De repente, quando me dei por mim, estava cercado de corpos. Não que isso fosse estranho para mim. Desde pequeno, antes mesmo de entrar para a Divisão de Exploração, eu já me via cercado de cadáveres jogados nas sarjetas da capital do rei, mendigos, ladrões, pessoas desconhecidas, amigos meus. Mas nada se comparava ao que eu presenciava naquele momento. Mortos, ali ao meu lado, eram meus companheiros, irmãos de armas que foram recrutas comigo, lutaram para subir de posição e que sobreviveram até o dia de hoje com a certeza de que veríamos todos juntos a vitória da humanidade conta as criaturas que andavam por aí nos comendo como se fossemos petiscos ambulantes.

Meus companheiros. Dentro de mim, a vontade era pegar o DMT de todos eles, recarregar com suas lâminas e sair por aí, matando quantos titãs eu conseguisse até cair morto de cansaço, mas sabendo que vinguei meus amigos. Mas eu sabia que na realidade não era tão simples assim. Eu teria que vencer mais esta provação, sobreviver e me juntar a Erwin para continuar na nossa luta pela humanidade.

Agora, porém… estava sendo tão difícil. Lutar contra o luto. Eu não choraria, nunca chorei em minha vida. Não seria esta a primeira vez, mas o vazio que sempre estivera lá e só fizera aumentar, agora parecia consumir todo meu ser. Eu era somente bordas de um buraco negro, engolindo a mim mesmo de dentro para fora até que eu nada mais fosse. Eu sangrava pelo coração naquele momento.

Fechei os olhos de todos meus amigos e os deitei dignamente sob as folhas das árvores gigantes. Aquele era o local de seu último sono e não deveria ser nada menos que um lugar em paz. E para isso, eu faria de tudo, mesmo que esse tudo significasse exterminar todos os titãs em volta da floresta para que não se aproximassem mais dos meus companheiros.

Proferi uma oração baixa, algo que eu vira uma mulher fazer a muitos anos atrás, quando eu ainda era uma criança. Pedi que a vida de meus companheiros não tivesse sido em vão. Prometi que, quando tudo acabasse, e a vida dos seres humanos fosse restaurada para seu lugar de direito, livre e sem paredes, eu iria encontrá-los, onde quer que estejam.

Levantei-me e ajeitei meu equipamento. Meu gás estava quase acabando, e eu tinha apenas um par de lâminas restante. Pedi licença a eles e transferi ambos os suprimentos para meu equipamento, lancei meu gancho e icei-me contra as árvores, voando em manobras tridimensionais para longe do sepulcro improvisado daqueles que, horas antes, avançavam ao meu lado e mesmo em todo o desespero do momento ainda faziam piadas e me faziam sentir humano.

Alcancei o primeiro esquadrão em poucos minutos. Das dez pessoas daquela divisão, restavam apenas cinco, e uma delas estava gravemente ferida, com uma bandagem em volta do troco que sangrava profusamente. Outros dois soldados o carregavam com dificuldade, realizando manobras cuidadosamente pensadas para não haver desperdício de gás. Chequei se estavam todos bem e continuei meu caminho. Eu deveria chegar até a vanguarda da formação e encontrar Erwin, Hange, Eren e os outros recrutas da 104ª turma que se juntaram a nós.

O vento frio da floresta cortava contra meus olhos e meus cabelos, trazendo uma sensação angustiante, mas ao mesmo tempo de liberdade. Eu estava livre do chão, era somente as árvores, eu, a manobra. Fechei os olhos e me permiti perder naquele momento de estranho alívio, visualizando mentalmente meus companheiros ao meu lado, enquanto nos direcionávamos para o ponto de encontro para a partida.

Uma gota de suor escorreu pelo meu rosto. Foi o mais próximo de uma lágrima.

Avistei a força principal em cima de uma das árvores. Eles estavam cercados de titãs pequenos, pouco mais de quatro metros, e todos estavam apreensivos. Eu estava a poucos metros de distância deles, movendo-me silenciosamente entre as árvores para chegar lá o mais rápido possível, sem querer chamar atenção para mim também. E em uma fração de segundo, o mundo deu uma volta e ficou bruscamente de cabeça para baixo.

Senti um solavanco e, de repente, um peso foi aliviado das minhas costas – meu DMT fora arrancado de mim. Eu estava em queda livre em meio a um rodopio de mãos, folhas e galhos, grunhidos de titãs e sons de gás escapando. Meu equipamento fora esmagado. Tentei ficar calmo. Meus cabos ainda estavam presos à minha cintura, então talvez eu conseguisse lançar algum gancho em algum lugar para evitar cair no chão. Retirei a trava, reuni a maior força possível em meu braço e joguei o gancho, mas ele alcançou somente o ar. Minha queda, entretanto, foi amparada por um par de mãos gigantes e quentes.

Os dedos começaram a se fechar ao meu redor, lentamente me esmagando. Eu não conseguia alcançar minhas lâminas para me desvencilhar daquele aperto da morte. Como um louco, comecei a me debater. Talvez aceitar a morte na prática fosse muito mais difícil do que encará-la na teoria. Talvez eu simplesmente não estivesse pronto para me juntar aos meus companheiros; minha missão ainda não tinha sido cumprida.

Ao fundo, escutei vozes, sons dos arpões sendo lançados e fixados nas árvores, vozes gritando ordens enquanto lâminas cintilavam à luz do sol que entrava por frestas nas copas das árvores. Fechei os olhos ao que começava a ser esmagado, meus pulmões sendo comprimidos e o ar não mais entrando neles. Era como se eu pudesse sentir o gás carbônico se acumulando dentro de mim, obstruindo minhas células e me causando tonturas. Visualizei minhas costelas quebradas, pontas de ossos perfurando meus órgãos e, finalmente, minha morte por algum tipo de hemorragia interna, sangrando internamente, literalmente.

E então, o alívio. Era como se a mão de Deus houvesse me tirado das mãos do titã. Uma mão tão semelhantemente quente, porém confortável, amiga. Sim… era a morte, calma e acolhedora. Meus olhos já turvos focalizaram um relampejo de sol em olhos verdes e, antes de apagar, me perguntei por que os olhos de Deus me eram tão familiares…