Eren olhava para Mikasa sob a sobra da árvore do campo de treinamento. Sua meia-irmã e melhor amiga nas horas vagas costurava-lhe uma camisa preta, pois a sua havia soltado a costura em alguns pontos. Ela fazia aquilo com uma precisão cirúrgica, os olhos se movendo se um lado para o outro rapidamente como se o mundo se resumisse aos pontos, linha e agulha. Ela parecia tão serena… sua cabeça provavelmente vagando em algum lugar distante, lutas e ação como ela gostava.

Ele suspirou. Desde a noite passada, não conseguira dormir. Os dedos, constantemente tocando os lábios e a face, logo se repreendendo pelo ato e abaixando as mãos. Ora e outra, sentia o olhar de relance de Mikasa, e abaixava a cabeça. Ela sabia que havia algo errado como sempre soubera. Eren se deixou cair deitado de costas na grama, os braços cruzados atrás da cabeça para impedir que as mãos voltassem a tocar os lábios. Havia um pouco de formigamento percorrendo seu corpo e, sempre que Eren fechava os olhos, ele sentia um arrepio percorrer sua espinha.

De olhos abertos, ele observava a copa da árvore acima dele, o leve balanço das folhas pelo vento levava um cheiro agradável, que o fazia se lembrar de coisas boas. Talvez aquilo nem tivesse acontecido realmente. Poderia ter sido um sonho.

Um sonho vivo e límpido em sua memória. Passou a língua sobre o lábio inferior e voltou a fechar os olhos, apertando-os dessa vez. Ou a lembrança desapareceria com o tempo ou simplesmente ficaria ali, esperando uma pequena centelha de confirmação.

–––

Saí do alojamento já vestido, na primeira luz do sol.

Minha cabeça doía e minha única companhia era uma caneca de café fumegante e amargo. Todos os pedaços do meu corpo doíam como quando no dia em que acordei após o meu resgate, e eu me sentia tão desidratado como se tivesse ficado anos sem beber uma gota d'água. Meu DMT preso à minha cintura e minhas faixas firmemente presas ao meu corpo, eu logo começaria meus treinos junto ao médico que me auxiliaria nas novas manobras. Eu precisava urgentemente ocupar minha cabeça com algo que envolvesse adrenalina. Adrenalina tão forte que bloqueasse meus pensamentos.

Deixei a caneca no parapeito da janela da cozinha que dava para o lado de fora e me dirigi até os suportes. Dr. Marcel já me esperava com sua prancheta de anotações maleta aberta e o uniforme da Tropa de Exploração. Ele era o melhor médico que Erwin conseguira para mim, eu sabia, e ele fora outrora, um soldado como eu. Minha esperança residia na experiência passada que ele possuía como soldado e em sua nova como médico.

O treinamento correu bem durante o dia, sem dores no joelho – graças aos anestésicos – e consegui ter muito sucesso nas manobras mais equilibradas de acordo com a minha condição. Marcel desenvolvera um anexo ao DMT que permitia o peso deslocar-se mais para a perna direta que para a esquerda, e eu teria apenas que aprender a trabalhar mais com uma perna do que as duas. O sol já estava a pino quando terminamos, e meu estômago roncava.

Eu estava de extremo bom humor naquele dia, o que era raro desde o incidente na floresta com… desde que eu fora resgatado. Era aquele o primeiro dia da minha recuperação no qual eu não me sentia um doente inválido. Eu treinara muito bem e aos poucos começava a me sentir como um capitão novamente. Encaminhei-me para o refeitório para o almoço, hoje em conjunto com os tenentes e soldados menores. Erwin insistia que sempre teríamos um dia da semana de confraternização com os nossos subordinados como semelhantes.

Que fosse.

Entrei no refeitório de paredes de madeira, e fui recebido calorosamente pelos meus soldados. Tapinhas nas costas e boas vindas vieram de todos os cantos e consegui escutar mesmo "que boa forma, capitão Levi!" de algum lugar. É, aquele definitivamente estava sendo um dia bom.

Servi-me de pão e ensopado de legumes e sentei-me em uma mesa aleatória, coincidentemente sendo dos meus soldados mais novos, da 104ª turma. A conversa da mesa silenciou-se repentinamente ao que sentei, e gesticulei com a mão para que continuassem.

– Continuem – disse, enfiando um naco de pão na boca. – Não se preocupem comigo.

Era palpável a ansiedade em seus rostos, mas não demorou muito e voltaram a conversar normalmente. Connie falava energicamente do treinamento daquela manhã, quando Hange os colocou em contato com um dos titãs capturados, para que fizessem os testes de sensibilidade e de observação e de como o titã avançou para mordê-lo quando se aproximou. Houve uma onda de risadas contidas e voltaram a trocar as experiências daquele dia. Foi quando Armim falou, e sua voz chamou a minha atenção. Mas o que me fez para a colher da minha sopa no caminho para a boca foi quando ele o mencionou.

– … mas estranho que Eren não tenha participado – disse, bebendo um gole de água para empurrar o pão para baixo. – Ele parecia particularmente interessado em hoje, ainda mais por serem titãs capturados no dia em que fechamos a muralha Rose.

– Onde ele estava, Armim? – perguntou Sasha. A menina-batata, para variar, mal mastigava um pedaço de pão e já mergulhava outro no ensopado, levando-o à boca.

O rapaz deu de ombros.

– Com Mikasa. A última vez que os vi, estavam sobre a maior árvore lá do campo de treinamento. Ele estava deitado, mordendo os dedos, acho – afirmou. – Acredito que só precisava de um tempo.

Senti algo despertar dentro de mim. Não algo como no dia em que me tornei eu, mas algo estranho, como uma válvula que se fechasse justamente quando eu precisava de alguma forma de escape. Deixei metade da minha refeição no prato e afastei a minha cadeira, levantando-me o mais rápido possível.

– Com a licença de vocês.

– Capitão! – ouvi a voz de alguém. – Posso comer o restante dos seus alimentos? – perguntara Sasha.

Acenei que sim com a mão e continuei me dirigindo para a porta. Minhas mãos tremiam enquanto eu andava, e havia um pouco de caldo de ensopado em minhas roupas. Saquei um lenço do bolso da jaqueta e comecei a limpar a sujeira, olhando diretamente para o local enquanto me dirigia à saída. Eu precisava sair dali, de perto daquelas crianças e da menção de Eren. Eu simplesmente precisava. Algo estava errado comigo e estava ligado diretamente a ele e…

Boom.

Vi-me sentado no chão, recém-caído de um esbarrão com alguém que entrava pela porta do refeitório com a mesma velocidade de desatenção com a qual eu saía. Minhas mãos apararam minha queda e por pouco não caí de bunda, machucando o pouco que e ainda tinha. E quando vi com quem eu havia esbarrado, levantei-me de um pulo, ajeitando minhas roupas e abaixando a cabeça, os pés já voltando a acelerar em direção à saída, ainda com mais pressa que da primeira vez.

– Capitão! – começou Eren – Me des…

– Jaeger. – respondi com uma breve saudação, sentindo a face em chamas.

Quando passei ao seu lado, nossos braços se encontrando levemente, senti uma breve estática, algo que fez com que meu coração batesse com tanta força que parecia querer saltar do meu peito. Até doía. Minhas mãos formigaram fortemente e meus lábios pulsaram. Eu precisava de uma bebida e de sair dali.

Alcancei o jardim ao lado de fora do pátio com uma rapidez espetacular, e o vestiário ainda mais rápido. Entrei no banheiro, me despi, liguei o chuveiro e me enviei de cabeça ali embaixo. A água havia de lavar aquela vergonha para longe. Então realmente acontecera, não é mesmo?

Noite passada eu estava bêbado, entrei no quarto de Eren para me desculpar, mas acabei…

Não, eu não pensaria naquilo. Eu não poderia pensar naquilo, porque eu sentia, acima de tudo, vergonha. O que ele pensaria de mim agora? Eu era seu tutor. Eu brigara por ele na corte, ele estava sob meus cuidados, e agora ele não confiaria mais em mim, eu acredito. Ou não teria mais o mesmo respeito, até porque quem respeitaria um capitão bêbado e impulsivo que faria coisas absurdas? Não, não, um capitão homem que faria o que eu fizera na noite passada?

Meu rosto queimava a ponto de eu querer arrancar a pele fora, e o sentimento que mais vibrava dentro de mim além de todos os outros, e além até da vergonha, era a raiva. Eu sentia raiva de mim por haver feito o que fiz… e sentia ódio do meu corpo por reagir da forma que estava reagindo sempre que a lembrança voltava a cruzar pela minha mente. Aqueles espasmos, arrepios, aquele calor confortável, aquela sensação de vontade, eu poderia pegar todos e jogar no lixo, me livrar daquilo para ontem.

Deixei-me escorregar pelo box e acabei sentado no chão, sentindo a água fria escorrer pelas minhas costas. A sensação era boa, ao menos. Ajudava a colocar meus pensamentos em ordem e a ver minhas possibilidades de movimentos mais claramente. Eu tinha duas alternativas. Uma era agir como nada houvesse acontecido, e prosseguir os treinamentos em particular com Eren como estavam sendo antes do… antes do incidente. Ou chamá-lo para uma reunião em particular e ordenar que esquecesse o que houvera, pois eu era seu capitão e estava em um dia ruim.

Suspirei.

Na teoria parecia tão mais fácil do que seria na prática. Levantei-me com cuidado, me lavei duas vezes, para ter certeza de que o sabão tiraria todo resquício da vergonha de mim e fechei o chuveiro. Saí do box enrolado na toalha e me postei na frente do espelho que havia sobre a pia de lavar as mãos. Meu cabelo precisava de um corte e talvez aquela fosse a melhor hora para dar um fim naquela cabeleira toda. E, tal como antes, eu precisava de uma distração.

Peguei uma navalha de dentro do armário do espelho e voltei a fechá-lo, e quando o fiz, notei o reflexo de Eren parado à porta, olhando fixamente para mim, suado, cansado e ofegante. Seu peito arfava fortemente, e seus olhos pareciam tão cansados quanto os meus. Então ele também não dormira durante a noite.

O que você fizera, Levi?

Me virei para ele com o meu olhar mais indiferente, lâmina na mão.

– O que foi, Jaeger? – perguntei.

– Eu gostaria de me desculpar por haver derrubado o senhor, capitão – disse ele, as palavras entrecortadas pela falta de ar. Ele se apoiou nos joelhos, abaixando a cabeça.

Dei de ombros, mesmo sabendo que ele não estava olhando.

– Está tudo bem, moleque. – Voltei à minha tarefa inicial, sentindo a mão tremer de nervoso.

Eu me sentia um adolescente. Por que estava agindo daquela forma? Aquilo nunca havia acontecido comigo e eu não sabia lidar com a situação, nem descrever o motivo pelo qual ela estava acontecendo. Por que eu tinha tanta confiança em me lançar dezenas de metros no ar e arrebentar a nuca de titãs com dez vezes o meu tamanho e, perto desse menino que, mesmo que maior que eu, ainda era mais novo e menos experiente do que eu, eu me tremia todo como um iniciante com medo?

Aquilo não estava certo.

Larguei a lâmina na pia, que caiu na porcelana, batendo e emitindo um som agudo. Virei-me para falar com Eren, mandá-lo embora dali e dizer que delegaria à Hange a função de cuidar dele, que já não me interessava mais, eu já tinha meus novos problemas para cuidar e não poderia destacar meu tempo para ele. Mas ao me virar, ele já havia me alcançado daquele jeito sorrateiro que eu o ensinara. Estávamos a poucos passos um do outro, e eu já podia sentir todo o calor da sua respiração quente de titã.

– Senhor, sobre ontem – começou ele –, pode ter certeza de que não contarei ao comandante.

Dei de ombros outra vez.

– Tá – respondi secamente. – Andei pensando sobre seu treinamento e visto as minhas novas condições, decidi repassar a responsabilidade sobre você para Hange – cuspi tudo de uma vez.

Seus olhos se arregalaram e sua expressão passou de surpresa, para exasperação, até medo. Por fim, quando falou, sua voz era pesada e rude.

– Eu não sou um brinquedo que você pode passar para outro quando se cansa – vociferou Eren, avançando em minha direção, com o dedo apontado para o meu peito.

Com um tapa rápido, querendo evitar maiores contatos com ele, abaixei seu dedo.

– Não aponte o dedo para mim, soldado – rosnei. – Sou seu capitão e eu faço com você o que bem desejar.

Eu não vou trocar de comando – disse ele com a voz intercalada, entre os dentes.

– Eu estou ordenando, e não te pedindo. – Foi a minha vez de apontar o dedo para ele, bem em direção ao seu rosto. – Eu sou seu superior, Jaeger! E se você está aqui hoje, é por que eu quis – minha voz já começava a se elevar, meu dedo apontado para ele tremendo. Gotículas de suor se formavam em minhas costas e meu coração já era visível por baixo da minha pele, tamanha força com que pulsava. – Eu já disse que eu faço o que eu quiser com você! E se você vai…

Eren me interrompeu agarrando-me pelo queixo e me elevando à sua altura, de forma que nos encaramos por um tempo, rostos próximos, e ambas as respirações um do outro se misturando naquela nuvem de vapor quente que parecia começar a sair dele.

– Jaeger, se você se transformar aqui em baixo – comecei, minha voz não passando de um sussurro raivoso –, você me matará e, por consequência, meus soldados matarão você.

Os olhos dele eram duros, grandes olhos verdes cheios de raiva ao que me parecia,e a mão fumegando em meu rosto. Lentamente, levei as minhas mãos de encontro às dele e as retirei dali, sentindo aquela mesma estática de mais cedo percorrer dos meus dedos até os dele, uma corrente de choque que fazia vibrar até o núcleo da minha menor célula. O que era aquela maldita sensação que eu nunca sentira antes em minha vida?

– Você não pode fazer o que quiser comigo – disse ele, aparentemente mais calmo, desvencilhando suas mãos das minhas. – Você não pode me jogar para outra pessoa só porque se entediou do meu treinamento, Levi.

A menção ao meu nome, somente meu nome fez com que eu me sentisse nu. Não que eu não estivesse, claro. Mas havia aquele abismo entre meus soldados e eu, um abismo que nos separava e me mantinha afastado até dos mais próximos, e quem era esse garoto que estava vencendo esse espaço entre nós? Quem ele achava que era?

– E você não pode simplesmente entrar dentro do meu quarto no meio da noite – complementou ele – e me beijar como se eu fosse uma putinha de esquina da capital do rei!

Suas palavras me atingiram como uma rajada de lâminas, e estaquei no chão. Então eu realmente fizera aquilo, certo? O que se passara pela minha cabeça? Eren balançou a cabeça e se virou, pisando forte e caminhando em direção à porta do vestiário. Onde ele estava indo? Aquela conversa ainda não havia terminado, por que ele estava saindo?

E o que era esse impulso? Por que eu estava indo atrás dele? Levi, por que você estava agarrando o pulso de Jaeger e o forçando a virar para você?

– Capitão, o que você está fazendo? – ele questionou, o cenho franzido, porém nenhum sinal de resistência.

– Gostaria de saber, moleque – respondi, forçando-o para mais perto de mim, tão perto que a ponta de meu nariz ficou a milímetros do seu. Tão perto que eu podia sentir a vibração energética de seu corpo sendo transmitida para o meu.

De olhos bem abertos, sem noção nenhuma do que estava fazendo, encostei a testa na sua, quente, aquele calor que já me era familiar, e permiti que meus olhos se encontrassem fixamente nos dele enquanto permiti meus lábios de projetarem-se em direção aos seus, úmidos e fumegantes.

E por alguns poucos segundos, ali ficaram, até que Eren soltou-se do meu aperto em seu pulso.

Fodeu. Foi meu primeiro pensamento. Além de tudo, agora ele poderia sair por aí dizendo que seu oficial era um pervertido. Eu estava arruinado, de corpo, reputação. O que eu faria agora.

Mas, ao contrário do que pensei, ele se libertou de minhas mãos apenas para segurar meu rosto entre as suas e abrir meus lábios com os seus, fechar seus olhos e me beijar.