Renascimento
VI
Numa casa corroída pelo tempo, cuja localização ainda permanece desconhecida, encontravam-se duas pessoas a meio de uma acesa discussão.
― Pensei que tínhamos um acordo?
― Disseste bem… Tínhamos! Até que tu decidiste arruinar tudo… Tinhas mesmo de matar aqueles polícias? ― retorquiu a mulher, cruzando os braços.
― Eles reconheceram-me! ― O homem salientou o óbvio.
― Não precisavas de os matar, Master! Bastava ameaçá-los um pouco… ― disse a Time Lady, deixando-se cair sem cerimónias sobre um velho e empoeirado sofá.
― Como é que podes ser tão mole? É nisto que me vou tornar? ― O loiro fez uma careta de desdém, postando-se frente à sua interlocutora.
― Deverias estar grato. Se não fosse por … ― começou a dizer, para explodir repentinamente num grito furioso, erguendo-se do assento e encarando o homem, sem desviar o olhar nem por um segundo, iniciando uma luta de miradas ― Estarias a orbitar num buraco negro neste exato momento!
― Já evitaste esse destino trágico… Está na altura de que te vás…
― E deixar-te sozinho com o Doctor? Ah, isso é que não, mas é que nem pensar. Não sou louca!
― Ele é meu, Missy! ― O olhar enlouquecido de eras passadas recuperou e redobrou forças, regressando à ativa.
― Isso dizes tu…
Os gritos escalavam de intensidade, ao mesmo tempo que a argumentação ficava cada vez mais física, com uns quantos empurrões aqui e acolá.
― Ele nem sequer sabe quem tu és ― gritou o Time Lord com voz vitoriosa, dando o tema por encerrado e dirigindo-se à porta que dava para a rua.
― Pelo menos eu nunca tentei destruir o planeta! ― Missy regressou à carga, com a voz embargada numa boa dose de veneno. ― Ou matar os animais de estimação dele… Sabes perfeitamente o quanto o Doctor aprecia a humanidade, são os seus pets, por amor a Gallifrey. ― A morena analisou as unhas com expressão de aborrecimento, falando agora com um tom comedido. ― Logo estão completamente fora dos limites, não podes ir por aí a matar humanos indiscriminadamente. A menos que queiras que te odeie mais do que já o faz ― concluiu com sarcasmo.
― Ele não me odeia, pelo contrário, eu desperto nele um instinto que tu nunca conseguirás.
― E qual seria esse?
― Theta Sigma quer salvar-me!
― Sim, de ti mesmo, da tua loucura. Como quando tínhamos quinze e nos tentámos suicidar por culpa do bater dos tambores.
E desta forma a batalha verbal voltou à vida com mais fulgor.
Ambos tinham consciência de que não deveriam compartir a mesma linha temporal, estando à beira de criar um verdadeiro e calamitoso paradoxo. No entanto, nenhum parecia querer dar o braço a torcer e abandonar o século XXI, sob ameaça de que o outro lhe passasse a perna à frente e se apossasse do ignorante Doctor.
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Setembro de 2012
Com o calendário na mão, Gwen olhou para o Capitão pelo canto do olho.
"É hoje ou nunca! A médica disse que as minhas hormonas já estão reguladas e que esta semana era a mais propícia para engravidar, mas não há forma de que consiga seguir o plano que ela passou."
A mulher olhou a agenda onde anotara previamente todas a datas e horários que a doutora lhe dissera.
"De todos estes, o único que me serve é o desta noite, os outros horários são impossíveis. Quase consegui o de antes de ontem, mas aquele maldito alien apareceu do nada e arruinou tudo. Desta vez tem de ser tudo perfeito", pensou Gwen, ponderando como levar a cabo o seu plano. "Tenho de embebedá-lo."
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O ambiente estava saturado de odores. Odor a suor… Odor a tabaco… Odor a perfume… Odor a cerveja… Odor de sexo!
Em cima da cama, os corpos balançavam-se ritmicamente ao som de uma sinfonia de suspiros e gemidos.
― Ah! Jack, m-mais… Haaaaa! Hmm… ― O imortal violou a boca alheia, calando aquela voz que nada se assemelhava à que ele realmente desejava escutar.
― Ianto, meu Ianto ― murmurava o Capitão ao ouvido da mulher, que furiosa, lhe mordeu a mão e se impulsou, ficando sobre o corpo dele.
― Porque é que não deixas de o chamar de uma vez? ― Jack abriu os olhos, vidrosos e enevoados, sem poder distinguir a figura feminina que se auto-penetrava de forma selvagem. ― Ele não te ama como eu! ― Parou de repente, pegando na mão esquerda dele e guiando-a até à sua vagina, húmida e receptiva, incitando-o a unir um dedo ao membro ereto já no seu interior. ― Não consegues sentir o meu amor por ti? Não sentes como te acolho dentro do meu corpo, como ele nunca fará? ― Agarrou a mão direita e colocou-a sobre o seu seio, comprimindo-a contra o vulto. ― Ele não tem seios nos quais te acomodar e consolar, ele não tem um útero para te dar filhos. Ele não te merece, Jack. Acaso não vês que eu sou perfeita para ti? Só eu te posso satisfazer! Eu, Gwen, como mulher posso dar-te prazeres que ele nunca conseguirá com um corpo duro e anguloso, másculo.
Todo o seu discurso foi em vão, pois o álcool que corria pelas veias do imortal, nublava a sua mente, fazendo com que a sua imagem fosse eclipsada pela imaginação dele, que apenas via Ianto frente a ele.
Jack retomou as rédeas daquele rodeo, voltando a jogar a morena sobre os lençóis e embestindo profundamente.
O clímax chegou por fim e o homem embriagado ejaculou no interior de Gwen, que se aferrava a ele fortemente, contendo as lágrimas de despeito. Pode que não fosse a dona do seu coração, mas conseguiria ser a Sra. Harkness, assegurar-se-ia de conceber uma criança e casar-se com Jack. Ele seria seu, nem que fosse por obrigação.
Cansado e sonolento, retrocedeu até sair do interior da mulher e deixou-se cair sobre o leito.
― Ianto, não me abandones… ― Abraçou a cintura de Gwen, encostando a cabeça sobre as costas dela. ― outra ve…
"Não voltarei a cometer o mesmo erro. Esta vez saberás que tiveste sexo comigo, não regressarei a casa esta noite." A ex-polícia moveu-se entre os braços do imortal, pousando a cabeça no seu peitoral. "Vejamos como reages amanhã."
No entanto, quando o sol raiou e ela se levantou, o Capitão Harkness já havia sumido do quarto do hotel.
"Pelo menos, tenho a certeza de que ele sabe…"
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31 de Outubro de 2012
Gwen abre o envelope da Clínica e sorri diante dos resultados das suas análises clínicas. Os seus esforços haviam enfim dado frutos.
A mulher levou uma mão ao ventre ainda plano, maquinando a melhor forma de dar a notícia ao futuro papá.
― Em breve… "mas não hoje." ― concluiu na sua mente. ― "Hoje é o dia de Toshiko e do pequeno Tommy. Logo, logo surgirá a oportunidade ideal de contar a minha boa nova…"
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Novembro de 2012
Jack levantou-se com preguiça, ignorando o corpo quente e amoroso que descansava no leito. Vestiu-se com lentidão, pegou nas chaves e regressou à Torchwood, precisava de rever uns relatórios ainda essa semana e estava com insónia, pelo que o trabalho vinha mesmo a calhar.
Entrou no Hub, ainda era madrugada, deparando-se com um sonolento Nicolò a preparar um lanche. O nobre estava a hospedar-se no quarto que fora um dia de Jack e Ianto, até regressar a Veneza, visto que o Capitão nunca mais dormira de facto lá, passando de hotel em hotel, de cama em cama e de amante em amante.
― Bom dia, Niccolò! ― cumprimentou o imortal, apropriando-se de uma torrada, esticando-se por cima do ombro do jovem, que comia tranquilamente sentado à mesa.
― Bom di… ― O aroma a perfume barato roçou contra o nariz sensível do menor, que franze a testa com irritação. ― Esse perfume é novo? ― perguntou com a voz embebida em sarcasmo ― Um pouco feminino para o seu gosto, não é mesmo, Sr. Harkness?
― Acaso está com ciúmes, meu caro Nicolò? ― perguntou divertido.
― Claro que não. ― O veneziano bufou em desagrado.
― A sério? Eu iria jurar que isso soou como um amante ciumento… ― Aproximou-se ao menor, encarando os olhos do outro, que tentava desviar a mirada em vão.
"Talvez… Poderia funcionar…", Jack decidiu testar a sorte, desceu o rosto, juntando os seus lábios num toque casto e demorado. Separou-se por fim, aguardando o arranque de fúria do jovem homem, mas este permanecia ali… parado… estático… petrificado…
Nicolò fechou os olhos perante a enchente de imagens que percorreram todos os cantos da sua mente, destravando portas fechadas e libertando memórias até então esquecidas.
Quando foi que me apaixonei?
No primeiro abraço?
No primeiro beijo?
No primeiro olhar?
No primeiro toque?
Não sei!
Só sei que me apaixonei por ti, Jack.
O jovem abriu os olhos, brilhantes de mudo anseio. Um sorriso de tonto enamorado toma posse dos seus lábios… mas algo escurece o seu rosto. Amantes… Montes e montes de amantes… Jack Harkness não fora exatamente uma pessoa fiel durante os últimos tempos, nem mesmo para com os seus amantes mais recentes. Quantos haviam sido? Quantos homens e mulheres tinham desfrutado das suas atenções e perícia na cama?
O imortal tenta aproximar-se a Nicolò, mas este levanta-se, de um salto, da cadeira e caminha na direção contrária, nem se dignando a dirigir-lhe uma única palavra.
"Lei de gelo? Mas porquê? Ele parecia ter aceite bem o beijo… então…!? Porque me está a ignorar agora?", matutava o Capitão na sua cabecinha pensadora. Espantou as más energias e seguiu o veneziano até ao escritório.
― Espera, Nicolò! ― Agarrou-o pelo pulso, puxando-o de encontro a si e espalmando ambos os peitos, fazendo possível sentir como os corações batiam em uníssono. ― Diz-me o que…
― Cuidado, Sir, isso é assédio sexu…
― Ianto?
― Não sei do que está… ― A sua boca viu-se repentinamente invadida por uma língua ávida de contacto.
― Só o meu Ianto diria algo assim ― constatou o maior, abandonando o interior da boca alheia e abraçando o seu amor e beijando-o uma vez mais, sendo correspondido desta vez.
― Não penses que me esqueci das tuas andanças. Pareces ter… encontrado… hm… uma boa dose de… hmm… consolo!?
Alerta Spoiler
Informações retiradas de doctorwhofanon wikia sobre os comics, novelas, séries, etc da saga Doctor Who. Se não desejam saber os dados que ainda não foram revelados na série televisiva, tais como o nome do Doctor, não leiam
Sigam com caução e sobreaviso
Quando o Master tinha quinze anos, vivia em isolamento, pois deixou a Academia para Jovens Time Lords algum tempo antes, devido a que era vítima de bullying. Ao não conseguir ignorar o bater dos tambores na sua cabeça, Koschei, nome de nascimento do Master, enlouqueceu e passou a ser ensinado em casa por um professor privado, que acabou por desistir de o instruir.
Trancado no seu quarto, Koschei decidiu suicidar-se, mas Theta Sigma, alcunha para Thetatropoloussvsgholtazsr Sigmaakronosvexsithkada ao ser praticamente impronunciável, arrombou a porta e salvou-o, injetando-lhe um soro de emergência que disparou a primeira regeneração do que viria a ser o primeiro Master.
Theta Sigma só passou pela sua primeira regeneração aos dezanove e anos e virou eremita, após encontrar-se com o primeiro mestre, sentindo-se culpado e apelidando-se "The Hermit". Só depois de sair de Gallifrey para se aventurar como fizera o seu pai Chronos é que este se fez chamar "The Doctor", pois ele "curava" coisas, virando assim um pacifista.
O nome indicado acima como sendo o nome de nascimento do Doctor é uma suposição feita por fãs, a partir da alcunha pela qual era chamado na Academia e porque foi afirmado que o nome dele era longo e difícil de pronunciar.
