Um mês após a missão de abastecimento dos pontos de apoio.

Erwin e eu voltávamos da capital em silêncio. A carruagem movia-se rapidamente pelas ruas lisas do lugar e parou ao lado da entrada da cidade subterrânea para dar passagem para outra carroça, cheia de mantimentos. Olhei pela janela e me vi naquele lugar tão nostálgico e deprimente. Abaixei os olhos e levei a mão até a testa, suada, e respirei fundo.

– Esse lugar traz muitas lembranças – Erwin falou, quebrando o silêncio. Deixei suas palavras flutuarem no ar um pouco.

– Muitas – falei, mantendo os olhos baixos.

– Lembro-me de você, Isabel e Farlan – ele disse e a menção ao nome dos meus amigos provocou um aperto em meu peito. – Vocês três pareciam um bando de deslocados quando os coloquei dentro da tropa.

– Eu sou um deslocado hoje, sem eles – respondi, sombrio, e me arrependi no mesmo momento. Eu não estava sozinho, tinha a ele, Hange e Eren. Mas… não era a mesma coisa.

– Você sempre será um deslocado, Levi – Erwin falou, cutucando minha perna com a ponta de sua bota. – Mas deslocados somos todos – ele deu de ombros quando levantei a cabeça para olhá-lo – e é por isso que acabamos aqui.

Seu sorriso era sincero e acolhedor. Eu amava aquele homem tanto quanto amava Hange e agradeci mentalmente por tê-lo em minha vida. Erwin era importante para mim. Eu não seria metade do que era não fosse por ele.

– É verdade – respondi, olhando para o portal para a subvida que eu levava anteriormente desaparecer na curva que o carro fez ao prosseguir seu caminho.

Quando eu voltasse para a muralha Rose, visitaria os memoriais dos meus amigos. Levaria algumas flores para eles. Isabel iria gostar daquilo.

–––

Durante o jantar, Erwin repassou aos soldados as considerações feitas pelo general Zachly.

–… e todos nos parabenizaram pelo desempenho na missão anterior e disseram estarem mais confiantes em nossa capacidade de retomar a muralha Maria – o comandante ergueu uma caneca. – À Tropa de Exploração!

Um coro se seguiu às suas palavras e aquela foi uma das poucas ocasiões em que vi todos os soldados sorrindo uns para os outros. O estalo de canecas e copos batendo uns nos outros era audível em todos os cantos enquanto a conversa animada voltava a tomar seu lugar nas mesas. Os soldados comiam a refeição simples com avidez, como se a alegria despertasse ainda mais seu apetite.

Eles estão em fase de crescimento, Levi, a voz dentro de minha cabeça me falou. Era um pensamento estranho. A cada missão os soldados mais velhos pareciam mais escassos, os novos nos sobressaindo em quantidade. Senti-me repentinamente mais velho, e procurei o olhar de Erwin, que parecia ler meus pensamentos. Ele encolheu os ombros e voltou-se para Hange. Os dois pareciam próximos. Próximos demais, voltou a falar a voz. Pensei em ir até lá, mas de repente pareceu que eu não cabia no meio deles. Engoli o pão que eu pegara rapidamente e saí para o campo.

A noite estava clara, havia uma lua cheia no céu e uma porção de estrelas à sua volta. Não havia vento naquele dia e aquilo fez com que eu me sentisse extremamente sozinho. Em minha cabeça, havia aquela ideia de que as brisas trariam os entes queridos que se foram para perto de mim e a falta dela era como se eles houvessem me abandonado. Cruzei os braços e continuei observando aquele céu infinito. O mundo deveria ser daquele tamanho, pensei – sem fim. Eu era pequeno demais, um ser humano insignificante perto de toda sua vastidão, e ainda assim como eu podia ser considerado a maior força da humanidade?

Mãos quentes tocaram meus ombros e me virei para Eren parado ao meu lado, contemplando o céu junto comigo, em silêncio. Ele parecia espetacular naquela noite. Os cabelos castanhos, um pouco maiores que o normal, caíam em cascata pelo rosto claro, as bochechas coradas e os olhos cintilando com a luz da lua. Vestia aquela camisa de mangas longas cor de creme com a corda trançada na altura do pescoço, e usava as calças pretas com botas até a altura do joelho. A chave do porão de sua casa pendia na corrente prateada e cintilava, como os seus olhos.

Coloquei a mão por cima da sua e fiquei em silêncio.

– Vamos visitar Isabel, Eren – chamei por fim. Minha voz se perdeu no meio do chiado das cigarras escondidas nos arbustos.

– Quem? – ele perguntou, o rosto abaixando-se em minha direção e aqueles olhos incríveis prendendo os meus.

– Minha irmã – respondi. – E o meu melhor amigo.

Ele apenas assentiu e caminhou ao meu lado, em silêncio. Atravessamos a cerca viva que isolava a área dos memoriais do restante do campo, uma grande estátua de anjo no meio, coberta parcialmente de trepadeiras e um pouco de musgo. Era ofensivo o descaso com a memória dos mortos. Eu daria um jeito naquilo ali. O som de pequenos galhos se quebrando sobre nossos sapatos foi a única coisa audível naquele ponto do quartel. Apesar de toda a sujeira que rondava o memorial, o local parecia santo, puro. Era tão silencioso que era possível escutar os pensamentos com clareza.

Parei em frente a duas pedras de mármore esculpidas com os nomes de Isabel Magnolia e Farlan Church. A frase que se lia abaixo de seus nomes era curta e, pensando comigo naquele momento, limitava demais a vida longa que tiveram. Agachei-me ao lado de suas lápides e cruzei as mãos para frente. Eren me acompanhou. O garoto arrancou um galho da planta rasteira que se esgueirava entre as pedras e limpou as trepadeiras que subiam por elas. Suas mãos trançaram uma rápida coroa de galhos e cipó e Eren a colocou de frente à pedra de Isabel.

– Uma dama deve sempre receber presentes em sua honra – ele falou. – Minha mãe sempre me dizia isso. Espero que Isabel goste do meu.

Assenti, o coração apertado em meu peito. Naquele momento, me permiti amar Eren pelo respeito que ele demonstrou aos meus companheiros. Respirei fundo.

– Ela gostaria, com certeza – falei, a voz baixa.

Uma risada escapou de meus lábios, as memórias frescas em minha mente como se houvessem acabado de ocorrer. Sentei-me no chão e continuei olhando fixamente para frente esperando que Isabel e Farlan saíssem dali a qualquer momento em uma daquelas brincadeiras nas quais pegavam o DMT escondido de mim e me faziam buscá-los por toda a cidade subterrânea. Odiei-me por não haver dado valor àquelas brincadeiras na época e apenas os repreender. Talvez eu devesse ter brincado com eles.

Apesar de continuar olhando, a única coisa que eu vi foi um ou outro grilo pulando de uma lápide para outra, e algumas pequenas borboletas voando. Eren ainda estava ao meu lado, sentado e olhando para frente. Seu braço havia envolvido meu ombro de forma quente e deixei minha cabeça pender para trás, os olhos voltando a encontrar a lua e as estrelas. Minha boca se abriu e me vi contando para Eren tudo sobre meus dois amigos, desde o momento em que os conheci até o momento em que segurei a cabeça de Isabel entre meus braços e me prometi que nenhum dos meus amigos voltaria a morrer se eu pudesse lutar pelas suas vidas. Suas mãos acariciavam minha cabeça suavemente enquanto eu falava, ele apertou meu corpo um pouco mais no seu, e, quando parei de falar, Eren me puxou para um beijo rápido.

As sensações que o garoto me causava eram conflitantes. Ora eu sentia-me responsável por ele, como se eu tivesse que cuidar de seu corpo, sua mente, ter cuidado ao tocá-lo, e outra ele me desvendava com nitidez, parecendo me conhecer mais que a mim mesmo. O moleque sabia ler minhas expressões e quando falar ou ficar em silêncio, como o fazia agora. Eren era novo, muito mais novo que eu… porém era tão maduro quanto eu poderia esperar e era o homem que fazia com que eu, Levi, o soldado mais forte da humanidade, me sentisse uma pessoa normal. Eu sentia que poderia viver independente do meu passado e de todas as perdas que tive. Poderia ser… feliz.

E foi naquele rompante de pensamentos e emoções, sob o olhar dos meus dois melhores amigos em todas as vidas que abaixei meu rosto e sussurrei para Eren, meu rosto ardendo de um tipo de vergonha que me era desconhecido.

– Eu o amo, garoto.

–––

As costas de Eren se arquearam quando o penetrei. Eu o havia jogado na cama com força, seu corpo quicando sobre as molas do colchão. Investi fortemente, novamente aquele instinto animal se apoderando do meu corpo, eu queria apenas possuí-lo, tomar seu corpo por inteiro para mim. Uma sequência de "ah" escapou dos seus lábios entreabertos em meio a suspiros pesados, e ora ou outra, Eren mordia a boca, apertando o lençol com as mãos com tanta força que o arrancou do colchão. Aquele corpo esguio se mexia ao toque de minhas mãos, provocando-me cruelmente, até que cravei meus dedos em sua cintura e forcei seu corpo em direção ao meu repetidas vezes enquanto o penetrava.

O jeito que ele mexia-se era fascinante, as pernas presas atrás das minhas costas e as mãos tão apertadas no tecido que os nós dos dedos já começavam a ficar brancos. E o som… o som que saía dos seus lábios, a forma que eles delineavam meu nome enquanto Eren pedia por mais. Seus dentes ainda prendiam sua boca levemente, e senti todo meu corpo compelido a me inclinar sobre o seu e beijá-lo, unir ainda mais nossos corpos e selar aquele momento. Abaixei a cabeça até seu tórax, trazendo-o mais para cima com as mãos e beijando cada pedaço ao meu alcance, o membro de Eren contra minha barriga, os gemidos escapando de nós dois ao mesmo tempo enquanto ele jogava ainda mais a cabeça para trás, os olhos apertados e a expressão totalmente entregue a mim.

Puxei ainda mais seu corpo para o meu e quando o beijei, em uma última estocada mais intensa, o senti atingir o clímax antes de mim, e aquilo fora excitante para caralho. As costas do garoto se projetaram completamente para fora da cama, os dedos começando a afrouxar no lençol e a respiração pesada começando a amansar em seu peito, um fino sorriso se formando em seus lábios. Movimentei meu quadril em direção ao seu um pouco mais e também me desfiz dentro de Eren, desabando logo em seguida sobre o seu corpo, exausto.

– Você realmente me ama, Levi? – Eren perguntou, interrompendo aquele momento pós-sexo que pedia um pouco de silêncio.

Meu rosto corou e respirei profundamente antes de pensar na resposta. Apoiando-me em um dos cotovelos, olhei dentro de seus olhos verdes e quentes. Dei de ombros e a vergonha novamente me invadiu. Eu andava com uma língua maior do que deveria, pensei. Foi-se o tempo em que as minhas palavras eram comedidas e eu pensava antes de falar. Agora eu estava igualzinho à Isabel e Hange, falando pelos cotovelos uma porção de coisas que deveriam ficar guardadas. Desviei o olhar para a janela do quarto pela qual entrava um vento frio, trazendo mais um presságio de frio e as cortinas se movimentavam freneticamente, quase chegando até a cama.

– Levi? – ele voltou a me chamar. Seus dedos tiraram uma mecha de cabelo que caíra em meu rosto e puxaram meu queixo em direção ao seu, forçando-me a encontrar seu olhar. – Eu te fiz uma pergunta.

Imaginei minha cara inteira ardendo como se estivesse realmente pegando fogo. Eu precisava descobrir o que aquele garoto tinha que fazia todo meu corpo sentir-se fraco, com medo de dar um passo em falso, e ao mesmo tempo como se fosse invencível. Eu poderia sair voando dali, naquele momento, se eu quisesse. Mas o maior sentimento que se entranhava em meus ossos era o de imaturidade, inexperiência. Eu era uma criança perto de Eren e a forma que ele me tratava reiterava o que eu sentia. O garoto conduzia essa relação como se fosse ele o mais velho.

Voltei a dar de ombros, deitando a cabeça no ombro de Eren e fechando os olhos. Talvez se eu me fingisse de adormecido ele parasse de perguntar. Você está realmente se comportando como uma criança, Levi, me repreendeu meu eu interior. Foda-se, respondi para mim mesmo. Eu não queria falar aquilo novamente. Eu já havia dito uma vez, não né?

Ficamos parados por mais um tempo até que senti Eren desvencilhar-se de mim e levantar. Quando abri os olhos, ele abotoava a calça e fechava os cordões da blusa de qualquer forma. Sentou-se na beirada da cama puxando as botas por cima da perna.

– Aonde você vai, moleque? – Perguntei, a bochecha comprimida contra o colchão e minha voz saindo abafada.

– Para o meu quarto – ele me respondeu, dirigindo-me um olhar seco. Inclinou-se na minha direção e beijou minha testa, saindo sem falar mais nada. Antes de fechar a porta, entretanto, parou e olhou para mim. – Quando você tiver algo que realmente queira me dizer, estarei em meu quarto. Boa noite, capitão.

A lingueta da porta se encaixou com um som seco, tão seco quanto às palavras e o olhar de Eren, e me vi sozinho, nu e sujo, sentado na cama tentando entender o que acontecera. Suspirei. Por que Eren havia ido embora? Ainda passaríamos a noite juntos, era o que tínhamos combinado, e pela manhã sairíamos para mais um treino físico com os outros soldados. Moleque idiota, pensei, no fundo, mesmo sem saber o porquê, sabendo que o idiota de verdade tinha sido eu.

Arrastei os pés para fora da cama e tomei um banho rápido. A água estava fria naquela noite e conseguiu esfriar meus ânimos. Eu sentia meu corpo inteiro em abstinência do toque de Eren e uma vontade incontrolável de descer até o subsolo fazia minhas pernas se dirigirem até a porta do box e voltarem quando a racionalidade e meu orgulho me mandavam voltar. Fiquei nessa indecisão até estar cansado demais e o joelho já dolorido além da conta e me limitei a enfaixá-lo e vestir uma roupa folgada, calças de moletom preto e uma camiseta de mangas longas também preta. Calcei um par de sapatos simples e saí em direção ao quarto de Hange.

Eu precisava conversar com a mulher e entender o que acontecera. Mais uma vez senti-me um adolescente. Lá estava Levi Ackerman, buscando conselhos com sua melhor amiguinha como uma garota de quinze anos. Com o nó dos dedos, dei duas leves pancadas na porta do quarto da maluca, sem resposta. Ouvi alguma agitação lá dentro e levei a mão até a maçaneta, girando-a lentamente e esgueirando minha cabeça para dentro do quarto.

Uma Zoe descabelada me recebeu, o rosto corado e o corpo envolto em um lençol. Seus olhos se apertavam para me ver e seus óculos estavam caídos no chão ao seu lado.

– Preciso… hn… conversar com você, Hange – falei.

Você precisa seriamente de um pouco de noção, irmão, a voz de Isabel se fez ouvir em minha mente. Sacudi a cabeça e entrei no aposento da quatro olhos, acomodando-me em uma das cadeiras enquanto ela ajeitava o lençol em volta de si e tateava o chão em busca dos óculos. Ela se sentou, o corpo levemente trêmulo e as bochechas vermelhas como se houvesse tomado sol um dia inteiro.

– Está tudo bem? – Perguntei apenas por educação. A mulher era louca, não me importava o que ela estivera fazendo antes de eu entrar. Eram coisas que eu tinha certeza que não gostaria de saber.

– Hm-hm – ela assentiu, batendo os pés no chão. – O que você quer?

Coloquei a mãos sobre os seus joelhos, parando com aquele movimento irritante. Os olhos dela desculparam-se enquanto ela cruzava as pernas junto do corpo e puxava mais o lençol em volta do pescoço. Gotículas de suor brotavam em sua testa e seus olhos, ora em mim, ora vagando pelo quarto, denunciavam que havia algo errado.

– Eren foi dormir em seu quarto hoje – comecei, recostando as costas na cadeira e me servindo de chá em uma das duas xícaras sobre a mesa.

Ela estava acompanhada, pensei. E eu já sabia de quem. Bebi um gole do líquido e segurei o pires na mão, pousando a porcelana sobre ele.

– Ok… – ela disse, franzindo o cenho para mim. – Qual o problema nisso, Levi?

– Ele parecia… irritado comigo. – Bebi mais um gole, disfarçando o nervosismo que me fez engolir em seco com chá.

Narrei para ela a conversa com o moleque, desde o momento que tivemos no memorial – ressaltei em vários pontos a saudade que senti de Isabel e Farlan, e seus olhos se encheram de lágrimas – até o momento em que ele me deu o olhar seco e saiu pela porta.

– E, por fim, cheguei aqui.

Uma risada brotou do peito de Hange. A mulher se inclinou para frente, segurando o estômago, enquanto seu corpo se contorcia histericamente. O que eu tinha na cabeça para pensar que aquela mulher conseguiria me dar algum conselho? Ela era louca!

– Desculpe – balbuciou ela, limpando diversas lágrimas nos cantos dos olhos, pigarreando. – Você ama o garoto, Levi? – Mais uma onda de risadas explodiu de seu peito.

Abaixei os olhos, envergonhado. Eu deveria ter pulado essa parte. Ponto para minha língua grande novamente. Voltei a dar de ombros.

– Talvez – sussurrei, tão quente que poderia esquentar todo o quartel general no inverno se quisesse. – Mas essa não é a questão…

– É claro que é, Levi! – Ela exclamou, levantando-se da cama e ajoelhando-se à minha frente, os braços apoiados em meus joelhos, os quatro olhos olhando dentro dos meus. – É claro que é a questão. Você se entregou ao garoto, não está vendo? E você disse que o ama, é óbvio que o garoto iria querer saber se falara sério!

– Mas eu já havia dito uma vez, não havia necessidade de repetir…

– Claro que havia, Ackerman – ela me interrompeu, a mão de encontro à minha testa. – Há necessidade se você tem certeza. Como você pode ser tão genial e ao mesmo tempo tão tapado?

Dei de ombros. Hange pigarreou novamente, limpando a garganta e servindo-se de chá, repondo o meu em minha xícara. Puxou uma cadeira e sentou-se ao meu lado, segurando minha mão, e olhando para mim. O contato visual com a mulher era algo de outro mundo. Toda a loucura dela parecia não atingir aquelas grandes bolas castanhas que agora esquadrinhavam minha expressão buscando qualquer sinal de resposta.

– Levi – ela começou, a voz austera, sábia –, você tem passado tanto tempo com o garoto que eu já sei que ele não é uma distração para você.

– Nunca fora – rebati. – Você está soando igual a Erwin.

Seu rosto adquiriu uma tonalidade escarlate e ela parecia soltar fumaça pelas orelhas. Sorri internamente, sabendo que ali tinha algo que ela tentava me esconder. Tentava em vão.

– Levi… Levi eu sei que nunca fora – ela gaguejou, tentando disfarçar aquele nervosismo momentâneo. – Mas você não consegue ver que, da forma com que as coisas estão sendo conduzidas, vocês alcançam, de pouco em pouco, outro nível?

– Que nível, Zoe?

– Vocês já são companheiros, Levi. Em todo local em que eu te vejo, Eren está em seu encalço e vice-versa. Ele inclusive dorme no mesmo quarto que você – ela gesticulou amplamente. – E você leva o garoto ao memorial de Isabel e Farlan e diz que o ama, o que mais você espera?

Encolhi os ombros.

– Que ele fique comigo. Só. – Bebi todo o conteúdo da xícara com um gole só, sapecando os lábios sem me importar. – Eu não tenho que ficar repetindo palavras que eu já disse só porque o moleque quer escutar – falei, afastando a cadeira e me levantando. Aquela conversa não daria em nada.

– Volte aqui – ela chamou quando alcancei a porta.

Virei-me e deparei com seus braços envolta do meu pescoço e um abraço forte. Quando me soltou, vi o lençol descobrir seu pescoço e uma grande marca roxa ao lado direito se revelou.

– Vá com calma com o garoto – ela falou, sorrindo para mim. – Você é novo em relacionamentos e, mesmo que ele saiba uma coisa ou outra a mais que você, ele é só um garoto. – Suas mãos bagunçaram meus cabelos. – Vocês dois são.

– Ok – respondi. Já me virava novamente quando o impulso superou minha força de vontade e, ao levar a mão à maçaneta, sorri para Hange, lançando meu olhar para a cama da tenente. – Erwin, não marque a minha tenente, por favor.

Vi o rosto de Zoe arder em chamas e um esgar de vergonha vir debaixo do estrado do colchão. Uma gargalhada se formou em meu peito e saí do quarto, caminhando sob a luz da lua até o meu aposento.

–––

– Eren! – Gritou Zoe de cima do penhasco. – Quando vir o sinal verde, pode se transformar!

O garoto ergueu o polegar de onde estava. Vestia apenas uma calça branca apertada e uma camisa escura. Não tinha tênis e nem o DMT. Aquele era apenas um treino. Disparei a pistola sinalizadora e vi o raio vermelho descer diretamente do céu sobre o local onde, instantes atrás, Eren estava. Em seu lugar, surgiu um monstro de treze metros, arfante, o peito subindo e descendo violentamente. Seus olhos procuram por toda a clareira do penhasco e pararam em mim. Havia algo de estranho neles. Não eram os mesmos olhos que lutaram ao meu lado na missão.

Saquei o controle do DMT, destravei duas presilhas e me lancei de encontro à árvore na beira do penhasco, encarando o garoto-titã mais de perto, tentando decifrar o que ele tentava me dizer com aquela expressão. Mas não consegui. Sua mão se ergueu em minha direção e ouvi os soldados se agitaram em baixo e levantei uma mão para que eles se acalmassem. Eu temia que qualquer tipo de movimento brusco ou barulhos exagerados se revelasse um perigo para Eren.

Vi que seus dedos hesitaram e fiz com a mão indicando que poderia se aproximar mais. E ele o fez, as mãos fumegando ligeiramente enquanto se aproximavam, abertas, para que eu subisse. Lentamente, desprendi-me da árvore e coloquei meus pés sobre a pele quente do titã que me olhava com olhos de súplica. Minha cabeça funcionava a todo vapor enquanto as engrenagens de meu cérebro trabalhavam para decifrar o que estava acontecendo.

Conforme o cronograma de Hange, fizemos exercícios leves de sincronia, ele jogando meu corpo em direção às árvores perto de nós e segurando-me quando eu voltava. Estávamos no quinto lançamento deste tipo quando sua mão agarrou meu corpo pela cintura em um aperto forte além do combinado e senti o ar escapar dos meus pulmões. Procurando manter a calma, dei leves pancadas nos dedos de Eren, buscando seu rosto para estabelecermos aquela comunicação muda, mas o que encontrei foi um par de olhos raivoso e uma mandíbula escancarada descendo em minha direção.

As lâminas à mão, desferi um golpe rápido em seus dedos, dilacerando-os e prendendo meu DMT, o gás içando-me para longe do garoto. Acenei para Hange de cima da árvore e a mulher disparou o primeiro canhão de pinos, prendendo o corpo de Eren, que se rebelava furiosamente tentando se liberar da prisão, a boca aberta e um grito de congelar a alma escapando de dentro de seu corpo de titã. Os soldados já avançavam em direção ao garoto cortando as ligações de seus braços e suas pernas, fazendo-o fraquejar enquanto o segundo canhão era disparado em sua direção.

Outro berro de Eren se fez ouvir, por uma fração de segundo seus olhos encontrando os meus e em meio a toda aquela confusão, vi o meu garoto pedindo por ajuda. Projetei-me em sua direção, o DMT preso em suas costas e lâminas em mãos, pronto para tirá-lo dali. Saltei e em um giro único, desferi um corte de um metro na horizontal e dez centímetros na vertical, revelando os cabelos de Eren e suas costas encurvadas.

Guardei as lâminas dentro do suporte e enfiei ambos os braços na carne quente do titã, queimando-me quando puxei Eren para fora, vendo a pele de seus braços soltar-se de seu corpo humano e um pequeno suspiro escapar dos seus lábios. Passei o braço direito sobre seu peito, embaixo dos seus braços, e com o esquerdo, nos lancei para cima, saindo do corpo que já se consumia em vapor e começava a atrapalhar minha visão. Quando pisei em chão firme, os homens aglomerando-se à nossa volta, deitei a cabeça de Eren em meu colo e medi seus batimentos, sua temperatura e a resposta de suas pupilas.

Estava tudo ok, do seu jeito.

Permiti-me um sopro de alívio quando Jaeger abriu os olhos marcados pelas linhas da conexão com o monstro e aqueles grandes poços verdes agradeceram-me em silêncio. Alguma coisa dera errado naquela transformação que causara todo esse caos. Abaixei a cabeça até seu ouvido e sussurrei, esperando que ele me escutasse.

– Sim, Eren, eu o amo.

Levantei meu rosto ainda a tempo de ver um sorriso pequeno se formar em sua boca e desaparecer com a mesma velocidade com a qual o garoto desmaiou em meus braços.

–––

o café da manhã do dia seguinte foi quando aconteceu pela primeira vez. Eren estava sentado à mesa do refeitório comigo e alguns de seus amigos, bebendo um gole de café e contando aos outros o que ocorrera no treinamento quando foi tomado por uma crise de tosse. Seu corpo se contorcia a cada tossida, e seu peito já parecia não ter mais ar para expelir. Foi então que, em meio à tosse, aquilo saiu.

Respingos de sangue saíram de sua boca e tingiram a mesa. E aos primeiros, seguiu-se mais sangue, até que a cor de seu rosto sumiu completamente e ele parecia prestes a cair. Em um reflexo, levantei-me de minha cadeira, que caiu com um estrondo no chão, e o segurei antes que tombasse. O corpo de Eren em meus braços estava frio e fino como um papel, olheiras fundas e a pele tão branca que poderia ser possível ver cada uma das veias em seu rosto. Chequei seu pulso e estava tão fraco quanto podia estar, e sua respiração era baixa, quase inexistente.

Me ergui com seu corpo em meus braços, Mikasa me seguindo de perto, e abri caminho entre o monte que se aglomerava ao nosso redor. Caminhei o mais rápido possível para a enfermaria, eu precisava chegar logo ali, deitar Eren em uma cama e cuidar dele. Meu garoto estava frágil e vulnerável. Eu precisava tratá-lo imediatamente.

No exato momento em que cruzamos o portal da enfermaria, Hange e alguns outros soldados já haviam preparado o leito para Eren e calçavam luvas, os rostos tampados por lenços estéreis, aguardando que eu o depositasse na cama. Quando o fiz, Eren parecia ainda mais fraco, seus olhos fechados e os lábios, brancos como a neve, entreabertos, secos, desesperadamente puxando o ar.

– Levi... – ele suspirou, a voz rouca.

– Não fale, Jaeger – respondi, colocando um travesseiro fino por baixo de sua cabeça, tirando seus cabelos do rosto suado e jogando-os para trás. – Está tudo bem. Salve sua energia.

Eren concordou, tentando umedecer os lábios com a língua trêmula. Permaneci de pé, ao seu lado, os braços cruzados, enquanto via os médicos limparem seu rosto com um pano embebido em solução de álcool e darem-lhe direto na boca um tônico de cor verde, que ele engoliu com dificuldade, engasgando levemente. Saquei meu lenço e limpei o pouco que escorrera por seus lábios, evitando que chegasse aos seus cabelos. Seu rosto estava macilento, estranho. Gelado. Onde estava o calor característico do rosto do moleque?

Algumas agulhas foram enfiadas em seu braço, e os médicos de Hange penduraram uma bolsa com soro e o deixaram repousando. Não havia mais o que fazer, apenas esperar, e eu sabia disso. A tenente postou-se ao meu lado, colocando a mão sobre meu ombro.

– Ele ficará melhor logo – disse, ajeitando os óculos com a outra mão. – Vamos ter que pegar leve por um tempo, até que ele melhore.

Assenti em silêncio. Eu não deixaria que encostassem uma mão em Eren novamente, era meu dever protegê-lo e eu não deixaria que aquela situação voltasse a acontecer. Ficamos mais um tempo de pé junto à cama, até que Hange me trouxe uma cadeira e colocou-me sentado. A quatro-olhos depositou um beijo em minha testa e me disse para ter paciência, e então saiu, fechando a porta atrás de si, chamando os outros médicos. Quando me certifiquei de que estávamos a sós, tomei a mão de Eren entre as minhas, sentindo o calor voltar ao seu lugar de direito.

Passei o polegar por entre seus dedos, a pele ainda fina, e esperei. Esperei por horas até que Eren reagisse. Esperaria ainda mais, se preciso fosse. Eu não poderia sair do seu lado. Vi os médicos irem e voltarem, trocarem sua bolsa de soro, dar mais do tônico em sua boca, limparem seus braços e colocarem mais agulhas, cada uma ligada em uma bolsa diferente, sendo a mais recente de sangue. E finalmente vi a cor voltar ao seu rosto. Sua face parecia mais firme, a respiração mais regular. Apenas sua boca permanecia seca.

Molhei um chumaço de algodão em um copo de água que eu pegara antes e molhei seus lábios com cuidado. Eren engoliu suavemente a água que escorreu para dentro e me lançou um meio sorriso, os olhos ainda fechados. Ele pigarreou, e passei mais um pouco de água em sua boca.

– Como você está se sentindo, Jaeger? – perguntei, tornando a molhar o pedacinho de algodão e espremendo o excesso de volta no copo.

Eren assentiu, abrindo a boca para a água, engolindo a com um pouco de dificuldade e tossindo levemente. Deixei o algodão de lado e ergui suas costas, ajeitando os travesseiros de forma a dar mais apoio para ele. Ele ainda parecia a ponto de quebrar a qualquer momento, e eu não sabia até que ponto estava sendo suave.

– Há quanto tempo estou aqui? – sussurro.

– Um tempinho – respondi, afofando os travesseiros atrás de suas costas. Passei a mão em seu rosto, colocando seus cabelos para trás novamente, levando o copo até a sua boca. – Chamarei o médico, ele queria dar uma olhada em você quando acordasse.

Eren maneou a cabeça e bebeu a água que lhe ofereci. Sua expressão era de dor, e imaginei que seria por causa de todas aquelas agulhas espetadas em seus braços. Limpei sua boca depois que terminou de beber do copo, e tentei ajeitar mais um pouco o travesseiro, colocando um menor atrás de seu pescoço, dando sustentação para sua cabeça. Dei-lhe um beijo rápido na testa e saí.

O médico entrou no quarto, mas barrou a minha entrada, pedindo que eu ficasse do lado de fora. Fiz o de sempre, o lembrei de quem eu era e de toda a autoridade que eu tinha, segurando-me para não dizer também que Eren era meu e que eu não deixaria seu lado nem com todo o esforço do mundo. Mas ainda assim o médico não me deixou entrar.

– Capitão – ele disse, a expressão tão séria quanto a minha estaria, provavelmente –, o senhor é, de fato, autoridade aqui no quartel general, mas dentro desta enfermaria, a autoridade sou eu e o senhor não vai entrar.

Suas palavras eram tão enfáticas que me atingiam uma por uma, fazendo aumentar o nervoso dentro de meu coração. Consegui ver Eren apenas por uma fresta na porta antes do maldito homem fechar-me do lado de fora.

– Aah! – berrei. A raiva me consumia fortemente, queimando como uma chama cruel dentro de meu peito.

Por que eu não poderia ficar ao lado de Eren naquele momento? Como um animal, passei o braço por cima da mesa da sala de espera e isolei tudo o que havia ali em cima no chão, chutei as cadeiras, virei a mesa e saí batendo a porta logo atrás de mim. Soltei mais um esgar de fúria e caminhei até o depósito de equipamento. Esmurrei a porta do armário com o meu nome até que ele se abrisse, tirei meu DTM de lá e o vesti, acertando a fivela extra na perna direita. Marchei até o campo de treinamento e me lancei na primeira árvore que vi, sacando as lâminas e decepando todos os galhos que estavam à minha frente.

Uma confusão de folhas atingia meu rosto, e uma porção de cortes pequeninos foi surgindo ali. Enquanto voava de uma manobra para a outra, me perguntei diversas vezes por que eu estava reagindo daquela forma. Por que toda aquela exasperação, aquela raiva? Simplesmente por que eu não conseguia ficar perto de Eren? Claro que era isso, Levi, uma voz em minha cabeça respondia. Você se preocupa e não pode ficar ao lado do menino, você tem o direito de estar puto, ela continuava a dizer. Será que eu tinha mesmo? Eu concordara com o treinamento, então eu tinha minha parcela de culpa em colocar o garoto deitado naquela cama daquela forma.

Manobrei mais um pouco até me empoleirar no galho mais alto da árvore no centro do campo de treinamento. Era tão alto que era impossível me ver, já que as folhas dos galhos menores e mais baixos tampavam toda a minha localização. Me desfiz das lâminas cegas e guardei minhas espadas no suporte, sentando-me de costas para o tronco, jogando minha cabeça para trás. Meu joelho latejava.

O que eu fizera?

Respirei profundamente, e me permiti ficar ali, escondido, por um tempo. Eu não queria conversar com ninguém, não queria treinar. Queria alguns comprimidos e sentar-me ao lado da cama de Eren, abraçá-lo e me certificar de que ele ficaria bem logo, sob meus olhos.

Pousei no chão já de noite e deixei meu DTM no depósito, jogando-o dentro do caixote dos oficiais, onde seria recarregado, limpo e, caso precisasse de algum reparo, um dos recrutas o faria. Em passos rápidos e mancos, me dirigi até o banheiro do segundo andar, agradecendo por não haver ninguém ali dentro. Me despi, banhei-me rapidamente e me troquei, logo já do lado de fora novamente, caminhando em direção à enfermaria. Agora, mais calmo, com certeza o médico me deixaria entrar, pelo menos por alguns instantes.

Mas quando cheguei lá, o quarto onde Eren estivera mais cedo havia sido esvaziado e limpo. Não havia mais agulhas, nem o montante de travesseiros que eu colocara lá quando ele acordara. As bolsas de líquidos não pendiam mais dos ganchos e um cheiro de limpeza ainda pairava no ar. Ele não havia saído há muito tempo, pelo visto. Bati à porta do escritório do médico responsável, o mesmo que me negara a entrada mais cedo, e fui recebido com um par de olhos estreitos, olhando-me com reprovação por cima dos óculos de meia-lua.

– Capitão Levi – me saudou.

– Onde está o soldado Jaeger?

– Sente-se, senhor. – Ele indicou e, tal como mais cedo, sua voz estava carregada com um tom de ordem. Novamente, aquilo me incomodou, mas eu teria o temperamento mais sob controle daquela vez.

Fiz como ele pedira, cruzei as pernas e, antes de cruzar os braços, gesticulei para que ele falasse. O homem pousou a caneta que usava para fazer anotações em um bloco e abaixou as folhas deste, revelando a capa e o nome da pessoa de qual o relatório falava – Eren, é claro. Cruzou as mãos sobre o papel e encarou-me antes de continuar.

– O soldado foi liberado cerca de uma hora atrás – ele disse. – Mikasa Ackerman o levou de volta para seu quarto e assinou o termo de responsabilidade por ele, uma vez que não o encontramos, senhor.

Um sentimento de arrependimento se abateu sobre mim. Por que eu não estivera ali no momento? Toda a responsabilidade sobre Eren deveria ser supostamente minha, eu o trouxera até aqui, e eu olharia por ele. Um súbito nó se formou em minha garganta, e levei dois dedos até o colarinho, tentando afrouxá-lo.

– Prossiga – ordenei.

– Ele deverá manter-se em repouso por dez dias, aproximadamente, sem exercícios físicos e, de preferência, nenhuma pressão emocional.

Ao dizer isto, seus olhos me fuzilaram.

– Ok. – respondi.

– E quando eu digo nenhuma, senhor, significa realmente nenhuma.

– Eu já entendi – repeti, afastando a cadeira para trás. Arrumei meu casado por sobre os ombros e já estava de pé quando o médico me chamou.

– Capitão Levi?

– Sim?

O homem me arremessou um frasco de vidro e tampa de rola de cortiça, cheio de pequenos comprimidos.

– Um a cada doze horas, para o joelho – ele fez um sinal com a mão. – O senhor também não deveria fazer esforços descuidados; creio que já está mais do que ciente da sua situação.

Concordei com a cabeça.

– Obrigado.

Avancei a passos rápidos até o quarto de Eren, no subsolo. Era ali que dormia sempre, mesmo que ficasse no dormitório comum com seus amigos até o toque de recolher. Provavelmente era lá que estava, com aquela menina o cercando de cuidados que eu deveria prover. Desci as escadas rapidamente, o joelho protestando a cada passo, mas eu havia resolvido ignorar. Minha prioridade era chegar ao quarto. Como chegaria já era outra história.

E, exatamente como eu havia pensado, entrei no quarto de Eren e ele estava deitado, as costas levemente inclinadas para frente, e uma sombra de sangue pelo seu nariz e canto da boca. Mikasa limpava seu rosto com um pano branco, com cuidado para não machucá-lo. Eren olhava fixamente para mim, enquanto eu fechava a porta e me dirigia até eles, preocupado.

Ao me ver, Mikasa levantou-se rapidamente, entrando em sua posição de soldado, e com um aceno, a liberei, ela retornando à tarefa anterior.

– O médico me dissera que o havia liberado, Eren – falei. – Mas se você continua sangrando, irei levá-lo de volta.

– Lev… capitão, estou bem – a voz não passava de um sussurro. – O doutor afirmou que eu ainda sangraria um pouco até amanhã.

– Entendo. – Me virei para Mikasa. – Ackerman, está dispensada. Eu assumo a partir de agora.

Seu olhar para mim fora tudo, menos gentil. Quando me respondeu, sua voz estava carregada de desprezo.

– Não irei a lugar nenhum, senhor – ela voltou para o pano e Eren. – Desculpe.

– Você irá aonde eu ordenar que vá – falei, mantendo a indiferença em minha voz. – E agora eu estou mandando você voltar ao seu alojamento e descansar porque amanhã o seu treino será comigo.

Fssst. Eu poderia jurar que seu olhar arrancara um pedaço de mim. Maneei a cabeça para que ela se levantasse e, de muito mal grado, largou o pano dentro de uma vasilha pequena com água e afastou a cadeira, agressivamente. Beijou a testa de Eren, provocando em mim uma intensa vontade de esbofeteá-la e saiu, pedindo a minha licença de forma automática. A dispensei e esperei que saísse antes de trancar a porta.

Sentei-me à beira da cama de Eren e retomei a atividade de Mikasa, mesmo que todo o sangue já tivesse sido limpo. Eren segurou minha mão no meio das suas e as afastou fragilmente.

– Você não deveria falar assim com Mikasa – ele disse, tentando incutir um pouco de força em suas palavras. – Ela é minha irmã.

– Cale-se, moleque – o cortei, colocando a vasilha e o pano de lado e pegando outro, seco, para limpar seu rosto suado. – Vire sua cabeça.

Eren obedeceu, mas eu senti que aquela discussão não acabaria ali.

– Não aceito que fale com Mikasa daquela forma – ele prosseguiu. – Pelo menos não no que se trata de mim. Ela é soldado seu também, mas aqui, neste momento, ela era apenas a minha irmãzinha, cuidando de mim.

Dei de ombros. Ela poderia ser a salvação da humanidade e eu continuaria não me importando. Mas é claro que eu não verbalizaria aquele pensamento. Ele afastaria Eren de mim ainda mais.

– Você precisa de algo, Eren? – perguntei, aproximando meu corpo um pouco mais do seu. Ele se contraiu quando estiquei meus dedos para tocar seu rosto. – Algo errado?

Eren negou com a cabeça, hesitando um pouco antes de me permitir tocá-lo. Graças aos céus, pensei. Sua pele já estava quente novamente, e não parecia mais tão fina. Desci meus dedos por seu pescoço, seus ombros e seu braço, parando no inchaço que as agulhas haviam causado. Ele se retraiu um pouco, soltando um gemido baixo de dor.

– Me desculpe – pedi, e inclinei a cabeça de forma que me fosse possível beijar seu braço.

Beijei cada uma das marcas das agulhas e subi até seus lábios, os beijando suavemente.

– Levi, hoje eu senti medo – ele falou e engoliu em seco. – Pensei que cuspiria sangue até não ter mais nada dentro de mim. E doía…

– Cale-se – ordenei o interrompendo. Passei meu braço ao redor de seu ombro e o trouxe para junto de mim, deitando sua cabeça em meu ombro. – Eu disse que o protegeria, Eren. Eu não permitirei que você morra dentro destas muralhas, é uma promessa.

Ele suspirou e aconchegou-se na volta do meu pescoço. O silêncio se apoderou do aposento por alguns instantes, seus olhos encontraram-se os meus e me vi novamente nadando neles, verdes gigantes e calorosos. Nossas mãos se encontraram, os dedos dele se entrelaçando nos meus. Eu queria tirá-lo daquele quarto frio e escuro, levá-lo para o andar dos superiores, jogá-lo em minha cama gigante e tirar suas roupas, beijando todos os pedaços de seu corpo e o fazer meu. Completamente.

Mas me limitei a ajeitar seu corpo na cama, descalçando minhas botas e me esticando ao se lado. Eu não sairia do seu lado novamente.