N/A: Obrigada pelos comentários. E por lerem até aqui. Vocês são demais. :)

Façam aquecimento físico e mental, pois teremos dois capítulos e epílogo hoje.

Boa leitura!


CAPÍTULO VINTE E OITO

Foram as trinta e seis horas mais longas da vida de Bella. Ela voltou para o lado de Edward, apenas para encontrá-lo no asfalto duro, inconsciente e muito, muito pálido. Ela não se lembrava de muita coisa do que acontecera ao seu redor. Só se lembrava do medo, um sentimento sufocante, que espreitava-a a todo instante.

Eles levaram Edward para um hospital. Carlisle, o padrasto dele, cuidou do enteado e sobrinho, enquanto ela observou tudo com uma aflição e impotência torturantes.

Ela não sabia rezar direito, mas pediu, suplicou, mesmo assim, enquanto Edward estivera longe de seu alcance, numa mesa de cirurgia, lutando para manter-se ali, com ela, com Anthony. Com sua família.

Ele tinha piorado no trajeto até o hospital, perdendo muito sangue — tanto sangue, ela pensou — e também a consciência. Assim que chegaram, ele tinha sido encaminhado para o centro cirúrgico e passara horas intermináveis em uma cirurgia complicada.

Depois que acabou, veio mais espera. Uma espera terrível, sufocante.

Agora que essa espera tinha passado e que Edward havia respondido bem à cirurgia, Bella estava no quarto com ele. Ele dormia, a expressão suave, quase tranquila, enquanto ela esperava que o efeito da anestesia passasse.

Já haviam se passado trinta e seis horas.

Bella segurou a mão de Edward, acariciou-a suavemente. Sentia tanto medo e raiva pelo que acontecera.

Ele havia sido baleado pelo próprio pai. Ele havia sido baleado protegendo-a.

Entendia, agora, o que ele dissera quando ela tentara fazer o mesmo, na vez em que haviam sido perseguidos de carro. Era uma atitude tão estúpida. Mas era uma que Bella compreendia.

Se fosse ela, teria feito o mesmo por ele.

Era um impasse, percebeu Bella. Ela e Edward seriam capazes das mesmas coisas um pelo outro. Eles se amavam, afinal de contas.

Ela amava esse homem. Esse homem lindo, sério, carinhoso, atormentado e teimoso. Ela o amava. Completamente. E recusava-se a perdê-lo.

Bella apertou a mão dele, com cuidado.

— Por favor, Edward. Acorde.

— ~ —

Ele sentiu uma fisgada no ombro, tentou se mexer. Então tudo doeu. Todos os seus músculos, rígidos e doloridos, protestaram diante de um movimento que ele nem conseguiu completar. Ele tentou fazer uma careta de dor, mas nem o rosto parecia obedecer. Diante de seus olhos, via apenas escuridão.

Uma escuridão mesclada pela dor que se espalhava por seu corpo, como mil agulhas espetando-lhe os músculos, como brasa quente queimando sob sua pele.

Estava no inferno?

Em algum lugar da mente, em meio à névoa de dor e confusão, ele conseguiu pensar que a dor era um bom sinal.

Ele sentia dor. Estava vivo.

Aos poucos, o corpo foi relaxando, sua mente ganhando foco. Distante, muito distante, ele ouviu um som baixo, murmurado.

Era um som doce. Tão doce.

Não conseguia entender as palavras, mas o som o fazia esquecer da dor e concentrar-se em buscá-lo, encontrá-lo.

Ele tentou se mover, mas, novamente, o corpo não respondeu.

Então, concentrou-se mais uma vez no som.

Uma voz, conseguiu distinguir. Uma voz baixa, calma e confortadora. Junto com ela, sentiu um toque cálido em seu rosto.

O afago gentil espalhou-se por seu corpo, enviando calor e suavidade por seus músculos doloridos.

E o fez se esquecer da dor novamente. Ele lutou para responder ao toque, à voz. Sair daquele limbo de solidão e dor.

Mas a escuridão envolveu-o antes que pudesse lutar.

— ~ —

Quando ele acordou novamente, havia luz. Muita luz. E ela estava machucando seus olhos. Diante das pálpebras fechadas, ele via uma profusão de tons de alaranjado, amarelo e vermelho.

Tanta luz.

Relutante, ele tentou abrir os olhos. E piscou fortemente quando conseguiu.

Seus olhos levaram alguns segundos até se adaptarem-se à claridade no quarto. Quando conseguiram, ele arriscou mover a cabeça e, mesmo com os músculos do pescoço protestando, conseguiu mais essa conquista.

Ele moveu a cabeça de um lado a outra.

Então, avistou-a.

Bella.

Ele queria dizer o nome, mas não encontrou a própria a voz.

Ela estava diante da janela, abraçando a si mesma, observando os contornos de Chicago ao amanhecer.

Parecia cansada. Infeliz e cansada, percebeu Edward, observando-a enquanto seus olhos acostumavam-se à luz novamente. Havia sinais de cansaço em baixo dos olhos castanhos, o rosto dela estava muito pálido. Ela respirou fundo. Soltou o ar, lentamente, o gesto trêmulo, e ele observou uma lágrima escorrer pelo rosto bonito.

Ah, meu amor.

Ele tentou se mover novamente. Tentou se levantar. Mas o corpo estava muito pesado. Ele fechou os olhos um instante. Para se recuperar e tentar novamente, disse a si mesmo.

Mas adormeceu antes de concluir o pensamento.

— ~ —

— Por que ele ainda não acordou?

A voz distante foi tornando-se cada vez mais próxima a medida que Edward recuperava a consciência. Ela parecia irritada e infeliz.

— Já faz três dias. — replicou a mesma voz.

Uma voz feminina, ele percebeu.

— Edward sofreu um ferimento grave e um trauma na cabeça, quando caiu no chão. Dê tempo a ele, Bella. — disse a outra pessoa. Essa tinha um tom mais grave e soava paciente. — Eu disse a você, a atividade cerebral dele está normal. Ele vai acordar quando estiver pronto.

— Sim. — Bella murmurou. — Soa bastante como Edward.

Ele ouviu um suspiro compreensivo.

— Não há nada que eu possa dizer para fazê-la ir para casa?

— Não. — A voz saiu áspera e determinada.

Edward tentou sorrir. Isso soava muito como Bella.

Ele ouviu um novo suspiro.

— Está certo, então. Voltou mais tarde.

Uma porta abriu-se e fechou-se.

Ele sentiu as mãos de Bella envolveram as suas.

— Por favor, Edward, acorde. — Ele a ouviu pedir, a voz apenas um sussurro. — Volte para mim. Quero vê-lo, seus olhos lindos. Quero ouvir sua voz novamente. Eu amo você. Preciso de você. Nós precisamos de você. Eu, Anthony, o nosso bebê… — Ela fez uma pausa, fungou. Então, tentou um tom alegre. — Nós vamos ter um bebê, sabia? Eu quero poder contar isso a você. Por favor, acorde.

Ele queria, mas não conseguiu.

Maldição!

— ~ —

Dessa vez, quando ele abriu os olhos, não foi apenas isso que se limitou a fazer. Ele tentou e conseguiu erguer uma mão, moveu o pescoço e conseguiu impulsionar-se à frente. Uma tontura o atingiu quando fez isso, mas ele sentia o corpo reagir a seus comandos.

Finalmente!

Ele olhou para os lados, avistou Bella em uma poltrona. Ela estava cochilando, o rosto de lado, descansando sobre o encosto da poltrona. Ela ainda parecia abatida, mas usava roupas diferentes das que ele a vira usar da última vez que acordara.

Edward arriscou falar e, embora a garganta estivesse seca e a voz sem uso por um longo tempo, conseguiu pronunciar num tom rouco:

— Bella.

Ela moveu levemente a cabeça. Resmungou. E continuou dormindo.

— Bella. — Ele tentou de novo, com toda a força que conseguiu.

— Hmmm? — Bella perguntou, sonolenta, meio irritada. — O que foi? — Ela murmurou, coçando os olhos.

— Sou eu.

Ela tirou as mãos dos olhos, encontrou o olhar de Edward e arfou.

— Edward! — Bella exclamou, deixando a poltrona num salto e aproximando-se da cama. — Edward. — Ela tocou o rosto dele, um misto de risada e soluço escapando de seus lábios quando ele ergueu o braço e tocou sua mão.

— Olá, senhorita Swan.

Ela soltou um som estrangulado novamente, a visão nublada.

— Não chore, meu amor.

— Você está vivo. Está acordado. Não posso… Não posso evitar. — disse Bella, sentando-se na cama ao lado dele. — Eu amo você. Eu estava com medo. Nunca mais se atreva a ser baleado.

— Não vou. Prometo. — Ele disse e, porque sua posição era desconfortável, tentou se levantar.

— Não faça isso. É melhor chamar alguém. — disse Bella, levantando-se e apertando um botão ao lado da cama. Ela suspirou quando o fitou novamente e viu que ele a tinha ignorado e estava quase sentado na cama. — Você não devia fazer isso, Edward.

— Detesto ficar deitado. — replicou ele, fazendo uma careta pela dor no ombro e na garganta ainda seca. — A menos que você esteja comigo.

Bella meneou a cabeça, fingindo indignação.

— Você acabou de ressussitar. Contenha seus pensamentos. — replicou ela, afofando travesseiros atrás dele para ajudá-lo a se acomodar.

Edward segurou-a pelo braço antes que ela se afastasse.

— Você parece exausta.

— Estou bem. — replicou Bella, com teimosia, ignorando o fato de que se sentia meio zonza. Muita emoção, disse a si mesma, e se sentou na cama ao lado dele. Isso bastaria, por enquanto.

A porta do quarto foi aberta e, por ela, entraram Carlisle e uma enfermeira.

— Edward. É bom vê-lo acordado, filho.

— É bom estar acordado. — disse ele e, durante a próxima meia hora, viu-se examinado de maneira detalhada. Muito mais do que gostaria. Quando o procedimento acabou e a enfermeira os deixou, ele se dirigiu ao pai: — Há quanto tempo estou aqui?

— Quatro dias. — Carlisle respondeu e acompanhou o olhar de Edward, que no momento estava em Bella, enquanto ela andava de um lado a outro no quarto, falando com Anthony pelo celular.

— Como ela tem passado?

— Ela ficou preocupada. Recusou-se a sair daqui nos primeiros dois dias. Então… — Ele fez uma pausa. — Escute, filho, acho que é melhor você conversar direito com Bella. Algumas coisas aconteceram enquanto você esteve desacordado.

Nocauteado seria uma palavra melhor, pensou Edward. Mas assentiu. Em sua mente surgiram fragmentos da voz de Bella, algo distante e difuso. Ele sabia que ela estivera ali durante quase todo o tempo.

Ela tinha conversado com ele, não tinha? O que ela tinha dito mesmo?

Carlisle deixou o quarto e Bella voltou ao seu lugar na cama. Não queria admitir, mas, agora que Edward estava acordado, falando e bem, ela sentia todo o peso da exaustão que ignorara nos últimos dias.

— Eu disse a Anthony e aos outros que você acordou.

— Como ele está? Anthony. Como ele está? — quis saber Edward, preocupado com o filho.

— Impaciente e preocupado. Nós dissemos a ele que você estava doente e que teria que ficar no hospital por alguns dias.

— Ele veio aqui?

— Não. Nós resolvemos esperar, para ver se você acordava antes. — explicou Bella, entrelaçando sua mão a dele e traçando círculos sobre sua pele. — Pensei que você não acordaria. — confessou num sussurro. — Foi assustador.

Ele usou a ponta dos dedos para erguer a cabeça dela e fazê-la fitá-lo.

— Estou aqui, agora, Bella. Bem acordado e bem vivo. Não vou a lugar algum.

Ela assentiu.

— É bom saber disso.

Ele a fitou.

— Você precisa descansar. — Sim, bastante, pensou Edward. Ela devia descansar bastante. Por que ele tinha esse sentimento tão insistente? — Você parece exausta.

— Estou bem.

— Não seja teimosa.

Bella revirou os olhos.

— Você está mesmo bem vivo.

— E você devia mesmo fazer o que estou dizendo. — rebateu Edward e, subitamente, lembrou-se do que ouvira enquanto lutava contra a inconsciência. — Então — Ele disse, suavizando o tom, traçando círculos nas costas da mão de Bella. —, enquanto estive desacordado, ouvi algo sobre um bebê.

Bella ergueu a cabeça, encontrou os olhos dele com surpresa. Um sorriso começou a espalhar-se por seu rosto.

— Pensei que você estivesse desacordado.

— Eu meio que estava. — Ele moveu os ombros, piscou diante da dor, mas recusou-se a pensar nela. Ele fitou Bella nos olhos. — É verdade?

— Sim. — Ela sorriu, depois ficou séria. — Sei que é repentino, mas…

— É uma das notícias mais extraordinárias que eu poderia receber após… ressussitar. — Edward a interrompeu, os olhos brilhando de entusiasmo, amor e intensidade. — Eu amo você, Bella.

Ela sentiu todo o peso de preocupação e angústia abandonar seus ombros.

— Também amo você, Edward. — disse, aproximando-se dele e, com cuidado, beijou-o nos lábios. Ela tentou tornar o gesto breve, mas Edward aprofundou o beijo e ela se permitiu ceder, saboreando o gosto dele, aproveitando as sensações que a atravessavam, e celebrando o fato de que Edward havia voltado para ela.

Mas o entusiasmo teve vida curta, pois Edward se moveu e sentiu a dor atravessá-lo.

— Droga!

— Desculpe. Vou ficar longe de você.

— Nem pensar. — Ele a segurou pelo braço, fitou-a. — Quero você por perto. Bem perto. Quero casar com você.

Ela abriu a boca num "o" de espanto. Não esperava por essa. Então, arqueou uma sobrancelha.

— Você quer casar comigo porque estou grávida?

— É claro, Bella. O bebê é a razão do meu pedido. Afinal, ser alvejado para protegê-la foi só um ato de auto-promoção. — replicou ele, fazendo uma careta. — Quero me casar com você porque a amo. Porque vejo você como minha esposa, a mãe dos meus filhos. Daquele que nos espera em casa e deste que você está esperando. — Ele entrelaçou as mãos às dela, encontrou os olhos de Bella. — Eu amo você. Essa é minha razão. Você aceitaria?

Ela sorriu.

— Sim. — disse e, antes que pudesse reagir, ele a beijou novamente. Quando se afastaram, Edward estava sorrindo, o gesto divertido. — O que é tão engraçado?

— Eu me pergunto — disse ele. —, levando em conta seu trabalho, você já tem seu casamento planejado?

Ela sorriu, o gesto misterioso.

— Eu não tinha. — replicou em resposta. — Até conhecer você… e o seu jardim de inverno.

— ~ —

Fazia um mês desde o casamento de Alice, o sequestro de Bella e a estadia de Edward no hospital. Embora Russo e Miranda tivessem agido durante a festa de casamento, o fato nunca chegara ao conhecimento dos convidados, muito menos estragara o evento, que era o orgulho de Bella.

Depois que o susto dos eventos traumáticos e o medo de perder Edward passaram, Bella soube que sua ausência na festa, apesar de ter sido notada, fora contornada por Carmen e não afetara sua reputação. Seu trabalho rendera elogios, fama e mais clientes para a PW e para ela.

Agora, de volta às atividades na agência, ela conciliava uma vida pessoal e uma profissional que se tornavam melhores a cada dia. Ela tinha um emprego que adorava, era bem sucedida, estava noiva de um homem maravilhoso, tinha um filho igualmente maravilhoso e outro a caminho. Não poderia pedir mais nada.

Os preparativos para seu próprio casamento estavam sendo arranjados por ela mesma, dentro da própria agenda. Ela queria um casamento no jardim de inverno de Edward, durante o inverno, quando a neve fizesse aparição. Era um desejo simples, até, e cujos detalhes Bella arranjava sempre que estava na mansão — sua casa agora.

Em praticamente todos os sentidos, ela, Edward e Anthony já eram uma família. Só o que faltava era Bella e Edward se casarem.

O que aconteceria em dezembro, pensou ela, saindo do carro que Cyrus estacionara diante da mansão. Dezembro era um bom mês para se casar. O único detalhe, lembrou-se Bella, era que ela já estaria com seis meses de gestação.

Ela sorriu. Não se importava com isso. O bebê estava convidado para a cerimônia também.

Ela entrou em casa e foi recebida por um silêncio tranquilizador. O fim de tarde esgueirava-se pelas cortinas abertas, lançando os últimos feixes de luz do dia sobre os móveis elegantes. Livrando-se dos sapatos ao pé da escada, ela resolveu subir para o quarto antes de procurar por Edward ou Anthony. Mas mudou de ideia quando ouviu vozes soando no corredor.

Deixando os sapatos, sua bolsa e pasta de lado, ela atravessou o extenso corredor em busca da fonte do som.

Na sala de música, ela encontrou Edward e Anthony diante do piano. As luzes do fim de tarde lançavam feixes dourados sobre pai e filho que, com as cabeças juntas, tentavam decidir qual a próxima música que tocariam.

Cruzando os braços, Bella recostou-se ao batente da porta e, encantada, observou a cena. Uma cena tão simples, pensou, mas tão forte.

Era tocante o modo como Edward e Anthony haviam se aproximado nos últimos meses. Eles podiam ter tido problemas de convivência antes. Edward tivera dificuldade em lidar com o filho. Mas sempre houvera amor ali, pensou Bella. Um amor que estava apenas esperando para ser acionado.

Os primeiros acordes de "Brilha, brilha, estrelinha" começaram a preencher a sala. Duas notas erradas e uma exclamação frustrada depois, Anthony assumiu o piano sozinho e tocou a música inteira, sem erro.

Edward observou o filho, atento aos dedos habilidosos que deslizavam sobre as teclas. Assim como o pai, Anthony tinha facilidade para aprender a tocar piano. E isso significava muita coisa quando se tratava do instrumento. Significava mais ainda quando Edward via que tocar era algo que divertia o filho. As aulas informais deles não eram formais, mas um passatempo que ambos adoravam.

Anthony terminou a canção, lançando um olhar na direção do pai.

Edward sorriu para o filho e bagunçou-lhe os cabelos.

— Isso foi maneiro, Anthony. — disse ele, arrancando risadinhas do menino tanto por seu gesto quanto por suas palavras. — Você aprendeu essa canção direitinho.

O menino sorriu, orgulhoso de si mesmo, envaidecido pelo elogio do pai. Tinha ficado muito feliz quando o pai dispensara a professora de piano e passara a lhe ensinar, ele mesmo, como tocar.

— Pai, posso aprender outra música? — quis saber Anthony, uma ideia lhe ocorrendo.

— Claro. — Edward analisou algumas partituras. — Qual você quer aprender?

— Jingle Bells.

— Hmmm. Essa é boa. — disse o pai, buscando a canção natalina entre as folhas. — E você pode aprendê-la a tempo para o natal.

— E para o seu casamento com a mamãe. — observou Anthony, astutamente, ainda com aquela ideia em sua cabeça.

Edward sorriu para o filho.

— Para o casamento também.

Bella deu um passo para dentro da sala, para anunciar sua presença ali, mas nenhum dos dois percebeu seu movimento.

Anthony continuou:

— Quero aprender Jingle Bells pra dar de presente pra mamãe, no dia do casamento. Tia Alice disse que seria um presente legal.

— Ah, com certeza seria... — Edward parou de falar quando desviou os olhos das partituras e percebeu a presença de Bella.

Ela estava andando para trás, recuando.

— Não estou aqui. — Bella disse, apenas movendo os lábios. Tinha ouvido sobre a surpresa, mas Anthony não precisava saber que ela ouvira. Surpresa ou não, ela ficaria emocionada e choraria de qualquer forma. Não queria estragar o presente que ele estava preparando.

Edward desviou os olhos da noiva e fitou o filho.

— Acho que sua mãe vai adorar o presente.

— Mas vai ser segredo, tá, pai? Quero fazer uma surpresa.

Edward assentiu, o gesto solene, mostrando o devido respeito pela missão.

— Vai ser o nosso segredo. Não vou contar para ninguém. Prometo.

— Maneiro. — Anthony também assentiu, satisfeito. — Falta muito pra mamãe chegar?

— Acho que não. Que tal fazermos uma pausa aqui e irmos procurá-la? Podemos ligar para ela, também. — sugeriu, mas sabia que aquilo não seria necessário.

Anthony estava concordando com a sugestão do pai quando Bella, dessa vez fazendo barulho, reentrou na sala. Ela sorriu para Edward, piscou-lhe num gesto cúmplice, então envolveu Anthony num abraço caloroso quando ele a viu e correu em sua direção.

— Como foi o seu dia? — quis saber, fitando os enormes olhos verdes do filho, enquanto Anthony brincava com seu colar.

— Foi legal. A escola não foi muito. Mas o papai me deu aula de piano hoje. Eu aprendi a tocar uma música todinha! — contou ele. — Você quer ouvir?

— É claro. — Anuiu Bella, sem se importar em ouvir a canção novamente. Ver Anthony e o pai ao piano era sempre prazeroso. De muitas formas, ela pensou, quando Edward sorriu para ela por sobre a cabeça concentrada do menino entre eles.

Ela retribuiu o sorriso, piscando para ele, e apoiou-se no piano para ouvir Anthony.

O menino prendeu a língua entre dos dentes e, com um vinco de concentração na testa, tocou a música toda. Dessa vez, sem errar no começo. Quando terminou, como fizera com o pai, Anthony a fitou com um sorriso orgulhoso e ficou imensamente satisfeito quando recebeu um elogio e beijos no rosto todo.

Como previra, era muito maneiro ter uma mãe. Sua família estava totalmente completa. Ele até mesmo teria um irmãozinho...

— Quando meu irmão vai chegar? — quis saber Anthony, olhando entre os pais. Agora que pensava nisso, não se lembrava de alguém ter lhe dito quanto tempo levava até seu irmãozinho chegar. — Ele vai estar aqui no natal?

— Não, amor. Vai demorar um pouco mais que isso. — explicou Bella.

— Quando, então?

— Um pouco antes do seu aniversário. — Edward forneceu a resposta. — O bebê estará aqui um pouco antes da sua festa.

— Onde ele está agora? — O menino fitou o pai, mas, como Edward fitou Bella, ele acompanhou seu olhar.

— Ele está comigo. Aqui. — Ela deu um tapinha na própria barriga.

Anthony arfou, a expressão horrorizada.

— Você comeu o bebê?

— Não, não. — Bella esboçou um sorriso suave e lançou um olhar na direção de Edward, que, claramente, tentava conter o riso. — O bebê está aqui só até ficar grande o suficiente para nascer.

Anthony apertou os lábios, pensativo.

— E como ele foi parar aí?

Edward parou de rir e fitou Bella.

Ela manteve a expressão tranquila e o sorriso suave no rosto. Fitando Anthony, respondeu:

— Com amor, Anthony. Às vezes, dois adultos amam-se tanto que são capazes de fazer um bebê.

Bella e Edward observaram a expressão pensativa do filho. Então, Anthony assentiu e, simples assim, o assunto chegou ao fim.

— Posso pedir um biscoito à Bess? — Ele perguntou, olhando entre os pais.

— Claro. Vá em frente. — Edward assentiu, observou o filho pular do banco e sair da sala numa corrida, a mente infantil passando de bebês a biscoitos. Ele fitou a noiva quando Anthony saiu. — Muito bem, mamãe. Eu não seria capaz de dar uma resposta tão boa.

— Nem eu. Li isso num livro. — Ela disse, endireitando a postura no mesmo instante em que Edward se levantou e se aproximou dela. Ela descansou as mãos sobre os braços dele quando eles a envolveram pela cintura. — Como foi o seu dia?

Edward moveu os ombros.

— Cheio de negócios, contratos e loucura. — Edward disse. Tinha voltado a trabalhar no dia anterior, quando recebera liberação médica. Ele havia tentado burlar e ignorar as restrições de Carlisle, mas sua mãe e Bella formaram uma dupla inflexível e o obrigaram a ficar recluso, em casa. É claro, ele só tinha concordado com isso quando Bella cedeu e também se manteve em casa de férias.

Os dois precisavam e mereciam um descanso.

Mas os dois também adoravam os trabalhos que tinham. Por mais loucas e exaustivas que fossem suas rotinas no trabalho, elas faziam parte deles.

— Como foi o seu dia? — quis saber ele. — Alguma noiva maluca hoje?

— Não, hoje não. Mas tivemos uma histérica. Ela surtou por causa de uma petúnia.

Edward franziu o cenho.

— Uma flor? Ela não gosta de petúnias?

— Não. Esse é seu segundo casamento e, no primeiro, ela foi traída. A amante se chamava Petúnia.

— Ah. — disse Edward. Então, riu. — Uma tragédia.

— Nem me fale. — Ela também riu. Depois acariciou os braços dele e fitou-o nos olhos. — Por que estou com a impressão de que você não me contou tudo sobre o seu dia?

— Porque você é boa com impressões. — Edward sorriu, como um menino pego aprontando. Ele tocou os lábios de Bella. Não era um beijo para distraí-la. Só precisava fazer isso. Ele fechou os olhos quando ela tocou seu rosto e retribuiu o beijo, com delicadeza.

Quando se separaram, Bella segurou o rosto dele entre as mãos.

— O que aconteceu?

— Nada grave. — Ele garantiu. — Só o fim dessa história com o meu pai, Miranda e essa loucura que vivemos nos últimos meses.

Bella engoliu em seco. Não gostava de falar disso, mas estava intrigada.

— Como assim o fim?

Edward entrelaçou suas mãos à dela.

— Emmett e Cyrus estiveram investigando os passos do meu pai durante esses sete anos. — Ele começou a explicar. — Eles não descobriram tudo. Algumas informações vão ser sempre especulação, pois elas morreram junto com meu pai e Miranda. Mesmo assim, o que Emmett e Cyrus descobriram responde algumas perguntas. As motivações dele, por exemplo. — disse Edward. — Ele disse a você que queria saber como eu me sairia como seu sucessor. Ele disse que queria observar de longe, para se certificar de que os negócios que ele tanto prezava estariam em boas mãos. Mas não foi só isso.

"Naquele dia, quando ouvi a discussão dos meus pais, acho que era exatamente isso que meu pai queria que acontecesse. Nunca teremos certeza disso, mas acho que ele queria que eu soubesse o que ele tinha feito à minha mãe. Meu pai sabia como eu reagiria. Ele pode ter sido um péssimo pai, mas ele me conhecia, ao menos uma parte de mim, e sabia que eu iria atrás dele.

— Você acha que ele queria que você tentasse matá-lo?

— Não. Imagino que ele planejava me fazer segui-lo, para que eu presenciasse seu acidente e não tivesse porque contestá-lo.

Bella recostou-se ao piano e pensou sobre isso um instante.

— Você disse que o carro do seu pai havia explodido ao cair num vale. — Lembrou ela, prosseguindo quando Edward confirmou com um assentimento. — Difícil reconhecer um corpo após uma explosão.

— E muito mais fácil manipular resultados por reconhecimento de DNA ou arcada dentária. — Edward assentiu, confirmando as suspeitas dela. — Emmett encontrou alterações nos documentos do legista que cuidou da identificação do possível corpo do meu pai. Isso explica como ele se tornou, oficialmente, um homem morto, mesmo quando não estava. O mesmo tipo de alteração ocorreu no caso da falsa morte de Miranda. Não conseguimos confirmar seu mau pai teve algo a ver com isso, mas, diante da parceria deles, presumo que sim.

— Você acha que eles já estavam combinados, quando seu pai ainda estava vivo? Quando ele morreu, você já sabia que Miranda estava grávida.

— Sim. Acho que eles já estavam combinados. — Edward cruzou os braços. Aqui, o campo das especulações tornava-se predominante. — Você disse que meu pai queria me tirar dos negócios, reassumir tudo ele mesmo, e tornar Anthony seu sucessor mais eficiente. — Ele cerrou as mãos em punhos, furioso, só de pensar nisso.

Percebendo a tensão de Edward, Bella tocou o braço dele e apertou-o suavemente.

— Seu pai se foi. Ele nunca mais vai ameaçar o nosso filho. Nenhum de nós. Ele é passado.

Edward tocou a mão dela, os olhos assumindo um brilho culpado.

— Eu gostaria que as coisas tivessem sido diferentes. Não queria que você tivesse...

Bella o interrompeu:

— Ele atirou em você, o homem que eu amo. Ele ameaçou meu filho. Minha família. O que eu fiz pode ser errado, mas eu faria de novo, se significasse proteger você e Anthony.

— Eu não queria que você se envolvesse tanto nessa parte da minha vida. — murmurou Edward, com um pesar conformado. — Espero que não precise mais.

Ela segurou o queixo dele e o fez fitá-la.

— Também espero. Mas eu farei, se for preciso. Como fiz, naquela noite, quando atirei naquele monstro.

Edward assentiu, sabendo que ela falava sério, que não havia sentido discutir com Bella. Tinha dito a ela que queria legalizar sua família, mas que isso exigiria um longo tempo e algumas frustrações ao longo do caminho. Sabia que Bella estava disposta a permanecer ao seu lado e que abordar aquele assunto não era mais necessário. Ela estaria ao seu lado. Era um fato. E faria toda a diferença.

— Meu pai era um caso perdido. — Edward disse, em tom de anuência, e retomou suas explicações: — Ele trabalhou com Miranda, ambos esperando para me atacar e destruir. Meu pai, porque não achava que eu era eficiente o bastante para a Família, e Miranda porque queria se vingar de mim. Ela disse a você que precisava de Anthony. Agora eu entendo. Miranda precisava dele para entrega-lo ao meu pai.

Bella assentiu, em compreensão. Miranda tinha trocado Anthony por dinheiro, pensou, acompanhando o raciocínio de Edward.

Russo queria eliminar quem pudesse interferir na educação que intencionava dar ao neto. Ele acabaria com Edward, depois com quem tentasse impedi-lo de chegar a Anthony, enquanto a mão biológica estaria fora da jogada, silenciada e aplacada por alguns milhões de dólares.

— Mas não acho que ele teria deixado Miranda viver. — observou Edward. — A intenção dele era tirá-la do caminho de forma permanente, como ele fez atirando nela.

Bella levou uma mão à garganta, sentindo o nó formando-se ali. Não gostava de se lembrar da maneira como Russo eliminara Miranda. Tinha sido um gesto tão covarde e egoísta da parte dele. Ela podia detestar as decisões e ganância de Miranda, mas a outra não merecia uma morte tão covarde.

Percebendo o desconforto dela e lembrando-se do bebê, Edward puxou-a para seus braços e abraçou-a.

— Tudo isso agora é passado.

— Sim. — Bella fechou os olhos e inspirou o perfume dele, acalentada por isso e pelo calor do corpo de Edward. Graças aos céus, aquilo tudo era passado e ambos estavam ali, vivos, juntos e bem.

Isso era o mais importante.


N/A: Tem mais um capítulo. Corre lá para ler!