Apanhei um par de pílulas de dentro da gaveta da minha mesa de cabeceira, joguei-as para dentro e tomei um pouco de água por cima. A água desceu como uma benção. Minha garganta estava seca e quente e o calor que fazia ali no subsolo era absurdo. Eu imaginava que esse pedaço do quartel general fosse ser o mais frio justamente por não receber nenhuma luz do sol em momento nenhum do dia, mas me enganara. O fato do garoto-titã ficar aqui em baixo também contribuía para a alta temperatura. Sempre que ele se curava, soltava aquelas ondas de vapor e preenchia todo o ambiente com elas.

No momento em que os comprimidos fizeram efeito, me levantei, calcei o chinelo e, sorrateiramente, trilhei o caminho do vestiário. Ainda era madrugada e não havia muitas velas no caminho, de forma que percorri grande parte dele no escuro. Mas eu crescera dentro daquelas paredes então estava familiarizado com o que eu deveria fazer, e seria fácil chegar até lá. Durante todo o trajeto, martelava em minha cabeça uma sequencia de perguntas e afirmativas, e eu não conseguia lidar tão bem com elas. Queria apenas que se calassem. Eu não voltaria atrás mesmo.

Cheguei ao vestiário, pura penumbra sob o finalzinho de uma lâmpada a óleo que ficava pendurara próxima da porta. Ainda havia bastante neblina quente, então presumi que Eren ainda estava ali e acertei. Ele estava agora mais torto do que da última vez que eu o vira, e sua respiração, de tão pesada, emitia pequenos roncos.

O que você está fazendo, Levi?, martelou a voz em minha cabeça novamente.

Suspirei, afastei os cabelos dos olhos – eu não iria cortá-los? Como pude me esquecer? – e avancei em direção ao garoto. O apanhei com ambos os braços, e ele me era estranhamente leve, de forma que o esforço para levantá-lo não fora dos maiores que eu já precisara fazer. Segurei-o deitado entre meus braços e meu peito e o carreguei para fora do vestiário. A caminhada fora rápida, mais rápida do que eu imaginara, e a cada passo eu conseguia ouvir mais perguntas dentro de mim. Por que você está fazendo isso?, Levi, vá para a sua cama e largue o garoto no vestiário. Você não deveria estar forçando seu joelho carregando tanto peso assim.

Mais e mais palavras surgiam à minha frente como se estivessem sendo escritas no breu no qual eu avançava, porém a única que realmente fazia algum sentido era: por que eu estava fazendo isso? Estaria eu sendo compelido por um sentimento de gratidão tão grande que precisava mesmo fazer isso tudo pelo garoto? Teria Eren algum significado para mim? Como… minha família? Minha companhia era a minha família, e nem por isso eu os tratava dessa forma. Nem mesmo Erwin que, além de meu comandante, era meu melhor amigo. Nem mesmo Felícia.

Por que eu estava me lembrando daquilo naquele momento? Como sempre acontecia a mesma coisa. Eu me lembrava de Felícia, decapitada, sangue à sua volta, meu corpo se contraía e voltava a doer. Não dor física. Dor na alma, no fundo do meu coração, onde o nome de cada um deles estava gravado a ferro.

Quando meu corpo se contraiu, senti Eren se aproximar mais de meu peito, quase afundar nele. O garoto estava tão adormecido que nem mesmo se movera desde que eu o pegara no colo para colocá-lo em seu quarto. Todo aquele treinamento o estava deixando esgotado, era visível. Olheiras fundas eram acentuadas em seu rosto, e eu tinha quase certeza de que ele estava mais magro do que no começo. Segundo Hange, os sangramentos estavam cada vez mais frequentes, e na última vez em que se transformou em titã, a vez antes de me resgatar, ele demorara uma semana para acordar.

– Espero que, no futuro, você possa perdoar a todos nós – sussurrei, olhando para frente, chegando à porta do quarto onde Eren era confinado todas as noites. – Espero, também, que entenda a finalidade de tudo isso o que estamos fazendo, Jaeger.

Abri a porta com o pé e o depositei deitado em sua cama. Retirei a toalha úmida que o envolvia e cobri seu corpo com um cobertor fino. Sua temperatura era estável – para um garoto-titã – e ele aparentava estar bem. A respiração não era mais pesada, ele agora repirava calma e tranquilamente, seu peito descendo e subindo ao que o ar entrava e saía. O observei por uns instantes, pensando no que faria no treinamento de hoje mais tarde, de forma que não exigisse demais de Eren. Talvez ficássemos no treinamento tático apenas, para que ambos os nossos corpos pudessem ter um intervalo.

Saí, fechando a porta atrás de mim com cuidado para não fazer nenhum barulho e pude jurar que, ao dar dois passos para longe dali, ouvia a voz de Eren dizendo:

– Eu entendo, capitão.

– Ei, Erwin – chamei.

O comandante me olhou enquanto tragava sua bebida lentamente, a expressão de prazer se espalhando por todo seu semblante. Não fossem pelas missões, eu tinha certeza que ele beberia aquilo todos os dias. Era uma pena que nos deixava tão fora de si.

– O que, Levi? – ele retrucou, bebendo mais um gole e servindo-se novamente da garrafa no centro da mesa.

Já era tarde, e o treinamento prático com Eren fora muito bem sucedido. O garoto ainda precisava de aperfeiçoamento, mas pude ver pelas suas feições que um dia sentado, sem fazer esforço físico algum já contribuíram para uma melhora considerável. Talvez, também um pouco mais de lógica e estratégia ajudassem a tirar de sua cabeça que ele deveria somente lutar, lutar, matar, lutar e matar novamente. Em meu bloco de anotações, me lembro de que grifei diversas vezes o lembrete que fiz a mim mesmo de trazer Armim para nosso próximo treinamento. Um pouco de cérebro extra faria bem ali.

– Tenho pensado em umas coisas, queria saber o que você acha – respondi. Foi minha vez de sorver um gole daquele líquido fermentado. Repousei a caneca sobre a mesa e deixei minhas mãos desenharem riscos aleatórios na condensação que se formava do lado de fora do recipiente, enquanto pensava nas palavras.

Contei a Erwin tudo o que havia acontecido desde o momento em que eu acordara. O quarto, o vômito, a queda, Eren me ajudando e cuidado do corte em minha mão, o "treinamento" do dia anterior, o vestiário. Contei até mesmo que o levei para o quarto e que podia jurar que o havia escutado me responder. No fim, Erwin já estava finalizando a sua terceira caneca de bebida e olhava para mim com uma sombra de diversão nos olhos, apesar de eu não conseguir entender o que havia de divertido naquilo tudo. Não era possível que ele já estava sob efeito da bebida.

Meu comandante suspirou e deu de ombros.

– Levi, você agradeceu ao menino por ter salvado a sua vida? – ele perguntou.

– Sim – respondi, tentando buscar no fundo da minha mente o momento no qual eu o fiz de fato, apenas para me assegurar da veracidade do que eu estava dizendo. Tentei mas não consegui. – Não sei… – reiterei.

– Talvez você apenas precise agradecer a ele por isso e vai passar esse sentimento de obrigação que você tem tido – mais um gole –, pois é isso que parece para mim: você está se esforçando para agradecê-lo sendo que precisa apenas de uma palavra.

Novamente, ele encheu seu copo com o resto da garrafa que estava sobre a mesa e se levantou, um pouco cambaleante – mas ainda assim mantendo sua elegância de comandante – e se dirigiu até o armário para pegar mais uma.

– E nada de descontar suas frustrações nos meus soldados – ele disse, de costas para mim. – Eles não são seus sacos de pancadas e você não tem o direito. Mesmo que ele vá se regenerar no mesmo dia. Fui claro? Meu esquadrão não é um circo para que cenas como a de hoje voltem a acontecer.

Senti uma leve quentura se espalhar pelo meu rosto. O abaixei até encarar o líquido dourado dentro de minha caneca e observei meu reflexo ali por um tempo. Apenas assenti com a cabeça e levei mais um gole até os lábios. A mão de Erwin pousou em meu ombro, apertando-o levemente, em sinal de despedida, e ele foi deixando o cômodo, os passos mais arrastados do que o normal, a caneca em sua mão vacilando ora sim, ora não, expelindo um pouco de líquido enquanto ele andava.

Tch. Peguei um pano e sequei a sujeira que ele fez.

Talvez Erwin tivesse razão. Eu precisava apenas agradecer a Eren, e então poderia voltar ao meu ritmo normal, sem precisar me preocupar com o que ele sentiria. Minha consciência estaria tranquila. Bebi mais um gole, sentindo-me melhor. Bebi mais um, outro e depois outro. Sozinho, dei cabo de duas garrafas de bebida, e deixei a terceira pela metade, pois meu organismo já não aguentava mais álcool, e estava completamente satisfeito.

Afastei a cadeira para trás, levei meu copo até a pia, o lavei, sequei e guardei novamente dentro do armário de copos. Limpei todo o restante da copa, apaguei a luz e me encaminhei em direção ao meu quarto. O corredor estava completamente iluminado, as luzes bruxuleando e lançando sombras engraçadas pelas paredes. Estiquei os dedos e toquei as sombras com as pontas deles. Eu mesmo comecei a projetar algumas com meus dedos, somando-me às manchas escuras nas paredes de pedra, me tornando parte daquilo.

Seria bom ser uma sombra, pensei. Viver na escuridão, não precisar falar, correr, não ter prazo de validade e não ter responsabilidades, a não ser assustar um covarde aqui, outro ali, correr atrás de lâmpadas e ficar na espreita do dia, podendo dormir por todo ele e existindo somente na noite.

Fui correndo meus dedos até alcançar a porta e, com certa dificuldade, girei a maçaneta e entrei. Havia uma lamparina acesa sobre a mesa e uma pessoa sentada na cadeira, inclinada para frente, lendo um volume grosso, que se projetava para cima da mesa em um tamanho absurdo. Com os olhos turvos, a visão levemente prejudicada pelo álcool e o corpo mole, me arrastei para dentro, cambaleando em direção ao intruso em meu quarto, enquanto ele se virava para mim e me encarava.

À luz amarela da lâmpada, os olhos verdes adquiriram um tom âmbar, como se houvessem ficado estáticos no tempo, conservados até o dia em que seriam despertados novamente.

O que? O que eu estava dizendo?

– Capitão? – exclamou Eren, surpreso, saltando da cadeira para me receber em posição de guarda.

Olhei em volta. Aquele definitivamente não era o meu quarto. O que eu estava fazendo ali? Como que eu entrara Ali do nada? Amaldiçoei Erwin por ter me deixado sozinho na copa com toda aquela bebida e um peso de bigorna na consciência. Não era para eu estar ali. Era para eu estar deitado em minha cama dormindo, me recuperando para o dia seguinte. Eu teria fisioterapia, treinamento, reuniões e manutenção do meu equipamento. Sentei-me na cama de Eren e comecei a tirar as botas.

Meu Deus, o que eu estava fazendo? Levi, este não é o seu quarto, saia dessa cama, seu estúpido!

– Shh – fiz para a voz em minha cabeça.

Terminei de descalçar as botas e me joguei na cama, de cabeça no travesseiro. Jaeger ainda me olhava abismado, como se não acreditasse no que estava vendo. Aquele garoto era muito estranho. E agora ele estava rodando, me deixando tonto.

– Senhor?...

– Pare de rodar, moleque, a não ser que queira que eu vomite no chão do seu quarto também – respondi, sentindo a ânsia se formar no fundo de meu estômago. – Traga um copo d'água também. Sem rodar.

O que? Aquela era a minha voz mesmo?

Ouvi passos se afastarem, a porta se abrir, se fechar. Passou-se uma eternidade até que ele voltasse com um copo. Estiquei a mão e peguei o copo. Eu ainda estava deitado? A primeira coisa que me lembrei foi de um parcial afogamento, com água entrando pelo meu nariz e me fazendo tossir por uns bons cinco minutos, assoando água e coriza em meu lenço. Droga, eu teria que jogar aquele fora. Um par de mãos me ergueu e me segurou até que eu me recompusesse. Tossi mais um pouco e terminei de limpar meu nariz com o lenço, o embolei na mão e arremessei em direção à sesta de lixo.

Acertei. Eu ainda era bom em alguma coisa.

Eren sentou-se à minha frente, segurando o copo que tomara de minha mão e me olhando, enquanto a outra mão ainda me amparava. Merda. Tudo voltara a rodar no quarto. Meu corpo tombava de um lado para o outro, mas ainda assim eu não caía. Ele ainda me segurava bem firme com aquelas mãos que estavam pegando fogo. Mas o mais estranho de tudo era que, de tão quentes que eram, eram confortáveis, não me machucavam. Até mesmo o olhar severo que ele me lançava, era tudo suportável. Eu errara, bebera além da conta e agora estava aqui, comportando-me como um tolo.

Recostado no estrado da cama de Eren, fechei os olhos e esperei que tudo parasse de rodar. Estiquei a mão em direção ao copo e ele o encaixou entre os meus dedos, guiando minha mão até minha boca. Bebi um gole pequeno, esperando que a água fizesse algum bem para meu corpo totalmente alcoolizado e fora de si.

– Capitão, tome esses comprimidos – ele colocou mais três pílulas em minha mão e as empurrou para mim –, irão fazê-lo se sentir melhor.

– Não. – Rejeitei, ainda de olhos fechados.

– Senhor, desculpe, mas não é um pedido – ordenou Eren.

Abri os olhos instantaneamente, elevando meu olhar até o seu, e pude ver as rugas em sua testa, e o suor de nervoso escorrendo pela sua testa. O coitado do garoto estava com medo de mim. Que mal eu poderia fazer naquele estado?

Limitei-me a dar de ombros. Se eu disse que não, da mesma forma ele poderia me forçar, já que eu provavelmente não conseguiria resistir. Apanhei os remédios de sua mão, um de cada cor, e coloquei-os na boca, engolindo-os em seco. Suspirei. Levantei-me para voltar para o meu quarto, já basta de humilhação pelo segundo dia seguido. Já era hora de parar com aquela postura infantil a qual eu vinha mostrando nos últimos dias. Era tempo de me comportar como o capitão que eu era e não mais colocar o garoto no meio dos meus assuntos particulares.

Só restava fazer uma coisa antes de sair. Uma pequena coisa, a qual eu vinha ensaiando sozinho desde que Erwin me largara na copa, acompanhado somente das garrafas de bebida. Como era mesmo a palavra que eu devia falar? Esforcei-me um pouco para lembrar enquanto levantava da cama e pegava minhas botas do chão, enfiando-as debaixo do braço e cambaleando para fora do quarto.

– Senhor – começou Eren, levantando-se atrás de mim, mantendo uma distância segura da qual pudesse me pegar caso eu caísse –, o senhor precisa de ajuda?

Não respondi. Continuei andando, a visão mais clara e menos rodopiante, graças ao remédio que ele me dera, provavelmente. Balancei a cabeça para mim mesmo, enquanto descartava mentalmente as palavras. O que era mesmo que Erwin me aconselhara a fazer? Desculpar-me? Não, não era isso.

– O senhor tem certeza? – ele perguntou, tocando meu ombro.

Num reflexo, afastei sua mão, segurando-a entre a minha e o empurrei com a mão direita, tocando-lhe o peito, em uma manobra que Kenny me ensinara quando ainda era criança, para repelir pessoas que chegassem por trás de mim. E por que diabos eu estava pensado em Kenny nesse momento? Porque eu reagira daquela forma?

– Não me toque – sussurrei, apertando o punho de Eren entre meus dedos, a outra mão exercendo pressão em seu peito, espalmando calor pelos meus dedos e subindo pelo meu braço. – Nunca mais – sibilei.

Mas nunca tirei a mão dele. Encaramos-nos por um tempo e, apesar da minha visão estar melhor, minha cabeça ainda estava um pouco fora de foco. Eu sentia um impulso vindo do fundo de mim, uma pontinha de luz despontando no meu buraco negro pessoal e pulsando levemente em direção ao meu coração, que começou a bater descompassado. Eu estava nervoso. Eu estava nervoso? Uma gota de suor escorreu pela minha espinha.

Engoli em seco. Abri a boca. Eu já sabia qual a palavra e o que eu deveria fazer com ela.

Então, eu avancei.