N/A: Foi um parto difícil, mas correu tudo bem e acabou antes do esperado. :) Obrigada pelos comentários, sempre maravilhosos!
Boa leitura!
CAPÍTULO SETE
Bella estava finalizando os detalhes para um chá de panela, que aconteceria no sábado, enquanto murmurava uma música que acabava de inventar. A canção acompanhava seus pensamentos e, sempre que se distraía, as notas tornavam-se mais agudas, como um alerta, como se ela estivesse obrigando a si mesma a voltar a atenção para o trabalho.
Esse hábito de murmurar músicas era antigo e, geralmente, eficiente em fazê-la se concentrar.
Mas não hoje, pensou.
A mente continuava voltando ao brunch de domingo, à intereção que ela vira entre Edward e Anthony, e à conversa que tivera com Edward.
Fazia tão pouco tempo que conhecia tanto o pai, quanto o filho. Então, como podia pensar tanto neles? E aí é que estava a questão. Ela pensava nos dois. Tinha imaginado que, com Anthony, desenvolvera uma espécie de afinidade, algo natural quando se tratava de crianças fofas e adoráveis. Simpatizava com Anthony, tinha dito a si mesma. Mas, então, simpatia não levava à fúria que ela sentira e colocara para fora quando vira Edward magoar o menino.
Mas, pensava Bella, se aquilo não era simpatia, o que era?
Tinha medo de responder essa pergunta.
E Anthony não era o único Cullen a ocupar sua mente. O que ela sentia por Edward, aquela forte atração. Tudo bem que ele tivesse magoado Anthony, mas, até onde sabia, ele estava tentando consertar seu erro. E isso só tornava a atração mais forte.
Mas ela tentava convencer a si mesma que isso devia ser, tinha que ser, uma dessas reações puramente físicas que atingiam as mulheres vez ou outra. Quer dizer, quem não se sentiria atraída por um homem bonito, altivo, sedutor e que tentava ser um pai melhor? Bem, talvez uma boa quantidade de mulheres não se sentisse, mas, ainda assim, havia aquelas que ficavam mexidas. Ela fazia parte dessa segunda parcela. Era só uma reação física a qual era propensa.
Certo?
Bella pensou na conversa que tivera com Edward, no corredor da casa dos pais dele, e a memória disso a fez estremecer. Se a babá não tivesse interrompido, eles teriam se beijado, com certeza.
Ela só não tinha certeza se ficariam só nisso.
O que sentia por Edward podia ser uma atração física, mas não se lembrava de já ter sentido algo tão forte, tão apelativo e intenso. O modo como ele a olhava, como sorria, como falava, eram tão desconcertantes que, às vezes, ela precisava admitir, transformava seu cérebro em marshmallow.
Ela nunca tinha encontrado um homem que transformasse seu cérebro em marshmallow.
Talvez isso, também, fosse algo que acontecia com as mulheres, vez ou outra. Algumas conseguiam encontrar um cara sedutor e capaz de virar seus sentidos de cabeça para baixo. Algumas eram ousadas o bastante para embarcar num caso com esse tipo de homem. E a maior parte, provavelmente, saía disso magoada.
Esse era o problema com o que sentia, não era?, pensou Bella. Era o que a preocupava. Uma atração era como uma chama ardendo, mais forte e intensa que o habitual, mas que, eventualmente, se apagava. Ela sabia que, quando se apagasse, alguém sairia magoado.
E era pouco provável que fosse Edward.
Por isso tinha fugido, quando Jane interrompera seu momento de quase beijo com Edward.
Tinha medo de ceder àquela atração, mesmo quando a sentia tão forte e intensa. Já passara da época em que mergulhava numa paixão avassaladora, movida por impulso e desejo, aos invés de pensar bem antes de ceder. Uma vez havia sido suficiente.
Além disso, tinha que pensar no trabalho, no fato de que Edward era irmão de sua maior e mais importante cliente, e pai de um garotinho que ela adorava e não estava disposta a perder de vista. Era melhor resistir ao que sentia por Edward do que perder essas coisas, decidiu Bella.
Podia resistir. Nunca tinha feito isso antes — bem, nunca, também, tinha sentido atração tão forte —, mas podia tentar, sobretudo se lembrasse que havia um monte de coisas em risco.
Especialmente os seus sentimentos.
Bella voltou às anotações, obrigando-se a concentrar a mente no trabalho. Quando terminou, massageou as têmporas e recostou-se na cadeira.
Angela entrou em sua sala.
— Decidi as cores.
— Hmmm? — Bella a fitou, meio distraída.
— As cores do meu casamento. — explicou Angela. — Você tem um tempinho?
— Sim, claro. Sente-se. — disse Bella, feliz quando verificou que não tinha nenhuma cliente marcada para hoje. Tinha reservado a tarde de quarta-feira para resolver pendências e finalizar detalhes dos eventos do fim de semana. — Que cores você escolheu?
— Branco e lavanda.
— Sério? Eu tinha pensado que você ia escolher salmão.
— Eu também. Mas tive a ideia para esse bolo. Redondo, três camadas, todo em lavanda, com ramos de pequenas flores ao redor de cada camada. Rosas da mesma cor do bolo no topo. Vai ficar perfeito. — Angela a fitou com um sorriso estonteante nos lábios. — Ah! E você vai ficar maravilhosa na roupa de madrinha. A cor combina com você.
— Você é tão doce, Angie. Pensando em mim, mesmo quando pensa no seu casamento.
— Ah, bem. — Angela moveu os ombros, fingindo indiferença. — Você é aquela que me apresentou a Ben, não é mesmo?
— Por razãoes não muito nobres. — lembrou Bella e riu com a lembrança. — Eu não queria sair com ele.
— Então eu saí e olha onde nós estamos agora. — Angela sorriu novamente.
Bella sabia que aquele sorriso levaria até depois da lua de mel para sair do rosto da amiga. Então, tentaria lidar com a ultra-felicidade de Angela, pois, como madrinha e melhor amiga da noiva, essa era sua missão e obrigação.
— Pois é, Noiva Que Escolheu as Cores do Casamento, que decoração você vai querer?
— Ainda não pensei nisso. — confessou Angela. — Mas eu fiquei olhando algumas revistas durante a hora do almoço e acho que a ideia está se formando na minha cabeça. Agora que sei as cores, então, vai ser mais fácil.
— Você tem exatamente seis meses para essa ideia nascer. — lembrou Bella. Angela e Ben tinham decidido casar em setembro, pois era o tempo que levaria para organizar suas famílias, que eram ambas grandes e teriam que se deslocar do outro lado do país até Chicago. — Ou melhor, um mês, já que teremos de preparar tudo antes da data marcada.
— Eu sei, chefe. Mas eu vou pensar nisso até semana que vem. Fique tranquila. — Angela assentiu, recostando-se na cadeira. — Agora, deixando o assunto casamento de lado, você ainda não me contou como foram as coisas no brunch.
Bella deu de ombros.
— Eu vi a casa, que é linda. Vi o jardim, que é um sonho. Depois, comi uma variedade incrível de doces e salgados, que se transformaram em números malvados, que ficaram rindo de mim hoje de manhã, quando subi na balança.
— Não seja exagerada. Você está ótima. E vai permanecer, se continuar correndo comigo.
— Ah, não, nada de corrida. Já corri o suficiente pela minha vida inteira.
— Foi uma corrida de uma hora.
— Que, na escala Isabella Swan de tempo, equivale a cem anos. — replicou Bella, recebendo um arquear de sobrancelhas da amiga. — Tudo bem. Cinquenta anos. — concedeu ela e seu celular começou a tocar.
Quando verificou o visor, Bella franziu o cenho. O número na tela dizia "Anthony" porque ela sabia que aquele celular era sempre usado pela pessoa que estivesse com o menino. Era por esse número que Esme colocava Anthony na linha.
Curiosa, Bella atendeu na segunda chamada.
— Alô? — Ela ouviu alguém fungar do outro lado da linha. — Anthony?
— Se-senhorita Bella. — respondeu o menino, a voz chorosa.
Bella se sentou mais ereta na cadeira.
— Anthony, o que houve? Por que você está chorando?
— Não quero ir pra aula de natação. — disse Anthony, a voz começando a estremecer. — Você pode vir me buscar?
Bella imaginou que aquela era uma crise de birra, um ataque infantil, que impulsionara Anthony a ligar.
Mas ele soava tão infeliz.
— Anthony, me diga o que aconteceu. — pediu ela, o tom apaziguador.
O menino começou a soluçar do outro lado da linha.
— Senhorita Bella, po-por favor, vem me buscar.
O coração dela apertou-se. Não era o tom de uma criança mimada fazendo birra. Sabia disso. Sentia isso.
— Onde você está, meu amor? Me diga. Estou indo buscá-lo.
— Ca-casa. — respondeu o menino, fungando. — Não quero ficar com a Jane.
Jane?, pensou Bella. Jane. Ah, a Babá Balde de Água Fria.
— Anthony, o que aconteceu?
— Ela é má! — Foi a resposta do menino.
Bella estava confusa, mas sabia que só entenderia completamente a situação quando chegasse até Anthony. Ela se levantou.
— Tudo bem, amigão. Estou indo para aí. Não faça nada até eu chegar, ok? — Ela tentou imaginar onde Anthony devia estar, levando-se em conta que a casa dele era imensa e cheia de lugares para se esconder. Rezou para que ele estivesse escondido em algum lugar dentro da mansão e que ele não resolvesse sair.
O terreno da casa dele era amplo demais. Propício para uma cirança se perder...
Espantando essas especulações, Bella avisou Angela que precisava sair e embarcou num táxi antes que Angela tivesse tempo de perguntar aonde ela estava indo. Seguindo sua instrução de que devia ser rápido, o motorista dirigiu até a mansão dos Cullen, numa velocidade digna da Fórmula 1.
A entrada de Bella foi permitida assim que se identificou. Quando entrou na casa, foi recebida pela governanta, a quem tinha sido brevemente apresentada no aniversário de Anthony.
— Senhora Jones. — Bella se lembrou do nome dela. — Onde ele está?
A governanta já esperava pela pergunta.
— No quarto do senhor Cullen, dentro do closet. Ele se trancou lá dentro.
— Ah, droga. — murmurou Bella e subiu as escadas junto com a sehora Jones, ambas num passo apressado. Mais tarde, ficaria admirada por subir os degraus às pressas, usando salto alto, sem tropeçar e quebrar o pescoço, mas, naquele momento, só conseguia pensar em encontrar Anthony.
Ela atravessou o corredor, com a governanta liderando o caminho. Quando estavam próximas ao quarto de Edward, ouviram a voz da babá soar no corredor:
— Anthony, saia logo desse armário! Não tenho o dia todo para aguentar suas crises. — exclamou ela e Bella ouviu o som de algo — um punho? — batendo em madeira. — Anda logo, menino! — Mas não houve resposta. — Ai, mas que droga! Não acredito que peguei uma criança tão estúpida para cuidar.
Bella entrou no quarto, junto com a senhora Jones, para a surpresa da babá. Jane olhou para as duas e arregalou os olhos quando encontrou o olhar frio de Bella.
— Eu assumo daqui. — Bella passou pela babá, dando as costas a ela, para reforçar sua afirmação, e se aproximou da porta do closet. — Anthony, é a Bella. — Ela disse, o tom baixo e tranquilo, agora. Ela ouviu quando o menino fungou, então, imaginou que ele estava próximo à porta. — Anthony, por favor, saia agora. Eu estou aqui.
Não houve barulho por um longo segundo. Depois, a porta do armário foi aberta e um Anthony de olhos vermelhos, bochechas úmidas e cabelo desgrenhado saiu de dentro do closet. Com a eficiência de alguém habituada a ser multitarefa, Bella segurou Anthony quando ele se jogou em seus braços, ergueu-o do chão e retirou a chave da porta do armário.
A senhora Jones ficou com a chave, enquanto Jane continuou parada no meio do quarto, olhando de uma a outra.
— Onde fica o quarto de Anthony? — perguntou Bella, dirigindo-se à governanta.
Jane deu um passo à frente.
— Eu posso…
— Não. — replicou Bella, sem olhar para a babá, mas ninguém tinha dúvidas de que estava falando com ela. — Senhora Jones.
— Do outro lado do corredor. Essa porta em frente ao quarto do senhor Cullen.
Bella seguiu com o menino até o lugar indicado. A primeira impressão que teve do cômodo a fez esboçar uma careta. Era tudo muito… organizado. As cores, a decoração e os brinquedos demonstravam, claramente, que o quarto pertencia à uma criança, mas a organização o fazia parecer o cômodo de uma revista de decoração, não um lugar que era habitado por um menino de seis anos.
Faltava a típica desorganização infantil. Um tênis esquecido no canto do quarto, que alguém ficaria lembrando o menino de guardar até ele aprender que isso fazia parte de suas obrigações. Uma pilha de bonecos ou carrinhos, remanescentes de alguma brincadeira interrompida ou deixada de lado — que também seriam motivo de bronca, mas uma que fazia parte da infância de todo mundo. Ou, pelo menos, devia fazer.
O quarto de Anthony, do jeito que via, não tinha nada disso. Por mais que o próprio menino pudesse ser organizado, Bella não sentia que aquele era um lugar caloroso. Era apenas mais uma parte daquela casa enorme, elegante e impecavelmente decorada.
Ela levou Anthony até a cama, colocou-o nela enquanto ele a observava, os olhos verdes enormes, atentos e cautelosos.
— Que tal assistir um pouco de televisão? — sugeriu Bella, ajudando o menino a se acomodar na cama.
Anthony continuou a fitá-la, mas não lhe deu uma resposta.
Bella tirou os sapatos dele e ajudou-o a tirar o suéter — estava quente demais para um suéter — e crispou os lábios quando viu a mancha rosada no braço do menino.
— Anthony, o que foi isso? — perguntou ela, apontando para a mancha. Sua voz saiu calma, mas ela sentiu uma fúria gelada se formando quando percebeu que a mancha era similiar ao formato de dois dedos.
— Jane queria que eu fosse para a aula de natação, mas eu não queria ir. Daí ela me puxou.
Bella respirou fundo, baixando os olhos para que Anthony não visse sua expressão furiosa. Para acalmar tanto o menino quanto a si mesma, beijou-lhe a testa e disse com suavidade:
— Eu já volto, está bem? Vou pedir à senhora Jones que prepare leite e biscoitos. O que você acha?
Anthony a fitou.
— Você não vai embora, vai?
Bella sentiu o coração apertado. Como ela tinha se envolvido tanto, em tão pouco tempo? Sabia que faria qualquer coisa por aquele menino.
— Não, Anthony. Eu vou ficar bem aqui, com você. Só me dê um minuto. — Ela o beijou novamente. Depois, deixou-o na cama e saiu do quarto, fechando a porta atrás de si.
Desceu as escadas, com a intenção de procurar a senhora Jones, e encontrou-a no hall, junto com a babá.
— Senhorita Swan. — disse Jane, assim que a viu, dando um passo em direção à Bella. — Eu estava fazendo meu trabalho.
— Sim, tenho certeza que sim. — replicou Bella com frieza e dirigiu-se à Senhora Jones. — Por favor, leve leite e biscoitos para Anthony. Ele vai ficar assistindo televisão no quarto.
— É claro, senhorita Swan. — A senhora Jones assentiu, mas continuou onde estava, ao lado de Cyrus, o motorista, quando Bella se virou para a babá.
— Você está demitida. — disse Bella à Jane. Sentia-se furiosa e, uma vez que a outra opção seria voar no pescoço da agora ex-babá, ela optou por demiti-la. Mais tarde, lidaria com o fato de que não tinha poder para isso.
A expressão arrependida e apologética de Jane transformou-se em desdém.
— Você não pode me demitir. Não é dona dessa casa. Não tem autoridade para isso. — disse ela, o tom e o olhar superior.
Bella devolveu o olhar com indiferença.
— Quer apostar? — disse, em tom baixo, arqueando perigosamente uma sobrancelha.
A expressão superior de Jane vacilou. Mas, após um instante, ela resolveu dizer:
— Não vou sair daqui até falar com o senhor Cullen, o dono da casa.
Bella esboçou um sorriso frio.
— Ah, eu tenho certeza que o senhor Cullen vai adorar falar com você. Especialmente quando souber que você pôs as mãos no filho dele.
O rosto da babá ficou tão lívido quanto suas roupas de trabalho.
— Eu não…
Bella ergueu uma mão.
— Poupe sua saliva. Você perdeu seu emprego no minuto que chamou Anthony de estúpido. — disse ela, sentindo o controle escapando. — Alguém vai entrar em contato com você. Agora suma da minha frente. Cyrus, por favor, mostre a saída a ela. — disse Bella ao motorista.
Cyrus assentiu e deu um passo à frente.
Jane lançou um olhar na direção de Bella, abriu a boca, mas, diante do olhar gelado dela, não disse nada. Ela puxou o braço quando o motorista a tocou, mas seguiu-o para fora da casa.
A senhora Jones esboçou um breve sorriso quando encontrou o olhar de Bella. Então, retirou-se para a cozinha.
Bella respirou fundo, buscando se acalmar. Quando se julgou recuperada, subiu para ficar com Anthony. Sabia que ele precisava dela. Mas, mais que isso, ela precisava dele. Não havia calmante melhor do que uma criança.
O menino a recebeu com um sorriso estonteante, contente por ela ter voltado. Ele transbordou de alegria quando Bella lhe disse que passaria o resto da tarde com ele, assistindo televisão e comendo biscoitos.
Bella se juntou a Anthony na cama, tirando os sapatos desconfortáveis, e suspirou quando o menino acomodou a cabeça em seu ombro.
Sabia o que significava tudo o que tinha feito por Anthony até aqui. A fúria por vê-lo magoado por Edward, a maneira como adorava e queria estar perto dele, o desejo de cometer homicídio por saber que Jane havia maltratado aquele garotinho meigo e tímido.
Não era apenas simpatia ou afinidade.
Ela já amava Anthony.
— ~ —
Quando chegou em casa, Edward estava com um péssimo humor. Tinha passado o dia inteiro lidando com um negócio que não saíra como o esperado — um carregamento que vendera tinha sido extraviado no meio do caminho. As repercussões disso quase tinham causado uma ruptura entre ele e um importante sócio comercial.
O sócio, com quem Edward negociava, solidamente, há sete anos, chegara a pensar que o roubo tinha sido uma armação da parte de Edward, para ficar com o dinheiro do seguro, tanto quanto o dinheiro que já tinha recebido pela carga.
Mas, após quase um dia inteiro de discussões, promessas e afirmações, Edward tinha conseguido acalmar as coisas com seu sócio e convencê-lo de que era tão vítima naquela história quanto ele.
Emmett tinha passado o dia inteiro tentando descobrir o que acontecera com a carga, mas não obtivera nenhum resultado.
Agora, Edward amargava um prejuízo, sem saber de que lado havia vindo aquele golpe comercial.
Com uma careta, ele entrou em casa. Não acreditava em coisas como acaso e, uma vez que os assassinatos perto da Eclipse ocupavam bastante sua mente, começava a achar que os dois eventos podiam estar relacionados.
Ele era um homem que possuía inimigos, afinal. Inimigos que, pensou, seriam capazes tanto de matar, quanto de roubar. Fazia parte do que ele era.
Edward retirou o terno, largando-o sobre uma das poltronas da sala. Afrouxando o nó da gravata, caminhou até o sempre equipado bar e serviu-se de uma dose de uísque. Era o meio da semana, tarde demais para um drinque, cedo demais para beber, mas, maldição, ele precisava da bebida para aquietar um pouco o temperamento.
Precisava se acalmar, também, de modo que estivesse com um semblante tranquilo quando encontrasse o filho. Não queria deixar transparecer, no olhar ou na voz, problemas com os quais Anthony nada tinha a ver.
Ele bebeu o uísque numa única golada. Pensou em servir-se de mais uma dose, mas descartou a ideia. Bebida nunca tinha sido um apelo para ele, especialmente quando pensava que tinha sido o grande apelo de seu pai.
Edward deixou a sala e foi encontrar o filho. Passava das seis e meia, então, imaginava que Anthony devia estar no quarto, antes de a babá prepará-lo para o banho.
O silêncio no corredor fez Edward franzir o cenho. Sabia que os desenhos animados que o filho tanto adorava eram bastante barulhentos e, geralmente, o som enchia o corredor, uma vez que Anthony não gostava de ficar no quarto com a porta fechada. Mas, naquele instante, não havia o som das vozes infantis ou musiquinhas educativas saindo do quarto do filho.
Imaginando que Anthony devia ter optado por um jogo de tabuleiro, ou mesmo brincar com seus carrinhos, Edward empurrou a porta do quarto — que estava entreaberta — e entrou no cômodo.
O silêncio fez todo sentido quando ele viu o filho adormecido, o rosto sereno descansando sobre o ombro de Bella.
Ela estava na cama com ele, acariciando os cabelos sempre desgrenhados de Anthony, murmurando baixinho, enquanto observava o céu através das amplas janelas.
Edward parou onde estava, na soleira da porta, e mergulhou na visão dos dois — Anthony e Bella —, tão tranquilos e à vontade, como se aquilo sempre tivesse feito parte da vida de ambos.
Por um instante, ele desejou que fosse assim. Que pudesse voltar para casa e se deparar com aquela visão. Então, quem sabe, ele poderia se aproximar e fazer, ele mesmo, parte daquele quadro.
Ainda havia tempo para fazer tal coisa, não havia?
Ele deu um passo à frente e Bella virou a cabeça, percebendo sua presença. Ela sustentou seu olhar quando percebeu que ele a observava. Os olhos castanhos o avaliaram, pensativos, como se ela estivesse decidindo o que faria, agora que o via ali. Após um instante, ela esboçou um sorriso simples.
Edward não esperava por isso — tinha visto a hesitação no olhar dela e podia jurar que isso tinha a ver com o que a trouxera ali. Lembrou-se da festa de aniversário e já se imaginou culpado de alguma coisa. Mas o sorriso dela não tinha nada a ver com fúria. Isso o surpreendeu, tanto quanto despertou a agora familiar onda de desejo que sentia por ela.
Ele se aproximou da cama, onde o filho dormia pacificamente, e acariciou ele mesmo os cabelos de Anthony. Tinha voltado para casa com a esperança de que pudesse passar algum tempo com o filho, agora que estava tentando ser um pai menos relapso, mas não arriscaria acordar Anthony quando ele parecia estar num sono tão tranquilo. Especialmente quando se sentia curioso com a presença de Bella ali.
Algo lhe dizia que havia algo errado.
Com Anthony entre eles, Edward fitou Bella.
— Nós precisamos conversar. — disse-lhe ela, a voz não mais que um sussurro para não perturbar a criança adormecida.
Edward assentiu.
— Vamos ao meu escritório.
Com cuidado, Bella deslizou para fora da cama e ajeitou Anthony confortavelmente na pilha de travesseiros, cobrindo-o porque a noite estava ficando fria. Após um beijo na testa do menino, ela seguiu Edward para fora do quarto.
Seguiram em direção a uma sala no primeiro andar, no fim de um corredor, onde, ela descobriu, ficava o escritório de Edward.
Enquanto ele fechava a porta, Bella entrelaçou as mãos diante do corpo e tentou decidir por onde começaria a falar. Uma breve olhada para os pés a fez perceber que estava sem os sapatos. Tinha deixado-os no quarto de Anthony, lembrou.
Estava descalça e um pouco agitada. O modo como ele a fitara no quarto, observando-a com Anthony, tinha instalado uma confusão de borboletas em seu estômago, que, nesse instante, batiam, furiosamente, as asas.
Somado a isso havia todo o episódio da tarde envolvendo um Anthony entristecido, uma babá terrível e a realização do que sentia pela criança.
Era uma montanha-russa de acontecimentos, pensou Bella. E mal era o meio da semana.
— Você quer beber alguma coisa? — Edward ofereceu, diante do bar.
Bella considerou a oferta um instante.
— Uísque. — disse, por fim. Precisava disso. Depois de tudo aquilo, uma dose não faria mal.
Edward franziu o cenho, surpreso, e recebeu um arquear de sobrancelha desafiador dela. Movendo os ombros, como em rendição, ele preparou dois copos. Entregou o de Bella e, porque podia sentir a agitação irradiar dela, enfiou a mão livre no bolso e manteve os dois de pé.
Bella sorveu a bebida numa única golada e, também de uma vez, disse:
— Eu demiti sua babá.
Dessa vez, Edward franziu o cenho em confusão.
— O quê?
— Jane, a babá. Eu a demiti esta tarde. — repetiu Bella e contou a ele sobre o episódio envolvendo Anthony e a terrível Jane. Deliberadamente, deixou a parte da marca rosada no braço do menino para o final. Queria explicar o episódio com o máximo de clareza e objetividade, antes que trouxesse sua fúria à tona. Sabia que seu discurso se tornaria passional e incoerente quando entrasse naquela questão. Mas, no minuto em que contou a Edward sobre a marca no braço de Anthony, sua fúria se tornou coisa de criança se comparada ao que que viu brilhar nos olhos dele.
— Ela agrediu o meu filho? — Ele disse em um tom baixo e, pensou Bella, muito mais assustador do que se tivesse gritado.
— Jane puxou Anthony com força, sim. O suficiente para deixar uma marca.
Ele respirou fundo, andando de um lado a outro no escritório, com uma fúria homicida na expressão que fez Bella imaginar que, se Jane estivesse ali, não haveria apenas uma demissão.
— Aquela puta. Ela nunca mais vai encontrar nenhuma criança para cuidar. Vou me certificar disso. — Ele passou as mãos pelos cabelos, respirou e inspirou várias vezes, até encontrar o controle. — Eu seria capaz de quebrar o pescoço dessa mulher. Sorte a dela que você a tirou de casa antes de eu chegar.
— Pois é, sobre isso, sei que não devia ter me metido e...
— Não continue. Você fez o certo. E fez porque se importa com Anthony. — Ele podia ser insensível, mas isso não significava que não reconhecia carinho e atenção quando o presenciava.
Se fosse qualquer outra mulher, ficaria irritado com aquela intromissão. Mas Bella não fizera aquilo para se meter na sua casa ou na sua vida. Sabia que ela tinha feito isso por Anthony.
— Você se importa com Anthony. — Ele repetiu. — Mais, talvez, do que eu mesmo.
— Não diga isso.
Ele meneou a cabeça.
— Sou incapaz de perceber como meu filho é infeliz, como ele está infeliz. Você percebeu isso com um olhar e algumas palavras.
— Talvez eu já conhecesse os sintomas de uma criança infeliz. — murmurou Bella.
Edward a fitou.
— Então somos dois, Bella. — replicou ele, recusando-se a permiti-la usar aquilo como argumento para amenizar sua culpa. — Eu sei o que é ter seis anos e ter um pai distante. Se você também sabe, isso só confirma o que eu disse. Você foi atenciosa o suficiente para reparar e se importar, enquanto eu resolvi ignorar.
Pela segunda vez naquele dia, Bella sentiu o coração apertar. Como diabos deveria lidar com o impulso que sentia de cuidar tanto de Anthony quanto do pai dele? E o fato de querer cuidar de Edward não tinha nada a ver com a atração que sentia por ele. Isso era mais profundo, muito mais complicado do que ela gostaria de admitir.
Já não tinha dito a si mesma que seria arriscado ceder?
Mas era difícil ser lógica quando o que sentia era tão forte.
— Então pare de ignorar e olhe. — disse ela, simplesmente. — Ainda dá tempo.
Edward curvou os lábios, mas o sorriso não alcançou os olhos.
— Pensei que tinha começado a olhar. Mas veja onde chegamos. Meu filho foi agredido e eu não percebi isso chegando. Eu devia…
— Não, não devia. — Bella o interrompeu, sabendo que ele achava que devia ter previsto isso. — Você não tinha como saber o que aquela desculpa de babá faria. Tem coisas que nós não podemos antecipar. Então, não perca tempo se sentindo culpado por isso. Não há sentido. Concentre-se em mudar as coisas daqui para frente. É disso que Anthony precisa. É do que você precisa, Edward.
Ela estava certa, pensou Edward, passando as mãos pelos cabelos. Por que diabos tinha demorado tanto tempo para se dar conta disso? E por que fora preciso encontrar Bella para perceber os próprios erros?
Não parecia certo. Ele mesmo devia ter se dado conta dos próprios erros. Mas, céus, era tão difícil.
— Obrigado. — disse ele. — Por tudo o que você fez por Anthony. Por demitir a babá e cuidar dele.
Ela moveu os ombros.
— Eu mesma gostaria de ter voado no pescoço daquela vadia. — confessou Bella, com um breve sorriso, tentando amenizar o clima na sala. — Mas Anthony estava muito perto. Eu não queria que ele visse. Então, fiz a segunda coisa que me veio à mente, que foi demiti-la.
Ela sorriu, novamente tentando um ar descontraído, mas a tentativa de humor morreu quando encontrou os olhos dele. Havia gratidão no olhar dele, sim, mas mais. Muito mais. Aquele calor, aquela força e sedução, estavam mais intensos, mais potentes.
E era tão intenso que a fez lutar para encontrar o ar, para acalmar as borboletas descontroladas em sua barriga.
Edward deu um passo à frente, em direção a ela, para ela. Queria essa mulher. Céus, queria tanto que chegava a doer. Queria sentir o calor, a suavidade, a força dela, comprovar e experimentar aquela promessa de paixão que via nos olhos castanhos. Queria fazê-la mergulhar com ele no desconhecido obscuro e cheio de prazer. Estaria ela disposta a fazer isso?
Ele deu mais um passo à frente, segurou o rosto dela entre as mãos.
Ela não recuou, não desviou o olhar. Simplesmente o fitou, hipnotizada.
Era isso, pensou Edward, e colou os lábios aos dela. Ela não resistiu, não tentou se esquivar. Simplesmente enroscou os dedos na camisa dele e foi para o braços dele quando a puxou para mais perto.
Bella não imaginava que um beijo podia ser tão intenso, tão completo. Mas, no momento em que sentiu os lábios dele, o desejo não surgiu, ele explodiu. O calor alastrou-se por seu corpo, dominando-a, calando todos os pensamentos de sua mente. Os lábios dele a devoraram, famintos, possessivos e exigentes, de modo que só lhe restou sentir. Havia algo quase selvagem na forma como a boca dele tomava a sua. Sem gentileza, sem sedução. Ele buscou sua reação, demorou-se nela, e exigiu mais. Porque o próprio desejo não lhe deixava outra opção, ela correspondeu à demanda.
Edward sentiu o gosto dela, imaginou que enlouqueceria de tanto desejo. A boca dela era quente e suave, e falava de doçura. O corpo dela, colado ao seu, era sinuoso e esguio, e o modo como se movia, lânguido, contra o dele, falava de movimento, intensidade e paixão. Por um instante insano, tudo em que ele conseguiu pensar foi em levá-la para a mesa e tomá-la, rápido e ferozmente, ali mesmo, em seu escritório.
Ela gemeu quando as mãos dele a tocaram. Os dedos dele, longos e finos, envolveram sua cintura por sobre a seda da blusa. Ela sentiu a pele queimar com o toque. Era uma sensação completamente desconhecida, que ia além do que jamais havia experimentado. Não sabia que havia algo além de prazer, além de paixão, mas era isso o que sentia agora. Era algo que a assustava e excitava, causava dor e a fazia corresponder à demanda dele com mais fervor.
Edward sabia que estava muito perto de cruzar a barreira da sanidade. Mais um instante, e estaria perdido. Ambos estariam perdidos. Ele quebrou o beijo, mas, incapaz de deixá-la ir, manteve-a em seus braços; uma mão na cintura dela, a outra subindo para a nuca macia, acariciando-a.
Bella arfou, tentando fazer o ar voltar aos pulmões. Ela o fitou, os olhos castanhos e pesados, e estremeceu com o brilho que viu nos olhos dele. Era completamente insano, aquele desejo, aquela dolorosa necessidade, mas ela ainda podia senti-los. Em si mesma e em Edward. O gosto dele permanecia em seus lábios.
Por um longo minuto, eles permaneceram no meio da sala, fitando-se, presos um ao outro e ao mundo obscuro de sensações em que tinham mergulhado juntos.
Como se alguém tivesse aberto, lentamente, uma porta que trazia consigo a realidade, a noite e os sons ao redor, Bella percebeu que ainda estava nos braços de Edward, no meio do escritório dele, com o filho dele dormindo não muito longe dali. Ela se moveu, afastando-se. Teria que pensar cuidadosamente no que acontecera, mas agora não era o momento. Ainda precisava recuperar o próprio equilíbrio.
Edward a observou. Acalmava-o o fato de que a tivesse desestabilizado. Especialmente porque ela também o desestabilizara. Não estava preparado para a intensidade do desejo que o atravessou ao sentir o gosto dela pela primeira vez.
— Eu devia… Preciso ir. — Bella sinalizou, vagamente, numa direção que imaginava levar à saída.
Edward enfiou as mãos nos bolsos.
— Nós sabíamos que isso ia acabar acontecendo. — disse ele, ignorando a tentativa de fuga dela.
Bella se virou para fitá-lo.
— Sim. — disse ela. — Mas, no momento, não consigo pensar sobre isso.
Ele deu um passo a frente, encontrando os olhos dela.
— Ótimo. Porque o que tenho em mente não envolve pensar. — Ele a puxou e beijou-a novamente.
Queria provar a si mesmo que, após a primeira onda de choque e excitação, o desejo tinha abrandado um pouco. Mas acabou por descobrir que ele só crescia. E crescia. Não conseguia ter o suficiente dela, percebeu, puxando-a mais para perto, aprofundando o beijo até ouvi-la gemer entre seus lábios.
Ele usou língua e dentes para torturá-la. Não havia outra palavra para descrever isso. E ela correspondeu como uma mulher desesperada — aqui, também, não havia outra palavra para descrever sua reação. Nunca tinha correspondido a um beijo, um simples beijo, com tanto calor e tanta urgência, mas isso a dominava como um fogo, consumindo cada parte até que não lhe restasse nada além de dar e exigir.
Bella entrelaçou os dedos nos cabelos dele, arqueou-se quando sentiu as mãos dele sob sua camisa, em sua pele. Estremeceu quando ele deslizou as pontas dos dedos por suas costelas, chegando a seus seios por cima do sutiã. Era loucura. Era incrível.
Mas era também rápido demais.
— Edward. — disse ela, a voz rouca, empurrando-o levemente. — Preciso pensar. Nós… isso… é muito rápido.
Ele lutou um instante para ouvi-la, permitir que ela o empurrasse e resistisse. Ela precisava pensar, disse a si mesmo. Sim, era sensato, era certo. E era frustrante além da razão.
— Ok. — Ele respirou fundo, buscando o ar na esperança de que a mente clareasse, e não resistiu quando Bella se afastou.
Ela passou uma mão pelos cabelos, tanto para ajeitá-los quanto para tentar pensar. Quando se julgou mais controlada, embora longe de ter recuperado o equilíbrio, virou-se para fitá-lo.
— Nós dois sabíamos que isso ia acontecer. — Ela repetiu a frase dele. — Nós dois queríamos isso. Agora, devemos decidir se queremos mais. Preciso pensar nisso. Você é o irmão da minha maior cliente.
— Eu jamais interferiria no seu trabalho.
— Eu sei. — E aquilo nem devia ter sido usado como argumento. — Eu sei. Mas eu preciso pensar.
Edward enfiou as mãos nos bolsos.
— Então pense, Bella. — disse ele. — Mas pense lembrando que eu já tomei minha decisão. Eu quero você.
Ela sentiu o corpo todo formigar, em completa antecipação.
Teria muito em que pensar.
N/A: E aí, e aí, o que acharam?
Ps.: Postarei novamente em 13-05 (quarta-feira). Até lá!
