CAPITULO 2

Bella recuperou a consciência na limusine. Edward estava inclinado sobre ela como quando ela se deprimiu. Em um movimento brusco do carro, Bella se afastou para o lado oposto do assento.

- Se afaste de mim! – gritou presa do pânico.

- É uma criatura muito delicada, não acha? De repente se tornaste uma pilha de nervos – Edward a olhava com satisfação perversa; parecia ter recuperado o controle. - Onde está o certificado?

Bella cravou as unhas. Necessitava de alguma sensação que lhe dissesse que estava acordada, que não se tratava de um pesadelo.

- Já te disse que não sei do que fala.

- Bom, se antes não sabia, agora já sabe, e quero que me diga isso.

- Não posso acreditar que meu pai lhe fez chantagem...

- Um assunto sujo, não? – Edward a tratava sem a mínima compaixão. - Mas ele era um profissional, de alto voo. Interessavam-lhe os ricos e famosos. Gostava dos personagens que pudesse tirar-lhes o suco. Era muito bom em seu trabalho. Nunca deixava suas vítimas totalmente secas, nem as levavam ao extremo de que quererem matá-lo. Fazia-as pagar durante muito tempo e logo as deixava em paz, mas sempre ficava com a prova de seus delitos e trapos sujos para proteger-se. Fez uma fortuna...

- Não acredito!

- Acredita que guardava essas fotos pornográficas só por diversão? Se ficou com a prova dos trapos sujos de minha família... - A voz do Edward ficou mais dura ainda - Também tinha o certificado original, e como tentei recuperá-lo buscando por toda parte, é evidente que você o tem.

- Ele não me deu nada! – gritou histericamente.

- Não vai me enganar. Tente e lhe romperei...

- Está louco! – soluçou.

- Até agora fui paciente. Estive na corda bamba durante cinco anos. A única forma de me manter a salvo era continuar casado com você. - Pensei que fosse como o pai. Mas não o é. E há uma coisa que me ficou clara. Está apaixonada por mim...

- O que? – Bella o interrompeu.

- Está obcecada comigo. Acha que não sei? – Edward a olhou com desprezo. - Qualquer mulher normal já se desenganaria e teria deixado de esperar que seu amor fosse correspondido... Mas você não! Ficou até o final, fiel até o fim, sem me dar a possibilidade de me queixar do maldito trato que fiz!

- Fiel? – não podia acreditar em tudo o que ouvia. Era incrível, mas Edward acreditava no que dizia. Estava convencido de que ficou a seu lado por uma questão de amor. O nome de Paul queria abrir espaço entre seus lábios, mas era melhor que não.

- Não estou apaixonada por você – disse dignamente.

- Escuta, está falando com o menino que foi seu presente de aniversário quando completou dezessete!

- Como?

- Escolheu-me em alguma revista de sociedade? Ou me viu pessoalmente antes? Lançou-me um olhar e saiu correndo a dizer ao papai: "Papai: este é o que eu gosto".

Edward falava sério. Realmente falava sério.

- Você tem que estar mal da cabeça!

- Falaremos. Levei cinco anos esperando esta conversa. Tudo o que sei é que o querido Charlie fez o trabalho sujo por você. Caçaram-me como um animal...

- Você é um animal, um autêntico insulto à espécie humana! – estalou Bella. - E ainda por cima lhe tem acreditado nisso!

- Deus! Minha jovem dama sabe elevar a voz – disse cinicamente Edward. - Não parece gostar da verdade. Fere seu orgulho. - Mas sei que fui apanhado intencionalmente. Eu não sabia sequer quem era seu pai na primeira vez que fui a sua casa. Fez-me uma proposta de negócios por uma terceira pessoa, e fui chamado ali. E ocorreu justamente que seu pai não se encontrava em casa quando cheguei. Mas, oh, surpresa! Estava você! Usava algo branco e romântico, e adornava com flores o recinto, quer dizer estava armada até os dentes com seus encantos virginais. Recordo-a perfeitamente.

- Não foi assim!

- Qualquer grego com sangue nas veias se renderia a seus encantos te olhando duas vezes – disse-lhe Edward ressentidamente. - E você aí, toda sorrisos tímidos e com rubor nas bochechas, me comendo com esses olhos azuis como se levasse uma semana de jejum!

- Basta !Já! – a voz do Bella quase se rompeu.

- Então me convidaram para jantar e você tocou o piano, e cantou como um anjo. Todas suas virtudes postas em jogo para mim. E não sei como foi, mas finalmente o negócio passou a um segundo plano, e me esqueceu. Para que saiba, havia só duas perguntas que me interessava fazer, mas não era pertinente as fazer nessa noite.

- Sim? – Bella tratava de apagar as lembranças penosas desse dia.

- Tinha suficiente idade para obter o consentimento de seu pai? Tentava seu pai lhe proteger do mundo e dos predadores como eu? O casamento não estava então em minha cabeça, e nunca tinha estado.

Bella sentiu nauseia. Edward seguiu falando:

- E de quem foi a ideia de que ficasse jantando? Sua.

Disse a ele que me queria e isso foi tudo. Logo ele escavou e escavou, até pôr a luz algo que só duas pessoas vivas sabiam, e que nenhuma dos doi iam contar jamais.

- O que averiguou? – perguntou ela ansiosa.

- Você sabe... Charlie sabia perfeitamente que não viveria muitos anos. E não foi ao túmulo com o segredo – disse Edward.

- Ele não me revelou nada.

- E se você não o tem, deve saber quem o tem.

O chofer abriu a porta e ela quase caiu do assento. Olhou a rua do bairro residencial quase em pânico. Tinha querido correr. Ela sabia onde estava. Era o apartamento de Edward em Paris onde ela tinha passado uma noite de núpcias inesquecível, sozinha.

- Tenta-o – disse Edward com tranquilidade. - Corra e verá o que acontece. Não chegaria nem à esquina.

Aterrada, Bella entrou no edifício frente a eles, e se meteu no elevador.

- Lembranças... – disse Edward, como se pudesse ver o que ela estava pensando.

Bella sabia que ainda não tinha saído do estado de choque. Não dizia nada, sabia que não estava em condições de desafiá-lo. Edward estava preparado. Tinha estado esperando o momento da vingança. Do mesmo modo que teria esperado a morte de seu pai para liberar-se dela.

- Há muitas coisas que posso fazer por ordem de outra pessoa, mas compartilhar a cama com você não é uma delas. Seu pai podia me obrigar a me casar com você mas não podia me seguir ao dormitório e me forçara...

- Cale-se !– gritou ela histérica.

- Por que não lhe contou alguma vez a verdade de nosso casamento?

Bella tampou o ouvido com o intento de não ouvir mais.

- Por favor, mais não... – murmurou, e não se importou rogá-lo.

Mas ele lhe pegou pelos ombros com firmeza e lhe disse:

- Por que aceitou a triste realidade de sua cama matrimonial vazia durante todos estes anos e não disse nada? Por quê?

Em um ato de arrojo, Bella saiu correndo e atravessou o hall do imenso apartamento e alcançou o dormitório no outro extremo do corredor. Entrou nele e passou a chave. Tinha o estômago revolto e teve que ficar quieta um momento até que, por fim, pôde tirar a roupa e meter-se no chuveiro.

"Meu pai, extorquia-o", repetia suas palavras. Sentia-se tão suja. Era a primeira vez em sua vida que se sentia verdadeiramente suja. E não sabia que podia fazer para sentir-se limpa novamente.

Sua mãe que tinha morrido quando Bella tinha quatro anos, era uma lembrança difusa. Era a filha de um pequeno aristocrata que se tinha afastado de sua família por casar-se com o Charlie. Mas Charlie não lhe havia dito a sua filha por que. Nunca o tinha explicado.

A infância do Bella tinha sido uma sucessão de babás e internatos desde muito nova. Charlie viajava incessantemente, e sempre tinha pedido para ir viver com ele. Tinha chorado muito antes que percebesse que para seu pai ela era excesso de bagagem e que ele era um homem frio e distante. De todos os modos reconhecia que seu pai se preocupou por ela mais que por nenhuma outra pessoa.

Tinha estado sempre orgulhoso de sua beleza, de sua educação, e seu dom para a música. Agora se dava conta de que essas tinham sido umas vantagens de grande valor social para seu pai. Charlie tinha sido ambicioso com relação a sua filha. Tinha querido que se casasse com um homem rico e poderoso. Ele mesmo tinha vivido em contato com a alta sociedade e queria que sua filha fosse membro com todo direito dessa mesma classe social. Mas Bella tinha carecido de um verdadeiro calor de lar. E essa carência afetiva a tinha levado a fazer todo o possível por ganhar a aprovação e o amor de seu pai.

Como ia imaginar que Charlie não era um homem de negócios legal? Como podia imaginar que sua privilegiada vida tinha sido financiada com um pouco e tão ruim conteúdo da caixa forte? E menos ainda, Como poderia ter suspeitado que tinha extorquido ao Edward para que se casasse com ela?. Finalmente compreendia a farsa de seu casamento, muito tarde.

Os cinco anos tinham passado, não podiam recuperá-los nem ela nem Edward. Não fazia falta que a desprezasse. E que estivesse seguro de que ela conhecia o segredo que não devia conhecer, "para proteger a minha família", havia dito.

O gracioso do caso era que ela não tinha a mínima curiosidade por conhecê-lo. Edward podia seguir guardando-o toda a vida. Em todo caso a família de Edward era estranha para ela. Não conhecia sua mãe, nem a suas três irmãs. Muitas vezes se perguntou o que lhes diria a respeito de seu casamento. Mas se teria incomodado em lhes explicar algo? Como Charlie, Edward não era amigo de explicações.

Como podia pensar que ela o amava? Era humilhante. Não só se tratava de um marido que tinha sido obrigado a casar a ponta de pistola, como também acreditava que sua mulher, depois de cinco anos de desprezos e infidelidades, ainda o amava.

A água da ducha caia, e de repente Bella sentiu que uma estranha força se apoderava dela. Inclusive começou a sentir pena de Edward. Acreditava que ela podia usar a chantagem depois da morte de seu pai. A notícia de que ela estava apaixonada por outro homem certamente seria um alívio para o Edward.

Bella tinha perdido cinco anos de sua vida, mas nem um dia mais. Seu pai tinha exercido plena autoridade sobre ela. Logo Edward tinha o substituído, e ela o tinha aceitado sem mais nem menos.

E tinha sentido medo durante tanto tempo... Medo pelo mundo que havia fora de seu irreal mundo de privilégios. Temor pelo desprezo de seu pai. Temor de que a verdade sobre o casamento terminasse com a débil saúde de seu pai se ele inteirasse disso. Mas, não outros medos, assegurou-se.

Se Edward tinha sido uma vítima, ela também tinha sido. E, entretanto, não armava tanto escândalo quanto ele. A vaidade de Edward a indignava.

Um golpe forte soou na porta.

- Abra! – exigiu Edward.

Bella fez um esforço por não ouvir. Já tinha bastante com o que tinha ocorrido anteriormente. Não queria saber nada dele. Edward não tinha uma só virtude que pudesse comovê-la. Cinco anos atrás entretanto, havia sentido uma grande atração por ele. Tinha eleito então com o coração, não com a cabeça.

- Bella! – Edward voltou a golpear com impaciência.

Não era um homem que respeitasse às mulheres. Ia atrás de todas elas, loiras, morenas, dava igual. Isso sim, todas tinham pernas longas, peitos imponentes e cabelo comprido. Bella não tinha nenhum desses atributos, e alguma vez tinha sido um tortura para ela, já que a imagem que tinha de si mesmo, débil e insegura, não tinha sido beneficiada com esta aparência.

Mas tinha muitas outras virtudes. E devia agradecer a Paul por havê-las descoberto. Paul a tinha ajudado a aceitar a si mesma. Em troca Edward sempre a tinha humilhado e desprezado. E agora por que tinha que sentir-se culpada? Acaso já não tinha pago os pecados de seu pai?

Quando estava fechando a ducha e estirando a mão para alcançar a toalha, um golpe enérgico atirou a porta abaixo. Esta ficou pendendo da dobradiça, e deixou a figura do Edward descoberta. Seu corpo vigoroso ocupando a porta da habitação.

- Para que se trancou aqui? – perguntou furioso.

- Ficou louco? – Bella se sentia intimidada pela presença dele, mas também estava furiosa.

- Tornaram-me responsável por seu bem-estar!

Referia-se a seu bem-estar ou a sua própria segurança?. Era por isso que tinha atirado a porta como um homem das cavernas? Tinha medo de que se jogasse pela janela? Evidentemente isto o pôs em um apuro.

Bella, lhe jogando um olhar de incredulidade, começou a recolher sua roupa.

- Sua pele tem a cor das camélias – disse ele.

Edward estava olhando-a descaradamente, algo que a turvava terrivelmente.

- Tire a toalha – lhe exigiu.

Bella não podia acreditar no que ouvia. Mas Edward esperava que sua ordem fosse cumprida. Demonstrava-o em seu gesto expectador.

Bella sentiu que lhe secavam os lábios, que seus pulmões ficavam sem ar, que um calor asfixiante se apoderava de seu corpo inteiro. Seus peitos de repente se voltaram pesados, seus mamilos se ergueram voltando-se mais sensíveis.

- É tão pequena, mas guardas umas proporções tão perfeitas... – murmurou ele no denso silêncio.

Bella não podia acreditar no que ouvia da boca do Edward. Este era um Edward que ela jamais tinha conhecido, mas que de algum modo sempre tinha suspeitado que podia existir. Era um homem que despedia uma vigorosa sexualidade. Havia algo perigosamente fascinante na corrente sexual que emanava dele, algo atávico e elementar. Dava a sensação de ser predador como ele mesmo se nomeou alguma vez com candura. E o era, agora ela podia comprovar.

- Desculpe-me? Vou me vestir, se não se importa – murmurou ela inexpressiva.

- Não falou sério, verdade? – disse ele como se fosse ela que estava se comportando de modo estranho.

Bella estava indignada. Edward podia deixar de lado o ódio e o ressentimento que havia entre eles e pensar em sexo. Por quê? Somente por que estava quase nua? Parecia que a libido de Edward despertasse com pouca coisa.

- Quero me vestir – insistiu.

- É tímida. Mas me pareceu que estivesse me esperando durante muito tempo – disse ele com satisfação.

Bella riu. Não pôde evitá-lo. Era uma risada histérica que rompia o silêncio como um cristal que se rompe.

- Basta...

Caiu a roupa de suas mãos ao dar a volta e tampar cara com as mãos trêmulas. Era um gesto histérico, descontrolado, que a assaltava sem aviso. Estava furiosa por sua própria reação, mas sua fúria aumentou ainda mais quando sentiu os braços do Edward ao redor dela, assaltando-a pelas costas. Ficou paralisada.

Ele a tinha empurrado contra um corpo morno e vigoroso, ameaçando-a com um contato físico tão perturbador como desconhecido. Não podia acreditar que ele a estivesse tocando. Parecia algo irreal. Durante cinco anos se comportou como um leproso que se afastava. E agora, de repente, queria tocá-la, como se estivesse em seu direito. Mas não tinha nenhum direito, e não desejava suas mãos sobre seu corpo.

- Talvez não saiba onde está esse certificado. Talvez Charlie o tenha destruído. Mas, possivelmente, alguém o tenha em suas mãos esperando para ativá-lo como uma bomba...

As palavras que usou a fizeram tremer.

Edward lentamente ia dando a volta. Bella não se deu conta de quão forte podia ser um homem comparado com uma mulher, até que Edward a levantou do chão como se fosse uma boneca e a apertou contra ele.

Descalça não lhe chegava nem ao ombro, e antes dele se inclinar para ela, as bochechas de Bella roçaram o peito viril que aparecia pela camisa de seda, quando se abriu inesperadamente sua jaqueta. Bella logo que podia respirar a essência de sua masculinidade.

- Me olhe – Edward lhe disse cortante.

- Por favor, me deixe partir – atinou a dizer ela.

Edward tomou o queixo e ficou olhando-a, como se não a tivesse ouvido.

Bella sabia que os fatos acontecidos nessa tarde e o ataque de fúria de Edward tinham sido afastados de sua mente, e que outras necessidades urgiam no momento.

Bella sentiu um torvelinho de sensações que jamais havia sentido. Seu corpo estava tenso, e parecia recolher todos os estímulos provenientes daquela atmosfera.

- Edward... – ouviu-se dizer, enquanto sentia que seus pés se apoiavam no tapete.

- Faz tanto tempo que não te ouço pronunciar meu nome – disse ele em um tom profundo.

- Não... – disse ela.

O dedo polegar do Edward percorreu o lábio inferior de Bella, fazendo-a tremer. Ela tentou mover-se, mas a outra mão dele a sustentava com firmeza apoiada em suas costas.

Edward a olhou intensamente, e com o polegar separou seus lábios e mergulhou na boca dela, enquanto a palma lhe acariciava a bochecha. Era um gesto mais erótico que jamais tinha experimentado, e o pior era que estava lhe desencadeando uma série de reações físicas que reconhecia como uma traição de seu corpo a si mesma.

Era evidente que ele se divertia com suas reações, mas seu olhar expressava além disso, uma grande satisfação. Bella a notava na expressão de seus olhos.

Edward era um professor nas técnicas e na arte de seduzir, uma arte que redundava em seu próprio benefício, aumentando seu próprio prazer. E estava acostumado a procurar esse prazer sempre que aflorava o desejo.

- Quero... – Bella não podia dizer mais de uma palavra.

- Mais? – Edward a soltou de repente e sorriu. - A próxima vez que lhe pedir que tire a toalha, faça-o, pequena – aconselhou brandamente.

Bella sentiu que essa insinuação podia ser mais dolorosa que um murro. Quando a porta se fechou atrás dele, Bella desmoronou. Tinha-o desafiado, tinha-o irritado. Estava confusa. Todos esses anos, nada, e agora...

Por que agora? Recordava o que ele havia dito momentos antes: que seu pai não tinha podido obrigá-lo a compartilhar a cama com ela. E, entretanto, quando afloravam seus instintos, parecia que qualquer mulher lhe convinha.

O que estava claro era que Edward tinha que demonstrar que era um macho. Expor-lhe o divórcio nessas circunstâncias tivesse sido contra prudente, porque o teria levado a ir ainda mais longe em seus intentos de intimidades com ela. Não era o melhor momento de falar do Paul.

Bella recolheu seus objetos novamente.

A questão era que seu marido se deu conta de que ela existia, embora só da forma que para ele contava uma mulher: sexualmente.

Mas estava indignada. Não entendia como se atreveu a tocá-la. Não tinha direito. E, além disso, certamente, era infiel a toda mulher. E por desconto se aproveitou de seu desejo, caso tivesse existido. Ele era assim. Estava acostumado a tomar, não a dar.

Edward tinha trabalhado duramente para levantar as empresas familiares que tinha herdado, a herança dos Andreakis Cullen. Ninguém lhe tinha dado nada, nem lhe tinha feito favores. E ele não fazia tampouco. Mas seguia a seus inimigos até a morte, e quando tinha a sua presa, retornava vitorioso. Lutava constantemente por sua supremacia.

Esse tinha sido o aspecto do caráter do Edward que Charlie tinha valorado mais. E, finalmente. tinha se servido de Edward em uma bandeja de prata, tratando de convencê-la de que, embora ele não tivesse falado de amor, seria um perfeito marido.

De que marido falava seu pai? Ela jamais tinha tido um marido. Mas cinco anos atrás ela não tinha podido adivinhar o futuro.

O curioso era que suas lembranças dos primeiros encontros não coincidiam absolutamente com as dele. Tinha terminado a escola secundária, aperfeiçoado a técnica em adornos florais, que tolice! Deveriam ter-lhe ensinado melhor, um curso sobre homens...

Edward tinha aparecido na entrada da sala de música, sem que ninguém o houvesse convidado ou chamado. Tinham-no feito esperar por Charlie na sala de espera e ele devia havê-la visto pela janela, porque para chegar à sala de música tinha que sair da sala de espera, atravessar o hall, passar pela outra habitação e entrar na sala de música através de um hall. Assim, Como podia ter o descaramento de lhe dizer que ela tinha preparado o encontro?

Tinha-o visto de repente na entrada e apaixonou-se por ele a primeira vista. Sua presença a tinha impressionado. Era como um deus grego que tinha aparecido em todo seu esplendor.

- É uma lufada de ar da primavera nesta triste paisagem de inverno – Edward havia dito.

E provavelmente tinha copiado de alguém para ter pronunciado essas palavras.

A ela não tinha ocorrido que ele estivesse interessado nela, a não ser nas novelas. Porque não tinha surtido uma conversação entre eles. Não tinha demonstrado sua falta de juro e ignorância acerca do mundo vegetal, e ela se deixou enganar.

Inclusive lhe havia dito que seus olhos faziam jogo com as violetas, e esse comentário tinha saído tão tosco como o primeiro, o que deu a impressão a Bella dele ser um homem tímido, apesar de dissimulá-lo com certa sofisticação. Tímido, Edward?

Não lhe havia dito nada sobre sua entrevista com seu pai. Parecia havê-lo esquecido bem, até que a empregada tinha ido dizer lhe que seu pai lhe chamava e então ficou desconcertada ao encon-trá-la com o Edward.

- Direi-lhe que o está esperando – Bella havia dito a Edward, subindo rapidamente até a biblioteca de seu pai.

- Quem é ele? – tinha perguntado a seu pai com alegria e fantasia.

- Edward Andreakis Cullen – seu pai escrutou seus olhos.

- Já está aqui há um montão de tempo. - Não acha que devemos convidá-lo para jantar?

- Parece que teve êxito...

- É casado?

E o tinham convidado para jantar. Havia sido culpa dela, inteiramente culpa dela. Seu pai tinha pedido desculpas a Edward e logo os tinham deixado sozinhos, e nesse momento Edward tinha feito um montão de perguntas pessoais a Bella. Não tinha se incomodado em averiguar se tinha a idade apropriada. Sabia perfeitamente a idade que ela tinha.

Ao dia seguinte a levou a dar uma volta no carro, mas seu pai relutou em dar seu consentimento. Este fato a colocou em evidencia diante de Edward, que não teria tido a menor duvida a respeito da super proteção de seu pai.

- Suspeito que seu pai vai lhe olhar de cima abaixo para ver se tem rastros de digitais em algum lugar quando voltar, assim não te beijarei. Não sei o que estou fazendo aqui com você. É muito jovem para mim.

E ela tinha sofrido muito na semana seguinte ao seu encontro com ele, porque ele não a chamava nem dava sinais de vida. Para Charlie a história tinha pouca graça, e aconselhou-a que era melhor não entregar seu coração.

- Andreakis Cullen pode ter à mulher que quiser. Mas não quero que te ronde, a menos que tenha na cabeça a ideia de casar com você.

- E lhe disse isso? – perguntou-lhe alarmada.

- Pode ser que você não se valorize. Mas eu sim. Mandei-a aos melhores colégios para me assegurar que tivesse um lugar digno com quem estivesse. Quero que se case bem. Um caso amoroso com o Andreakis Cullen é algo que não está na sua agenda. E pode estar segura de que não oferecerá nenhuma outra coisa a não ser que resulte rentável.

Edward tinha aparecido na segunda semana, inesperadamente, com uma atitude hostil com ela. Voltou-se a ficar jantando. Charlie se encontrava de um bom humor incrível. Estava muito tranquilo, e os observava todo o tempo, adicionando pouco à conversação.

Dois dias mais tarde, seu pai a tinha feito ir a sua biblioteca e lhe tinha informado que ele era o dono de inumeráveis ações em uma companhia naval chamada Petrakis International, ações nas que Edward tinha um desejo extremo.

- Assim que as ofereci a ele grátis como presente de casamento – concluiu Charlie.

Bella tinha ficado consternada. Sim, ela estava louca pelo Edward. Mas que seu pai lhe tivesse devotado um capital por casar-se com ele parecia humilhante.

- Edward é grego. Compreende este tipo de trato – tinha assegurado. Espero que você também compreenda que um homem tão duro como Edward jamais tivesse pensado no matrimônio a não ser que fosse uma vantagem econômica para ele. Essas ações serão seu dote. A escolha é sua. Quer ele ou não?

Bella tinha saído correndo da habitação, chorando de raiva e desespero.

No dia seguinte, Charlie tinha informado a respeito de sua deficiência cardíaca. Havia-lhe dito que não sabia quanto ia viver, e que estava sinceramente preocupada com seu futuro. Era outro golpe para o Bella. Charlie tinha posto Edward nos céus. Segundo ele, Edward era como um diamante bruto para meio social no que se criou, mas a ia tratar com respeito e honra como sua esposa. Esse tipo de acerto era algo comum na Grécia. Se se casasse com Edward estaria a salvo, segura pelo resto de sua vida.

- Mas ele não me ama! – tinha protestado.

Charlie a olhou friamente e lhe disse:

- Deseja-lhe...

- Não tanto como a essas ações – protestou em voz baixa.

- Depende de você que esse casamento resulte. Estou lhe dando a oportunidade de se casar com o homem que ama.

Bella voltou para presente e retorceu as mãos. Seu pai tinha servido Edward em bandeja de prata. O tinha dado encadeado e algemado a conta de uma chantagem. Como não o tinha suspeitado!

Ouviu-se um golpe na porta. Era uma criada anunciando o jantar. Bella não podia acreditar que já fosse a hora do jantar. Paul a chamava todas as noites às oito. Sabia que ela jamais saía de noite. Haveria lhe dito Petros que se foi a Paris? Levantou o telefone da habitação e discou o número de seu apartamento.

- Onde diabos está? – respondeu Paul imediatamente.- Petros me disse que "o senhor e a senhora Andreakis Cullen não estavam". O que isso quer dizer?

- Voamos a Paris...

- Vocês dois?

- Olhe, havia um problema com a herança de meu pai e tive que vir. Amanhã estarei em casa, querido. Te amo.

- Que tipo de problema?

- Nada importante – ocultou Bella. Não queria contar os detalhes sórdidos do assunto ao Paul, ao menos por telefone.

- Vai mostrar-lhe as maravilhas de Paris, então? – brincou Paul.

- Sair com o Edward? Está brincando – forçou uma risada, aliviada de que Paul não estivesse zangado – Acredita muito em nada. Pensei em você o tempo todo.

- Não vejo a hora de que chegue amanhã.

- Me parece uma eternidade... – disse. "Mas não posso usar novamente ao James", pensou, lembrando do Sam e perguntando-se como podia se livrar do guarda-costas.

Bella se sentia um pouco culpada pelos seus encontros com o Paul, já que quando ela se casou na igreja, fazia umas promessas nas que então acreditava...

- Por que é tão covarde e não lhe expõe o divórcio, já que lhe importa tão pouco? – dizia-lhe inumeráveis vezes.

Bella suspirou fundo, baixou o telefone em um gesto que queria relaxar sua tensão.

Um calafrio percorreu todo seu corpo depois de deixar cair o telefone. Edward estava de pé, silencioso e quieto, como uma estátua. Bella ficou paralisada ante semelhante visão.

Quis dizer "Edward...", mas não pôde articular uma palavra.

- O jantar... – murmurou Edward. - Mas termina primeiro a chamada.

Levantando o telefone como um autômato disse:

- Adeus – e pendurou.