N/A: Aí vai mais um. :)

Boa leitura!


CAPÍTULO VINTE E DOIS

Angela chegou em casa murmurando um xingamento já no corredor de seu andar. Fazia semanas que a fechadura de sua porta estava com defeito. A chave sempre emperrava e precisava de uma manobra especial — que envolvia forçá-la para cima e girá-la — para funcionar. Mas Angela sempre se esquecia do modo certo de executar o truque e, como consequência, passava sempre uns dez minutos tentando abrir a própria porta.

Esse tipo de problema já teria sido resolvido se Bella ainda estivesse vivendo ali. A amiga era sempre aquela que se lembrava de consertos, reparos, manutenções e essas coisas relacionadas à administração de um apartamento. Não era à toa que Bella fosse uma organizadora de casamentos tão boa — ela tinha memória para detalhes, tanto quanto tinha criatividade para decorar festas. Angela só tinha criatividade. Sua memória para algo além de bolos e doces era medíocre.

Quando, finalmente, ela conseguiu entrar no apartamento, largou a chave no aparador e seguiu para a cozinha, descarregando o conteúdo de sua bolsa reciclável.

Para aquela noite, como o noivo estava de plantão no hospital, fazendo algo útil e ajudando a salvar vidas, e a melhor amiga agora morava na parte nobre da cidade, vivendo o próprio conto de fadas, Angela planejara uma noite de inutilidade em casa, entupindo-se de rocambole que ela fizera no trabalho e vinho que ela comprara na sua delicatessen favorita.

Aquela seria uma noite solitária.

Resignada, Angela deixou sua refeição na bancada da cozinha e foi para o quarto preparar o próprio banho.

Quando passava em frente ao quarto de Bella, porém, ouviu um barulho do lado de dentro e resolveu investigar. Ao abrir a porta, encontrou a melhor amiga sentada na cama, observando a televisão ligada com um olhar distante.

— Bella?

Ela fitou a amiga. Não tinha percebido que Angela chegara, nem que ela entrara no quarto.

— Oi, Angie. — Bella tentou um sorriso, colocando a televisão no mudo.

Angela se aproximou, pouco convencida com o sorriso que a outra esboçara, e sentou na cama. Ela observou Bella. Uma olhada na amiga e sabia que havia algo errado.

— O que aconteceu? Por que você está aqui?

Bella moveu os ombros.

— Eu precisava ficar sozinha.

— Você e Edward brigaram?

— Não foi uma briga. — refletiu Bella, abraçando as pernas dobradas e apoiando o queixo nos joelhos. Ela fitou a televisão, agora emudecida, mas não estava prestando atenção ao que passava ali. — Eu descobri certas coisas sobre Edward — coisas sérias — e precisava de algum tempo para processá-las.

— E você já conseguiu? Processá-las, quero dizer.

— Não. — Bella meneou a cabeça, os olhos distraídos, distantes. — Ainda me sinto confusa. Como se não compreendesse minha própria reação.

Angela segurou a mão de Bella, encontrando os olhos dela quando ela a fitou.

— Quer conversar sobre essas coisas sérias? — propôs. — Estou aqui para isso, se você quiser. Ou posso simplesmente ficar aqui, em silêncio, com você. Só me diga o que você quer fazer e nós faremos.

Bella sorriu em agradecimento. Ela e Angela não mantinham segredos uma da outra, lembrou-se. Levara bastante tempo até confiar na amiga o suficiente para lhe contar sobre seu passado e, mesmo quando resolvera contar, Bella não tivera garantias de que atitude Angela tomaria.

Mas a amiga se mostrara compreensiva, solidária até, demonstrando a mesma lealdade silenciosa que Edward demonstrava quando dizia que acreditava que Bella se tornara uma pessoa melhor e, por isso, merecia uma segunda chance.

Bella espantou o pensamento sobre Edward. Não queria pensar nele naquele momento. Muito menos queria pensar na compreensão dele e o que havia por trás disso.

Ela fitou a amiga.

— Obrigada, Angie. Eu quero conversar com você.

— Fico feliz de ouvir isso, pois eu fiz um rocambole clandestino hoje, na PW, e tinha intenção de devorá-lo sozinha. Mas, agora que você está aqui, nós poderemos dividir as calorias.

— Parece maravilhoso. — declarou Bella e levantou-se.

Revelações criminosas e rocambole clandestino, pensou. Que dia!

— ~ —

Meia hora depois, com a sobremesa completamente desaparecida e mais da metade da garrafa de vinho esvaziada, Bella contou à melhor amiga sobre o que acontecera durante suas últimas semanas na mansão, até chegar àquela tarde, quando descobrira a verdade sobre Edward e as atividades que ele exercia em nome família Cullen no mundo do crime.

Angela ouviu tudo em silêncio, apenas observando as reações e palavras de Bella, até que a narração da outra chegou ao fim.

Quando terminou, Bella bebeu um longo gole de vinho, esvaziando sua taça, e fitou Angela com um misto de culpa e determinação no olhar.

— Eu sei que pode soar estranho, mas, durante o tempo que fiquei aqui, pensando, eu me dei conta de que não estou irritada com Edward pelas coisas que descobri sobre ele. Fiquei irritada porque ele não me contou antes, porque eu tive que descobrir através da ex-namorada dele. Mas isso é até onde minha irritação vai. — Ela murmurou e fitou as próprias mãos. — Você não acha… Não acha que isso é errado?

Angela recebeu a pergunta arqueando uma sobrancelha.

— Você está me perguntando se eu acho errado você não condenar o que Edward é porque o ama mais que isso?

Bella abriu a boca para replicar, mas fechou-a novamente, tentando organizar os próprios pensamentos. Sim, era exatamente assim que se sentia em relação àquela situação com Edward. Mas não conseguia admitir isso a si mesma.

— É só que… parece errado que eu reaja com indiferença.

Angela fez uma careta.

— Sim, é completamente errado não ter a reação que a sociedade espera de você. Faz muito sentido você renunciar à sua felicidade, abrir mão do homem que ama, só porque há quem diga que o que Edward faz é errado. Diga-me, ele alguma vez deu motivo para você temê-lo?

— Não. Nunca senti medo de Edward. Sempre soube que ele era perigoso, mas também sempre soube que ele nunca faria alguma coisa comigo. Simplesmente sei que ele não faria.

Angela assentiu, terminando o vinho.

— Não sei por que você pensa tanto, Bella. — disse ela, após algum tempo. — Não sei nem porque você acha que tem dúvidas.

— Como assim?

Angela a fitou, séria.

— Ok. — disse, sentando-se na cama com as pernas cruzadas em posição de ioga. — Vou contar uma história a você. — informou ela, a expressão determinada. — Há cerca de cinco anos, eu conheci essa garota. Ela era legal, inteligente, leal e muito empenhada em ser alguma coisa na vida. Nós nos tornamos amigas super rápido. Ela trabalhava durante o dia, enquanto estudava à noite. De novo, empenhada em ser algo, em fazer algo relevante. Eu a admirava por isso e gostava de tê-la como amiga. Nós nos dávamos bem, como irmãs, tanto que começamos a morar juntas. Foi então que ela resolveu me contar um segredo que ela tinha. Um segredo obscuro — era como ela chamava. Pois bem, ela me contou esse tal segredo e, quando o fez, disse que entenderia se eu me afastasse. O tal segredo era mesmo obscuro, mas você sabe o que eu fiz?

— Você não se afastou.

— Não, não me afastei. — Angela assentiu, gesticulando com sua taça. — Eu podia, algumas pessoas até mesmo diriam que eu devia, mas eu não quis fazer isso. Não quis. Meu coração não acreditava que aquela garota, uma pessoa incrível, que eu amava como uma irmã e que eu acreditava ser uma pessoa admirável, fosse ruim. Do modo como eu via, havia um antes e um depois para ela. Dois lados da mesma pessoa. Por isso, eu escolhi ficar ao lado dela, continuar aquela amizade. Pouco tempo depois, você sabe o que aconteceu?

— Eu apresentei você ao Ben.

— Exato. Você me apresentou ao homem da minha vida. Imagine! Imagine o quanto eu teria aberto mão da minha própria felicidade se tivesse me afastado de você. Se tivesse seguido a opinião dos outros, dado ouvidos ao que os outros iam pensar, ao invés de ouvir meu coração. Talvez eu não fosse tão feliz agora. — Ela fez uma pausa, pensativa por um instante. Então, estendeu a mão para tocar a da amiga. — É uma questão de escolha, Bella. Uma escolha entre o que os outros esperam de você e o que você realmente deseja, no seu coração. Eu sei porque você está reticente em relação a Edward. Você tem os seus valores e, uma vez que já viveu tendo que lidar constantemente com a opinião dos outros, sei que isso ainda afeta você. Mas faça um favor a si mesma e esqueça o resto. Pense, mas pense dando ouvidos ao que você realmente sente. No fim, isso é o que vai lhe trazer felicidade.

— ~ —

Com os conselhos de Angela mesclando-se aos seus próprios pensamentos e sentimentos, Bella permaneceu no apartamento que dividia com a amiga, sem entrar em contato com Edward, durante as duas semanas seguintes. Ele também não a procurou, como ela solicitara, e essa atitude dele tanto a deixava aliviada quanto aflita.

Com a sala de estar imersa nas luzes do sol poente, ela ocupou um lugar no parapeito da janela e observou o céu de verão, pensativa. Não entendia o que estava sentido. Não entendia como ainda podia estar tão dividida, mesmo depois de tudo o que ouvira, depois do que já pensara sobre as revelações de Edward.

Imaginava que devesse estar furiosa. E estava. Também imaginava que devia se sentir traída — afinal, ele não apenas escondera coisas sérias dela, mas também agira, supostamente, em seu benefício, mas sem consultá-la.

Ainda assim, mesmo imaginando isso, mesmo sentindo isso, continuava dividida.

Ela amava Edward. Apesar de tudo o que descobrira, ela ainda o amava e não parava de pensar no que ele dissera sobre ter medo de perdê-la.

Mas ele não havia dito que temia isso porque a amava também.

Ela devia ter esclarecido aquilo, pensou Bella. Devia tê-lo feito revelar os próprios sentimentos, quando tiveram aquela conversa uma semana atrás. Mas, descobriu, não teria sido capaz de fazer isso. Nunca conseguiria ter descoberto os sentimentos, os reais sentimentos de Edward, durante aquela conversa. Não queria descobrir sob aquelas circunstâncias. Se ele não a amasse, não estava pronta para lidar com mais essa decepção. Se ele a amasse, não queria arrancar a confissão em meio a uma discussão.

Por isso, precisara de algum tempo para si mesma. Algumas pessoas diriam que ela estava pensando demais. Talvez, estivessem certas. Mas, se isso era verdade, ela pensava demais porque sentia demais.

Sentia muito mais do que esperara, do que previra, quando topara ao acaso com Edward, por intermédio de Anthony. Ela não estava em busca de um caso, nem de romance, muito menos de um envolvimento tão forte quanto o que desenvolvera com Edward, e também com Anthony, quando os conhecera meses atrás.

Mas tinha encontrado tudo isso mesmo assim.

O problema era que esse amor, esse sentimento intenso, no que dizia respeito a Edward, vinha acompanhado de um enorme porém.

Edward era um homem com um lado obscuro, um com o qual ela não sabia como lidar. Imaginara, quando descobrira sobre o lado criminoso dele, um lado que entrava em choque com uma parte dela, que nunca fosse capaz de aceitá-lo.

Mas o tempo, como acontecia, havia passado e, agora, ela já não se sentia mais tão incapaz de compreender.

Ela seria capaz de aceitar aquilo, de aceitar aquele lado de Edward?, perguntava-se. Seria capaz de aceitar por amor?

Bella nunca se imaginara — nem mesmo se imaginava — como a protagonista de um romance bobinho, uma protagonista completamente cega de amores pelo personagem masculino. Não se imaginava fechando os olhos para os defeitos dele apenas por um amor que beirava a devoção.

Ela não estava cega. Enxergava, e enxergava claramente. Tudo.

Mas, no fim, Angela tinha razão, percebeu. Não era uma questão de fechar os olhos, de confundir amor com devoção, ou cegueira.

Era uma questão de escolha.

Edward podia ser um criminoso, estar envolvido com coisas que a deixavam reticente, mas ele não era só isso. Ela o conhecia, sabia tudo o que ele era, inclusive o sentimento que tinha por ele.

No fim, ela não poderia separar as duas coisas e ficar só com a parte boa. Não havia escolha aqui. Mas havia escolha no que dizia respeito entre escolher o que sentia e o resto.

Levantando-se, ela pegou sua bolsa e deixou o apartamento, decidindo-se.

Não havia garantias. Mas esperava que, no fim, sua escolha fosse suficiente.

— ~ —

Edward havia dedicado aquele dia de sábado para o filho. A proximidade que haviam desenvolvido nos últimos meses já era algo sólido e natural. Mesmo que ainda houvessem momentos de estranheza, eles se adaptavam rapidamente a uma nova atividade e desconstruíam quaisquer desconforto, transformando-o em naturalidade.

Eles passavam bastante tempo juntos. Era o que acontecia quando Bella estava por perto, mas fazia duas semanas que ela voltara para o apartamento dela, de modo que o tempo que tinham, agora, era apenas dos dois. Isso não impedia nem Edward, nem Anthony, de sentir a falta dela, mas eles tinham sua própria relação também.

Depois de uma partida de futebol, um demorado banho para Anthony e uma ducha rápida para Edward, pai e filho reuniram-se na sala de estar para várias partidas de jogo de tabuleiro. Jogos de tabuleiro, Edward acabou por descobrir, era a atividade de que Anthony mais gostava e, embora ele tivesse pagado pela maior parte daqueles jogos, Edward não sabia que o filho possuía tantas caixas deles.

Mas o fato é que eles passaram o resto da manhã jogando partidas de tantos jogos que Edward não conseguia lembrar o nome da metade deles. Anthony, porém, parecia conhecer as regras de todos eles e, para surpresa e divertimento de Edward, tinha muita paciência para ensinar as regras ao pai.

Ou, pensou Edward, talvez o filho quisesse tanto jogar com ele que não se importava de repetir várias vezes a mesma explicação ou corrigir o pai quando Edward fazia algo errado. Perceber isso ainda o aborrecia, mas começava a olhar esses erros como acertos, agora que estava mais próximo do filho.

Quando enjoou dos jogos de tabuleiro, Anthony decidiu que queria assistir um pouco de televisão, com o pai, no quarto de Edward. Foi durante o episódio de um desenho com uma família de porcos falantes que Anthony abordou o pai sobre algo que o estava incomodando:

— Pai, por que a Bella não fica mais aqui, com a gente?

Edward observou os bonecos animados na tela, sem prestar atenção, enquanto acariciava os cabelos do filho e pensava numa resposta.

— Porque ela precisa de um tempo para ficar sozinha. Por isso ela voltou para o apartamento dela.

— E ela não podia fazer isso aqui? Às vezes, eu fico sozinho no meu quarto. Ninguém entra lá.

Edward sorriu, por um instante, acalentado pela lógica infantil.

— Bella precisava de outro tipo de solidão, Anthony. — explicou, tentando ser o mais sincero possível numa linguagem simples, que o filho compreendesse. Anthony podia ter seis anos, mas havia coisas que ele podia saber, coisas que Edward não precisava esconder do filho. — É uma coisa de adultos, mas ela precisava ficar longe de mim, porque nós tivemos um desentendimento.

— O que é isso?

— Uma briga. — explicou Edward. — Bella e eu brigamos.

Anthony ficou em silêncio um instante. Então, desencostou-se do pai e sentou na cama de modo a fitar Edward.

— Você gritou com a Bella, pai? Ela ficou triste por causa disso e foi embora?

— Não, claro que não. Eu jamais gritaria com a Bella ou com você. — replicou Edward, o tom firme, mas ameno. — Mas eu disse algumas coisas a ela, coisas que, sim, deixaram a Bella triste.

O menino considerou a confissão do pai.

— E você pediu desculpas para ela?

Edward pensou sobre aquilo e ficou surpreso quando se deu conta de que a resposta era negativa. Tinha admitido que errara, mas não chegara a pedir desculpas à Bella.

— Eu não pedi desculpas, Anthony. — admitiu Edward e estava prestes a continuar, mas o filho o interrompeu:

— Posso falar com a Bella, pai?

Edward arqueou uma sobrancelha, curioso com a solicitação do filho e o que o motivara.

— Por que você está pedindo isso?

— Porque eu quero dizer para a Bella que você nunca vai gritar com ela e que você sente muito, muito mesmo por ter deixado ela triste. Quero ajudar você, pai.

Edward sentiu uma potente onda de calor e emoção atravessá-lo. Seu filho, com uma lógica tão simples, tão infantil, era capaz de tocá-lo profundamente e fazê-lo se sentir. Podia se arrepender de muitas coisas, mas a presença de Anthony em sua vida era uma constante lembrança de que as coisas podiam ser melhores. De que ele podia torná-las melhores.

— Obrigado, amigão. — disse Edward, beijando o topo da cabeça do filho. — Eu aviso você quando precisar da sua ajuda, ok?

Anthony assentiu e, para a surpresa do pai, abraçou-o com força.

— Não fica triste, pai. A Bella vai voltar. Eu sei disso.

— ~ —

Logo depois da conversa entre pai e filho, eles voltaram a assistir televisão e Anthony acabou cochilando. Edward aproveitou isso para retornar uma ligação que recebera mais cedo, mas, quando encerrou a conversa, percebeu que não tinha mais trabalho a resolver. Tinha, realmente, limpado a agenda para passar o domingo com Anthony. Mas, agora que o filho estava dormindo, ele se via numa situação em que não se encontrava há muito tempo: sem nada para fazer.

Naquele momento, mais do que nunca, desejou que Bella estivesse ali. Seria ótimo não ter nada para fazer com ela. Mas, no momento, Bella estava mais distante que a Lua, pensou Edward e foi ao bar de seu escritório servir-se de um pouco de vinho.

Tinto dessa vez, decidiu, enchendo a taça. A casa estava silenciosa, o dia ensolarado entrava pelas janelas altas, preenchendo os cômodos e corredores com um brilho cálido e dourado, também calmo, de alguma forma. Ele e o ambiente estavam no humor para uma taça de vinho tinto.

Ele bebeu, observando a extensa propriedade ao redor da casa. Não havia brisa soprando, de modo que até mesmo a densa floresta às costas da mansão estava parada e silenciosa.

Tinha sido exatamente por causa daquela calmaria que Edward decidira construir sua casa ali, naquele lugar. Ele não tinha Anthony na época, mas, agora que parava para pensar, aquele era o lugar ideal para uma criança crescer. Havia espaço suficiente lá fora para o filho correr e gastar energia, como eles tinham feito de manhã, quando jogaram futebol naquele mesmo gramado que Edward observava através das janelas. No lado de dentro, a casa tinha cômodos amplos, equipados e preparados para contribuir com a educação de Anthony, assim como sua diversão.

Edward nunca tinha parado para pensar nisso, mas essas características o faziam lembrar-se da casa onde ele fora criado. A Mansão dos Cullen, onde Esme e Carlisle agora viviam, também tinha um terreno amplo e cômodos onde ele e Alice haviam sido educados. Era um lugar rígido, Edward não negava, mas também possuía um toque caloroso, que a mãe sempre adicionara ao ambiente.

Era esse calor, pensou Edward, que faltava, agora, em sua casa. Saindo do escritório, ele atravessou o corredor, observando como era tudo elegante e impecável — um tanto frio, acrescentou. Sem querer, percebeu, tinha mergulhado sua casa na mesma rigidez que o pai mergulhara a mansão, quando ele era criança.

Sempre que o pai de Edward estava em casa, o clima na Mansão era formal, sério e, para um garoto de seis anos, assustador. Ele detestava sua casa nessas ocasiões e, por isso, optara por se mudar quando julgou que a mãe estava feliz e não precisava mais dele.

Edward tinha construído sua nova casa jurando a si mesmo que as coisas seriam diferentes quando chegasse a hora de ter sua própria família. Mas, percebeu, em algum momento antes de Anthony nascer, essa promessa tinha se perdido.

Talvez tivesse algo a ver com o seu relacionamento confuso e conturbado com a mãe de Anthony. Certamente, o fato de que, quando descobriu que seria pai, ainda não estivesse preparado para isso. Mas, acima de tudo, ele não cumprira a promessa por causa de si mesmo. Porque não tentara curar-se completamente do passado que, ele sabia, ainda o atormentava.

Como podia cuidar de Anthony, amá-lo corretamente, se ele ainda era uma bagunça cheia de mágoa, pesar e fúria pelo que fizera?

Ele não se achava digno de desejar o amor do filho, alguém tão inocente e feliz. Por isso, colocara todas aquelas horas de trabalho, reuniões e chamados de última hora entre si mesmo e Anthony.

Mas, agora que parava para pensar, esse medo quase parecia uma bobagem. Nem Anthony, nem ele, mereciam sofrer daquele modo.

Sem perceber, Edward se viu na sala de música, diante do piano de calda que costumava tocar incessantemente quando era jovem, na esperança de esquecer os problemas com seu pai. Agora, raramente tocava. Nem mesmo em ocasiões especiais, pois, após suas constantes recusas, todos haviam parado de pedir que tocasse.

Ele passou os dedos sobre as teclas, o gesto distraído. Retomar a música parecia uma ótima forma de superar o passado, pensou. Deixando a taça de lado, sentou-se diante do piano e, sem pensar muito, tocou a primeira coisa que lhe veio a mente.

Com fluidez e suavidade, como sempre acontecia, a música surgiu na sala como se fosse uma parte dele mesmo. Tocar piano sempre tinha sido natural para Edward, como respirar. E, embora tocar as teclas e fazer surgir uma melodia envolvente exigisse grande habilidade, ele fazia isso sem pensar muito no que fazia. A música estava sempre dentro dele, pronta para ser transposta para o piano e alegrar, emocionar ou quaisquer que fossem os sentimentos que desejasse transmitir quando tocava.

Ele teria sido um grande pianista, sabia disso, sua família sabia disso, mas o pai jamais quisera ouvir falar de seu filho seguir uma carreira como músico. Não, seu pai queria que ele fosse como ele: frio, distante e um criminoso. O pai tinha matado seus sonhos, enterrado-os tão fundo que Edward até mesmo havia se esquecido deles, até que não restou nada ao filho a não ser tornar-se um homem amargurado e magoado como o próprio pai.

A música cresceu, junto com os pensamentos de Edward, e tornou-se mais alta, mais intensa, um tanto furiosa. Como uma extensão do que pensava e do que sentia.

Mas o pai não tinha matado o que ele era. Por mais que tentasse, o pai não conseguira torná-lo insensível. Edward ainda sentia, era capaz de ter sentimentos, como o pai nunca fora. A música que fluíra dele, na juventude, que ele externava agora, naquela sala, sob a luz pálida do sol, não era a prova disso?

Ah, era, pensou Edward, os dedos deslizando sobre as teclas, com mais suavidade agora. O choro de notas transformou-se, lentamente, em algo mais alegre, mais vivo.

Ele sentia. Ele amava.

Amava o garotinho adorável, inocente e maravilhoso que dormia pacificamente no andar de cima e que, de algum modo, ele fora responsável por trazer a este mundo. Amava a família, a mãe, sua doce e gentil mãe — uma mulher frágil, que ele desejava proteger, mas que ele também admirava por sua silenciosa força. Amava a irmã, com seu apego descuidado e sincero pela vida, o amor e o que era divertido.

E, sobretudo, ele amava Bella. Amava a mulher que, em pouco tempo, o fizera despertar para esse sentimento.

Edward abriu os olhos.

Amava a mulher que estava parada na soleira de sua porta, naquele instante, como se seus pensamentos sobre ela a tivessem trazido ali.

Bella o observava, com uma mão sobre o coração e lágrimas nos olhos. Não sabia o que dizer. Não quando o que acabara de ouvir tinha-a tocado tão profundamente, bagunçando seu interior, fazendo-a sentir um misto de alegria e tristeza. O que ele tocava era triste, ainda assim belo, e ela sabia que era um reflexo dos sentimentos que ele guardava profundamente dentro de si mesmo.

A música não cessou quando Edward viu Bella, mas, sim, diminuiu, degrau por degrau, enquanto ele mantinha os olhos nela. Então, num arranjo final, ele encerrou a canção com um floreio triste, dramático, e mergulhou a sala no mais absoluto silêncio.

Eles ficaram assim. Edward sentado ao piano. Bella na soleira da porta. Observando um ao outro, enquanto os ecos da música ainda agitavam seus corações, tocando-os profundamente.

Lentamente, porque esse parecia o ritmo naquele momento, Edward se levantou, os olhos em Bella, e deu um passo na direção dela.

— Você está aqui. — Ele sussurrou, descobrindo que não conseguia um tom mais alto. A intensidade da música que tocara, da realização do que sentia por Bella, dominava-o naquele momento.

Ele a amava.

Bella respirou fundo, limpando as lágrimas, e assentiu.

— Estou aqui.

— Isso significa que está pronta?

Ela o observou dar mais um passo em sua direção.

— Sim, estou pronta. — disse Bella. — Estou pronta para uma última conversa, Edward. Uma conversa definitiva.

Ele sentia medo, mas, mesmo assim, assentiu. Também tinha o que conversar com ela, o que confessar à Bella. Por isso, respirou fundo e disse:

— Então, vamos conversar, Bella. Vamos resolver isso.


N/A: Posso ter comentários? :)

Ps.: Próximo capítulo será postado dia 26-07 (domingo). Se eu conseguir escrever antes, claro que adianto a postagem.

Ps².: Não consigo responder todos os comentários. Por isso, tenho medo de ignorar eventuais perguntas que vocês fazem neles. Se eu fizer isso, não é por querer. Então, me cobrem se eu ignorar!