N/A: Oi! Obrigada pelos comentários! É sempre uma alegria lê-los. :)
Obrigada à Nay, linda, por aguentar meu surto de insegurança e fazer uma pré-leitura do capítulo. ;)
Boa leitura!
CAPÍTULO DEZESSETE
Semicerrando os olhos, Anthony analisou a atividade à sua frente com um olhar crítico. Para a tarefa daquele dia, a senhorita Mercy — sua professora de artes no jardim de infância —, tinha dito que, além do lápis comum, os alunos deviam utilizar apenas três lápis de cor, de cores diferentes, e explicar porque tinham escolhido aquelas cores para pintar seus desenhos.
Sem pensar muito, Anthony havia escolhido vermelho, verde e marrom. Depois, começou a fazer três desenhos diferentes.
Com uma expressão séria, a língua presa entre os dentes em uma típica demonstração de concentração infantil, ele traçou os contornos do primeiro desenho: um boneco cheio de linhas vermelhas sobre a cabeça, que representavam cabelos. Sobre esse desenho ele colocou a letra "A", de Anthony. A segunda figura, outro boneco, recebeu olhos pintados de verde. Sobre esse desenho, Anthony colocou a letra "P", de pai. O terceiro e último desenho não foi uma surpresa. Novamente, o menino desenhou um boneco, dessa vez com um triângulo no lugar do corpo, para diferenciá-lo dos outros dois. Esse último desenho recebeu traços marrons mais arredondados, rabiscados sobre a cabeça. Acima do desenho, Anthony pensou em colocar as letras iniciais de "Senhorita Bella", mas ele não sabia com que letra começavam nenhuma das duas palavras.
Anthony pensou em perguntar à professora. Mas a senhorita Mercy estava longe, com outro aluno, e ele acabara de ter uma ideia. Assentindo consigo mesmo, decidiu não chamar a professora e escreveu com meticulosa concetração a letra "M" sobre o terceiro desenho.
Satisfeito, ele se afastou um pouco e observou sua mais recente obra de arte. Um adulto olharia para os traços e imaginaria três formas semelhantes à duas batatas achatadas e um Doritos cinza, com espetos saindo das laterais, e cores aqui e ali que não faziam muito sentido. Anthony olhava para o desenho e via o retrato da própria família composto por ele mesmo, pelo pai e por Bella — sinalizada, oficialmente, como sua mãe pela letra "M" ali escrita.
Ao lado de Anthony, seu colega de classe, Stuart, também terminou o desenho e largou os lápis de cor na mesa num gesto brusco.
— Não gosto dessa tarefa. — reclamou Stuart, franzindo o cenho, aborrecido.
Ele quase nunca gostava das tarefas, lembrou-se Anthony e ignorou a frase do colega. Lembrando-se de que devia colocar a data do dia no desenho, concentrou-se em copiá-la do quadro porque não se lembrava de como se escrevia o mês em que estavam.
Stuart espichou o pescoço para olhar o desenho dele.
— Que cor você escolheu ? — quis saber.
— A gente tinha que escolher três cores. — Anthony lembrou. Stuart não prestava muita atenção às coisas que a professora falava. Às vezes, Anthony não se importava de lembrar o colega, mas tinha vezes que isso era muito chato.
— Ah, é. — disse Stuart. — Que cores você escolheu?
Anthony virou a folha, de modo que ambos pudessem observá-la, e apontou para suas cores.
— Vermelho, verde e marrom.
Stuart fez uma careta.
— Marrom é feio.
— Não é, não. — replicou Anthony, aborrecendo-se rapidamente. Gostava muito das cores que tinha escolhido, porque elas significavam coisas importantes para ele.
— É, sim. — Stuart insistiu, com desdém infantil, provocando-o.
Anthony uniu as sobrancelhas, sentindo-se furioso e magoado com as palavras do colega.
— Cala a boca. — Ele disse a Stuart, sem nem sequer lembrar de falar baixo para a professora não ouvir.
Stuart não estava a fim de cooperar e esboçou uma expressão desdenhosa.
— Por que você escolheu essa cor, hein?
— Me deixa em paz. — murmurou Anthony, cruzando os braços diante do corpo, a pose defensiva. Não estava a fim de explicar nada ao colega.
— Tá vendo só? Você também acha que é uma cor idiota. — replicou Stuart, também cruzando os braços, mas num gesto de superioridade. — Nem sabe porque escolheu ela.
— Sei, sim! Marrom é a cor do cabelo da minha mãe! — exclamou Anthony, descruzando os braços e inclinando-se um pouco na direção do colega.
— Mãe? Você não tem mãe! Ela já morreu.
Lágrimas de frustração encheram os olhos de Anthony.
— A Senhorita Bella vai ser minha mãe. Ela beijou o meu pai e logo eles vão se casar. Daí ela vai ser minha mãe.
Stuart meneou a cabeça com uma expressão enojada no rosto.
— Ela não vai ser sua mãe. Quando seu pai casa de novo, você ganha uma ma-dras-ta, não uma mãe nova. E todas as ma-dras-tas são más, igual à minha.
— A Bella não é má e ela não vai ser minha madas… mata… isso aí! Ela vai ser minha mãe!
— Não vai ser, não, seu burro.
— Cala a boca! — exclamou Anthony e, movido por um misto de ódio e mágoa, atirou-se sobre o colega numa fúria infantil de punhos e xingamentos.
Anthony não admitiria, nunca, que alguém mexesse com sua mãe.
— ~ —
Edward estava a caminho de uma reunião com Aro quando recebeu uma ligação da escola de Anthony. Um pouco surpreso, ouviu a professora informá-lo de que, naquele dia, ele precisaria comparecer à escola para buscar o filho. O motivo? Anthony tinha se envolvido "numa situação complicada" e, por isso, Edward teria que conversar com a professora.
Edward nunca fora chamado na escola de Anthony antes. Mas, pensou Edward, hoje, isso tinha mudado e ele estava ansioso para saber o que ocasionara aquele chamado.
Quando chegou à escola de Anthony, ele foi encaminhado para a sala da professora, enquanto o filho ainda estava em aula.
Edward entrou na sala da senhorita Mercy e tornou os cumprimentos breves, tanto porque queria saber logo o que o trouxera ali, quanto porque detestava se atrasar para uma reunião.
— Senhor Cullen. — A professora de Anthony se levantou e indicou-lhe uma cadeira. — Por favor, sente-se.
— Antes, está tudo bem com Anthony?
A senhorita Mercy assentiu.
— Está tudo bem, sim. Ele apenas passou dos limites. Por favor. — Ela sinalizou a cadeira novamente.
Edward se sentou e a observou, impaciente com a falta de informação e as dúvias que ela gerara.
— Quero saber o que aconteceu para eu ser chamado aqui.
A professora assentiu.
— Certamente. Bem, em termos gerais, o seu filho esteve envolvido numa briga.
Edward arqueou uma sobrancelha.
— Como é que é?
— Isso mesmo. — A senhorita Mercy assentiu novamente. — Anthony brigou com um colega de classe. Eles estavam rolando no chão quando me aproximei para separá-los.
— Eu não… — Edward fez uma pausa, perplexo. Mesmo ele, que estava mais que habituado com imprevistos de todo o tipo, sentia-se pego de surpresa. — Senhorita Mercy, Anthony sempre foi uma criança tranquila.
— Tenho certeza de que ele ainda é. Só foi pressionado e acabou explodindo.
— Por favor, senhorita, explique-se.
Cruzando as mãos sobre a mesa, a professora falou sobre a atividade que realizara com sua classe naquele dia, falou sobre as escolhas de Anthony e a subsequente conversa que o menino tivera com o colega de classe.
— Veja, bem, senhor Cullen — disse a professora, ao fim da narração. —, ambas as crianças estão erradas. Stuart, pelo que disse e pela razão porque o disse. E Anthony, por ter reagido com violência. Já conversei com os dois sobre isso, mas, no momento, nenhum deles está inclinado a fazer as pazes. O que não me surpreende. Mas tenho certeza de que, com o tempo, eles vão se desculpar um com o outro. Por essa razão eu o chamei aqui. Também chamei a mãe de Stuart. Conto com vocês para orientar seus filhos e fazê-los chegarem a termos pacíficos novamente.
Edward assentiu, com o devido respeito e solenidade diante das palavras da professora. Sabia que, como pai, adulto e responsável, devia concordar com as palavras da professora. Mas, naquele momento, como o filho, ele não se sentia nada inclinado a instruir Anthony a fazer as pazes com o tal Stuart. Precisaria de tempo, imaginou, assim como o filho.
— Vou conversar com Anthony. — garantiu à professora, omitindo, deliberadamente, quando faria isso.
Satisfeita, a senhorita Mercy assentiu.
— Fico feliz por saber disso.
— Ótimo. Agora, se isso é tudo, Anthony e eu temos que ir.
— Sim, claro. Ah, na verdade — acrescentou ela, antes que ele se levantasse. —, tem mais uma coisa.
Edward arqueou um sobrancelha.
— Sim?
— Não interprete como intromissão, mas Anthony já vê sua namorada como a mãe dele. O senhor já conversou com ele sobre isso?
— Não, na verdade, nunca conversamos sobre isso.
— Bem, então deviam. Uma criança cria fantasias muito rapidamente, em especial quando se trata de sentimentos. Para o bem do seu filho, o senhor precisa estabelecer limites e conversar com ele sobre seu relacionamento. Sugiro que converse também com sua namorada sobre o papel que ela deseja exercer na vida de Anthony.
— Para que meu filho não confunda as coisas. — murmurou Edward.
A professora esboçou um sorriso simples.
— Exatamente. É bom ver que o senhor já estava consciente disso.
— Na verdade, isso foi algo que Bella me disse.
— Bella... sua namorada? — Quando ele assentiu, ela esboçou um novo sorriso. — Então, ela é bastante perceptiva. Isso é bom. Vai ajudar com Anthony.
Edward assentiu e se levantou.
— Obrigado, senhorita Mercy. — disse ele, estendendo a mão.
A professora aceitou o cumprimento.
— Foi um prazer, senhor Cullen. Essa é a caderneta de Anthony. Sua assinatura é necessária para que ele possa comparecer às aulas amanhã.
— Tudo bem. — Edward guardou o pequeno objeto no bolso interno do paletó.
Quando deixou a sala, esboçou uma careta ao lembrar-se da última vez que tivera uma caderneta de advertência em mãos. Era a sua própria, do ensino fundamental, que ele tivera que entregar ao pai para que ele assinasse.
O motivo da advertência também fora uma briga, embora mais séria do que a que Anthony havia participado hoje. Na ocasião, tanto Edward quanto o outro garoto tinham saído com olhos roxos. Seu oponente também sofrera com a perda de um dente.
Quando Edward contou ao pai sobre a briga e sobre o resultado, Edward Primeiro tinha lhe dado um tapinha camarada no ombro e dissera "Muito bem, filho. O outro cara tem sempre que sair pior que você. É assim que se vence".
Edward sentira-se enojado na época, assim como se sentia agora, ao lembrar-se das palavras do pai.
Ele encontrou Anthony no corredor, com Emmett, ambos à sua espera. Ao ver o filho, Edward manteve uma expressão neutra no rosto. Diante de sua expressão, Antony hesitou, mas, depois, deslizou a mão para a sua em busca de consolo. Edward aceitou o gesto — esse era um progresso que ambos tinham feito e do qual Edward não estava disposto a abrir mão. Estava começando a compreender que, para educar um filho, não precisava ser distante, formal e severo. Ao contrário, ele sabia o quão ruim era ter sido criado dentro desses princípios e não repetiria mais essa técnica com Anthony. Por isso, manteria a mão do filho segura na sua.
Mais tarde, conversaria sobre o que o filho fizera, explicaria a Anthony que sua atitude fora errada — mesmo que o que o colega fizera também fosse errado.
Os Cullen não resolveriam mais nada "deixando o outro cara pior".
Edward estava decidido a ser o último que faria aquilo.
Seu filho seria um homem melhor.
— ~ —
Bella chegou ao fim do expediente daquele dia com a sensação de que já era sexta-feira e ela tinha paasado a semana inteira trabalhando. Mas era apenas segunda-feira. Essa seria uma semana daquelas, pensou, reunindo seu material para ir embora. Ela observou a pasta cheia, a agenda abarrotada de anotações.
Ela sempre tinha levado trabalho para casa e, na maioria das vezes, não pensava muito no tempo que dedicaria a resolver as pendências. Mas, agora, ela não vivia com o namorado e o filho dele, pensou.
Às vezes, ela desejava não ter tanto trabalho para terminar em casa, de modo que pudesse dar mais atenção a Anthony e Edward. Era uma questão de balancear as coisas, pensou Bella.
Ela até mesmo tinha sido incorporada à rotina "de negócios" de Anthony e Edward. Essa rotina consistia em os dois reunirem-se no escritório de Edward para que o menino fizesse o dever de casa e Edward resolvesse coisas do trabalho. Como ela agora fazia parte disso, eles usavam a mesa de jantar, porque a de Edward era pequena demias para os três e seus cadernos, agendas e outras parafernáflias de escritório.
Depois de quase três semanas fazendo isso, ela podia dizer que a tática dava certo. O mais difícil era resistir aos momentos de conversa que Anthony tentava iniciar e que, se alimentados, ele não terminaria a tarefa nunca.
Bella verificou o conteúdo da bolsa e da pasta. Satisfeita, desligou o computador e se levantou. Certificando-se de que não esquecera nada, ela apagou as luzes e deixou a sala.
O fim de tarde úmido a cumprimentou quando ela saiu da agência. Como sempre, Cyrus a esperava ao lado do carro.
— Senhorita Swan.
— Oi, Cyrus. — disse Bella e deslizou para dentro do carro. O motorista deu a volta no veículo e ocupou seu lugar.
— Direto para casa?
— Sim, por favor. Estou ansiosa para encontrar aqueles dois. Edward disse que Anthony brigou na escola.
Cyrus franziu o cenho.
— Isso é novidade.
— Nem me fala. Anthony é a criança mais adorável que já conheci. Se ele foi capaz de brigar com alguém, imagino que teve um motivo forte para isso. — conjecturou Bella, quase como se estivesse falando consigo mesma. — Estou curiosa para saber o que aconteceu.
— Sim, senhorita. — Cyrus assentiu, concentrando-se na estrada. Após quase três semanas, estava habituado às conversas dela, ao tom leve e simpático que ela usava, mesmo depois do dia exaustivo que tivera. Ele passava tempo suficiente ao lado dela, fazendo sua segurança, para saber que o trabalho dela era uma loucura, cheio de itens a serem resolvidos, surtos e demandas urgentes. Mas, não importava quanto o trabalho fosse estressante, ela estava sempre contente quando voltavam para casa.
O trânsito estava um pouco complicado na Avenida Michigan, mas eles conseguiram chegar na mansão dez minutos antes do tempo habitual.
Bella entrou na casa e encontrou Bess no corredor do segundo andar, enquanto a governanta saía do quarto de Anthony.
— Boa noite, Bella.
— Oi, Bess. A casa está tão silenciosa. Onde estão Edward e Anthony?
— No escritório do senhor Cullen. — informou a governanta. — Eles estão conversando sobre a briga de Anthony.
— Você sabe o que aconteceu?
Bess moveu os ombros.
— Só sei que houve uma briga. Mas não deve ter sido muito sério. O senhor Cullen parece tranquilo. — Apesar que, ela pensou, o patrão já estava muito mais tranquilo desde que conhecera Bella. — Digo, a conversa é séria, mas ele não me pareceu furioso.
— Hmmm. — murmurou Bella, entrando no quarto e deixando sua bolsa e pasta sobre uma poltrona. Ela tirou os sapatos enquanto Bess foi ao banheiro abastecê-lo com toalhas limpas.
Desde que se mudara para a mansão, Bella ocupava o Quarto Rosa, como uma hóspede. Edward não tinha gostado muito disso, mas ela conseguiu convencê-lo de que esse era um arranjo que não confundiria Anthony. Era melhor que o menino a visse como uma hóspede, porque isso implicava volatilidade, mesmo para uma criança de seis anos. Embora não gostasse de pensar muito em uma eventual separação — especialmente agora, quando já vivia com Edward e Anthony há quase um mês —, seria mais fácil explicar as coisas a Anthony se algo acontecesse ao relacionamento dela com Edward.
Para isso, ela insistira em manter todas as suas coisas no Quarto Rosa. O fato de que ela raramente dormia nesse quarto era um detalhe, pois disso Anthony não tinha conhecimento.
Bella deixou os sapatos de lado, livrou-se do terninho que usava sobre o vestido. Depois, resolveu conferir se a conversa de Edward e Anthony já havia acabado e avisá-los de que estava em casa.
— ~ —
Pai e filho ainda estavam concentrados numa conversa-sermão-puxão-de-orelha. Edward havia explicado a Anthony que a atitude dele fora errada, embora ele concordasse que as palavras do colega de classe também tivessem sido inapropriadas.
Convencer Anthony de que ele estava errado, porém, estava se mostrando mais complexo do que ele imaginara. O filho estava resignado a odiar o colega de classe para o resto da vida.
— Anthony, o que exatamente esse Stuart disse a você que o deixou tão irritado? — perguntou Edward, a certa altura, e teve que esperar um longo tempo até convencer Anthony a revelar as palavras do colega.
— Ele disse que as cores que eu escolhi eram idiotas. — Anthony cruzou os braços diante do corpo, fazendo uma careta ao lembrar-se do episódio. — Ele é mau.
— Sim, ele é. Mas você está muito chateado para alguém que recebeu uma crítica sobre cores. Mais ainda, eu não acho que você teria batido no seu colega só por causa disso.
Anthony franziu o nariz e baixou a cabeça. Não sabia direito se podia conversar com o pai sobre as coisas que Stuart lhe dissera. Tinha se arrependido de perguntar quando Bella se tornaria sua mãe. Não tinha pensado quando falara com o pai, mas, como esse era seu desejo de aniversário, imaginava que não podia falar com ninguém sobre isso, se não seu desejo não se realizaria.
— Pai, eu não quero mais falar sobre isso.
Frustrado, Edward recostou-se na cadeira e analisou o filho. Pensava que estava fazendo progressos com Anthony, mas o filho estava fechado demais no momento. Isso o fazia questionar seu próprio sucesso em aproximar-se de Anthony. Ou será que essa frustração era apenas uma prerrogativa de ser pai?
Imitando o filho, ele cruzou os braços e insistiu:
— Esse Stuart ofendeu você de alguma forma, Anthony? — Edward era atento o bastante à época em que vivia para estar familiarizado com termos como bullying. Além disso, ele também já fora criança e sabia como o ambiente escolar podia ser opressivo, mesmo que sem danos graves.
— Ele não me ofendeu. — Foi a resposta de Anthony. — Posso ir agora?
— Nós não terminamos aqui.
Anthony soltou um suspiro exageradamente longo.
— Eu tô com fome. — O menino recorreu à mais antiga das estratégias infantis de distração.
O pai não caiu.
— Não está na hora do jantar. — disse Edward. — Já que você não quer me contar o que aconteceu entre você e esse tal Stuart, talvez você conte à Bella.
— Não! — exclamou Anthony prontamente.
Edward arqueou uma sobrancelha diante da reação do filho. Então, percebeu e esboçou um olhar de reconhecimento.
— O que esse Stuart disse tem a ver com a Bella, não tem?
Anthony deixou cair os ombros.
— Sim. — admitiu, vencido, e resolveu contar tudo ao pai: — Eu pintei o cabelo da Bella de marrom. Daí o Stuart disse que marrom é uma cor feia e eu disse que não era, porque era a cor do cabelo da Bella e ela é bonita. Mas o Stuart não quis saber e, então, ele riu quando eu disse que a Bella seria a minha mãe. Ele disse que ela não podia ser minha mãe, se você casar com ela. Stuart disse que a gente não ganha mãe nova quando nosso pai casa. Ele disse que a Bella vai ser só a minha madas… madas…
— Madrasta.
— É, isso. Ele disse que ela vai ser minha madastra e que elas são todas más! — Anthony colocou-se na ponta da cadeira, inclinando-se um pouco para a frente numa demonstração de indignação infantil. — Stuart não sabe de nada, pai. A Bella não é má e ela não vai ser essa coisa aí! Ela vai ser minha mãe.
Edward escolheu as palavras seguintes com cuidado.
— Anthony, nós já conversamos sobre essa história de mãe. — disse ele, o tom calmo. — Isso não é algo que acontece de uma hora para a outra. Bella, você e eu ainda estamos nos conhecendo.
— Eu amo a Bella, papai. Por que ela não pode ser minha mãe se eu amo ela como amo você?
Edward não sabia o que dizer. Sempre se orgulhara de suas respostas rápidas e lógicas. Mas a indagação do filho não requeria lógica. O que estava em jogo aqui eram sentimentos. E os de Anthony eram fortes demais para serem ignorados. Ele se preparou para tentar dar uma resposta, mas um movimento na porta aberta captou sua atenção.
Surpreso — e um pouco alarmado —, ele avistou Bella, na soleira da porta, com os olhos castanhos marejados. Não precisava de muito para perceber que ela ouvira a declaração de Anthony.
Meio impaciente com a demora do pai, Anthony acompanhou o olhar dele e exclamou ao ver Bella.
— Você já chegou! — disse o menino, entusiasmado, como sempre, e fez partido para sair da cadeira. Mas interrompeu a si mesmo e virou-se para Edward. — Posso ir, pai?
— Sim. Mas… — acrescentou Edward. —, eu falei sério quando disse que você vai ficar sem televisão hoje. Depois do jantar, você vai direto para a cama. E nada de sobremesa pelos próximos três dias.
— Tá bom, tá bom. — murmurou Anthony, emburrado.
— Olha o tom, colega.
— Desculpe. — disse ele, prontamente. — Posso ir agora, por favor?
Edward bagunçou os cabelos do filho.
— Vá em frente.
Anthony pulou da cadeira e correu em direção à Bella, confiante o suficiente para saber que ela abriria os braços para ele.
— Você não vai acreditar no que aconteceu hoje. — disse ele à Bella, brincando com a gargantilha que ela usava, distraído o suficiente para não perceber o resquício de lágrimas nos olhos dela.
Bella arqueou uma sobrancelha. Tentando uma expressão suave, mesmo quando ainda se sentia um pouco trêmula pelo que ouvira da conversa entre Anthony e o pai, ela disse:
— Fiquei sabendo que o Senhor Confusão entrou em cena na escola.
Anthony fez uma careta.
— Sim. Estou de castigo.
— Hmmm. — murmurou ela. — Seu pai fez certo, sabia? Você não deve brigar com ninguém. O melhor modo é sempre conversar. Se não der certo, você simplesmente se afasta.
Edward recostou-se na cadeira e a fitou, a expressão um misto de frustração, traição e admiração. Estivera tentando explicar aquilo ao filho durante a última meia hora, mas tinha dado tantas voltas para conseguir isso que daria para fazer umas três viagens até a Lua. Como ela conseguia pensar numa explicação tão simples, em pouco tempo? Ele precisava dessa fórumla.
— O papai também disse isso. — replicou Anthony, sem saber ao certo o que pensar sobre aquela aparente união de ideais entre seu pai e Bella. Amava os dois, mas, às vezes, eles simplesmente pareciam estar juntos e contra ele. Isso era uma chatice, porque sempre significava que ele tinha que fazer alguma coisa chata.
A frustração de Edward diminuiu um pouco. Tinha dado voltas, mas, ao menos, Anthony tinha entendido onde ele queria chegar. Isso era uma conquista. Ele se levantou, um sorriso satisfeito no rosto, e aproximou-se de onde Bella e Anthony estavam.
— Anthony prometeu que não vai mais brigar na escola. — informou ele à Bella.
Todos os três fingiram que a promessa utópica seria capaz de durar toda a vida escolar do menino.
— Isso é ótimo. — Bella sorriu e deu um beijo na testa de Anthony como recompensa. Ela continuou sorrindo quando Edward parou ao seu lado.
— Tenho direito a um beijo também? — quis saber ele e estava sorrindo quando ela tocou os lábios aos seus.
Anthony franziu o nariz diante da cena.
— Ugh, isso é tão nojento. — replicou o menino.
Os adultos riram.
— Ok. — disse Bella, saindo da sala com Anthony ainda nos braços e Edward ao seu lado. — Acho que está na hora de alguém tomar banho.
— Aham. Papai está muito fedido mesmo.
— O quê?
— Ah, céus, pensei que apenas eu tinha notado. — Bella piscou para Anthony e ele lhe devolveu um sorriso cúmplice.
— Estou sendo ofendido na minha própria casa. — replicou Edward, fingindo-se indignado. — Talvez eu devesse deixar vocês dois sem sobremesa por uma semana.
— Pai, você não pode fazer isso com a Bella. Ela já é adulta.
Edward encontrou os olhos de Bella quando ela o fitou com uma sobrancelha arqueada. Ele esboçou um sorriso enviesado.
— Existem sobremesas e existem sobremesas.
Bella sentiu as bochechas esquentarem. Voltava para casa para um garotinho adorável e um homem provocante. Em momentos como esse, sentia-se malditamente sortuda.
Ela estalou a língua.
— Anthony, acho melhor não provocarmos seu pai ou nós dois vamos sair perdendo.
— Ok. — O menino assentiu e fitou Edward. — É mentira, pai. Você não está fedido.
Edward fingiu-se decepcionado.
— Como vocês dois são voláteis.
— O que é isso?
— Significa que admitem qualquer coisa para não ficar sem sobremesa.
— Ah, então a gente é isso mesmo. Não é, Bella?
Ela sorriu, assentindo, e fitou Edward.
— Sim. Afinal, eu adoro sobremesa.
— ~ —
Edward terminou de dar boa noite ao filho e, depois, desceu as escadas em busca de Bella. Apesar de demonstrar tranquilidade e bom humor, ela tinha permanecido incomumente reservada durante o jantar e durante o tempo que passaram com Anthony, antes de o menino ir dormir.
Ele sabia que ela estava pensando no que Anthony dissera em seu escritório. A declaração indireta que ela ouvira sem querer. E tinha medo que ouvir aquilo tivesse deixado Bella com medo, sentindo-se pressionada.
Estava bastante ciente dos receios dela em relação ao modo como Anthony a aceitava, rapidamente, como alguém da família. Sabia que ela ainda não queria — ou, ao menos, não admitia — que o menino a visse como mãe porque temia desapontá-lo. Ele também sabia que um pouco disso era sua culpa, uma vez que nunca conversara com Bella sobre os próprios sentimentos.
Mas a verdade era que Edward não sabia o que sentia por Bella. Ou, talvez, soubesse, mas não quisesse admitir. Nunca havia sentido algo tão forte e inexplicável por uma mulher, como ele sentia por Bella. Ela o estava fazendo mudar — de um modo que ele não imaginara ser possível, do modo como sempre desejara mudar. E isso o deixava confuso e perdido, pois nunca intencionara dar aquela abertura a ninguém. Por muito tempo, acreditara que isso apenas o tornaria fraco. Mas ele não sentia fraqueza agora. Ao contrário, estava conquistando muito mais do que imaginara.
Mas não importava que estivesse conquistando tantas coisas. Ele ainda tinha coisas a contar à Bella e, se a conversa que tivera com ela, sobre o passado dela, era alguma indicação, a reação dela não seria completamente compreensiva.
Ele não queria arriscar o que tinham — ainda não —, embora soubesse que o momento de contar seus segredos à Bella estivesse próximo.
Edward encontrou Bella na sala de estar. Ela estava no sofá, uma taça de vinho na mão e uma expressão pensativa no rosto. Quando o ouviou chegar, ela meneou a cabeça, como se tivesse despertado de um cochilo, e ergueu a taça com um sorriso.
— Comecei sem você. Desculpe.
— Sem problemas. — Ele caminhou até o bar e serviu-se de uma taça do mesmo vinho que ela bebia. Então, virou-se e, com a mão livre no bolso, observou-a enquanto bebia. — Está tudo bem?
Bella moveu os ombros, com um sorriso simples nos lábios. Sabia ao que ele se referia.
— Eu estava apenas pensando. — respondeu ela e bebeu um último gole de vinho.
Edward se aproximou e se juntou a ela no sofá.
— E chegou a alguma conclusão?
Ela moveu os ombros novamente, circulou a borda da taça, o gesto pensativo.
— Eu nunca me imaginei sendo mãe. — admitiu e ergueu a cabeça para fitá-lo. — Nunca planejei isso.
— Às vezes, não é planejado.
— Eu sei, mas… — Ela suspirou, pensou no que dizer. — Até o momento, — começou. — essa ideia nunca tinha passado pela minha cabeça. Acho que, pensando na minha vida agora, eu começaria a considerar a possibilidade quando chegasse na casa dos trinta. Mas, agora…
— Agora, meu filho está sutilmente pressionando você.
Ela riu.
— Não há nada de sutil em vocês, Cullens.
Edward a observou, acariciando o rosto dela.
— Não há mesmo. Nós jogamos para ganhar. Às vezes, isso não significa um jogo limpo. — disse ele e deslizou a mão, descendo-a e buscando a mão dela. Ele brincou com as curvas entre os dedos dela, pensativo. — Você quer ser a mãe do Anthony, Bella?
Ela amava Anthony, de todo o coração, mas não podia assumir essa responsabilidade sem criar expectativas em relação ao seu relacionamento com Edward.
— Estou feliz com o modo como as coisas são, Edward.
— Isso não responde minha pergunta. — replicou ele, encontrando os olhos dela. — E você está mantendo algo para si mesma. Posso ver isso nos seus olhos. Me diga.
— Só acho que as coisas estão indo rápido demais.
Edward fez uma careta.
— Parece que esse se tornou o seu hino. — murmurou, soltando a mão dela e levantando-se. Enfiando as mãos nos bolsos, ele caminho até a janela e observou o céu noturno. — É por que eu não lhe contei tudo em relação a mim, não é? É por isso que você reluta.
— Sim. — Ela não queria mentir. — Em parte, é por isso, sim.
— E a outra parte? — quis saber ele.
— Para garantir que Anthony não se machuque. — E eu também, acrescentou Bella para si mesma. — Ele é importante demais para mim.
— Eu sei disso, Bella. — Edward se virou e a fitou. — Mas… — Ele se aproximou de onde ela estava, sentou-se ao lado dela e segurou suas mãos. — Existem alguns aspectos da minha vida que a deixariam chocada se você soubesse.
Bella refletiu sobre isso, o olhar pensativo, então semicerrou os olhos.
— Você não vai dizer que tem um Quarto de Jogos em algum lugar dessa casa, não é? Porque eu já li esse livro, e não gostei muito.
Edward franziu o cenho.
— Não sei do que você está falando.
Bella assentiu com um longo suspiro.
— Que ótimo. Isso é um alívio. — Ela manteve o humor por mais um instante, depois, ficou séria novamente. — Por favor, continue.
Edward a fitou, os olhos especulativos por um segundo, então continuou:
— É sobre os meus negócios. Uma parte deles, para ser mais específico. A parte que rendeu à minha família o dinheiro e o poder que os Cullen têm hoje. — Ele fez uma breve pausa, pensando em como diria aquilo.
Bella apertou suas mãos suavemente.
— Não precisa ter receio, Edward. Você não me julgou quando eu contei minha história. Acho que posso lhe dar a mesma chance.
Ele esboçou um sorriso enviesado que não alcançou os olhos.
— Você não sabe o que está dizendo, Bella. Além disso, não fiz aquilo esperando que você me desse algo em troca. Eu, simplesmente, não me importava com o que você diria, porque sabia que não mudaria o que sinto por você.
E o que ele sentia?, perguntou-se Bella, mas sabia que não era a hora de falarem sobre isso.
Edward estava prestes a continuar quando Emmett e Rosalie entraram na sala, à passos apressados, as expressões alarmadas.
Pulando todos os cumprimentos e saudações habituais, Emmett disse:
— Edward, nós temos um problema.
Ele fez uma careta. Não gostava das expressões dos outros dois, nem do tom de Emmett.
— Que tipo de problema?
— É a Eclipse. — Rosalie se adiantou e deu a resposta: — Ela foi incendiada.
N/A: Por favor, comentem!
Ps.: Próximo capítulo será postado dia 15-07 (quarta-feira).
Ps².: Teremos Flashback no próximo capítulo. Alguma especulação? *-*
