Naquela noite, levei Eren até o meu quarto e o deixei adormecer deitado em minha cama, envolto em meus braços. Eu o segurava com força, sem saber o que fazer quando seu corpo se movia em um soluço dolorido que parecia vir de dentro da sua alma. Ele demorou a dormir e o tempo inteiro que levou para que ele o conseguisse, eu o apertei contra meu corpo, depositando beijos em sua nuca e em sua cabeça. Um sentimento terrível me corroia por dentro, o prazer de ele estar vivo ali, comigo e preso a mim, o alívio de ter sido Armim a morrer, e não ele. Eu era baixo, um ser humano desprezível por pensar isso, mas ao mesmo tempo eu não conseguia evitar a tranquilidade que aquele momento me trazia.

Estaria aquilo realmente acontecendo? Eren estava deitado em minha cama, comigo? Eu o estava protegendo, como eu disse que o faria, mesmo que não da mesma forma que pensei fazê-lo.

O dia amanheceu e estávamos na mesma posição. Mantive meus olhos abertos a noite inteira, olhando diretamente para a nuca de Eren, adormecido à minha frente. Aquela situação me era boa, porém estranha. As coisas pareciam estar acontecendo em um passo muito mais rápido do que eu imaginara. O alarme soou no quartel general, tirando todos da cama, e ouvi o moleque se mexendo, começando a acordar. Não acorde, pedi em pensamento, esperando que aquele momento durasse mais um pouco. Seu corpo quente contra o meu era confortável e seu cheiro já parecia fazer parte de mim.

Eren estremeceu um pouco, esticando-se todo. Lentamente levantei o braço que o envolvia por cima, dando-lhe espaço para esticar-se direito, mas ele agarrou a minha mão e a prendeu em torno de si novamente, mantendo-me ali. Obrigado, agradeci dentro de minha cabeça. Eu não queria soltá-lo. Queria apenas virá-lo para mim e beijar-lhe os lábios novamente.

E como se escutasse meus pensamentos, Eren rolou na cama até se virar para mim, encarando-me com os olhos inchados de choro, já marejados de lágrimas novamente. Ele segurou a minha mão e a levou até seu rosto, e eu o beijei suavemente nos lábios, apenas encostando-se aos dele. Seus olhos ainda estavam abertos, como os meus, e eu via aquelas pequenas bolsas d'água estourando-se e rolando pelos cantos de sua face.

– Sinto muito por Armim – falei. Minha voz saiu rouca, porém forte, a mesma força que eu queria passar a ele. – Eu sei o quanto ele era importante para você.

Eren assentiu, mais lágrimas escorrendo. Ele soluçou e chorou tal qual na noite anterior, provocando espasmos por todo seu corpo, enquanto eu o abraçava. Seu rosto se escondeu em meu peito enquanto eu o segurava, pedindo forças pra alguém, em algum plano superior para que eu continuasse a cuidar de Eren enquanto ele ainda precisasse de mim.

Passamos alguns minutos dessa forma, até que escutei uma batida na porta. Ignorei, mas novamente veio a insistência das pancadas. Uma voz abafada veio do lado de fora, e escutei Petra me chamar.

– Capitão? O senhor já está de pé?

Envolvi Eren ainda mais junto de meu corpo e virei a cabeça em direção à porta.

– Sim – respondi, esperando que ela se fosse logo.

– Senhor, o funeral para os mortos começará dentro de alguns minutos… – ela hesitou. Sua voz estava trêmula, e eu podia ter certeza que estava lutando contra as lágrimas também. O corpo entre meus braços se sacudiu ainda mais. – O comandante Erwin conta com a sua ajuda para achar Eren Jaeger. A última vez que o viram fora com o senhor ontem à noite.

– Já estou indo – finalizei a conversa.

– Obrigada, senhor.

Escutei os passos de Petra se afastarem pelo corredor, e me voltei para Eren. Levantei sua cabeça e fiz seus olhos se encontrarem com os meus. Ele fungava o nariz e ainda soluçava. Tornei a limpar as lágrimas de seus olhos verdes e encostei minha testa na sua.

– Eren, o que estamos fazendo? – perguntei.

Ele deu de ombros. Eu sabia que não era o melhor momento nem de longe, mas eu pensara naquilo a noite inteira, e talvez fosse a hora de esclarecer algumas coisas.

– Eu quero você – falei, tudo de uma vez, com medo de vacilar no caminho e desistir. – Quero você perto de mim. Quero sanar a sua dor e quero estar ao seu lado o tempo inteiro. Você povoa meus pensamentos desde o dia em que você me salvou, e não sendo o bastante eu só pensar em você, meu corpo pede por você. Pede pelo seu calor, pede pela sua boca, pede para ficar próximo a você.

Parei, esperando que ele dissesse alguma coisa. Talvez eu pegara muito pesado dada à atual situação. O garoto já estava emocionalmente destruído e eu jogava essa bomba em seu colo. O que você fizera, Levi?

– O que eu devo fazer com tudo isso? – finalmente ele dissera, a voz mais baixa que um sussurro, a boca se movendo lentamente, moldando-as perfeitamente.

A pergunta me pegou de surpresa. Se eu não sabia nem o que eu deveria fazer, como eu deveria saber sobre ele? Suspirei, desvencilhando-me dele com cuidado e me sentando na cama, olhando-o por cima, enquanto ele se virava para mim e me observava, os olhos levantados em minha direção, pedindo por uma resposta.

– Eu não sei – falei. – Eu sei que este não é o momento ideal, e eu lamento por isso. Mas eu não consigo mais agir como se estivesse tudo bem sendo que não está. Você é o meu soldado, eu sou seu tutor e olha onde estamos agora – apontei para a cama.

Ele limpou os olhos com as mãos, se levantado e juntando-se a mim encostado no estrado da cama. Aquela situação era estranha, e realmente me parecia que estava fácil demais que ele estivesse ali, sem nenhuma resistência. Talvez Eren estivesse apenas me usando para companhia, enquanto, nesse momento difícil, ele não estivesse conseguindo lidar sozinho com a dor e a solidão. Mas ele tinha Mikasa para aquilo, o que me deixava ainda mais confuso. Por que ele, de bom grado, aceitara passar a noite comigo, apenas para dormir ao meu lado?

– Capitão – ele começou, olhando fixamente para frente –, eu o admiro, senhor.

– Levi.

Eren me olhou, inquisitivo.

– Me chame de Levi, Eren. Tal como você faz quando está com raiva.

Ele assentiu, prosseguindo, as bochechas corando-se ligeiramente.

– Levi… eu o admiro. E eu gosto de ficar perto do… de você. – É, Levi, não vai dar em nada para você. – E eu também tenho me perguntado o porquê de eu não ter afastado o senhor naquele primeiro beijo, no banheiro.

Meu coração disparou.

– E eu também não sei o porquê, senhor – ele concluiu, virando o rosto em minha direção.

– Entendo – respondi, o olhando de volta. Seu rosto não estava mais molhado, e seus olhos pareciam mais austeros que em momentos mais cedo. Estiquei minha mão e segurei a sua. – Temos um lugar para ir agora, Jaeger.

E ele assentiu, apertando meus dedos, no que imaginei ser um apelo mudo por força. Eu estou passando toda a força que eu tenho para você, garoto. Use-a bem. Levantei-me da cama o trazendo comigo e, de surpresa, fui envolvido em um abraço frouxo, e contemplado com as palavras de Eren saindo em minha direção, sua voz mais forte e pesarosa.

– Desculpe-me tê-lo preocupado, capitão – ele disse. – E obrigado.

– Eren… – foi a única coisa que consegui dizer, e envolvi sua cintura com meu braço, sem saber bem o que fazer em seguida.

–––

Chegamos ao refeitório e encontrei todos os meus soldados vestidos em preto, a única cor vindo de suas jaquetas bordadas com as asas da liberdade. Muitos rostos ali estavam molhados de lágrimas, e, apesar do silêncio, eu podia escutar os soluços de alguns dos homens chorando. Eren saiu rapidamente do meu lado e foi se juntar aos seus companheiros de turma, que o olharam curiosos quando chegaram, todas as perguntas sendo feitas através dos olhares. Ele se limitou a negar com a cabeça, e sentou-se ao lado de Mikasa, que o abraçou fortemente, envolvendo-o com uma espécie de amor que me era estranha. Uma pontadinha de veneno espetou meu coração.

Aquela cena não me agradara nem um pouco.

Juntei-me a Erwin, Hange e os outros veteranos, de pé em um canto próximo à porta. O comandante acenou para mim, e saiu em direção ao pátio, para que eu o seguisse. Chegamos ao campo aberto, sob uma árvore e ele parou, virando-se para me encarar.

– Onde você esteve, Levi? – perguntou. – E o que foi todo aquele circo que disseram que você aprontou ontem à noite?

Sua voz era severa, como sempre fora, porém havia algo diferente dessa vez. Erwin me olhava desconfiado.

– Estive conversando com Eren – respondi. – Estava aplicando-lhe um corretivo por ter colocado sua vida em risco e jogado todo o esforço que fizemos por ele até hoje diretamente no lixo.

Aqueles olhos me esquadrinharam de cima a baixo, buscando o menor sinal de vacilo em minhas palavras. O maldito me conhecia muito bem para saber quando eu estava omitindo algo.

– Levi – ele colocou a mão na testa, fechando os olhos –, não minta para mim.

– Não estou mentindo, Erwin.

– E por que eu não acredito em você?

– O que mais eu estaria fazendo se não conversando com o maldito do moleque, Erwin? – rebati, sabendo que ele não teria argumento contra isso.

Meu melhor amigo se limitou a dar de ombros, suspirando, os olhos ainda fechados. Passamos um minuto em silêncio, antes dos soldados saírem pela porta, cabisbaixos, caminhando em direção ao campo de cremação, onde o último adeus era dado aos companheiros caídos em batalha. Procurei Eren entre eles, me perguntando como ele estaria, se a companhia dos seus companheiros lhe fizera sentir melhor do que a minha, mas não o encontrei. Talvez ele já tivesse passado, misturado à multidão, e eu não o tivesse visto.

– Vamos, Levi – chamou Erwin, com um leve puxão em meu braço. Ele voltara a assumir sua postura de líder e caminhava majestosamente à minha frente.

Erwin era o homem que eu queria ser e que, naquele momento, estava falhando miseravelmente.

Encontramos-nos de frente à fogueira, uma fila de corpos dispostos sobre as pilhas de madeiras e um deles era de Armim. Ainda não havia sinal de Eren, porém a cerimônia deveria prosseguir, com ou sem ele. Preocupei-me sobre onde poderia estar, esperando que aparecesse rápido. Eu tinha certeza que ele se arrependeria de perder aquele momento de último adeus ao seu melhor amigo e aquilo em nada ajudaria na sua recuperação.

Erwin proferiu as palavras de sempre, agradecendo ao espírito dos guerreiros que se foram pelo seu serviço e seu coração, por haverem dado tanto de si na causa da humanidade e dedicando a vitória do futuro em seus nomes. Erwin nomeou cada um dos mortos e, ao terem os nomes falados, seus companheiros deram um passo à frente, pegando a tocha de sua mão e atiçando fogo à pilha de madeira na qual aquele corpo estava deitado.

Aqueles momentos eram sempre muito esgotantes. Eu poderia passar por aquilo todos os dias e nunca me acostumaria com a crueldade, com a dor e com o sofrimento. Ver seus companheiros mortos, ardendo em chamas que acabariam para sempre com seu legado na terra… Aquilo não era fácil e nunca seria. O último nome a ser chamado, por meu pedido, fora o de Armim. Eu havia pensado em dar a Eren o maior tempo possível para se despedir de seu melhor amigo, tendo eu mesmo passado pela mesma experiência anos atrás, e sabendo que qualquer tempo era bem vindo apesar de nunca ser tempo o suficiente.

Porém, quando Erwin chamou o nome de Armim, Eren não apareceu para queimar seu corpo. Nenhum dos soldados da sua turma deu o passo à frente para acabar com a existência do garoto. Soluços altos se fizeram ouvir, enquanto a voz de Sasha chamava pelo nome de Armim e pedia desculpas por tudo o que ela fizera a ele que pudesse tê-lo agredido de alguma forma. Procurei novamente Eren com os olhos e não o encontrei, terminando por encontrar Mikasa olhando para mim, com a mesma questão que eu vinha me fazendo todo aquele tempo.

Onde estava Eren?

Mikasa deu de ombros, fazendo menção de virar-se para procurá-lo, mas gesticulei para que não fosse. Eu iria atrás de Eren. Ordenei que tomasse a tocha de Erwin e ela cremasse o corpo de Armim. Houve um pouco de relutância de sua parte, mas ela acabou por me obedecer. Ela se adiantou para frente e fez como deveria ser feito. Segurou a tocha em chamas da mão do comandante e se aproximou de Armim. Mikasa se reclicou sobre seu amigo e beijou-lhe a testa, sem se importar se estava ou não cheia de sangue seco.

Proferiu um adeus em voz alta, representando todos os seus companheiros e abaixou a tocha no corpo despedaçado de Armim. O fogo queimou vivo, azul e vermelho, enquanto as chamas lambiam o corpo de meu soldado, libertando-o essa vida em direção à próxima. Como a todos que eu perdia, desejei que, quando retornasse ao mundo, que fosse ao mundo governado pelos humanos, sem muralhas, sem DMT, sem tropa de exploração e sem mortes prematuras.

Virei-me para procurar por Eren e o encontrei empoleirado em uma árvore próxima ao campo, observando tudo de longe. Ele havia pegado seu DMT sem permissão e se lançado para cima, assistindo ao funeral e cremação de cima. Mesmo à distância, eu podia dizer que estava chorando a julgar pelos movimentos que seu corpo fazia. Enchi-me de compaixão e vontade de tomá-lo em meus braços tal qual eu fizera durante a noite, porém eu não poderia fazer aquilo na frente de todos. Caminhei até ele e o olhei de baixo, esperando que seus olhos se encontrassem com os meus. Eu poderia esperar o dia inteiro até que ele me percebesse ali.

Não passou muito, ele me viu e voltou a chorar. Era eu quem o estava fazendo chorar? O que estava acontecendo, Eren?

Encontrei um calço na árvore e a escalei rapidamente, sem muito esforço. Escalar coisas era algo que eu fazia desde novo, para fugir da polícia militar e dos ladrões mais velhos que se tornavam minhas vítimas. Cheguei ao galho onde ele estava e me sentei ao seu lado, mantendo certa distância e o silêncio, sem querer atrapalhar seu luto. Eu apenas queria ficar ali.

– Quando éramos pequenos – começou ele, limpando os olhos nas costas das mãos –, Armim me dera um livro de seu avô. O livro falava do mundo lá fora – ele esticou a mão, como se estivesse de frente para o tal mundo lá fora de fato – e passávamos horas escondidos na floresta lendo e vendo as figuras. Fizemos anotações sobre os locais que visitaríamos depois que os titãs fossem derrotados e voltássemos ao nosso lugar de direito.

Continuei escutando calado, olhando para a cerimônia. Era tanta dor e tanto pesar que eu me sentia esmagado por um peso enorme. Meu maior pesar, entretanto, era por Eren. Ele não deveria se tornar uma pessoa amarga como eu me tornara, ele não deveria perder os seus como eu perdera os meus, não deveria ter que chorar sobre o corpo de seu melhor amigo e nem despedir-se dele antes da hora correta. Aquilo não estava certo. E eu não podia protegê-lo daquilo, por mais que eu o quisesse. Senti-me impotente por apenas poder escutá-lo naquele momento.

– E agora… Com quem eu irei explorar o mundo? – ele perguntou, a voz embargada pelo choro. – Para quem eu vou contar minhas decepções e minhas dúvidas, e com quem eu vou dividir o meu medo? Por que, Armim? – Suas palavras estavam sendo pontuadas por soluços pesados, doloridos, roubando todo o ar de seus pulmões e provocando solavancos em seu corpo. Eren se virou para mim. – Por que… ele… se fora?

A dor apertou em meu peito.

– Porque todos se vão, Jaeger – respondi em voz baixa repetindo as mesmas palavras que Kenny dissera quando me achara no quarto de minha mãe morta. Eu sabia que aquilo não ajudaria o luto a amenizar, nem o sofrimento a passar, mas daria o senso de realidade a Eren.

Uma brisa passara correndo entre nós dois naquele momento, acariciando nosso rosto e bagunçando nossos cabelos. Eren fechou os olhos. Sutilmente, estiquei minha mão e toquei a sua. Fechei meus olhos com ele falei algo que Isabel me dissera quando entramos para a tropa de exploração e vimos nossos primeiros companheiros caírem.

– Sinta… Armim está se despedindo de você. – Eu o ouvi soluçar ainda mais ali ao meu lado. – Dê adeus, Eren.

– Adeus, Armim… – ele sussurrou.

–––

Dei aos soldados o resto do dia de descanso, para que pudessem recuperar suas forças. Não havia ninguém no campo de treinamento, todos confinados ao conforto de seus quartos, pensando em seus companheiros que os deixaram. Aquela era a tropa de exploração. A morte era uma de nós e, apesar de toda a glória que os de fora pensavam nos cercar, a única coisa que estava sempre presente em nosso meio era a certeza de que a vida acabaria, mais cedo ou mais tarde, entre os dentes de um titã.

Estava sentado à minha mesa, em meu quarto principal no segundo andar, quando escutei a maçaneta de meu quarto girar e se abrir. Curioso, me virei para recepcionar essa pessoa abusada que entrava nos aposentos alheios, principalmente do seu capitão, sem pedir licença e bater à porta e deparei-me com Eren, com sua calça de couro preto e camisa de malha, também preta, ligeiramente apertada, encarando-me.

– O procurei em seu quarto no subsolo, capitão – ele começou. Levi, Eren. Chame-me de Levi. – E disseram-me que o senhor havia voltado para o andar dos oficiais.

Sua voz possuía um tom de desculpas que me irritou levemente. Por que ele estava com aquele medo todo? Acenei para que entrasse e ele o fez, fechando a porta atrás de si. Parecia tão frágil quando na noite passada, porém mais recomposto, o rosto limpo e seco. Eren exalava um ar de limpeza que me compeliu a sentir seu corpo em minhas mãos e deixar seu cheiro me invadir novamente, sentindo cada centímetro de sua pele encostando-se à minha. Mas me segurei. O que ele queria?

– Desculpe, senhor – ele continuou, sentando-se na cadeira que eu havia indicado a ele, de frente para a minha. – Eu não queria ficar com meus companheiros, e nem com Mikasa e eu não sabia mais para onde ir…

– Tudo bem – o cortei, lutando para segurar a ansiedade em minha voz. – Você pode ficar o tempo que quiser.

– Obrigado, senhor.

Encaramos-nos por um momento. O que eu deveria fazer em seguida? Eu queria apenas abraçá-lo e beijá-lo, dar-lhe o conforto que precisava e fazer com que esquecesse, pelo menos por um instante, o que havia se passado. E aqueles seus olhos me pediam que o fizesse. Eu não estava interpretando errado, não é?

Estiquei minha mão para que ele a pegasse, e ele o fez. Puxei-o para que viesse sentar em meu colo e, delicadamente, trouxe seu rosto para mais perto do meu, beijando-lhe com todo o carinho que eu tentava ter dentro de mim. De imediato, Eren me correspondeu, beijando-me de volta, envolvendo meu pescoço com seus braços e colando seu corpo ao meu, avidamente. Não sei em qual momento, porém, quando me dei por mim, minhas mãos haviam penetrado por baixo de sua camisa, e o toque de sua pele provocou reações desconhecidas para mim, causando uma cadeia de arrepios e desejo, algo agressivo e avassalador.

Segurei-o pela cintura, levantando-me e o levando até a minha cama, deitando seu corpo com cuidado. Eren não protestava a nenhum dos meus atos, pelo contrário, ele me dava toda permissão para tocá-lo, senti-lo. Retirei sua camisa, sem desgrudar meus lábios dos seus, jogando-a para longe dali. Aquele momento era meu, Eren era meu, e eu o teria por inteiro, seu corpo, seus beijos, seu calor. Permiti que as pontas de meus dedos corressem pelo seu abdome, sentindo todos os seus músculos acentuados enquanto seu corpo, embaixo de mim, se contorcia levemente.

Eren agarrava minha nuca, pressionando-a para baixo, buscando pela minha boca como eu buscava pela dele, mordendo-me ora sim, ora não, ofegando entre um beijo e outro. Encaixei minha perna entre a sua, o calor se espalhando por todo o meu corpo e senti Eren soltar minha nuca, levar as mãos até as minhas costas e, com um puxão só, rasgar minha camiseta ao meio, arrancando-a agressivamente de mim.

Agora eram os seus dedos que tocavam a minha pele nua, dedos quentes como brasa, o melhor calor que eu já havia provado em minha vida, tão quente que poderia me matar. E eu estava disposto a morrer se morrer fosse daquela forma. As mãos de Eren me arranhavam e me apertavam, buscavam de mim tudo o que eu queria dar a ele, mesmo sem ainda saber o que era e como oferecer a ele. Eu o afastei de mim, levando minha mão até seu cabelo e o puxando para trás, olhando fundo em seus olhos.

Naquele momento, naquele exato momento de contato, eu soube que Eren era meu. Não mais meu soldado ou meu protegido… ele era meu. Puxei sua cabeça de volta para a minha e explorei cada canto, seus lábios, sua língua, seu gosto. Era tudo meu, e tudo o que eu mais queria era que ele soubesse que eu também era dele.

Forcei mais minha perna entre as suas e senti. Senti que o corpo de Eren também respondia a mim, também me desejava o mesmo tanto que eu o desejava. Suas mãos, tão rápidas que pareciam estar em todo meu corpo ao mesmo, alcançaram o cós de minha calça e, rapidamente, desfizeram o laço que a prendia, e entraram no tecido, alcançando minha cueca e, em seguida, minha bunda.

Um gemido involuntário escapou de meu peito quando suas mãos pretensiosas forçaram meu quadril para baixo, de encontro ao seu, e ele riu. Um som lindo, excitante e que fora como música para meus ouvidos. Eren me abraçou, depositando um último beijo em meus lábios, puxando-os com os dentes antes de me soltar. Ele ofegava e um sorriso fino, porém sincero, e aquele riso curto ainda pairando sobre nós. Seus olhos estavam radiantes e seu rosto, todo corado. Ele era… lindo.

– Capitão – ele começou, mas eu o interrompi antes que continuasse.

– Levi, Eren – eu disse novamente. – Eu sou Levi, apenas.

Seu sorriso aumentou em seu rosto, e ele corou mais um pouco.

Deslizei os dedos pelo seu rosto antes de deitar ao seu lado, esticando o braço para que ele se acomodasse em mim. O abracei e ficamos nos olhando por um tempo. Estaria eu com a mesma expressão que ele? Continuei a acariciar seu rosto, uma sensação boa se espalhando por mim, aquele mesmo calor, porém brotando em uma centelha minúscula lá no fundo. Um fogo que iluminava o buraco negro que havia dentro de mim, o preenchendo com coisas boas.

– Como você está se sentindo, Eren? – Perguntei e me arrependi na mesma hora. Sua expressão mudou, e ele fechou os olhos, ajeitando-se em meus braços, de forma que eu não pudesse ver mais seu rosto.

– Me desculpe – pedi. – Não queria te chatear novamente.

Ele balançou a cabeça.

– Não é isso – sua voz surgiu baixa, seu corpo se encolhendo e agarrando em mim com força. – Só… só não se vá. Nunca.

– Nunca irei, a não ser que você me mande ir – respondi.

A última coisa que senti antes de adormecer fora o braço de Eren circulando o meu tórax e seu corpo, quente, colado ao meu.