Renascimento

IX

Uma semana havia passado desde que Jack e Nicolò tinham formalizado oficialmente o seu relacionamento e Toshiko não poderia estar mais feliz por ter o seu amigo de volta. O mesmo não se poderia dizer de Gwen que aproveitava cada segundo do dia para esfregar na cara do veneziano que era ela e não ele quem carregava o filho do imortal.

— Ainda aqui estás? — exclamou com desdém a ex-polícia — Acaso não entendes que sobras aqui? Realmente vais deixar que o meu filho cresça sem pai?

— Cala-te de uma vez, Gwen! — interrompeu o Capitão Harkness, cansado de ouvir aquela maldita lengalenga todo o santo dia.

Ainda quando o seu namorado afirmasse que estava bem com a situação, este sabia que tal facto não era verdade. Doía-lhe ver o seu amado Nicolò cair numa espiral depressiva sempre que era acusado de destruir o futuro de uma criança que ainda nem sequer havia nascido.

— Já te disse que vou pagar a pensão alimentar que o tribunal estipular e que me irei assegurar de ser uma presença constante na vida da criança. Pelo que nem sequer penses em colocar ideias estapafúrdias de ódio insano contra Nicolò na cabeça do bebé, mal ele nasça.

Gwen foi impedida de expressar acidamente a sua opinião, devido aos alarmes que entretanto dispararam loucamente, causando-lhe uma leve dor de cabeça.

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Exausta após uma longa jornada, Gwen arrastou-se até ao apartamento que compartilhava com o seu noivo, sendo saudada por uma visão nada encorajadora.

— Podes explicar-me isto, Gwen? — perguntou Rhis, estendendo-lhe um envelope já aberto.

— Quem te deu a liberdade de ler a minha correspondência!? — gritou a mulher fora de si, despejando a sua frustração em cima da pobre vítima, que nada tinha a ver com os seus problemas.

— O que é que esperava que eu fizesse ao ver uma carta registada do tribunal entre a correspondência? Estava preocupado, pensei que era algo grave.

— Não tem nada a ver contigo, Rhis. Devias manter-te afastado dos meus assuntos pessoais — reclamou Gwen, ainda quando soubesse que era ela quem estava errada e não ele.

— Sim, já notei. A notificação foi muito esclarecedora em relação a esse tema. Mas só por curiosidade… Quando é que pretendias dizer-me que estás grávida de outro homem, Gwen? Porque é óbvio que não é meu, caso contrário, Jack Harkness não teria iniciado uma ação judicial para estipular o valor da pensão alimentar e o regime de visitas.

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Tudo parecia estar a correr bem…

Tinham capturado o alienígena que estava a aterrorizar as crianças que ousavam adentrar-se na suposta mansão assombrada da cidade, quando o inesperado ocorreu…

O alien não estava só e haviam falhado em notar o companheiro da criatura.

A luta iniciou e Gwen ficou encarregue de vigiar o prisioneiro que fora previamente sedado, evitando assim um confronto direto com o inimigo.

Distraída com as memórias da discussão que tivera horas antes, com o seu agora ex-noivo, a mulher não se apercebeu que o efeito do anestésico estava a passar e viu-se atacada à traição pelo prisioneiro.

— Gwen! — gritou Toshiko, levando as mãos ao rosto e cobrindo a boca, enquanto observava horrorizada, o modo como o braço do alien atravessava o ventre da gestante.

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Dois dias depois, a ex-polícia abriu finalmente os olhos, deparando-se com o branco teto do hospital universitário.

As notícias que recebeu pouco depois, foram de longe um dos momentos mais chocantes da sua vida.

— N-Não pode ser… — soluçou Gwen, acariciando o seu ventre que, segundo o médico que a atendera, era agora tão seco e estéril, quanto o Deserto do Sahara.

O golpe havia desgarrado os seus órgãos internos… O veneno havia-se espalhado rapidamente pelo útero... Não restava nada que pudessem fazer para salvar o feto.

Numa última e desesperada tentativa para salvar a vida da mãe, e para que esta não perecesse com o bebé, o médico vira-se obrigado a realizar uma cirurgia de emergência para retirar todo o seu sistema reprodutor interno, de forma a que a infeção não se alastrasse para o resto do corpo.

Pela sua obsessão e ambição, Gwen perdera a possibilidade de alguma vez poder voltar a ter filhos próprios. Nunca mais poderia engravidar…

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Dezembro de 2012

Fora apenas quando a poeira assentara que Torchwood começara a questionar onde andava o Doctor, pois já não o viam à algum tempo. Já haviam passado meses desde que Jack o expulsara do Hub à base de força bruta.

Enquanto isso, Gwen continuava perdida nos seus pensamentos de remordimento, questionando sobre o que fazer com o resto da sua vida.