Eu queria dizer que ficara tudo bem depois do acontecido no banheiro. Gostaria de dizer que, na verdade, aquilo nunca acontecera que eu acordara deitado em minha cama, febril, tendo devaneios e delírios de febre. Mas a merda da realidade, dura como era, não me daria essa colher de chá. A única coisa que fazia jus à minha vontade foi acordar em minha cama. As paredes de pedra davam um clima frio ao meu quarto, um clima que me acalmava o espírito um pouco. Eu ouvia minha respiração alta em meus ouvidos, como se estivesse vindo de outra pessoa próxima a mim.

Não havia ninguém, que fique claro. Mas eu queria que houvesse. Queria uma pessoa apenas ao meu lado, mesmo que fosse para ficar deitada próxima de mim, encarando o mesmo teto e ouvindo os barulhos que a construção fazia. E ao mesmo tempo, eu estava feliz por estar só, de ter apenas a mim mesmo de companhia, porque eu sabia que o que eu queria era errado em tantas maneiras diferentes que eu não conseguia nem mesmo começar a enumerá-las.

Primeiro: eu queria um homem ao meu lado. Um homem. O correto não era um homem e uma mulher? E que infernos era essa vontade maluca de estar com um moleque tantos anos mais novo que eu que eu mal conhecia que deveria, supostamente, estar seguro sob a minha vigilância? Afinal, eu o tomara da corte para poder desenvolver suas habilidades e torná-lo um dos melhores soldados da Tropa de Exploração, e eu acabara me afeiçoando a ele porque ele simplesmente salvou a minha vida? Era esse o custo daquilo tudo? Não teria sido melhor, então, aquela morte trágica, preso entre as mandíbulas de uma bosta de um titã? Eu já havia agradecido e porque diabos aquele sentimento persistia?

O menino não tinha nada de especial!

Ok, na verdade ele até tinha algo especial, mas eu não me sinto atraído, nem um pouco, por um titã. Bem pelo contrário, acho que são criaturas desprezíveis, que mataram meus primeiros, meus segundos, provavelmente, até meus últimos companheiros. E o fato de Eren ser um titã não era bônus nenhum para mim.

Mas havia algo nele. Havia alguma coisa naquele olhar que ele lançava para mim, o jeito como aqueles olhos verdes penetravam no fundo da minha alma e desarmava minhas defesas uma por uma, até eu estar completamente vulnerável e idiota em sua presença. Havia algo em seu sorriso, no jeito que seus lábios mexiam, o jeito que ele içava seu corpo para o alto enquanto usava o DTM e voltava ao chão. Até mesmo o jeito que seus ombros se moviam, para cima e para baixo, quando ele respirava. Tudo aquilo conferia a Eren uma coisa que eu não sabia explicar, mas que fazia como que eu quisesse estar sempre em sua presença, fazia com que eu tremesse e minha voz falhasse e as minhas mãos suassem com a possibilidade de chegar perto dele.

E como é que eu não havia reparado em nada disso antes? E agora, o que eu deveria fazer?

As minhas duas primeiras opções voltaram à minha cabeça. Eu realmente poderia dizer a ele para esquecer o que acontecera, porque, ao contrário do que ele disse, eu poderia, sim, fazer o que eu quisesse. Eu era o capitão dessa merda inteira, e apenas Erwin mandava mais que eu, ainda assim, sempre respeitando minha autoridade. Ou então poderíamos agir como se nada houvesse acontecido, prosseguir com o meu plano de colocá-lo sob o comando de Hange, que exploraria melhor seu potencial de titã e o treinaria como um soldado de retaguarda, preservando sua vida por um pouco mais de tempo.

Tapei os olhos com o braço e mexi os dedos, os contraindo e soltando. Senti a cicatriz do corte em minha mão, da vez em que apertei o copo de vidro e ele se espatifou ali. Lembro-me claramente de Eren cuidado da minha ferida com aquelas mãos quentes e gentis, limpando os cacos de vidro e o corte e enfaixado novamente. Lembro-me de seus olhos desculpando-se quando ele pegara um caco que estava mais fundo e me fizera sentir dor. Lembro-me, ainda mais claramente de quando o reconheci e como minha vida e perspectivas mudaram desde então.

Meu último pensamento fora tentando entender o porquê de eu ter deixado o banheiro em tamanha velocidade quando Eren me retribuíra o beijo. E adormeci, segurando aquela cicatriz com a minha vida.

–––

Havia se passado uma semana. Uma miserável semana de treinamento, luta, um pouco de combate corpo-a-corpo e mais do mesmo. Eren ainda estava sob meus cuidados. Nem ele nem eu tivemos coragem de pedir a dispensa um do outro, nem a troca de comando, mas não nos falávamos. Eu havia jurado a mim mesmo que não renderia mais daquilo, que fora simplesmente um surto de gratidão, algo que acontecera tão rápido e intenso que eu não soubera administrar.

Ele também não demonstrava sinais de querer conversar sobre aquilo. Ele simplesmente deixou passar.

Nossos treinamentos eram intensos e por mais de uma vez, nos vi no chão, rolando entre chaves e socos, um tentando derrotar o outro com a força bruta. Mas no fim, o resultado era sempre mais positivo e, naquela última vez em que Eren se transformara em titã, ele conseguia responder aos comandos de Hange e reagir aos estímulos muito bem. Seus reflexos estavam mais rápidos e ele havia tentado até algumas técnicas de lutas, apesar de sabermos que os titãs lá fora não dariam muito crédito para isso.

Já era hora de sair em nossa primeira missão com o menino-titã, ver seu desempenho em campo de batalha. Iríamos em formação abrindo caminho pelo interior da muralha Maria, partindo do distrito de Trost e caminhando rente à muralha Rose, abrindo o caminho para montar os postos de abastecimento para quando efetivássemos a missão de retomada da primeira volta do território. Eren estaria em meu esquadrão, claro, junto com Mikasa, Jean e mais dois soldados veteranos. O restante seria dividido em cinco companhias e a formação nos deixaria na retaguarda à direita, lugar ocupado por Hange comumente. Seria bom começar de uma posição mais leve para que o menino pegasse o ritmo aos poucos.

Entrei no refeitório e havia apenas uma cadeira ocupada, alguém sentado com as mãos cruzadas em cima da mesa, a cabeça baixa, encostada nelas, e um zumbido quase inaudível provinha dele. Imaginei que estivesse dizendo alguma oração ou algo do tipo, o que era normal de alguns dos meus soldados. Eles acreditavam que pedir forças para algo superior os ajudaria a voltar vivos para casa. Dei de ombros, não querendo ser o inconveniente que atrapalha o momento íntimo da pessoa com sua divindade. Encaminhei-me até a mesa onde estavam os alimentos e me servi de uma xícara de chá preto, que diziam ter vindo de um lugar chamado Índia; um território chamado país, detentor de uma cultura que muitos chamavam de exótica.

Beberiquei um pouco do líquido fumegante e puxei uma cadeira no outro extremo da mesa onde o rapaz estava sentado. Tentei ser o mais silencioso possível, porém a cadeira rangeu no momento em que a puxei para trás. A cabeça dele se ergueu e, com a xícara ao caminho da boca, vi Eren me encarando, com um círculo vermelho no meio da testa, onde estivera apoiada nas mãos. Seus olhos pareciam vermelhos e inchados, e ele fungava o nariz, que estava manchado de vermelho. Sangue, pensei.

– Você está bem, Jaeger? – perguntei, mantendo toda a indiferença que eu conseguira juntar nessa semana de treinamento. – Seu nariz está sujo.

Ele pegou um guardanapo que estava em cima da mesa e limpou o local, limpando também, depois, os olhos e a testa suada.

– Desculpe, senhor – respondeu. – Obrigado.

Dei de ombros. Ao menos meu esforço para manter aquela relação o mais profissional possível parecia estar dando certo. Continuei bebendo meu chá, olhando para o outro lado do refeitório. As vigas de madeira que sustentavam o teto logo, logo, precisariam ser trocadas. Todo novo soldado que passava por ali entalhava seu nome na madeira, e, em alguns anos, não restaria madeira propriamente dita para sustentar mais nada. Anotei mentalmente que diria a Erwin pra providenciar aquilo logo.

– Capitão – começou Eren, trazendo minha atenção de volta a ele –, e se eu não conseguir me transformar, o que faremos?

– Lutaremos. – Respondi, olhando dentro de seus olhos. – Todos temos equipamentos e lâminas, e todos sempre estivemos aqui para lutar com o inimigo. Não se preocupe. Vocês têm a mim no esquadrão para tomar conta das suas vidas.

Eu gostava disso. Gostava de poder cuidar da vida dos meus soldados, gostava de saber que eu era o melhor soldado da humanidade justamente por não deixar que eles se ferissem quando estivessem sob a minha asa.

– Ok, senhor – ele disse, se levantando. – Com a sua licença.

Acenei com os dedos, o dispensando. Mas não sei o que houve comigo quando o vi saindo pela porta, o que me causou o ímpeto de chamá-lo novamente.

– Jaeger!

– Senhor?

– Eu cuidarei de você. – falei. As palavras soaram mais clichês e desconcertadas do que eu pretendia, mas eram verdadeiras. Eu cuidaria dele, protegeria sua vida com a minha, se preciso fosse.

Eren maneou a cabeça para mim, dando a entender que captar o que eu lhe disse. Por que eu estava fazendo aquilo?

Terminei meu chá e comi um biscoito, mastigando lentamente, gravando todos os detalhes daquela rápida conversa e repassando todos pela minha mente. Não fora nada de mais, não é? Exceto pela parte em que eu falei com Eren que o protegeria. Eu deveria mesmo ter sido tão enfático? Ele já seria alvo da minha proteção, mesmo que eu não estivesse…

Suspirei e me levantei, recolhendo os farelos do biscoito, e ambas as nossas canecas. Lavei-as rapidamente e deixei secando penduradas no suporte para os copos e saí. Uma única coisa que não me atraía em Eren era a sua total falta de senso de limpeza. Eu simplesmente não era obrigado. Se ele fosse meu, aquilo não aconteceria.

O que? Se ele fosse o que, Levi?, a voz martelou em minha cabeça. Meu rosto enrubesceu e me senti constrangido como uma criança. Eu precisava de um pouco de ação para tirar o vazio em minha cabeça que me permitia ter esse tipo de pensamento.

Era meio-dia quando chegamos a uma distância considerável da muralha Rose. Os cascos dos cavalos batiam contra os campos, levantando um som seco e alto, sendo a única música que escutávamos durante aquela cavalgada. Eren ia à minha direita, lançando-me olhares furtivos, desviando os olhos sempre que coincidíamos de olhar um para o outro ao mesmo tempo. Mikasa seguia atrás dele; a garota não o largava por nada, era como uma sombra que o seguia para todos os lugares. Jean à minha esquerda, e Petra e Gunther seguiam atrás, com os sinalizadores. Até então, não havia sinal de nenhum grupo, o que poderíamos interpretar como uma coisa boa ou não.

– Capitão Levi! – Chamou Mikasa. Olhei por cima do ombro, e ela apontava com o dedo para trás.

Merda.

– DTM, na primeira árvore que encontrarem! – comecei a soltar as rédeas de Justine, minha égua, e lancei meu gancho primeiro, para que os outros seguissem meu exemplo. Saquei as duas lâminas e me preparei.

Mikasa apontara para um par de titãs que se aproximava de nós por trás. O que chegava a maior velocidade, correndo todo desengonçado, era um classe oito metros, barrigudo, os braços chacoalhando para um lado e para o outro, enquanto aquele sorriso macabro se espalhava pelo seu rosto. O que estava mais atrás dele, menor, deveria ser um classe cinco metros, mas a distância me atrapalhava a distinguir.

Ouvi o som dos outros ganchos sendo lançados, e os cavalos seguindo para a direita, como foram treinados a fazer. Logo Petra e Gunther estavam à minha frente, também lâminas nas mãos. Atrás de mim se erguiam Jean e Mikasa, e Eren, logo abaixo de mim, preso na mesma árvore.

– Vocês – gritei. Petra e Gunther olharam para mim na mesma hora. Eles já estavam familiarizados com o processo. – Vocês ficarão para retardar o avanço dos monstros, enquanto eu seguirei com os soldados para o centro do canto.

– Sim, capitão! – concordaram os dois, virando-se para frente para recepcionar os intrusos.

– Vocês três vêm comigo, sempre se mantendo a pelo menos cinco metros do chão! – ordenei. – Ackerman, lance o sinalizador amarelo e fique atenta à resposta!

– Sim, senhor!

E assim, de árvore em árvore, lançamos os nossos ganchos, nos prendendo às manobras tridimensionais, buscando cobrir maior terreno entre nós e os titãs para que voltássemos a terra firme para chamarmos os cavalos. Eu ainda encontrava certa dificuldade em manobrar meu equipamento usando a perna direita, mas tinha certeza que logo o costume viria e, com ele, a maestria dos movimentos novos.

Paramos em uma árvore alta, vinte metros, e ficamos de pé sobre o galho que comportava a nós quatro. Meus soldados tomaram água e conversavam entre si enquanto eu observava ao fundo a fumaça negra que sinalizava um titã anômalo se aproximando da formação da vanguarda na esquerda. Era ali que Erwin estava. Recarreguei minhas lâminas e já fiz a ligação entre o gás de meu tambor reserva para evitar qualquer contratempo, aconselhei aos demais o mesmo e ordenei que fôssemos até lá.

Petra e Gunther ainda não haviam voltado, mas eu sabia que logo estariam de volta para nos acompanhar. Deixei a marca na árvore indicando nossa direção e partimos. Não tardamos em chegar à zona de combate, as carroças viradas e uma porção de corpos partidos se espalhavam ao chão. Notei a surpresa dos meus soldados e a falta de familiarização com aquela cena e me apressei em repreendê-los.

– Não é hora de lamentar os mortos – falei em meio ao vento que cortava nossos rostos, levanto o cheio de sangue cosigo –, é hora de proteger os vivos. – Lancei minha lâmina para frete: – Avante!

– Sim, capitão! – o coro de três vozes se fez ouvir e logo estávamos cortando nucas de titãs a torto e a direito, levantando densas nuvens de fumaça extra quente enquanto os corpos daqueles humanoides se destruíam.

Mikasa, como sempre, era tudo o que um soldado precisava ser. Fria, calculista, muito certeira. Acertava mais de um gigante por vez, sempre no ponto certo, sem falhar. Suas lâminas quase não ficavam cegas; não havia tempo. Jean e Eren também tinham lá suas proezas, e conseguiam dar conta do trabalho.

Em meio àquela confusão de sangue e partes voando para lá e para cá, avistei o restante da tropa, o comandante, a tenente e o restante dos soldados. Faltava apenas um, e era improvável que estivesse em campo de batalha, lutando. Armim era o mais fraco da turma. Sua única habilidade que sobressaía os demais era seu cérebro magnífico, que conseguia ter as melhores ideias e montar as melhores estratégias mesmo em meio ao caos.

Mas ele não estava ali.

Rodopiei, abrindo caminho entre três titãs, manobrando meu equipamento para pegar o melhor ponto e acertá-los. E o fiz com excelência, abrindo cada vez mais espaço entre meus companheiros e eu, ansiando por chegar até eles. Fiz sinal para que minha equipe me seguisse e pelo canto do olho vi Petra e Gunther se aproximando de nós, ensanguentados e com o semblante resignado.

Eles deram conta do recado. Esses eram meus homens, com certeza.

Foi quando escutei um grito. Um berro gelado, de cortar a alma. Tão intenso que abalou minha concentração e me fez vacilar a perna direita, obrigando-me a jogar todo o peso na perna machucada. Instantaneamente, senti a onda de dor percorrer pelo meu joelho e se espalhar pela minha corrente sanguínea. Meu rosto de retraiu em um esgar de dor que imediatamente reprimi. Aquela não era a hora de ceder à dor. Ela teria que esperar.

Lancei meu gancho em uma das árvores ao redor, equilibrando-me entre a árvore e a dor, e procurei a fonte do barulho. Olhei em volta e não vi mais nenhum titã se aproximando de nós, nem nenhum dos meus soldados ou dos outros, efetuando manobras pelo espaço do ar. Fiz uma chamada mentalmente de cada um dos meus que estava ali. Petra e Gunther acabaram de chegar. Jean, ok. Mikasa, ok. Eren…

Onde estava Eren?

Esquadrinhei todo o campo enquanto escutava os outros líderes de esquadrão chamando seus subordinados, da mesma forma que eu fizera mentalmente. Meus olhos pularam de árvore para árvore, olhando até mesmo os galhos mais baixos e, foi quando eu olhava para as árvores menores, identifiquei o moleque no chão, as lâminas largadas ao seu lado. Eren abraçava um corpo pela metade, berrando e chorando profusamente, suas lágrimas misturando-se ao seu sangue e ao sangue do morto, preso entre seus braços.

Os cabelos loiros de Armim estavam ensanguentados, e seu corpo pendia para um lado, faltando-lhe as penas e um braço. Era por isso que Eren chorava. Ouvi, ao meu lado, meus dois soldados da 104ª turma chorarem junto com Eren, e os demais dos outros esquadrões também. E eu os entendia. Eu compreendia a dor deles, pois aquela fora a minha dor. Eu havia perdido Isabel e Farlan e, quando me afeiçoei aos demais, eu os perdi também. Eu compreendia, e eu me doía por eles.

Lentamente, manobrei meu equipamento para o chão. Eu precisava tirar Eren de lá, o chão não era seguro. Era hora de dizer adeus ao seu amigo e deixá-lo ir. Era necessário.

E então, quando faltava apenas quatro metros para que eu alcançasse o solo, ouvimos. Boom, boom, boom, boom, boom. Passos de um titã que corria rápido demais para que o pudéssemos retardar antes de chegar até Eren. Era um classe 15 metros, correndo em direção a ele, sem demonstrar interesse no resto de nós. Meu coração disparou, o sangue pulsando forte em minhas têmporas, a dor já quase não existindo mais.

– Eren! – berrou Mikasa, o desespero quase palpável em sua voz. Ela já preparava seu DTM para o lançamento – Eren, saia daí!

Todos preparavam os equipamentos para destruir o gigante que, em poucos passos, alcançaria Jaeger, mas eram todos lentos demais. Ao que Eren ignorou as chamas, e continuou abraçado ao corpo despedaçado de Armim, peguei todo impulso que consegui e projetei-me para frente, lançando-me em sua direção, o gancho estrategicamente preso à árvore. A gravidade era minha aliada, pela primeira vez, e em milésimos de segundo, estiquei a mão e agarrei Eren pela gola de sua camisa, o levantando do chão e fazendo-o soltar Armim.

– Não! – Ele se debateu. – Levi, me solte!

– Cale a boca, moleque – berrei exasperado. O medo também era identificável e minha voz, e eu sabia disso. Mas como ele pudera se colocar em risco daquela maneira?

Lancei mais um gancho, depois outro e em poucos instantes, estávamos novamente sobre a árvore, com Mikasa o abraçando com força enquanto eu me lançava na direção de Erwin, tão puto da vida quanto poderia estar. Hange e os outros conseguiram retardar o titã e capturá-lo, e os outros voavam até Eren para prestar suas condolências ou para partilharem seu sofrimento.

Não olhei para trás nem um segundo sequer, com medo da minha reação. Eu simplesmente queria bater nele até que fosse impossível que se regenerasse novamente. Como ele pudera ser tão imprudente sendo que tudo o que estávamos fazendo até aquele momento era por causa dele?

Pousei na árvore ao lado de Erwin e ele entendeu pelo meu olhar que eu não queria conversar. Limitou-se a dizer:

– Voltemos para o quartel general. Vamos, vamos!

Lancei meu gancho e parti.

–––

Abri a porta do dormitório com o pé, fazendo-a bater na parede e lascas de madeira voarem pelo ar. A conversa fora subitamente interrompida pela minha entrada, e os soldados me olharam com olhos do tamanho de uma bola. Ignorei os olhares assustados e curiosos, e passei cama por cama procurando aquele molequezinho de merda. Ele precisava de uma lição e parece que ainda não tinha aprendido que as coisas aqui não funcionavam do jeito que ele queria.

O encontrei na última cama, deitado de cara para a parede, encolhido como uma criança. Seu corpo dava leves soluços e seu nariz fungava cada vez mais. Ele os limpava quando notou minha sobra projetando-se na parede. Eren virou-se em minha direção e me olhou com aqueles olhos grandes e verdes, vermelhos de choro, e eu podia jurar que havia um pouco de ódio neles. Porém eu não me importava com a sua raivinha, nem a sua dor. O agarrei pela gola, como fizera mais cedo, e arrastei para fora da cama um moleque tão surpreso que não protestou ao meu ato. O carreguei até o lado de fora e, antes enfiar o pé na porta para fechá-la novamente, me virei para os soldados e ordenei:

– Quero todos deitados antes que eu feche essa porra de porta. E nem um pio.

A porta se bateu com um estrondo que fez Eren despertar de sua inércia e começar a se debater, suas mãos desferindo tapas na minha e em qualquer parte do meu corpo que pudesse alcançar. Ele grunhia para que eu o largasse, mas eu estava obstinado demais para soltá-lo com aquela facilidade. E carrega-lo não era a tarefa mais impossível do mundo; ele era grande, maior que eu, porém eu era mais forte.

Alcancei a porta da sala de reunião – eu já a deixara aberta para quando eu chegasse – e o arremessei lá para dentro, fazendo seu corpo se chocar conta uma porção de cadeiras e mesas, provocando um estrondo. Bati a porta e a tranquei com a chave, virando-me enraivecido para o moleque, não conseguindo conter mais aquela raiva toda dentro de mim.

– Que porra você acha que é, caralho? – berrei, dando graças pela sala ser à prova de som. – O que tinha na merda da sua cabeça?

Eu falava e avançava em sua direção. Eren custava em se desvencilhar da madeira quebrada pela sua queda e me olhava num misto de desafio e dor. Mas antes que ele pudesse se levantar, eu já o havia agarrado novamente pelo colarinho e batia suas costas contra a parede, levantando-o ligeiramente do chão.

– O que você estava fazendo? – vociferei novamente. – Hein?

Ele abriu a boca para responder, mas eu não deixei. Eu queria esmurrá-lo com força por ter me preocupado, por ter me dado o medo de perdê-lo como eu perdera os outros.

– Você não pode, simplesmente, pegar seu equipamentozinho e descer da desgraça da árvore e ficar à mercê dos monstros! – continuei a berrar, mas minhas voz já falhava entre uma palavra e outra. Toda aquela raiva saindo de mim, diluindo-se em alívio; ele estava ali.

Os olhos de Eren encheram-se de lágrimas, lágrimas pesadas maculando meus olhos verdes, mas ainda assim deixando-os tão bonitos quanto eles realmente eram. Seu peito arfava, e eu sabia que havia uma porção de soluços presos ali dentro. Ele queria chorar, ele queria sentir a perda do seu melhor amigo, e o que eu estava fazendo ali? Eu o estava agredindo por ter me deixado com medo de perdê-lo sendo que ele não era nada meu. Eu estava sendo egoísta, e sabia daquilo também.

– Capitão – começou e foi interrompido por um jorro de lágrimas que escapou de seus olhos, caindo copiosamente pelo seu rosto, molhando até mesmo minhas mãos que seguravam sua camisa. – Levi… Armim… morreu… – ele balbuciava.

As minhas próprias forças se esvaíram de mim naquele momento. Afrouxei o aperto e o desci lentamente, até que seus pés encontrassem o chão. Eren chorava pesadamente, olhando em meus olhos, fazendo com que eu mesmo sentisse vontade de chorar também. Minhas mãos ainda em sua camisa, eu o apertei levemente, o trazendo para mais perto de mim, envolvendo seu corpo em meus braços e acariciando sua cabeça.

– Eu sei – sussurrei ao pé do seu ouvido. – Eu sinto muito.

Os braços dele se fecharam à minha volta enquanto soluços roubavam seu ar e mais lágrimas molhavam meus ombros. Ele estava quente, como sempre. Mas era um calor vazio, dolorido. Eu não poderia deixá-lo passar por aquilo sozinho. Mantive minha mão ao redor de sua cintura, enquanto com a outra, levantei seu rosto gentilmente, passando o dedo pela sua bochecha, secando as lágrimas que haviam ali. Como ele poderia ser tão frágil?

– Me desculpe – pedi ainda em sussurros. – Mas eu não queria te perder, moleque.

Seus olhos molhados me fitaram e então relaxaram. Ele sabia o que era aquilo, e porque eu fizera aquilo tudo. E até então, ele parecia compreender. Eren soluçou mais um pouco e deitou seu rosto na palma de minha mão, fechando os olhos, ainda deixando mais lágrimas escorrerem pelo seu rosto.

Beijei cada uma delas, com calma, subindo pelo seu rosto com meus lábios. Aquelas lágrimas eram minhas. Eram parte de Eren e eu não deixaria que nem mesmo uma delas escapasse de mim novamente, ou me permitiria o risco de perdê-las. Beijei ambos seus olhos e, por fim, segurei seu rosto entre minhas mãos, tal qual ele fizera comigo, e beijei-lhe os lábios.