– Sinto muito, capitão Ackerman…
– Levi – cortei – Apenas Levi.
– Desculpe – o doutor pigarreou e se ajeitou um pouco mais na cadeira. Claramente a minha presença ali o deixava desconfortável – O senhor está se recuperando muito bem, os hematomas já se foram quase completamente e a pele nova sobre as queimaduras está tão saudável quanto a que se fora, porém… – hesitou.
Porém. Não começou bem.
– Porém? – incitei. Nunca vinha nada de bom depois de uma hesitação dessas. Era sempre assim. Primeiro as boas notícias e depois a desgraça.
Mais um pigarro.
– Serei direto, senhor – disse –, sem mais delongas. O seu joelho, senhor, ele está muito ferido. Temo que, se continuar no mesmo ritmo ao qual o senhor está acostumado em pouco tempo será impossível usar a perna para fazer atividades mais complexas do que simplesmente andar.
Para quem queria ser direto e sem mais delongas, ele ainda demorou bastante para falar.
Como eu não previra isso?
– Nem DMT? – perguntei, já afastando a cadeira e pegando meu casado e o jogando por cima do ombro.
– Nem uma corrida, senhor – respondeu o médico, apreensivo. Céus, eu metia tanto medo assim? – Pelo menos por enquanto, e faremos mais testes no futuro.
– Entendo. Obrigado pelo seu tempo, doutor. – Me dirigi até a porta. – Preciso cuidar do treinamento do meu soldado agora. Com sua licença.
Não esperei resposta. Saí a passos firmes, esforçando-me ao máximo para não mancar. Realmente, toda a minha perna direita doía, mas não era nenhum tipo de dor com a qual eu nunca fosse me acostumar. Era normal. Andei o mais rápido que minha perna me permitiu até meu quarto no subsolo e me joguei na cama, olhando para o teto. Eu deveria estar indo para o pátio agora, fazer o que eu dissera que iria fazer. Mas uma sensação estranha se apossou de mim depois da conversa com o médico. Eu viraria, de verdade, um inválido. Eu não poderia mais matar titãs, sair em minhas expedições, comandar meu esquadrão.
Ah, é mesmo, eu não tinha mais o meu Esquadrão Levi. Foram todos mortos na floresta, e eu os enterrei por sob as árvores.
Suspirei. Em nada esse pensamento me ajudou. Apenas me tragou um pouco mais para baixo. Mentalmente, agradeci à minha mãe morta pelos ossos fracos. Uma vadia que não serviu nem para me dar as estruturas de um corpo decente. Nem para eu ser um humano com a habilidade de me transformar em titã, também. Eu já teria me regenerado completamente instantes depois do resgate – eu nem precisaria ser resgatado, para começo de conversa. Minha pele seria quente e macia, e meu toque seria confortável.
Batidas na porta me trouxeram de volta para a realidade. Para onde meus pensamentos me levaram? Ah, para o mesmo lugar o qual tinham ido hora sim, hora não, nesses últimos dias. É como dizem, a fraqueza nunca ataca um ponto só. Ela vem em conjunto de corpo, alma e espírito. E eu estava me saindo como um novo fraco de primeira. Melhor da minha turma.
Novamente, ouvi as leves pancadas na porta e me levantei para atendê-las. Como fantasmas, aquele par de olhos me seguia para tudo quanto é canto para onde eu ia. Será que ele não me deixaria nunca em paz?
– O que é, garoto?
Eren estava parado à minha frente, uniforme completo e equipamento de manobras verticais já preso em seu corpo. Ele transpirava e a respiração era levemente descompassada. Então pelo menos o aquecimento ele já havia feito. Poderia fazer um pouco mais e me deixar quieto um pouco. Eu não estava afim de treinar ninguém.
Ou talvez fosse bom termos um treino corporal hoje. Eu poderia usar um o alívio que umas boas pancadas proporcionavam e, afinal, o garoto se curaria em pouco tempo mesmo.
– O senhor está indisposto, capitão? – ele perguntou.
– Não. – O afastei, fechando a porta atrás de mim e começando a me encaminhar para a escada, Eren em meus calcanhares, se esforçando para acompanhar meus passos. – Hoje teremos treino físico.
– Mas senhor, nosso cronograma mandava manobras.
– Quem fez o cronograma? – perguntei, rude.
Atrás de mim, senti um pouco de hesitação da parte dele. Ele sabia a resposta, porém não gostou do meu tom, eu sabia disso. O menino era previsível, e eu já conseguia ler suas vibrações.
– O senhor – respondeu, entre dentes.
– E quem pode mudar o cronograma?
– O senhor – repetiu Eren.
– Não precisamos de mais explicações, correto?
Foi uma pergunta retórica e, apesar de toda tolice do garoto, ele conseguia entender pelo menos isso. Chegamos ao pátio em pouco tempo e, bufando de raiva, Eren se despiu de seu equipamento, jogando-o de lado. Pelo canto do olho, observei Mikasa aproximar-se dele e cochichar algo rapidamente. A resposta dele, entretanto, foi o mais clara possível e acredito que foi por pura provocação.
– O homem é doido – disse ele, olhando de esguela para mim. – Quer treinar combate. Louco!
Um sorriso maligno passou pelo meu rosto. Hoje seria um bom dia. Melhor que o dia da corte.
– Vamos, Jaeger – ordenei. – Seu maricas.
Uma onda de risinhos percorreu os soldados que começavam a ser agrupar a nossa volta como moscas em cima da carniça.
Vi Eren se aproximando de mim, enrolando faixas nas mãos, como um verdadeiro fracote que precisa proteger tudo antes do treino. Esse estúpido ainda não conseguira entender que, na hora do combate de verdade, não haveria nenhuma faixa para proteger as mãozinhas de moça.
– Vem – chamei, assumindo minha posição de batalha.
E ele veio, jogando o braço em um gancho de direita tentando acertar meu rosto. Coitado. Desviei em um rápido movimento de pernas e o deixei socar o ar, desequilibrando-se e abrindo margem para que eu o acertasse com um jab que o derrubou instantaneamente. Montei sobre ele e encaixei minhas pernas em seus quadris, forçando o peso do meu corpo sobre o dele, segurando-o no chão enquanto desferia socos em seu rosto. Rapidamente, Eren protegeu o rosto com o antebraço, debatendo-se para livrar-se de mim.
Ao nosso redor, agora a multidão era maior, e eu conseguia ouvir os gemidos de "ah", "uh", e "vai, capitão", fora um punhado de risadas. Foi então que me distraí e senti meu corpo ser virado de cabeça para baixo e um volume de pernas gigantes passar pelo meu pescoço, dando-me uma chave na cintura. Caímos Eren e eu, ele por cima do meu corpo, segurando-me forte entre suas pernas, enquanto eu lutava para me desvencilhar. O menino tinha uma força incrível nos membros inferiores. Eu realmente não esperava tanto.
– Senhor – proferiu ele, entre dentes –, o senhor não irá vencer desta vez – sua voz falhava a cada palavra.
Estava realmente interessante. Mas eu não seria o melhor soldado da humanidade uma simples chave de perna me imobilizar. Eu aprendera com Kenny exatamente o que fazer numa situação dessas. Meu corpo pequeno me dava a vantagem de não precisar de muito espaço. Girei as pernas rapidamente, fazendo com que Eren ficasse em uma posição desconfortável e afrouxasse o aperto da chave. Levantei-me com um salto e desferi o primeiro chute em suas costelas.
Meu Deus. Como era bom.
Depois outro. O terceiro, quarto, depois me abaixei e o puxei pelo cabelo, olhando bem dentro dos seus olhos, sentindo-me ser tomado por uma loucura momentânea e sussurrei, bem baixinho, meus lábios apenas se movendo, sem emitir som:
– Você não pode me salvar agora – e levei meu punho de encontrou ao seu rosto.
Aqueles olhos verdes estavam rapidamente manchados de vermelho. Escorria sangue pela sua boca, resta, nariz, pela sobrancelha. E ainda assim, quando o larguei, Eren tornou a se levantar, continuando a me desafiar daquele jeito infantil irritante, como se pedisse por mais. Apenas um de seus olhos ainda estava aberto, e havia um sentimento neles misto de medo, susto e pena. Ele estava sentindo pena de mim. Meu sangue ferveu.
Com um esgar de fúria, me lancei sobre ele novamente, mas eu já podia ver pequenas ondas de fumaça se erguendo pela sua pele, ele já se regenerava e, mesmo que lentamente, conseguia desviar dos meus golpes. Desviava mas não me atacava de volta.
– Reaja, Jaeger! – gritei, frustrado enquanto meu punho repentinamente começava a acerta o ar em volta dele. Em meu campo de visão, todos sumiram. Era como se fossemos ele e eu apenas, rodeados pela minha frustração, minha derrota, minha fraqueza, meu medo. Minha ferida. – Me acerte, moleque!
Mas ele nada fazia. Apenas ia de um lado para o outro, um dos braços colados ao corpo que pendia ligeiramente para a esquerda – ali tinha uma costela quebrada, eu tinha certeza. Respirei fundo, mirei meu braço esquerdo e lancei meu último golpe em direção a ele; já era hora de acabar com aquela aula. Ele não aprendera nada.
– Capitão – ele disse, enquanto sua mão segurava meu punho e impedia meu golpe a poucos centímetros de seu rosto. – Se o senhor quiser me acertar, não vou impedi-lo mais. Mas faça isso com propósito.
Seus olhos eram severos sobre mim, e senti que ele era o mestre e eu o aluno assustado e vulnerável. De repente, estávamos de volta ao centro do campo de treinamento, com os soldados à nossa volta, Erwin e Hange me observando no meio deles, o olhar de ambos semelhante ao de Eren – pena. Aquilo era demais.
Desvencilhei-me de Eren e soltei meu punho. Ajeitei minha roupa desalinhada e encerrei o treinamento.
– Para o vestiário, Jaeger – e olhei em volta. – Vocês não têm mais o que fazer além de dar notícia de tudo o que acontece nesse lugar como um bando de velhas fofoqueiras?
Subitamente, a multidão se dispersou constrangida pela minha repreensão – ou seria pela minha derrota? Ainda que eu houvesse saído ileso, eu perdi, eu sentia isso e todos ali sabiam disso também. Antes eu tivesse apanhado até a morte, ainda assim eu caminharia para fora dali com mais dignidade do que agora.
Eu acompanhava com os olhos Eren caminhar para fora do campo, ligeiramente mancando e cercado de pequenos fios de fumaça que saíam de seu corpo inteiro, seguido pela sua sombra, aquela garota que crescera com ele e não o deixava só em nenhum momento, quando captei de soslaio Erwin se aproximando de mim.
Tch. Não precisava de conversa agora. Apertei meu passo em direção ao alojamento, e escutei a sua voz me chamando logo atrás de mim.
– Levi – disse ele, a voz austera.
– Agora não.
A dor em minha perna voltara a atacar, forte, tornando insuportável cada passo que eu dava. Eu precisava sair do campo antes que começasse a mancar também. Não poderia dar sinais de nenhum tipo de fraqueza além dos que eu já dera hoje durante aquela luta idiota. Ouvi os passos atrás de mim, mas continuei a caminhar, andando tão rápido que quase corria, apenas para evitar mais contato humano naquele momento.
Eu sentia cada palavra do médico misturada às do meu inconsciente, martelando em minha perna dolorida. Inválido. Nem mesmo uma corrida. Sem esforço. E o que eu fizera? Claro, eu me esforçara além da conta.
Alcancei o subsolo rapidamente, já com meus membros vacilando pela dor e uma leve náusea começando a despontar em meu estômago. Abri a porta do vestiário com a palma da mão e me projetei ali para dentro, me jogando em um dos bancos de madeira encostados na parede. Recostei a cabeça para trás e fechei os olhos. Ao som da sinfonia da dor que percorria todo meu corpo, adormeci.
– Capitão Levi?
Acordei com uma sacudidela. Mãos quentes sobre meus ombros me agitando levemente. Um rosto se erguia à minha frente, cenho franzido e expressão preocupada. Meus olhos demoraram a se acostumar com a visão. O vestiário estava cheio de fumaça, completamente imerso em vapor quente e cheio de limpeza. Os soldados estavam tomando banho no subsolo? Foi então que consegui focalizar o rosto da pessoa que me sacudia.
Nu do tronco para cima, a toalha enrolada na cintura, cabelos molhados respingando aquela água quente sobre mim, um olho parcialmente inchado e roxo e o nariz só agora retomando sua forma natural, Eren Jaeger olhava para mim como se eu fosse uma criança que acabara de ser acordada pela mãe.
– Capitão, o senhor dormiu – afirmou ele, como se eu já não tivesse percebido o que acontecera.
– Jura? - afirmei ironicamente, afastando suas mãos dos meus ombros e me levantando, fazendo-o se afastar com um passo para trás. Porém, no momento em que me firmei meus pés no chão, meu joelho voltou a doer e a surpresa me fez vacilar, segurando-me na primeira coisa que encontrei para não cair.
E era o menino-titã. Eren me aparou pelo cotovelo e sentou-se ao meu lado no banco. O vapor do vestiário começava a se dissipar, mas o cheiro de limpeza persistia. O garoto relaxou os ombros ao sentar-se e fechou os olhos. O que ele estava fazendo?
– Senhor - começou ele, os lábios se movendo tão sutilmente que ele parecia estar falando dentro da minha cabeça. Fechei os olhos também e me permiti expressar toda a minha tristeza pela minha perna enquanto ele também não estava olhando e não poderia testemunhar minha derrota. – O senhor está bem?
Não respondi. Eu não mentia, nunca precisei. Talvez meu silêncio deixasse claro que eu não queria conversar. Eu estava deixando aberto à interpretação dele.
– Capitão, se me permite - começou ele e, sem esperar por resposta, continuou –, não o conheço tão bem, senhor, apesar de já termos lutado lado a lado. Mas reparei que o senhor tem andado estranho.
Silêncio. Meu rosto se contraiu de dor. Esperei passar antes de dizer qualquer coisa.
– Eu estou bem - respondi secamente. Não era uma mentira. Pelo menos não uma mentira completa.
Por que ele estava conversando comigo tão normalmente? Eu lhe havia dado uma surra e ele nem mesmo estava com raiva de mim. Por que você tem que ser sempre o bonzinho, cacete?
Mais silêncio. Minha cabeça doeu no mesmo ritmo da perna, e meu corpo me enviava os avisos de que precisava dormir. Na cama, dessa vez. Levantei-me e me dirigi até um canto mais isolado do vestiário, me despi e entrei em um do boxes de banho, abrindo toda a torneira do chuveiro, abusando indiscriminadamente da água quente e deixando-a cair sobre meus ombros. Deixei que lavasse todo o dia que se passara e me anestesiar a dor.
Não sei quanto tempo se passara enquanto eu ficara estático em baixo do chuveiro, mas minha pele já começava a se enrugar na ponta dos dedos e nas palmas da mão. Eu ficaria assim, quando ficasse velho? Talvez agora eu vivesse o suficiente para saber, já que, claramente, minha aposentadoria viria pelo meu joelho que foderia a minha carreira e não pelas mãos de um titã me devorando. Observei atentamente as linhas desenhadas ali, imaginando com quantos anos eu chegaria naquele ponto. Uns 60? E quando chegasse lá, teria alguém da minha época sobrevivido até ali para presenciar a velhice do melhor soldado da humanidade?
Peguei-me lembrando de Eren sentado do lado de fora, e me perguntei se ele sobreviveria até lá, com seus 46 anos, se ainda teria seus poderes de titã até lá, se já saberia administra-los com perfeição, se teria uma família, alguém para velar seu corpo em seu leito de morte. Perguntei-me se os amigos dele ainda estariam ao seu lado, e se Erwin e Hange ainda estariam ao meu, três velhos soldados de guerra, mutilados na alma e ranzinzas das batalhas. Será que ainda haveriam titãs? Daqui a três anos ainda teríamos ameaças à nossa existência e viveríamos confinados às muralhas?
Eram tantas perguntas passando pela minha cabeça, tantos planos que eu teria que fazer agora que a velhice me era uma realidade.
Lavei-me lentamente e fechei o chuveiro. Sequei-me, enrolei a toalha em volta da minha cintura e saí, tomando cuidado para não escorregar no piso. Finalmente meu joelho parara de doer, e eu não queria correr o risco de machucá-lo em uma queda idiota. Peguei vestes limpas de linho dentro do meu armário, me vesti e pendurei a toalha. Foi quando vi Eren através da névoa da água quente do meu banho. Ele estava do jeito o qual eu o deixara. Cabelos molhados pingando rosto abaixo, enrolado na toalha, sentado no banco com a cabeça repousada na parede. Sua expressão era serena e sua respiração pesada - ele pegara no sono, exatamente como eu fizera antes de ser acordado.
Minha mão se esticou automaticamente para dar-lhe um sacolejo, mandá-lo para seu quarto dormir, porém um impulso inconsciente me freou antes que eu chegasse a tocar-lhe a pele. Não cabia a mim perturbar o sono do moleque titã. Pelo menos não quando eu já o havia cobrado além da conta. Peguei a minha toalha e cobri-lhe o resto das pernas de fora e apaguei a luz do vestiário. A falta de ventilação ainda manteria o calor ali dentro por um tempo
No caminho de volta para meu quarto, um repentino pensamento me tomou. Você deveria tê-lo levado para o quarto ao menos. O pobre menino acordaria cheio de dor.
Dei de ombros, esquecendo daquilo na mesma rapidez com que surgira. Mas enquanto me revirava na cama por minutos a fio, tudo em que eu conseguia pensar era no meu soldado sentado sozinho naquele banco durante toda noite.
