Acordei de sobressalto. Meu corpo inteiro doía como se uma carroça houvesse passado por cima de mim. Tentei levantar a cabeça, mas isso também doeu. Havia algo em volta do meu pescoço, imobilizando-o e impedindo que eu me mexesse. Forcei mais um pouco e senti uma espécie de choque correr pela minha espinha até os dedos dos meus pés, levando consigo uma dor excruciante. Senti gotículas de suor escorrendo pela minha testa e um gemido se formou em meu peito, arrancando o pouco ar que eu conseguira puxar comigo.

Minha visão turvou e minha cabeça voltou a repousar no travesseiro. Fechei os olhos e tentei me acalmar. Primeiramente, eu estava vivo. O que acontecera? Minha cabeça mandava partes das lembranças, mas ainda assim eu não conseguia juntar as imagens de forma coerente. Por que eu estava nessa cama? Quem me colocara aqui? Provavelmente era obra de Erwin, ou Hange. Ou os dois juntos, o que tornava a coisa ainda pior do que parecia ser.

Lentamente, movi os dedos das minhas mãos e as levantei com cuidado até entrarem em meu limitado campo de visão. O que vi, entretanto, era tão absurdo que não fosse pela dor, um riso teria escapado de minha garganta. Ambos meus braços estavam cobertos por vergões que alternavam entre hematomas roxos e grandes faixas vermelhas de pele exposta, queimada. Meus membros protestaram ao que os levantava, porém ignorei a dor e continuei observando aqueles braços que poderiam ser de qualquer um, menos meus. Era como olhar de dentro do corpo de um estranho.

Apoiei os cotovelos na cama – novamente, mais um espasmo de dor percorrendo meu corpo –, meus olhos encheram-se de lágrimas involuntárias e as reprimi novamente. Icei meu corpo para cima, tentando me sentar e escanear o resto de mim, ver até onde eu estava machucado.

No primeiro esforço, falhei miseravelmente. Faltaram-me forças para continuar levantando meu tronco e voltei a desabar na cama, fracassado, fraco e dolorido. Mas eu não teria chegado aonde cheguei se eu tivesse desistido na primeira dificuldade. Tentei reunir um pouco mais de ar dentro dos pulmões, sentindo fortes fisgadas enquanto o fazia, o prendi dentro de mim – mais fisgadas – e fiz força novamente. E assim foi por quatro vezes seguidas até que na quarta, exaurido de forças e numa última tentativa, sentei-me na cama finalmente, me reencostando no estrado que se erguia atrás de mim e respirando tão descompassada e pesadamente que deveria soar como um louco.

Joguei a cabeça para trás, me permitindo descansar um pouco de todo esforço que havia feito. Minha boca estava seca, e o ar entrava como ácido por minha garganta. Mechas de cabelo haviam caído em meus olhos e entravam em meus olhos num incomodo tão grande que pensei que assim que melhorasse dessa condição, a primeira coisa que faria seria dar um jeito naquilo, raspar aquela merda toda.

Quando minha respiração voltou ao seu estado normal, levantei os braços e retirei o cabelo do meu rosto, jogando-o para trás. Estiquei as mãos e as olhei agora de uma forma mais ampla, e compreendi que o estrago, depois de tudo não havia sido tão grande. Hematomas se curam com o tempo, e pele nova nasce também. Pelo menos todos meus sentidos haviam sido preservados – a dor me comprovava isso – e eu teria uma boa recuperação. Minhas pernas também estavam feridas, da mesma forma que os braços, e doíam um pouco menos. Toquei a barriga com a ponta dos dedos e senti várias bandagens, mas, até então tudo ok.

Apalpei o colar imobilizador em meu pescoço, procurando por alguma abertura, e encontrei duas fivelas na parte de trás. A logística não era muito boa dada às minhas atuais condições, mas consegui abri-las rapidamente. Retirei o colar e o joguei no chão, alongando meu pescoço, virando-o de um lado para o outro, me livrando da sensação de prisão que ele me proporcionou. Claro, mais ondas de dor percorreram todo meu ser e eu já estava começando a me acostumar com aquilo.

Olhei em volta. Estava em um quarto do quartel general, mas não era o meu quarto. Não havia janelas, e a única luz vinha de uma vela em cima da mesa de cabeceira de madeira simples. Sobre a mesa também havia um par de comprimidos, um copo d'água, um bloco de notas e uma caneta. Estiquei o braço para o copo, desesperado pela sede, e bebi tudo de um gole só, me arrependendo instantaneamente. Senti ânsias de vomito ao tomar a água tão rapidamente e por pouco não vomitei em mim mesmo – consegui esticar a cabeça para fora da cama e despejar toda aquela água misturada com bílis no chão. Limpei a boca com as costas da mão e tossi um pouco, terminando de vomitar o resto.

Subitamente, senti uma forte pontada na cabeça, doendo como o inferno na parte de frente, como se alguém estivesse martelando um prego em minha testa. Tamanha fora a dor que apertei o copo em minha mão até quebrá-lo, fazendo uma bagunça de cacos de vidro, sangue e mais dor, como se eu já não estivesse sentindo o suficiente.

– Burro – sussurrei para mim mesmo, minha voz saindo gutural de minha garganta.

Puxei um pedaço do lençol até os dentes e o rasguei até tirar uma tira, sacudi a mão recém-machucada, espalhando mais vidro e sangue pelo quarto, e enrolei o pano no machucado. Eu precisava sair dali, encontrar mais água, encontrar alguém para me contar o que acontecera e há quanto tempo eu estivera deitado naquela cama, imobilizado como um inútil.

Apoiei-me na mesa de cabeceira, lancei as pernas para fora e me levantei, cambaleante, e fui em direção à porta. Quando cheguei à metade do caminho mais um assomo daquela dor terrível martelou em minha cabeça, e por muito pouco não cedi a ela e caí no chão. Minha visão escureceu e senti todo meu corpo querer se jogar de volta na cama. Ok, eu realmente precisava de ajuda. Abri a boca, puxei mais ar e chamei por ajuda.

– Alguém! – berrei. – Tem alguém aí fora?

E, com a minha voz, minha força de vontade foi se esvaindo, juntando-se à força física que fugira de mim quando a dor voltou a aparecer. Meus joelhos foram os primeiros a enfraquecer deixando-me sem sustentação nas pernas, que caíram no chão. Desabei, batendo a cabeça levemente no piso quando meu corpo inteiro se esvaiu em fraqueza. Deitado ali na madeira, senti meus membros formigarem levemente, causando uma irônica vontade de rir. Irônica porque, frente a toda aquela merda na qual eu me via metido naquele momento, a última coisa que eu pensaria em fazer seria rir, até porque a situação não tinha graça de nenhuma forma.

Mas eu ri. Ri até doer ainda mais meus pulmões, ri até meus membros formigarem tanto que parecia que estavam rindo junto comigo, daquele jeito estranho. Ri alto, meus olhos se encheram de lágrimas e essas eu deixei escapar para os lados de meu rosto, secando o caminho e contraindo minha pele em sal. E acho que melhor do que meu grito, meu riso foi capaz de chamar mais atenção para mim.

Eu ainda me contorcia no chão, formigando e rindo, sentido pontadas de dor por todo meu corpo e uma ardência forte e incomoda nas partes queimadas dos meus braços, quando ouvi a porta se escancarando e alguém exclamava "capitão!". Um par de mãos fortes e calejadas se fechou ao redor dos meus ombros e começou a me erguer gentilmente, me colocando sentado e aparando meu corpo fraco para que eu não voltasse a cair deitado. Uma das mãos pousou sobre meu peito e, subitamente, aquele toque acalmou minha respiração e matou meu riso histérico. A formicação já havia parado no momento em que fui tocado. Sequei o resto das lágrimas com a bandagem em minha mão, limpando os olhos para poder visualizar melhor quem estava à minha frente.

– Capitão? – disse novamente o menino titã – Tudo bem com o senhor? O senhor caiu?

Vi Eren observando o quarto com os olhos, demorando mais nos respingos de sangue que lancei na parede e depois voltando para mim, disfarçando bem mal o choque. Sua mão em meu peito estava quente, e ele respirava no mesmo ritmo que eu. Se não o conhecesse, diria que ele que estava fazendo aquilo. Mas era coisa da minha cabeça já que eu claramente não estava bem.

– Capitão? – ele repetiu.

– Já te escutei, moleque. Estou bem, eu levantei e me desequilibrei, só.

– O senhor está bem? – perguntou, olhando dentro dos meus olhos.

Uma sensação de déjà vu me tomou. Eu já vira aqueles olhos anteriormente, mas não nele. Novos relampejos de memórias percorreram pelos meus olhos. Um titã, mãos, árvores que tampavam o sol e calor. Muito calor.

– Me ajude a levantar – ordenei. Eren me amparou pelo cotovelo e me deu todo o apoio para que meu corpo se erguesse – Obrigado.

Talvez o garoto não estivesse acostumado aos agradecimentos, porque o olhar que ele me lançou não era de nada mais que surpresa. Por um instante de silêncio incômodo ele engoliu em seco, respirou, sorriu e voltou a engolir em seco. Eren me guiou até a cama, onde me colocou sentado e me deu os dois comprimidos que estavam em cima da mesa. Quando procurou o copo e não o achou, lançou-me um olhar inquisitivo, apesar de provavelmente já saber onde o copo fora parar.

– Senhor, o copo…

– Quebrei. – respondi seco, já sabendo o que ele queria saber – Inclusive, cuidado onde pisa. Vomitei a água que estava dentro dele, e não foi bonito.

O menino titã olhou para os pés e sua expressão foi até um pouco cômica. Acompanhei seu olhar, ele já havia pisado no meu vômito e agora olhava para suas botas com um olhar de nojo. Fui tomado novamente de uma ligeira vontade de rir, porém de escárnio dessa vez. Era normal se contenta com a desgraça alheia? Ainda mais de alguém que parecia querer me ajudar? Ele sacudiu levemente as botas e deu um passo para o lado.

– Pegarei mais água, senhor – hesitou, olhando novamente para o chão. – E também um pano para limpar esta… seu vômito. Com licença.

– Dispensado – respondi mecanicamente, como sempre fizera aos meus subordinados.

Por que dessa vez parecia tão… Forçado? Eren era meu subordinado sim, mas de onde veio essa sensação e incomodo em dar-lhe uma dispensa? Não era nem mesmo uma ordem. Quando caí no chão devia ter batido a cabeça com um pouco mais de força do que achava. Dei de ombros, remexendo os comprimidos na mão boa. Deviam ser para dor, ou algo assim. Eu poderia tomá-los sem água se não tivesse jorrado toda a água possível do meu corpo pelo vômito amarelo que agora estava no chão.

E que sujeira. Aquilo realmente deveria ser limpo para ontem. Como eu fui capaz de fazer toda aquela nojeira no chão? Quem era essa pessoa no meu corpo? Eu estava simplesmente fraco, idiota, histérico e porco. Isso mesmo, um porco que vomitou. No. Chão.

Ah, Levi. O que fizeram com você?

Esforcei-me para tentar lembrar mais alguma coisa da última missão e tudo que veio em minha cabeça foi aquele par de olhos refletindo o sol, olhando tão dentro da minha alma como se apelasse em silencio para que eu sobrevivesse, e aquelas mãos quentes e gentis em volta de mim, me segurando e carregando para longe dali. Pude lembrar um pouco da sensação dos pés grandes correndo pela terra, me levando de volta até a muralha Rose.

Boom. Boom. Eles faziam, vibrando todas as células do meu corpo enquanto provocava aquele ligeiro terremoto. Cascos de cavalos seguiam ao nosso lado em uma sinfonia desafinada e familiar, tão familiar quanto os olhos que acreditei serem de Deus.

Um estalo.

– Capitão? – Eren tornou a estalar os dedos em frente ao meu rosto. – Trouxe a água, senhor. – E estendeu o copo em minha direção.

Assenti com a cabeça, sem olhá-lo, aceitei o copo e joguei os comprimidos na boca, tomando a água logo em seguida. Bebi um pouco mais devagar, sem desespero dessa vez. Um pouco escorreu pelo canto dos meus lábios e, antes que eu pudesse levar a mão com a bandagem para limpá-los, Eren me surgiu com um guardanapo. Aquele gesto me irritou profundamente.

– Não sou um inválido, moleque. Consigo limpar a minha baba sozinho, ok?

– Desculpe senhor – ele estendeu o guardanapo para mim. O tomei e limpei a boca novamente, ainda que já estivesse seca.

Ele permaneceu calado por um tempo, enquanto eu terminava de tomar a água. O corte em minha mão ainda sangrava profusamente e começava a empapar a bandagem em sangue. Finalmente, as primeiras gotas escorreram e caíram em meu colo. Novamente, ele apareceu com um guardanapo e limpou o pingo que caíra em minha calça. De onde que ele tirava aqueles guardanapos?

– Senhor, me permite? – perguntou ele, apontando para a amarração em minha mão, já carmim.

– Você é médico, por acaso? – rosnei. Não, eu não era e nunca fui a pessoa fraca que receberia cuidados do meu inferior. Era eu quem mandava; eu quem cuidava.

– Não, senhor – respondeu Eren com a voz começando a dar sinais de irritação. Eu o estava irritando? Seria um jogo divertido ver até onde ele conseguiria manter seu respeito. – Mas meu pai é e eu sei alguma coisa sobre cuidado.

– Hmm – ouch. Desarmado no último momento. Claro que o filho do médico saberia sobre cortes, como eu pudera me esquecer?

Estendi a mão para ele. Um olhar obstinado passou pelo seu rosto, mas ele ainda não me olhava. Eren desenrolou o tecido com cuidado, até tirá-lo totalmente. Jogou um trapo em um balde com água que não estivera ali instante antes. Provavelmente ele o trouxera junto com o pano para limpar meu vômito e eu não vira. Pegou outro pedaço de pano branco – sim, outro guardanapo do menino-titã-fabricador-de-guardanapos – e limpou o corte lentamente, tirando o sangue superficial depois o umedecendo para tirar o sangue seco. Era um corte fundo, e alguns caquinhos menores ainda estavam dentro da ferida.

Eren juntou os dedos em pinça e tirou um por um. Não doera, até o último, que havia entrado mais fundo em minha pele, e ele precisou se esforçar um pouco mais para retirar. Soltei um esgar de dor e, no susto, Eren apertou a mão que segurava meu antebraço, provocando uma sensação quente, macia. Confortável. Familiar. Levantei e o encontrei me encarando, o rosto apreensivo, porém com aquele olhar…

– Desculpe, senhor, o vidro estava muito fundo, não tinha como tirá-lo, não tenho uma pinça comigo, lamento. – Ele se desculpava ininterruptamente, mas eu não conseguia prestar muita atenção nas palavras dele. O que era aquela sensação?

Foi então que me lembrei.

Lembrei-me dos olhos.

Os olhos verdes.