Capítulo 2: A Iniciativa do Anjo

O pobre e desafortunado homem já perdera conta aos meses que fora enviado naquela perigosa e quase impossível missão… mas tudo fosse pelo bem da sua tão ansiada vingança. Nada, nem ninguém se intrometeria entre ele e a sua jornada em busca de justiça para os seus seres queridos que haviam sido despojados dos seus sonhos futuros demasiado cedo.

Portando uma afiada adaga na mão direita e a varinha na esquerda, o loiro avançava lentamente pela mata, embrenhando-se cada vez mais no coração do bosque daquela montanha há muito esquecida pelos deuses. Com movimentos firmes e certeiros, cortava os ramos que apareciam à sua frente, rumo ao seu destino.

Aquela viagem fora o fruto de uma detalhada e exaustiva pesquisa que durante muito tempo parecera não levar a lado algum… mas o mago, havia por fim descoberto a localização do seu alvo, pelo que empreendera numa missão de resgate que tinha tudo para dar errado e praticamente nada para dar certo.

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O sol já havia adormecido e a lua brilhava em todo o seu esplendor no céu noturno quando Draco finalmente atingiu o seu destino... uma pequena casa de madeira que já vira melhores dias, melhor dizendo, praticamente a cair aos pedaços.

À sua frente encontrava-se uma pequena, de aparentes cinco, máximo seis anos. A menina de roupas esfarrapadas, exibia claros sinais de abuso físico… começando pelo olho negro e terminando em vários cortes de mau aspeto e claramente infetados, o mago não pôde evitar relacionar a garotinha de aparência frágil e delicada, aos seus próprios filhos que haviam perecido demasiado jovens, vítimas de atrocidades desumanas.

Pegou na ficha que lhe fora cedida pelos goblins e constatou que esta era a criança que deveria levar perante o seu novo chefe e a filha de um dos seus melhores amigos, há muito dado por perdido, tendo o casal fugido antes de que a guerra atingisse o seu ápice.

Guardou a adaga na mochila, não desejando assustar ainda mais a pobre menina que tremia por todos lados, encolhendo-se contra a cadeira de baloiço e agachou-se para ficar à altura da mesma.

— Olá, Kendra!

A criança ergueu a cabeça levemente, espreitando cuidadosamente por uma pequena fresta entre os seus braços, que repousavam sobre os joelhos os quais apertava forte e firmemente contra o peito.

— O meu nome é Draco — disse, estendendo a mão à espera que esta a segurasse. — O teu pai foi o meu melhor amigo, conhecemo-nos praticamente desde os ventres das nossas mães. — Diante desta nova revelação, a menina levantou a cabeça em estado de alerta e com a curiosidade a brilhar fortemente nos seus belos olhos.

— O homem mau não gosta que eu faça perguntas sobre ele... ou sobre a mamã — falou a garotinha pela primeira vez desde que o adulto havia iniciado aquele monólogo.

— Não tens de te preocupar mais com o homem mau, Kendra — respondeu Draco, tomando a menina entre os seus consoladores braços e aconchegando-a contra si. — Prometo-te que o homem mau nunca mais te voltará a fazer mal.

— Ei! Quem raios és tu? — perguntou um homem, saindo do bosque com uma gazela ao ombro e três coelhos atados na mão oposta.

— Eu? — respondeu o loiro fazendo-se o desentendido — Sou só um bom samaritano que veio ao resgate de Kendra…

— A fedelha é minha. Deixa-a onde a encontraste e talvez saias daqui com vida.

O carcereiro ergueu o riffle na direção do feiticeiro.

— Lamento, mas não posso fazer isso.

— Ninguém me rouba o que é meu! — exclamou exaltado — Paguei bem caro por essa mercadoria e de forma alguma permitirei que me a roubem bem debaixo do meu nariz — disse o criminoso, pronto para pressionar o gatilho.

— Expelliarmus! — invocou Draco, desarmando o homem para de seguida o aprisionar — Incarcerous!

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O Head Goblin observa o muggle com olhar analítico, causando que este se debatesse fortemente contra as amarras invisíveis.

— Isto não foi o que combinámos — declarou a criatura.

— De forma alguma poderia deixar um pedófilo livre nas ruas — argumentou o homem de olhos prateados.

— É um muggle — constatou o goblin. — Deveria deixar as autoridades do Mundo Muggle lidarem com ele.

— Nem pensar! Kendra é uma criança mágica, pelo que o crime recai sobre as autoridades mágicas — explicou Draco.

— Então devia tê-lo deixado com os aurores. Porque é que o trouxe a Gringotts?

— Os aurores não são de confiança. No mesmíssimo instante em que descobrissem a sua linhagem, tê-la-iam descartado como irrelevante e obliviatado o pedófilo, enviando-o de regresso ao Mundo Muggle intacto e em segurança.

— E o que é que espera que façamos nesta situação? Somos um banco, não um tribunal. Além de que este assunto é do interesse dos magos, não nosso.

— Kendra é do vosso interesse, assim como deveria ser a sua integridade física e mental — declarou o loiro com indignação. — Se querem utilizá-la para reativar as contas dos pais dela de forma a rentabilizá-las corretamente, o mínimo que lhe devem é que velem pelo seu bem-estar.

— Muito bem.

— É isso!? — exclamou o mago admirado.

— Sim. Passou o teste, Lord Malfoy. Trouxe a Herdeira da fortuna Zabini sã e salva, demonstrando uma integridade ética inviolável. Encontraremos a melhor forma de lidar com o criminoso muggle. Enquanto isso, Kendra Zabini será entregue ao Ministério Mágico conforme a lei e colocada para adoção, até lá permanecerá num orfanato muggle.

— O quê!? — gritou Draco, erguendo-se do assento e batendo com as mãos em cima do tampo da secretária do Head Goblin — Não podem fazer isso. Acaso a Sociedade Mágica não aprendeu nada com os eventos gerados pela infância de Tom Riddle numa dessas instituições?

— Kendra Zabini é uma bruxa e como tal somos obrigados a ceder a sua custódia às autoridades mágicas. Infelizmente a lei estipula que toda e qualquer criança mágica órfã deve permanecer num orfanato no Mundo Muggle até que lhe seja encontrada uma família adequada, dada a inexistência de orfanatos no Mundo Mágico.

— Ou seja, nunca! Visto que vem de uma família de ex-Death Eaters ninguém se apresentará para a adotar.

— É a lei e não há nada que possamos fazer para a evitar — concluiu o homenzinho.

— Se o problema é não haver forma de a evitar… Não podemos simplesmente contorná-la?

— O que é que sugere, Lord Malfoy? — perguntou o Head Goblin, cruzando as mãos em gesto de interesse e inclinando-se ligeiramente sobre a mesa com expectativa.

— A lei diz que devemos enviar a Kendra para um orfanato muggle por não existir nenhum no Mundo Mágico… — começou a teorizar o feiticeiro.

— Sim… continue, por favor.

— Se esse é o único senão… só devemos criar um orfanato mágico — concluiu Draco entusiasmado.

— E como pretende fazer isso exatamente?

— Bom… Visto que o número de órfãos de guerra é imenso e grande parte das suas heranças monetárias estão ao cuidado de Gringotts… não seria estranho se você decidisse apresentar uma iniciativa para dar abrigo aos herdeiros dos seus falecidos clientes.

— Compreendo. Essa é de facto uma boa ideia — concordou o Head Goblin, esboçando uma careta que pretendia ser um sorriso.

— Obviamente os membros do governo tentarão colocar as mãos nessas fortunas, enchendo os próprios bolsos, através das crianças, pelo que a melhor forma de assegurar que não haja interferência alguma por parte do Ministério é recusando qualquer ajuda financeira ou mágica no decorrer da construção e posterior manutenção da instituição.

— Sim… — murmurou o goblin com um brilho de ambição no olhar — Podemos fazer isso. Contratos é a nossa especialidade, não deixaremos nenhuma brecha através da qual esses vermes se possam esgueirar. O nosso dever, enquanto banco de confiança, é proteger e enriquecer as contas dos nossos clientes e estas crianças são os nossos atuais clientes. É a nossa obrigação impedir que o Ministério da Magia roube as suas heranças.

"A única razão pela qual ainda não esvaziaram as suas câmaras foi porque congelámos as suas contas no exato instante em que os Certificados de Óbito foram emitidos pelo Arquivo de Gringotts."

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No decorrer das semanas seguintes, o Concelho de Goblins e o único mago que ganhara o seu respeito, debateram arduamente sobre como empreender o projeto para o orfanato e como proteger efetivamente as crianças que entrassem no resguardo da Entidade Mágica de Abrigo a Menores.

— Ainda devemos chegar a uma consenso em relação às adoções — exclamou um dos tantos goblins que compunham o concelho.

— Na minha humilde opinião, penso que a melhor opção seria formar uma junta dedicada exclusivamente à análise de potenciais candidatos — arguiu Draco.

— Concordo — disse o Head Goblin. — Haveria que estipular as diretrizes para a adoção e realizar um exaustivo e minucioso processo de pesquisa de forma a garantir que os requerentes não estão apenas atrás do dinheiro das crianças.

— E quanto aos educadores? — perguntou Ragnok preocupado — Não podemos utilizar magos ou bruxas, uma vez que queremos erradicar qualquer possível influência vinda do Ministério.

— Além de que sendo a maioria dos órfãos oriundos de famílias de Death Eaters não seria uma boa decisão deixar nenhum feiticeiro por perto… poderiam atentar contra elas. Devemos velar por elas, não fazer delas alvos fáceis e acessíveis para pessoas com mágoas passadas, poderem usar para desafogar as suas frustrações.

— Boa observação, Lord Malfoy. Sugiro que utilizemos criaturas mágicas com instintos maternos aflorados — disse um goblin visivelmente mais jovem que os seus colegas.

— Que tal veelas? — sugeriu um dos goblins ao fundo da Sala de Audiências, onde semanas antes havia sido presidido o julgamento que levara à castração mágica do pedófilo muggle que fora devolvido às autoridades muggles sob o efeito de verisaterum.

— Demasiado temperamentais — opinou o Head Goblin.

— Musas — sugeriu agora Ragnok.

— Demasiado distraídas, poderiam perder as crianças logo no primeiro dia.

— E se utilizarmos espíritos da natureza?

— Quais seriam as suas sugestões exatas, Lord Malfoy? — perguntou o Head Goblin.

— Ninfas da água são compreensivas, pelo que saberiam consolar as crianças — desenvolveu o loiro de olhos prateados, recebendo um assentimento coletivo —, ninfas do bosque são maternais, mas ainda assim podem ser estritas quando necessário, logo seriam capazes de estabelecer regras e assegurar que estas fossem respeitadas — argumentou, recebendo um novo assentimento coletivo —, as ninfas do vento são entusiastas e brincalhonas, nunca ficam sem energia e quando se lida com crianças esse é um dos elementos chaves na hora de brincar — Os goblins acenavam entre si, extremamente satisfeitos com a proposta. — e por último, mas não menos importantes, temos as ninfas do fogo, defensoras da justiça, serão capazes de ensinar a diferença entre o bem e o mal às crianças.

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O vento soprava fortemente contra a precária janela do isolado quarto, ao fundo do corredor, que todas as outras crianças evitavam por receio ao menino estranho que ali residia.

As sombras da noite erguiam-se tenebrosa e assustadoramente sobre a janela…

O garotinho refugiou-se debaixo da cama, ignorando as inúmeras capas de pó que poderiam facilmente sufocá-lo, ao escutar um ruído proveniente do lado de fora do convento.

A janela rangeu baixinho ao ser aberta, cedendo passagem à figura que logo se aproximou à apavorada criancinha…

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Draco entrou num edifício repleto de crianças, sendo abraçado imediatamente por vários pares de braços.

— Bom dia, crianças! Portaram-se bem? — interrogou o homem com um sorriso sincero e um brilho no olhar que pensara ter murchado junto com a sua falecida família.

— Sim! — responderam os meninos.

— Obedeceram à Senhorita Flora?

Umas quantas crianças baixaram a cabeça arrependidas, enquanto as restantes respondiam que sim.

— O Alex não quis ajudar a plantar as roseiras — acusou uma menina de cabelos castanhos arruivados.

— As rosas têm espinhos e magoam quando nos picamos — defendeu-se o garotinho, mostrando-lhe a mão enfaixada.

O adulto agachou-se cuidadosamente, deixando a sua preciosa carga no solo, junto aos meninos que dedicavam miradas de genuíno interesse ao novo membro da casa e analisou o ferimento de Alexander Bletchley.

— Não é grave — sentenciou o loiro. — Quem é que te ajudou a tratar a ferida?

— Foi a Kendra — respondeu o menino ligeiramente ruborizado, desviando o olhar.

— Bom trabalho, Kendra.

— Só fiz o que me ensinou, Senhor Anjo — respondeu a menina, tentando ver o rosto do garotinho que o seu salvador havia trazido consigo.

Assustado por toda aquela inusual atenção, o pequeno agarrou na camisa de Draco, abraçando-se a ele de forma a esconder o rosto contra o peito do adulto.

— Ainda continuam com essa história do Anjo?! — afirmou mais do que perguntou.

— Olá! O meu nome é Kendra — apresentou-se a morenita com um sorriso alegre, querendo desviar o assunto. — Como é que te chamas? — perguntou àquele que esperava vir a ser em breve o seu novo amiguinho.

— Christopher Higgs — respondeu timidamente, afastando-se um pouquinho do refúgio que encontrara no peito e braços do seu salvador, para poder ver a menina.

— Bem vindo, Chris! — exclamaram as crianças em uníssono.