Tive um sonho estranho. Era povoado de suor, gemido, palavras ininteligíveis, beijos e saliva. Em meu sonho, Eren estava sentado em cima de mim, e seu corpo se movia de forma sensual, provocando-me até meu limite. Seus lábios deixavam marcas de dentes pelo meu pescoço, meus ombros, e meus lábios estavam levemente inchados. Não havia dor, entretanto, era somente prazer, puro e simples. Lembro-me de minhas mãos arranhando as costas dele, deixando finas linhas vermelhas por onde passavam e de minha língua, que traçava um caminho aleatório por onde passava. Lembro-me claramente dos sons que Eren emitia toda vez que eu o fazia, sons que me deixavam ainda mais excitado e aumentavam minha vontade de jogá-lo de costas na cama, arrancar sua calça e…
– Levi? – Eren me chamou, encerrando ali meu sonho. Seus olhos estavam secos e suaves, as bochechas levemente coradas enquanto ele bocejava, esfregando os olhos.
– Hm – resmunguei, meus próprios olhos demorando em abrir-se, enquanto eu tentava me agarrar na lembrança do sonho, sem querer esquecer nenhum detalhe.
Eren me beijou rapidamente e deitou a cabeça em meu peito. Quando meus olhos se acostumaram com a claridade, vi que esta incidia pela fresta das minhas cortinas bege; o sol começara a nascer, lançando uma luz rosada dentro do quarto, caindo em um feixe por sobre as costas desnudas de Eren, desenhando seus músculos com perfeição. Era possível alguém ser tão incrível de se olhar daquela forma e ainda assim ser real? Suspirei.
Era claro que era real; tão real que ele estava ali comigo naquele exato momento.
– Bom dia – ele sussurrou, dando pequenos beijos em minha barriga.
O calor dos seus lábios despertou a lembrança vívida do sonho, e senti meu próprio corpo ficar quente. E como se reagisse a mim, Eren aumentou a intensidade dos beijos em meu tórax, dando pequenas mordidas e passando a ponta da língua aqui e ali, encontrando meus olhos vez ou outra, com uma expressão que eu nunca vira em seu rosto. Seus lábios desenharam um sorriso fino em sua face, mas não havia nada de calmo naquele; era totalmente… provocante.
Segurei seu cabelo entre os meus dedos e o puxei em direção a minha boca, o beijando intensamente, mas Eren desvencilhou-se com a mesma rapidez na qual forçou minhas costas no colchão e desceu em direção à minha calça, já com os cordões desamarrados da noite anterior, arrancando-a com um puxão só. Seu sorriso aumentou significativamente ao olhar diretamente para o volume em minha cueca, resultado do sonho e do que estava fazendo agora e, novamente, ele me olhou dentro dos olhos.
Senti o sangue correr pela minha bochecha, esquentando todo o meu rosto e meu pescoço, um pequeno constrangimento despontando dentro de mim. O que eu era? Um adolescente, por acaso?
Os lábios de Eren alcançaram minha cueca e depositavam curtos beijos por todo o local, chegando até o cós e, com os dentes, o puxando para baixo, revelando todo o meu corpo, totalmente nu. Fechei meus olhos. Eu estava envergonhado demais para olhar, mas gostando ainda mais para pedir que parasse. O que quer que Eren fosse fazer… bem, eu deixaria que fizesse.
E foi então que senti. Senti seus lábios quentes e molhados, suaves, abocanharem a parte de cima do meu pênis, e o primeiro gemido escapou de mim, do fundo de minha alma. Que sensação era aquela? Os lábios de Eren moviam-se ao redor do meu membro, com movimentos sutis e quentes, arrancando cada vez mais suspiros de mim. Suas mãos alcançaram meu tórax e ele me segurou, me apertou, me arranhou.
O momento inteiro em que fiquei de olhos fechados foi uma mistura de sensações, de sentimentos dos mais variados, indo do prazer à confusão, do por que ele estava fazendo aquilo até o que eu deveria fazer em seguida? Eu estava tenso, e sabia disso.
– Levi – Eren falou, interrompendo o que estava fazendo, sua voz carregada de uma sensualidade magnífica, nada vulgar, cada letra saindo de sua boca provocando ainda mais arrepios em minha espinha. – Relaxe.
Sua voz foi como um interruptor dentro de mim. Subitamente, senti meu corpo inteiro se soltar, relaxar e se entregar completamente aos lábios de Eren, que me davam aquela sensação impar, que eu nunca havia sentido em minha vida. O garoto continuou a me beijar e lamber por um tempo que eu não saberia mesurar quanto, mas, para mim, parecera a eternidade no paraíso, sentindo aqueles pequenos chupões sugarem tudo que havia em mim.
E então… então veio. Como se algo dentro de mim se desprendesse e saísse e só restasse o ali e o agora, Eren e eu. O que fora aquilo? Um gemido alto veio do fundo do meu âmago e me vi deitado na cama, sem forças nem para abrir os olhos.
– Capitão? – me chamou aquela voz incrível, um som que valeria a pena o esforço de desprender o restinho de energia que eu tinha para abri os olhos.
Quando os abri, encontrei o rosto de Eren, vermelho e ofegante, com um sorriso enorme, olhando direto para mim. Sua boca veio em direção à minha e me dei um beijo rápido. Forcei meus braços para cima e envolvi seu pescoço, o puxando diretamente para mim. Cheirei seus cabelos e suspirei.
– Bom dia, moleque.
–––
Eren beijou-me rapidamente antes de abrir a porta do meu quarto e sair furtivamente, olhando os dois lados do corredor para se assegurar que não haveria ninguém ali. Observei-o ir e senti sua falta no momento em que fechou a porta atrás de si, deixando-me sem a sua presença. Aquela falta era normal? O tempo inteiro em que estivemos juntos pareceu durar para sempre, porém tão curto que era até injusto. Mas eu sabia que deveria ser assim. Tínhamos nossas tarefas e dentro de pouco tempo, voltaríamos a entrar em missão, então todo o treinamento era necessário. Eren ainda tinha que desenvolver seu poder, e eu precisava voltar às sessões de terapia e à pratica com meu DMT personalizado.
Corri os olhos pelo quarto, já nostálgico ao olhar para a cama desfeita. O colar com a chave de Eren repousava sobre minha mesa de cabeceira, e precisei segurar meu impulso o máximo possível para não colocá-lo em volta do meu pescoço e usá-lo durante o dia inteiro apenas para ter o cheiro de Eren junto de mim, já que eu não podia tê-lo. Tomei um banho rápido e me vesti com o uniforme de capitão. Amarrei as botas, ajeitei meu lenço e coloquei o colar de Eren dentro de meu bolso esquerdo da jaqueta. Meu coração pulsou forte quando o fiz; era como se seu toque houvesse trespassado as fibras do tecido e alcançado minha pele, trazendo aqueles pensamentos luxuriosos de volta.
Sacudi a cabeça. Foco, Levi.
Alcancei Erwin a caminho da sala de conferência, tenentes à sua volta, e Hange mais para trás, esperando-me. Seus olhos encontraram os meus por trás do reflexo daqueles óculos gigantes e ela sorriu. Hange sabia, pensei. Ela sempre soubera ler nas entrelinhas como ninguém, e sabia me decifrar tão bem quanto Erwin, se não melhor. E eu amava aquela mulher, como amava. Hange me lembrava Isabel de uma forma tão pura que eu não pudera evitar amá-la no primeiro momento, mesmo quando ela me enraivecia a ponto de querer usar meu DMT para cortar sua cabeça fora. Aquela mulher era incrível.
– Bom dia, Levi – ela cumprimentou, acenando para mim e a mão tocando meu ombro quando me aproximei.
– Bom dia, Zoe.
– Noite conturbada, não? – ela perguntou, sorrindo para mim maliciosamente, causando minhas bochechas de corarem tão fortemente que, eu tinha certeza, passaram de um vermelho vivo para um roxo mortal. Ela alcançou meu cabelo, bagunçando-o. – Relaxe, Levi, eu não vou falar com ninguém.
Abaixei os olhos, caminhando em frente. Meu nível de constrangimento alcançara proporções colossais.
– Do que você está falando, mulher? – tentei rebater, sabendo que minha voz já me denunciara.
– Nada – ela riu. – Nada que você não queira me contar agora, pelo menos. – E deu de ombros.
Estúpida, pensei, sentindo que, no fundo, eu queria contar a ela sobre Eren e tudo o que acontecera.
– Quer tomar um café mais tarde? – perguntei. Minha garganta coçou e pigarreei. Juntei toda a coragem dentro de mim e olhei para ela, que ainda me observava com interesse. Estou me sentindo um titã sendo alvo de tanta curiosidade assim. – Temos… hm… que repassar os detalhes da missão de captura antes de entregarmos a Erwin.
Novamente, Hange sorriu – era um sorriso tão semelhante ao de Isabel que fazia meu coração se apertar em dor. Como era possível, depois de todos aqueles anos, aquilo ainda me afetar tanto?
– Claro, capitão – ela respondeu, voltando a passar os dedos pelos meus cabelos. – Seria um prazer.
A reunião durara horas a fio, enquanto Erwin nos explicava os detalhes do que teríamos que fazer, o local onde seriam deixados os suprimentos e como seria feita a guarda deles até que a missão de retomada da muralha Maria fosse colocada em prática. Virou-se para mim e detalhou-me o treinamento de Eren, as mudanças que seriam feitas a partir dali, e como seria o meu próprio treinamento, devido às condições da minha perna. Eu havia dito a ele das dores persistentes, tanto Erwin como eu concordamos em suspender os remédios.
Se a coisa continuasse como estava, logo eu me tornaria um viciado em analgésicos e toda a minha habilidade ficaria comprometida. Eu sabia que era uma força a qual a humanidade não podia se dar ao luxo de perder, e precisava fazer jus à fé que depositavam em mim. Suspirei a esse pensamento, ajeitando-me na cadeira enquanto Erwin ainda traçava alguns desenhos no mapa pregado na parede.
Já era tarde quando terminamos. Hange saiu atolada em papel – a mulher anotara cada palavra de Erwin com precisão, mas eu não conseguia saber como ela conseguiria ler tudo aquilo. Olhando de relance para uma das folhas que caíra no chão, parecia apenas uma porção de rabiscos em um papel amarelo. Abaixei-me e o peguei, depositando em cima da sua pilha de anotações.
– Obrigada – disse, seu rosto quase sumindo atrás de tantas folhas. – Deixarei isso em meu escritório e o encontro no refeitório. Adiante meu café sem açúcar, por favor – pediu Hange. – A nova cozinheira tem a mania de fazer um melaço e eu não consigo beber. Parece piche.
– Ok – respondi, observando-a sair, afobada, equilibrando-se quando o vento passava rajando por suas folhas.
Voltei a suspirar, sentindo aquela brisa violenta soprar meus cabelos e minhas roupas. Aproximei-me da janela, observando os soldados em seu treinamento. Jean e Eren estavam em um combate físico tão tedioso quanto poderia ser, e anotei mentalmente que ensinaria algumas táticas ao moleque. Tch. Como ele podia ser tão incrível em diversas… coisas e ainda assim deixar a desejar no treino físico? Senti-me envergonhado; a lembrança da vergonha que senti quando lutei com ele me tomou por inteiro, e não consegui afastar aquele pensamento. Eren era uma surpresa, em diversas formas, e eu simplesmente não sabia o que esperar dele.
Minha mão alcançou sua chave em meu bolso e ficou ali por um tempo. Era impressão minha, ou ela estava mais quente que o resto de mim? Levi, é coisa da sua cabeça, pensei. Talvez eu realmente precisasse daquele café, sentar-me e conversar com alguém que não fosse Eren, e elevar meus pensamentos à outra coisa. O garoto estava me levando à loucura.
E eu estava me entregando a ela de bom grado. Era realmente isso que eu queria?
Sim, disse a voz em minha cabeça.
Taciturno, saí dali caminhando a passos pesados, batendo minha bota no piso de pedra e me dirigindo até o refeitório. O som que elas produziam era seco e lembrava-me do som que Eren fizera ao me carregar para fora da floresta, quando do meu resgate. Imaginei-me um titã, correndo com o corpo de Eren nos braços, e pisei mais forte no piso, sentindo as vibrações em minha perna a cada passo. Eu era grande e poderoso, um corpo colossal correndo pela floresta em direção à muralha para salvar o amor da minha vida.
O que? Parei de súbito. Para salvar quem?
Um novo rubor subiu pela minha face, e agradeci imensamente por estar sozinho. Eu não amava Eren, eu não podia amá-lo tão rápido. Eu amava Isabel e Farlan, e também Hange e Erwin, mas eu não podia amar o garoto. Que proporção aquelas coisas estavam tomando? O moleque tinha quase metade da minha idade e eu nunca tivera ninguém. Eu estava tão deslumbrado com a situação, com seu corpo, seu beijo, seu coração… o jeito que as palavras saíam de seus lábios e eram moldadas com perfeição àquela voz incrível, e até mesmo a forma com que suas lágrimas caíam, marcando seu rosto e me indicando o caminho para sua boca e…
– Levi?
Fui retirado de meu devaneio e agradeci por isso também. Meus pensamentos não eram coerentes há semanas, e sempre que me pegava pensando em Eren, ficava ainda pior. E aquele conflito interno também estava começando a me dar nos nervos.
– Capitão? – dedos estalaram em frente aos meus olhos.
E focalizei Mikasa, olhando para mim com uma expressão demoníaca. Recuei um passo para trás.
– O que foi, Ackerman?
– Se o senhor puder me acompanhar, por favor – ela indicou o caminho. Parecia nervosa, mas suas palavras eram firmes e seus olhos eram confiantes, ao mesmo tempo.
Assenti e a segui até virarmos o corredor mal iluminado daquele lado do prédio. A garota parou de súbito, e virou-se para mim, seus olhos fuzilando-me com uma ferocidade familiar para mim. Ela se parecia comigo
– O que você pensa que está fazendo? – vociferou.
Uma súbita raiva se espalhou pelo meu peito. Aquelas crianças não sabiam respeitar as hierarquias por aqui?
– Eren não dorme em seu quarto há dias e eu o tenho visto sair do seu quarto sempre – suas palavras eram cuspidas em mim, carregadas de desprezo.
– Primeiro, garota – comecei –, Eu sou o seu capitão, e você me deve respeito. – Cruzei os braços na frete do peito, segurando minhas mãos para não enchê-la de sopapos. – E em segundo lugar, espero que saiba que vigiar seus superiores sem autorização é punível e se você não sair da minha frente neste exato momento, irei colocá-la em observação.
A respiração de Mikasa era pesada, e seu corpo inteiro transpirava nervoso.
– Eu não me importo – rebateu. – Meu trabalho é cuidar de Eren…
– Seu trabalho é se tornar um ótimo soldado – falei. Estava difícil manter a calma, e fiz meu melhor para não transparecer a quantidade de sentimentos que eu sentia naquele momento. – E você está falhando nessa tarefa andando por aí abordando seu capitão para perguntar coisas que não são da sua conta.
Dei as costas para ela e voltei a caminhar até a escada. Não iria ficar perdendo meu tempo ali.
– E a próxima vez que o fizer, não será Aruo a treinar o combate físico com você. – Virei meu pescoço, apontando para mim mesmo com o polegar. – Serei eu.
Ouvi um esgar de fúria sair da garota enquanto eu descia os degraus de pedra, e perguntei-me mais uma vez no que eu estava me metendo, esperando que a noite chegasse logo e Eren fosse de encontro a mim, dar-me mais daqueles beijos e aquele calor. E foi quando pisei no quarto degrau com a perna esquerda que senti meu joelho vacilar e meu corpo ser lançado escada a baixo, como se eu fosse um boneco.
A dor fora excruciante enquanto o senti rachar em minha perna, e minha cabeça bater com força na quina do degrau. E então, escuridão.
Merda.
–––
Acordei encarando o teto branco da enfermaria, com o que parecia ser um prego enfiado em minha testa, tamanha a dor que sentia. Minha cabeça estava comprimida em uma bandagem que ia até minhas sobrancelhas. Olhei ao redor. Havia uma cadeira vazia ao meu lado e um copo de café quente sobre a mesa. Eren?, pensei, ainda zonzo da queda. Mas quem entrou pela porta fora Hange, segurando um diário sobre o braço enquanto prendia os cabelos.
Ela sorriu ao encontrar-me acordado e segurou minha mão.
– Como está se sentindo, Levi? – perguntou, o rosto transparecendo alívio.
Engoli em seco. A dor em minha cabeça era forte demais para que eu pudesse falar ou mexê-la, e limitei-me a piscar. Seus dedos apertaram-se nos meus e ela se sentou. Zoe tomou o copo e bebericou o líquido fumegante dentro dele.
– Quando me chamou para o café, não imaginei que seria desta forma – brincou. Seus dedos ainda seguravam os meus e, apesar da brincadeira, sua expressão era séria. – Erwin passara por aqui agora, verificando seu estado. Mandarei alguém avisá-lo que acordou.
– Eren – falei em um sussurro rouco, sentindo cada letra martelar ainda mais aquele prego em minha cabeça.
Por sobre os óculos, os olhos de Hange esquadrinharam meu rosto, lendo minhas feições e decifrando minha expressão. Sua mão se soltou da minha e rapidamente passou pelo meu rosto. Seu toque era bom, cuidadoso.
– Jaeger ainda não sabe da queda. E Erwin ordenou que nenhum dos soldados fosse avisado – disse, como se se desculpasse. Seus ombros se encolheram ligeiramente. – Levi, o que você está fazendo?
– Eu não sei – respondi, desviando meu olhar do dela. Eu realmente não sabia, por mais que Eren ou ela, ou qualquer um me perguntasse. Por que meu primeiro pensamento fora no garoto?
– Entendo.
Passamos um minuto em silêncio, enquanto Zoe ainda bebia goles curtos do seu café. Fitei a parte do quarto por um tempo, até voltar a olhar para ela. Seus olhos contemplavam minhas pernas, a expressão pesarosa. Reuni um pouco de coragem e dirigi meus olhar para baixo e entendi o porquê daquela fisionomia em seu rosto. Havia uma envoltura de gesso em meu joelho, cobrindo toda minha perna. Merda.
– O que é isso? – perguntei, ignorando a dor.
– Você rachou o joelho na queda – ela me respondeu. – O joelho e a cabeça.
– Hm.
– Dr. Marcel deu um jeito na cabeça e colocou essa proteção em seu joelho. Você não poderá andar por um tempo.
Senti uma faca em meu coração. Como eu pudera me machucar daquela maneira tão estúpida?
– Ok – respondi, a voz tão seca quanto eu estava me sentindo naquele momento. – Leve-me ao meu quarto.
– Levi, você não pode sair daqui, ainda precisavam observar como você irá reagir ao machucado na cabeça e…
– Hange – lancei meu pior olhar para ela, mesmo sabendo que não era sua culpa o que acontecera –, leve-me ao meu quarto agora. – Senti minha voz embargar.
Por que eu queria chorar?
Minha amiga olhou-me por mais um tempo, entendendo meu pedido, e a amei ainda mais por não demonstrar sentir pena de mim. Terminou de tomar seu café, dirigiu-se até outra sala e trouxe uma cadeira equipada com um par de rodas. Seus braços serviram-me de apoio enquanto eu saía da cama e me sentava ali, e ela me empurrava em direção à rampa do prédio. Já não havia luz do lado de fora das janelas, e presumi que nossa sorte em não esbarrar com nenhum soldado no caminho se devia ao fato de que o alarme já soara, colocando todos na cama.
– E como ele é? – perguntou Hange repentinamente, sua voz ecoando pela pedra.
– Quem?
– Eren – sua voz sugeria um tom de diversão.
Não havia por que esconder nada dela mais. Eu apenas sairia de mentiroso de qualquer forma. E eu sabia que em Hange eu poderia confiar minha vida e meus segredos.
– Um bom garoto – respondi, tentando escolher as palavras. Nem mesmo eu sabia o que dizer. – Ele é… quente.
Hange riu.
– Quente? Só isso?
– Não sei, Zoe. Não pensei nisso – falei.
– Espero que saiba onde você está se metendo, Levi. Não quero que se machuque futuramente – falou, uma das mãos saindo da guia da cadeira e tocando meu ombro.
– Eu também – suspirei. – Eu também.
– O garoto se transformou hoje novamente – Hange mudou de assunto. – Um de classe 13 metros. Menor que o anterior, porém muito inteligente. Acredito que tenha sido o melhor até hoje.
Senti uma pontada de orgulho em meu peito.
– Ah, é?
– Sim – ela disse, virando o corredor, quase chegando em meu quarto. – O titã respondeu completamente aos comandos, inclusive assumiu posição de luta e desferiu alguns bons chutes em uma árvore.
Eu a ouvi rir novamente.
– Interessante – respondi. – E depois?
– Ackerman o levou de volta ao dormitório, deu banho em Eren e o colocou para deitar. Jaeger acabara o treinamento completamente esgotado. – Hange me respondeu, e meu sangue começou a ferver nas veias. Mikasa, além de aprontar aquela ceninha ridícula comigo ainda o banhara? Eren ficara… nu? Com ela?
– Hm – resmunguei, esperando Hange abrir a porta do meu quarto e me levar para dentro. – Obrigado.
A mulher se postou à minha frente, inclinando-se e me abraçando com cuidado.
– Não quer que eu fique? – perguntou.
– Não. Estou bem.
– Tem certeza, Levi? Sua cara não está das melhores, e pode ser que você precise de alguma ajuda…
– Estou bem – repeti, enfatizando em minhas palavras que queria ficar sozinho.
– Você que sabe – ela sorriu, beijando-me na bochecha e se dirigindo para fora do quarto. – Boa noite, nanico.
– Boa noite, sua louca.
A sua risada foi a última coisa que escutei antes do barulho da lingueta se encaixar na fechadura da porta. As cortinas de meu quarto estavam abertas e o luar invadia minha privacidade, testemunhando minha fraqueza, debochando de mim. Coloquei os cotovelos sobre a coxa e apoiei o queixo nas mãos cruzadas.
Então, eu chorei.
–––
Beijos em meu pescoço me acordaram, e os braços de Eren fecharam-se à minha volta. Se olhar sereno me contemplou com um "bom dia" silencioso, e mais beijos voltaram a me encontrar, passando por todo meu rosto até minha boca. Mas eu não o correspondi.
– Levi, o que aconteceu com você? – ele perguntou, passando meu braço sobre seus ombros e me erguendo da cadeira sozinho, sem ajuda minha. – Quando entrei e o encontrei aqui…
Ele parou. Ao contrário de Hange, seus olhos carregavam pena de mim.
– Não me olhe dessa forma, Jaeger – ordenei enquanto ele me colocava na cama, deitado.
Ajeitei-me em meio aos travesseiros e virei o rosto para a parede, encarando o nada. Eu me sentia humilhado, sendo carreado pela segunda vez em menos de 24 horas. O que estava acontecendo comigo e por que o soldado mais forte da humanidade esta sendo aquele inválido? Senti Eren sentar-se ao meu lado e tomar minhas duas mãos entre as suas, acariciando-me com seus dedos quentes. Aquele formigamento voltou a assolar meu estômago, e um nó se formou em minha garganta. Senti a ânsia de chorar novamente, mas eu não o faria na frente de ninguém.
– Como você está se sentindo? – perguntou.
Dei de ombros.
– Um bosta – respondi, soando mais sincero do que pretendia. – Olhe só para isso.
– Levi…
– Não tenha pena de mim! – vociferei, sentindo as lágrimas acumularem-se em meus olhos. Eu não posso chorar.
Suas mãos soltaram-se das minhas e viraram meu rosto em direção ao seu. Aqueles grandes poços verdes fitavam-me profundamente, e eu podia ver neles que Eren não sabia o que fazer. Seu rosto aproximou-se do meu e ele me beijou novamente. Eu ainda não o correspondia. Por que ele podia ser tão bom daquela forma, e por que aquilo estava me fazendo sentir ainda pior?
– Eu não tenho pena de você, Levi – mentiu o garoto.
– Não minta para mim – pontuei as palavras, esperando que ele entendesse. – Não preciso da pena de ninguém.
– Eu sei que não.
Suas mãos continuaram em meu rosto enquanto nos encaramos em silêncio, e fui surpreendido por um par de braços envolvendo meu corpo entre eles e puxando-me. O abraço de Eren me provocara soluços e quando me dei por mim, eu chorava profusamente sobre ele. A raiva misturava-se à frustração e à humilhação, sacudindo meu corpo violentamente enquanto o garoto me apertava contra si, segurando-me como se eu fosse cair a qualquer momento.
Não tive forças para me segurar a ele, então apenas me deixei ser abraçado naquele momento. O que seria de mim?, me perguntei diversas vezes. Eu voltaria a lutar, não é mesmo?
– Com certeza – sussurrou Eren, e então eu percebi que verbalizara aqueles pensamentos em voz alta. – Você irá voltar, Levi, eu prometo. E você continuará sendo o melhor soldado que este mundo já viu em toda a sua existência.
Por que ele estava cuidando de mim daquela forma? Era eu quem deveria olhar sobre ele, sarar sua dor pela perda de Armim e, pelo contrário, era ele quem estava ali para mim, segurando meu corpo junto do seu e dando seu calor para que eu amenizasse a minha própria dor. Aquele garoto era incrível, e consegui perceber nas entrelinhas que ele realmente se preocupava comigo. Todos os pensamentos de dúvidas sumiram de minha cabeça rapidamente, enquanto a última parte de mim que ainda faltava se entregar a ele desvaneceu no meio daquelas lágrimas pesadas de medo.
– Você é bom demais, Eren – falei, a voz falha e embargada.
E ele sorriu aquele sorriso maravilhoso, negando com a cabeça.
– Nunca serei o suficiente, capitão. Mas farei meu melhor. – Seus dedos limparam minhas lágrimas se secaram meu rosto com o lenço que havia sobre meu criado mudo.
– É verdade – concordei, tentando sorrir para ele em retorno. – Você é só um moleque.
Fui tomado de um beijo repentino, que passou calor para dentro de mim, delicadamente, e deixei minhas mãos abraçarem Eren pelo tórax. Aquele calor todo secara minhas lágrimas instantaneamente e até mesmo amenizara as minhas dores físicas.
– Você deveria sorrir mais, capitão – ele disse, a cada palavra, um novo beijo rápido.
Enrubesci.
– Cale a boca – falei, desviando o olhar, constrangido.
O som da risada de Eren invadiu meu quarto e pareceu trazer mais luz ali para dentro. Suas mãos pousaram sobre meu joelho engessado e foram subindo calmamente até minha coxa, apertando levemente.
– Você tem a mim agora – ele disse. – Nós temos um ao outro.
Suas palavras provocaram ondas elétricas em meu corpo. Ele continuou.
– Ambos temos nossas dores e iremos saná-las. Juntos. Agora venha. Vamos tomar um banho e descer. Você tem um esquadrão para cativar.
Quando ele se tornara tão adulto?
De repente o mundo parecia finalmente girar corretamente, as engrenagens se encaixando perfeitamente. Era somente Eren e eu. Semelhantes em nossas faltas e, ao mesmo tempo, também semelhantes em nossa força um pelo outro.
