Se Fosse Tão Fácil
Judy's POV
Se fosse tão fácil
Eu juro que eu mudaria minha cara
Todo dia pra ficar diferente
Inventaria uma nova melodia
Pra te ver sempre contente
Judy acordou, mas não parecia estar completamente desperta. Sentia-se em alguma espécie de sonho. Estava aquecida e envolvida por algo muito mais fofo que seu edredom e, ao mexer seu nariz levemente, podia sentir o cheiro de Nick. A coelha se assustou por um momento, mas fez o melhor que pôde para não revelar que já despertara. Queria continuar nos braços dele mais um pouco, enquanto recordava tudo o que se passara na noite anterior.
Ela fora ver um filme na casa de Nick e, ao que tudo indicava, acabara dormindo. Não se lembrava sequer de ter visto o final do filme. Mas isso era o de menos. Tivera a oportunidade de acordar nos braços dele e isso era muito mais importante que um filme.
Bem, não podia ficar enrolada na cauda dele para sempre. Tinha que voltar para a realidade, infelizmente.
Se fosse tão fácil
Eu juntaria meu passado e meu futuro
E te daria de presente
E todo livro de romance seria sobre a gente
- Bom dia, Nick. – Judy sussurrou esfregando seu rosto na lateral do corpo dele. Como Nick conseguia ser tão quente? Isso sempre seria um mistério para ela.
- Bom dia, Cenourinha. – A coelha se espreguiçou e ajeitou seu pelo, nas áreas em que estavam bagunçados. Nick removeu sua cauda, que ainda a envolvia e a libertou de seu abraço. Aquilo era uma pena. Pensou Judy um pouco desanimada. Adorava sentir o pelo dele contra o seu, mesmo que Nick não pudesse imaginar suas intenções a respeito dele.
- É muita sorte hoje ser nosso dia de folga. – Ela comentou se levantando do sofá, sonolenta, e se dirigindo ao banheiro. – Imagine o que iriam pensar se me vissem chegando ao trabalho no seu carro, usando a mesma roupa de ontem. – Ela brincou e refletiu sobre o que aconteceria se chegassem assim no trabalho. Todos ficariam falando deles, ainda mais se sentissem o cheiro deles tão misturados como agora, mas isso não importaria nem um pouco, pois significaria que ele era dela e que ela era dele. E isso era o que ela mais queria.
Judy estranhara o silêncio de Nick e estava prestes a questioná-lo sobre isso, quando ele resolveu se pronunciar.
- Pensariam que teve uma noite ótima. – Ele falou com um pequeno sorriso malicioso. Judy notou algo de estranho naquele sorriso, mas não soube bem definir o que era. Forçou uma risada, pois não queria que ele se sentisse constrangido por sua falta de reação.
- Isso nós tivemos de fato. – Ela respondeu antes de entrar no banheiro, ainda sorrindo. Mas a reação de Nick só confirmava o que ela já suspeitava. A ideia de eles terem algum tipo de relacionamento além da Amizade não passava de uma piada para ele.
Se fosse tão ruim assim, te deixaria, Tchau, bola pra frente
E falaria que eu gosto mais de bicho do que gente
Não aguentaria ficar ausente
Mudar de vida tão de repente
- E então? O que quer fazer hoje? – Perguntou Nick depois de terem tomado um banho e de ela ter preparado o café. – Temos a festa de aniversário do Bogo à noite, mas até lá, estamos livres. – Ele bebeu um gole de café e pareceu pensativo. Algumas vezes, ela gostaria de poder ler seus pensamentos. – Quero dizer, eu estou livre. Talvez você tenha algum compromisso...
- Não. Não tenho. – Judy também bebeu um pouco do café e quase riu. Que tipo de compromisso ela poderia ter? Seus amigos do DPZ estavam a serviço e Fru Fru estava viajando com o pai. E ela nunca conhecera alguém que lhe fizesse se sentir da maneira que Nick fazia. Com quem ela poderia sair então? – Acho que a primeira coisa que tenho que fazer é ir em casa trocar de roupa, se formos a algum lugar.
- Por quê?
- Sério, Nick? Minha roupa está toda amassada. – Explicou a coelha esticando sua camisa distraidamente. Já não bastava ter acordado agarrada a ele? Ainda teria que andar toda mulambenta pelas ruas? – Se formos a algum lugar, tenho que estar, ao menos, apresentável.
- Cenourinha, você está linda, como sempre. – Ele deixou escapar. Judy baixou sua cabeça envergonhada. Não podia deixar que Nick notasse que levara suas palavras a sério.
- Eu sei que sou linda, seu bobo. – A coelha brincou voltando a encará-lo. – Mas não gosto de andar por aí desarrumada.
- Ok. Podemos passar na sua casa para você se arrumar, já que insiste tanto. – Nick comeu um pedaço do bolo que fizera no dia anterior. – Mas aonde vamos?
- Hm... Que tal a gente não sair? – Judy indagou com um sorriso preguiçoso. – Já vamos sair à noite e, na verdade, prefiro ficar aqui vendo filmes com você. Aí mais tarde você me leva em casa para eu me arrumar pra festa do Bogo. O que acha? – Nick ficou em silêncio e ela pensara que falara demais. Agora ele ia notar que ela gostava dele, com certeza.
- Eu acho... Que isso é uma desculpa pra você se enrolar na minha cauda o dia todo. – Ele respondeu sarcasticamente e Judy corou. Ela tinha razão. Ele percebera tudo.
- Nick! – Ela exclamou envergonhada, fazendo-o rir. Bom, talvez não tudo.
- Seja sincera, Cenourinha. – Ele insistiu brincalhão.
- Ok. – A coelha concordou com um suspiro. – É verdade. – Nick gargalhou ao ver a expressão desconfortável que surgira no rosto dela. Era sempre ela quem ficava vermelha e envergonhada. Aquilo não era nem um pouco justo.
- Eu sabia! – Bom, ele só sabia que ela gostava de ficar enrolada em sua cauda e isso não era um grande problema, certo? Nick não sabia que ela só gostava disso porque era a cauda dele. Não sabia que tudo que ela queria era estar perto dele. – Eu sei que sou irresistível. Não precisa se envergonhar. – Judy apenas lhe mostrou a língua em resposta e Nick apenas continuou com seu sorriso atrevido, que sempre fazia a coelha ter vontade de beijá-lo.
- Vamos logo com isso ou não vai dar tempo de ver todos. – Ela disse colocando a louça suja na pia e seguindo para a sala.
- Ok, Cenourinha. – Concordou a raposa, fazendo o mesmo que ela. Ainda bem que Nick não insistira no assunto. Ela pensou enquanto ele se acomodava ao lado dela e voltava a envolvê-la com sua cauda. Aquele era um dos melhores dias de sua vida.
Não mudaria uma vírgula do que eu sinto
E se alguém me perguntar se é bom, eu minto
Não quero te perder
Nick a deixara em sua casa duas horas atrás, para que pudesse se arrumar e agora Judy esperava ele retornar para buscá-la para irem à festa. Comprara aquele vestido somente porque queria que ele a achasse bonita e agora tinha receio de que ele não gostasse. Se inspirara nos olhos dele ao escolher a cor. Verde esmeralda. O vestido batia na metade das suas coxas e as alças eram entrelaçadas nas costas.
Era algo muito mais ousado do que o que estava acostumada a vestir. Talvez agora ela conseguisse chamar a atenção da raposa para si. Afinal no dia a dia ele devia vê-la apenas como uma policial, sua parceira. Talvez agora a enxergasse como uma fêmea.
A coelha ouviu uma batida na porta e se apressou a abri-la. Nick arregalou os olhos ao vê-la. Parecia estar sem palavras. Judy sorriu. Até aquele momento estava gostando da reação dele.
- Uau! – Disse por fim. Ele parecia estar nervoso, o que só a deixava mais satisfeita. Agora finalmente ele a enxergaria. Nick estendeu sua pata para ela. – Posso saber a que devo a honra de ser o escolhido para acompanhar uma dama tão bem vestida? – Judy riu e segurou a pata dele. Os dois se encaminharam para a saída do prédio.
- Claro. Achei melhor ir a essa festa muito bem vestida, assim não corro o risco de ser esquecida pela minha carona. – Ela brincou ainda rindo, o jeito com que Nick a olhava, a fez se sentir poderosa.
- Você nunca correria esse risco. – Nick disse entrando na brincadeira. – Não precisa me seduzir pra eu trazê-la de volta para casa. A coelha sentiu sua garganta ficar seca. Era exatamente isso que tentava fazer, seduzi-lo.
- Se chama golpe, meu amor. – Judy respondeu piscando para ele. – A raposa ficou sem reação e Judy deu um pulinho mentalmente. Talvez ela tivesse realmente alguma chance com Nick.
Não mudaria uma vírgula do que eu sinto
E se alguém me perguntar se é bom, eu minto
Não quero te perder
Não quero dividir você
As amigas de Judy a puxaram para um canto para poderem conversar e Nick foi forçado a se afastar. Aquilo a chateou um pouco, mas sabia que suas amigas só queriam ficar a par de tudo que estava acontecendo.
- Judy, pode ir contando tudo. – Disse uma tigresa que trabalhava com ela no DPZ. – Você tomou banho, mas ainda consigo sentir o cheiro de Nick em você. – A coelha corou.
- Vocês finalmente ficaram juntos? – Indagou outra amiga do DPZ, uma lontra. – Não tente esconder nada da gente. Aquela raposa parece ser tão selvagem na cama que...
- Gente! – Exclamou Judy envergonhada. – Não aconteceu nada. Eu só acabei dormindo no apartamento dele.
- O quê? – A tigresa perguntou ansiosa. – Pode ir falando tudinho. – E Judy explicou tudo que acontecera e como Nick a envolvera com sua cauda. – Suas amigas suspiraram. Aquilo tudo parecia uma romance de época.
- Judy, está na cara que ele gosta de você. – Falou a lontra, animada. – Você precisa contar tudo a ele o mais rápido possível. Já pensou se alguma raposa aparece e rouba ele de você? – Judy estremeceu ao pensar nisso. É claro que aquele pensamento já lhe ocorrera, mas não suportava imaginar isso.
- Ah! É verdade. – Concordou a tigresa. – Ouvi dizer que raposas fêmeas são muito ousadas. Você não pode deixar isso acontecer. Judy abriu a boca para responder, mas foi interrompida.
Se fosse tão fácil, enfrentaria o mundo inteiro
E você me chamaria de valente
Eu remaria contra todas as correntes
Só pra te alcançar
- Você quer dançar? – Perguntou um coelho com um sorriso carismático, parando ao lado dela. Judy não sabia o que dizer. Queria recusar, mas não queria soar mal educada. Foi então que notou Nick parado ao seu lado, tocando suas costas levemente. Ela olhou para ele e deu um sorriso. Estava mais do que feliz por vê-lo ali, protegendo-a. E então olhou novamente para o coelho.
- Me desculpe. Mas já tenho um parceiro de dança. – Respondeu enquanto Nick praticamente a enlaçava pela cintura. O coelho olhou para Nick e Judy sentiu um leve toque em sua cabeça, como se Nick apoiasse sua cabeça sobre a dela. Aquilo era um pouco fofo. Suas amigas apenas observavam a cena em silêncio, fazendo alguns gestos positivos para ela. – Vamos dançar? – Indagou Judy, esperando que Nick não notasse a maluquice de suas amigas, e ele olhou para ela e sorriu.
- Claro. – Então o casal seguiu para a pista de dança enquanto as amigas de Judy piscavam para ela. Judy sacudiu a cabeça envergonhada. Suas amigas não sabiam disfarçar.
Se fosse tão fácil, não seria a gente
E se não fosse a gente não seria amar
Mudei de vida tão de repente
- Nick, eu não sei dançar muito bem. – Dissera Judy quando chegaram ao meio da pista. – Será que não podemos dançar primeiro num lugar mais isolado? Não quero que todos me vejam pisando no seu pé. – A raposa sorriu e olhou ao redor, buscando um lugar mais tranquilo. Judy pensava numa maneira de como lhe revelar seus sentimentos.
- Que tal aquela varanda? – Ele indicou o local com a cabeça. – Parece que dá pra ouvir a música de lá e acho que ninguém vai ver você pisoteando meus pés.
- Vai ser perfeito. – Judy respondeu com um sorriso e Nick seguiu para a varanda, puxando-a pela mão.
Quando chegaram à varanda, Nick pousou uma das mãos na cintura dela e puxou-a para perto de si, colando seus corpos. Judy o envolveu pelo pescoço e logo eles se moviam no ritmo da música. Para ela não havia mais nada além dele. Estar em seus braços e tê-lo entre os seus era um sonho realizado. Era realmente como se estivesse em um sonho. E ela não queria acordar. Muito tarde, Judy percebera que não pisara nos pés nenhuma vez sequer. Devia ao menos ter fingido que realmente não sabia dançar.
- Você não dança tão mal quanto pensa. – Ele disse num sussurro encostando sua cabeça na dela.
- Acho que talvez eu tenha um bom professor. – A coelha respondeu rindo baixinho. Nick voltou a encará-la e a maneira como ele a encarou, era como se estivesse hipnotizado. Hipnotizando-a ao mesmo tempo. De repente, Nick baixou seu focinho e tocou a boca dela com a sua. Ela arregalou os olhos surpresa. Sonhara com aquilo há muito tempo e agora que acontecia, parecia que seu corpo não respondia a seus comandos. Seu coração batia desesperadamente em seu peito e seus pensamentos estavam nublados pela proximidade de Nick. Notando isso, a raposa se afastou dela.
- Me desculpe, Cenourinha. Eu... – Nick olhou para os olhos dela, mas Judy estava surpresa e extasiada demais para ter qualquer reação. – Acho que estou bêbado. – Ele falou por fim. E aquilo finalmente pareceu despertá-la para a realidade. – Mas não se preocupe. Vou pedir para Garramansa te dar uma carona. – E em seguida ele se afastou. Deixando-a para trás. Judy sequer tivera tempo de pedir para ele esperar. Nick andava rapidamente como se quisesse ficar o mais longe possível dela.
- Não. – Sussurrou Judy enquanto as lágrimas começavam a brotar em seus olhos. – Eu sou uma idiota.
Não mudaria uma vírgula do que eu sinto
E se alguém me perguntar se é bom, eu minto
Não quero te perder
Não quero dividir você
[Se Fosse Tão Fácil – Mar Aberto]
Início: 11/04/2017.
Término: 16/04/2017.
