O tempo que a missão demandou somado ao fato de que cadáveres se decompõem com o passar dos dias tornou impossível que levássemos o corpo do meu esquadrão de volta para a cerimônia de cremação. Quando chegamos ao quartel general, agraciados com mais algumas perdas no caminho, ordenei que se fizesse uma pira para cada baixa, simbolizando os soldados caídos. Durante a cerimônia, minha vontade era de apenas destruir tudo aquilo, jogar-me no meio das chamas e acabar com aquele looping de emoções que ora boas, ora ruins, transformavam minhas ideias em uma bagunça. A única coisa que conseguiu me manter são durante aquela manhã fora a mão de Eren segurando a minha.
O garoto soltou-me apenas quando tomei a tocha da mão de Erwin e ateei fogo nas quatro piras dos meus quatro melhores soldados. Quando voltei ao seu lado, Eren voltou a tomar minha mão na sua, entrelaçando nossos dedos e sussurrando para mim que sentia muito novamente, e que ficaria ao meu lado tal qual eu ficara do seu. Mas aquelas palavras não me serviram de consolo algum. Pela primeira vez desde que eu me lembrava, o toque dele não me acalmou o espírito e nem tranquilizou a dor da minha alma. Talvez aquele tipo de dor não tivesse remediação, somente o tempo seria capaz de fechar o buraco que parecia apenas fazer aumentar a cada vida queria a mim que eu via escapar nas mãos, dentes ou sola dos pés de um titã.
Permaneci de pé enquanto todos se retiravam para retomarem suas vidas. Não ousei arrastar os pés dali até que a última pira ardesse sua última chama e já era fim de tarde quando o último filete de fumaça negra evaporou no ar. O tempo inteiro em que fiquei ali, Jaeger continuou segurando a minha mão, sem demonstrar cansaço e sem me deixar sozinho. Ora ou outra seu polegar deslizava pela minha mão, espalhando um pouco de calor e dirigia um olhar para mim. Não encontrei seus olhos em momento algum, apenas os via em minha direção de soslaio e mantinha os meus próprios focados no fogo.
Soltei-me de sua mão quando o sol começou a se por e caminhei em direção às pilhas de cinzas e me abaixei em cada uma, deixando a fuligem sujar meus dedos.
– Me desculpem – pedi. – Parece que eu já não sei mais desempenhar o meu papel e falhei com vocês.
A mão de Eren pousava em meus ombros, apoiando-me e me dando um pouco de força. Ouvi seu nariz fungar e imaginei que estaria chorando. O garoto gostava particularmente de Petra. Ela sempre fora a mais sensível em meu esquadrão, talvez por ser a única mulher, e a que mais conversava com Eren. Lembrei-me de diversas vezes em que os repreendi conversando no refeitório por horas a fio, enquanto o garoto debruçava-se na mesa, escutando as histórias que Ral contava com tanto orgulho e seus olhos cintilavam à luz de velas enquanto ela prometia a ele que um dia lutariam lado a lado como semelhantes em prol da humanidade.
Toquei os dedos de Eren com os meus sujos, e me apoiei em sua mão para levantar.
– Obrigado – falei. – Por tudo.
O garoto se limitou a assentir, limpando os olhos e dando-me a mão novamente.
– Se você não se importa… – comecei, sentindo-me uma pessoa péssima. – Eu gostaria de um tempo sozinho, Eren. Preciso escrever às famílias dos meus homens…
– Tudo bem – ele falou, mais compreensivo do que eu pensei que seria. – Eu entendo. Irei conversar com Mikasa nesse meio tempo. Se precisar de mim… – ele se inclinou na minha direção.
– Ok – cortei, desviando-me do seu beijo.
Saí em direção ao escritório dos oficiais pisando forte, deixando para trás o homem que me apoiara totalmente confuso e sem entender minha ação. Nem mesmo eu a entendia. Eu não queria passar minha infelicidade para ele. Parecia injusto que todo aquele calor se desperdiçasse em mim e se perdesse em meu corpo frio. Era injusto que Eren perdesse seu tempo com seu capitão mais quebrado que inteiro, que ainda precisava colocar todos seus pedaços juntos novamente para ser forte pelos mortos e suas famílias.
Meu fardo era pesado demais para que eu sobrecarregasse Eren. Eu assumira aquele compromisso e eu daria conta de mantê-lo, independente do quanto custasse. Empurrei a porta com a mão e entrei em meu escritório. Fechei a porta e a tranquei, mantendo as costas coladas à superfície de madeira por um tempo, deixando meus pensamentos se perderem no nada e meu corpo escorregar até o chão, sentando-me sobre o tapete felpudo no piso.
Joguei a cabeça para trás pensando se choraria naquele momento, mas quando busquei qualquer indício de lágrimas, a voz dentro de minha cabeça me disse que eu já estava por demais esgotado para permitir que mais da minha essência escapasse de mim naquele momento. Respirei profundamente algumas vezes antes de encontrar força para me levantar e começar a tarefa que me era minha por obrigação. Puxei a cadeira e sentei-me à escrivaninha, tomando uma folha e preenchendo um cabeçalho padrão para as cartas da tropa.
Comecei com meu nome completo, minha patente, a data. Logo abaixo, coloquei o local e o nome do soldado o qual minha carta se referia. Escrevi as cartas de Gunther, Erd e Aruo primeiro, oferecendo minhas condolências e colocando não só a mim, mas toda a Tropa de Exploração, à disposição para o que viessem a precisar. Deixei a carta de Petra para o final. A garota era tão efusiva que, em seu primeiro dia na tropa, levara sua família para nos conhecer e, desde então, seu pai vinha empurrando-a para meu colo, com o pretexto de que sua filha deveria se casar logo para ter filhos. O velho dizia que eu era um ótimo partido apesar da minha baixa estatura.
Soltei um sorriso curto ao me lembrar das milhares de cores que passaram pelo rosto de Petra quando seu pai o dissera e ela tentava se desculpar, os outros três rindo à altas vozes enquanto, por dentro, eu tentava entender o motivo daquela vergonha toda da mulher. E ao meu sorriso, seguiu-se um forte aperto no peito. Eu sentia falta daquela menina. Ela fora, por todos os anos em que estivera no quartel conosco, meu braço direito, aprendendo perfeitamente as minhas técnicas e as aperfeiçoando com seu estilo de combate singular.
Petra cuidava de todos nós, do Esquadrão Levi. Era impossível não nutrir um carinho especial por aquela pessoa quando a conhecia melhor. Dei de ombros, assinando a carta para o Sr. Ral apenas com meu primeiro nome, oferecendo meus mais sinceros sentimentos. Dobrei-a e coloquei dentro do envelope endereçado à sua família, em Trost. Eu mesmo iria entregar aquela carta.
–––
– Mikasa – Eren bateu na porta do dormitório feminino com os nós dos dedos. – Mikasa está aí?
– Estou – respondeu ela, saindo de trás de um dos beliches mais próximos. Vestia-se com um short de treinamento e uma camisa sem mangas, uma toalha sobre os ombros.
Os olhares dos dois meio-irmãos se encontraram e se prenderem por um instante de estática. O garoto engoliu em seco antes de indicar o caminho para o lado de fora do dormitório. Mikasa o acompanhou, passando por si em silêncio e caminhando à sua frente até saírem para o campo vazio. Recostou-se em uma árvore e olhou para Eren novamente, os braços cruzados em frente ao peito e a expressão que indicava que poderia socar-lhe a cara com tanta força que ele sentiu-se retrair um pouco.
Jaeger juntou um pouco de coragem e esticou a mão em direção à menina, tentando tocar-lhe o braço, mas recebeu apena o desvio e o olhar de repulsa de Mikasa.
– Há quanto tempo não ficamos juntos… – ele começou. – Senti sua falta, Mika.
– Hm – resmungou a oriental.
– Vamos dar uma volta? O tempo está bom, podemos escalar umas árvores…
– O capitão o dispensou, Eren? – a voz da garota o atingiu em cheio como um raio.
– Como?
– O seu capitãozinho se cansou de você hoje e você veio correndo atrás de mim para lhe fazer companhia?
Recuando um passo para trás, assustado com a postura e entonação da voz de sua irmã, o rapaz buscou palavras para responder.
– Não… – ele pigarreou. – Na verdade, Levi me disse para conversar com você. Sinto sua falta. De verdade.
– Levi? – ela questionou, a voz começando a elevar-se. – Agora vocês se tratam com essa intimidade? O que é você para ele? Eren? Erenzinho?
O escárnio era palpável em cada uma das palavras que Mikasa cuspia em Eren, seu corpo soltando-se da árvore e avançando em direção ao irmão, as mãos empurrando-o.
– Mikasa, o que você está fazendo?
– Me deixe em paz, Eren! – ela berrou, os olhos marejando-se de lágrimas salgadas. Era a segunda vez que Eren a via chorar. Seu coração encheu-se. – Me deixe em paz e vá atrás do seu namoradinho! Você claramente precisa mais dele do que de mim!
Vencendo o ligeiro medo que sentia da força de sua irmã, Eren se precipitou em sua direção, estendendo os braços e envolvendo o corpo dela em um abraço apertado, apertando-se ainda mais quando ela se debateu, tentando livrar-se, mas os soluços foram fortes demais para que ela conseguisse dar conta de desvencilhar-se dele e, ao mesmo tempo, deixar todo aquele choro dolorido escorrer para fora de seu corpo. Passaram um tempo em silêncio e, quando finalmente os soluços foram trocados pelo fungar de nariz, Eren permitiu-se soltar Mikasa.
Os olhos apertados estavam inchados, vermelhos e totalmente molhados. Ele puxou a manga da camisa mais para baixo e secou o rosto daquela que sempre o protegia e que parecia tão frágil naquele momento. Voltou a envolvê-la em seus braços e sussurrou em seu ouvido:
– Me perdoe, minha irmã.
Aquelas palavras provocaram um pequeno espasmo no corpo de Mikasa, e Eren continuou.
– Eu a amo. Não faltarei com você novamente.
Em seu coração, Eren havia se acertado com a irmã, apesar de saber que levaria algum tempo até que sua relação voltasse ao que era antes. Sentia que havia feito o certo ao desculpar-se e saberia que Levi entenderia que agora quisesse passar um tempo extra com ela e os outros amigos. Conseguia ver por si só o tamanho do arrependimento no rosto do capitão por não haver passado tempo o suficiente com os seus e agora já não havia mais como reparar aquela falta.
Beijou os cabelos de Mikasa e deu-lhe a mão, levando-a para dentro do salão comum e sentando-se ao seu lado e ao lado dos outros que jogavam algum jogo de cartas. Passou uma para a garota e pegou uma para si, imitando os outros. Trocaram um sorriso antes de entrarem na partida e, em meio à repentina centelha de felicidade que despontava em seu peito, Eren foi incapaz de ver os sentimentos de Mikasa estampados em seu sorriso falso, enquanto ela sabia que teria que matar aquele amor por ele. Aquele amor não de irmã.
Aquele amor de mulher.
–––
Minha cabeça rodopiava freneticamente enquanto aquelas estrelas giravam em torno de si mesmas. Como eu pudera me submeter àquilo novamente? A garrafa de vinho jazia vazia ao meu lado, meu corpo largado na grama e o vento frio provocando arrepios em minha pele e dores em meu joelho machucado. Eu havia novamente bebido além da conta, buscando no álcool aquela sensação de alívio para a dor que eu sentia. E o vazio se preenchera de fato, porém de uma substância que me deixara tão alucinado quanto na última vez e optei por simplesmente deixar-me cair na grama e ficar ali, evitando ter a chance de fazer alguma besteira da mesma forma que fiz da última vez que bebi.
– Bom, não fora tanta besteira assim – falei, virando-me para a garrafa de vidro verde que me encarava. – Eren é meu agora e aposto o que você quiser que aquilo me ajudou bastante.
Ela não me respondera. Devia pensar que eu era apenas um bêbado estranho, conversando com ela, aquele objeto inanimado e justificando os próprios pensamentos.
O céu estava bonito naquela noite, porém escuro além da conta. As estrelas pareciam mover-se no ritmo das minhas ideias e saltavam de um lado para o outro, provocando uma pequena náusea em meu estômago. Estiquei a mão, os dedos bem abertos e tentei segurá-las no lugar, mas não consegui. Por entre meus dedos, vi dois corpos celestes brilharem além da conta, destacando-se dos outros. Brilhavam com tamanha intensidade que poderiam competir com a luz da lua e ganhar sem problemas.
Aquela luz me arremetia a Eren, como tudo o que fosse iluminado, quente e confortável. Aquela grama estava me lembrando do garoto, e o toque de suas mãos, apesar de que estas não faziam cócegas em minha nuca igual o mato fazia. Suspirei, a mão ainda esticada em direção ao céu. Flexionei os dedos, esperando que Eren aparecesse entre eles.
– Todas as estrelas mais bonitas – comecei, a voz arrastada – brilham para você, garoto.
O que? Para onde havia ido o sentido?
– Eu esperaria por você, moleque – falei, virando-me novamente para minha mais nova amiga. – Eu esperaria por ele, sabe? Se ele não me quisesse. – Dei de ombros. – Acho que eu realmente o amo.
Uma risada explodiu em meu peito, fazendo com que eu me contorcesse deitado no chão. Garrafa ria ao meu lado.
– Isso é muito fodido – balbuciei em meio às gargalhadas. – E sabe o mais irônico de tudo isso?
Não esperei resposta antes de continuar.
– Meus soldados não verão a minha vergonha ao dizer isso ao garoto! – Tornei a rir, sentindo as costelas doerem, sem conseguir parar. – Nem Gunther nem Erd, e nem Aruo para fazer aquela cara de aprovação que dava até para os soluços! E nem Petra… – fora nesse momento em que consegui segurar a histeria e senti que eu finalmente poderia chorar. – Nem Petra…
Fechei os olhos para as estrelas de Eren – era esse o seu nome, eu iria chamá-las daquela forma – e deixei o braço cair. Aquele sentimento de vazio não saía de mim, como se a cada vez que o garoto preenchesse o buraco em meu peito, algo acontecesse e aquele rombo voltasse a preencher meu corpo, duas vezes maior do que fora antigamente. Eu estava cansado daquilo tudo. Quando as coisas começaram a tomar aquela proporção tão grande de desgraças? A realidade da Tropa de Exploração fazia o subterrâneo parecer um lugar maravilhoso, calado e escuro, sem titãs, sem humanos se transformando em titãs para matar outros humanos.
Talvez até valesse à pena não ter conhecido Eren. Eu não colocaria sua vida em risco o colocando em missões e talvez ele se juntasse à Polícia Militar afinal de contas, garantindo sua sobrevivência além de tudo. De que importava o restante da humanidade quando você não podia salvar a si mesmo e aos seus? Suspirei.
– O que você acha? – perguntei à Garrafa.
– Acho que você precisa ir para a cama – ela me respondeu com uma voz grossa masculina.
Garrafa era um homem?, me perguntei, não notando a familiaridade em sua voz. Levantei o corpo, apoiando-me nos cotovelos e vendo as estrelas girarem novamente. Mas que caralho. Eu não podia passar mal. Vomitar era nojento e, no meu atual estado, acabaria sujando minhas roupas completamente.
– Não tenho condições de voltar para o quarto – respondi, franzindo o cenho. – Ficarei aqui.
Um par de mãos pegou-me por baixo dos braços e me coloco de pé, virando-me em sua direção e encarei Erwin me olhando nos olhos. Apertei os meus, tentando discernir suas feições. Meus olhos embaçados não conseguiam dizer se ele me encarava com raiva ou apreensão, então resolvi ignorar qualquer que fosse a sua reação. Desvencilhei-me de seus braços e cambaleei até conseguir me manter de pé.
– Quando eu deixei de ser o melhor soldado da humanidade, Erwin? – perguntei enquanto ele me guiava para dentro do quartel.
– No momento em que você passou a acreditar nisso – me respondeu o comandante. – Você ainda é o melhor soldado que eu tenho, Levi. Só se deixou levar por alguma coisa que continua te puxando para baixo.
– Hm.
– Você está com medo – ele continuou. Suas palavras, uma a uma, iam trazendo-me mais sobriedade. – Você está com medo pelos outros. Por Eren. Talvez essa relação não esteja te fazendo bem, afinal de contas.
– Hm – resmunguei novamente. Aquela não era uma ideia que tinha se passado em minha cabeça.
Todos os momentos com o moleque fizeram eu me sentir tão bem, tão humano que a ideia de que aquele sentimento pudesse estar me puxando para baixo era simplesmente inconcebível. O que havia de errado em estar com alguém?
– Eu o amo, Erwin – falei.
– Eu também, Levi. E é por isso que…
– Não. – Eu o interrompi. – Eu amo Eren. Talvez seja isso.
O silêncio se abateu sobre nós até o final do caminho. Minha cabeça não rodava mais e todo o caminho ficara claro mais uma vez. Era esse o meu problema. Erwin me deixou na porta do quarto, lançando-me um último olhar de pena. Sua cabeça sacudiu-se de um lado para o outro em negação enquanto o vi se afastar. Eu daria minha perna boa para saber o que se passava dentro daquela mente genial, saber o porquê daquilo tudo e, principalmente, se ele estava certo. Ele costuma estar, falou a voz dentro da minha cabeça.
Abri a porta e me esgueirei para dentro do meu quarto me sentindo tão sujo quanto possível. Entrei de roupa debaixo do chuveiro, arrancando cada peça com nojo, tentando deixar no tecido o sentimento que me impregnava naquele momento, esperando que passasse com a mesma rapidez na qual surgiu. Esfreguei a pele inúmeras vezes, produzindo uma vermelhidão incômoda por todo meu corpo, deixando escorrer o caldo de sujeira pelo ralo, pedido ao deus que as pessoas acreditavam que levasse toda a morte consigo. Eu precisava me sentir como Levi novamente, não o soldado fracassado que sucumbia à depressão trazia pela morte de cada um dos meus.
Eu precisava ter forças para fazer suas vidas e mortes valerem à pena. Que valessem à pena o mesmo tempo que Eren valia para mim.
Saí do chuveiro já era madrugada, completamente são. Apesar de me sentir limpo novamente, o sentimento de vazio continuava a me assolar, invadindo a minha privacidade, tragando-me para baixo, esperando que eu finalmente me deixasse levar pela solidão. As forças pareciam querer abandonar o meu corpo. Larguei-me na cama, esperando que aquilo fosse apenas cansaço mental e físico. Uma boa noite de sono haveria de me ajudar a recuperar minha dignidade e orgulho, e aquilo tudo passaria.
– Eu não posso deixar Eren me levar para baixo – sussurrei para mim mesmo, esperando que as palavras em alta voz trouxessem algum curativo para a minha alma. Mas não trouxeram.
Meus olhos encheram-se de lágrimas mais uma vez ao pensar que o garoto poderia ser a minha ruína e condenei-me por querer tanto que estivesse sempre por perto, por querer que sua vida sobressaísse à dos outros apenas para queeu tivesse mais tempo ao seu lado, para beijá-lo e amá-lo em todos os momentos em que eu pudesse fazê-lo.
Vesti uma roupa velha que encontrei no fundo do meu armário e saí para a noite fria do terraço do quartel. Não me lembro de caminhar até lá, nem subir os cinco lances de escadas de madeira até lá. A primeira coisa que vi foram as Estrelas de Eren brilhando para mim, derramando sobre mim um calor esmagador. Era assim que o amor deveria ser? Ladrão da pouca paz que eu conseguira juntar naqueles anos? Aquela falta dolorida do corpo de alguém que não deveria nem mesmo ser meu?
Dei um passo em direção à beirada do terraço e subi sem dificuldade em uma das pedras do parapeito, sentindo o vento forte jogar meus cabelos para longe, e olhei para baixo. Eram sete andares de altura, mas o chão me era tão nítido como se eu estivesse sobre ele apenas. Ergui os braços, respirando o ar puro do quartel e fechei os olhos me sentindo um homem baixo. Quem se lembraria de mim como o homem que eu era dentro de meu coração? As memórias seriam apenas do Capitão Levi, mal humorado e soturno que deixara seus homens morrerem em campo por falta de habilidade.
É… se é desse jeito que as coisas são…
Dei um passo para frente, os braços ainda abertos.
Um puxão em minha roupa me trouxe de volta, e fui surpreendido em um abraço morno.
– O que você está fazendo, Levi? – a voz de Eren soou quente em meu pescoço.
Deixei-me ser envolvido e puxado para fora do terraço. Entramos no corredor do quartel e virei meu rosto em direção ao moleque, seus olhos escuros pela falta de iluminação naquela parte do prédio. Ou talvez fossem as Estrelas de Eren que roubaram o brilho do meu garoto? Não, pensei. Não tinha nada a ver com isso.
– Eu queria tomar um vento, moleque – respondi, soltando-me dos seus braços. – Queria pensar um pouco, também.
Ele me virou, segurando-me pelos ombros.
– Não minta para mim – o garoto falou, usando a mesma entonação que usei com ele semanas atrás. – Você não precisa mentir para mim, Levi.
Abaixei o rosto. Ainda bem que ele não poderia me ver corar ali no escuro.
– Eu sou fraco – falei por fim, dando de ombros. – Eu sou fraco, Jaeger. E eu não sei se eu consigo suportar por nós dois nesse estado.
– Você não tem que suportar nada por nós dois – ele falou, tomando minhas mãos nas suas, beijando-as. – Você não é fraco, Levi. Mas também não é o homem que lutou por mim no começo.
Suas palavras eram doces, mas por trás delas eu pude sentir seu tom decepcionado. Meu peito se contraiu.
– Eu preciso que você seja você outra vez – Eren voltou a beijar as minhas mãos. – Preciso que você seja o homem determinado que fora antes, que não tinha medo. Sem arrependimentos.
Assenti. Não havia o que dizer naquele momento.
– Meus sentimentos por você… – comecei, pensando nas palavras de Erwin. – Tenho medo deles.
– Por que, Levi?
– Porque são intensos, moleque, são tão fortes que eu me sinto sufocado em pensar em você e sinto-me amedrontado quando penso que um dia eu posso estar colocando o fogo na pira do seu corpo. Eu realmente não posso perdê-lo.
Envolvi a cintura de Eren em meus braços, sentindo-me mais fraco que nunca, mais estúpido e infantil do que em qualquer outro momento de minha vida. Eu não queria amá-lo se aquela seria a sensação que me acompanharia pelo resto da minha vida. Aquele medo era simplesmente esmagador demais para que eu pudesse suportá-lo. Minha energia deveria ser vertida em prol da humanidade, e não dos meus próprios fantasmas.
Minha boca desesperadamente buscou a de Eren e, parados no primeiro degrau da escada, senti seu gosto e tentei sugar o máximo que eu pudesse. Eu precisava daquilo com tanto vigor que me assustava. Segurei seu rosto entre as minhas mãos e o beijei avidamente, buscando naquele beijo a razão para aquilo tudo, tentando encontrar um significado para o medo e uma cura para ele também.
E a encontrei. A encontrei no momento em que Eren me beijou de volta e aquele calor todo voltou a preencher o meu corpo. Aquilo simplesmente não podia estar errado. O garoto era meu… meu porto. Minha força. E por ele eu seria forte outra vez. Eu voltaria a lutar meu possível.
Erwin estava errado pela primeira vez.
Dormimos juntos naquela noite, mas não fizemos sexo, nem nos beijamos demais. Apenas conversamos e, quando Eren já estava cansado o suficiente, e sua voz não passava de um sussurro arrastado, o abracei com força, beijando sua testa e o acomodei, velando seu sono e finalmente me permiti adormecer também.
–––
– Levi!
Chamou Erwin batendo repetidas vezes em minha porta. Abri os olhos para o sol quente invadindo meus aposentos e meu braço ligeiramente formigando sob a cabeça de Eren, que dormia como um anjo. Escorreguei para fora da cama, colocando a cabeça do garoto com cuidado entre o meu travesseiro e abri a porta. Cocei os olhos e bocejei e, só quando terminei, Erwin entregou-me um papel com o selo do rei.
– Zachly nos convocou à capital – ele disse. Sua expressão não estava nada contente. – Partimos agora.
Virou-se e saiu. Seus passos eram pesados no chão, a tensão em seus músculos denunciando seu estado de espírito. Algo dera terrivelmente errado, eu podia sentir na vibração do ar à sua volta. Fechei a porta rapidamente e fui até o armário, tirando uma mala pequena e guardando diversas mudas de roupas. Eu terminava de calçar as botas quando Eren despertou e me abraçou pela cintura, uma mania que vinha adquirindo com o passar do tempo. Não era algo que eu achava ruim, só para fins de registro.
– O que aconteceu? – sua voz embargada de sono e carregada de preguiça me fez querer beijá-lo novamente. Girei a cabeça levemente e selei meus lábios nos seus antes de voltar a abotoar a bota.
– Fomos convocados à Capital – respondi, levantando-me da cama e soltando-me dos seus braços. – Erwin e eu.
O brilho matinal dos seus olhos se esvaiu em um segundo.
– Aconteceu algo, Levi?
– É o que descobriremos. – Apontei para a carta que Erwin me entregara, agora aberta sobre a mesa. – Voltarei dentro de duas semanas.
A expressão de Eren ficou ainda mais desanimada. Eu também me senti daquela forma quando li o comunicado. Eu não queria ficar longe do garoto nem por uma hora, que dirá duas semanas, mas aquela era uma das coisas as quais eu não tinha escolha e também não poderia levá-lo comigo. Por todo o tempo em que me aprontei, pensei em como lidaria com aquele tempo longe e minha cabeça não conseguia me oferecer uma opção tranquilizadora.
– Eu sei – falei, puxando seu queixo entre os meus dedos e beijando-lhe. – Eu sei.
– Sentirei sua falta – ele falou, a ponta do nariz roçando no meu, aquela antiga estática voltando a correr pelo meu corpo.
– Eu também sentirei a sua falta.
Joguei o casaco preto sobre os ombros e peguei a bolsa pela alça. Lancei um último olhar para dentro do quarto antes de fechar a porta atrás de mim, caminhando ao encontro de um comandante exasperado e apressado, que batia o pé para mim enquanto segurava a porta da carruagem aberta para que eu entrasse. Quando os cavalos começaram a puxar, vi Eren de relance, parado no portal do quartel, vestido somente com a calça que eu usara na noite anterior, os cabelos rebeldes espetados e a expressão de sono completamente extinta do seu rosto.
Ele levantou a mão em minha direção e retribuí o gesto com apenas dois dedos. Recostei-me no banco quando o perdi de vista e suspirei. Aquela seria uma das minhas viagens mais longas.
–––
Lancei meu DMT enquanto Eren me observava, sentado em um banco. A infelicidade estava estampada nos traços de seu rosto magro e ele já havia desistido de lutar contra ela. Aquele período de recuperação fizera mais mal do que bem ao garoto e eu temia agora pela sua sanidade comprometida pelo tempo em que estava parado. Eren não queria comer, não queria conversar. Queria apenas dormir ou sentar-se perto do Bosque de Árvores Gigantes enquanto via seus companheiros treinarem as manobras tridimensionais. Mais de uma vez o peguei tentando furtar um equipamento dentro do depósito e mais de uma vez tive que arrastá-lo para fora à força, segurando seu corpo entre meus braços enquanto ele se debatia tentando se desvencilhar de mim.
Toda aquela situação já estava me deixando esgotado. Eu precisava cuidar de mim, do soldado, do quartel e de Eren e, de todas essas funções, estava falhando somente com o garoto porque ele parecia já ter se deixado sucumbir. Foi numa quinta-feira à tarde que me cansei daquele marasmo todo que desci da árvore e joguei Eren sobre os meus ombros. Aquilo acabaria ali.
Não houve protestos da sua parte quando apertei um cinto envolta de sua cintura e o prendi ao meu corpo, içando-nos para o alto e sentando-o em uma das árvores mais altas em um galho escondido pelas folhas. Encostei suas costas no tronco e tirei seus cabelos do rosto. Sacudi seus ombros e, pela primeira vez em alguns dias, vi alguma reação em seus olhos.
– Eren! – Chamei. – Acorde!
Suas mãos tentaram afastar as minhas, sem sucesso. Já era alguma coisa, pelo menos.
– O que você está fazendo? – perguntei. – Seriam apenas dez dias e você está transformando isso em um martírio! Seja um homem!
– Eu sou um homem! – Ele vociferou de volta, uma centelha de raiva trespassando seus olhos. – Eu sou tão homem que não consigo continuar nessa rotina tediosa de não fazer nada!
– Você não está sendo homem – rebati –, você está sendo fraco. Eu estou sendo forte por você. Eu estou correndo atrás da minha força de volta, mas você sumiu em um monte de fraquezas e eu não consigo mais te encontrar.
Tornei a sacudir seu corpo.
– Volte para mim, Eren – suas costas batiam com força contra o tronco, filetes de fumaça saindo por trás do seu corpo; eu o havia machucado. – Não é o fim do mundo. Vamos… vamos sanar as nossas dores juntos.
Esperei que as palavras que ele me dissera fizessem nele o mesmo efeito que fizeram em mim na ocasião em que ele as dissera. Mas sua expressão se mantinha naquela máscara de raiva insistente, sem razão. Puxei seu corpo em um abraço apertado e, especialista que estava me tornando naquele tipo de coisa, segurei-o com força enquanto tentava se soltar de mim. Quando se cansou, deixou seus braços caírem ao redor do meu corpo e ficou em silêncio.
– Faltam apenas quatro dias, Eren – falei, beijando sua cabeça. – Quatro dias. Logo você estará aqui em cima comigo, por conta própria. Mas, por favor, não desista. Eu não posso ter lutado tanto para não te perder para um titã para te perder para você mesmo.
Ele assentiu. Meu coração se inflamou. Aquilo era mais uma reação, certo?
Tentei pensar em algo que pudesse animar o garoto e a primeira coisa que veio em minha cabeça fora a voz de Hange, soando lá no fundo, estridente, mandando que eu chamasse o moleque em um encontro. A ideia era péssima, eu sabia. Mas… quem sabe…
– Vamos em um encontro.
Pela primeira vez, Eren ergueu os olhos para mim, confuso, olhando-me como se eu tivesse perdido a cabeça.
– O que? – ele perguntou, levantando uma sobrancelha. Um pouquinho de cor começou a aparecer em suas bochechas.
– Um encontro – repeti. – Nós nunca tivemos um encontro antes.
Seu rosto começava a adquirir uma tonalidade rosada, logo se transformando em carmim. Senti seu corpo inteiro se esquentar. E daquela vez não era por alguma coisa que machucara e precisava se curar. Sorri para ele.
– Mas você precisa me garantir que irá melhorar – falei, voltando a tomar aquele rosto em chamas entre as minhas mãos. – Se você desistir de você, eu desistirei de você.
Beijei seus lábios.
– Isso é chantagem – ele falou, a voz do meu Eren de volta ao seu lugar de direito, com uma pontada longe de diversão.
Dei de ombros.
– Eu sou o capitão, Jaeger – respondi, os ombros encolhidos. – Você não pode me desobedecer.
Eren sorriu para mim de volta, os olhos apertando-se à medida que as bochechas inchavam e sua boca se abria para receber a minha.
