N/A: E aí, beleza? Eu não quis esperar até quinta-feira. Vocês merecem post antes. :) Muito obrigada pelos comentários, sempre lindos. *.*
Cuidado com minha N/A final, pois ela contém spoiler.
Boa leitura!
CAPÍTULO SEIS
Bella estava se preparando para uma reunião com uma noiva maluca, que queria um casamento ao estilo medieval, quando o telefone tocou.
— Isabella Swan.
— Bella, aqui é Esme Cullen.
— Senhora Cullen. — disse ela, sorrindo, deixando as anotações de lado. O filho de Esme podia ser um empresário frio, insensível e frustrante, mas Bella adorava a mãe dele.
Esme era serena e bondosa, e tinha ligado outras duas vezes, durante aquela semana, para colocar Anthony na linha e permiti-lo conversar com Bella. Sempre antes de a ligação ser encerrada, Esme substituía o neto para conversar ela mesma com Bella.
Esme usava sempre os preparativos para o casamento de Alice como desculpa, então abordava algumas banalidades, perguntava sobre o trabalho e a vida de Bella, e, com sutileza e cautela, mencionava Edward aqui e ali.
Depois da discussão que tivera com Edward, quando a cabeça esfriou, Bella se deu conta de que Esme, provavelmente, tinha ouvido a discussão deles. Ela não seria cautelosa ao falar sobre o filho se não soubesse. O modo como mencionava Edward, durante suas ligações, fazia-a parecer uma mediadora entre o filho e Bella.
Mas Bella tentava ignorar isso. Não havia nada entre ela e Edward para ser intermediado.
Tudo bem que se sentisse atraída por Edward — ela estava viva, afinal de contas —, mas duvidava que era o tipo de sentimento que despertava a solidariedade de uma mãe. Era uma coisa puramente física, disse Bella a si mesma, e uma que ela poderia muito bem controlar. Especialmente agora, quando sabia que Edward não merecia o título de pai do ano.
A voz de Esme a trouxe de volta à ligação.
— Estou ligando para lhe fazer um convite. — disse ela, num tom jovial. — Lembra-se de que ficamos de trazê-la à minha casa, para você conhecer o lugar mais de perto?
— Sim, claro.
— Pois bem, eu decidi oferecer um brunch no domingo e acho que seria a oportunidade perfeita para você visitar o chalé.
— Parece uma ótima ideia. — Bella procurou a agenda para verificar seu domingo. Havia um domingo desse mês em que tinha um casamento, mas, quando verificou, descobriu que não era no que Esme ofereceria o brunch.
— Vai ser algo pequeno. Só a família e alguns amigos. — continuou Esme, fazendo uma pausa. — Anthony virá. Ah, e Edward também.
Bella fez uma careta.
— Eu adoraria encontrar Anthony. Não o vejo desde o aniversário. — comentou Bella e ambas fingiram não perceber de que ela havia ignorada a menção a Edward. Ocorreu a ela que, apesar dos esforços de Esme, talvez o próprio Edward não estivesse muito a fim de vê-la no momento.
Ela tinha, afinal, sido bastante agressiva com ele.
Não tinha muita certeza de como seria reencontrá-lo. Só esperava que ele não dificultasse sua relação com Anthony. Haveria briga de verdade se Edward fizesse isso.
Leah entrou na sala, uma planilha em mãos.
— Esme, me desculpe, mas eu preciso desligar. — disse Bella, mudando de posição em sua cadeira.
— Claro. Não quero tomar seu tempo. É sempre um prazer conversar com você, Bella.
Bella sorriu. Gostava mesmo de Esme Cullen. Como uma mulher tão doce podia ter um filho tão frio?
— O prazer é meu. Nos vemos no brunch.
— Claro, querida. Até mais. — A ligação foi encerrada e Bella se levantou, aceitando a planilha das mãos de Leah.
Só o que lhe restava agora era trabalhar e esperar por esse tal brunch com os Cullen.
— ~ —
Edward era um homem com uma missão. Tinha errado feio no aniversário do filho, decepcionado Anthony e, embora não tivesse pensado nisso quando deixara a festa, sabia que devia ter agido de modo diferente. Mas, como não havia maneira de mudar o passado, estava decidido a consertar as coisas agora.
Primeiro com o filho. Depois, com Bella.
Ele entrou na sala de música de casa, onde Anthony estava, em meio à sua aula de piano da tarde. Por um instante, observou o filho, enquanto ele ouvia a explicação da professora e repetia as instruções dela, tocando as teclas.
— Não, não é assim que se faz, Anthony. — disse a professora e guiou a mão do menino até a tecla certa. — Essa aqui é o sustenido.
Anthony a fitou, o olhar meio aborrecido, meio entendiado, e assentiu mecanicamente. Detestava as aulas de piano, especialmente com aquela professora. O senhor Gilbert, que lhe dava aula antes, até era legal, mas Anthony não gostava mais de piano. Tinha dito que queria aprender depois que o pai o ensinou a tocar "Jingle Bells", mas ele queria que o pai o ensinasse a tocar as outras músicas, não a senhora Parker, que suspirava toda hora, como se estivesse cansada, e o fazia tocar umas coisas não tão legais quanto "Jingle Bells".
Com uma expressão chateada, o menino desviou o olhar da professora de piano e avistou Edward.
— Pai! — exclamou Anthony, a expressão se iluminando um instante. Ele fez partido para descer de seu banco ao piano, mas parou subitamente. O brilho em seus olhos esvaneceu. Ainda não estava escuro lá fora, então, isso significava que o pai não estava em casa para ficar.
— Senhor Cullen. — A senhora Parker se levantou e o cumprimentou com um sorriso. — Há algo que eu possa fazer pelo senhor?
— Na verdade, sim. Gostaria que terminasse a aula de Anthony mais cedo.
— Quão cedo?
— Agora. — disse Edward em resposta e fingiu não perceber o olhar espantado da professora. — Anthony e eu temos algumas coisas a fazer.
— Ah, sim, claro. — A professora assentiu e, após encerrar a aula, juntou seu material e se retirou.
Sozinhos na sala de música, Edward e Anthony entreolharam-se um instante. O menino estava esperando que o pai dissesse alguma coisa.
Isso sempre deixava Edward irritado — consigo mesmo. Sabia que Anthony podia ser a mais tagarela das crianças, inclusive iniciar uma conversa ele mesmo, mas nunca quando estavam apenas os dois juntos. Com qualquer outra pessoa, o filho se sentia confortável para começar a falar — sobretudo, pensou Edward, com Isabella Swan. Anthony era uma verdadeira máquina de falar quando estava perto de Bella.
Mas não com ele, pensou Edward, ressentido, e sabia que o único culpado disso era ele mesmo.
Pensou em como começaria a falar com o filho, mas Anthony interrompeu seus pensamentos e perguntou:
— Devo subir para o meu quarto?
— O quê? — Edward franziu o cenho, depois meneou a cabeça. — Não. Por que você perguntou isso?
— Porque, às vezes, você vem para casa e diz para eu ficar no meu quarto com a babá. — disse Anthony em resposta.
Edward suspirou. Seus erros apenas se multiplicavam, pensou.
— Eu não quero que você vá para o seu quarto, Anthony. Na verdade, saí mais cedo da empresa para podermos passar algum tempo juntos. — Edward esboçou um sorriso que pretendia ser positivo.
Anthony retribuiu o gesto com uma olhar desconfiado.
— Por quê? — quis saber.
— Bem — Edward passou uma mão pelos cabelos. —, porque é o que os pais fazem, não é?
O menino deu de ombros.
— Acho que sim.
Edward suspirou novamente. Isso estava acabando com ele. Agora, mais do que nunca, compreendia o que Bella quisera dizer com "traumatizado".
Anthony estava tão habituado a não ter o pai presente que desconfiava quando ele estava.
Edward observou o filho descer do banco ao piano e buscar um boneco de super-herói que estava sobre uma poltrona.
— Ei, esse aí é novo. — disse ao filho, sinalizando o boneco.
Anthony assentiu, apertando o super-herói contra o peito.
— Ganhei no meu aniversário. Foi a Senhorita Bella que me deu.
É claro que foi, pensou Edward. Fazia todo o sentido o filho ter se apegado aquele presente, dentre os tantos que ganhara, inclusive o presente que ele mesmo dera ao filho. Um presente que, percebia Edward agora, era uma pálida comparação ao boneco que Bella dera a Anthony. Não por questões de valor ou algo assim, mas porque o presente dela mostrava uma compreensão dos gostos de Anthony muito maior do que a que o próprio Edward tinha.
Quer dizer, ele nem sequer sabia que o super-herói favorito do filho era o Homem de Ferro.
— É um boneco muito legal. Vocês têm o mesmo nome.
— Eu sei. — Anthony assentiu, feliz pelo pai também saber daquilo. Um pouco de sua desconfiança desapareceu. — Mas as pessoas chamam ele pelo apelido, que é Tony. Por que ninguém me chama de Tony?
— Ah, bem — Edward gesticulou, pensativo. — acho que porque você nunca pediu. Quer que agora a gente chame você de Tony?
— Hmmm. — murmurou o menino, enquanto pensava. — Não. — respondeu, franzindo o nariz. — Pode dar confusão por causa do Tony. Meu boneco. — Ele ergueu o brinquedo para enfatizar a explicação.
— Ok, então. — Edward assentiu, tentando pensar em algo mais para dizer, agora que conseguira fazer o filho falar. Uma ideia lhe ocorreu. — Nós podíamos procurar mais coisas do Homem de Ferro na internet. O que você acha?
— Maneiro! — exclamou Anthony, mais uma vez, passando de cauteloso a animado, como um interruptor.
O coração infantil e inocente do filho, pensou Edward, ainda era capaz de perdoar com a mesma facilidade com que podia ser magoado. Sabia que era vital que aprendesse a não decepcionar e magoar Anthony agora, porque esse fácil perdão não permaneceria com o filho para sempre. Se deixasse a oportunidade passar, só sobraria espaço para mágoa e ressentimento no coração de Anthony, muito igual ao que ele armazenava por causa do próprio pai.
Era uma coisa boa que estivesse tentando consertar as coisas naquele instante. Tinha até mesmo desligado o celular e avisado Cyrus que só o chamasse se fosse extremamente necessário.
Ele estendeu a mão para o filho.
— Vamos lá. Vamos fazer umas pesquisas. Quando terminarmos, seremos os maiores conhecedores do Homem de Ferro desse planeta.
À vontade agora, confiando mais no olhar e no tom de voz do pai, Anhtony aceitou a mão de Edward e deu uma risadinha.
— A Senhorita Bella também sabe algumas coisas.
Edward franziu o cenho. Tinha uma concorrente, pensou. E uma à altura. Ao contrário do que ela tinha dito, não acreditava que Bella fosse uma estranha para Anthony. Não mais, pelo menos.
Ele baixou os olhos para fitar o filho.
— Ela sabe, é?
Anthony assentiu.
— Garotas também podem saber sobre super-heróis. — explicou o menino num tom solene.
— Podem, claro. — Edward riu da expressão do filho. Sabia que ele aprendia com Alice essas coisas sobre garotas poderem fazer ou saber "coisas de garoto". — Vamos pesquisar e depois você conta para Bella o que descobriu e ela diz se já sabe ou não.
O menino pensou sobre aquilo um instante e, por fim, assentiu.
— Ok. — disse, acompanhando o pai até o escritório dele. — Quando Bella vai vir aqui de novo? — quis saber Anthony quando chegaram à sala do pai.
Edward não tinha uma resposta para aquilo.
— Você a verá qualquer hora desses. — disse, evasivo e apontou a tela do computador quando informações e imagens sobre o super-herói favorito do filho surgiram na tela.
Facilmente distraído, Anthony subiu no colo do pai e ambos embarcaram juntos naquela busca.
— ~ —
Se Bella já ficara boquiaberta com a mansão de Edward, quando viu o chalé dos pais dele, então, seu queixo foi parar nos pés. A propriedade era enorme, quase um bairro inteiro, imaginou. Contava com um pequeno lago e tinha outras casas no terreno, além da mansão principal. Uma casa da piscina, uma para os empregados e uma casa de visitas.
Esqueça a história dos quartos, pensou Bella. As visitas dos Cullen tinham uma casa só para elas.
Havia também outras instalações ao longo da propriedade. Um estábulo, com belos cavalos — ela descobriu que todos os Cullen, inclusive Anthony, adoravam cavalgar. Havia duas piscinas: uma ao ar livre e outra coberta. Uma pequena vinícola funcionava na parte oeste, cercada de parreiras de uvas que começavam a amadurecer. Os Cullen gostavam de fabricar o próprio vinho. Mais afastado, na parte leste, havia um imenso campo de golfe.
Os jardins eram um sonho. Havia uma variedade incrível de flores e arbustos ornados, todos espalhados harmoniosamente pelo terreno com graça e beleza. Bella sabia que o jardim do chalé era bonito, pelas fotos que vira, mas, observando-o de perto, teve certeza de que era o lugar perfeito para realizar o casamento mágico que Alice queria.
A mansão também era ampla, no mesmo estilo Pré-Guerra Civil da mansão de Edward, só que tinha três andares e uma decoração mais clara, suave e feminina. Havia flores espalhadas por todos os lados, adicionando cor aos cômodos e espalhando um perfume suave por eles. A decoração e os móveis eram elegantes, refinadas e de bom gosto, mas não exagerados. Havia peças antigas misturadas à modernas, combinadas com harmonia. Bella adorou a mansão e ficou com a impressão de que, apesar do tamanho, o lugar tinha o ar caseiro e aconchegante de um lar de verdade.
O brunch estava sendo servido na sala de refeições da mansão. O cômodo espaçoso comportava facilmente umas cinquenta pessoas, era arejado e, como o dia estava ensolarado, deixava entrar muita luz.
Bella voltou de seu tour pela propriedade, acompanhada de Alice e Esme, no mesmo momento em que Edward e Anthony chegavam.
O menino foi o primeiro a vê-la. Como de costume, arregalou os olhos, entusiasmo brilhando neles, e correu para cumprimentá-la.
— A vovó disse que você viria hoje e eu fiquei muito feliz. — contou Anthony, depois de, muito satisfeito, receber de Bella um beijo na testa. — Faz um tempão que a gente não se vê, né?
Bella riu. Fazia apenas uma semana, mas sabia como o tempo demorava a passar quando se tinha seis anos.
— Um tempão. — Bella assentiu e ficou tensa quando viu que Edward se aproximava.
Ele caminhou até ela a passos lentos, fitando-a com os olhos verdes e impassíveis. Como um felino que estuda sua presa, sem demonstrar indícios do que pretendia fazer. Bella sentiu um calafrio atravessá-la. Não era um olhar que se podia subestimar.
Edward parou ao lado do filho.
— Senhorita Swan.
— Senhor Cullen. — Ela devolveu o cumprimento com a voz impassível, sustentando o olhar dele. Não o subestimaria, mas recusava-se a se mostrar intimidada. — Não sabia que o senhor viria. Pensei que estaria ocupado.
Os olhos de Edward escureceram, sérios. Não permitia que o desafiassem tão abertamente. Geralmente, sua expressão e o que representava eram suficientes para intimidar uma pessoa. Mas, então, ela não sabia quem ele era. Se soubesse, pensou, será que teria coragem de dizer aquilo?
Ele a observou. Alguma coisa nos olhos castanhos, no brilho de desafio deles, o fez pensar que sim, ela diria.
Isso o irritava enormemente. E também o excitava além da razão. O que diabos estava acontecendo com ele? Não gostava de mulheres irritadiças, temperamentais e desafiadoras.
Gostava do tipo doce, suave e bondosa. Como ela era antes.
— Olha, Bella, eu trouxe o Tony. — Anthony ergueu seu super-herói para ela ver. — Sabia que dá para trocar a armadura dele? Papai que descobriu. Ele me deu uma nova.
Ela franziu o cenho.
— É mesmo? — Isso a pegou de surpresa. Parecia uma coisa atenciosa demais para o Edward Cullen que ela recentemente descobrira fazer. Ela o fitou, o olhar especulativo.
Edward devolveu seu olhar com um sorriso convencido, muito embora os olhos continuassem perigosos.
— Anthony e eu fizemos umas pesquisas na internet e encontramos as armaduras. — explicou ele, movendo os ombros num gesto despreocupado, mas Bella ouviu o tom desafiador.
Ela semicerrou os olhos, especulando. Então, ele estava passando tempo com Anthony. Seria capaz de apostar que ele ter usado o boneco que ela dera não era coincidência. Edward sabia que o filho lhe contaria o que haviam feito.
Não queria dar o braço a torcer, mas a atitude de Edward a deixara surpresa e intrigada. Ele tinha dado ouvidos a ela, era isso mesmo?
Ela sentiu um sorriso torto se formar, mas o conteve. Fitou Anthony antes que denunciasse sua reação.
— Essa certamente é uma armadura maneira. — disse Bella, quando Anthony lhe entregou o boneco para inspecionar. Ela apertou um botão que acendia a viseira do capacete. — E você ainda pode usar como lanterna.
Anthony riu e abraçou o boneco quando ele voltou aos seus braços.
Bella ergueu os olhos para Edward e percebeu que ele a fitava, a expressão pensativa. Ela arqueou uma sobrancelha, mas ele apenas curvou os lábios, o sorriso torto, mas os olhos continuavam frios.
Esme chamou a atenção de todos para anunciar que o brunch estava servido.
Feliz pela interrupção, Bella seguiu o fluxo de pessoas e foi buscar algo para beber. Sua garganta ficara de repente muito seca.
Seguindo a proposta de um brunch, cuja definição era ser um café da manhã tardio, havia na mesa de bufê uma infinidade de pães assados, salgados variados, doces bonitinhos, que tinham uma aparência maravilhosa, além de bolos e todo o tipo de bebida que Bella poderia imaginar. Ela se ocupou em escolher o que comer e o que beber, observando pelo canto do olho que Edward ajudava o filho a se servir. Ficou se perguntando se era um hábito antigo ou algo que ele começara a fazer agora.
Pelo modo como tanto ele quanto Anthony agiam, meio perdidos, ela apostaria na segunda opção.
— Quer croissant? — Edward perguntou ao filho.
Anthony franziu o nariz.
— Não gosto disso. — disse o menino. — Posso comer cereal com leite?
— Não tem cereal aqui, Anthony.
— Então eu quero um muffin. — decidiu o menino, esticando-se sobre a mesa para pegar o bolinho. Mas seu braço era curto demais.
— Não faça isso. Eu pego o muffin. — disse Edward e colocou o bolinho no prato.
— Quero bolo de chocolate também. — Anthony apontou para as grossas e convidativas fatias de bolo de chocolate com calda também de chocolate. — E waffle com calda de cereja, e cookies, e pretzel.
Edward fitou o filho, a testa franzida.
— Garoto, você tem um buraco negro no lugar do estômago?
Anthony lhe devolveu um olhar vazio.
— Não sei, mas minha barriga está roncando.
Bella riu. Estava em frente aos dois agora, enchendo o próprio prato.
Edward a fitou um instante. Aquela risada dela… O modo como isso o afetava, virando seu interior de cabeça para baixo e para cima de novo.
Alguém devia tornar aquela risada ilegal.
— Pai, eu tô com fome. — Anthony o trouxe de volta para o presente.
Edward assentiu e terminou de encher o prato do filho. Então, levou Anthony para sentar na mesa principal.
Como havia pouca gente no brunch de hoje, sua mãe optara por acomodar todos na mesa de jantar da mansão. Não havia nada que Esme gostasse mais do que refeições em família naquela mesa.
Depois de acomodar o filho, Edward voltou para fazer o seu próprio prato. Parou ao lado de Bella e começou a se servir.
— Muito açúcar, não é?
Incapaz de se conter, ela riu e colocou uma porção de omelete no prato. Estava ficando difícil manter-se irritada com ele, especialmente depois de vê-lo com Anthony.
— Sim. — disse Bella e o fitou de lado. — Ele provavelmente vai tentar subir no telhado antes do meio-dia.
Edward resistiu ao impulso de encurtar a distância entre eles e verificar se ela era tão doce quanto o perfume que emanava. Ele franziu o cenho, depois meneou a cabeça. Não devia estar aborrecido com ela?
— É, provavelmente. — murmurou ele, voltando a se servir.
Bella conteve um suspiro. Estava ela mesma tendo que lidar com as próprias fantasias. Como um homem era capaz de irritar num instante, mas excitar no outro?
Antes que fizesse algo precipitado, deixou Edward e foi procurar um lugar para sentar. Anthony acenou e sinalizou a cadeira a seu lado. Sem poder recusar, ela ocupou o lugar ao lado do menino. Quando Edward se juntou a eles na ampla mesa retangular, só lhe restava uma cadeira ao lado de Bella.
A inegável corrente de energia e calor entre eles atingiu carga máxima. Igual à noite na boate, percebeu Bella, só que mais sufocante e intensa — talvez pelo fato da discussão que tinham tido. Estando tão próxima a Edward, podia sentir o perfume cítrico dele e também o calor do corpo masculino. Se fosse apenas um pouquinho para o lado, esbarraria a perna ou o braço nele. Ela engoliu em seco. Tinha dito a si mesma, a semana inteira, que poderia controlar aquela atração. Mas seu corpo parecia ter autonomia em relação à mente.
À sua frente, Alice e Rosalie começaram a falar algo sobre casamento e ela tentou acompanhar a conversa. Mas o espaço entre as cadeiras era estreito e, quando Edward se moveu um pouco em seu assento, suas pernas se tocaram e ela perdeu o fio da meada. Ao seu lado, sentiu-o enrijecer.
Ótimo, pensou. Não era a única a se sentir afetada.
Nenhum dos dois disse nada.
Ela bebeu um longo gole de suco de laranja, descobrindo as mãos levemente trêmulas, o pulso mais acelerado do que se tivesse corrido ao redor da cidade inteira.
Anthony também bebia seu leite e engasgou com a bebida.
Feliz com a distração, Bella deu-lhe tapinhas nas costas. Ele tossiu algumas vezes e, quando se recuperou, pigarreou para espantar a sensação desagradável de engasgar.
— Você bebeu o leite rápido demais, colega. — disse-lhe Bella, usando um guardanapo para limpar as lágrimas que se formaram quando ele tossiu. Ela fitou Edward por sobre o ombro, pois ele acabava de fazer uma pergunta sobre o filho. — Ele está bem. Só engasou com o leite.
— Ah, tadinho! — disse uma mulher loira, que estava sentada de frente para Anthony, ao lado de Rosalie. Ela era a mãe de Rosalie, lembrou-se Bella, que viera à cidade para o casamento da filha e decidira passar o mês em Chicago. — Levante os braços dele. Sempre deu certo quando eu fazia isso com a minha Rosie.
— O engasgo já passou. — disse Bella, suavemente, e serviu mais leite para Anthony. Sabia que a mãe de Rosalie era uma mulher extrovertida, enérgica e expansiva, bem diferente da filha. Na verdade, Rosalie havia contado a Bella, em uma das reuniões sobre o casamento, que só recentemente havia reatado a relação com a mãe. O estranhamento delas tinha alguma coisa a ver com a personalidade da mãe e o padrasto de Rosalie.
— Que bom! — Lilian Hale deu uma risadinha e fitou Anthony. — É tão ruim engasgar, né?
Ele apenas assentiu, meio intimidado com a mulher. Ela falava tão alto e era tão colorida.
Lilian deu uma nova risadinha. Bella não sabia do que ela achava tanta graça. A mulher lançou um olhar na direção dela e de Edward.
— Ele é o único filho de vocês?
Bella corou. Edward arqueou uma sobrancelha.
Foi a vez de Anthony dar uma risadinha.
Rosalie lançou um olhar aborrecido na direção da mãe. Era sempre um constrangimento acompanhar Lilian num evento social.
— Bella e Edward não são casados. Ela também não é mãe do Anthony. Bella foi aquela que organizou meu casamento. Você não se lembra disso?
Lilian deu uma nova risadinha.
— Desculpe. — disse, dirigindo-se à Bella e Edward, depois fitou Bella novamente. — Sou uma péssima fisionomista.
Bella dispensou o assunto com um sorriso educado.
— Lilian, sabia que Bella vai fazer o casamento da Alice, também? — Esme contou, em uma tentativa de amenizar o clima da mesa e dar à Rosalie um momento para se acalmar.
O resto do café da manhã tardio seguiu sem mais momentos constrangedores. O marido de Esme chegou um pouco antes de o almoço ser servido.
Carlisle Cullen era o segundo marido de Esme e, embora não fosse pai biológico de Edward e Alice, todos eles tinham o mesmo sobrenome. Os dois também o chamavam de pai, assim como Anthony o chamava de avô.
Bella ficou curiosa em relação à relação entre os Cullen. Quem sanou suas dúvidas foi Rosalie, enquanto elas conversavam na varanda.
— Edward e Alice adotaram o sobrenome de Carlisle quando Esme casou com ele?
— Não. — Rosalie meneou a cabeça e bebeu um longo gole de champanhe. Era seu segundo copo. Não tinha intenção de beber, mas só conseguia lidar com a mãe meio embriagada. — Eles sempre foram Cullen. O pai deles era Cullen também.
Bella arqueou uma sobrancelha.
— Coincidência?
— Na verdade, não. O pai de Edward e Alice, Edward Primeiro, era irmão gêmeo de Carlisle. — Ela sorriu quando Bella arregalou os olhos. — Pois é, Esme se casou com o cunhado. Foi um escândalo na época.
— Você se lembra?
— Eu tinha doze anos, a mesma idade que Alice. Nós ouvíamos coisas. Alice ficava chateada.
— Imagino. — Bella bebeu ela mesma um gole de champanhe. Era uma história interessante.
— Veja bem — Rosalie continuou, seu lado fofoqueiro alimentado pelo álcool. —, o senhor Cullen, pai de Alice e Edward, era um homem meio… difícil. Eu me lembro dele. Edward Primeiro era frio e rígido. Muito, muito sério. As pessoas diziam que não podiam culpar Esme por procurar consolo com outra pessoa, mas manter as coisas em família.
— Esme jamais faria algo assim. — replicou Bella, com veemencia. Traição não era algo que Esme faria. Ela simplesmente sabia. Além disso, tinha visto como ela era com o atual marido, o carinho e companheirismo que havia entre os dois. Havia amor ali, não um sentimento nascido de traição e mentiras.
Rosalie assentiu.
— Também acho. Mas as pessoas não querem saber disso, só querem fofocar.
— Felizmente, isso agora é passado. — disse Bella e mudou de assunto quando Alice se aproximou.
Ela ficou conversando com as outras duas, depois retirou-se para ir ao banheiro. Depois de pegar um corredor errado e entrar num armário de produtos de limpeza, ela encontrou um enorme banheiro no fim de um segundo corredor. Quando voltava para a festa, encontrou Edward no meio do caminho.
Ele curvou os lábios quando se aproximaram.
— Eu estava procurando por você.
Bella franziu o cenho, parando quando estavam frente a frente.
— Aconteceu alguma coisa?
— Nós precisamos conversar. — disse ele em resposta.
Ela uniu as sobrancelhas, confusa. Eles tinham algum assunto sobre o qual deviam conversar? Ela se lembrou do aniversário de Anthony, a discussão que tiveram, o modo como tinham gritado um com o outro — bem, o modo como ela tinha gritado, principalmente.
Bella baixou os olhos, fitando as próprias mãos. Quando ergueu a cabeça, respirou fundo, preparando-se.
— Eu sei que não devia ter gritado com você no dia do aniversário. — disse a Edward, antecipando-se. — Mas eu fiquei realmente irritada pelo modo como a sua ausência afetou Anthony. Ele é só uma criança e não entende coisas como compromissos urgentes ou chamados de última hora. Você podia tê-lo avisado de que precisava sair. Devia ter sido honesto com Anthony. Como não foi, acabou machucando seu filho.
Edward a observou, pensativo.
Bella engoliu em seco. Não sabia como interpretar o silêncio dele, mas, mesmo assim, continuou.
— Sei que não era da minha conta, que eu não devia ter me metido, mas não tenho filtro quando fico irritada. Na verdade, eu nem tinha percebido que estava irritada até você chegar. — Ela fez uma pausa, quando Edward arqueou uma sobrancelha, mas ele não fez nenhum comentário. Então, continuou: — A questão é que Anthony se machucou e isso não pode acontecer. Como eu disse, não sei qual é o passado de vocês, mas, atualmente, seu filho não tem mãe e precisa de um cuidado especial. É difídil ser filho único, tão jovem e não ter mãe. Faz você se sentir perdido e… — Ela parou de falar, ciente de que começava a tagarelar. Fitou Edward. — Por favor, diga alguma coisa.
Ele inclinou a cabeça para o lado, observando-a.
— Você realmente se importa com o meu filho.
Bella suspirou, escolhendo as palavras seguintes cuidadosamente.
— Anthony é uma criança maravilhosa. É difícil não se sentir cativada. — Ela desejou que tivesse optado por usar calças, não uma saia, para poder enfiar as mãos trêmulas nos bolsos. O modo como os olhos verdes a fitavam, intensos e penetrantes, era debilitante. — Estou feliz que você esteja se aproximando dele.
— Deus me livre de desobedecê-la. Foi assustador da primeira vez.
Bella arregalou os olhos, depois semicerrou-os.
— Você está zombando de mim.
Ele sorriu.
— Estou tentando agradecê-la.
Isso a surpreendeu.
— Pelo quê?
— Sua coragem. Ninguém nunca tinha jogado aquelas coisas na minha cara. Ninguém nunca teve coragem. Até agora.
Na falta dos bolsos, ela entrelaçou as mãos diante do corpo. O tom de voz dele soara admirado, mas também bastante sério. Os olhos dele estavam escuros, emanando energia e algo mais. O algo mais a deixou trêmula.
— Eu não devia ter gritado. Estávamos na sua casa, afinal. Peço desculpas por isso.
Ele franziu o cenho.
— Pede desculpas por gritar, mas não pelo conteúdo do que disse.
— Não vou me desculpar por ser honesta. — replicou Bella e ergueu o queixo, o olhar desafiador. — Eu disse exatamente o que penso.
Uma mulher que diz o que pensa, pensou Edward, podia ser mais perigosa que uma mulher dissimulada.
— Então, eu devo agradecê-la também por sua honestidade, senhorita Swan.
Ela ainda era "Senhorita Swan", pensou Bella. Imaginou que, de alguma forma, ele ainda devia estar irritado. Ou talvez Edward estivesse estabelecendo um novo padrão ali, com ela mais distante de sua vida e de Anthony.
A decepção que sentiu ao pensar nisso a supreendeu. Ainda assim, procurou compreender. Ela ergueu os ombros e o fitou.
— De nada, senhor Cullen. Se isso é tudo, devo voltar para a festa. — Ela suspirou, grata, quando ele abriu caminho para que passasse. O olhar e o perfume dele a estavam deixando meio embriagada, conjurando imagens inapropriadas em sua mente. Ela queria sentir aquele perfume na pele dele, passar as mãos por aquela pele, sentir os músculos rígidos sob ela.
Absorta nas próprias fantasias, Bella não viu a saliência no tapete e tropeçou nela como uma colegial estabanada. Ela se preparou para sentir o chão, mas mãos firmes a envolveram e impediram sua colisão com o solo de madeira atapetado.
Bella ergueu a cabeça e encontrou os olhos verdes e intensos de Edward. Ele a ajudou a endireitar o corpo, mas não a soltou. Ela sentiu o ar sumir completamente dos pulmões, tornando-a ofegante, as pernas viraram cera líquida, instáveis, uma massa desintegrada.
Havia um limite para se resistir, pensou Edward. E, quando a fitava, observando os olhos castanhos enormes e obscurecidos, com o mesmo desejo que sentia brilhando neles, sabia que ambos haviam ultrapassado esse limite.
Ele se incliou na direção dela.
Bella sentiu uma intensa onda de desejo atravessá-la. Os lábios formigaram em antecipação.
O som metálico de algo caindo no chão os interrompeu.
— Oh, eu sinto muito, senhor Cullen. Senhorita Swan. — disse Jane, a babá, que carregava uma bandeja com uma jarra de vidro.
Bella aproveitou a interrupção e se afastou de Edward. Não era como se desejasse evitar um beijo. Ela o queria desesperadamente. E isso a preocupava — a intensidade disso a preocupava. Por isso, era melhor manter certa distância. As coisas entra ela e Edward ainda não estavam cem porcento resolvidas.
— Está tudo bem, Jane. — Ela esboçou um sorriso tranquilo, uma vez que Edward mantinha uma expressão carrancuda, e ajudou a recolher dois copos que haviam caído da bandeja. — Aqui, eu ajudo você com isso. Estava agora mesmo indo para a sala de refeições.
— Obrigada, senhorita. — murmurou Jane, evitando contato visual com os dois. — Não é necessário.
— É, sim. — replicou Bella e liderou o caminho.
Edward enfiou as mãos nos bolsos e observou-a se afastar. Era a segunda vez que ela o deixava para trás, frustrado além da razão — embora, dessa vez, fosse por razões completamente diferentes da primeira. O que só piorava as coisas, pensou.
Afinal, ele a queria.
N/A: O que acharam? :)
Ps.: Ainda vou postar na quinta-feira, dia 07-05 (Spoiler: vai ter beijo).
