– Não – Os interrompi, cruzando os braços em frente ao peito.

Hange e Eren estavam sentados à minha frente, ela com a excitação morrendo aos poucos em seu rosto, e o garoto com os braços cruzados como os meus e as sobrancelhas franzidas. Era a primeira vez que via Eren de cara feia para mim e meu interior era conflitante em opiniões. Mas o que eles insinuavam era absurdo, para não falar impossível, e não fazia parte da minha personalidade nutrir esperanças por algo que não daria certo. Eu já vivera demais para saber que há certas coisas que não deveriam ter nem mesmo uma chance.

Você dera uma chance para si mesmo com Eren, falou a voz dentro de minha cabeça. Mandei-a se calar. Sacudi a cabeça fechando os olhos por um momento.

– Eu não posso concordar com isso – falei. Abri meus olhos e encontrei os de Eren encarando-me de volta. Sua expressão era indecifrável – Foi ideia sua?

Ele assentiu.

– E você concordou com isso, Zoe?

– Sim, Levi – ela disse, ajeitando os óculos sobre o nariz, seu semblante sério – É a melhor opção que nós temos! Aperfeiçoaria o treinamento do garoto e ajudaria na sua preparação.

– Bobeira - rebati. – Eu não preciso disso.

No fundo de meu coração eu sabia que não era esse o motivo. Eu realmente precisava de ajuda pra qualquer coisa relacionada à luta e combate, mas aquela não era a solução para o meu problema. O risco no qual aquele plano estúpido coloca Eren era de proporções inimagináveis, e eu não iria ajudar a manter a ideia de pé. Eu não podia permitir que o garoto se transformasse em titã todas as vezes que saíssemos em expedição e eu não podia deixar que ele carregasse o peso de minha vida em suas costas, além do peso que ele mesmo colocava sobre seus ombros por causa dos seus poderes.

– Levi, me escute - ele começou, esticando as mãos sobre a mesa e cruzando os dedos. - Eu havia prometido que você voltaria, não se lembra? Eu prometi que você continuaria sendo o melhor soldado da humanidade e eu essa é a forma que eu encontrei de cumprir a minha promessa.

– Você não tem que fazer esse tipo de coisa por mim, garoto - respondi rispidamente. Como que ele não entendia?

– Eu não tenho mesmo, mas eu quero.

Aqueles olhos gigantes esquadrinharam meu rosto e me fuzilaram. Uma pequena insegurança se abateu sobre mim. Será que ele não iria querer mais nada comigo depois daquilo? Meu coração disparou dentro do peito, mas me segurei. Eu não iria demonstrar emoções, ainda mais aquelas. Eu deveria me manter firme à minha decisão, qualquer que fosse a cara que Eren faria para mim. Era a sua vida em jogo e se preciso fosse, eu preferia tê-lo fora de meu quarto a tê-lo fora de minha vida.

– Você é um estúpido - ele falou.

– Meça suas palavras, Jaeger. Eu ainda sou o seu capitão – Senti meu estômago se contrair e um nó se formar em minha garganta.

– Vou deixá-los a sós – falou Hange, repentinamente me lembrando de que ela ainda estava no cômodo. Eu havia me esquecido completamente dela.

Sua cadeira se arrastou no chão quando a afastou e, antes de sair, ela disse à Eren que me convencesse a qualquer custo. Suspirei. Quando fora que eles se juntaram dessa forma?

Estiquei as mãos por sobre a mesa e segurei as mãos do garoto nas minhas, mas ele as retirou rapidamente.

– Por que você está fazendo isso, Levi? – perguntou o moleque, os olhos carregados de decepção e raiva.

– Eu não posso colocar a sua vida em jogo, Eren – respondi, meus dedos pendendo soltos sobre a superfície de madeira. – Você sabe o custo das suas habilidades e eu não posso permitir que você as use em função de curar o que não pode ser curado em mim.

Seus olhos seguraram os meus por mais um tempo antes de deixá-los caírem sobre a mesa. Eren sabia que eu estava certo. Seu corpo humano não tinha nada de excepcional, e todos tínhamos consciência de que o uso exacerbado dos seus poderes de titã acabaria levando-o para o mesmo caminho no qual eu me encontrava naquele momento – machucado e a ponto de comprometer todas as minhas habilidades.

Levantei-me e me dirigi até Eren, sentando-me na quina da mesa, inclinado para o garoto e segurei seu rosto em meus dedos, levantando-o em minha direção. Eu queria apenas beijá-lo para fazê-lo esquecer daquela ideia idiota, mas a outra voz em minha cabeça ordenava que eu mantivesse a posição de capitão e minha postura inconsciente era de fazê-lo. Acima de tudo, tudo o que Eren pudesse significar para mim, a racionalidade deveria vir em primeiro lugar para o próprio bem do garoto.

– Eren… – comecei, meu rosto a poucos centímetros do dele. – Me desculpe, mas eu não posso deixá-lo fazer isso.

– Você não confia em mim? Minhas capacidades são inferiores para você?

Suas perguntas me atingiram como um raio, e fui remetido ao dia em que Isabel e Farlan fizeram-me os mesmos questionamentos, fazendo-me sentir um idiota por questionar suas habilidades em campo. Porém, eu confiara. Eu os deixara para trás com o titã e parti em direção ao meu objetivo. E… bom, eles não estavam mais ali hoje. Aquele era o preço da minha confiança, o preço que eu paguei por abandonar os meus acreditando que teriam a mesma capacidade de lidar com a situação que eu esperava que tivessem.

Vi meus braços envolverem o corpo de Eren, meu corpo totalmente inclinado em sua direção. O cheiro dos seus cabelos envolveu completamente o meu nariz, e aspirei desesperadamente cada punhado daquele perfume que eu pude, como se ele fosse desaparecer a qualquer momento no meio dos meus braços. Minha boca procurou a dele e encontrei seus lábios quentes e firmes, e quis aquele momento para sempre, que não houvesse nenhum titã, nenhuma humanidade a ser salva, nenhum joelho fodido e nenhum garoto titã que queria lutar ao meu lado usando um poder que ele ainda não sabia controlar.

Seus ombros quentes estavam mais pontudos do que eu imaginava, e, quando afastei Eren de mim, para olhar em seus olhos, notei um filete de sangue escorrendo pelo seu nariz. Saquei o lenço e o limpei.

– Está vendo o por que? – falei, esfregando seu nariz até estar completamente limpo.

Sua mão encontrou a minha e a segurou.

– Isso é falta de prática, capitão – ele respondeu em meio a um resmungo.

Suspirei, aliviado. Eren sabia que eu tinha razão.

– Você está muito magro – falei, levantando-me e trazendo Eren junto comigo. – E precisa de um pouco mais de preparo. Eu acabei te desviando demais do foco do seu treinamento. Estaremos em missão em pouco tempo e precisaremos de você lá. – Envolvi sua cintura com meu braço, trazendo-o para perto de mim. – Me desculpe.

As bochechas do garoto coraram violentamente, o rosto próximo ao meu tão quente que esquentava o meu também.

– Ok, capitão – ele desviou o olhar.

Voltei a tomar seu queixo entre meus dedos e o virei para mim, dando-lhe outro beijo rápido. Eren encostou sua resta na minha, a respiração repentinamente ofegante, os olhos presos aos meus, desnudando-me sua alma e tentando penetrar fundo na minha. Ele era simplesmente incrível; já não havia mais nenhuma dúvida dentro de mim sobre o motivo de eu ter meus pensamentos apenas focados nele, de todas as formas possíveis.

– Eu realmente quero lutar ao seu lado – falei –, mas não quero que isso se torne um risco para você. Eu não posso perdê-lo, Jaeger.

– Mas capitão – o ar que saía de suas palavras salpicava meu rosto, provocando um pouco de cócegas –, eu o prometi…

– Cale-se – e o beijei, fazendo com que parasse de falar sobre aquilo, dando o assunto por encerrado.

A porta se abriu atrás de nós e imaginando que Zoe voltara, soltei-me de Eren vagarosamente, não querendo fazê-lo mas sentindo-me parcialmente constrangido por ter sido pego. E o constrangimento se transformou em pânico completo ao encontrar o rosto impassível de Erwin parado à porta, olhando-me com olhos vazios e a expressão tão neutra quanto possível. Imaginei que pegaria minha cabeça novamente e a enfiaria no chão como fizera no dia em que nos conhecemos.

Lutei para manter meus olhos calmos; era por eles que Erwin me lia, mas senti Eren vacilar ao meu lado, tentando entrar em posição de continência, mas trocando as mãos e a voz começando a balbuciar coisas sem sentido. O olhei uma última vez de canto de olho antes de ouvir a voz grossa de Erwin mandando que saísse dali.

– Jaeger, por favor, nos dê a sua licença – pediu o comandante daquela forma polida, porém que emitia uma ordem silenciosa que, para o bem de quem a estivesse recebendo, seria bom não refurtar.

As pernas de Eren o levaram automaticamente para o lado de fora e ele fechou a porta atrás de si, deixando-me sozinho com o homem soturno parado à minha frente. Erwin indicou a cadeira onde Eren estivera sentado instantes antes, mandando que eu me sentasse ali, e eu o fiz, sabendo que era melhor não nadar contra aquela correnteza. Ele próprio tomou uma cadeira para si, sentando próximo a mim e cruzando os braços. Respirou três vezes antes de começar.

– Levi, que diabos você está fazendo? – ele perguntou, a voz calma expressando silenciosamente todos os sentimentos que ele não demonstrava. Erwin era um homem aterrorizante. – O garoto tem a metade da sua idade.

Não respondi. Continuei mantendo meus olhos nos seus, a respiração profunda ajudando a me acalmar e pensar com mais clareza. Tal como fora com Hange, eu não poderia mentir nem omitir nada ao meu comandante. Ele me conhecia bem demais.

– Levi, me responda – ordenou.

– Eu não sei, Erwin – falei. – Na verdade, não sei se eu quero saber.

– Você está usando o garoto para sanar a sua frustração, Levi, eu o conheço…

– Não se atreva – o interrompi, batendo o punho sobre a mesa. Eu nunca pensara em Eren como uma distração, nem nada além do homem que eu queria ao meu lado sem precisar de um motivo. Eu queria, simplesmente. – O garoto fez a sua escolha, e ele escolheu ficar comigo, eu não posso fazer nada quanto a isso!

– Você poderia tê-lo afastado, Levi! – Bradou Erwin.

– Eu não quero que ele se afaste de mim! – berrei, inclinando-me sobre a mesa em direção ao corpo de Erwin.

Entretanto, ao contrário do que pensei, ele apenas abaixou a cabeça, soltando um muxoxo do que imaginei ser conformação. O que ele estava fazendo. Um sorriso irônico brincou pelos seus lábios antes que ele voltasse a olhar em meus olhos, e sua expressão era muito mais relaxada do que em muito tempo. O comandante também se levantou da cadeira, inclinando-se em minha direção e segurou o colarinho da minha camisa, puxando meu rosto para próximo do seu.

– É bom que você descubra o que está fazendo, Levi – ele falou, sorrindo para mim. Senti uma leve confusão se formando em minha cabeça. – Eu imaginei que isso fosse acontecer uma hora ou outra, de qualquer forma.

– O que? – perguntei, soltando-me de suas mãos, acertando meu lenço em meu pescoço. Eu estava todo desarrumado.

– Que você fosse encontrar alguém – respondeu. – Mas não imaginei que pudesse ser um soldado.

Dei de ombros.

– Ele não é somente um soldado, você sabe, Erwin.

– Pode ser que não seja mesmo – seus passos foram rápidos em me alcançar e ele me puxou para um abraço rápido e forte. – E espero que não seja apenas uma distração. O garoto é a nossa maior chance e você não pode danificá-lo.

– Não o farei – respondi.

– E a partir de hoje, não me esconda mais nada. Sou seu comandante, mas também sou seu amigo. Lembre-se de quem lutou por você, Levi. Eu vou estar ao seu lado.

Senti novamente aquele sentimento novo me inundar completamente, aquela luz quente dentro de meu peito se espalhando até as pontas dos meus dedos, fazendo todo meu corpo se iluminar. Por que eu nunca reparara em todas essas pessoas incríveis ao meu lado? Onde eu estivera todo esse tempo e por que, só depois que Eren entrara em minha vida completamente era que eu sentia que não estava sozinho?

–––

Todas as mesas do refeitório estavam lotadas. Os soldados conversavam entre si naquele volume estridente. O som de garfos e facas batendo nos pratos fazia coro às suas vozes e risadas, produzindo o ruído mais irritante que eu já escutara. Reuni um pouco de coragem, prendendo-a dentro do peito junto com um pouco de ar e entrei, marchando a passos firmes até a mesa de Eren e o agarrei pelo colarinho da camisa, interrompendo o que falava aos colegas. Todos os olhos se voltaram para nós, o espanto estampado em cada um deles.

– Capitão, o que o senhor está… – começou Eren, porém não deixei que concluísse sua pergunta.

Beijei seus lábios de forma intensa e rápida, e o larguei, seus pés batendo no chão com um som oco, vibrando em diversas ondas pelo aposento. Virei-me, na mesma rapidez na qual entrei, eu saí, esperando ter deixado muito claro para todos o que estava acontecendo e que Eren era meu, apenas, a partir daquele momento e para a vida inteira.

Eu já estava quase do lado de fora quando ele apareceu.

– Oi! – Chamou-me a voz do garoto, correndo em minha direção, o rosto lívido enquanto ele se afastava do burburinho que assomou todo o refeitório. Suas mãos encontraram meu peito e ele me empurrou com força. – O que você fez, Levi? – Ele perguntou, bufando, o pescoço vermelho.

Dei de ombros, como geralmente fazia e afastei suas mãos.

– Esclareci algumas coisas – respondi, vendo Hange e Erwin se afastarem lentamente, lançando olhares furtivos na minha direção.

Ele voltou a me empurrar. Ok, poderia ser que aquilo começara a me irritar.

– Não faça isso – o alertei.

– O quê? – ele perguntou, a expressão desafiadora. Eren tornou a me empurrar. – Isso?

Senti meu sangue começar a esquentar. Segurei seus pulsos com uma mão e o peguei pela cintura com a outra, jogando seu corpo por cima dos meus ombros, ignorando seus protestos e xingamentos, desviando o rosto da mira daquelas pernas gigantes que se debatiam violentamente enquanto eu o carregava para cima. Olhos curiosos despontavam aqui e ali e me apressei em repreendê-los.

– Vocês não têm mais o que fazer? – berrei, e instantaneamente todos sumiram.

Abri a porta do meu quarto com o pé, Eren ainda jogado sobre meus ombros me amaldiçoando a cada passo que eu dava. O garoto estava tão irritado que senti o ímpeto de rir, mas me segurei. Fechei a porta também com o pé, caminhei até a cama e o joguei deitado sobre a colcha, seu corpo quicando levemente sobre as molas. Seu olhar era feroz sobre mim, e sua boca estava contorcida num esgar de fúria. Coloquei-me sobre ele, as mãos e joelhos no colchão, mantendo meu corpo suspenso. Minha perna abriu caminho entre as suas e vi seu rosto dar um pequeno sinal de rendição quando o pressionei.

Suas mãos fizeram menção de me empurrar novamente, mas agarrei seus pulsos e os prendi contra a cama.

– Você é meu, Jaeger – sibilei.

A cabeça do garoto se sacudiu energicamente para os lados, os cabelos castanhos caindo pelo seu rosto.

– Eu não…

– Você é meu – afirmei novamente, avançando em direção à sua boca.

E, por mais que o garoto quisesse me mostrar resistência, seus lábios receberam os meus de bom grado, permitindo que minha língua sentisse seu gosto e que meus dentes o mordiscassem em todos os pedaços que conseguiam alcançar. Não demorou muito para que Eren não conseguisse mais segurar aquelas suspiros pesados e aqueles pequenos gemidos soltando-se entre dentes, sua expressão denunciando que sentia raiva por seu corpo reagir a mim.

– Levi… – ele gemeu, forçando os pulsos para fora do meu aperto, mas eu os mantive firmes ali, passando a língua pelo seu pescoço, ouvindo-o engolindo em seco, cada parte do seu corpo contorcendo-se.

Pressionei mais minha perna contra sua virilha e Eren já se mostrava excitado o suficiente para não sair de mim mais. Lentamente, soltei suas mãos e, com uma das minhas mãos livres, adentrei sua camisa, sentindo sua pele em meus dedos, quente e macia. O garoto arqueou as costas ao meu toque e deslizei minhas mãos por elas, levantando-o e sentando-o em meu colo. Joguei suas mãos em volta do meu pescoço e agarrei seu cabelo, trazendo sua boca para a minha e o beijando com força, deixando toda a delicadeza de lado enquanto um instinto quase animal se apoderava de mim, e meus dedos rasgavam as fibras do tecido de sua camisa e descobria todo seu torso.

– Levi… – ele voltou a gemer meu nome, mas dessa vez sem lutar comigo, apenas entregando-se em minhas mãos. – Eu sou… eu sou seu, Levi.

– Isso mesmo – respondi, beijando seu pescoço, seus ombros, inclinando-me mais para baixo e beijando seu peito. – Você é meu, Jaeger.

–––

Na primeira luz da manhã, Eren e eu estávamos do lado de fora, vestidos, dentro do campo de treinamento físico. Juntei a mão direita fechada em punho em frente ao rosto e a esquerda, também fechada, mais para frente. Posicionei as pernas, levemente flexionadas e num movimento rápido chamei-o para vir. O garoto, assumindo posição de luta semelhante à minha se adiantou para frente. Ele era tão previsível quanto eu esperava que o fosse, e a primeira coisa que fizera fora lançar-me um gancho de direita.

Abaixei-me, evitando ser atingido e puxei a maior quantidade de ar que consegui para dentro dos meus pulmões.

– Eren, preste atenção – falei, utilizando-me de um pouco de distração.

No momento em que seus olhos desviaram-se de meus punhos para o meu rosto, o acertei com ambas as mãos espalmadas diretamente na orelha, deixando-o zonzo. Como eu já sabia que o faria, Eren enfureceu-se e fechou a mão direita em punho, tentando acertar-me no rosto com um cruzado de direita o qual bloqueei sem muito esforço com o antebraço, espalmando sua mão para baixo. Ele voltara a me atacar com um jab que parei com o cotovelo e desferi um soco em sua cintura, escutando suas costelas começarem a ceder à força. Eren veio da esquerda da vez seguinte, mas o parei novamente, acertando sua mandíbula com a mão direita e, logo em seguida, enfiando o pé em seu peito, na altura do diafragma, lançando-o para trás, de costas no chão.

O garoto caiu, ofegante, o peito subindo e descendo violentamente, sua expressão tomada por um misto de dor e ódio, e seus olhos estavam fechados e comprimidos. Uma de suas mãos estava sobre o coração, e a outra tentava afastar a minha, que tocava seu pescoço medindo seus batimentos.

– Tire a mão de mim – ele mandou, a voz rouca.

– Não fale nada – falei agachado ao seu lado, retirando sua mão do peito e pressionando levemente, identificando o local da fratura. – Ou você pode acabar aspirando um pedaço de osso ou cartilagem.

Sua mão se erguera e Eren me mostrou um sinal obsceno com o dedo. Não pude evitar rir daquilo.

– Moleque.

Senti as fraturas em seu diafragma e suas costelas, e passei a mão suavemente em seu rosto, procurando a mandíbula quebrada, porém, por sua boca aberta, eu já podia ver os filetes de fumaça subindo e imaginei que ele já estaria se curando ali. Sentei-me ao seu lado, em silêncio, e esperei até que ele estivesse completamente imerso em vapor, o corpo todo dando sinais de que estava se curando sozinho.

– Por que fez isso, Levi? – Eren perguntou após passarmos quase duas horas em completo silêncio. Ele finalmente sentou ao meu lado, limpando um pouco do sangue que escorria pelo canto da boca.

– Para você aprender como se luta que nem um homem – respondi.

– Mas eu luto que nem um…

– Uma garota – o interrompi. – Eu vou lhe ensinar como se faz, Jaeger.

Inclinei-me e beijei seus lábios.

– O que foi aquilo?

– Artes marciais, uma junção de duas – respondi, passando a mão pelos seus cabelos, começando a ouvir o barulho do lado de dentro do prédio. Aos poucos, os soldados começavam a descer as escadas e sair do refeitório para o campo de treinamento.

Eren assentiu, levantando-se com um pouco de dificuldade e acenando para alguém que não vi até que se aproximasse de nós.

– Capitão – dissera Jean, batendo continência para mim. O liberei com um aceno e ele continuou. – Que técnica fora aquela?

Fiquei surpreso. Eu esperava alguma reação adversa ao que eu fizera na noite anterior, porém tudo o que recebi foi curiosidade em luta? Esses moleques são realmente diferentes, pensei. Não respondi.

– Todos nos vimos pela janela, senhor – ele continuou, os olhos brilhando. – O senhor deveria nos ensinar, se não for um incômodo, claro.

Sorri para eles. Eu fazia aquilo com frequência, nos últimos dias. E a reação de surpresa de todos os soldados que haviam se aglomerado à nossa volta também começava a me acostumar que eu ainda veria muitos daqueles por um tempo. Eren esticou a mão para mim, para que eu me levantasse e a segurei com prazer. Sua mão estava em chamas, mas seu toque era completamente desprovido de desconforto. Pelo contrário, ele me deu mais força para fazer o que eu tinha que fazer.

Chamei todos os interessados no combate, tanto os que estavam designados para aquele treino quanto os demais que se aproximaram despretensiosamente esperando conseguir o lugar de algum desistente do dia. Mandei que fizessem um círculo e expliquei como funcionavam as artes milenares do boxe e do kung fu, herdada dos nossos antepassados que viviam fora das muralhas, e depois os organizei em duplas, fazendo Eren a minha própria. Em um canto, com Jean, enxerguei Mikasa de frente para ele, o rosto corado e me lançando olhares esporádicos.

– Ela não está falando comigo – disse Eren, virando-se para mim, assumindo a posição que eu os mandara.

– Como você sabe? – o questionei. – Você não a vira desde o jantar.

– Eu apenas… a conheço – ele respondeu, a voz com um ligeiro tom de tristeza.

Parte de mim queria dizer que era melhor assim, que ela saísse de sua vida porque agora ele tinha a mim e não precisava daquela garota, ele finalmente podia se ver livre ela. Mas suspirei, tentando ser razoável e racional. Ela é a irmã dele, pensei. E a família é importante.

– Vá falar com ela depois. Talvez ela esteja confusa pelo o que eu fiz ontem. – Falei. Pensei em mencionar o ocorrido com Mikasa no corredor, porém já se passara tanto tempo que achei ser melhor não falar nada.

Eren me dirigiu um sorriso largo, cheio de dentes brilhantes e aqueles olhos verdes cheio de vivacidade.

– Pronto para tomar uma surra, capitão? – ele perguntou, e os soldados em volta esconderam o risinho o máximo que puderam.

O que era aquele sentimento? Seria… não era possível. Olhei para alto e meus olhos cruzaram com Erwin parado à janela, Hange ao seu lado. Ele segurava uma caneca fumegante, e assentiu para mim com a cabeça, enquanto Hange levantava o polegar em aprovação. Eu estava me… divertindo. Voltei-me para o moleque esguio à minha frente, olhando-me em tom desafiador e pensei em Isabel e Farlan. Eles estariam felizes por mim.

Senti o sol queimar em minha nuca enquanto me virava para os demais soldados, tanto os novos quanto os veteranos, e indiquei como deveriam desempenhar o primeiro golpe, o de distração.

– De começo, vocês devem distrair o adversário. Ergam suas mãos…

Uma brisa insistente passou pelo nosso campo de treino o tempo inteiro no qual meus novos alunos reproduziam os golpes e eu podia ter certeza que, naquele momento, um marco em minha vida de uma fase totalmente nova, eu estava acompanhando de todos que mais me eram importantes. Isabel, Farlan, Hange, Erwin e o moleque.

Meu Eren.