cabeça dera contra as portas da Tardis.

― Doctor? Quem é esta cabra? ― perguntou Amy com chamas de fúria alçando-se às suas costas ― Estás a trair a River?

― O quê? ― Rory estalou as mãos, exigindo uma explicação. ― Não estás a ser infiel à minha filha, certo? ― O orgulho do último Centurião Romano brilhou fortemente, defendendo a honra da sua Melody Pond aka. River Song.

― Hnf! ― A "convidada" fez um ruído nasalado. ― River… Essa patética mulher sem graça, que não possui classe nunca será digna do meu Doc… Yahhh! ― gritou Missy ao ser afastada do Time Lord. Amy furibunda havia agarrado a mulher pelos negros cabelos e arrastado-a porta fora, atirando-a contra a equipa que assistia avidamente ao espetáculo.

― Nunca! Escutaste? Nunca mais te atrevas a insultar a minha filha!

― Dá graças que sou uma mulher compreensiva e aceitei a tua filha como concubina do meu querido esposo. ― Missy lançou um beijo voador ao seu amado Doctor.

― Sua… ― A ruiva engoliu a avalanche de insultos que se atravessavam na sua garganta. ― A esposa do Doctor é apenas uma e essa é a minha filha Melody. Capisce?

― Oh! Por favor, River não é eterna e eu ainda estarei aqui quando ela…

Plaf! A chapada que Amy impingiu no rosto de Missy fez eco.

Plaf… Plaf… Plaf…Plf… Pl…

― Não deveríamos fazer algo? ― murmurou Nicolò timidamente.

― Está tudo controlado! Vem comigo, Nic, Tommy quer ver-te ― "e eu quero tirar-te daqui antes que vejas algo que não possa ser desfeito. Alguém vai acabar morto!", pensava a asiática preocupada com o futuro desastre que seria a limpeza do Hub. "Espero que não sujem muito o piso… O sangue é difícil de tirar depois de seco!"

Três horas depois

Amy Pond tentava em vão ajeitar a sua despenteada cabeleira.

Missy descalçava os sapatos de salto.

― Hmm… Está partido… Vais pagar pelo sapatos, ruiva demoníaca! ― Missy agarra as mãos do Doctor e dá-lhe os sapatos. ― Deseja-me sorte, amor! ― Dá-lhe um beijo estalado, quando um estrondo se faz escutar.

― Missy! ― A voz do intruso era cavernosa pela cólera que o embargava. ― Como te atreves?

― Master… Não devias estar a tentar destruir alguma coisa? Ou ameaçar alguém como o homem dramático que és?

― Dramático? Eu?

― Sim, tu! Poderias ser confundido com uma Drama Queen.

O Master avançava a passos largos e pesados, exalando raiva por cada orifício corporal.

― E tu, minha cara Missy, precisas de uma lição por tentar monopolizar o Doctor… Tínhamos um acordo, lembras?

O loiro arrasta a mulher pelo braço, que se debate sem sucesso.

A porta fecha-se atrás do estranho par.

― Não se supunha que devia haver uma luta? ― perguntou Gwen.

A porta abre e todos se colocam em posições de defesa.

― O que é que eu perdi desta vez? ― perguntou Martha Jones ao ver a Tardis e os presentes na defensiva.

― Hm… Nada… Nada importante! ― concordaram todos em uníssono.