Ajeitei meu lenço do pescoço, passei a mão pelos cabelos e joguei o casaco por cima dos ombros. Exceto pela camisa por baixo do paletó, toda minha roupa era negra, como meus pensamentos desde o momento em que chamei o garoto para um encontro. Que diabos estava se passando pela minha cabeça? Eu não tinha mais idade para aquilo e, sinceramente, nunca tivera. Nem cabeça. Mas ao mesmo tempo eu me encontrava ansioso e apreensivo. Eu apenas reservara uma mesa em um restaurante de Trost, não era nada demais, e senti medo frente à chance de Eren não achar meu esforço o suficiente. Afinal, eu apenas me aproveitara de uma viagem que já teríamos que fazer de qualquer forma.

Suspirei. Limpei o suor que começava a se acumular em minha testa e vesti minha melhor expressão indiferente. O quartel das Tropas de Guarnição era menor que o nosso, e as pessoas tinham aquele péssimo hábito de se acumular pelos corredores para conversar. Senti falta da solidão do andar dos oficiais. Todos aqueles soldados olhando-me de esguela enquanto eu passava e todos aqueles cochichos não faziam em nada amenizar o nervosismo que me dava vontade de voltar para dentro do quarto e ficar ali até voltarmos para o interior.

Malditos Erwin e Hange que saíram em missão naquele momento. Os amaldiçoei repetidas vezes por me deixarem sozinhos e ainda mais por rirem quando contei a eles o que eu havia feito. Alcancei o lado de fora, a rua apinhada de comerciantes e habitantes do distrito e me senti apenas mais um, indiferente, em meio àquela multidão. Eu não estava acostumado com aquilo, aquela gritaria de mercadorias que poderiam ser trocadas em papel moeda, crianças chorando ou berrando por suas mães, carroças e cavalos batendo no chão. Minha cabeça rodou e voltei a considerar a possibilidade de roubar um cavalo e voltar sozinho para o quartel da Tropa de Exploração.

Subi no carro que Hange deixara preparado para mim e me deixei ser levado até o local onde encontraria Eren. A viagem fora relativamente curta, sem paradas, e agradeci pelas cortinas que tampavam aquele mundo estranho do lado de fora. Mais de uma vez puxei o ar com força para meus pulmões, prendendo-o um pouco, esperando que o gás carbônico me ajudasse a colocar os pensamentos em ordem. Eu traçara uma sequencia de ação dentro de minha cabeça, e repassei todos os passos. Eu chegaria, sentaria, Eren chegaria e também se sentaria. Comeríamos um prato, depois um doce e depois uma bebida – sem álcool, uma vez que eu me provara uma pessoa fraca para aquele tipo de substância e o moleque também não tinha idade para esse tipo de coisa. Era isso que Hange dissera que se fazia em um encontro.

Mal parou o carro, saltei para fora dele, lançando uma peça de metal para o guia, agradecendo-o pelo serviço sem nem olhar em seus olhos. O homem provavelmente estaria alheio ao que estava acontecendo, mas com certeza qualquer vislumbre do meu rosto totalmente vermelho e quente o faria entender a situação e provavelmente ele também riria de mim. Respirei, prendi o ar e voltei a soltá-lo audivelmente quando entrei no local. Graças, pensei. Estava parcialmente vazio, exceto por duas mesas ocupadas, uma com um casal um pouco mais jovem que eu e a outra com um par de oficiais da Polícia Militar.

Tive a cautela de desviar-me deles e caminhar até a mesa no fundo, onde um homem me esperava de pé, vestido de forma alinhada e a expressão neutra. Ele sorriu para mim quando cheguei, indicando-me uma cadeira e entregando-me um cardápio. Perguntou se eu queria algo de início, e pedi somente um copo com água, esperando estar fazendo certo. Minhas mãos suavam quando ele saiu e as limpei rapidamente no guardanapo que estava sobre a mesa. Havia um relógio na parede, tiquetaqueando cruelmente, e pude notar meu coração assumindo o ritmo do ponteiro dos segundos que pareciam passar como horas.

Saquei um papel com anotações do bolso do casaco e comecei a ler. Eu precisava fazer algo antes de começar a enlouquecer. Li todas as anotações sobre a missão de Hange e Erwin, eles iriam exterminar alguns titãs no distrito, alguns pequenos que surgiram em algumas vilas. Não era necessária a minha presença, e os dois foram apenas para garantir que pelo menos dois daqueles monstros fossem capturados e levados para estudo. Eles simplesmente apareceram no local que nem ficava perto das paredes. Havia algo muito estranho naquela história e, não fosse a insistência do comandante, eu teria ido para verificar aquilo eu mesmo. As coisas andavam muito estranhas ultimamente.

Surgira mais um ser humano que se transformava em titã – bebi um gole d'água –, titãs surgiam do nada, dentro das muralhas, fracos demais para atacarem os seres humanos e ainda assim tão assustadores quanto os anômalos que corriam atrás dos meus soldados, dilacerando-os entre seus dentes.

– Levi? – Uma voz masculina me trouxe de meus devaneios e levantei os olhos do papel, com a taça a caminho da boca congelando em minha mão.

Eren parecia tão nervoso quanto eu, mas, ao contrário do que eu imaginava de minha aparência, ele estava… incrível. Havia aparado os cabelos, que estavam jogados para trás, revelando um rosto corado e os olhos tão grandes quanto realmente eram, verdes e vívidos olhando para mim. Um sorriso fino estampava seus lábios enquanto sua mão pousava levemente sobre o encosto da cadeira e a puxava para que se sentasse. Engoli em seco. O que eu deveria fazer? Levantar para ajudá-lo a se sentar? Não, ele não era uma garotinha, pensei. Voltei a engolir em seco. O garoto tirou a jaqueta e a pendurou na cadeira, levantando as mangas da blusa comprida um pouco justa demais e se virou para mim.

– Está tudo bem? – Ele perguntou, os olhos fixos em mim, sem saber se sorria ou franzia o cenho.

Coloquei a taça de água de volta na mesa com certa dificuldade e pigarreei, sacudindo a cabeça sutilmente para clarear os pensamentos.

– Sim – respondi, seco. – O que você quer comer? – Perguntei, levantando o cardápio e escondendo meu rosto atrás dele.

Eu podia sentir a fumaça se levantando das minhas bochechas em chamas e não queria que Eren me visse daquela forma. Ele estava deslumbrante, parecia um anjo, enquanto eu apenas fazia corar e suar as mãos, sem saber o que fazer em seguida.

– Não tenho um cardápio – respondeu o garoto.

Abaixei o meu somente para descobrir meus olhos e o encontrei sem graça, as mãos cruzadas sobre o colo e os olhos procurando o garçom. Senti-me aliviado ao ver que, apesar de toda aquela beleza e aquela aura de tranquilidade que o cercava, ele estava pelo menos um pouco nervoso. Dobrei o menu que segurava e passei para ele, levantando a mão e acenando ao homem que me recebera para que trouxesse outro. O moleque o pegou e folheou rapidamente, o olhar indo para mim e voltando rapidamente à carta em suas mãos.

– Eu aceito uma… uma água também – ele gaguejou.

Assenti para o garçom que fizesse tal qual ele dissera e o homem se fora. Passei mais uma vez os olhos pela lista de refeições à minha frente sem realmente ler nenhuma das opções e voltei a deixar o cardápio sobre a mesa. Reuni um pouco de coragem e ar nos pulmões e olhei para Eren. Repassei em minha cabeça os passos que Hange me dera e nenhum deles falava o que eu deveria fazer no meio tempo em que não estivéssemos comendo. Abri a boca e tentei esboçar algo interessante para quebrar o silêncio, porém a primeira coisa que escapou dos meus lábios conseguiu me deixar constrangido por todo o tempo de uma vida.

– Você está muito bonito, Jaeger – falei, tentando puxar as palavras de volta para dentro no momento exato em que saíram.

Um rubor violento subiu pelo pescoço de Eren e seu rosto já passava de vermelho para roxo, os olhos apertados e as bochechas contraídas naquele tipo de sorriso que você só dá quando está extremamente sem graça. Apressei-me em beber o resto da água, tentando ocupar minha boca com algo para que eu não falasse mais besteiras e terminei por engasgar, tossindo violentamente, o rosto virado para fora da mesa. Levi, você tem dez anos de idade, falou a voz em minha cabeça. Comporte-se como o homem que é, pelo amor de deus.

Demorei um pouco a me recompor, enquanto o garoto estendia seu próprio guardanapo na minha direção, perguntando se eu estava bem, se precisava de alguma coisa. Neguei com a cabeça, limpando os cantos da boca e devolvendo a ele o pano. Permanecemos em silêncio por um tempo, esperando que o garçom trouxesse a água dele. Por que as coisas eram tão mais fáceis dentro de quatro paredes e ali, no restaurante, eu me comportava como se não soubesse me portar em público? De olhos fixos no cardápio novamente, pensei que preferia enfrentar trinta titãs de uma vez a voltar a encarar Eren.

– Obrigado – ele sussurrou, o queixo apoiado nas mãos.

Assenti, voltando a corar.

– Tire os cotovelos da mesa, moleque – falei, indicado com a cabeça aquela falta de educação.

Idiota, me falou a voz. Deixe o garoto. Foi a única coisa que consegui pensar, respondi para meu próprio pensamento, imaginando se já estaria ficando louco por conversar comigo mesmo dentro de minha cabeça.

– Levi, talvez isso tenha sido um erro – ele começou, coçando o pescoço. – Acho melhor voltarmos para o prédio…

Senti o coração se contrair e parar ligeiramente dentro de meu peito. Eu estava estragando tudo.

– Desculpe – pedi, o interrompendo. – Estou só um pouco… nervoso. Só isso.

– Hm – ele resmungou de volta.

Senti sua perna se esticar sob a mesa e encostar a minha levemente, e levantei os olhos na sua direção. Eren voltara a corar, mas ainda sustentava meu olhar firmemente. Pude notar seus dentes prendendo o lábio inferior de forma sutil enquanto seus olhos esquadrinhavam meu rosto em busca de alguma reação. E a primeira coisa que fiz foi sorrir. Finalmente o ar a nossa volta pareceu menos pesados e ambos respiramos com algum alívio. Mantive minha perna encostando-se à de Eren enquanto o garoto chamava o garçom e pedia um prato de ovos e vegetais, virando-se para mim logo em seguida.

Olhei rapidamente para o menu e vi que aquele era o prato mais barato. Sacudi a cabeça.

– Pode trazer dois desse de carne de cervo com as frutas, por favor – falei para o homem. – E cancele os ovos.

– Levi, eu não posso…

– Eu chamei, moleque – cortei. – Eu pago.

Novamente o rubor se espalhou pelo rosto de Eren, e ele se encolheu na cadeira.

– Algo mais, senhores? – perguntou o garçom.

– Pode nos trazer uma jarra de néctar também, por favor – pedi, vendo-o se retirar com uma leve reverência.

O garoto voltou-se para mim, lívido.

– Não precisa pagar para mim, capitão.

– Aqui eu não sou o seu capitão, Eren – o repreendi. – Eu sou Levi e você é Eren. Deixe-me fazer algo para você, para variar um pouco.

– Ok – ele respondeu ainda de cara fechada, mas sua voz não tinha nenhuma resistência.

A refeição chegou e comemos em silêncio, o único som vindo dos talheres batendo nos pratos e as taças sendo colocadas de volta na mesa. Minha cabeça fervilhava de possíveis assuntos, mas tudo o que eu conseguia fazer era lançar olhares furtivos para Eren e me perder no movimento de suas mãos cortando a carne, levando-a até a boca, mastigar, limpar-se com o guardanapo, levar os dedos até a taça, levá-la também até seus lábios…

– Levi, pare de me olhar dessa forma – ele pediu, segurando o garfo e a faca no ar.

– Desculpe – pedi. – Eu simplesmente não consigo parar – respondi, dando de ombros.

– Você está me constrangendo.

Suspirei, pousando os talheres no prato e limpando a boca. Terminei de mastigar e engoli rapidamente.

Você está me constrangendo – remedei, bebendo um pouco de néctar.

– Sabe – ele começou –, se os outros o vissem falando dessa forma, você não teria metade do respeito que tem.

Dei de ombros repetidas vezes.

– Os outros não podem ter tudo de mim como você pode.

Ouch. Mais daquelas palavras que não deveriam ter saído. Eu precisava urgentemente voltar a pensar no que falava antes de sair por aí soltando essas besteiras. Respirei fundo, esperando não enrubescer – eu já estava me cansando de sentir aquela quentura estúpida no rosto – e mantive o olhar fixo em Eren, aguardando sua reação, mas tudo o que ele me devolveu foi um sorriso largo. Deu de ombros, como que me imitando, e passou as mãos pelos cabelos, jogando-os mais para trás.

Não falamos mais nada até o final do prato, mas eu pude sentir os olhares e sorrisinhos do garoto na minha direção. E o mais interessante daquilo tudo fora que eu não me sentira mais sem graça. Talvez o silêncio fosse melhor, fizesse tudo soar mais natural. Ou minha mente apenas ignorava aquilo tudo e se portava como se eu estivesse sozinho. Era uma confusão, e eu realmente não estava sabendo como lidar com o que estava acontecendo. Talvez eu apenas preferisse ficar com Eren dentro do quarto, de qualquer forma.

Com uma rapidez incrível, o garçom apareceu e retirou os pratos vazios da mesa e perguntou se gostaríamos de algum doce. Empertiguei-me na cadeira e o chamei antes que Eren pudesse dizer qualquer coisa. Eu havia perguntado à garota-batata o que o moleque gostava de comer antes de sairmos em direção à cidade e ela, depois de muito pensar, me disse que Jaeger gostava de torta de cacau com hortelã verde. E foi o que solicitei ao garçom, ao pé do seu ouvido, para que Eren não escutasse.

O homem assentiu para mim, saindo sutilmente, com mais uma reverência.

– O que você pediu? – perguntou o moleque.

– Você verá – respondi, torcendo a ponta da toalha de mesa com as mãos no colo, esperando que Eren não visse aquela reação totalmente infantil de minha parte.

Os pratos chegaram, tampados por um cloche. O garoto me olhou confuso, agradecendo ao garçom com a cabeça e levando a mão até a tampa para revelar o conteúdo. Porém, estiquei a minha e toquei seus dedos, tentando segurá-lo antes que levantasse a cobertura.

– Eren, espero que goste do que eu pedi – falei. Eu tentava soar o mais sério possível.

Ele engoliu em seco e concordou. Soltei sua mão e esperei.

No momento em que seus olhos viram o pedaço de torta no prato, rodeado de folhas verdes de hortelã, exalando aquele cheio ao mesmo tempo doce e refrescante, vi o rubor voltar a se espalhar pelo seu rosto, e Eren me encarou, sem expressão, apenas os olhos arregalados na minha direção. Merda, pensei. A garota me enganara.

– Se você não gostou – comecei, esforçando-me para não gaguejar –, posso pedir outra coisa, tome o cardápio, pode escolher o que quiser…

– Levi… – ele falou, e notei os olhos brilharem levemente enquanto ele pegava o pequeno garfo de sobremesa, tirava um pedaço do doce e o levava aos lábios.

Uma lágrima pequena, única, escorreu pelo canto do seu olho direito e ele fungou o nariz. Ele estava gostando? Ou tinha odiado? O que estava acontecendo?

– Como você sabia? – ele perguntou, deixando o garfo sobre o prato.

– Eu… perguntei…

– Obrigado – Eren me cortou, devorando pedaço por pedaço do doce à sua frente, a expressão de puro prazer, os olhos fixos nos meus, sem desviarem-se por nem um momento.

Quando terminou, limpou os lábios e bebeu um gole de água.

– Obrigado, Levi – ele repetiu. – Eu nunca mais havia comido uma dessas desde que minha mãe se fora.

Então era isso, a voz em minha cabeça falou. Meu peito soltou-se, aliviado. Eu não havia feito nada de errado, afinal. Permiti-me sorrir para o garoto, levantando a mão e esticando-a por cima da mesa, tomando seus dedos entre os meus e os acariciando levemente. Naquele momento tudo parecia estar certo, como se nenhum constrangimento inicial ocorrera entre nós, e as coisas fossem tão fáceis quanto eram quando estávamos dentro do quarto.

– Fico feliz que tenha gostado – falei. – Você quer mais alguma coisa?

O garoto sacudiu a cabeça em negativa, e apertou meus dedos em resposta. Houve silêncio mais uma vez, mas não fora em nada incômodo. Apenas… silêncio. Paguei a conta da refeição e, antes de sairmos, o garçom me entregou um saco de papel pardo, pesado, e sorriu para mim. O agradeci com um aceno de cabeça e guiei Eren até o carro que me esperava. Maneei a mão para o guia, para que ficasse onde estava quando se levantou para abrir a porta, e eu mesmo o fiz para o garoto, que entrou abaixando a cabeça.

Sentei-me à sua frente e passei o saco para sua mão.

– Comprei todos os pedaços – falei, esperando sua reação. – E mandarei trazer mais quando os seus acabarem.

Aqueles olhos verdes gigantes voltaram a me olhar, cheios de brilho e até um pouco de ternura. Eren se esgueirou para o meu lado e segurou minha mão.

– Obrigado, Levi. Você não precisava.

– Claro que precisava. Eu disse que cuidaria de você – aproximei meu corpo do seu, soltando-me de suas mãos e segurando seu rosto. – De todas as formas possíveis.

Ele voltou a corar, mas sorriu para mim, totalmente sem vergonha. O garoto parecia… feliz. Eu o estava fazendo feliz. Beijei seus lábios rapidamente e as palavras voltaram a brotar no fundo de minha garganta, mas eu já havia resolvido não lutar contra elas mais, tamanha a sua força.

– Eu o amo, Eren.

O garoto assentiu, abrindo a boca levemente, puxando um pouco de oxigênio para dentro de si e soltando-o em meio ao seu hálito refrescante de hortelã, fazendo-me um pouco de cócegas no rosto. Ele me beijou longamente, inocente, sem nenhuma conotação enquanto envolvia minha cintura com seus braços. No segundo em que separou os lábios do meu, ligeiramente ofegante, seus dentes morderam os meus lábios e ele sussurrou:

– Eu também, Levi. Eu o amo, meu capitão.

–––

Os papeis atingiram a mesa com um estalo alto, e senti toda a raiva do mundo se concentrar em meu peito em forma de cansaço. Eu não aguentava mais escutar a voz de Erwin falando o quanto aquilo era absurdo e o tamanho do significado que qualquer descoberta a respeito do surgimento daqueles titãs para nós, a humanidade. Apoiei os cotovelos na mesa e esfreguei os olhos com os polegares. Eu já perdera a noção do tempo em que fiquei dentro daquela sala mal iluminada, lendo e relendo as palavras naqueles papeis; tanto que já as sabia de cor e salteado, inclusive de trás para frente. As empurrei da minha frente, soltando um suspiro e cruzando os braços.

– Erwin, você já falou isso uma vez – comecei –, duas vezes, três vezes. Eu não aguento mais escutar sua voz.

– Mas isso não tem sentido! – Ele berrou, jogando os braços para o alto. – Simplesmente não tem!

Hange, sentada em uma cadeira mais afastada, tinha uma expressão tão aterrorizante que, inconscientemente, tanto o comandante quanto eu decidimos manter distância. A mulher era louca e parecia à beira de um colapso enquanto escrevia freneticamente uma porção de cartas aos superiores com pedidos de mantimentos e equipamentos para sairmos em missão naquela região, isolando-a do resto da população com mais uma muralha para evitar qualquer contato dos titãs com os seres humanos que viviam na região. Seus olhos brilhavam por trás das lentes dos óculos e sua boca sussurrava todas as palavras que escrevia, produzindo um ruído que já deixara de incomodar nas três primeiras horas em que estivemos sentados ali dentro.

Smith colocou a mão no nariz, apertando os olhos e respirando profundamente. As marcas da exaustão eram visíveis em seu rosto severo, dando-lhe uma aparência anos mais velha do que era realmente. Puxou uma cadeira e sentou-se à minha frente como já fizera tantas vezes naquele dia e voltou a tomar os papéis amassados. Ele os folheou mais uma vez, os olhos correndo clinicamente entre as palavras, o pensamento tão furioso que era possível escutar as engrenagens de sua cabeça girando em busca de uma explicação.

Suspirei novamente, levantando-me se servindo mais um xícara de café para nós dois e coloquei a sua perto dos papeis, novamente largados na mesa. Apertei seus ombros levemente, sentindo toda a tensão ali concentrada e ele pareceu relaxar. No fundo, senti um pouco de pena de meu amigo. Ele era um homem muito novo e muito inteligente para definhar daquela forma. Tamanha responsabilidade nunca deveria ser delegada a uma pessoa só, mesmo que essa pessoa relutasse a dividi-la com os outros, como ele fazia comigo e com Zoe. Queríamos ajudar, mas seu altruísmo exagerado o impedia de aceitar o que fosse que tivéssemos a oferecer.

– Vamos nos deitar, Erwin – chamei, lançando um olhar assustado à Hange, que ainda estava absorta em suas cartas. – Dê um jeito na sua mulher, pois não me atrevo a chegar perto dela.

– Ela não é a minha mulher – ele cochichou, virando-se para mim com a expressão séria.

Dei de ombros.

– Como quiser – afastei-me em direção à porta. – Deveríamos colocar os demais soldados a par da situação, pois o que quer que aconteça, precisaremos deles.

Smith assentiu, olhando para Hange e levantando-se em direção a ela. Fechei a porta no momento em que escutei a mulher berrar e depois desculpar-se com Erwin. E então, silêncio.

Eles eram, de longe, o casal mais mentiroso e estranho que eu já vira.

E, quando pensei em casal, lembrei-me de Eren, e as palavras ecoaram em minha mente mais uma vez. Eu também o amo. Dentro do quartel da Tropa de Guarnição Erwin me proibira de dormir com Eren. Ele dizia que isso ainda nos daria um puto inquérito nas mãos e que, de início, seria melhor que apenas os nossos soldados soubessem por que nós só podíamos confiar nos nossos. Suspirei. Seria uma noite longa, com certeza.

Entrei no quarto simples que me deram, simples, porém confortável, e tirei as roupas. Eu passara tanto tempo com elas que imaginei que não sairiam mais do meu corpo. Os sapatos sociais que eu calçara para me encontrar com Eren causaram duas bolhas em meus pés, e a calça social me era tão estranha de usar quanto possível. Livrei-me de tudo aquilo, vesti um roupão e caminhei até o banheiro do andar para tomar um banho rápido antes de procurar o garoto para dar-lhe boa noite. Mas não foi preciso muito, encontrei o moleque sentado em um banco, debruçado sobre as pernas e, pela respiração ruidosa, pude dizer que estava adormecido ali já há algum tempo.

Alguns dos soldados da Guarnição iam e vinham de dentro do banheiro e nenhum deles se dignou a chamar Eren para a cama. Aquilo me enfureceu de uma forma tão intensa que não soube nem mesmo justificar o porquê de todo aquele nervosismo. Esperei que o último saísse do banheiro e ajoelhei-me na frente de Eren, levantando sua cabeça delicadamente e chamando pelo seu nome. Ele abriu os olhos, ainda meio sonolento, e os esfregou antes de me reconhecer.

– Ei… – ele bocejou.

– Vamos para cama, moleque – chamei, levantando-me e puxando suas mãos para que ele viesse comigo.

– Sim, vamos… – Eren tornou a bocejar.

Deixei o garoto na porta do dormitório masculino e olhei para os lados para me certificar de que não havia ninguém por ali e beijei sua testa, seu nariz, sua bochecha, seu pescoço e, por fim, seus lábios. A risada que saiu de dentro de seu peito fora tão espontânea que me deu um conforto maior do que qualquer noite de sono poderia. Acariciei sua cabeça antes de empurrá-lo para dentro, ainda cambaleante de sono.

– Boa noite – sussurrei, antes de fechar a porta.

Tomei um banho demorado, aproveitando-me da hospitalidade dos oficiais da muralha e pensei no novo problema que tínhamos à frente. Parecia que, a cada pequeno avanço que dávamos em direção ao conhecimento, à vitória, um novo desafio aparecia e nos tragava para trás, puxando-nos pelo dobro da distância que havíamos percorrido. Primeiro tínhamos mais um humano que se transformava em titã e depois titãs pipocando por aí, sem mais nem menos. Aonde será que vamos parar?, perguntou-me a voz em minha cabeça. Fechei os olhos apoiando as costas na parede, tentando buscar algumas respostas dentro de mim, apesar de saber que eu mesmo não tinha noção do que estava acontecendo.

Nenhum de nós tinha.

Passei aquela noite em claro, revisando mais uma vez as anotações de Erwin e Hange, recitando cada palavra à medida que lia, de tão familiar que já estava com elas. Algumas coisas ali também não faziam sentido, mas imaginei que o momento também não fosse o mais propício para escrever qualquer coisa. Um dos soldados que participara da operação fizera um desenho do monstro e era assustadora a forma com que o titã se projetava por cima da casa quebrada, o torso e cabeça gigantes, porém braços e pernas tão finos que não sustentavam seu peso. Que merda era aquela?

Minhas pernas e costas estavam rígidas quando me estiquei na cadeira. Eu podia jurar que meu corpo já tinha o formato da estrutura de madeira que me acomodara por toda a noite. Tratei meu joelho e tomei uns comprimidos, meu estômago vazio protestando quando os remédios chegaram junto com a água. Eu precisava urgentemente me alimentar – não havia comido nada desde o almoço com Eren no dia anterior, e isso já fazia muito tempo.

Troquei-me rapidamente, vestindo a jaqueta marrom da Exploração e ajeitando o lenço em seu lugar, puxando-o um pouco mais para cima, sentindo o perfume sutil de Eren me invadir. Eu já sentia falta do garoto e daquela risada que ele me dera antes de eu colocá-lo para dentro do dormitório. Uma saudade dolorida se abateu em meu peito, subindo pelos meus braços até a minha boca, pedindo por Eren de volta ao meu lado. Eu odiava sair do quartel se sair do quartel significaria sempre manter essa distância estúpida entre nós.

Prendi o DMT na cintura, apertando-o com força e saí de encontro aos soldados da Tropa de Exploração e um pequeno grupo da Guarnição que nos guiaria até a muralha Rose. Iríamos percorrer o perímetro da parede gigante e prestar algum suporte para os companheiros de militarismo. Querendo ou não, nossa tropa tinha mais experiência com os titãs, táticas e até mesmo formas de desviar do caminho dos monstros. Foram necessárias três carroças grandes para que todos os soldados de ambas as tropas se acomodassem, e Erwin, Hange, general Pixis e eu prosseguimos a cavalo, ao lado dos veículos.

Diversas vezes meu olhar cruzou o de Eren e, reunindo toda força que tinha dentro de mim, me limitei a cumprimentá-lo secamente com um bom dia, esperando que meus olhos falassem todo o resto por si só. Quando vi um sorriso rápido escapar de seus lábios no momento em que o garoto me respondera com um aceno de cabeça, entendi que havia compreendido meu recado.

– Capitão Levi – ele falou, abaixando a cabeça logo em seguida, mordendo o lábio inferior.

Moleque idiota, pensei. Estava fazendo aquilo de pura provocação, eu tinha certeza. Suspirei, mantendo os olhos à frente e evitando qualquer tipo de contato com ele até chegarmos ao pé da muralha, lançarmos os equipamentos para cima e subirmos naquele grande amontoado de concreto. A vista ali de cima era fantástica. Eu nunca me cansaria de olhar o horizonte se estender eternamente, como se não tivesse fim, lembrando-me da primeira vez em que estive ali com Isabel e Farlan, e o som da voz estridente da garota.

– Quem diria que pessoas do subsolo, que nunca nem haviam visto a luz do sol, estariam no topo da muralha? – perguntei para mim mesmo, repetindo as palavras da minha irmãzinha.

Céus, como eles faziam falta. Fechei os olhos e deixei um pouco de vento jogar minhas roupas para os lados. Ao meu lado, Eren cochichou de forma que só eu poderia escutar.

– Está se lembrando deles?

Concordei com a cabeça. Virei-me para ele e o vi de olhos fechados, igual eu estivera instantes atrás. Voltei a olhar para o horizonte, os braços cruzados na frente do peito.

– Também me lembro de Armim – Jaeger falou. – Ele gostava de subir aqui. Sempre fugia do treinamento para ver o sol nascer de cima da muralha. – O garoto fez uma pausa, limpando a garganta. – Era a única vez que fazia algo errado. Sinto a falta do meu melhor amigo.

– Eu também, Eren – falei.

– Queria poder contar a ele sobre nós – o moleque ainda cochichava. – Queria dizer a ele o quanto estou bem ao seu lado, Levi.

Coloquei a mão entre nós quando percebi que Eren se inclinava para mim, e aquele gesto me doeu por completo. Afastá-lo de mim era como arrancar um pedaço do meu corpo e jogá-lo aos titãs. Mas eu não podia deixar acontecer nada ali, não sob os olhos de tantos desconhecidos. A última coisa que minha tropa e eu precisávamos era de algum problema relacionado a mim e Eren. Erwin tinha razão.

– Aqui não, Jaeger – falei, permitindo que meus dedos roçassem em seu braço levemente.

Ele assentiu, mesmo com que tivesse assumido uma expressão carrancuda.

– Com a sua licença, capitão – o garoto bateu continência e virou-se para sair. Havia um quê de infantilidade no que ele falava e no modo com que saía de perto de mim.

– Não faça isso, Eren – falei alto o suficiente para que me escutasse enquanto se afastava. – Eu posso querer te aplicar um corretivo.

E, com toda a cara de pau do mundo, o moleque virou-se para mim, erguendo as sobrancelhas em descaso e deboche, sacudindo os ombros para cima e para baixo e voltando a me dar as costas, caminhando em direção a Jean, que acabara de subir a muralha. Meu rosto queimou de raiva.

– Está tudo bem, capitão? – perguntou o general Pixis se aproximando de mim.

Lancei-lhe meu pior olhar.

– Sim.

– Por que todo esse rubor? – sua voz tinha um tom sugestivo altamente irritante.

– O sol, velho – respondi, deixando-o de queixo caído para trás pela minha falta de educação quando me dirigi ao tenente da Tropa de Guarnição para demonstrar algumas anotações sobre os titãs junto com Erwin e Hange.

Minha cabeça fervilhava enquanto pensava no que faria com Eren quando voltássemos para que ele aprendesse a não se comportar daquela forma comigo.