N/A: Capítulo surpresa! Espero que vocês gostem.

Obrigadíssima pelos comentários. :)

Boa leitura!


CAPÍTULO DEZOITO

Sete anos atrás

Fazia muito calor naquela noite. Dentro da casa noturna que se inaugurava, as pessoas dançavam na pista, suadas e agitadas por causa das altas temperaturas, mas ninguém se importava com isso. O sistema de refrigeração até tentava dar conta do calor e, para quem ficava parado, ele cumpria a missão. Mas a maioria das pessoas não estava parada. Todo mundo parecia ter algo a fazer, alguém com quem dançar, conversar, alguém para beijar.

A atmosfera da Eclipse tinha sido de diversão desde o seu primeiro dia. Por isso o lugar já era um sucesso, mesmo em sua noite de estreia. A fama que a precedia tinha tudo a ver com o dono do lugar. Embora essa fosse a primeira casa noturna que Edward adquiria, antes disso ele administrara outras duas, a duas quadras dali, que eram igualmente badaladas. Ele tinha facilidade para compreender o que fazer e o que não fazer quando o assunto era garantir a diversão noturna dos jovens e solteiros de Chicago. Talvez porque ele mesmo fosse as duas coisas, e também fosse um assíduo frequentador de lugares como a Eclipse, além de que era um amante da vida noturna de Chicago e Nova York.

Por isso, e por seu "dom", resolvera abrir a Eclipse. Ah, e também porque queria provar ao pai que era tão capaz de administrar algo quanto ele.

Naquela noite, Edward andou de um lado para o outro, cumprimentando convidados e conversando brevemente com convidados e conhecidos. Quando as horas de obrigações acabaram, aproveitou para reunir-se com os amigos e começar a diversão. Não levou muito tempo até sua atenção concentrar-se numa das frequentadoras da Eclipse.

Ela dançava na pista apinhada de gente e, após duas ou três trocas de olhares, Edward soube que ela tinha conhecimento de que ele a observava. Não tinha reparado nela antes, agora que o fazia, percebia que ela estivera na maioria dos lugares pelos quais ele passara ao longo da noite. Seu olhar já havia se cruzado ao dela naquela noite.

Ela era uma mulher bonita, obviamente. Era jovem e tinha olhos sedutores, um sorriso lascivo, uma atitude confiante. O corpo era perfeito — pernas longas, expostas pelo vestido curto, alongadas pelos salto alto, seios fartos, revelados generosamente pela fenda no vestido. Ela era bonita, sexy, gostosa e, porque aos vinte e dois anos ele estava mais interessado em curvas do que em conteúdo, Edward se sentiu imediatamente interessado por aquela mulher.

Ele ergueu seu copo na direção dela. Ela devolveu o gesto com um sorriso sedutor e continuou dançando — exibindo-se agora, mostrando-se, apresentando-se para a avaliação dele, Edward não tinha dúvidas. Ele gostava do que via e mil fantasias já passavam por sua cabeça.

A mulher continuou dançando quando ele abriu caminho entre as pessoas na pista. Edward se aproximou e, sem cerimônias, colocou as mãos na cintura dela. Ela não protestou. Simplesmente inclinou a cabeça para o lado, rindo, e colocou as mãos nos ombros dele. Ele sussurrou algo no ouvido dela. Ela riu novamente e afastou-se de modo a encontrar o olhar dele.

Os olhos dela, azuis e tão lascivos quanto o corpo cheio de curvas, brilharam de malícia.

— Eu vou adorar conhecê-lo melhor, querido. — Ela ronronou ao pé do ouvido dele.

— Então, vamos para um lugar mais tranquilo. — Edward a puxou para fora da pista, hormônios, álcool e falta de experiência guiando-o.

Ele atravessou a boate com pressa, com a estonteante ruiva em seu encalço e em sua mente, e xingou quando esbarrou em alguém que atravessou seu caminho.

— Merda, você não olha por onde anda? — reclamou ele, percebendo que esbarrara numa garota, que no momento murmurava um xingamento.

O esbarrão a fizera derramar bebida no vestido.

— Foi você que não olhou por onde estava andando, seu idiota. — replicou a garota, limpando a roupa dos respingos da bebida. Ela murmurou mais alguns xingamento, furiosa por observar a mancha enorme que agora estampava sua peça de roupa.

Então, ela ergueu a cabeça e encontrou o olhar dele.

Edward a encarou de volta. Ela era jovem e tinha olhos de um castanho brilhante. A expressão furiosa com que o fitava não combinava com as feições jovens, que ela tentava esconder com lápis preto nos olhos e batom roxo. A impressão que Edward teve era a de que ela parecia uma boneca de porcelana aborrecida, o rosto angelical maculado por excesso de maquiagem e rugas de irritação. Isso o fez rir.

Bella bufou, indignada com o cinismo dele, e o encarou ainda mais furiosa. Considerou seriamente a possibilidade de estapeá-lo. O cara podia ser bonito — de um modo descuidado, com aquele ar sexy de rebeldia —, mas ele era também um imbecil. Sabia disso. Reconhecia o tipo playboy mimado que não dá a mínima para o mundo. Detestava esse tipo de pessoa, especialmente porque tinha inveja do dinheiro que elas possuíam e que ela jamais teria. Uma pessoa podia fazer praticamente tudo quando tinha dinheiro. Inclusive rir de alguém em que se esbarrava e se derramava bebida.

Mas esse poder todo não significava que ela ficaria calada.

— Idiota.

— Maluca. — replicou ele e riu novamente. Cansando-se e lembrando-se de seu objetivo original, Edward puxou a ruiva para perto de si e, rindo, deixou a garota, molhada e furiosa, para trás.

Amaldiçoando-o, Bella secou um pouco da bebida com um guardanapo, resolvendo deixar o incidente de lado e ir procurar James. Esse era outro idiota com que ela brigaria naquela noite. Talvez até mesmo terminasse com o namorado. Estava cansada daquela vida de casas noturnas, playboys cínicos e noites de festas sem fim que James tanto gostava. Ela sentia como se, depois de tudo o que fizera, já tivesse atingido sua quota de irresponsabilidades e diversão juvenil. Estava na hora de deixar boates e homens imbecis de lado e dar um rumo para a própria vida.

Decidida, ela endireitou o vestido e foi procurar o namorado, seguindo na direção oposta a do playboy idiota atracado com uma ruiva estonteante.

Ao fazer isso, talvez, nem ela, nem Edward, nunca fossem perceber que tinham desperdiçado uma chance quando, naquela noite, caminharam em direções opostas. Talvez, nenhum dos dois nunca fosse se lembrar de que não haviam se visto pela primeira vez por intermédio de Anthony, no casamento de Emmett e Rosalie. Mas a verdade era que o destino já havia colocado Edward e Bella frente a frente.

E eles haviam dado as costas um ao outro.

— ~ —

De um canto na rua, Edward observava os destroços do que antes havia sido a ala norte de sua mais bem sucedida casa noturna. Felizmente, aquela era uma das noites em que a Eclipse estava fechada, então, nada além de patrimônio material havia sido perdido com o incêndio.

Enfiando as mãos nos bolsos, ele deu uma volta ao redor da área destruída. O lugar que abrigava a área do bar e de uma das duas pistas de dança tinha sido completamente arrasado pelo fogo. Não sobrara muita coisa inteira — era tudo um amontoado de peças escuras, queimadas, que pareciam zombar dele de alguma forma.

Os bombeiros tinham levado pouco mais que meia hora para concordar com sua suposição de que aquele incêndio fora criminoso. Eles ainda precisariam concluir a perícia, mas, isso não importava para Edward. Era pura formalidade. Ele sabia que os resultados confirmariam o que sua intuição já sabia.

E ele não precisa de muito para concluir que o incêndio fora ocasionado pelo mesmo assassino que atacava frequentadoras da Eclipse. Havia um padrão nos dois crimes: ambos estavam relacionados à Eclipse e, por conseguinte, estavam relacionados a Edward.

Se antes ele já achava que o tal assassino estava tentando atingi-lo, agora tinha certeza. Essa pessoa o conhecia — não apenas sabia que a Eclipse pertencia a Edward, mas também sabia o quanto a casa noturna significava para ele.

Edward podia ter deixado a vida noturna de lado há muito tempo, mas mantinha a Eclipse tanto por sua alta rentabilidade, quanto porque aquele havia sido o primeiro negócio que ele assumira, desde a base até a realização final, que fora bem sucedido. Quando abrira a Eclipse, quando a tornara um sucesso em um tempo relativamente curto, Edward havia provado a si mesmo — e ao pai — que era um administrador tão capaz quanto todos os Cullen antes dele.

E ele tinha conseguido fazer isso completamente dentro da legalidade.

Até mesmo o dinheiro que investira na Eclipse era limpo, uma vez que Edward o conseguira com a família da mãe, não com a fortuna dos Cullen. E dentro da lei a casa noturna permanecia.

Esse sempre tinha sido um ponto de discussão e desentendimento entre Edward e o pai. Se fosse por Edward Primeiro, a Eclipse teria se tornado o escritório da família Cullen, como Aro tinha o seu naquela rua decadente. Edward sabia que o pai via nesse plano uma forma de macular a casa noturna, uma vez que ele sempre odiara o fato de que o próprio filho fizera algo honesto.

Mas, para eterna insatisfação de Edward Primeiro, Edward nunca cedera aos seus desejos.

Agora, Edward olhava para um pedaço de seu patrimônio destruído e não parava de ver alguém, sem rosto e sem voz, rindo dele, zombando dele. Mais ou menos como seu pai faria, pensou Edward.

O pai adoraria vê-lo naquela situação impotente, perdido diante de um ataque que ele não conseguira prever e que resultara na violação de uma das coisas que Edward tanto estimava, com que ele tanto se importava.

Edward cerrou as mãos em punhos. Precisava descobrir quem o estava ameaçando. Tinha sido complacente demais com aquela situação, percebeu. Mas isso mudaria logo. Sua tática mudaria, se esse era o único jeito de obter respostas. Podia adiar tomar atitudes mais drásticas, mas nunca deixava algo pendente quando o fazia.

Ele se virou para Emmettt, que estava próximo, avaliando ele mesmo os danos causados pelo fogo.

— Emmett.

Percebendo o tom de voz implacável, Emmett afastou-se dos bombeiros com quem conversava e aproximou-se de Edward.

— Sim, chefe?

— Não estamos mais fazendo uma investigação. Vamos começar uma caçada. — declarou Edward, satisfeito quando a reação do outro foi um assentimento compreensivo. — A pessoa responsável por esse incêndio é a mesma responsável por aquelas mortes. Ela pensa que é intocável, mas ela tem que ter deixado algum rastro. Quero todo mundo procurando por eles. Qualquer vestígio importa. Esqueça os negócios mais simples, não-urgentes, e mande todos caçarem informações, indícios, sussurros, o que for. Vou recompensar — e muito bem — quem tiver informações relevantes. Espalhe a notícia o mais rápido possível.

— Farei isso agora mesmo.

— Ótimo. — Edward assentiu e fitou os destroços mais uma vez. — Ótimo. Rosalie está monitorando as notícias?

— Sim. Ela já conseguiu bloquear algumas notas em portais de notícias, e também entrou em contato com nosso amigo no Tribune. Eles não vão publicar nada.

Edward assentiu, satisfeito.

— Melhor assim. Quanto menos atenção chamarmos, melhor para nossas buscas. Além disso, não quero esse filho da mãe achando que estou desesperado.

Recorrer à espetacularização — que a mídia, geralmente, promovia sobre um caso como aquele — não era uma atitude sensata dentro do mundo em que Edward vivia. Era um sinal de fraqueza, que o prejudicaria tanto diante do assassino quanto diante de outras Famílias. Usar a mídia também dificultaria as buscas por informações, pois tudo que se tornava público saía do controle, e, mais cedo ou mais tarde, atrairia a atenção da polícia para os negócios dos Cullen, e não para o que Edward precisava.

— Também já contive a vizinhança. — informou Emmett, finalizando seu relatório daquela noite. Estava, ele próprio, extremamente aborrecido e frustrado com mais aquele golpe e a falta de sucesso em suas investigações. Nunca se deparara com alguém tão escorregadio quanto aquele assassino misterioso. E ele já vivera muitas situações. Já investigara muitas coisas.

Ainda, se trabalhasse para outra pessoa, Emmett sabia que já teria sido substituído. Tanto por não obter resultados quanto porque a falta deles poderia significar que ele próprio estava envolvido na situação.

Mas Edward nunca dissera nada sobre substituições. Ele também nunca sinalizara estar o mínimo desconfiado de Emmett.

Havia confiança aqui, pensou Emmett. Por isso, empenhar-se-ia ainda mais naquelas buscas.

Os dois bombeiros, conhecidos tanto de Edward quanto de Emmett, aproximaram-se para esclarecer mais algumas questões e depois partiram.

Após se certificar de que não havia mais nada que pudesse fazer ali, Edward resolveu voltar para a mansão.

Estava ansioso para voltar para casa. Não tinha apenas um, mas, sim, dois motivos que o faziam desejar voltar logo. Sabia que o filho estaria dormindo quando chegasse. Talvez Bella estivesse acordada, esperando por ele. Ou talvez não — ele não sabia. Mas não importava.

O importante era que Anthony e Bella estariam lá. Simplesmente estariam. E, depois da decepção e derrota que Edward tivera que encarar naquela noite, isso era mais que suficiente.

— Emmett.

— Sim? — Emmett estava dirigindo, imerso nos próprios pensamentos, mas ficou surpreso com o tom ameno de Edward. — Algum problema?

— Você disse que começaria a avisar os outros nessa mesma madrugada.

Ele assentiu, fitando Edward através do espelho retrovisor, o olhar resoluto.

— Com certeza.

— Não faça isso hoje. — replicou Edward, para a surpresa do outro.

— Edward? — disse Emmett, confuso, o funcionário e o amigo confundindo-se por um instante. — Pensei que estivéssemos com pressa.

— Nós estamos. — Edward assentiu e observou a paisagem através da janela. — Mas não estamos desesperados. Faça o que tiver de fazer amanhã. Comece cedo, se quiser, mas, por agora, deixe-me em casa e volte para a sua. Fique com sua esposa e se prepare. — aconselhou Edward e recostou-se no banco. — É o que eu pretendo fazer.

— ~ —

Enquanto Edward e Emmett resolviam as coisas sobre o incêndio na Eclipse, Rosalie ainda ficou um tempo na mansão do melhor amigo e chefe, fazendo companhia à Bella. Sua função ali era tanto de acalmar a outra quanto de se certificar de que tudo permanecia calmo na casa de Edward enquanto ele estava fora. Rosalie não era uma segurança disfarçada, como Cyrus ou Emmett — que eram, aliás, profissionais nesse ramo —, mas ela vivia há tempo suficiente no mundo dos Cullen para reconhecer perigo quando ele se apresentava.

Além disso, ela gostava de Bella e não se importava de fazer hora com ela.

Isabella Swan, como Rosalie já havia percebido, quando fizera seu casamento com ela, era uma pessoa inteligente, agradável e divertida, mas nada disso de modo exagerado. Ela também era sensata e nunca se deixava intimidar por um olhar frio ou uma palavra mais dura. E isso era algo que Rosalie admirava e apreciava imensamente.

Imaginava que Bella era exatamente a mulher que Edward merecia ter ao seu lado.

Rosalie serviu-se de uma taça de vinho e recostou-se no sofá. Bella, que tinha ido verificar se estava tudo bem com Anthony, voltou à sala nesse instante.

— Bella, devo dizer que fiquei insatisfeita por ter interrompido sua noite com Edward.

Bella moveu os ombros, ocupando um lugar numa poltrona, servindo-se ela mesma de uma taça de vinho.

— Não foi culpa sua, Rosalie. Só desse incidente na Eclipse.

Rosalie observou a outra, considerando as palavras de Bella. Então, assentiu com um sorriso simples. Sabia que não fora um acidente, mas não tinha certeza se Edward queria que a informação fosse revelada à Bella. Por isso, manteve a boca fechada.

Ela bebeu um gole de vinho, assumindo um tom ameno de conversa.

— Você e Edward parecem bastante envolvidos. Ele nunca convidou outra mulher para viver aqui, como fez com você.

Pensando na afirmação, Bella franziu o cenho.

— A mãe de Anthony viveu aqui com Edward.

— Ela não foi convidada. — replicou Rosalie. — E ela não viveu nessa casa com Edward. Ela era uma hóspede.

— Minha estadia aqui também é temporária.

— Bella, você é perspicaz demais para acreditar nas coisas que está me dizendo. Sei que está entendendo aonde eu quero chegar, mas que talvez não queira encarar isso agora. — Rosalie ficou pensativa por um instante. — Mesmo que, sim, suas conclusões tenham fundamento. A mãe de Anthony já viveu aqui, ok. Ela era uma hóspede, ok. Mas o que ela significou para Edward é muito diferente do que você significa para ele.

— Não tenho certeza do que significo para Edward. — murmurou Bella, fitando a própria taça e contornando a borda com a ponta dos dedos.

Rosalie sorveu mais um pouco de vinho.

— Acho que é só uma questão de tempo até você descobrir. Até vocês dois descobrirem. — Ou admitirem, pensou ela, mas guardou o pensamento para si mesma. Então, recostou-se no sofá e resolveu mudar de assunto. — Eu gosto de você, sabe. Desde antes disso. — Ela sinalizou a sala num amplo gesto de mãos. — Gostei de tê-la como a organizadora do meu casamento. Você é profissional, mas me fazia sentir como se eu estivesse planejando minha festa com a minha melhor amiga. Ainda não sei como você faz isso.

Bella esboçou um sorriso enviesado.

— Só sou malditamente boa no que faço.

Rosalie riu.

— Claro que é. E eu ainda me sinto conversando com uma amiga.

— Isso é por que você está. — Bella esboçou um sorriso, que Rosalie retribuiu. — Mas eu devo confessar, Rosalie, quando a conheci, fiquei morrendo de medo de você.

Dessa vez, Rosalie soltou uma gargalhada.

— Por quê você ficou com medo?

— Bem, você é tão séria e concentrada. Tem essa expressão que você faz que diz "eu sei o que quero e ninguém vai me impedir de conseguir". É intimidante, acredite em mim. Eu pensei que você fosse me escalpelar se eu fizesse alguma coisa errada.

— Ah, bem, mas esse medo não a impediu de insistir no altar de vidro.

— Gosto de viver perigosamente. — replicou Bella com humor.

Rosalie espelhou o sorriso divertido, mas de modo mais contido. Se Bella soubesse o que estava falando…

Ela entenderia?, perguntou-se Rosalie e deu-se conta de que era por isso que Edward continuava adiando o momento de revelar os segredos da família Cullen à Bella. Era difícil saber qual seria a reação de Bella, percebeu Rosalie.

Ela parecia uma mulher compreensiva, mas Rosalie sabia que o que Bella fizera no passado a atormentava. Saberia disso, apenas por conviver com ela. Mas, como ficara responsável por investigar o passado de Bella, Rosalie também sabia que ela tentara assumir a culpa pelo assassinato do tal professor, chegando até a procurar a polícia.

O caso só não tinha ido adiante porque o pai de Bella havia interferido. Como havia acobertado o envolvimento da filha num assassinato, Charlie Swan também conseguira apagar a confissão que Bella tentara fazer cinco anos atrás. Ele só não tinha conseguido apagar isso da memória do agente de polícia que tivera o caso em mãos — agente esse que Rosalie havia encontrado e que Emmett havia entrevistado.

Rosalie sabia que Edward ainda não revelara à Bella que investigara o passado dela. Também sabia que o motivo de ele não revelar tinha a ver com a solução que eles haviam encontrado para ajudar Bella a superar aquele episódio de seu passado.

Não se sentia privilegiada por possuir aquela informação, nem via Bella como prejudicada por permanecer de fora.

Um passo de cada vez — ou uma revelação de cada vez, pensou Rosalie — era a melhor maneira de se obter sucesso no final. Nada que se fazia com pressa, atropelando as coisas, saía bem sucedido. Especialmente no mundo em que os Cullen viviam. Um sussurro fora de hora e toda uma operação poderia ser comprometida.

Completamente alheia aos pensamentos da outra, Bella perguntou:

— Você conhece Edward há muito tempo?

Voltando os pensamentos para a conversa, Rosalie assentiu.

— Conheço-o por toda a minha vida. — respondeu. — Os Hale e os Cullen se conhecem há gerações. Eu conheço Edward desde que nasci, embora ele seja mais velho. Como Alice e eu temos a mesma idade, nós convivemos mais, mas gosto de pensar em Edward como meu amigo também.

Por um momento, Bella sentiu uma pontada de inveja. Devia ser bom compartilhar esse tipo de amizade que durava uma vida inteira, como Rosalie tinha tanto com Alice quanto com Edward.

Apesar de que Bella tinha Angela, sua melhor e mais duradoura amiga, perguntava-se como seria ter uma amizade tão antiga, como a dos Hale e dos Cullen. Era algo sólido, ela pensou, e reconfortante.

— E quanto a Emmett? — Bella perguntou, após algum tempo. — Como vocês se conheceram?

Um sorriso sonhador formou-se nos lábios de Rosalie.

— Conheci Emmett quando tinha quinze anos. Foi por causa de Edward, na verdade, que nós nos conhecemos.

— Ele apresentou vocês? — perguntou Bella, admirada com a revelação.

— Sim, ele apresentou, mas, para ser sincera, eu não caí de amores por Emmett logo que o conheci. Nós convivemos por um longo tempo até eu perceber o que sentia por ele.

— O que fez você perceber? — quis saber Bella, sempre disposta a ouvir uma história de romance.

Rosalie a fitou com um sorriso enviesado. Então, respondeu:

— Minha família, os Cullen e uma tentativa de casamento arranjado, eu diria.

Interessada, Bella arqueou uma sobrancelha.

— Me conte. — pediu.

— Como eu disse, os Hale e os Cullen se conhecem há muito tempo, mas nunca houve nenhuma conexão entre nós, a não ser negócios. Meu pai e o pai de Edward resolveram que seria interessante se houvesse uma união entre as famílias. Por isso, eles tentaram convencer a mim e Edward de que nós daríamos um ótimo casal.

O queixo de Bella caiu.

— Você e Edward já tiveram um relacionamento?

Rosalie riu, meneando a cabeça, descartando aquilo.

— Não, de jeito nenhum. Nós conseguímos evitar qualquer aproximação desse tipo, por mais que nossos pais nos pressionassem.

Pensativa, Bella considerou as palavras da outra.

— Mas você nunca cogitou ter algo com Edward? — quis saber, a título de curiosidade.

— Nada além de amizade. — garantiu Rosalie, esboçando um novo sorriso enviesado. Era mulher o suficiente para reconhecer o tom sutilmente desconfiado de Bella por sob uma cuidadosa camada de educado interesse. — Embora, confesso, eu tenha tentado beijá-lo uma vez.

Bella arqueou uma sobrancelha.

— É mesmo?

— Sim. — admitiu Rosalie, divertindo-se com a lembrança, e riu. — Mas foi a coisa mais estranha que já tentei na vida.

— Hmmm.

O sorriso de Rosalie tornou-se mais amplo.

— Eu disse apenas que tentei, não que consegui. Você não precisa voar no meu pescoço.

— Por favor, eu não ia fazer isso. — replicou Bella, gesticulando com sua taça, tentando um tom despreocupado, mas, diante do olhar cético de Rosalie, ela revirou os olhos. — Tudo bem. Talvez estivesse, sim, mas... — Ela meneou a cabeça. — Desculpe, eu tenho esse lado… — Ela gesticulou com as mãos, como se buscasse as palavras. — Um lado, você sabe, meio…

— Ciumento?

— Temperamental. — replicou Bella. Então, ao receber um novo olhar cético de Rosalie, deu de ombros. — Não consigo evitar. São os genes italianos em mim.

— Sim, já ouvi sobre manifestações deles. A tal da Jane que o diga.

— Ah, aquela mulher. — Bella bufou, terminando o vinho num único gole. — Espero que ela esteja limpando privadas com escova de dente.

— Da última vez que verifiquei, ela estava se candidatando a uma vaga de balconista na Walmart.

— Meu Deus, ela vai acabar atacando o filho de algum cliente que espirrar perto dela.

Rosalie moveu os ombros.

— Se Edward deixar que ela consiga o emprego. — murmurou, arrependendo-se logo em seguida. Precisava lembrar a si mesma que não estava diante de uma mulher desatenta ou deliberadamente sonsa. Não ficou surpresa quando percebeu o brilho curioso, a expressão especulativa, nos olhos de Bella.

— Se Edward deixar? — repetiu Bella, arqueando uma sobrancelha. — Por acaso ele tem ações na Walmart?

— Ele… conhece alguém que tem. — Rosalie era tão rápida para improvisar respostas quanto era para falar o que não deveria.

— Hum. — murmurou Bella, pensativa. Gostaria de estender ainda mais o assunto, mas Anthony entrou na sala, coçando os olhos com uma mão e agarrado ao cobertor com a outra.

— Bella. — disse o menino, quando a viu, caminhando na direção dela num passo sonolento.

— O que aconteceu, amigão? — Ela o colocou no colo quando ele chegou perto. Anthony descansou a cabeça na curva do pescoço dela e bocejou.

— Onde tá o papai? Eu procurei no quarto dele, mas ele não tava lá.

— Seu pai teve que sair. Houve uma emergência. — explicou ela e afastou Anthony de modo a poder fitá-lo. — Mas eu estou aqui. Você teve um pesadelo?

— Não. Só não consigo dormir. — disse o menino. — Às vezes, quando isso acontecesse, o papai fica comigo.

— Ah, bem. Eu acho que Edward vai demorar. Você se importa se eu ficar com você?

Anthony meneou a cabeça.

— Não. — disse ele e, bocejando novamente, voltou ao seu lugar de descanso na curva do pescoço de Bella.

Ela acariciou os cabelos do menino e fitou Rosalie.

— Só vou colocá-lo na cama.

— Não se incomode comigo. — disse Rosalie. — Eu já vou indo, na verdade. Também acho que Emmett vai demorar e acho melhor esperá-lo em casa.

— Se você quiser, pode ficar num dos quartos de hóspedes. Acho que Edward não se importaria.

— Imagino que não. Mas eu devo mesmo ir. — Na verdade, Rosalie planejava fazer algumas buscas em seu computador, certificar-se de que nenhuma nota sobre o incêndio na boate saísse em algum portal de notícia ou jornal. Já devia estar fazendo isso, mas sabia que Edward a quisera ali, ao menos por uma ou duas horas, para se certificar de que Anthony e Bella estivessem seguros.

Como nada havia acontecido, imaginava que poderia manter a tarefa apenas com Cyrus e os outros seguranças espalhados pela propriedade.

— Foi ótimo conversar com você. — disse Rosalie, levantando-se ao mesmo tempo em que Bella também se levantou, com Anthony no colo. — E foi bom ver você, Anthony. — disse ela, dando um beijo na bochecha do menino.

Anthony esboçou um sorriso sonolento.

— Também, tia. — murmurou, já meio grogue.

Rosalie e Bella se despediram.

Depois, Bella subiu com Anthony e levou-o para o quarto de Edward. Ela não sabia exatamente porque resolvera colocar o menino para dormir ali, mas a verdade era que, como Anthony, gostaria de poder recorrer a Edward e ficar com ele. Como não podia, ao menos ficaria com o menino no quarto dele, onde sua presença se mostrava nos objetos dele e no perfume masculino que permanecia no cômodo.

Mais que habituado agora, Anthony aconchegou-se a ela na cama, a cabeça descansando na curva do pescoço de Bella, a mente acalmando-se ao sentir-se acolhido e aquecido pelas mãos que ela passava por seus cabelos.

Não demorou muito tempo e ambos acabaram dormindo.

Bem mais tarde, quando voltou para casa, Edward encontrou sua cama ocupada pelo filho e por Bella.

Sentia-se exausto e irritado pelos problemas que tivera de enfrentar, mas nada disso importava naquele momento, quando voltava para uma cena tão calma, tão pacífica, tão normal.

Sem querer perturbá-los, ele se livrou dos sapatos, trocou as roupas de trabalho e aproximou-se da cama. Era uma coisa boa que sua cama fosse imensa. Ainda tinha lugar para ele.

Bella sentiu o colchão oscilar e virou um pouco a cabeça. Meio sonolenta, sorriu ao ver Edward.

— Oi. — disse ela. — Está tudo bem?

— Sim. Tudo bem. — Edward tocou os lábios aos dela, o beijo suave. — Amanhã nós conversamos.

Ela assentiu e acomodou-se melhor na cama, puxando as cobertas sobre os braços de Anthony, que ainda dormia junto a ela. Edward envolveu sua cintura com as mãos e ela aconchegou-se a ele, satisfeita por estar onde estava, sentindo o calor do corpo dele contra o seu. Agora, podia dormir tranquila, pensou e descansou a mão livre sobre a dele.

Inspirando o perfume suave dela, Edward fechou os olhos e, como o filho, dormiu mergulhando no conforto dos braços e do calor de Bella.

— ~ —

Na manhã seguinte, enquanto entrava em sua sala, o celular de Bella tocou e ela verificou o visor. Quando o número na tela apareceu para ela como "oculto", ela sentiu um calafrio. Estava usando um celular novo, com outro número. Desde que contara a Edward sobre as ligações anônimas, ele a instruíra a adquirir um novo aparelho, enquanto Rosalie verificaria o anterior em busca de algo que pudesse levá-los à pessoa que fazia aquelas ligações anônimas.

Mas, fintando o celular, que ainda tocava, Bella se deu conta de que a tática não havia dado nada certo.

Reunindo coragem, ela fechou a porta da sala e atendeu na sexta chamada.

— O que você quer? — Ela disse, com rispidez, ao atender.

Houve um breve momento de silêncio.

— Você está mais confiante. Já sabe de tudo?

— Tudo o que eu sei é que você é um desocupado e covarde, que fica fazendo ligações anônimas como o vilão ruim de um filme da ABC.

— Eu não faço apenas ligações anônimas, Isabella. — murmurou o homem do outro lado da linha, o tom de voz baixo e sombrio, e acrescentou: — Você não soube que as coisas esquentaram na Eclipse?

Bella empalideceu.

— Foi você. — sussurrou ela num misto de choque e terror. Sabia que esse homem podia ser perigoso, mas não sentira medo até o momento, porque antes ela apenas especulava sobre o quão perigoso ele podia ser. As coisas tomavam um rumo diferente quando sabia que, além de ligações anônimas, ele também provocava incêndios criminosos. — O que você quer comigo?

— Com você, nada. Mas o seu namorado já me fez muitas coisas. Coisas que não me deixaram satisfeito.

— O que Edward fez a você? Você devia conversar com ele sobre isso, não ameaçá-lo e destruir o patrimônio dele.

O homem do outro lado da linha soltou uma risada breve, baixa e seca.

— As coisas não funcionam assim no mundo em que Edward e eu vivemos.

— E que mundo é esse, afinal?

— Pergunte a ele. — replicou o homem. — Não fique esperando que ele lhe conte. Isso nunca vai acontecer. Você é simplesmente boa demais para ele ter coragem de lhe contar.

Bella odiava aquelas frases truncadas e vagas. Impaciente, passou as mãos pelos cabelos e soltou um longo suspiro de frustração. Estava assustada e confusa, mas também irritada. Não conseguia evitar a raiva quando tentavam jogar com ela, como aquele perseguidor misterioso estava fazendo.

Ela odiava o fato de que ele parecia saber muitas coisas sobre Edward e ficasse jogando isso na cara dela, deliberadamente, como se a estivesse incitando até ela ceder e abordar Edward. Sabia que o perseguidor estava brincando com ela e o pior de tudo era que ela se via tentada a se deixar manipular.

Estava cansada de não saber os segredos de Edward quando ficava evidente que ela era a única próxima a ele que estava nessa condição.

— Por que você continua me ligando, afinal? — Ela resolveu mudar de assunto.

— Porque eu posso, Isabella. Posso ligar para você e nenhum dos aparelhinhos eletrônicos de Rosalie será capaz de me encontrar.

Bella crispou os lábios. Tinha esperanças de que, ao mantê-lo por mais tempo na linha, os rastreadores de Rosalie conseguissem fazer exatamente isso. Mas aquele homem era muito mais esperto e preparado do que ela supunha.

— Quem é você, afinal?

— Sou alguém do passado de Edward, Isabella. — Foi a resposta dele. — Mas não se preocupe. Tenho planos de encontrá-la, em algum momento mais adiante. Enquanto isso, porque não estou contra você, vou lhe enviar algo que vai ajudá-la a descobrir quem é Edward Cullen.

— Eu não quero nada seu. Nenhuma ajuda. Nada. Você é um bastardo, filho da mãe e criminoso que sente prazer em assustar as pessoas.

— Você pode não querer, mas vai aceitar.

— Não, eu não vou.

— Minha cara — replicou o homem, o tom friamente paciente. —, você não vai perceber minha ajuda até que ela aconteça. Então, você não vai ter outra opção a não ser aceitá-la.

Bella estava pronta para revidar, mas ele encerrou a ligação. Furiosa, frustrada e assustada, ela atirou o celular numa poltrona e apoiou as mãos na mesa.

Como poderia resistir àquela ajuda se não tinha ideia de como ela viria?


N/A: Vocês estão muito quietinhas aqui no FFNet. Sei que um dos motivos é a leitura pelo celular. Mas, por favor, não deixem de comentar de vez em quando. :)

Ps.: Próximo capítulo será postado em 19-07 (domingo), com possibilidade de adiantamento. Depende do amor de vocês. :D