Os cascos dos cavalos batiam contra as ruas de Trost e um pequeno burburinho se fazia ouvir pela população à nossa volta. Todos os soldados da tropa de exploração foram destacados para aquela missão, e eu sabia que não poderíamos voltar até que pelo menos o segundo posto de abastecimento fosse completamente preenchido e guardado. Olhei para a direita e vi Eren, o capuz puxado sobre a cabeça protegendo-o da chuva que caía insistente sobre nós e nossos olhares se cruzaram por um milésimo de segundo no qual ele me passou todas as suas inseguranças. Tentei sorrir, sabendo que não conseguiria, mas eu devia tentar, por ele, por mim e pelo meu batalhão.

O tempo fechado me remetia à lembrança mais triste de minha vida e eu simplesmente não queria estar ali. A chuva nunca me fora algo bom e sempre que eu a sentia na pele, sentia também o presságio de algo ruim. Meu corpo já se preparando para mais um choque. Na primeira vez, fora minha mãe, depois Isabel e Farlan… e agora? Quem eu perderia dessa vez?

Inconscientemente, olhei para Eren de novo, mas sacudi a cabeça energicamente. Eu não poderia deixar aquele tipo de pensamento tomar a minha mente, pelo menos não ali. E eu não perderia Eren. Todo meu treinamento fora focado em protegê-lo porque além de ser a última esperança da humanidade, o garoto era o meu garoto. Eu não deixaria que ele se fosse facilmente antes de lutar por ele. Eren não escaparia pelas minhas mãos.

Os portões se abriram e Erwin bradou do começo da formação as palavras de sempre e então, saímos. Os pequenos pelotões se dividindo para entrarmos na formação de desvio e cavalgamos com os mapas nas mãos, pedindo a Deus que eles não se despedaçassem na água e durassem pelo menos até o primeiro posto. A força da tempestade atrapalhava nossa visão e temi que os cavalos parassem de responder aos nossos comandos quando os primeiros raios começaram a cair ao nosso lado. Justine relinchou e se inclinou para trás, e precisei de toda a minha força para não ser lançado de costas no chão. O casco do animal afundava no chão de terra e eu sentia o esforço em seus músculos a cada vez que precisava puxá-los com força para dar o próximo passo.

Não sei em qual momento fora, mas de repente vi Eren ao meu lado, o cavalo colado ao meu, cabelos colados no rosto e o capuz completamente moldado em seu corpo. Ele tremia levemente, notei, mas sua expressão era resoluta, os olhos apertados e o cenho franzido.

– Capitão! – ele chamou, a formalidade sobressaindo a apreensão em sua voz. – O que faremos?

– Continue seguindo para o norte – respondi, minha cabeça fervilhando de perguntas; a principal sendo por que Erwin dera continuidade àquela missão?

O garoto assentiu lançando-me um último olhar e deixando o cavalo recuar, passando a informação para os outros quatro soldados atrás de nós. E então, vermelho. Um sinal se fez ver entre a chuva e o cinza do céu, da ala leste da formação, e a confirmação veio pouco tempo depois. Um titã, pensei. Olhei para trás e ordenei que Petra enviasse a confirmação de recebimento da mensagem, mas seu sinalizador havia emperrado.

– Senhor – ela gritou – a chuva danificou meu equipamento de sinal! Ele não sai!

Seus dedos apertavam o gatilho furiosamente, a frustração mesclando-se com desespero em seu rosto, e a mulher parecia à beira do choro. Respirei fundo, tentando não deixar as memórias no caminho da racionalidade. Eu precisava pensar. Meu pelotão estava em apuros, nosso sinalizador não funcionava e aquela chuva já estava cansando nossos cavalos. O uso do DMT estava fora de cogitação – o mais ínfimo movimento vertical nos tornaria alvos de raios, o que comprometeria ainda mais essa missão suicida.

Foi quando o próximo sinal veio, mais próximo de nós, pelo leste novamente. A fumaça era negra como a noite, e ouvi a surpresa dos soldados atrás de mim se transformar em medo em um instante. Era uma emergência. Bati as rédeas de Justine e pedi-lhe desculpas quando enfiei as esporas em seu flanco, fazendo-a correr ainda mais. Chamei os outros com a mão e mandei que me acompanhassem. Àquela altura, eu já não sabia mais qual o som que predominava naquele local, se era a chuva, os cavalos ou os gritos tão estridentes que começaram a chegar do nosso lado direito.

Era tudo um único barulho, um único ruído ensurdecedor que deixaria qualquer um louco.

Eu olhava para meus soldados, certificando-me de que estavam todos ali que a vi. Um titã classe de 14 metros, correndo em uma rapidez incrível, na nossa direção, um corpo em sua mão esquerda, esmagado, e a outra protegendo a nuca. Era um titã estranho, um que eu nunca vira igual. Parecia uma… mulher! Era uma titã fêmea, com seios e cabelos grandes, o corpo totalmente feminino e diferente de tudo o que eu conhecia.

Ela corria em direção à nossa formação, os olhos azuis firmemente pousados sobre nós, esquadrinhando os rostos dos meus homens. Havia algo anormal naquela titã, alem do fato de aparentar ser uma fêmea, mas eu não conseguia identificar o que era. Voltei a esporar Justine, forçando-a ao seu limite e bradei aos homens que me seguissem. O monstro continuou em nosso encalço, sem parar por um minuto, os olhos focados em algum ponto de nosso pelotão.

Um pequeno assomo de terror me tomou no momento em que a voz em minha cabeça me iluminou. Ela está atrás de Eren. Puxei as rédeas da minha égua e a virei em direção ao garoto, atrás de mim, o coração em saltos dentro de meu peito e olhei dentro de seus olhos.

– Siga para o centro da formação, Eren – berrei. – Agora!

Jaeger me olhou confuso.

– Eu estou bem, capitão…

– Faça o que eu estou mandando, garoto! – Minha voz conseguia ser mais forte que o barulho da chuva, e percebi que carregava todo o desespero do mundo. – Para a porra do centro!

Espalmei o traseiro do seu cavalo, que saiu em disparada enquanto Eren me lançava um último olhar pesaroso à medida que se afastada da nossa formação. Ao menos ele estará a salvo com Hange e Erwin, pensei. E Mikasa também estaria lá. A garota podia me dar nos nervos, mas eu sabia que faria de tudo para salvar a vida de Eren. Era a coisa certa a se fazer, ainda mais com toda aquela dificuldade. Virei-me para Petra, Gunther, Aruo e Erd, e sinalizei para que se preparassem.

Em uníssono eles concordaram e sacaram o controle do DMT, levantando os joelhos e lançando-se em direção à titã que corria desenfreada em nossa direção. Lancei meu próprio equipamento e me juntei a eles. Erd e Gunther agiram primeiro, lançando suas lâminas em direção à coxa da gigante, mas não surtiram efeito nenhum. Elas simplesmente deslizaram pela pele e correram cegas em direção ao ar. Petra e eu trocamos um olhar apreensivo, pendurados na mesma árvore. Lançamo-nos em direção ao monstro que mantinha a velocidade, nossos equipamentos gastando mais gás que o desejável devido ao esforço da locomoção sob a chuva e fizemos como Gunther e Erd, acertando a mulher em cheio nas juntas. A descrença tomou todo meu ser quando a vi cristalizar o local o qual atacamos e causar nossas lâminas de escorregarem por ali, tal qual fora com meus soldados.

Nossos equipamentos já se lançavam de volta à árvore quando o primeiro caiu. Aruo havia acabado de disparar em direção ao rosto da titã quando as mãos longas do monstro se fecharam em torno de seu corpo e, como se o homem fosse um graveto, ela o esmagou em um aperto só.

– Aruo!

Petra berrara atrás de mim e, antes que eu pudesse segurá-la, sua capa escorreu pelos meus dedos enquanto partia em direção à titã fêmea. Ela desferiu um golpe atrás do outro na pele dura do monstro, todos sem sucesso em produzir nem um mínimo de dano. Os outros e eu tentávamos tirar Petra dali, mas seus movimentos eram rápidos demais e, por um instante, arrependi-me de tê-la treinado tão bem.

– Ral, saia daí – ordenei. – Volte para a árvore!

Mas minhas ordens se perderam em meio ao vento e mais água que caía pesadamente do céu. E, em um relâmpago que durou segundos, ofuscando toda minha visão e fazendo-me perder o equilíbrio no momento em que meu último centímetro cúbico de gás escapava pelo meu equipamento, me vi pendurado sobre um galho de árvore, segurando-me apenas em minha força de vontade para não cair. Um estrondo se fez sentir no local e, assim que meus olhos se acostumaram à claridade que parecia haver se instalado sobre o campo, a primeira cor que eu vi fora o vermelho.

O sangue de Petra se espalhara em um rastro a poucos metros de mim, seu corpo caindo em câmera lenta pela árvore enquanto a titã fêmea retirava seu pé do que costumava ser o corpo de uma das minhas melhores oficiais. A raiva se apoderou de mim e levantei num salto, soltando o equipamento inútil da minha cintura para me livrar aquele peso e saquei as lâminas novamente, montando no ombro do titã fêmea e desferindo golpes em todos os locais que consegui identificar. Eu berrava palavras sem sentido, sentindo-me sozinho ao não ver meus outros companheiros remanescentes em lugar algum.

Não era possível que ela também os matara. Aquela mulher era incrivelmente rápida e quase alcançando-me sem me dar tempo de desviar de seus dedos compridos. Sua pele se endurecia o tempo inteiro, mas mantive o ritmo, convencido de que alguma hora ela se cansaria e começaria a ceder. Eu não havia começado nem a me sentir cansado quando sua mão me alcançou com um tapa e me lançou novamente para a árvore. Cravei as lâminas na madeira e por pouco não caí no chão, pendurando-me com uma mão somente enquanto a outra ainda desferia golpes no monstro que tentava me alcançar.

– Maldita! – Berrei, exasperado.

Eu não morreria ali, daquela forma. Eu viveria para ver mais um dia e viveria para acabar com aquele gigante que matara meus companheiros. Como eu os odiava, pensei. Malditos titãs e malditos humanos que se transformavam em titãs! Eu poderia matar todos com prazer, apenas para extinguir sua existência. Não me importaria de morrer no final, desde que o meu fim coincidisse com o seu e aquela praga fosse finalmente exterminava. Eu não conseguia pensar em nada naquele momento, minha visão estava machada de vermelho e negro – sangue de meus companheiros e o negro do ódio que abri mais o rombo em meu peito, flamejando em uma chama escura e maligna.

A mulher pareceu se cansar finalmente e eu já havia me lançado em um galho na copa da árvore, muito acima de seu alcance, e a olhei de cima, enquanto aqueles seus olhos azuis de titã olhavam- me com toda a raiva do mundo.

– Por que você está fazendo isso? – gritei, segurando-me na lâmina que me servia de apoio. Meus braços tremiam diante de todo o esforço que eu fizera para subir até ali. Meus dedos tateavam dentro do colete sob as minhas roupas buscando um sinalizador, mas eu não o conseguia encontrar. – Me responda, maldita!

Mais um trovão seguido de um relâmpago vermelho. Estava tudo manchado em sangue. A luz rápida que o raio trouxera me dera a visão de todo meu esquadrão morto no chão, pendurados pelos cabos de aço do DMT ou esmagados contra a árvore, como a pobre Petra. Pensei em Eren uma última vez, agradecendo por não estar ali. Ele também estaria no meio dos mortos, pensei, eu também o teria perdido. Um sorriso mórbido passou pelo meu rosto ao me lembrar do último beijo que o garoto me dera e guardei aquela lembrança no fundo de minha alma. Ela me daria a força que eu precisava.

Retirei a jaqueta e a joguei ao vento. As mangas compridas apenas atrapalhariam meus movimentos e eu precisava de tudo o que eu pudesse fazer naquele momento. A titã fêmea paria se preparar para sair dali, provavelmente pensando que eu não desceria tão cedo, mas eu não deixaria que aquele monstro me escapasse. Nenhum deles nunca escapou às lâminas do melhor soldado da humanidade e ela com certeza não seria a primeira.

Flexionei os joelhos, preparando-me para saltar sobre sua cabeça quando, com outro estrondo, um punho gigante acertou a mulher em cheio na face, fazendo todo seu corpo gigante desmoronar no chão. Eren respirava formando nuvens de vapor à sua frente, os olhos fixos na titã no chão, e a mão fumegando. O impacto fora tamanho que parte dos seus ossos de titã se projetavam para fora, o sangue escorrendo pelas suas grandes mãos. O garoto-titã jogou a cabeça para trás, abrindo sua mandíbula, pele de rasgando ao movimento, e bradou um som aterrorizante, carregado de ódio, pesar e algo que eu não soube identificar, tocando o mais profundo do meu ser.

Aquela mão enorme se esticou em minha direção, os olhos dele finalmente olhando dentro dos meus, os mesmos olhos verdes gigantes que salvaram minha vida e que voltaram para fazê-lo novamente. Relutei em subir na palma de sua mão, mas fui convencido quando escutei a titã fêmea mover-se abaixo de mim, um ronco insistente saindo de dentro de seu corpo. Eren me segurou e colocou-me sobre seu ombro, e ali me agarrei com a lâmina, segurando-me para não cair.

O garoto colocou o pé sobre o corpo da titã no chão, prendendo-a rapidamente enquanto ele próprio saía da nuca de seu titã, esticando-se em minha direção e jogando-me seu DMT.

– Imaginei que precisaria, capitão – ele olhava-me com aquele olhar indecifrável e, ao mesmo tempo, carregado de resolução e vontade de lutar. – Vamos derrotá-la juntos.

E então voltou para dentro do seu monstro. Droga, pensei. Ele finalmente conseguira o que tanto insistiu com Hange para me convencer. Estava sendo meu apoio na luta. Senti-me tentado a colocar seu equipamento e mandá-lo de volta à formação, para a segurança ao lado de Erwin, mas a voz em minha cabeça reiterava que eu deveria dar esse voto de confiança para o moleque. Ele não era Isabel e nem Farlan, e talvez ele realmente fosse diferente.

Prendi o equipamento rapidamente à minha cintura. O dispositivo de Eren não tinha a fivela extra na perna direita que o meu tinha e eu sabia que aquilo me traria problemas mais para frente. Tch. Que fosse. Eu não tinha tempo para perder com aquela trivialidade. Recarreguei minhas lâminas com as dele e lancei meu gancho em suas costas no momento em que a titã fêmea girava as pernas e erguia-se de frente para nós.

Minha mão direita tocava a pele de Eren, segurando-me, enquanto a outra mantinha a espada pronta para o que fosse preciso. Curiosamente, a mulher assumira posição de luta semelhante à dos alunos do 104º. Aquele ser humano dentro da titã era uma pessoa do meio dos garotos novos, eu tinha certeza. O monstro adiantou-se para Eren, dando-lhe um jab e o garoto de abaixou da mesma forma que eu fizera no treinamento. Senti-me ligeiramente orgulhoso. Ao mesmo tempo em que se abaixou, a mão de Eren encontrou-me pendurado em si e me jogou em direção à titã fêmea e girei todo meu corpo em 360º, minhas lâminas a acertando certeiramente debaixo dos braços, cortando as fibras e fazendo que os membros gigantes pendessem quase soltos ao lado dela.

Senti o DMT ser puxado de volta e me vi novamente sobre o ombro de Eren, precariamente segurando-me em seu pescoço e nossos olhos se encontraram. Havia algum tipo de cumplicidade neles que fez aquilo finalmente parecer certo. Então era aquilo que ele e Hange estavam querendo dizer com juntar a nossa força para lutarmos juntos. Eu não precisaria do gás do DMT e nem das manobras desde que tivesse Eren para lançar-me e me trazer de volta. Assenti para o garoto e ele voltou a me lançar em direção à titã fêmea. Ajeitei as lâminas em minhas mãos com os dois últimos dedos de cada uma e desferi mais um golpe logo abaixo do cotovelo do monstro, arrancando-lhe o antebraço.

Seus olhos se arregalaram e ela firmou os pés no chão e preparou-se para correr, dando passos curtos enquanto batia em retirada. Eren e eu saímos em disparada contra ela e esperei que os olhos de Eren fossem melhores que os meus em meio a toda aquela chuva. Eu mal conseguia enxergar um metro à minha frente e não conseguia ver direito para onde o monstro corria. Ainda segurando no pescoço do moleque, senti as vibrações provocadas pelo impacto de seus pés no chão e, ora e outra, eu sentia um grunhido sair de dentro dele. O moleque estava tão frustrado quanto eu.

Corremos por ainda alguns minutos, porém o monstro se fora, e restara apenas nós dois em meio àquela chuva forte. Estávamos longe da formação e sozinhos, ambos exaustos e, pelo menos eu, morto de frio. Dei um tapa em seu pescoço, sentando-me em seu ombro. Voltei a tatear o sinalizador em meu bolso e finalmente o encontrei dentro da bolsa de couro, milagrosamente seco. Coloquei a pastilha de fumaça azul, que sinalizava a posição de um grupo perdido da formação, e rapidamente atirei para cima.

– Agora devemos esperar, Jaeger – falei esperando que Eren conseguisse me entender.

Ele emitiu um som estranho e entendi que havia compreendido. Não tardou e vimos o sinal esverdeado de Erwin sinalizando para norte. A chuva havia começado a dar sinais de que estaria acabando, finalmente, e, com outro toque, indiquei a Eren a direção que deveríamos seguir. Chegamos à formação rapidamente devido aos passos largos de Eren. Ele me desceu com cuidado e curvou-se no chão, projetando o corpo para fora do titã.

Fomos recebidos por um bando de soldados encharcados, alguns com manchas de sangue nas vestes e o equipamento zerado de lâminas. Muitos com o pesar estampado nas feições. Hange me ajudou a soltar o equipamento que Eren me dera e, uma vez livre, escalei os membros do monstro que começava a se dissolver, envolvendo um Eren parcialmente desacordado em meus braços, sentindo aquela pele em chamas espantar todo o frio do meu corpo molhado e puxando seu corpo para cima, terminando de romper as ligações do corpo em meus braços com o corpo que se esvaía em vapor.

Deitei seu corpo em uma das carroças, amparando sua cabeça com um travesseiro improvisado e montei em Justine, apertando-lhe os flancos e avançando até chegar ao lado de Erwin. Eren ficara sob os cuidados de Mikasa e Sasha, Jean e Connie ao lado deles, seguidos por Krista e Ymir. O moleque estava em boas mãos. Ele já fizera demais por mim e merecia aquele descanso. E, de qualquer forma, eu voltaria para o lado dele logo mais.

Meus dois amigos conversavam acaloradamente, mas pararam no momento em que me aproximei. Relatei a eles o que acontecera desde o começo e senti minha voz vacilar no momento em que relatei a morte de Petra, Erd, Aruo e Gunther. A mão de Erwin pousou sobre o meu ombro e apertou levemente. Senti-me vazio. Eu não pudera salvar a vida daqueles também. Imagens dos momentos que passamos juntos, desde o treinamento até a formação dos melhores soldados da tropa, os quais eu escolhera a dedo para o meu esquadrão até o momento em que vi o corpo de Petra totalmente esmagado contra o tronco da árvore.

Suspirei, mantendo-me em silêncio absoluto, o olhar a frete, evitando qualquer tipo de contato visual com os outros dois, esperando que não me dessem suas condolências. Como dizia Kenny, não adiantava lamentar os mortos. A única coisa a ser feita era elevar seu espírito ao ponto mais alto que nos era permitido e esperar que alcançassem um lugar melhor. Engoli em seco e lutei contra a vontade de me permitir chorar novamente, e guiei Justine até o primeiro posto de abastecimento, agora visível por entre as colinas do campo aberto onde costumava ser o território da muralha Maria.

Finalmente a chuva cessara completamente e alguns pequenos buracos nas nuvens já lançavam raios de sol sobre o prédio abandonado que nos serviria de forte pela noite. Uma brisa fria passou por mim, tal como sempre acontecia quando alguém era derrotado em campo de batalha. Fechei meus olhos por um minuto e agradeci aos meus soldados caídos pelo seu coração e dei meu último adeus.

–––

Eu começava a pegar no sono quando escutei Eren balbuciar alguma coisa, indicando que começava a despertar. Meu corpo dera graças quando me mexi, inclinando-me na direção do garoto, tirando-lhe os cabelos dos olhos – estava na mesma posição desde que me banhara e colocara roupas limpas. Eu não sairia do lado de Eren até que ele acordasse e quando ele o fez, meus músculos já estavam rígidos e já haviam desistido de protestar comigo.

– Levi – ele sussurrou, a voz fraca. Coloquei um dedo nos seus lábios.

Shh. Fique calado – ordenei.

Peguei um copo de água que havia ao lado do colchonete que estenderam para colocar o corpo exausto de Eren e dei-lhe de pouco em pouco nos lábios. Lentamente, ele parecia estar mais disposto. Seus olhos abriram-se completamente e seu rosto se virou na minha direção.

– Você se saiu muito bem – falei. O moleque sorriu.

– Obrigado – respondeu, mas voltei a repreendê-lo.

– Não fale, Eren. Guarde a energia.

Ele assentiu, engolindo mais da água que lhe dei e voltando a fechar os olhos. Sua respiração era pesada e um filete de sangue escorreu pelo seu nariz, caindo em direção às suas bochechas. Limpei com um pedaço de toalha que fora usado mais cedo para secar o suor do seu rosto. A cor parecia ter sumido de Eren com uma rapidez assustadora. Inclinei-me sobre ele e medi sua temperatura; pelo menos ele não estava febril.

– Como você está se sentindo?

– Ok – ele balbuciou.

– Vou buscar Hange – comecei a me levantar, mas a mão de Eren me surpreendeu com um aperto forte.

– Fique – ele pediu. – Fique comigo.

Voltei a me sentar, retirando sua mão do meu pulso e colocando-a sobre o colchonete e cobrindo-a com o cobertor. O corpo inteiro do garoto estava frio e aquilo me assustara. Ele sempre fora tão quente que aquilo era totalmente estranho para mim. Levantei os joelhos e debrucei os braços sobre eles, deitando minha cabeça e fitando o chão. Parte de mim estava feliz por Eren estar ali, mais um vez livre da morte dentro da boca de um titã – ou esmagado sob a sola do seu pé, ou entre seus dedos. Fui tomado de um soluço repentino enquanto as imagens dos meus soldados saltavam pelos meus olhos, manchadas em sangue e morte.

– Petra morreu – falei, sem saber se Eren me ouvia ou não. – Erd e Aruo também. E Gunther.

– Sinto muito – voltou a sussurrar Eren. – Sinto muitíssimo, Levi.

Assenti, guardando toda a força que eu ainda tinha para não deixar o choro escapar.

– Eu vou matar aquele titã – sibilei. – Vou matar aquela mulher dentro daquele corpo com as minhas mãos.

– Nós vamos – a mão de Eren voltou a alcançar a minha e, quando levantei a cabeça, encontrei seus olhos fixos nos meus com a mesma expressão que tinha quando seu titã derrubou a titã fêmea. – Nós vamos juntos, Levi.

–––

Para a tranquilidade de toda a tropa, o segundo e terceiro dias de missão correram tranquilamente, sem nenhuma surpresa. Encontramos alguns titãs no caminho, mas todos idiotas normais, e dei cabo de todos antes que o sinal fosse disparado. Meu esquadrão agora reunia apenas os soldados do 104º e me senti babá de todas aquelas crianças, apesar de conhecer sua capacidade e o tamanho de suas habilidades durante a luta.

Eren já estava disposto depois da primeira noite de sono e, mais uma vez, invejei sua capacidade de recuperação tão rápida. Conversamos sobre a luta e sobre a titã fêmea, compartilhando as informações com os outros e escutando cada opinião, cada palpite. E cada um se mostrava mais improvável que o outro. Pensamentos pulavam pela minha cabeça de mãos dadas com perguntas sem respostas e a que gritava mais alto dentro de minha cabeça era quem é aquela mulher. Por que ela fizera aquilo? Quem estava criando aqueles seres humanos com capacidade de se transformar em titãs?

Cada ideia que passava pela minha cabeça causada uma dor de dúvida e incerteza, formando um bolo em meu estômago. Se ela tinha consciência e era realmente uma mulher, poderia colocar toda a nossa missão a perder simplesmente destruindo nossos pontos de abastecimento e prejudicando o desenvolvimento da missão de retomada da muralha Maria. Era tanta coisa em minha cabeça que senti que pudesse explodir a qualquer momento.

Justine cavalgava tranquilamente quando entramos no pasto do segundo prédio, onde Erwin aguardava, Hange de pé ao seu lado, a mão tocando o braço do comandante. A mulher acenou para mim quando desci do cavalo e me puxou pelo braço, conduzindo-me até dentro da primeira sala do prédio, Erwin em nosso encalço, fechando a porta atrás de si quando entrou. Passei os dedos sobre o tampo da mesa antes de me sentar ali, porém desconsiderei a ideia quando vi a camada de poeira que se juntou.

Fizemos a reunião geral que estava no roteiro da missão e repassamos os pontos, mapas e anotações. Eu não anotara muita coisa, mas Hange nos bombardeou com informações do seu esquadrão, que fora além do ponto estipulado pela formação e identificara mais outros três prédios ao longo da muralha que poderiam ser postos para nós. Erwin nos agradeceu pelo empenho e ordenou que repassássemos os cumprimentos aos nossos soldados e aos líderes de esquadrão. Nos deu as diretrizes para estocarmos os abastecimentos e reiterou que deveríamos deixar tudo pronto para partirmos de volta junto com o sol.

A volta seria longa e todo cuidado seria pouco. Nossos suprimentos ficariam todos para trás, e deveríamos ter o máximo de cautela possível. Qualquer desperdício tornaria a nossa volta algo impossível.

Eren, Jean, Mikasa, Krista, Ymir, Connie e Jean estavam de pé quando entrei, em posição de continência, olhando-me de forma apreensiva. Ordenei que sentassem e eles o fizeram rapidamente, acomodando-se nas cadeiras de madeira, os rostos sujos de poeira e a aparência cansada após carregarem os cilindros de ar e as caixas de lâminas para dentro. Senti falta de Sasha. Onde estava a garota batata?

– Boa noite – falei, tentando manter distância de toda a sujeira que parecia emanar dos garotos. – Primeiramente, obrigado pelos seus serviços.

Os sete assentiram, suspirando em alívio. O que eles esperavam? Que eu os fosse torturar?

– Se aprontem, pois amanhã partiremos na primeira luz do sol – falei, e dei mais algumas ordens. Por fim, mandei que tomassem um banho rápido e sumissem da minha frente com toda aquela poeira e suor.

Exceto por Eren. Quando o garoto passou por mim, segurei sua mão e o fiz ficar até que o último saísse. Mikasa segurou a porta e nos lançou um olhar antes de sumir por trás dela e, então, eu a fechei, trazendo Eren comigo pela mão, sem me importar que tivesse suja. Meu rosto queimou um pouco quando pensei nas palavras. Falá-las seria abrir mão do meu orgulho, voltar atrás na minha palavra. Eu já havia dito não uma vez e agora estava mais do que disposto a abrir mão da minha decisão.

– Eren – comecei, pigarreando rapidamente. – Caso haja alguma emergência amanhã… lutaremos novamente.

– Sim, capitão – ele respondeu, a expressão inocente.

Ele não me entendera?

– Quero dizer que nós lutaremos outra vez – enfatizei o nós, esperando que dessa vez o garoto compreendesse. – Você e eu.

No instante em que seu rosto se iluminou e um largo sorriso se abriu eu vi que Eren entendera o que eu estava dizendo.

– Então quer dizer que você aceita a minha ajuda? – ele perguntou, a voz cansada transbordando uma animação que eu não conseguia dizer de onde que vinha.

– Hange disse que seria bom nós tentarmos mais uma vez – falei. – Mas será somente uma tentativa.

A coisa seguinte que vi fora aquele par de braços empoeirados erguendo-se em minha direção, aqueles lábios quentes e úmidos alcançando os meus e transmitindo todo o calor que podiam para dentro do meu corpo. Envolvi a cintura de Eren naquele beijo e, como em todos os outros, o mundo simplesmente pareceu se esvair ao nosso redor.

Quando nos separamos foi que me dei conta da sujeira que o garoto passara para mim, mas não me importei. Passei a mão pelo seu rosto e o envolvi em um abraço, sentindo-me confortável pela primeira vez naqueles quatro dias. A morte pareceu algo distante enquanto aquele momento único me fazia sentir humano mais uma vez.

O calor ardeu dentro de mim de forma dolorosa quando Eren se encaminhou para a sala onde estavam os colchões dos seus companheiros e se deitou. Eu o observei dormir naquela noite, sujo e em paz. Pedi pra qualquer força superior que nos regesse que tornasse a missão de volta tranquila, sem surpresas. Pedi para que a energia de Eren fosse poupada apenas para que ele pudesse gastá-la comigo no quartel quando voltássemos.

Limpei-me rapidamente e escorreguei para dentro das cobertas no quarto dos líderes, meu colchonete ao lado do de Erwin e, ao esticar a cabeça para apagar a vela que iluminava o cômodo, peguei a mão do comandante e a mão de Hange descrevendo um círculo largo, as pontas dos seus dedos próximas o suficiente para que estivessem unidas instantes atrás.

Um sorriso se formou em meus lábios quando comecei a adormecer e o último pensamento que me ocorrera antes de mergulhar no sono fora algo inusitado, o qual eu nunca havia pensado anteriormente.

Havia outra vida além dessa? Na outra vida… estaríamos Eren e eu… juntos?