Lancei um olhar irritado para a cena que se desenrolava à minha frente. Não era isso o que eu tinha planejado quando me reuni com Tonks e Marlene. Elas tinham chegado mais cedo, a pequena psicopata quase puxou minhas orelhas, mas, como eu era muito mais rápida do que ela, não houve estragos. Seu cabelo tinha mechas verdes - pouco profissionais - e ela usava um brinco no nariz, que era de pressão. Tão logo chegou ao meu quarto, Tonks abriu a boca e não parou mais enquanto Marlene apenas se jogou na minha cama, entretida com seu celular. Embora eu não quisesse admitir, precisava de ajuda, principalmente depois de Potter ter me abordado no intervalo. Eu não conseguiria fazê-lo sofrer e desistir se não soubesse como agir.

Depois de meia hora com ela falando sobre como minha atitude havia sido frágil e que eu não sabia como lidar com um rapaz feito Potter, Tonks finalmente chegou à parte que interessava. Ela não pode dizer mais nada, contudo, dado que meu irmão irrompeu no meu quarto, procurando por Bob e gritou assim que viu a menina. Um grito indignado. Sim, não havia nenhum amor perdido entre os dois. Papai subiu mais rápido do que humanamente possível e acabou chamando todo mundo para tomar café. Quando protestei, ele me mandou deixar de ser mal educada. Eu, mal educada? Francamente!

_Você é amiga do Severus, Nymphadora?

Papai foi a única pessoa que Tonks não pediu para não chamá-la pelo nome. A pergunta fez a psicopata soltar um riso borbulhante ao mesmo tempo que meu irmão dizia que ele preferia arrancar um dedo fora. Ele foi muito explícito, segurando uma faca para enfatizar seu ponto.

_Bem, isso responde a minha pergunta - papai comentou, tirando a faca das mãos de Sev e a usando para cortar o pão.

_Esse bolo está delicioso, sr. E. Lily não puxou para você nisso.

_Hey! - eu me defendi - não é minha culpa se o seu forno estava com defeito.

Marlene bufou, zombando da minha defesa. Então, ta, eu era uma vergonha na cozinha, qual era o problema? Aliás, nós nem deveríamos estar ali e sim no meu quarto, trabalhando na loucura em que me meti.

_Pai, você viu Bob?

Pai me lançou um olhar de súplica, sem saber onde o maldito camaleão havia se metido. Aquele bicho vivia perdido e sempre era encontrado nos lugares mais inusitados.

_Quem é Bob?

_O lagarto.

_Camaleão - corrigi. Marlene sempre, sempre, dizia que ele era um lagarto - pai, nós temos que subir agora.

_Espere, eu tenho que comer esse pão - Tonks pediu, separando cinco fatias. Sev lançou um olhar de desgosto para ela - o que é?

_Você não tem comida na sua casa, não?

Por mais que meu irmão tivesse um ponto, ele não deveria ter dito isso na frente do pai. Ele nunca perdoaria uma grosseria.

_Severus Evans! Não foi essa a educação que eu te dei! Peça desculpas. Não, peça desculpas agora! A jovem não veio aqui para ser ofendida desse jeito.

Olhei incrédula para Tonks quando ela assumiu a expressão mais inocente possível, piscando seus olhos para cima do meu pai.

_Está tudo bem, senhor Evans, ele não pode saber que a minha casa está uma bagunça já que meu pai morreu há três meses e minha mãe está em depressão.

Ela era boa, reconheci, a boca aberta em choque. O olhar no rosto do meu pai foi impressionante e, depois de pedir desculpas, Sev foi obrigado a voltar para o quarto e procurar por Bob. Ele sorriu mais uma vez para Tonks, empurrando outra fatia de pão em sua direção e veio se despedir de mim com um beijo na bochecha, após dar uns tapinhas no ombro de Lene, a qual parecia tão chocada quanto eu.

_Uau... Isso foi muito bom.

Tonks riu, seus olhos fixos na comida antes de voltá-los para mim, sua expressão neutra.

_Você deveria aprender.

Revirei os olhos. Embora, sim, eu deveria aprender. Nós voltamos para o meu quarto e logo eu comecei a narrar o encontro de sábado. Tonks não parecia muito surpresa, contudo.

_Eu ouvi James contar aos meninos.

Merda. Então era ruim mesmo. Marlene se sentou ao meu lado, olhando para Tonks como se ela fosse alguma experiência científica. Ela sorriu para mim.

_Sirius Black é um deles - assenti, eu sabia disso - ele flerta comigo sempre.

O que não me surpreendia. Marlene era bonita e Black era um prostituto, se esses dois se encontrassem, flerte era o mínimo que poderia acontecer.

_Você está me dizendo que não flerta de volta? - difícil de acreditar.

Ela riu, reconhecendo. Por favor, ela adorava uma ovelha negra, era mais uma forma de confrontar os pais dela. Olhei para cima quando ouvi Tonks pigarrear.

_Vocês acabaram de falar sobre Sirius? Sem pressa, você só tem que dar uma lição em um cara.

_Puxa, não fui eu que enrolei lá embaixo - cruzei os braços - qual é a sua dica então?

Ela puxou uma cadeira, as mãos juntas com os indicadores se tocando, seus lábios comprimidos, a expressão pensativa. Lene riu baixinho, cutucando-me.

_Bem, agir como Megahn não vai funcionar.

_Eu não... Eu era? - Deus, que nojo. Acho que vou vomitar.

Tonks assentiu, ignorando as minhas palavras de nojo e a minha ânsia. Ela as descartou com um aceno de mão, cruzando as pernas e sentando sobre elas, seu jeans rasgado mostrando os joelhos.

_James tem prática em lidar com meninas carentes e grudentas. Isso não vai rolar.

_Então seja forte e independente - Marlene forneceu - vença-o.

Tonks assentiu, ainda que sua carranca permanecesse.

_Sim, escolha alguma atividade na qual você possa vencê-lo. James odeia perder... Mas não é só isso... Se Malfoy escolheu você para a aposta, significa que ele acredita que James irá perder - me abstive de dizer que isso era óbvio - se ele acredita nisso, deve ser porque você, sendo você, poderia repelir o meu primo.

Eu não sei se gostava muito do que ela estava dizendo nas entrelinhas sobre mim. Marlene, contudo, se empolgou ao meu lado.

_Eu vejo! Você deve ser você! Nós deveríamos ter pensado nisso antes, é brilhante.

Estreitei meus olhos, não gostando muito da sugestão. Ser eu mesma significava ficar exposta e se envolver. Eu não queria me envolver, contudo, ser eu mesma significava ser um pé no saco, irritadinha e sabe tudo. Palavras de Tuney, é claro. James Potter não aguentaria ficar com uma garota que não o bajulasse, que não massageasse seu ego e fosse melhor do que ele. Era arriscado, mas, afinal, já não era desde o começo? Eu sabia que não seria um mar de flores assim que aceitei entrar nessa.

_Mesmo não gostando do que vocês estão dizendo, eu acho que pode dar certo... No entanto, há algumas coisas que...

_Você não precisa fazer isso o tempo inteiro. Você pode alternar! - Lene exclamou, pulando para fora da cama - num momento você é doce, no outro, amarga. Quente e fria, grudenta e frígida... Uau, isso vai enlouquecê-lo!

_Isso vai matá-lo! - Tonks pulou, seus olhos caindo no relógio - droga, eu tenho que ir. Vejo vocês depois.

Ela fez um gesto vulcano em nossa direção e quando abriu a porta, revelou a figura da minha irmã agachada e com a cabeça inclinada à porta. Arqueei uma sobrancelha, ignorando o grito de susto que a pequena psicopata emitiu.

_Cruz credo, volta pro mar, oferenda.

Marlene explodiu em risadas, principalmente pela expressão de ofensa que Tuney adquiriu.

_Quem é você?

_Quem é você, cara de cavalo? Não sabe que é feio espionar as pessoas? Vocês a conhecem? - assenti, as palavras de Tonks fazendo Lene rir ainda mais - okay. Até.

E assim o furacão que era essa menina desapareceu da nossa vista. Minha atenção se voltou totalmente para minha irmã.

_Precisa de alguma coisa, Tuney?

Ela revirou os olhos, ignorando minha pergunta e saindo de cena. Quando terminou de rir, lágrimas escorrendo pelo rosto, Lene fungou para mim.

_O que você acha que ela estava fazendo?

Dei de ombros, sem saber, mas desconfiada. Talvez eu devesse manter um olho sobre ela, só para ter cuidado.

_Não que isso importe agora. Na verdade, eu tive algumas ideias... Para a vingança contra o Malfoy, é lógico.

Animei-me de imediato.

_Espero que você esteja pensando em algo horrível e doloroso.

Eu tinha certeza de que o sorriso da minha amiga espelhava o meu. Loucura.

_Você me conhece. E o melhor de tudo, nós vamos por partes. Como diria esse grande filósofo.

_Sim, nunca despreze a sabedoria de um assassino em série que estripa suas vítimas.

A minha reação ao desprezível furão teria que ser épica e toda escola deve ver e ouvir de camarote. Eu nem precisava perguntar se Lene entraria nesse comigo, ela nunca perderia uma boa armação. Era quase como se tivéssemos doze anos outra vez, só que muito mais divertido.

~O~

Ao contrário de Potter e companhia, eu não armava para cima de pessoas inocentes, nunca fiz também, dado que as nossas vítimas sempre foram os garotos idiotas da rua de baixo. Eu poderia admitir que algumas brincadeiras dos marotos eram divertidas, mas havia outras... Bem, nem todos conseguem crescer, não é?

Não imaginei que toda essa atenção de Potter em mim fosse passar despercebida - as pessoas sussurravam muito alto - mas nunca imaginei que, ao chegar ao colégio na quarta-feira, eu encontraria Megahn Chase à minha espera. Ela usava o uniforme, embora o odiasse, enfeitado com pulseiras e colar de ouro, além de algumas coisas que eu nunca conseguiria identificar. Pela expressão dela, eu imaginei que não seria uma conversa feliz. Suspiro foi pouco, eu não tinha a mínima paciência para lidar com ela, toda a minha energia estava focada em como eu deveria agir com Potter e na pequena traquinagem que iria aplicar em Malfoy.

_Perdeu alguma coisa no meu rosto?

Ela não estava sozinha. É claro que não, sempre havia aquela menina com ela que só usava verde e a outra que vivia de azul. Elas deveriam ser as meninas super poderosas ou algo do gênero. Docinho, que tinha olhos de peixe, foi a que mais se ofendeu com a minha falta de educação. Lindinha, que tinha cabelo escuro, me olhou como se eu fosse uma mosca indesejável.

_Lily Evans, não é?

Soltei minha mochila no chão, revirando meus olhos diante das pessoas que casualmente pararam ao redor. Ninguém quer perder o show pelo visto.

_Sim.

Eu tinha que tentar ser calma. É por isso que não me misturo, meu temperamento poderia me custar a bolsa e eu simplesmente não podia perdê-la. Se esse confronto fosse em qualquer outro lugar... Mas é claro que Megahn escolheria o colégio, ela não era tão burra quanto parecia.

_Eu me senti na obrigação de dar um conselho a você.

Revirei os olhos. De novo. Ela estava seguindo o script de um filme americano de ensino médio, pelo amor de Deus. Talvez eu tenha me enganado e ela seja apenas burra mesmo.

_O quê? - joguei a minha franja para frente - você veio me dizer para ficar longe do James por que ele é seu? Por favor, não me faça perdeu meu precioso tempo.

Ignorei a expressão de nojo em seu rosto, voltando-me para a exclamação de horror que Docinho fez.

_James é dela! Eles namoraram, você não sabe?

Olhei ao redor, perguntando-me quando minha vida tinha entrado em decadência. Eu estava estrelando um ridículo clichê.

_Eu acho que todo mundo sabe disso, Docinho. Assim como todo mundo sabe sobre como eles terminaram - olhei para Chase, nojo e choque agora em seu rosto - isso aqui não é um filme de Hollywood, okay? Siga em frente, você precisa se libertar dessa obsessão. E o que vocês estão olhando afinal?

Os outros alunos cochicharam, afastando-se de onde estávamos. Minha vontade era fazer Potter sofrer por causa da sua ex-namorada idiota. Antes que eu pudesse pegar minha mochila de volta e ir para a sala, alguém pegou no meu cotovelo. Fechei os olhos, controlando o impulso de dar um safanão na masoquista que estava me segurando.

_Só pra você saber, Evans, isso não acaba aqui.

Isso já estava saindo do controle de tão ridículo e esdrúxulo que se tornou. Que vergonha, eu nunca pensei que gente assim existisse.

_É mesmo? O que você vai fazer? Jogar sangue de porco no meu cabelo? Inventar uma mentira e separar James de mim? Eu acho que vou vomitar.

Sim, eu me recuso a deixar fatos como esse acontecerem. Se eu soubesse que entrar nessa me levaria a participar de cenas clichês de filmes, eu teria pensado duas vezes antes de aceitar.

_Megahn, as outras líderes estão esperando por você.

A voz era baixa e tranquila. Meus olhos reconheceram a figura de Héstia Jones, uma das garotas que vivia com os marotos. Eu não acho que ela já tenha saído com um deles, mas o que eu sei, afinal? Vi com interesse renovado como a garota ao meu lado ficou assustada, soltando meu braço e saindo sem dizer nada, com as outras duas, provavelmente prontas para enfrentar o Macaco Louco.

_Eu sinto muito por isso. Megahn é... Ela não sabe bem o que está fazendo.

Arqueei uma sobrancelha, mas ela não elaborou mais. Com um suspiro, peguei minha mochila do chão, jogando-a nas costas. Decidi que era melhor ignorar quando, mais uma vez, alguém pegou no meu cotovelo. Por favor, não deixe que isso volte a ser como um filme, eu não poderia suportar.

_A propósito, eu não ouvi coisas muito boas sobre você, Lily.

_Eu posso dizer o mesmo.

As más línguas diziam que ela dormia com os quatro rapazes. E ela entendeu a que eu me referia. Com um sorriso forçado - eu ainda teria dor de cabeça - tirei sua mão de cima de mim.

_Desculpe - ela murmurou, suas bochechas ficando vermelhas - eu sei que não. É por isso que eu acho que a gente deve se dar uma chance, não é?

Pisquei algumas vezes, um pouco confusa com o que ela poderia estar dizendo.

_Você sabe, eu sou amiga de James e, de uma forma ou de outra, estarei por perto, então, a gente tem que se dar bem.

Ela era irritantemente agradável, ainda mais pelo fato dos olhos dela serem enormes, assim como os cílios. Ela parecia ter saído de um desenho animado.

_Eu só peço que você seja boa pra ele. James é um cara legal.

Assenti, sabendo que se abrisse a boca seria apenas para dizer besteira. Primeiro, eu não queria nem passar tempo com ela ou com Potter. Segundo, eu seria muito boa para ele, esperemos para ver.

Passei pelos corredores, ciente de alguns olhares que recebia. Já estava sentindo falta de ser anônima. De alguma forma, algo que Jones dissera estava me incomodando, mas eu não conseguia colocar o dedo no ponto exato. Repassei a conversa algumas vezes em minha cabeça, mesmo assim...

Mais tarde, após falar com Edgar Bones sobre o clube de química, corri para a aula de artes, esperando que professora Trelawney estivesse de ótimo humor hoje. Tão logo deu o intervalo, marchei para o refeitório, respirando fundo. Eu tinha uma ideia pecaminosamente genial. Daqui para frente, eu me sentaria com os marotos, o que abria uma possibilidade enorme de ações e reações. Veremos como eles reagiriam a isso.

Antes que chegasse ao corredor principal, encontrei diretor Dumbledore olhando para o quadro de avisos. Ele tinha uma expressão compenetrada, uma carranca aparecendo, enquanto coçava o queixo. Acho que de todas as pessoas que conheci, nenhuma delas superava o velho diretor em personalidade e estilo. Ele e Slugohrn tinham um vestuário muito estranho, o qual envolvia longas capas, o que acabava provocando piadinhas por parte dos alunos.

_Está tudo bem, diretor?

Ele voltou para mim seus olhos azuis, as rugas aparecendo enquanto sorria. Ele me parecia o avô que todo mundo gostaria de ter.

_Senhorita Evans! Está um lindo dia, não é mesmo? Fiquei sabendo que se inscreveu para o clube de química esse ano.

Eu nunca compreenderia como ele conseguia decorar o nome de todos os alunos, principalmente da pirralhada, mas esse deveria ser um dos seus talentos. Se eu fosse diretora, vocês me veriam chamar os jovens de "coisinha", "fulano", "você aí de olhos caídos". Isso me dava a certeza de que meu futuro não estava no meio acadêmico.

_Sim, eu achei que seria melhor do que o jornal.

Ele assentiu, seus olhos voltando para o mural mais uma vez.

_Talvez, embora sempre haja leitores interessados sobre a cantina da escola.

Meio que bufei, tossi e ri. Você saberia se ele estava brincando pela forma como os olhos brilhavam. Dumbledore deve ter sido uma criança fofa. Eu acho. Credo, que pensamento meio medonho.

_Ou sobre o aumento de vagas no estacionamento - murmurei - o que o senhor está olhando?

Não havia nada demais ali, apenas um velho papel sobre os testes das líderes de torcida.

_Estou pensando em uma festa, na verdade.

Um calafrio me percorreu. Eu odiava festas, pura e simplesmente. Elas eram barulhentas, cheias e fedidas e sempre, sempre, no final alguma coisa dava errado.

_Uma festa? Por quê? - tentei não me queixar muito, mas era meio impossível porque, mesmo que eu não fosse, todo mundo só falaria sobre isso durante semanas.

_Uma espécie de confraternização com os alunos da Durmstrang. Depois do jogo, é claro.

_Poderia acabar em briga, não poderia?

Dumbledore sorriu para mim quase como se estivesse esperando pela pergunta que fiz, sua longa capa verde cintilando um pouco. Será que ele era gay? Ele bateu de leve no meu ombro.

_Poderia, mas acredito que não acontecerá. Bons estudos, srta. Evans. Gostaria de um caramelo? Não, bem, eles são realmente deliciosos, mas deixe para a próxima.

Eu o observei partir com uma dose crescente de desgosto. Uma festa? E logo após o jogo contra a Durmstrang? Potter não estaria feliz, dado que ele iria perder a aposta. Esperemos que o idiota não perca o jogo, pelo menos, porque se tem um time que eu odeio é a Durmstrang. Eles são desorganizados, enormes e cheios de si, comemorando cada ponto como se acabassem de ganhar a partida. Perdedores.

Dando um sorriso brilhante na direção em que Megahn estava, eu caminhei até a mesa dos rapazes. Potter e Lupin pareciam estar discutindo, enquanto Pettigrew tinha seus olhos bem treinados na comida. Black, por sua vez, estava rindo ao lado de Jones; bem, eu não esperava por ela, mas vamos lá. O quão difícil pode ser?

_Olá!

James ergueu a cabeça de imediato, tossindo em seguida. Abri um sorriso brilhante, divertindo-me um pouco com sua reação.

_Lily, oi. Você precisa de alguma coisa?

Espalmei a mão em minha bochecha, dando de ombros.

_Não, só de um lugar para sentar.

Fui capaz de captar a breve olhadela que Potter atirou para Black, o que me deixou um pouco confusa. Ele ainda estava na aposta, não é? Por que estaria tão hesitante em me deixar ficar com eles? Isso o faria pensar que eu estava baixando a guarda.

_É claro! - Jones exclamou, dando-me um espaço ao seu lado - o que você vai comer?

_Estou sem fome. Você está surpreso, James? Eu espero que seja uma boa surpresa.

Na disposição em que estávamos, Potter não estava à minha frente, mas sim um pouco mais para o lado, perto de Lupin. Ignorei Pettigrew e a risadinha que ele deu.

_É ótima! - ele exclamou, dando um olhar irritado para o menino gordinho - eu achei que você ainda estivesse brava comigo.

Fiz um gesto de descaso com as mãos.

_Águas passadas, eu não gosto de guardar rancor. Muito.

_É o que eu vivo dizendo, ódio só faz mal para quem o guarda. Você precisa levar uma vida despojada desses sentimentos ruins e buscar a transcendência plena.

Meus olhos podem ter tremido um pouco diante da conversa que Jones estava jogando.

_Não, ela não usa drogas - Black forneceu, o canto de sua boca um pouco mais para cima. Não sei se era um sorriso - ela é budista.

Uau.

_Isso é raro. Você medita também?

Ela assentiu com alegria, talvez feliz por alguém estar lhe perguntando sobre isso.

_Apenas duas horas por dia. E não se deixe enganar, meditar não é cruzar as pernas e pensar em nada, eu posso te mostrar se você quiser.

_Eu não sei...

_Vamos lá - o batom dela vibrou em meus olhos - é maravilhoso, revolucionou a minha vida.

_Pelo amor de Deus, Hesty! - Remus bateu o garfo no prato - você começou há um mês.

Ele estava comendo macarrão com bacon, o que me deu fome. Eu deveria comer sim e muito. Jones se levantou um pouco contra a mesa, inclinando-se sobre ela.

_Não seja assim, Remus, você não entende.

_Realmente - minha boca se abriu antes que eu pudesse pensar - você tem de começar em algum lugar, não dá para se tornar Gandhi de um dia para o outro.

Ela bateu a mão sobre a mesa. Com força.

_Obrigada! Vou buscar meu prato.

Ela tinha que praticar um pouco mais, eu pude sentir umas vibrações raivosas saindo dela naquele momento.

_Ótimo, você acabou de dar corda pra ela.

Lupin parecia meio tenso e babaca. Quer dizer, a menina poderia fazer o que quisesse sem dever nenhuma satisfação a ele.

_A vida é dela, não é?

Minha atenção se voltou para Black, o qual estava tossindo não muito discretamente para o lado.

_É verdade o que eles dizem sobre você? - fiz a melhor expressão inocente possível.

_O quê? - suspeita havia inundado seus olhos.

Baixei minha voz em um sussurro, quase como se estivesse confiando a ele um segredo. Lupin não estava mais ali, talvez ele tivesse ido atrás da Jones... Hey, isso sim é suspeito.

_Que você tem todas as DSTs do mundo?

Pettigrew cuspiu seu suco - de laranja ou tangerina - em cima da mesa, os olhos escuros bem arregalados, a boca aberta em choque. Black parecia igualmente petrificado.

_Vou tomar isso como um sim.

_O quê? Não! - ele gritou, seu cabelo balançando de um lado para o outro, eu posso ter sentido um pouco de inveja nessa hora - quem...?

Potter bateu no ombro dele antes que pudesse se complicar ainda mais.

_Por que você e Peter não vão indo?

Levantei um sobrancelha. Sutil, Potter, muito sutil.

Assim que os dois rapazes nos deixaram, voltei-me com interesse para Potter, esperando pelo que ele poderia ter a me dizer. Ele se mostrou muito ocupado olhando para uma lasca de madeira na cadeira antes de olhar para mim. Sorriu.

_Você não está usando o anel.

Revirei os olhos.

_Por favor, jogue isso fora. Você tem algum problema? Como aceita usar uma aliança com uma garota que mal conhece? Eu poderia ser um serial killer, sabia disso?

Ele riu, dando de ombros. Seus olhos piscaram com malícia em minha direção.

_Eita, você fica ainda mais bonita assim.

Atirei-lhe um olhar mordaz.

_Você terá que fazer melhor do que isso. E eu já escolhi o nosso próximo encontro.

Potter piscou.

_Nós teremos um próximo encontro?

_Você não quer?

_É claro que sim! - ele finalmente abriu aquele sorriso enorme, capaz de cegar alguém - desde que possamos ir ao cinema também, vai passar um festival de cinema japonês e...

Eu tenho certeza de que ele parou por minha causa. Oh, meu Deus! Eu não sabia sobre esse festival, sabia sim, mas achei que fosse abrir somente no mês seguinte. Tinha aquele filme sobre um menininho de cinco anos que encontra um bicho estranho que eu queria muito ver.

Quando Potter entrou novamente no meu foco, ele tinha um olhar estranho sobre o seu rosto. Acalmei minha empolgação, tentando recuperar um pouco de controle.

_Tudo bem, vai dar certinho com o que eu planejei. Até logo.

Ignorei quando ele me gritou, correndo até o banheiro. Lá, tirei meu celular do bolso, pesquisando sobre o festival. Isso era incrível! Eu iria assistir A viagem de Chihiro de novo hoje. Eu marcaria presença lá a semana inteira, mesmo que... Ah, não. Quinta à noite eu tinha que ajudar Frank na galeria. Merda. Se eu fosse rápida, poderia ajudá-lo e ainda conseguir ir ao cinema, eu só teria que ser muito, muito ligeira.

Terça-feira. Okay. Agora eu tinha que me preparar para agir contra um certo loiro idiota. Malfoy não saberia o que o atingiu. Rá!

~O~

_Não se apresse, eu mando uma mensagem para você quando acabar.

Lene revirou os olhos, puxando os seios para cima, seu sutiã roxo à mostra. Levantei uma sobrancelha, o que a fez bufar.

_Eu tenho que distraí-lo, não é?

Acenei com a mão, mudando-me para o banco de trás. Eu a ouvi conversar com alguém pelo interfone e senti quando o carro voltou a se mover, enfiando-me debaixo de um cobertor e indo para o chão. Já estava roendo a terceira unha quando ela riu alto, saindo e batendo a porta com força. Descobri-me, olhando por cima do banco com cuidado. Marlene estava lá, uma das mãos na cintura, empurrando seu busto no rosto de Malfoy. Se ele continuasse tão distraído assim, seria moleza. Esperei mais um pouco, vendo-os se locomover mais para trás e ele pegar alguns papeis, olhando descaradamente enquanto ela se inclinava. Vomitar não faz parte do plano, então, decidi ir adiante; abri a porta com cuidado e ao fechá-la, Lene tossiu. Alto.

Essa era a primeira parte da minha vingança. Segurando minha mochila como se ela fosse um ovo Fabergé, engatinhei até a traseira do conversível do Malfoy. Ele era uma beleza, preto, com teto móvel e, agora, com uma nova placa. Assim que estava em posição, mandei um sms para minha amiga, vendo como ela conduziu Malfoy para dentro da mansão. Felizmente, a família dela e a dele eram chegadas, garantindo-nos uma entrada fácil. Ajudava que ele não soubesse sobre a nossa amizade também, então, Lene não seria suspeita.

Como a garagem tinha revestimento sonoro, não me preocupei com barulho. Algum tempo depois, eu havia tirado a placa do carro e colocado uma nova. As coisas que a gente aprende na rua... Talvez devesse fazer parte dos requisitos para uma boa faculdade.

_... Tem que dar uma volta no meu carro, gata. É incrível.

Merda, merda, merda. Olhei ao redor, procurando por um esconderijo, escondendo a antiga placa na mochila, assim como todo o material que eu usei.

_Eu não sei se quero andar de carro, Lucius. Nós não podemos voltar?

_Não. Venha ver a minha beleza, ela é incrivelmente rápida.

As vozes estavam cada vez mais perto e, num impulso, joguei-me para debaixo do carro. Brilhante! Eu só tinha de torcer para que ele não ligasse o carro e saísse. Pude ouvi-los entrar no carro e tentei rolar para o lado do carona, rezando para que Malfoy não me visse ou que algum milagre acontecesse.

_Merda!

Apurei meu ouvido após esse grunhido que minha melhor amiga deu, mas tudo o que ouvi foi um "Oooh!" e som de desentupidor de pia. Segurando a vontade de vomitar pela segunda vez, rolei de volta para o lado do motorista, saindo dali e engatinhando até onde Lene havia deixado o carro. Dei uma olhada por cima do ombro, mas era melhor não ter feito isso, já que tive ânsia pela terceira vez. Marlene estava sugando a vida fora de Malfoy pela boca e eu tinha certeza de que a mão dele estava nos seios dela. Droga, depois disso ela me cobraria inúmeros favores.

Joguei-me no chão do carro, cobrindo-me até a cabeça e liguei para Lene. Era o sinal para missão cumprida. Eu ainda pude ouvi-la dizer que ligaria para que eles fizessem alguma coisa antes que entrasse no carro e o ligasse. Nós finalmente tínhamos saído quando ela encostou em algum lugar, arrancando meu cobertor fora.

_Você tem noção do que eu tive que fazer?

Acenei para que ela falasse mais baixo, mas isso pode não ter sido uma boa ideia, conforme ela me olhou com ainda mais fúria. Nós estávamos muito perto da mansão Malfoy para eu me sentir segura.

_Eu enfiei a língua na boca dele! Eu terei que passar água sanitária na minha boca!

_Lene, eu acho que nós devemos...

_Você não acha nada! Você me deve, ouviu? Muito.

_Você sabia que era arriscado! - apontei um dedo em sua direção, nem um pouco intimidada pela explosão.

Ela puxou o cabelo para o lado, grunhindo.

_Ele me tateou! Eca! Eu terei que passar água sanitária no meu peito também! Você. .

_Tudo bem! - ergui as mãos em sinal de rendição - dois favores, só isso. Agora dirija, pelo amor de Deus, não quero que Malfoy...

_Olá, meninas.

Eu posso ter gritado. Muito, muito alto, mas, felizmente, Marlene fez o mesmo. O intruso, com a cabeça enfiada pela janela, riu e abriu a porta, deixando-me ver que havia mais alguém com ele. Bem, mordam-me, mas eram Potter e Black.

Olhei ao redor, inconsciente de que ainda estava no chão, o pescoço bem esticado, procurando por qualquer movimento que viesse dos portões Malfoy. Não seria suspeito se ele saísse e encontrasse os dois aqui, não é? Nem um pouco.

_O que vocês estão...

Assim que os portões começaram a se abrir, eu abri a porta do carro e puxei Potter para dentro.

_Entrem logo, idiotas! - sibilei e Black foi realmente rápido ao se postar no banco do carona - e se abaixem.

Marlene acenou pela janela, apontando para o celular. Ela bateu no meu joelho.

_Ele está vindo!

_O que nós estamos fazendo?

_Dirija, mulher. Dirija já!

E ela fez exatamente assim, saindo como se estivesse jogando GTA. Não me surpreenderia se algumas prostitutas aparecessem na calçada, atropeladas. Por causa disso, Potter veio para frente, caindo do banco e parando em cima de mim. No momento, eu estava muito ocupada querendo que parássemos logo.

_Você vai bater naquele homem, você vai bater naquele homem! - Black gritou antes de colocar a cabeça pela janela - Saia da frente, vovô! Isso é tão divertido. Olha só, Prongs, ela dirige igual ao tio Fred, nós sempre achamos que ele fosse único.

Algo me dizia que tio Fred era horrível no volante, mas foi só um palpite. Assim que ela finalmente parou, após passar correndo por um quebra molas (quem precisa de costelas afinal?), fechei meus olhos, minhas mãos apertando o banco. Uma respiração quente na minha orelha fez meus olhos se abrirem, arregalados. Potter estava meio em cima de mim, gemendo baixinho de dor, sua cabeça enterrada na curva do meu pescoço. Era nele que minhas mãos estavam agarradas também, especificamente na sua blusa. Quando ele abriu os olhos, sua expressão deveria refletir a minha, choque. Inclinei a cabeça um pouco para o lado, surpresa ao constatar que seus olhos não eram apenas castanhos. Potter tinha olhos muito bonitos, se eu fosse honesta comigo mesma, alguns pontos verdes brilhavam em meio a cor marrom; nem sabia que isso era possível, mas era bem bonito, quase poético.

Após perceber que ele estava olhando para a minha boca com muito interesse (e sentir uma onda de revolta em meu estômago), tentei empurrá-lo.

_Porra, você... Olá, olá, pombinhos - Black riu ruidosamente, fazendo com que me empenhasse ainda mais em empurrar Potter de cima. Ele fez uma careta de dor e olhou com acusação para o banco da frente. Marlene tinha dado um soco em seu estômago.

_Foi um acidente, okay? Não é culpa minha, Penélope, se você decidiu iniciar a corrida maluca.

_Saia de cima dela, tarado.

Revirei os olhos, finalmente me livrando do peso extra e também subindo para o banco, olhando ao redor. Havia casas ao redor, mas não reconheci onde estávamos.

_Eu, hein, onde você veio parar?

Marlene se voltou para trás, lançando-me um olhar aborrecido.

_Essa não é a rua da sua casa, Lily?

Oh. Era mesmo, mas eu nunca tinha ido por aquela entrada. Ignorei as risadinhas vindas do banco da frente.

_O que vocês estavam fazendo lá? - Potter perguntou, curiosidade explícita em suas feições.

_O que vocês estavam fazendo? - joguei de volta, vendo-o dar de ombros.

_Eu moro naquela rua - Black forneceu com uma pitada de desgosto.

_Meus pêsames - Marlene forneceu, tirando a chave da ignição - o que foi?

Abri a boca, incrédula, e apontei para os dois rapazes que ali estavam. Eu não iria arrastá-los para dentro da minha casa, obrigada, isso seria dar muita munição ao inimigo.

_Eles podem muito bem ir embora sozinhos, ninguém aqui é criança.

_Se você quiser...

_Eu não quero, Black.

Ele riu, dando de ombros.

_Ok. E o que vocês estavam fazendo lá?

Lambi os lábios, sentindo que Potter estava me furando com os olhos de tão intenso que ele me encarava.

_Marlene está saindo com Malfoy.

Puxa, pela cara dela, eu acabei de ficar devendo mais duas. Isso não seria fácil. Vi como ela se encolheu quando Black deu um tapinha em seu ombro, murmurando "meus pêsames".

_A propósito, eu não tenho nenhuma DST.

Bufei, saindo do carro, mas, pelo visto, Lene ainda estava irritada pelo meu último comentário e não iria mais entrar. Qual não foi minha surpresa então ao ver Potter fazer seu caminho até onde eu estava?

_O que foi?

Ele sorriu, colocando as mãos nos bolsos da calça e se balançando nos pés. Estava ventando muito, o que me fez suspeitar que poderia chover mais tarde, o tempo nublado, perfeito. Potter tinha um sorriso estúpido, que poderia iluminar todo um estádio de futebol.

_Eu adoraria conhecer sua casa, Lily.

Endireitei meu corpo, nem um pouco feliz pelas palavras e pelo modo como elas foram ditas. Porém, no momento em que eu iria enxotá-lo, pude ouvir Sev cantando que eu tinha um namorado e, então, mamãe apareceu, com um olhar ameaçador, intimando-me a convidar meu "namorado" para entrar.

Puxa, isso não vai ser bom.

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E aí? Essa história ta me dando um pouco mais de trabalho do que o esperado porque ela está saindo levemente do que eu havia planejado. Eu queria fazer algo leve e rápido, antes de postar outra história, sendo essa um pouco mais dramática.

Enfim, não se preocupe, eu tirei sarro lá em cima da Megahn. Aqui não é nenhum roteiro de filme americano adolescente, então, nada de intriguinhas idiotas.

Agora, Malfoy que me aguarda. Serei cruel, muito cruel, com requintes de sadismo ;)

Lally Sads: Tuney faria qualquer coisa pelo Sirius, acredite, é uma obsessão. Então, admito que nesse final, Sirius está querendo zuar com a cara do Remus e vai usar a Tonks como instrumento. Será divertido! ;) Beeejs*

Jubs Black: Como você adivinhou que a Lily iria agir como ela mesma? (Deus, eu sou tão óbvia) kkkkkkkkkkkk Então, é, sim, você está certa em tudo praticamente. O jogo está equilibrado, mas não por muito tempo... ^^ Tenho algumas cartas na manga, só devo puxá-las no momento exato. Enfim, obg pelo review, nega, beeeejs*

Aliás, não sei se quem postou em O retorno lê essa história, mas, de qualquer jeito, obrigada pelos reviews incríveis! Eu nunca imaginei que a história pudesse dar tão certo! Vou responder sim aos comentários, não se preocupem! Beeeejs*