CAPITULO 10

Ao voltar para Londres, Edward devia sair em poucos momentos, logo que se trocasse de roupa. Tinha muito trabalho.

- Falaremos quando voltar.

Por que tinha a impressão de que ele a tratava como se ela fosse culpada de algo? Como reagiria ante o fato de que ela soubesse tantas coisas? Ao fim e ao cabo ele não confiava o suficientemente nela para haver lhe contado. Mas, que coisas saberia ele?

Bella foi ao salão. Ali estava sua escrivaninha, herança de sua mãe. Jogou-lhe uma olhada. Estava igual a sempre. As gavetas vazias. A chave decorativamente sujeita com uma cadeia à folha dobradiça que servia de chaveiro propriamente dito. O carpinteiro que o teria restaurado tinha cometido o engano de pôr à chave uma corrente muito curta que impedia de fechar o , por isso não o usava.

De repente se deu conta de que a chave se parecia com aquela que lhe tinham dado no banco para abrir a caixa forte. Rompeu a cadeia, fazendo-se dano em seu tento. A chave tinha sido banhada em ouro para fazer jogo com a cadeia, mas se viam ainda os números gravados nela. Nem sequer encaixava bem na fechadura. Certamente correspondia a outra caixa. Durante cinco anos Charlie poderia ter oculto o passaporte à liberdade de Edward em sua própria casa. Uma última ironia de Charlie.

Bella foi para a ala da casa que ocupava Edward. Ele estava pondo uma camisa limpa no dormitório, tão embebido em seus pensamentos que nem se deu conta da presença de Bella.

- Edward... – disse-lhe ela temerosa.

Por um momento, Bella pensou em esconder a chave. Mas devia ter a valentia de dar-lhe e confrontar as consequências. Então levantou a mão e atirou a chave na cama.

- Depois de tudo não foi uma condenação a cadeia perpétua... – ouviu-se dizer.

Edward pareceu não entender. Olhou alternadamente a chave e a Bella.

- É a chave de outra caixa forte. É possível que contenha o que buscas.

- Cristo! – exclamou antes de levantar a chave. - Todo este tempo procurando-a! Não posso acreditá-lo!

Bella foi para a janela. Tratava-se da terra prometida da liberdade. Podia ser o princípio ou o fim de seu casamento.

- Há algo mais do que temos que falar.

- Não podemos esperar para falar disso? Não vou poder parar até que vá a Paris e experimente esta chave.

- Temo que não. Acontece que sei o que há na caixa. É sua certidão de nascimento – lhe disse Bella.

A expressão do Edward se esticou.

- E onde conseguiste essa informação?

- Certamente não a consegui por você. Carlisle me confiou isso.

- Carlisle? – Edward pareceu muito surpreso.

- Pediu-me que atuasse como intermediária. Acreditou que eu era de sua confiança. Assim agora sei que Esme é sua mãe natural.

- Carlisle está informado disto? – disse-lhe ele com gesto grave.

- Olhe, não é assunto meu – lhe esclareceu Bella, porque Edward parecia recalcar-lhe com o olhar.

- Quanto tempo faz que sabe?

Bella compreendeu que Edward não sabia que Carlisle era seu pai, mas ela não queria ser quem o dissesse.

- Theos mou! Se ele soube não havia perigo de que seu casa-mento se rompesse – disse ele frustrado.

E com essas palavras, Edward lhe havia dito muitas coisas. Edward pensava que Carlisle não estaria em condições de aceitar um passado obs-curo de sua esposa. Um marido grego não poderia tolerá-lo. Assim Edward estava protegendo a Esme. E se sentia frustrado por saber que seu sacrifício tinha sido inútil.

- Carlisle sabe tudo a respeito de seus pais. Quer falar contigo. Está preocupado com Esme. O fato de que continue sendo um segredo lhe está prejudicando.

Edward murmurou algo em grego, e cobriu a cara com as duas mãos.

- Então por que não me falou pessoalmente?

- Prometeu a Esme que não falaria com você do assunto, assim como ela tinha prometido a seus pais que o manteria em segredo.

- Ela se envergonha de mim.

- Não acredito. Se não fosse tão teimoso e tão orgulhoso lhe teria informado de toda a história por ti mesmo – lhe disse Bella tremendo.

Edward a olhou com raiva.

- A primeira vez que a vi depois de me inteirar, tentei falar com ela. Mas ela ficou a chorar e saiu correndo. -Estava histérica e aterrada.

E devia ter medo de enfrentar-se a Edward. Porque ele se haveria sentido absolutamente traído por uma mentira que tinha durado vinte anos. Então, em lugar de aparentar estar ferido teria aparen-tado estar zangado. E Esme não teria sabido como atuar frente a ele.

Com frieza pasmosa, Edward empreendeu a marcha perguntando antes:

- Então, que mais terá que falar? Sobre nosso casamento? - Isso é muito singelo. Fica ou vai. Trata de tomar uma decisão antes de que esteja de volta de Paris – disse ele com frieza.

Bella ficou em silêncio. Viu-o colocar a jaqueta. Estava aniquilada. Nunca se havia sentido tão humilhada.

Tivesse sido melhor que brindasse com champanha e que dançasse para festejá-lo, em lugar de reagir com tal indiferença. Ao fim e ao cabo Edward já não tinha motivos para seguir fingindo. E entretanto as cenas eróticas do dia anterior, a paixão que tinham compartilhado, ou que ela tinha acreditado que tinham compartilhado... Mas Edward lhe havia dito um dia que lhe dava medo o amor. Tinha crescido sem amor e tinha aprendido a viver sem ele. E assim havia se fazendo Edward, um homem incapaz de compartilhar nada, incapaz de sentir para não arriscar nem um ápice de orgulho.

O papel que Charlie lhe tinha obrigado a representar tinha chegado a seu final.

Bella sentiu calafrios. Edward lhe servia em bandeja a liberdade que tinha brigado semanas atrás, ele não ia esperar para desembaraçar-se da filha de Charlie. Entre lágrimas, pensou que não valia a pena sofrer por um desgraçado como ele.

- Esteve muito bem querida.

Quando Bella levantou os dedos do piano o atraente americano que se apoiava nele não dissimulou sua admiração para ela.

- Conhece uma que é assim? - assobiou uma canção um pouco desafinada, e voltou para seu assento, depois de que lhe respondeu com um sorriso.

A essa hora o bar estava acostumado a estar cheio de gente, e alguns lhe pediam suas canções preferidas. Não lhe pagavam bem, mas dava para viver, e além disso tinha um par de entrevistas de trabalho.

Portanto sobrevivia. Levava um mês que estava separada da vida de Edward. Tinha aprendido a estar ocupada todo o tempo, e assim estava tão cansada que dormia toda a noite sem pensar em nada. Apontou-se a um curso de informática, olhava os avisos de trabalho do primeiro ao último, e tinha escrito a vários dos que pareciam estar a seu alcance. E todos os dias rogava que fosse um dia em que não pensasse em Edward. Mas infelizmente ao tocar o piano não lhe servia de muito nesse sentido.

Portanto quando Bella elevou a vista e viu Edward a uns passos dela, pensou a princípio que não era uma imagem real, a não ser uma má passada de sua fantasia. Seguiu tocando, mas seus olhos não se separaram dele.

- Toca para mim – disse Edward.

Bella tinha deixado de tocar o piano sem sequer dar-se conta. Seu coração deu um tombo. Como e por que lhe tinha seguido o rastro?

- Por favor... – estranha essa palavra nele.

- O que quer que toque? – perguntou Bella como se se tratasse de um cliente qualquer.

- Algo.

- Não pode dizer o nome de algum compositor?

- Chopin.

Tocou um pouco de Bethoveen, porque sabia que lhe daria igual. Edward ficou ao lado do piano todo o tempo, algo que a Bella incomodou.

- O que quer? – disse ela, tensa, enquanto via o dono do estabelecimento que os olhava, com receio pela confiança que se estava tomando o cliente.

O garçom me disse que às nove tem um descanso.

- Não para compartilhá-lo com você.

Edward tinha deixado um estojo de joalheria forrado em pele sobre o piano.

- É o colar de sua avó.

- Vendi-o!

- Estou-lhe devolvendo.

- Não o quero! E quero que vá e que me deixe sozinha!

- Este cavalheiro é um amigo, senhorita Harrington? – o encarregado se aproximou deles.

- Não.

- Se estivesse em seu lugar não faria caso a essa mentira – advertiu Edward ao encarregado. - Sua pianista é minha esposa.

- É certo isso?

Bella quis gritar que era uma farsa, porém estava segura de que Edward ia seguir sua disputa. Por fim assentiu com a cabeça.

- E está a ponto de fazer uma pausa... – adicionou Edward.

Bella atravessou o salão até a mesa reservada para seu uso pessoal, perto do bar. Edward se sentou frente a ela e a olhou inexpressivamente. Tinha perdido peso, lhe notava nos traços sobressalentes de sua cara.

- Como me encontrou?

- Com esforço.

- O que quer?

- Queria que visse isto – Edward tirou um papel do bolso, e o estendeu ante ela. - Tem direito a isso, não?

Era o certificado. Ela não sabia se ria ou chorava. Um certificado no que punha que um tal Edward Andreakis Cullen tinha nascido faz trinta anos, filho de Esme, em uma clínica na Suíça.

Não põe nada do pai. Quando o perguntei a Elizabeth disse que era um homem casado, a quem minha mãe não tinha querido nomear. Também me disseram que Carlisle não tinha nem ideia de que Esme tivesse um filho ilegítimo. Recordaram-me também as vantagens que tinha tido o que se mantivesse em segredo. A vida que tivesse tido de não ter permanecido dentro da família. Também me disseram que tinha o dever de me manter calado e não envergonhar a Esme com a lembrança da relação que nos unia – disse Edward com severidade.

- Que cruel!

- Até o dia em que Charlie me mostrou isto, eu não tinha a menor ideia de que não era filho de Elizabeth. O engano me destruiu. Em todos esses anos ninguém me havia dito nada. Quis falar com Esme. Queria respostas a minhas perguntas. Tinha direito a elas. Mas ela saiu correndo. E ao fazer isso me confirmou o que Elizabeth me havia dito. Portanto não me aproximei nunca mais dela. Ficava tão nervosa...

- Você a protegeu.

- É obvio – disse ele guardando o certificado.

- Falou com ela agora?

- Sim. E com o Carlisle. Obrigado por me haver aconselhado que o fizesse.

- Pensei que era melhor que eu não lhe dissesse isso.

- Estou muito contente com o Carlisle. Sempre gostaria de ter um pai que me ameaçasse se desgostasse minha mãe.

Bella o olhava sem dizer nada.

- Ao fim sei a quem são! – dedicou-lhe um sorriso que chegou à alma de Bella. - Eu gosto dele. Sempre gostei.

- Me alegro de que se resolveu tudo – murmurou Bella. Sentia que ele queria lhe dedicar a ela um final feliz, depois de que Charlie tivesse começado a história como um pesadelo.

Fez-se um silêncio. Edward olhou o relógio.

- Não quero te entreter mais – disse ela, perguntando-se se ele ouviria o batimento de seu coração.

- Comprei uma casa no campo. Pus à venda a casa de Londres.

Parecia um bom princípio, embora não entendia sua escolha. Ela sempre tinha desejado viver no campo, em troca ele não.

- Pensei que possivelmente queira vir a... bom a vê-la.

- Por quê?

- Me ocorreu simplesmente – respondeu ele, levando a bebida à boca, que estava intacta até esse momento.

Houve silêncio novamente.

- Encontrou trabalho – disse ele nervoso.

- Não penso estar aqui toda a vida. Estou começando. -E ganho o suficiente para viver. - Se te preocupar isso...

- Por que ia preocupar me?

- Possivelmente se gostasse que não pudesse seguir adiante.

- Possivelmente – ele não o negou.

- Teve notícias de meu advogado já?

Houve um silêncio sepulcral.

- Atirou-me todos suas meias três quartos – disse Edward pesaroso.

- Era uma espécie de declaração de princípios.

- Sim, dei-me por informado.

- Foi uma tolice – disse ela desenhando a borda do copo com o dedo. - Como está Tânia? – perguntou-lhe sem poder reprimi-lo.

- Feliz... seu marido voltou a procurá-la no mesmo dia do jantar. Ela prometeu trabalhar um pouco menos, e ele prometeu aprender a cozinhar ou algo pelo estilo.

- Era isso do que estavam falando aquela noite?

- Sobre tudo me estava dizendo coisas sobre mim. Que lhe tinha quebrado o coração faz cinco anos, e que nem sequer me tinha dado conta. E que se me tivesse casado com ela e lhe tivesse feito o que fiz a você, me teria castrado.

Tânia se tinha vingado dele agora que já não lhe importava.

Voltou o silêncio.

- Quer dormir comigo esta noite?

Bella não podia acreditar no que lhe perguntava. Mas ele a olhou desafiante, como para que não tivesse a menor duvida de seus propósitos.

- Não vou responder semelhante proposta.

- Por que não?

- Estou em processo de me divorciar de você!

- Não houve nenhuma mulher. - Nem sequer olhei para outra. - Não desejo a outra mulher. - Desejo só a você.

- Então tem um problema, porque eu não acredito – disse ela tremendo como uma folha.

E na realidade ainda o desejava tanto, que se odiava.

Edward tomou lhe a mão, evitando que ela se afastasse dele.

- Não deveria havê-lo dito... Não era realmente o que queria dizer.

- Mas é exatamente o que estava pensando! – exclamou Bella, tirando a mão capturada pela dele.

Bella se sentiu indignada ante a atitude descarada dele. Desejava-a ainda, mas embora o pedisse de joelhos não aceitaria.

Pela extremidade do olho o viu levantar-se e abandonar o bar. Bella quis chorar desconsoladamente, mas havia um público que a estava esperando e um trabalho que realizar.

Eram as quatro da madrugada dessa noite quando dormiu por fim.

Às oito alguém bateu na porta de sua casa de maneira insistente. Bella fez um esforço e se levantou para abrir. Um ramo de rosas vermelhas foi depositado em suas mãos. Era Edward que aproveitando-se de que Bella estava meio adormecida, tinha entrado e fechado a porta.

- E que esperas que faça com isto? – disse ela consciente do aspecto horrível que tinha, frente a ele que parecia tirado de um anúncio de trajes italianos.

- Põe-nas na água...

- O que passa com você? – perguntou ela.

Ele a olhou uns segundos, e logo se apartou em silêncio.

- Foram muito poucas as mulheres com as que me deitei nestes anos. Com a maioria no primeiro ano, durante o último com nenhu-ma. Que reação esperava ele depois de semelhante informação?

Mas não pôde pensar em nada. Simplesmente lhe bateu com o ramo pelas costas várias vezes, compulsivamente, até que o ramo se estraçalhasse em suas mãos. Ele não fez ameaça algum de defen-der-se.

Então Bella afundou sua cara em suas mãos e sofreu um ataque de pranto repentino. Edward tomou as mãos.

- Por favor, venha para casa.

- Não posso!

- Não te perguntarei o que estive fazendo durante este mês. - Prometo-lhe isso. Não voltarei a lhe mencionar o Woods. Posso fazê-lo. Deixarei de ser ciumento. Pensa que não posso, mas sim eu posso.

Bella separou seus lábios secos no meio do pranto.

- Estava ciumento?

- Devoravam-me os ciúmes. O que acha que sou?Uma pedra? – disse com firmeza. - Quando vi essas fotos quis morrer. Não pude suportar. E sabia que se não era capaz de tolerar, lhe perderia. E lhe perdi no final. Mas já me sobrepus.

- Edward... - a garganta do Bella se espessava.

- Aquela noite em Atenas sabia que estava pensando nele. E pensei que não poderia viver com isso.

- Estava pensando em você. - Carlisle acabava de me dizer de seu parentesco, e me sentia muito culpada porque sabia que você o devia saber.

- Não sabia que tinha estado falando com o Carlisle. - E quando me deu dessa chave no dia seguinte, da forma em que o fez, soube que a recompensa que esperava era sua liberdade. Não podia te obrigar a seguir ao meu lado. Ainda mais se estava apaixonada pelo Woods. Não tinha sentido. A decisão de ficar tinha que ser sua, e realmente não queria estar presente quando tomasse.

Desse modo Edward admitia um ato de covardia que jamais teria esperado dele.

Agora se dava conta de que a insegurança a tinha levado a interpretar mal suas palavras e seus feitos. Porque a que tinha estado lutando por escapar desse casamento tinha sido ela, e ele em troca a tinha pressionado para que seguisse com ele. E no momento que apareceu a chave, era lógico que ele pensasse que ela tinha que tomar uma decisão.

Bella tragou saliva, custava-lhe falar.

- Não estou apaixonada pelo Paul.

- Essas fotos dizem algo muito diferente – disse ele lhe soltan-do as mãos e indo para a janela.

- As fotos podem enganar. Nem sequer o vi desde o dia que esteve na casa. E esse mesmo dia se terminou tudo. Não foi mais que uma aventura, um passatempo, como quer chamá-lo. Estava muito sozinha, aborrecida e suponho que queria o que jamais tinha tido.

- O que poderia ter tido comigo se eu não tivesse sido tão orgulhoso e tão mesquinho para lhe oferecer isso - Edward voltou para ela e adicionou. - Você foi mais sincera comigo do que eu mereço, pethi mou. Se te perdi foi por minha culpa. Apaixonei-me por você a primeira vez que lhe vi. Você não lhe equivocou com meus sentimentos. Foi como se a luz me golpeasse de repente. E quando me pude recuperar do choque, o único queria fazer era sair correndo.

- Mas...?

- Mas você me agarrou pelos tornozelos, porque não fui capaz de ir. Você era muito jovem. Eu não estava preparado para o ca-samento. Mas me dava medo que outro homem estivesse em condições de te dar o que eu não podia. E se eu saísse do seu lado não ia haver oportunidade de que estivesse a meu redor quando eu decidisse voltar.

- Não posso acreditar que esses eram seus sentimentos – disse Bella, temerosa de acreditar no que ele dizia, de que depois de tudo, não se tivesse equivocado quando tinha acreditado que a atração irresistível tinha sido mútua.

- Meus sentimentos eram esses. Embora não sabia como dirigi-los, e além disso acredito que estava ressentido pelo poder de atração que exercia sobre mim. Mas logo, Charlie trocou tudo. De repente não tive escolha. Nunca, ninguém, tinha-me feito fazer nada que eu não quisesse. Senti-me totalmente impotente. Sentia-me como um cavalo de raça que seu pai tinha comprado para você. Apanhado por uma adolescente. E jurei que não te daria nada que eu não queria te dar!

Bella pensou em como se haveria sentido. E pensou amargamente em seu pai, que lhes tinha destruído a possibilidade de ser felizes.

- Compreendo-o – disse Bella.

- Passaram dois anos de nosso casamento até que comecei a te desejar novamente. – Edward fez uma pausa - Não, não o demonstrei. Teria me deixado matar antes que me aproximar de você! Meu orgulho não permitia me dobrar mais ainda à chantagem de Charlie. Você era uma mulher a quem eu jamais tocaria.

- Sim – disse ela.

- Não te tive em conta. Era uma luta entre o Charlie e eu, e você estava no meio. Você era minha esposa. Eu não podia te tocar. Mas nenhum outro podia tampouco. Mas quando morreu Charlie eu já tinha decidido que seguiria sendo minha esposa, e então, ao ser uma escolha própria, nosso casamento seria real. Já sabe não me ocorria que você pudesse ter outras ideias. Tinha aceitado a situação por tanto tempo... – terminou Edward com uma sombra de desconcerto e vergonha de uma vez.

- Você pensava que com sua palavra bastava... – Bella pensou que era muito arrogante, mas pelo menos era sincero.

- Eu pensava que você me amava, e que por isso tinha seguido a meu lado.

- Pensava que eu era a fiel Penélope?

- Foi muito vaidoso de minha parte. Quando lhe ouvi falar ao telefone com o Woods, quis morrer. Queria me deixar, e tive que tomar medidas extraordinárias para que não fosse. Realmente não pensava que esse certificado fosse ainda uma ameaça para mim.

- Não? Bella estava pasmada ante tal afirmação.

- Simplesmente o utilizei para lhe reter e lhe obrigar a que desse uma oportunidade a nosso casamento. E não tinha direito de fazê-lo. O orgulho e o ressentimento tinha-me impedido de fazê-lo em vida do Charlie. Mas não queria enfrentar à possibilidade de te perder.

- Não queria que nenhuma outra pessoa me comprasse meias três-quartos... – disse ela sorrindo, enquanto se movia pela habitação.

- Até agora tinha tido meias três quartos suficientes para o resto de minha vida.

Houve um longo silêncio, Edward então pigarreou e seguiu.

- Quando disse que invejava a fortaleza de Alice em não ceder às pressões da família de Dion Kiriakos para que deixassem a relação...

- Dion é Kiriakos?- interrompeu Bella.

- É o irmão mais novo de Tânia. - Não se deu conta?

Bella negou com a cabeça.

- Alice não deixou que o orgulho interferisse entre ela e seus sentimentos. Eu sim.

Edward se deu conta do que queria lhe dizer com isso. E do que lhe custava dizê-lo. Era uma luta interior, que se teria economizado com ele "Quer dormir comigo esta noite".

- Pode escrevê-lo se te resulta mais fácil – disse ela titubeando, mas com a felicidade aflorando a seus olhos.

- Quando voltei de Paris e você já não estava, foi como me encontrar em um deserto. Tinha jogado e tinha perdido. Você tinha escapado por fim do campo de concentração. Necessito que volte para casa.

- Puseste-a em venda – lhe disse com crueldade que acabava de estrear.

- Dá igual a que não me ame – a olhou com desespero, as mãos entrelaçadas fortemente, sublinhando a tensão interior nele. - Eu te amo tanto...

- Eu também te amo, mas não estava disposta a dizer até que o dissesse.

Edward a abraçou. Era formoso voltar a estar em seus braços, e durante um longo momento não houve mais que silencio entre eles, e beijos, e um comprido abraço no que pareciam fundidos.

- Senti falta de todos os dias em todas as horas – lhe jurou ele. - Pensei que tinha lhe perdido.

Depois de um momento em que pareciam não poder desprender-se, Bella lhe perguntou:

- Como se sentiu quando atirei as meias três quartos?

- Se não tivesse estado zangada comigo, não te teria o trabalho de fazê-lo. Isso me deu esperanças – confessou ele com um sorriso.

- Tiveste sorte de que não fizesse pedaços os trajes!

- Isso me teria dado mais esperança ainda, mas acredito que devo dizer que não tenho intenções de aprender a cozinhar – murmurou o zombador.

- Tem outros talentos – disse Bella, lhe acariciando o pelo do peito.

- Acredita nisso? – sorriu ele.

- Sei. Para que vai perder o tempo na cozinha quando é tão bom no quarto?

- Pequena bruxa – protestou com ternura, e voltou a beijá-la.

- Quero ver essa casa que comprou – disse ela.

- Comprei-a para você.

- De verdade?

Beijou-a novamente.

Foi nesse dia, mas muito mais tarde já, quando foram ver a casa onde começariam uma nova vida juntos, longe do passado, longe de tudo menos do amor que compartilhavam.

FIM