N/A: Eu simplesmente amei os comentários de vocês. Muito obrigada! :D


CAPÍTULO CINCO

Dezenove de abril chegou como um dia chuvoso, mas com uma temperatura confortável. Bella não sabia se a festa de Anthony ocorreria dentro de casa ou ao ar livre, mas tinha certeza que, se fosse na rua, o organizador da festa tinha levado as instabilidades do tempo em consideração. Ela levava. Era uma das primeiras coisas em que pensava quando organizava um casamento ao ar livre.

Saindo da rodovia principal, Bella entrou numa longa estrada arborizada, que ficava mais afastada do centro da cidade. Os troncos de árvores formavam arcos retorcidos acima de sua cabeça, deixando passar frestas da luz pálida do meio da tarde. Ela observou a vizinhança, composta de belas casas espaçadas entre si. Sabia que aquele era um bairro de ricos, mas as mansões a surpreenderam mesmo assim. Eram todas enormes, a maioria em estilo Pré-Guerra Civil, com suas colunas gregas elegantes e imponentes janelas grandes. Os jardins de bromélias, narcisos e magnólias floresciam com a chegada da primavera, adicionando cor e beleza ao dia cinzento.

Bella virou uma esquina, seguindo as instruções anexadas ao convite que ela recebera um dia depois de encontrar Edward na boate. Uma sinuosa elevação na estrada levava à propriedade dos Cullen. Ela parou o carro diante de um portão de ferro alto. O segurança na guarita a deixou passar assim que ela se identificou. Quando avistou a casa de dois andares, ficou boquiaberta.

A casa tinha o mesmo estilo arquitetônico das construções da vizinhança. Só que era maior. Muito maior. As colunas gregas na entrada estendiam-se pelos dois andares, sustentando um telhado bicudo que dava cobertura ao alpendre da entrada e às sacadas do segundo andar. As janelas uniformemente espaçadas contavam com venezianas verde-escuras que, junto com corrimãos da mesma cor, contrastavam de maneira elegante com o branco das paredes. O gramado ainda precisaria de mais um mês para entrar no clima da primavera, mas os canteiros de camélias cor-de-rosa começavam a florescer, adicionando delicadeza ao lugar.

Bella contornou a casa até chegar ao pátio de veículos. Mal havia desligado o motor e um manobrista já estava abrindo a porta para ela. Ela pegou a bolsa de mão e o presente de Anthony, depois entregou a chave do carro ao manobrista. Grata por a chuva ter parado, Bella atravessou o caminho de tijolos e seguiu até a entrada lateral, onde ela sabia estar acontecendo a festa de Anthony. Imaginava que fosse em uma das salas da mansão — um lugar grande como aquele, certamente, tinha cômodos igualmente grandes, capazes de abrigar uma festa —, mas, quando foi conduzida para dentro do espaço, ficou boquiaberta mais uma vez.

Era um salão de festas, tão espaçoso e equipado quanto os que a PW usava em seus eventos. Havia duas enormes lareiras de mármore em lados opostos, mas, como o clima não estava propício, elas tinham sido cobertas de modo que o espaço pudesse ser usado. O salão ostentava uma decoração com o tema "Vingadores", e também contava com espaço com brinquedos infantis, onde as crianças se distraíam, e mesas redondas onde os adultos estavam reunidos.

Agregado ao salão, Bella avistou um jardim de inverno que a deixou encantada. Era todo de vidro, com uma vista da densa floresta do lado de fora, e repleto de mesinhas de ferro branco e cadeiras de vime da mesma cor. Mas faltavam flores, pensou Bella. Orquídeas, jasmins e prímulas. Vasos de barro e vidro, de vários tamanhos, espalhados no chão ou nas mesinhas. Daria o cenário perfeito para um casamento, pensou Bella, distraída. Um casamento pequeno, claro. O lugar também era perfeito para passar tardes preguiçosas de inverno, bebendo chá e lendo enquanto a neve caía lá fora.

Ela sorriu. Um dia, decidiu num ímpeto, teria uma casa com um jardim de inverno.

— Senhorita Bella! — Anthony veio correndo na direção dela, os olhos verdes animados e brilhantes, como os de todo aniversariante.

O sorriso de Bella ampliou-se. Ele era tão adorável. E, descobriu, ela adorava quando Anthony a chamava de "Senhorita Bella". Não sabia por que, mas o modo como o "título" soava fazia-a se sentir alguém especial. Alguém especial para Anthony.

Ela deu um passo à frente, pronta para desejar "Feliz Aniversário", mas Anthony foi mais rápido. Num pulo, ele a abraçou pela cintura.

— Você veio! — exclamou o menino, entusiasmo e alívio presentes na voz.

Bella sentiu um aperto no coração, que estava se tornando familiar, e disse a si mesma que qualquer pessoa teria a mesma reação. Sabia que o menino era solitário. Anthony não tinha mãe, afinal. Ela sabia como era difícil viver sem uma. Sentir-se solidária com a aparente carência de Anthony, pensou, não passava de uma reação natural.

— É claro que vim. — Ela sorriu quando o menino se afastou para fitá-la. — Eu disse que não perco um festão e a sua, colega, está bombando.

Anthony deu uma risadinha.

— Tem um mágico e tudo, Senhorita Bella. Ele faz uns truques maneiros. — contou Anthony e, porque o fato de aquela ser sua festa o deixava confiante, deslizou a mão para a dela e começou a guiá-la pelo salão. — Ele disse que pode me ensinar um truque, porque eu estou fazendo aniversário.

— Isso é maneiro. — Bella imitou o tom dele e Anthony riu novamente. — Você me ensina o truque quando eu fizer aniversário?

O menino assentiu, vigorosamente, surpreso, mas entusiasmado, com o pedido.

— Ensino. Quando vai ser seu aniversário?

— Ah, não vai ser agora. Mas eu aviso a você quando estiver chegando.

— Ok. — Ele assentiu, continuando a levá-la até a apresentação do mágico, mas parou quando Edward o chamou. — Oi, pai.

— Anthony, a Bella mal chegou e você já está monopolizando a atenção dela.

— O que é monololizando?

Edward riu.

— Deixa pra lá. Bella. — Ele a cumprimentou, entregando-lhe um copo de água tônica. — Não temos álcool hoje. Regras da minha mãe.

Ela aceitou a bebida com a mão livre, tocando brevemente a ponta dos dedos na dele. O gesto espalhou-se por seu corpo como uma potente descarga de energia. Isso, aliado ao olhar penetrante dele, afetou sua já precária frequência cardíaca.

— Obrigada. — disse ela, tentando não soar ofegante. Esse dois, pensou, eram prejudiciais ao coração. E ela tinha certeza de que as corridas com Angela pouco ajudariam a lidar com esse tipo de "prejuízo".

— Vou levar Bella para ver o show de mágica. — explicou Anthony ao pai, esperando que ele entendesse e os deixasse seguir caminho.

Edward assentiu e fitou Bella.

— Então, você gosta de alguns truques.

— Tenho os meus próprios, mas é sempre bom aprender novos. — Ela esboçou um sorriso suave, mas os olhos castanhos escureceram. — Pode vir a ser útil.

— Uma mulher prevenida. — Edward esboçou um sorriso enviesado, devolvendo o olhar dela.

Bella bebeu um gole da água tônica. Quando curvou os lábios, acrescentou calor ao sorriso.

— Ah, sim, eu sou.

Anthony deu um passo à frente, de modo a ficar entre Edward e Bella.

— Pai, o show já vai começar. — explicou ele. — Pode nos deixar ir agora? Por favor?

— Claro, claro. — Edward enfiou a mão livre no bolso.

Bella o fitou.

— Por que você não vem conosco?

— Não sou muito fã de mágica. — disse ele, bebericando sua água tônica.

Resposta errada, pensou Bella.

— Você já assistiu a um show de mágica? — Ela insistiu.

— Duas vezes.

— E quando foi isso?

— Quando eu era criança. Não deu muito certo para mim. — Ele franziu o cenho, sentindo-se em um interrogatório.

— Faz muito tempo. Um monte de coisas novas surgiram desde então. Além disso, Anthony vai adorar que você venha conosco, não vai? — Ela lançou um olhar na direção do menino.

Ele ficou pensativo. Gostaria muito que o pai se juntasse a eles, mas não o convidara porque Edward estava sempre tão ocupado. Muitas vezes, enquanto faziam alguma coisa, o celular do pai tocava e os interrompia. Isso chateava Anthony, pois ele sabia que, quando recebia essas ligações, o pai tinha que deixá-lo. Ele se lembrou do episódio no carro, com os feijões e, sem perceber, apertou a mão de Bella.

— Ia ser legal. Mas você não precisa assistir se estiver ocupado. — acrescentou o menino numa voz baixa e pragmática.

Bella franziu o cenho, tanto pelo aperto em sua mão quanto pelas palavras de Anthony. Sabia que, como um homem de negócios e bem sucedido, Edward devia passar bastante tempo longe do filho. Mas aquela era a festa de aniversário de Anthony. O menino não devia saber que aquele era seu dia, o dia em que o pai, sua família mais próxima e imediata, supostamente devia dedicar o tempo somente a ele?

Ela lançou um olhar na direção de Edward. Havia culpa nos olhos dele, percebeu.

A situação, pensou Bella, era mais complicada do que imaginava. E ela não fazia ideia de porque sentia vontade de consertá-la. Isso, também, podia ser algo complicado.

Não é da sua conta. Não é da sua conta. Não é da sua conta.

— Bem — disse ela, o mantra de repente fugindo da mente. —, seu pai não está ocupado agora, Anthony. Ele vai assistir ao show conosco.

Anthony uniu as sobrancelhas, meio confuso, e fitou Edward.

— Sério, pai?

Edward lançou um longo olhar na direção de Bella. Ela arqueou uma sobrancelha, os olhos desafiadores. Ela o estava testando, percebeu e não conseguiu decidir se o sangue esquentou de irritação, admiração ou gratidão. Talvez fosse um pouco dos três.

Ele terminou sua bebida antes de responder:

— Sim, Anthony, vou assistir ao show com vocês. — Ele retribuiu o sorriso do filho, bagunçando-lhe os cabelos, e seguiu-o junto com Bella.

Ela o fitou por sobre o ombro, os olhos suaves agora, e sorriu.

— Dizem que a terceira vez é a que dá certo.

Edward esboçou um sorriso enviesado, os olhos escureceram.

— Não sou um homem de tentativa e erro, Bella. Comigo, sempre dá certo na primeira.

— ~ —

Edward e Anthony tinham dificuldade de se aproximar. Bella acabou por perceber, enquanto os observava. Ela não conhecia o histórico da relação de pai e filho, não sabia se havia algo do passado que influenciava essa relação agora, mas imaginava que a carência de Anthony fosse resultado da perda da mãe, aliada ao pai ocupado. Só não entendia porque Edward parecia ter dificuldade de se aproximar de Anthony.

Ele se importava com o filho, Bella não tinha dúvidas disso. O único problema, percebeu, era que não parecia confortável em demonstrar isso.

Ela o observou com Anthony, o modo como seu olhar tornava-se mais tranquilo e ele até mesmo sorria, espantando as sombras em seus olhos. Talvez fosse uma mudança sutil, inconsciente, que nem ele mesmo imaginava acontecer. Mas estava lá.

E era óbvio que Anthony adorava o pai. Depois do show de mágica, que Edward acompanhou com ele até o fim, Anthony se sentiu confiante o suficiente para arrastar o pai pela festa, pedindo a ele que jogasse pebolim, depois arremessasse algumas bolas na cesta de basquete, depois o ajudasse a fazer animais de balões.

Um grupo de crianças, amigos de Anthony ou filhos dos amigos de Edward, seguia-os. Mas Bella percebeu que Anthony estava muito mais interessado em ter o pai ao seu lado do que as crianças de sua idade, como se temesse que Edward fosse desaparecer se ele o perdesse de vista. Ela ficou se perguntando se esse era um medo imaginário, resultante da falta da mãe, ou se era algum trauma de Anthony.

— Bella.

Ela se virou e avistou Alice caminhando em sua direção. Estava parada próxima à cesta de basquete — ela, também, estava sendo recrutada pelo aniversariante —, onde Anthony e o pai alternavam arremessos. Ela já tinha dado alguns, mas desistira quando nenhuma bola acertou o alvo. Isso divertira o menino, ainda mais quando ela se fingiu magoada.

Alice se aproximou de mãos dadas com um homem bonito, de cabelos louro-escuros, olhos azuis e incrivelmente alto em comparação a ela.

— Esse é Jasper Hale. — Ela o apresentou. — O homem de sorte que vai casar comigo.

Jasper franziu o cenho, os olhos azul escuros e brincalhões.

— Isso é discutível. Senhorita Swan. — Ele estendeu a mão para Bella e piscou na direção dela, o gesto divertido e cúmplice. Eles haviam conversado por telefone na sexta-feira, para falar sobre a surpresa que ele estava preparando. Mas isso era assunto sigiloso.

— É um prazer finalmente conhecê-lo, senhor Hale. — Ela devolveu o olhar conspiratório dele com um sorriso divertido. — Ouvi falar muito de você.

— Meu maior pesadelo. — Jasper fingiu estremecer e recebeu uma cotovelada da noiva.

— Não assuste, Bella. Ela não vai querer fazer nosso casamento se souber que sou um monstro. — replicou em tom de falsa censura. Depois se virou para Bella. — Jasper exagera.

— Espero que sim.

— Você está gostando da festa? — quis saber Alice, lançando um olhar ao redor. — Certamente deve haver algo de adorável nesse monte de crianças ensandecidas e berrantes, mas suponho que só vou enxergar isso quando tiver uma.

Jasper franziu o cenho.

— Pensei que você estava tentando fingir que não é um monstro.

— Só não estou no clima de maternidade ainda. — replicou Alice. — Estou bastante feliz com minha atual condição de tia e não pretendo mudar isso tão cedo.

— Isso é discutível. — disse Jasper, novamente, e piscou para a noiva.

— E quanto a você, Bella? — Alice a fitou, bebendo um gole de suco.

— Eu?

— Sim. Você pensa em ter filhos? — disse Alice e fingiu não perceber o olhar de censura do noivo. Sabia que Jasper desaprovava sua falta de sutileza.

Bella gesticulou, como se o gesto fosse ajudá-la a encontrar as palavras que queria dizer, enquanto Jasper se juntava a Anthony e Edward.

— No momento — disse, pensativa. —, estou satisfeita em cuidar da minha carreira. Além disso, ouvi rumores de que é preciso encontrar um homem antes.

— Uma tarefa complicada.

— Nem me fala. — Bella terminou seu suco de maracujá. — Achar um que valha a pena, então, é como ganhar na loteria.

— Hmmm. — murmurou Alice em compreensão e observou o noivo. Jasper ergueu Anthony para ajudá-lo a fazer uma cesta. Dissera que Jasper era um homem de sorte, mas ela também era sortuda. Estavam numa relação em que ambos ganhavam, pensou.

Ela fitou o irmão, observou-o lançar um olhar na direção de Bella, que retribuiu o olhar com um sorriso. Queria que Edward tivesse o que ela tinha com Jasper. E, talvez, Bella pudesse ser aquela a proporcionar isso a Edward. Tinha observado os dois durante a última hora, o modo como eles se olhavam, os olhares ora suaves, ora intensos, a maneira como conversavam e relacionavam-se com Anthony.

Havia algo ali, Alice tinha certeza. E talvez fosse algo que beneficiasse tanto Edward quanto Anthony.

O momento de cantar parabéns chegou. Anthony ocupou seu lugar atrás do bolo e corou com a atenção dispensada a ele na hora da costumeira canção de aniversário. Depois, soprou as velas, fazendo seu pedido secreto de que a Senhorita Bella se tornasse sua mãe. O pai o ajudou a cortar o bolo. Quando a avó lhe perguntou para quem ele queria dar a primeira fatia, Anthony disse, timidamente:

— A Senhorita Bella.

Como o menino, Bella corou quando as cabeças se voltaram em sua direção. Mas, apesar disso e do choque de ser escolhida, conseguiu sorrir e aceitar a fatia que Anthony lhe oferecia.

— Obrigada, amigão.

O menino esboçou um sorriso tímido e, quando ela beijou sua testa, sentiu aquela pontada engraçada na barriga. Tinha feito o pedido certo. Ela seria uma boa mãe.

— ~ —

Depois do parabéns e de comer o bolo, Anthony decidiu que queria fazer mais um animal de balão e, como Bella era melhor com trabalhos manuais, puxou-a até o espaço dos balões. Determinado a fazer um cachorro, ele se concentrou em ouvir as instruções de Bella.

Livre um instante, Edward foi buscar algo para beber. Estava conversando com Jasper quando Emmett se aproximou, a expressão séria. Discretamente, ele abordou Edward e disse-lhe algo em voz baixa. A expressão descontraída de Edward transformou-se em uma sombria. Ele assentiu e deixou o copo de lado, aceitando o celular que Emmett lhe estendia.

— ~ —

Anthony ergueu os olhos verdes e orgulhosos para Bella. Depois de dois balões estourados e três tentativas falhadas, tinha, finalmente, conseguido fazer um cachorro preto de balão.

— Eu consegui, Senhorita Bella!

Ela bagunçou os cabelos dele.

— Parabéns! Qual vai ser o nome dele?

— Pulguento.

Bella riu.

— Nome curioso. — disse ela.

Anthony também deu uma risadinha e fitou o animal de balão, depois se levantou da cadeira.

— Vou mostrar para o meu pai. — disse e saiu correndo na direção da mesa de bebidas, onde vira o pai pela última vez.

Mas Edward não estava mais lá.

O menino se virou, olhando de um lado a outro, procurando entre as pessoas no salão. A avó e a tia se aproximaram de onde estava.

— Onde está o meu pai? — perguntou às duas.

Bella se levantou e se aproximou. Ela franziu o cenho quando viu a expressão apologética de Esme e o olhar sério de Alice.

— Anthony, querido, surgiu um problema no escritório. Seu pai teve que resolver. — Esme disse com suavidade.

Os olhos de Anthony encheram-se de lágrimas.

— Ele foi embora? — disse o menino, apertando o animal de balão contra o peito. — Mas eu me comportei.

— Oh, querido, não foi por sua causa.

Mas o argumento da avó pouco fez para conter as lágrimas. Desesperada, Esme fitou Bella.

Ela não tinha ideia do que fazer, mas abaixou-se e fitou o menino com um olhar tranquilo.

— Ei, Anthony, que tal mais uma partida de basquete?

Anthony fez um bico, meneando a cabeça, e atirou-se nos braços de Bella. Automaticamente, ela passou os braços ao redor dele e se levantou com o menino no colo. Esme ficou com o cachorro de balão — que, milagrosamente, não estourou com o abraço. Anthony enfiou o rosto na curva do pescoço de Bella e começou a soluçar.

Bella fitou o salão ao redor. Vários convidados haviam se retirado depois do parabéns, de modo que o espaço estava mais vazio. Mesmo assim, algumas pessoas permaneciam na festa e observavam a crise de choro do aniversariante. Ela afagou as costas de Anthony e, por sobre o ombro dele, encontrou o olhar de Esme.

— A festa acabou para ele. — disse, a voz baixa, os olhos sérios.

Esme assentiu.

— Eu sei. — disse e trocou um olhar com Alice. — Vamos nos livrar dos convidados.

Alice assentiu e, junto com a mãe, começou a espalhar uma história de que a previsão do tempo alertava para uma onda de ventos fortes e chuva torrencial para dali uma hora e meia, mais ou menos.

Bella levou Anthony até o jardim de inverno, onde não havia ninguém, e sentou com ele numa das cadeiras de vime. As lágrimas logo pararam de cair, mas ele continuou soluçando enquanto ela o balançava suavemente.

— Não fique triste, Anthony. — sussurrou Bella, acariciando os cabelos dele. — Tenho certeza de que seu pai não teria saído se não fosse um assunto muito importante.

— Ele sempre vai embora. — replicou Anthony e fungou. — Ele não gosta de mim.

— Isso não é verdade. — afirmou Bella. Ao menos, queria acreditar que não fosse. — Seu pai gosta de você. Ele não teria feito essa festa, assistido ao show de mágica ou jogado basquete se não gostasse.

Anthony limpou os olhos, pensativo.

— Sério?

— Sério. — Bella assentiu, feliz por tê-lo distraído. — Pais que não gostam dos filhos nunca fazem nada com eles. — explicou ela, sentindo o coração apertado. O assunto estava chegando muito perto de casa, pensou.

Ela lançou um olhar na direção do salão. Não sabia como Alice e Esme tinham conseguido espantar os convidados, mas o lugar estava praticamente vazio agora.

— Sabe do que mais, Anthony? Por que não abrimos os seus presentes? — disse ela, o tom animado, depois de fitar a enorme caixa onde estavam os pacotes que o menino recebera.

Anthony deu de ombros.

— Tá.

— Ótimo. — Bella manteve a voz animada e ajudou-o a se levantar. De mãos dadas, caminhou com Anthony de volta ao salão.

Esme despediu-se do último convidado e sorriu para eles quando se aproximaram.

— Anthony vai abrir os presentes. — anunciou ela, determinada a manter o clima descontraído.

— Que ótima ideia. — Esme assentiu, em aprovação, o tom alegre. — Vou pedir a Cyrus que leve a caixa de presentes para a sala de estar. Lá é mais quente e confortável.

Bella assentiu e acompanhou Alice, que os guiou até a sala de estar.

— Onde está Jasper? — perguntou Bella, enquanto atravessavam o corredor que ligava o salão à casa principal.

Alice a fitou de esguelha.

— Está com o meu irmão. Jasper é advogado e trabalha para nossa família. — disse ela, em tom baixo, e isso era tudo o que diria, percebeu Bella.

A sala de estar quente e confortável provavelmente era maior que o apartamento inteiro de Bella. Era um lugar elegante e espaçoso, com sofás confortáveis e uma enorme lareira de mármore escuro. A decoração era discreta, com quadros renomados nas paredes e mesinhas de carvalho entalhado, mas também um pouco formal e fria. Não parecia a sala de uma casa em que vivia uma criança.

Bem, pensou Bella, isso estava prestes a mudar.

Cyrus trouxe a caixa de presentes, ajudado por dois homens que Bella não conhecia. Ele a fitou, ainda segurando a caixa.

— Onde coloco isso, senhorita?

— Ah. — Bella se virou para Alice. A casa era do irmão dela, afinal.

Alice deu de ombros.

— A ideia foi sua. Sou só a guia.

Bella observou a sala.

— Pode colocar ali, Cyrus. — Ela apontou para uma mesinha de café entre dois sofás. — Obrigada. — disse ao motorista e aos homens.

Eles assentiram e se retiraram discretamente.

Bella se virou para Anthony.

— Ok, amigão, é hora dos presentes.

Durante um pouco mais que meia hora, Anthony se distraiu um pouco com a abertura dos presentes. Os brinquedos o animaram, mas não despertaram o entusiasmo que deviam. Ele abria as embalagens sem muita expectativa, enquanto Bella lia os cartões para que soubessem quem havia dado os presentes.

— Oh, esse aqui é dos bons. — disse Bella a certa altura, quando Anthony pegou um presente retangular em uma embalagem verde chá. Ela fitou o cartão. — Vem de uma pessoa linda, inteligente, engraçada, divertida, maravilhosa…

— Modesta. — Alice estava sentada numa poltrona, observando-os.

Bella arqueou uma sobrancelha, pensativa.

— Está bem. Gosto de modesta. — decidiu. — Ela também é bem maneira. Eu já disse isso?

— Não. — Anthony a fitou.

— Então, você sabe quem mandou o presente?

O menino riu.

— Foi você.

Bella soltou uma exclamação surpresa.

— Como você adivinhou? — Ela bagunçou os cabelos dele, feliz quando ele riu mais. — Agora abra o presente. Quero ver sua reação.

Anthony rasgou a embalagem e arregalou os olhos quando viu a embalagem com o boneco.

— É o Homem de Ferro! — Exclamou ele, erguendo os olhos para Bella. — Ele é meu super-herói favorito no mundo todo.

Bella sorriu, trocando um olhar com Alice. Quando foram escolher o vestido, tinha perguntado à ela quais as coisas que Anthony gostava. Presentear era uma coisa que ela levava a sério.

— Sabe, Anthony, você e o Homem de Ferro têm o mesmo nome.

Anthony franziu o nariz, pensativo.

— Mas o nome dele é Tony.

— Esse é o apelido dele. — explicou Bella, ajudando-o a abrir a embalagem. — Tony é apelido para Anthony.

— Ninguém nunca me chamou de Tony. — refletiu o menino, erguendo o boneco e analisando-o de todos os lados. — Uau!

Bella o observou distrair-se com o boneco, tentando descobrir o que ele fazia, apertando botões e soltando "uaus" e "maneiros" pelos próximos dez minutos.

— Anthony, o que se diz quando alguém dá um presente a você? — perguntou Esme, que chegara à sala no meio da conversa.

O menino fitou a avó, depois olhou para Bella.

— Obrigado, Senhorita Bella. Eu amei o presente.

Então, era de Esme que vinham as boas maneiras, percebeu Bella. Ela sorriu para Anthony.

— De nada, amigão. — disse ela, encontrando o olhar de Esme por sobre o ombro do menino.

A avó piscou para ela, os olhos verdes e gratos, e moveu os lábios para dizer um "obrigada" silencioso.

Bella sabia que ela não estava se referindo ao presente que dera a Anthony.

O menino brincou mais um pouco com o boneco, deixando-o ao seu lado quando voltou a abrir presentes. Quando chegaram nas roupas, ele disse que não queria mais fazer aquilo. O tom triste voltou aos olhos e a voz. Podia ter sido distraído, mas, como toda criança, não se esquecera da partida do pai.

Porém, ele não chorou mais e apenas assentiu quando a avó lhe perguntou se estava cansado.

— É melhor você tomar um banho e ir dormir, querido. — disse-lhe Esme, ao que Anthony assentiu. — Agora, diga tchau a Bella e Jane vai colocá-lo na cama.

Bella não tinha percebido que a babá estava na sala. Não a tinha visto durante a festa.

Anthony fez uma careta.

— Bella não pode fazer isso?

A primeira reação de Bella foi dizer que faria qualquer coisa por ele, mas sua parte racional a impediu de falar. Havia linhas que não podia cruzar. Pelo bem de Anthony e de si mesma.

Ela se abaixou de modo a fitar o menino nos olhos.

— Sinto muito, amigão, mas está ficando tarde. Se eu demorar muito, Angela vai ficar preocupada. Eu disse a ela que voltaria antes de anoitecer.

— Ok. — murmurou Anthony, abraçando seu boneco com firmeza. — Mas você vai voltar amanhã?

Ela queria, mas, no momento, não achava sensato fazer promessas.

— Logo. — disse, beliscando a ponte do nariz dele.

Anthony não gostou muito da resposta, mas resolveu deixar aquilo de lado. Num gesto que começava a se tornar natural, abraçou-a.

— Tchau, Senhorita Bella.

Ela riu, tentando agir normalmente, mas sentia o coração apertado. Beijou a testa dele.

— Tchau, amigão.

Com uma mão na da avó e a outra abraçando seu novo boneco do Homem de Ferro, Anthony saiu da sala junto com Esme e Jane.

Bella se virou para Alice.

— Bem — disse, olhando ao redor à procura de sua bolsa. —, é melhor eu ir.

— Obrigada, Bella. — Alice segurou seu braço. — Por tudo o que você fez pelo Anthony. Ele gosta muito de você.

Bella sorriu.

— O sentimento é recíproco.

— Eu sei. — Tinha observado o carinho que ela tinha pelo sobrinho e, honestamente, achava que Bella era mais carinhosa com Anthony do que todos eles, que conheciam o menino desde o nascimento.

— Ele é um menino adorável. Não precisa de muito para se gostar dele. — Bella buscou a bolsa em cima do sofá. — Preciso mesmo ir, Alice. O caminho de volta é longo.

— Posso pedir a Cyrus que leve você.

— Não, obrigada. Eu vim no meu carro. — Ela esboçou um sorriso educado.

— Vou pedir para buscarem seu carro, então. — disse ela, discando um número no telefone e dando a ordem rapidamente. Quando encerrou a ligação, vozes masculinas soaram no corredor, até que Edward, acompanhado de Jasper, entrou na sala.

Ele parou na soleira da porta, a expressão sombria e muito, muito séria. Parecia, pensou Bella, a expressão de um homem capaz de matar. Mas, quando as viu, a fúria foi substituída por confusão.

— O que houve com a festa?

— Acabou. — Foi Bella quem respondeu.

— Mas eu só saí por uma hora. — Ele olhou dela para a irmã. — Aconteceu alguma coisa?

— Você ficou ausente por duas horas e meia, senhor Cullen. — Sim, ela tinha cronometrado. — Anthony não ficou muito feliz.

Edward arqueou uma sobrancelha, confuso com o tom ríspido na voz dela. Os olhos castanhos, sempre doces e gentis, estavam escuros e frios. Ele sustentou o olhar, sentindo-se, ao mesmo tempo, acuado e furioso. Ela não tinha o direito de olhar para ele com censura, nem ele devia sentir vontade de se justificar.

— Onde está Anthony, agora?

— Com a babá. Ela o está colocando para dormir.

Edward fitou a confusão de embalagens de presente abertas e as caixas de brinquedos.

— Ele já viu os presentes?

— Bella o convenceu a abrir. Para distraí-lo. — explicou Alice.

Ele se sentiu culpado. Sabia que o repentino encerramento da festa era sua culpa.

— É melhor nós irmos. — Alice segurou a mão do noivo e, após uma breve despedida, puxou-o para fora da sala.

Bella segurou a bolsa com as duas mãos, olhando em todas as direções, menos para Edward.

— Devo ir, também. — disse ela, tentando escapar, mas ele a segurou pelo braço antes que chegasse à porta.

— Por que você está tão furiosa?

Ela soltou uma risada ríspida.

— Por que estou furiosa? — repetiu, o olhar perigoso. Nem ela mesma sabia que estava tão irritada, mas, agora que Anthony estava longe, percebia que estivera armazenando aquele sentimento o tempo todo. E era com Edward que estava furiosa. — Passei as últimas duas horas tentando animar seu filho porque você o abandonou na própria festa de aniversário!

Edward a soltou, como se ela e o tom dela o tivessem agredido fisicamente.

— Eu não o abandonei. Surgiu um assunto urgente no escritório e…

— Não era urgente. O seu assunto urgente está bem aqui, sempre está aqui, e agora ele está lá em cima, infeliz e traumatizado. — replicou Bella, o tom passional, a voz começando a se elevar. — Anthony perdeu a mãe e ele precisa de você mais do que qualquer coisa. Como você não percebe isso?

— Eu percebo. Sei disso. — Edward fez uma pausa, irritado ao perceber que estava sendo encurralado por ela. Ele a fitou, contraiu o maxilar. Sua expressão sombria de antes voltou. — Quem é você para me dizer como cuidar do meu filho?

Bella estava irritada demais para sentir medo da expressão dele.

— Eu sou uma estranha. Uma estranha a quem seu filho se apegou porque está tão desesperado por atenção que está aceitando isso de qualquer um. Não sei que diabos aconteceu entre você e a mãe dele, ou quão importante é seu precioso trabalho. Só o que sei é que aquele garotinho precisa de alguém que lhe dê afeto! Se você mesmo não é capaz de dar isso a seu filho, quem mais vais ser? — disse ela, e agora a voz estava realmente alterada.

Edward contraiu o maxilar.

— Não se atreva a dizer que não me importo com meu filho. Eu amo Anthony.

Bella arqueou uma sobrancelha, o olhar tão perigoso quanto o dele.

— Você tem um jeito muito peculiar de demonstrar isso, senhor Cullen. — disse ela, com frieza e saiu da sala, antes que fizesse ou dissesse algo mais de que se arrependeria.

Estava mais furiosa do que tinha o direito, percebeu. Nem Anthony, nem Edward faziam parte de sua vida. Ela era uma estranha ali e, mesmo assim, discutira aos berros com o dono da casa.

Bella respirou fundo e entrou no carro. Obrigou-se a se acalmar. Tudo bem, era uma estranha e não tinha direitos.

Mas não podia suportar um pai que negligenciava amor ao filho.


N/A: E aí, qual o veredicto de vocês?

Ps.: Próximo capítulo será postado quinta-feira que vem (07/05).