N/A: Fiquei mega surpresa com a resposta de vocês para os dois últimos capítulos! *-* Sério, muito, muito obrigada pelos comentários. Eles foram e são a luz do meu dia. De verdade.

Minha gratidão é tanta que eu vou postar dois capítulos seguidos. Sim, de novo. Farei isso por vários motivos, mas o principal é que vocês merecem. :)

Boa leitura!


CAPÍTULO VINTE E UM

Em um silêncio denso, enervante e perigoso, Bella e Edward voltaram para a mansão dele com Cyrus ao volante. Apesar da vontade secreta de Aro de presenciar a conversa deles, nenhum dos dois tinha uma personalidade indiscreta. Bella e Edward podiam estar ambos furiosos e irritados, um com o outro, e também com a situação em que se encontravam, mas eles nunca seriam protagonistas de uma cena em público. Isso ficava para pessoas estúpidas e celebridades sedentas de chamar atenção. Quanto a eles, manteriam sua discussão entre quatro paredes.

Por isso, ao chegarem à mansão, num acordo tácito, seguiram para o escritório de Edward.

Com a porta fechada, ocuparam lados opostos da sala. Era irônico que, não muito tempo atrás, tivessem compartilhado um momento tão arrebatador, tão íntimo, naquela mesma sala. Agora, porém, não havia espaço para nenhuma intensidade. Embora o que Edward e Bella sentissem fosse tão intenso quanto a paixão compartilhada dois dias atrás, o sentimento não era extasiante. Naquele momento, entre eles, havia espaço apenas para tensão, mágoa e incerteza, sentimentos que pairavam no ar como o aroma das camélias lá fora, mas que não era nem de longe tão prazeroso quanto o perfume das flores.

Bella foi a primeira a falar. Enquanto o esperava naquele lugar obscuro, tinha pensado muito em como começaria aquela conversa com Edward. Satisfeita com o que decidira, virou-se para fitá-lo e começou:

— Você me ouviu, sem julgar, quando eu precisei revelar meu passado. — disse Bella, lutando para que seu tom de voz refletisse a mesma imparcialidade de suas palavras. — Por isso,
vou conceder o mesmo benefício a você.

Os olhos de Edward endureceram, orgulho escurecendo-os.

— Eu não fiz aquilo esperando algo em troca. — Ele nunca tivera essa intenção, nem quando esperara que ela se abrisse. Nunca pensara em ser compreensivo pensando no momento em que teriam aquela conversa sobre seus negócios, sua vida clandestina. — Não quero que você se sinta obrigada a não me julgar apenas porque eu fiz isso.

— Não me sinto obrigada a nada, Edward. Eu quero conceder essa chance a você. Estou fazendo uma escolha, não retribuindo um favor. — Ela o fitou, o olhar determinado. — Quero ouvir o que você tem para dizer. Mas, por favor, seja completamente honesto. Não vou ser racional e compreensiva novamente. Minha tolerância para segredos termina aqui.

Edward considerou as palavras dela. Por um instante, no caminho de volta, imaginara que já havia perdido Bella. Embora, naquele momento, ela estivesse mais distante que a lua, ao menos ela estava disposta a ouvi-lo. Ele não podia estragar as coisas agora. Tinha uma última chance.

Por isso, faria seu melhor.

— Está certo. — Ele assentiu, respirou fundo, preparando-se. — Mas acho que a melhor forma de fazermos isso, a melhor forma de você garantir que saiba tudo, é você fazer as perguntas que deseja. Eu não vou mentir. Você pode me perguntar o que quiser e eu serei completamente honesto.

Bella o observou, pensando na proposta. Por mais furiosa que estivesse com ele, sabia que, senão no resto, ao menos podia confiar na palavra de Edward naquele momento. Ele não mentiria e, se fizessem aquilo seguindo sua sugestão, ele não seria capaz de selecionar os assuntos.

— Muito bem. — disse Bella, concordando com um assentimento de cabeça. Cruzando os braços diante do corpo, ela começou: — Que lugar era aquele em que estávamos?

— É um lugar onde faço parte dos meus negócios.

— A parte ilegal?

— Sim. — respondeu Edward, rigidamente, descobrindo-se incapaz de ler o tom ou a expressão dela. Estava habituado a lidar com impassibilidade. Sabia transpô-la quando necessário — a maioria das pessoas apenas aparentava ser difíceis de ler. Mas não conseguia saber a reação de Bella naquele momento.

Ela soava tão fria e controlada. Tão distante. Perguntava-se quanto disso era a promessa dela de se manter imparcial, e quanto disso eram os sentimentos dela falando.

Seja qual fosse a opção, Edward sentiu uma pontada de pânico. Não perdoaria a si mesmo se a perdesse para a vida que levava. Ele já tinha perdido demais.

— Bella, você poderia...?

— Eu faço as perguntas. — Ela o interrompeu e observou os olhos dele brilharem, contrariados e perigosos, diante de suas palavras. Sustentando o olhar, ela ergueu o queixo num desafio silencioso.

Edward retribuiu o olhar com uma expressão gelada.

— Continue, então.

Ela não tinha medo do tom ríspido dele. Mas o coração apertou-se mesmo assim. Havia tanta frieza entre eles naquele momento. E ela sabia que boa parte estava vindo de si mesma. Sempre imaginara que frieza implicasse ausência de sentimento e temia que esse fosse o caso ali.

Mas não, decidiu. Não era o caso naquele momento, pois, sob a frieza, tanto sua própria quanto a dele, podia sentir o calor borbulhante da própria irritação e dos sentimentos, agora conflitantes, que nutria por Edward. Sentir tudo isso machucava, mas, ainda assim, indicava que ainda sentia.

Buscando um equilíbrio, Bella continuou:

— Há quanto tempo você é... Há quanto tempo você faz isso?

— Desde que meu pai morreu, quando Anthony nasceu. — respondeu ele e, atendo-se àquela parte relativamente técnica, procurou esclarecer aquela história: — Os Cullen têm mantido negócios clandestinos há quatro gerações. Eu não comecei nada, apenas administro o que meu bisavô começou há cerca de oitenta anos, aqui mesmo, em Chicago.

— O que ele fazia?

— Contrabandeava bebida durante a Lei Seca. Ele tinha um negócio pequeno naquela rua em que nós dois estivemos. — Edward já ouvira aquela história muitas vezes, especialmente quando o pai ainda era vivo. Seu pai tinha imenso orgulho de suas origens e de como os negócios da família haviam sido originados. — Meu bisavô fez fortuna com o contrabando de bebidas, depois meu avô herdou os negócios clandestinos e deu continuidade a eles. Meu avô também foi quem colocou nossa família no ramo imobiliário, como fachada a princípio, mas a atividade se mostrou lucrativa e foi responsável por colocar o nome dos Cullen no mundo dos negócios legais.

Como ele mesmo, pensou Bella, os negócios dos Cullen transitavam em lados opostos. Ela sabia como era difícil lidar com naturezas contrárias a todo o instante.

Ela mesma tinha um passado e um presente que colidiam, e com os quais tinha de lidar, que enfrentar, constantemente.

— Quando chegou a vez do meu pai de assumir os negócios — Edward continuou. —, minha família já era conhecida e rica como ainda é hoje em dia. Meu pai continuou cuidando da
empresa, mas ele gostava mesmo dos negócios ilegais. Ele foi o responsável por envolver os negócios da família com tráfico de drogas e prostituição. Meu avô era contra, mas, depois que ele morreu, não havia muito que pudesse fazer para impedir meu pai de dar continuidade a essas atividades.

Bella não sabia como continuar, o que perguntar a seguir. Estava ocupada, tentando compreender a própria reação.

— Continue.

Ele hesitou, como se considerasse opor-se à demanda dela, mas, no fim, assentiu.

— Desde que meu pai morreu — Edward decidiu explicar. —, venho tentando encerrar algumas operações clandestinas que ele iniciou. Nossa relação com a prostituição, por exemplo. Já acabou. Não temos mais nenhum negócio nesse ramo.

— Por que… Por que você encerrou esses negócios? — quis saber Bella, sentindo-se, ao mesmo tempo, chocada e esperançosa com o que ouvia.

Edward se permitiu sentir uma pontada de alívio. Ela ainda parecia distante, mas a frieza começava a dar lugar a curiosidade. E se sentia satisfeito com as perguntas que ela escolhia fazer. Eram questionamentos com os quais ele já tivera que lidar e que, agora, estavam mais que esclarecidos para si mesmo. Dessa forma, podia dar as respostas honestas que Bella demandara.

Ele se preparou para responder.

— Eu também nunca concordei com essas atividades ilegais, que meu avô chamava de "mais modernas". Meu pai é que era o criminoso doentio da família. Ele gostava de ser um criminoso. Por isso cercou-se de todo o tipo de atividade ilegal que estava ao seu alcance. Meu pai tinha orgulho disso e gostava da sensação de poder que acompanha administrar esse tipo de negócio.

Ela o observou, analisando-o. Percebia o desprezo e a mágoa que Edward tinha pelo pai, mesmo quando ele apenas o mencionava. Mas, mesmo assim, ele optara por suceder o homem por quem nutria uma óbvia amargura.

— Por que você assumiu esses negócios ilegais se não concordava com eles?

— Porque eu quero encerrá-los. — A resposta, agora, vinha fácil para Edward, embora ele a admitisse apenas a um número limitado de pessoas. — Levei algum tempo para compreender que não concordava com os negócios da minha família. Durante muito tempo, permaneci ligado à pressão do meu pai, que sempre esperou que eu fosse como ele. Mas, quando me dei conta do que eu sentia e de como poderia mudar os negócios, resolvi assumir o lugar do meu pai para acabar de uma vez com isso. — Ele fez uma pausa. — Anthony não vai herdar um legado criminoso, Bella. Se um dia ele quiser ser meu sucessor, será como um empresário, não como um mafioso.

Ela assentiu, rigidamente, uma batalha interna instalando-se em seu interior. Estava furiosa com aquela situação, com o que ele escondera, mas também podia ver claramente como aquilo não havia sido fácil para Edward.

Bella tivera um pai que esperara muito pouco dela. Charlie sempre deixara claro a pouca importância que ela tinha para ele. Já Edward, ele tivera um pai que esperara tudo dele, mas que, assim como Charlie, nunca se importara com o que ele queria. Ainda, pensou Bella, nem o pai de Edward, nem Charlie, nunca haviam sido capazes de compreender, de ser, o que os filhos realmente precisavam.

Estava tendo problemas para lidar com o lado criminoso de Edward. Mas, no fundo, ela o compreendia. Talvez porque, antes de conhecer esse lado dele, tinha conhecido o homem separado dessa realidade. E, embora sempre percebera que ele tinha um lado obscuro, sabia que ele não se resumia aos próprios demônios. Antes de tudo o que descobria, ela tinha conhecido o Edward pai, com seus defeitos, mas com sua vontade de tornar-se melhor, consertar os próprios erros. Ela tinha conhecido o Edward homem. Um homem sério, mas charmoso e generoso, pelo qual ela se sentira atraída a princípio, e pelo qual, depois, ela havia se apaixonado.

Bella respirou fundo, espantando aqueles pensamentos. Precisava guardar as próprias emoções e descobrir tudo antes de começar a pensar e tomar decisões.

— A sua mãe sabe? — perguntou.

— Ela sempre soube, assim como Alice e todas as pessoas próximas a nós.

— Então, eu era a única completamente ignorante aqui?

— Bella, você é nova entre nós. Eu precisava ter certeza de que podia confiar em você, antes de lhe contar.

— Entendo. — Ela assentiu. — Pelo que vejo, não conquistei sua confiança, se fiquei sabendo das suas atividades de outra maneira que não por você.

— Como você ficou sabendo, aliás?

Ela o fitou.

— Foi a mãe de Anthony que me contou tudo isso.

— Miranda? — inquiriu Edward, perplexo. — Isso é impossível. Ela... Miranda está morta.

— Ela está bem viva, Edward. Viva e disposta a tirar Anthony de você. — Bella descruzou os braços e, sentindo-se inquieta, caminhou até a janela, observando o belo jardim lá fora. Curioso como as coisas permaneciam, calmas e belas, mesmo quando sua vida se tornava uma bagunça feia. — O que aconteceu entre você e Miranda, aliás? Ela disse que você tirou Anhtony dela.

— Eu tirei, sim.

Bella se virou para fitá-la.

— Você foi capaz…

— Por favor, não continue. — Ele disse, pela primeira vez com a mesma frieza de Bella. — Posso ser acusado de muitas coisas, mas não de ser cruel por afastar Anthony da mãe. Não sei o que Miranda disse a você, mas tenho certeza de que ela mentiu.

A fúria dele era genuína, percebeu Bella. Edward não hesitara em admitir coisas ruins em relação a si mesmo, mas, quando o assunto envolvia Anthony, ele não apenas demonstrava fúria por ser acusado de cruel, como negava a acusação. Essa era a única coisa que ela estava negando até o momento.

— Miranda disse que precisa do Anthony.

Ele fez uma careta.

— Claro que ela precisa. É assim que se consegue dinheiro de um milionário.

Bella se permitiu uma pontada de alívio. Sabia, no fundo, que Miranda era uma mulher ambiciosa, traiçoeira, mas tivera dúvidas se isso era sua intuição falando, ou a insegurança que sentia por ter estado diante da mãe biológica de Anthony.

— Foi o que ela fez, então? Ficou grávida para poder pegar seu dinheiro.

— Sim. — Edward assentiu, rigidamente, e passou as mãos pelos cabelos. Lembrar-se da época em que conhecera Miranda era uma confusão. Muitas coisas, coisas confusas e dolorosas, tinham acontecido nos meses antes de Anthony nascer. Ele tinha conhecido uma mulher que só pensava em seu dinheiro e, embora nunca tivesse sentido nada por Miranda a não ser uma breve atração física, tivera que amargar o fato de ter engravidado uma mulher interesseira. Seu pai mostrara-se superior e tripudiara sobre o que ele chamava de a estupidez do filho. Logo depois, o pai de Edward havia morrido e ele tivera de assumir os negócios da família, enquanto tentava conter Miranda e cuidar do filho que ainda estava por nascer.

Ficava tenso e exausto só de lembrar daquela época.

Bella deu um passo à frente, chamando sua atenção.

— Fale-me sobre sua história com Miranda.

— Eu a conheci na noite de inauguração da Eclipse. Senti-me atraído e nós tivemos um relacionamento durante algum tempo. Depois de mais ou menos um mês, ela veio me dizer que estava grávida e que estava disposta a negociar.

O estômago de Bella revirou, enojado e revoltado, e ela levou uma mão à barriga na esperança de acalmar a si mesma.

— Como assim negociar?

Ele moveu os ombros.

— Eu me casava com ela e ela não fazia um escândalo sobre eu a abandonar. Ela queria o meu dinheiro. — Ele emendou a explicação, mas imaginava que aquilo já estivesse subentendido.

— Você não casou com ela.

— Maldição, não. Eu não queria casar, não queria nem ser pai, mas eu sabia que a criança era minha responsabilidade. Então, convenci Miranda a vir morar aqui, enquanto estivesse grávida.

— E ela aceitou, simples assim?

— Ela não tinha escolha.

— Mas e quanto a ameaça dela?

Edward ergueu os olhos para ela. Seu olhar estava sério, frio e resoluto.

— Ninguém me ameaça, Bella. — disse em voz baixa. — Nunca.

Bella respirou fundo e assentiu lentamente. Depois de tudo o que descobrira hoje, sabia o que isso significava.

— Você fez Miranda ficar por causa do Anthony. — disse ela, após algum tempo.

— Sim. — Ele observou o jardim lá fora, sem realmente vê-lo, os olhos distantes, naquela época. Essa, talvez, tivesse sido a única escolha certa que fizera. — Quando percebeu que eu não cederia, Miranda assinou um contrato bem amarrado, que dizia que ela tinha de ficar aqui enquanto estivesse grávida. Uma vez que o bebê nascesse, ela devia decidir se faria parte da vida da criança ou não. De um jeito ou de outro, ela teria que deixar esse lugar quando não estivesse mais grávida.

Confusão estampou os olhos de Bella.

— Então você a separou do Anthony.

Ele a fitou, furioso.

— Miranda não queria o Anthony, Bella. Ela queria o meu dinheiro. — replicou. — Sabe o que ela escolheu, quando ele nasceu?

Bella crispou os lábios.

— Ela foi embora.

Ele assentiu, cerrando as mãos em punho e voltando a olhar através da janela.

— Ela não queria o Anthony. — repetiu.

— O que aconteceu quando ela foi embora? — quis saber Bella. — Você pensou que ela estava morta.

— Sim. Ela foi embora dois dias depois de o Anthony nascer. Seis meses depois, eu soube que ela tinha se envolvido com um chefe do crime em Nova York e acabou sendo assassinada. — murmurou ele, tornando-se pensativo agora.

Miranda havia forjado a própria morte, concluiu Edward. Devia ter feito isso para tentar algo contra ele. Só não entendia como ela conseguira confiança para fazer isso. Até onde sabia, o poder dela era nenhum diante dele. Mas o modo como ela abordara Bella, claramente desafiando-o, demonstrava que estava mais confiante e contava com mais recursos do que os que tinha sete anos atrás.

— Miranda disse mais coisas a você, Bella? — Edward quis saber, esquecendo-se da regra que ela impusera sobre ele não fazer perguntas. — Ela contou algo além do que discutimos até agora?

Bella não se importou em quebrar as regras. Imaginava que sua resposta fosse importante.

— Miranda disse que a tarefa dela era me procurar e revelar os seus segredos. Ela está trabalhando com a mesma pessoa que vem me passando aqueles telefonemas. Ela disse que o nome dele — ou o apelido — é Russo.

— Russo?

— Você o conhece?

Os olhos dele escureceram.

— Não pessoalmente. — respondeu. — Ele vem me causando problemas no que diz respeito à Eclipse. — Edward fez uma pausa, considerando a possibilidade de poupá-la da informação sobre os assassinatos. Mas, no fim, lembrou-se do ultimato dela e decidiu-se por contar tudo: — Russo é responsável pela morte de mulheres que frequentam a Elipse. Estamos tentando pegá-lo há cerca de três meses.

Bella levou uma mão ao coração.

— Um assassino?

Edward assentiu.

— No mundo em que vivo, tenho que lidar com esse tipo de coisa. Isso faz parte da minha vida.

Ela considerou as palavras. Assassinato, pensou. Tinha vivido esses anos todos atormentada pela lembrança de tirar uma vida. E agora se via relacionada a um homem que lidava com aquele assunto numa base diária.

Naquele momento, a reação quase despreocupada que Edward tivera quando ela lhe contara sobre seu passado fazia mais sentindo. Ele não tinha ficado surpreso, nem tão chocado com a revelação quanto Bella esperara.

Edward estava habituado aquilo. Talvez, ele até mesmo...

Ela abraçou a si mesma. Incapaz de se conter, encarou-o e perguntou:

— Você já matou alguém?

Ele sustentou o olhar, fitando-a nos olhos quando respondeu.

— Já fui responsável, direta ou indiretamente, pela morte de vinte e uma pessoas.

Bella fechou os olhos e engoliu em seco.

— Isso é demais. — disse ela, gesticulando com as mãos, como em rendição. — Eu não consigo ouvir mais nada. Eu… preciso ficar sozinha. Preciso de um tempo.

Edward sentiu uma onda de pânico invadi-lo. Fora estúpido. Tinha tentando evitar exatamente isso, mas falhara miseravelmente. Agora, estava prestes a perder Bella. Estava prestes a vê-la se afastar da pior maneira que poderia acontecer.

Ele deu um passo à frente, ergueu a mão, mas, antes que pudesse tocá-la, ela se esquivou.

— Bella, por favor, as coisas não precisam mudar. Sou o mesmo homem desta manhã. Você não precisa ter medo de mim.

— Não estou com medo. Só estou confusa e preciso pensar. — replicou ela, afastando-se e andando pela sala. — Isso é muito sério, Edward. A máfia. Você é da máfia! Um criminoso, que faz coisas ilegais. Que mata pessoas.

— Eu já disse que não sinto orgulho disso. Mas também não posso fugir dessa parte da minha vida. Não posso evitar. Não agora, pelo menos. — Ele a observou. — Eu sei que você está
decepcionada e lamento por as coisas terem acontecido dessa forma, mas não tome nenhuma atitude drástica. Por favor, pense antes de decidir qualquer coisa.

— Por quê? — replicou ela, o olhar perigoso. — Você tem medo que eu vá à polícia e que denuncie você?

— Porque eu não quero perder você, Bella. Não sob essas circunstâncias.

— Você devia ter sido honesto comigo se não queria me perder.

— Eu estava com medo! — replicou ele e observou a mudança nos olhos dela diante de sua admissão. Tomando isso como uma vantagem, continuou: — Tenho medo de perdê-la, Bella.
Quando você me contou sobre seu passado, o modo como o crime que você acha que cometeu ainda a afeta, sua culpa por ter matado alguém. Eu sabia que não seria fácil para você quando eu contasse sobre meus negócios. Sabia que você teria que lidar com seus próprios valores. Por isso, adiei o momento de termos essa conversa. Cometi um erro ao decidir atrasar as coisas, mas isso é algo que não posso mais mudar.

Novamente, Bella sentiu o coração dividido. Mas, diante do que ele dissera, escolheu semicerrar os olhos e questionar:

— O crime que eu acho que cometi?

Edward passou as mãos pelos cabelos. Não percebera que dissera aquilo. Mas, agora que o fizera, explicou sobre sua investigação, confessou que já sabia sobre o passado dela, quando Bella lhe contara.

Bella ouviu tudo em silêncio, sem esboçar uma única reação, ciente de que seu aparente
distanciamento acrescentava uma nota de desespero no tom de voz dele. Mas sentia-se furiosa demais para se importar com isso.

Porém, quando chegou o momento de Edward contar sobre a conversa que tivera com Tanya, Bella esqueceu seu distanciamento e o interrompeu, perdendo o controle.

— Você investigou a minha vida e resolveu consertar meus problemas sem me consultar, sem contar a verdade para mim?

— Eu estava tentando ajudar você, Bella.

— Pelas minhas costas! — Ela exclamou, gesticulando, indignada. — Você devia ter me dito o que estava fazendo. Isso envolvia a mim, Edward. — replicou ela, furiosa, andando de um lado a outro na sala.

Edward crispou os lábios. Não perdia o controle com frequência, nem alterava a voz ou demonstrava seu temperamento, mas estava chegando ao próprio limite.

— Você não sabe como as coisas funcionam para mim. — disse, entredentes, buscando ele mesmo manter o mínimo de tranquilidade. — É importante manter sigilo numa operação como essa.

Bella se virou para fitá-lo, a expressão não apenas furiosa, mas perigosa, ameaçadora.

— Nunca mais interfira na minha vida sem o meu conhecimento, Edward. Eu não sou uma maldita operação. — Ela deu um passo à frente, na direção dele. — Você pode ser um mafioso, ter poder, ter um mundo aos seus pés, mas você não vai brincar de Deus comigo. Estou farta de homens influenciando no rumo da minha vida! Governo o meu próprio mundo agora. Se algum dia você me ajudar, vai ser porque eu permiti, nada menos que isso.

Os olhos dele escureceram, ameaçadores, as pupilas dominando o verde lacustre. Devolvendo o olhar perigoso, ela se preparou para a batalha que via brilhar ali.

Um silêncio agitado, pesado e furioso permaneceu entre eles, enquanto Edward e Bella encaravam um ao outro. O ar recendia ao orgulho e à fúria de duas personalidades fortes, que se
confrontavam naquele momento, testando uma a outra.

Mas, embora houvesse orgulho envolvido, após um longo tempo pensando, Edward sabia que não lhe restava muito mais a não ser admitir o próprio erro.

— Você está certa. — Ele disse, afinal, em um tom rígido, mas também de rendição. — Eu devia tê-la consultado. Não devia ter interferido na sua vida. Também devia ter sido honesto com você há muito tempo. Sobre tudo.

Bella arqueou uma sobrancelha, a expressão meio surpresa, meio cética. Esperava que ele demorasse a ceder — ou, talvez, tivesse pensado que ele não admitiria que errara. Por isso, precisou de algum tempo para decidir a própria reação.

Quando isso aconteceu, ela ficou aliviada. Um pouco triunfante, também, mas, sobretudo, aliviada.

Sentindo-se exausta, ela deixou os braços caírem ao lado do corpo.

— Vou precisar de tempo para lidar com essas revelações, Edward. Acho... Acho que é melhor nós darmos um tempo.

A expressão dele tornou-se perdida.

— Você está rompendo comigo?

— Eu não disse isso. Só preciso de um tempo. — replicou Bella. — Vou passar algum tempo no meu apartamento. — avisou ela e começou a caminhar até a porta, mas Edward segurou seu braço.

— Bella, por favor.

Ela fechou os olhos, respirou fundo.

— Me solte. Preciso ir. Preciso pensar. Longe de você.

Edward contraiu o maxilar, sentindo-se desesperado, miserável e derrotado. Mas, no fim, assentiu e a soltou.

— E quanto a Anthony? — Ele quis saber.

— Meus sentimentos por Anthony não mudaram. — Nem o que sinto por você, pensou ela. — Mas eu estou confusa e preciso de um tempo para assimilar e compreender tudo o que conversamos. — disse e, sem mais, seguiu caminho para fora da sala.

Antes de sair, parou na soleira da porta e virou-se para fitá-lo.

— Por favor, não me procure. Nós nos falaremos quando eu estiver pronta.

Ele contraiu o maxilar, a expressão endurecendo.

— Se é assim que você quer.

— É, é assim que eu quero. — Ela assentiu, rigidamente.

— Não há nada que eu possa dizer para convencê-la a ficar? — Edward tentou uma última vez.

Ela o fitou.

— Você devia ter tentado a verdade, Edward. Mas agora é tarde para isso.


N/A: Digam-me o que acharam, mas sem combo de comentários! Por favor. :)