Eu cativei meus soldados naquela manhã. E na manhã seguinte e nas outras que se seguiram. E eu também fui cativado. Erwin providenciara os melhores cuidados para mim, e o Dr. Marcel me dava toda a assistência que eu precisava. Eren ainda continuava ao meu lado, porém eu o dispensara para seguir com o seu treino, que eu observava todos os dias, fazendo as anotações pertinentes para quando eu voltasse a treinar com ele. Foram dias bons, apesar da ferida, e as noites foram ainda melhores com Eren sentando-se comigo em quase todas elas e conversávamos, tomávamos chá e ele me repassava suas anotações e suas dúvidas. Contava para mim seus sentimentos em relação à Armim e seus outros amigos e com o passar dos dias, vi seu sofrimento amenizar.
E foi no vigésimo dia de gesso e muletas que, com um som alto de rachado que vi aquela proteção finalmente sair da minha perna. Era como se eu finalmente pudesse respirar em paz, livre. Hange me apoiava com um o braço quando coloquei meu pé esquerdo no chão pela primeira vez em quase três semanas e senti o chão frio sob ele, uma corrente de excitação percorrendo todo meu corpo. A mulher estava tão feliz quanto eu, eu podia sentir, e sua mão apertou-me, dando-me um apoio que ia além do físico.
– Levi! – ela exclamou, a voz carregada de animação. – Como é?
– Excelente – respondi, olhando para ela, tentando esboçar um sorriso. Aquilo não era a coisa mais fácil para mim, nem nunca fora, e eu esperei ter feito certo.
O médico me deu uma faixa de bandagem e um pequeno pote verde com um tônico viscoso.
– Todos os dias, capitão, após o banho. – Falou, sacudindo-o em minha frente. – O senhor deve massagear até a região ficar quente e enfaixar logo em seguida. E, como eu já dissera anteriormente, sem esforços.
– Claro – concordei. – Pode deixar. Obrigado.
Saí para o dia nublado do lado de fora, sem soldados no campo de treinamento. Hange havia passado um braço em volta da minha cintura e eu me segurava a ela com o braço sobre seus ombros. Manquei levemente, meu corpo sentindo um medo involuntário de firmar os passos com a perna direita. Dei de ombros, retirando o braço que segurava em Hange, e tirando sua mão de minha cintura. Ela me olhou, questionadora, e me limitei a balançar a cabeça.
Eu precisava andar sozinho. Sem apoio.
O primeiro passo fora vacilante. A falta de uso da perna a tornara ligeiramente fraca, mas não era algo que eu não conseguiria lidar. Já o segundo, mais firme, cobriu uma distância maior. Meu coração pulsou forte em meu peito quando dei o terceiro, quarto, quinto passo, sentindo-me completo novamente. Finalmente, pensei. Virei-me para trás, procurando Hange com os olhos e não a encontrei; onde estava aquela maluca? Eu queria compartilhar com ela aquele momento, mas ela não estava em lugar algum! Simplesmente desaparecera.
Senti um pouco da excitação desvanecer naquela repentina solidão e comecei a voltar para onde viera. Suspirei. Pelo menos eu estava parcialmente curado, não é? Podia andar novamente, e não precisaria de ajuda até para tomar banho. Eu já alcançava o portal que adentrava o prédio do quartel quando ouvi passos rápidos e o som de objetos metálicos batendo uns nos outros. A voz de Zoe me alcançou de longe, chamando meu nome e, no momento em que me virei para ela, vi seu DMT preso à cintura e o meu em suas mãos. Ela corria em minha direção, o levantando.
– Levi! Vamos… voar!
Prendi meu equipamento ao meu corpo, passando as faixas cuidadosamente pelos pés e nos lançamos, juntos, para o alto, pelas árvores e pequenas montanhas que cercavam o vale do quartel general. Eu me sentia novamente dentro da cidade subterrânea, de prédio em prédio, Farlan à minha direita e Isabel à esquerda, e estávamos apenas naquela brincadeira de corrida que fazíamos quando o tédio era forte demais para somente coordenarmos roubos. O ar passava frio pelo meu rosto, e os pequenos galhos de árvores arranhavam minha pele, mas eu simplesmente não me importava.
Hange tocou em meu ombro rapidamente, fazendo língua para mim, um olho piscando por trás dos óculos quadrados, e saiu em disparada para o meio da floresta. Eu sabia o que tinha que fazer. Avancei atrás dela e, por pouco, ela não me escapara. A toquei, tal qual ela fizera comigo, e me apressei em fugir, toda minha manobra concentrada na perna direita e saindo tão bem quanto eu esperava.
Voamos um atrás do outro por horas, até que, exaustos, desabamos sentados em um dos galhos grossos da árvore no centro da floresta. Hange me pegara pelo pescoço e, com o punho fechado, acariciou meus cabelos. Ela tinha a mesma idade que eu e, ainda assim, mesmo tendo uma patente inferior à minha, me tratava como um garoto. Eu nunca diria isso a ela, porém eu gostava da sensação daquilo. Era um cuidado diferente.
– Bem vindo de volta, nanico.
Empurrei-a para o lado, desvencilhando-me de seu aperto. O suor grudava meus cabelos em meu rosto e haviam molhado minhas roupas. Eu precisava urgentemente de um banho. Aquela sujeira toda estava começando a me deixar louco.
– Obrigado.
Um trovão se fez ouvir ao fundo, seguido de um relâmpago; era nossa deixa para voltarmos para o quartel. Levantamo-nos ao mesmo tempo e Hange novamente me puxou para um abraço, soltando-me rapidamente e lançando seu equipamento para frente. Acenou para mim de longe e saiu, sumindo em gás e farfalhar de folhas. Fiquei de pé, mais um tempo, trocando o peso de uma perna para outra e esperando que meu joelho protestasse aos meus atos. Mas nada aconteceu. Estava tudo da forma que deveria ser.
Alcancei o quartel quando os primeiros pingos pesados começaram a atingir o chão. Um vento frio entrou cortando pela porta e protestou ao que o deixei do lado de fora ao fechá-la. As tochas ao longo do caminho ardiam em chama vermelha e viva e o som de minhas botas no chão fazia um eco quase ensurdecedor. Caminhei até o refeitório, tomando uma xícara de café nas mãos e saindo em direção ao meu quarto, no segundo andar.
Encontrei Eren sentado no chão, ligeiramente adormecido, as pernas longas dobradas para cima e os braços apoiando-se nelas. Sua cabeça se inclinava para trás e sua boca estava ligeiramente aberta. Uma respiração pesada saía de seus lábios, o ar se condensando e formando pequenas nuvens de vapor. Parei de pé ao seu lado, olhando-o ali, tão calmo e tão silencioso, tranquilo. Parecia tão… em paz. Estiquei minha mão até sua cabeça e acariciei seus cabelos com cuidado, despertando-o de seu cochilo.
Seus olhos, tão grandes e verdes – não, eu nunca pararia de pensar naqueles olhos e nunca pararia de ressaltar o quão magnífico eles eram – encontraram os meus e seu rosto se iluminou. O garoto levantou-se de um pulo, e vi hesitação em seu semblante quando ele se adiantou para mim, e deu um passo para trás na mesma hora. Seus braços estavam levemente esticados para frente, em minha direção.
– Capitão! – ele disse, o sorriso tão iluminado que ofuscou a luz das tochas.
Agarrei sua camisa e o puxei para mim, encontrando seus lábios nos meus. A hesitação de Eren se dissipou em calor, e seus braços envolveram-me. Soltei sua camisa e abri a porta atrás do garoto, o empurrando para dentro do quarto e fechando-a com o pé. Deixei o café sobre a mesa e permiti minhas duas mãos envolverem Eren, apertando-o com força contra mim. Ele abriu os olhos enquanto nos beijávamos e neles pude ver toda aceitação do mundo.
O levantei do chão e sentei sobre a mesa derrubando tudo que havia ali em cima. Suas pernas se encaixaram em torno da minha cintura, e àquela altura eu já não sabia mais o que estava fazendo, somente que queria fazer, queria tanto que todo o resto do cômodo se tornou plano de fundo para nós. Arranquei sua camisa bruscamente, logo voltando a beijá-lo; eu não queria perder nenhum daqueles beijos.
Entrelacei meus dedos em seus cabelos e puxei sua cabeça para trás, fazendo que seus olhos se encontrassem nos meus mais uma vez, e vi um forte rubor se espalhar pelas suas bochechas. Suas mãos estavam em meu pescoço, e pequenas gotículas de suor se formavam em sua testa. Encostei minha cabeça na sua e o fitei profundamente.
– Ei, moleque – falei, e seu sorriso foi instantâneo a boca ligeiramente aberta.
– Como está a sua perna? – Eren perguntou, a voz carregada de lascívia, e mordeu o lábio.
– Ótima. – Meu peito ofegava, e avancei novamente em sua direção, porém seu dedo apareceu no caminho, interrompendo meu beijo.
Ele tirou minha camisa lentamente, seus dedos roçando em minha pele enquanto o fazia, provocando uma sequencia de arrepios involuntários. Cuidadosamente, suas mãos desceram até o cós de minha calça desabotoando um botão por vez, deixando-me cada vez mais excitado. Aquela demora estava me matando. Cada milímetro do seu corpo gritava por Eren, e ele estava me fazendo esperar? Por que aquela tortura toda?
Tentei afastar suas mãos, me lançando em direção a ele, mas novamente fui interrompido. Os olhos de Eren lançavam uma energia estranha, que fazia com que todas as células do meu corpo vibrassem em uma frequência nova – a sua frequência. Senti suas pernas soltarem-se da minha cintura e seu corpo se inclinar levemente para baixo, descendo a calça e beijando meu tórax enquanto voltava para mim.
Peguei novamente suas pernas com minhas duas mãos e as prendi com força à minha volta, trazendo nossos corpos para mais perto ainda. Eren alcançara minha cabeça e seus dedos entravam em meu cabelo, apertando minha nuca e aquele olhar extremamente indecente ainda me atingindo como um raio. Eu podia sentir sua ereção contra os meus quadris, seu rosto vermelho e ávido por mais.
Arranquei sua calça em uma puxada só, ouvindo as costuras cederem à minha força e as isolei no chão do quarto, inclinando meu corpo sobre o seu, explorando seu pescoço e ombros em minha boca, finalmente escutando novamente aqueles sons que eu havia presenciado em meu sonho, porém agora vívidos para mim e ao pé de meu ouvido. Um calor abundante invadiu meu corpo no momento em que Eren se moveu para mim, levemente friccionando sua virilha na minha, suas mãos vorazes ora puxando meus cabelos, ora arranhando cada centímetro das minhas costas, fazendo com que eu mesmo soltasse um som grave do fundo de meu peito.
Eu me sentia completamente envolvido, perdido nas mãos de Eren, quando a voz no fundo de minha cabeça falou-me novamente, aparecendo sabe-se lá de onde. O que você fará, Levi?, ela perguntou. De súbito, parei, ofegando enquanto os olhos de Eren me olhavam confusos, e sua boca vermelha se voltava em um beicinho que pedia por mais. Os mordi com força, enquanto tentava pensar rapidamente no que eu faria em seguida, e vi um punhado de lágrimas se formar em seus olhos.
– Levi – ele sussurrou, passando a língua por onde eu havia mordido. – O que está fazendo? – perguntou, a boca colada em meu pescoço, me retribuindo a mordida dolorida.
– Eu não sei – o afastei de mim, sentindo meu rosto em chamas cruéis.
E então ele sorriu.
– Eu lhe mostro – falou, segurando minhas mãos nas suas e as levando até o cós de sua roupa de baixo.
Seus dedos nos meus, ele forçou a roupa para baixo, fazendo o mesmo com a minha em seguida. Eu estava constrangido, com tanta vergonha que tentei não olhar, mas não pude evitar meus olhos de caírem sobre seu membro ereto, e um pensamento correu pela minha cabeça, tentando dissipar todo aquele embaraço – ele está assim por mim. Eu fizera aquilo acontecer, por mérito meu.
Eren me beijou novamente, projetando seu corpo mais alto, voltando a esfregar seu quadril no meu. Desci minhas mãos até sua nádega e a puxei para mim, invadindo-o aos poucos, seus olhos fixos no meu desde o começo, arregalando-se quando o fiz e sua boca procurando pela minha avidamente.
A sensação mais indescritível de toda a minha existência percorreu todo meu corpo, provocando mais ondas de prazer pelas minhas veias, tornando-me completo por ter Eren ao meu lado e por estar nele, meu corpo e o seu se tornando um só, finalmente. Beijamos-nos ferozmente enquanto ele se mexia vagarosamente em meu colo, as pernas em minha cintura oferecendo todo apoio para que ele pudesse subir e descer em mim.
Seus braços agarraram meu pescoço, minhas mãos fecharam-se em suas coxas, retirando-o da mesa e o levando até a parede, onde bati suas costas na parede, sem medo de machucá-lo. Eren beijava minha boca, meu pescoço, minha orelha, enquanto balbuciava meu nome entremeado por suspiros, apertando meu corpo no seu, o suor escorrendo pelas nossas costas.
O ar me faltou quando o penetrei com mais força, escapando de meu peito em um gemido grave, em conjunto com o de Eren, e aumentei o ritmo das estocadas que eu desferia em seu corpo, sentindo seu pênis roçar em minha barriga, e seu rosto contrair-se em prazer, deixando-me ainda mais excitado. Eu precisava daquele corpo, daquela boca, precisava de Eren por inteiro, e eu o tinha naquele exato momento, sendo meu apenas, contorcendo-se em minhas mãos e gemendo meu nome, pedindo por mais, sempre mais.
– Levi… – ele sussurrou, os olhos fechados e a cabeça jogada para trás, engolindo em seco.
Avancei em direção ao seu pescoço, enquanto seu corpo quicava violentamente à força dos meus movimentos. Senti os músculos de suas pernas se contraírem, presas aos meus quadris, e por uma fração de segundo em que meus lábios se abriram em uma linha fina, chamei seu nome e senti todo meu corpo vibrar de deleite, atingindo o clímax perfeito, o primeiro de toda minha vida. Não muito depois, Eren também gozou, sujando todo meu tórax em um jato quente de satisfação.
Sua cabeça se enterrou na volta de meu pescoço, e o segurei ali, costas para a parede, nossas respirações descompassadas e pesadas, minhas pernas começando a fraquejar. Lentamente, o levei até a minha cama e o deitei, caindo por cima de seu corpo, em silêncio. Então era essa a sensação de foder alguém?, pensei, ouvindo as batidas do coração de Eren contra meu ouvido. Suas mãos traçavam linhas desconexas em minhas costas molhadas de suor. Rolei para o lado, encarando seu rosto, de olhos ainda fechados, e a expressão plena que ele tinha. Senti-me sujo pelo pensamento anterior, tão vulgar que não cabia naquele momento.
O olhei por alguns instantes, enquanto relâmpagos violentos lançavam rajadas de luz para dentro do meu quarto, e a respiração do garoto começava a amainar, seu rosto virando-se em direção ao meu, lançando-me um olhar entreaberto. Palavras eram dispensáveis, pensei. Meus dedos deslizaram pela sua bochecha, e o puxei para meus braços, segurando seu corpo de forma frouxa, a cabeça vazia, porém o coração, completamente cheio.
Aquela centelha que se formara agora já era uma chama viva, ardente dentro de mim. Aos poucos, as bordas do meu buraco negro pessoal aproximavam-se mais do centro, fechando-o com suavidade, abraçando-me por dentro, me dando paz e conforto. E eu sabia que aquilo havia sido trabalho de Eren, apenas.
Era tudo sobre ele naquela hora e para sempre.
–––
A noite caiu e ainda não havíamos dito uma palavra. De um em um, os pensamentos voltaram à minha mente, oscilando entre os bons e os ruins, lembranças da minha primeira vez, e até perguntas sobre onde Eren aprendera aquilo tudo para me dizer que iria me mostrar. Ele dormia pesadamente ao meu lado, de bruços, as costas subindo e descendo enquanto respirava tranquilamente. Sua expressão era tão serena quando a de mais cedo, quando o encontrei adormecido do lado de fora de minha porta.
Temi tocá-lo e acabar com aquele momento, como se ele fosse sumir ao meu toque. Seus músculos eram firmes, bem delineados e suas pernas enormes saíam pela beirada da minha cama. Preciso providenciar uma nova, pensei. Eren dormiria ali mais vezes, não é? Esperei que sim. Meu espírito pedia por mais momentos daquele, onde ele e eu nos tornávamos apenas um, sangue e suor.
Passos se fizeram ouvir do lado de fora, pessoas passando e conversando. Provavelmente era a hora do jantar, pelos meus cálculos. Ainda chovia pesadamente do lado de fora, as gotas fustigando as janelas de vidro, produzindo aquele som abafado. Não havia mais raios e nem trovões no céu, mas meu estomago produziu seu próprio som alto, reclamando e pedindo por alimento. Eu não me lembrava da última vez que comera naquele dia, e todas as minhas energias haviam se esvaído durante o sexo.
Corei.
Eu precisava me acostumar com aquele tipo de pensamento.
– Precisamos comer, capitão – sussurrou Eren de olhos ainda fechados e a boca se curvando em um meio sorriso.
– É – resmunguei.
Joguei as pernas para fora da cama, debruçando-me sobre os joelhos com os cotovelos e passando as mãos pelo cabelo. Eu estava pregando de suor, sem contar toda a… a bagunça que Eren fizera ali mais cedo. Senti o garoto erguer-se da cama e passar um braço pelo meu ombro, deixando-o cair em direção ao meu colo. Sua mão era quente, como sempre, e fez meu tórax inteiro arder em chamas no momento em que o tocou. Seus lábios beijaram meu pescoço e seu queixo se apoiou em mim. Quando ele falou, sua voz provocou cócegas em minha orelha, e me retraí.
– Vamos nos limpar, moleque – falei.
Eren soltou um muxoxo de desaprovação.
– Queria poder ficar aqui – ele sussurrou. – Só aqui – e beijou minha nuca.
Merda. Ele estava me excitando novamente. Eu também queria ficar somente dentro do quarto, tendo seu corpo em minhas mãos, suas palavras e seu toque só para mim, e escondê-lo de todo o mundo só para que ele fosse somente meu. Mas a realidade era diferente, e eu tinha minhas obrigações de capitão a cumprir. O puxei pelo pescoço, fazendo-o cair em meu colo e sentindo-me incrível ao ver que toda minha força não fora prejudicada pelos últimos acontecimentos.
O garoto me olhou nos olhos, a boca entreaberta.
– Desculpe – beijei sua testa. – Mas precisamos sair alguma hora.
Ele deu de ombros, descontente. Levantou-se de meu colo e se saiu em direção ao banheiro pequeno dentro de meu quarto. Agradeci mentalmente pela minha patente e pelos poucos luxos que ela me permitia, como um banheiro particular. Escutei a água do chuveiro cair e me senti tentado a ir até lá, banhar-me com Eren e sentir novamente seu corpo em minhas mãos, ainda mais sob a água, e toda aquela limpeza. Me segurei, entretanto. Eu precisava arrumar a baderna que fizemos, aquilo tudo estava me dando nos nervos.
Vesti um short e coloquei as roupas de Eren e as minhas dentro do cesto de roupas sujas e juntei todos os objetos que estavam sobre a mesa antes de eu os derrubar, dispondo-os na mesma ordem na qual estiveram anteriormente. Peguei um lenço e o umedeci com água do jarro sobre a mesa de cabeceira e o esfreguei na parede até tirar a mancha de suor com o formato das costas de Eren. Estiquei o lençol e o cobertor, enfiando os travesseiros por baixo.
Quando Eren saiu do banho, a toalha enrolada na cintura, respingando água no chão, ordenei que voltasse.
– Não molhe o meu chão, moleque – o repreendi.
Seus pés deram um passo para trás, pisando no tapete do banheiro.
– Desculpe – pediu, as bochechas ficando rosadas.
– Fique aí.
Separei uma muda de roupas para ele e as deixei sobre a cama, finalizando meu serviço e me dirigi até onde estava. O empurrei para dentro do banheiro novamente, seu corpo tremendo levemente de frio, os pelos eriçados pelo vento que entrava pela janela. Desenrolei a toalha de sua cintura e comecei a secar seu corpo aos poucos.
– Desculpe pelo vento – pedi. – Esqueci-me de fechar a janela.
– Está tudo bem – Eren falou, esticando os braços para que eu o secasse.
Deixei para secar seus cabelos por último, levantando os calcanhares e acariciando sua cabeça com cuidado. O garoto soltou um risinho fino. Parei no mesmo momento e o olhei.
– O que foi, moleque?
Seus lábios lutavam para segurar o riso.
– Desculpe, Levi – ele começou a pedir, porém a risada escapou de sua boca e ele apontou para meus pés. – Mas você está na ponta dos pés e ainda assim é baixinho perto de mim!
Meu rosto ferveu de vergonha. Embolei a toalha nas mãos e joguei em seu rosto, virando-me para sair. A mão de Eren agarrou meu pulso e me puxou de volta, abraçando-me pela cintura, limpando uma lágrima do canto do olho. Com dificuldade, ele puxou o ar e deixou o riso morrer em seu peito antes de dar-me um beijo rápido.
– Seu estúpido – resmunguei, batendo minha testa na dele.
– Desculpe – repetiu. – Sua altura é adorável, só isso.
– Moleque idiota – respondi. – Separei para você algumas roupas e as coloquei sobre a cama. Arrume-se para o jantar.
Eren me soltou e, em posição, bradou um "Sim, senhor" antes de soltar-me e caminhar para dentro do quarto. Fechei a porta do banheiro atrás de mim assim que o garoto saíra, sentei-me sobre o vaso sanitário, com a tampa para baixo, e pensei no que havia acontecido até aquele momento. Aquelas pequenas recapitulações me ajudavam a assimilar as coisas que aconteciam comigo no correr do dia e, desde que Eren me salvara, aquela era a forma que eu encontrara de guardar todos os detalhes pertinentes a ele dentro de minhas lembranças.
Tomei um banho rápido e, quando saí do quarto, não o encontrei em lugar nenhum. Havia apenas um bilhete sobre a mesa, um papel amarelado escrito com uma caligrafia cursiva corrida.
Capitão,
Eu escolhi, conforme o senhor me ordenara na minha primeira missão.
Eu o escolhi.
E. J.
Meu coração inflou-se em meu peito e novamente eu me senti como um adolescente, as pernas bambas, a respiração sem ritmo e as palmas das mãos suando profusamente. Vesti-me rapidamente, ajeitando o cabelo e o lenço em meu pescoço, envolvendo os ombros com a jaqueta escura e calçando as botas maiores, até o joelho, onde esconderiam o volume provocado pela bandagem que eu deveria usar.
Desci as rampas a passos rápidos, apenas assentindo às boas vindas que os soldados no caminho me davam. Minhas pernas cobriram boa parte da distância na rapidez que eu desejava e em poucos minutos me vi à porta do refeitório, procurando o garoto com os olhos, desejando encontrá-lo logo, jogá-lo por cima dos ombros e levá-lo até a cama novamente, e o amar da forma mais forte que eu pudesse. Mas quando o encontrei, sua expressão era séria, as mãos cruzadas sustentando o queixo, seu cenho franzido e o semblante pensativo.
Hange gesticulava animadamente à sua frente, e tudo o que Eren fazia era concordar com suas palavras, dizendo alguma coisa ou outra em certos momentos, logo voltando ao silêncio inicial. Zoe mexia-se cada vez mais, colocando papéis com anotações sobre a mesa, apontando para pontos e depois os sacudindo em frente ao rosto de Eren. Em meio a toda a conversa da sala, eu não conseguia escutar o que estava dizendo. O que será que aquela mulher estava aprontando?
Avancei em direção a eles, tentando passar pelas mesas sem esbarras em nenhuma cadeira, porém braços masculinos fecharam-se em torno do meu pescoço, e um ninho de cabelos loiros cobriram meus olhos. Erwin me puxara em um abraço apertado, desejando-me boas vindas de volta e me conduzindo à mesa dos oficiais, que olhavam para mim com excitação, as canecas levantadas em minha direção, sorrindo à minha chegada. As mãos do comandante forçaram-me a sentar em uma das cadeiras e, em um último olhar que consegui lançar à Eren, ele me encarou de volta, levantando as palmas das mãos para cima e encolhendo os ombros, as sobrancelhas erguidas. Hange virou-se e sorriu para mim, acenando um aceno e logo se voltando para Eren e continuando a falar, empolgada.
– Ao capitão! – bradou Petra, e os outros repetiram.
Erwin me entregou uma caneca e eu brindei com eles.
Apesar da preocupação sobre o que aquela mulher louca estaria falando com Eren, me senti bem ali no meio dos meus. Bebi um gole do líquido fermentado da caneca e, pela primeira vez, na frente deles, sorri.
