EREN'S POV
Levi falava dormindo. Era engraçado, até. O capitão sempre franzia as sobrancelhas, mesmo enquanto mergulhado no sono profundo. Sua boca estava sempre entreaberta e vez ou outra ele chamava o meu nome, ou o de Isabel – quando o fazia seu rosto se contorcia em uma expressão de medo e dor e eu me adiantava para abraçá-lo. Como ele podia ser tão forte e ao mesmo tempo tão frágil? O soldado mais forte da humanidade tinha o sono mais conturbado que eu já vira e ainda assim, ao acordar, era todo energia e força, sempre tão disposto a fazer as tarefas e conferir mais tarefas a mim e aos outros.
Revirei-me na cama entre seus braços e continuei olhando seu rosto adormecido. Alguns sinais de cansaço e da idade já eram visíveis nas linhas que se formavam quando ele franzia a sobrancelhas, mas aquilo só fazia acentuar toda a beleza que ele tinha. Estiquei a ponta dos dedos e toquei sua face suavemente; eu não queria acordá-lo. Estava tão sereno, apesar de todo o sono agitado, e eu queria apenas me permitir vê-lo mais um pouco.
Tudo ali era surreal. Aquela casa, aquelas camas juntas, nossos corpos colados, a respiração de Levi batendo em meu rosto… o fato de nós estarmos juntos. Eu nunca imaginara, em toda a minha vida, que entraria para a tropa de exploração apenas para conhecer o homem que faria toda aquela bagunça de vida se organizar em simplicidades rotineiras como um treino, ou limpar um cômodo ou até mesmo dormir junto. Eu nunca imaginara que sentiria o coração pulsar novamente em meu peito, e nem que um dia diria a alguém que o amava depois que todos me foram tirados. E ali estava eu, deitado entre os braços e um homem com o dobro da minha idade, meu superior, o homem que me surrara e tomara a responsabilidade por mim, pensando o quanto ele era lindo em seu sono e mais lindo ainda quando acordado.
Ao pensamento, fui assomado de um ligeiro medo. O fato de o capitão ser mais velho que eu despertava todo tipo de temor futuro que eu poderia sentir. Logo ele poderia se cansar de mim, de toda a minha idade e inexperiência, poderia se cansar de acompanhar meu crescimento e me trocar por alguém mais velho que eu, com mais bagagem de vida e que pudesse acompanhá-lo à altura. Balancei a cabeça. Dentro de mim, eu queria ter a certeza de que ele não faria isso. Levi era o mais nobre dos homens que eu já conhecera e me envolvera, e tudo nele me inspirava uma confiança absurda, algo como se eu pudesse me lançar penhasco abaixo naquela relação, porque ele estaria lá para me segurar e aparar a minha queda. O capitão era aquela pessoa em que você poderia depositar todas as suas fichas, na qual você poderia acreditar piamente em cada palavra que saía de seus lábios finos, porque eram todas verdadeiras.
E era daí que vinha todo meu medo, em contrapartida da confiança. Se ele era realmente tão bom para mim, o que eu fizera para merecer todo aquele amor? Recapitulando tudo o que acontecera desde que ele me levara para a divisão, a única coisa que eu fizera por ele fora salvar sua vida das mãos de um titã. Desde aquela vez, tudo mudara. Levi começara a me tratar mais pessoalmente, conversar comigo. Ele até mesmo me levara uma vez, em seus braços, para meu quarto. Meu rosto corou quando me lembrei. Aquela fora uma noite estranha. Fora ali, naquele momento, que senti aquele gatilho disparar dentro de meu peito e descobri que além de toda a admiração que eu sentia pelo capitão, havia algo, lá no fundo, bem pequeno, que me impulsionava a ficar perto dele, aprender com ele, observar todas as coisas que fazia e tentar fazer igual. Havia algo que ultrapassava o limite que as nossas patentes nos impunha – era intenso, vivo, crescente.
Uma brisa fria entrou pela janela e meu corpo estremeceu. Ainda adormecido, o capitão fechou os braços mais fortemente à minha volta, apertando meu corpo mais um pouco junto ao seu. Temi que acordasse quando balbuciou alguma coisa como "moleque" e bocejou, mas ele logo voltou a ajeitar o queixo de encontro à minha cabeça, acomodando-se ali e voltando a dormir. Ele estava quente. Levi não era quente assim no começo. Ele era frio, totalmente frio. Suas palavras eram falsamente brandas e eu não conseguia decifrar quando estava falando com sentimentos ou não. Acho que todas as feridas de sua vida criaram uma cicatriz muito grande e grossa por cima de quem ele era realmente, e mostrar-se era algo fora de cogitação. Mas acredito que, em minhas tentativas de resgatar aquele homem à superfície, eu finalmente estava tendo algum sucesso. Levi era, finalmente, uma pessoa que se revelava e mostrava seus sentimentos.
Senti o coração inflar-se em meu peito quando pensei nas palavras que ele dissera quando estávamos no memorial, e o que ele fizera quando saímos naquele encontro. Minhas bochechas até mesmo coraram novamente quando me lembrei dos dias anteriores, quando ele me entregara a chave da cabana no meio da floresta, dizendo que era a minha casa. Se eu não podia confiar que aquilo era duradouro, no que mais eu haveria de poder acreditar?
– Ah, Levi… o que eu fiz para que você me trate dessa forma? – perguntei em um sussurro, aproveitando-me de seu sono.
Mas a mão do capitão me apertou por baixo do cobertor, e ele afastou o meu corpo do seu, olhando em meus olhos; os seus carregados daquela preguiça característica de quando acabamos de acordar.
– Você me acordou, moleque – ele respondeu, bocejando novamente.
– Desculpe – tentei sorrir, sabendo que meu rosto estaria corado além da conta. O capitão tinha aquela habilidade de me conferir vergonha em coisas simples, que eu não sabia o porquê estava sentindo; apenas sentia.
Seus lábios alcançaram minha testa e ele me beijou ali rapidamente. Seu nariz roçou em meus cabelos e senti que ele me cheirava, um costuma que vinha adquirindo de uns tempos para cá que era particularmente estranho, mas eu aprenderia a lidar com aquilo. Nossos lábios se tocaram quando ele inclinou a cabeça em minha direção, e sua língua entrou em minha boca sem nem pedir permissão, envolvendo-me em um beijo quente, seu gosto invadindo todo meu corpo instantaneamente. Os dedos de Levi haviam pousado em minhas costelas e me seguravam levemente enquanto ele virava meu corpo até que deitei de costas no colchão e ele se projetava acima de mim.
Eu ofegava profundamente quando nossos lábios se separaram. Abri os olhos apenas para encontrar o meu capitão olhando para mim, o corpo totalmente acima do meu, apoiado nos joelhos enquanto as mãos ainda seguravam meu corpo. Havia uma sombra de sorriso em seu rosto – ele também estava se habituando a sorrir mais vezes, e me permiti os créditos por isso. Levantei-me em sua direção e envolvi meus braços ao redor do seu pescoço, voltando a trazer seu rosto para o meu e o beijei novamente, sentando-me em seu colo.
Aquilo parecia tão certo para mim… o local, o beijo, nossos corpos tão juntos, a forma com que minhas pernas encaixavam-se na cintura de Levi e como ele me segurava, apertando vez ou outra meu torso, provocando aqueles arrepios involuntários. A única coisa que não pertencia àquele momento eram aquelas calças de flanela, que criavam uma barreira mesmo que pequena entre nós dois. Movi-me lentamente sobre seu quadril, entrelaçando meus dedos em seu cabelo e o puxando levemente, mas fui parado em poucos instantes.
– Eren… – ele negou com a cabeça. Ainda que o fizesse, entretanto, eu podia sentir a ereção que começava a despontar sob o tecido.
– Vamos lá, Levi – sussurrei, indo até seu pescoço e dando leves mordidas pelo caminho, meu corpo registrando todas as reações do dele. – É meu aniversário…
Ele voltou a negar com a cabeça, me tirando de seu colo com uma facilidade que me fez sentir que pesava menos que um papel. Sentou-me à sua frente e bagunçou meus cabelos.
– Eu sei. Mas precisamos voltar ao quartel – disse Levi, descendo até meu rosto e o segurando entre as duas mãos. – Infelizmente eu ainda sou o capitão.
Adiantei-me novamente para beijá-lo, mas minha boca encontrou sua bochecha no exato momento em que o capitão virou o rosto para desviar de mim. Ele sabia onde aquilo iria acabar e, apesar de demonstrar querer o contrário, se esforçava para me afastar.
– Vamos, moleque – chamou. – Vamos nos arrumar para voltarmos.
Continuei sentado na cama, envolto no cobertor, observando-o tirar a calça e vestir o uniforme. Era uma pena ter que acabar com aquilo. Aqueles três dias na cabana foram os melhores que eu tivera em muito tempo, tão bons quanto eu nunca pensei que voltaria a ter desde que minha vida sofrera aquela reviravolta de desgraças. Arrastei meus pés para fora do colchão e me levantei lentamente, esticando todo meu corpo para cima. Era dolorido voltar para a realidade, mas, de repente, ela me pareceu não ser tão cruel. Eu não estava mais sozinho.
Eu tinha os meus amigos e tinha também ao meu capitão. Aquele homem baixinho, forte e inteligente, carrancudo e com o maior coração de todo o mundo. E quando ele virou o rosto para trás e me lançou aquele meio sorriso de lado, eu tive certeza absoluta de que me amava, e eu também o amava com todas as forças que tinha dentro de meu corpo e meu espírito.
Antes de montarmos em nossos cavalos em direção ao quartel, Levi me puxou para seus braços e me apertou fortemente contra seu peito, cheirando meus cabelos novamente e beijando cada centímetro de meu rosto. Quando nossos olhos se encontraram, notei que os seus estavam mais brilhantes naquela manhã, e meu coração deu um salto quando ele falou.
– Feliz aniversário, Jaeger.
–––
LEVI'S POV
Entramos no prédio do quartel depois de deixarmos os cavalos nas baias do estábulo e devolvermos o material de limpeza que pegamos antes de partir ao seu lugar. Despedi-me de Eren com um rápido selar de lábios e me dirigi até a sala de reunião. Mike me recebera com o semblante apreensivo e me dissera que Erwin e Hange estavam de volta, acompanhados de Pixis, e que precisavam de uma reunião de urgência. Dirigimos-nos para a sala a passos rápidos e em silêncio e um incômodo se instalou na boca de meu estômago. Era claro que algo haveria de ter acontecido. As coisas não podiam simplesmente estar boas daquela forma sem que algo acontecesse.
Atravessamos a porta de madeira escura e encontramos um trio de pessoas abatidas, magras e de olheiras profundas. Erwin estava de pé, encarando a janela tão imóvel quanto uma estátua, Hange havia tirado os óculos, deixando-os sobre a mesa e coçando os olhos. Pixis era o único que aparentava estar calmo, sentado bebericando uma xícara de café. Quando fechamos a porta atrás de nós, os três olharam em nossa direção e Erwin, com o olhar, mandou que nos sentássemos. Puxei uma cadeira e me servi de um pouco de chá também, aguardando. Mike, entretanto, permaneceu de pé, os braços cruzados em frente ao peito e os olhos apertados na direção do general da Tropa de Guarnição, desconfiado. Suas narinas se dilatavam e contraíam freneticamente e, pela expressão de seu rosto, eu podia ter certeza de que ele não gostava do homem.
O comandante deu um último suspiro, lançando um olhar de esguela para Zoe, que se limitou a assentir com a cabeça. Caminhou até a minha direção e colocou a mão em meus ombros, transmitindo por aquele toque toda a preocupação que sentia, abatendo meu próprio corpo com algo que eu não saberia dizer o que era. O homem tirou um papel de dentro do bolso da jaqueta e o estendeu à minha frente. A primeira coisa que meus olhos identificaram fora o selo real no topo, seguido pelo nome do rei e, logo abaixo, palavras contínuas, que seguiam até o final da folha e davam a entender que ainda prosseguiriam até o outro lado.
Levantei o rosto e encontrei os olhos sobrecarregados de meu melhor amigo.
– O que é isso, Erwin? – Perguntei antes mesmo de ler o conteúdo.
– É uma carta real – respondeu Pixis, adiantando-se. – O rei demanda todos os líderes de esquadrão, comandantes, capitães e tenentes das tropas de Guarnição e Exploração que se apresentem na capital dentro de uma semana.
– Para?
– Averiguação de resultados – falou Hange. Pela primeira vez, sua voz não estava carregada daquela loucura que lhe era característica. Ela parecia cansada, amedrontada. – Querem relatórios sobre o desempenho de Eren.
Assenti.
– Entendo. Mas por que precisam de todos nós? – Apontei para o general. – Por que eles precisam ir também?
– A Polícia Militar teme que estejamos efetuando experimentos secretos dentro de ambos os quartéis – falou Dot. – Para tirá-los do poder.
Uma risada se formou em meu peito e precisei lutar para segurá-la dentro de mim. Aquilo era absurdo. Mal tínhamos tempo para lamentarmos nossos mortos e eles ainda achavam que fazíamos experimentos?
– Como? – perguntei, empertigando-me na cadeira. – Isso é ridículo…
– Eu sei que é ridículo, Levi – falou Erwin finalmente, ainda parado ao meu lado. – Mas o tempo que passamos em Trost nos foi muito útil para coletarmos informações e essa caiu de surpresa em nosso colo.
– Vinda de quem?
– Da própria Polícia. Essa carta foi entregue por Nile em pessoa.
Levantei-me, exasperado.
– Mas isso não tem lógica – falei, levantando os braços. – Quem vai ficar com os soldados? E as missões? Estamos sendo solicitados dia sim, dia não, porque algum titã miraculoso brota em um local fechado! Mal temos tempo de recuperar-nos antes de voltarmos à batalha! E agora querem descentralizar o poder dentro da nossa tropa para reuniõezinhas dentro da capital? Isso é uma cilada! Estão nos encurralando como ratos no canto da parede!
– E você acha que eu não sei? – Bradou Erwin. – Você acha que eu não pensei na mesma coisa? Eles estavam apenas esperando uma mínima chance de nos jogar contra a parede, de se infiltrarem em nosso meio e, adivinha só, Levi, eles conseguiram!
– Mas como?
Àquela altura, ambas nossas vozes já haviam se elevado, e eu podia sentir minha garganta começar a arranhar pelos gritos. Erwin e eu estávamos de pé, um de frente para o outro, e nos encarávamos de tal forma que eu sentia as faíscas à nossa volta. Sua boca se contraía em uma linha fina enquanto ele demorava para falar, o peito subindo e levantando violentamente ofegante.
– Hein? – Perguntei novamente. – O que eles conseguiram, Smith?
A mão gigante do comandante se esticou até a mesa e agarrou a carta rudemente, entregando-a em minhas mãos em uma ordem silenciosa de que eu deveria ler o que estava escrito. Comprimi os olhos e os abaixei para o papel que me fora recém entregue e comecei a ler as linhas que se desenhavam por ali. E, à medida que lia, meus olhos se arregalaram e o coração pareceu congelar em meu peito.
– Mas que merda é essa? – Minha voz não passava de um sussurro.
Erwin apenas concordou com a cabeça, passando as mãos pelos cabelos e, finalmente, sentando-se ao lado de Hange. Permaneci de pé por alguns instantes antes de dobrar a carta e enfiá-la em meu próprio bolso, pisar forte e me dirigir à porta.
– Aonde você vai? – Perguntou Pixis. – Você é o principal culpado disso e…
Virei-me para o velho e lancei-lhe meu pior olhar.
– Você está dentro do meu quartel, velho, e eu vou aonde eu bem entender! – Brandi a mão em sua frente, pronto para acertar-lhe se preciso fosse. Que raiva era aquela dentro de mim? Acalme-se, Levi, disse-me a voz de Isabel em minha cabeça. Só acalme-se.
Voltei a me dirigir para a porta, saindo em meio aos protestos de Dot e Erwin, que me chamavam para dentro novamente. Minhas botas produziram um som pesado enquanto pisei em direção ao meu quarto no segundo andar, tão puto da vida que poderia matar qualquer um que cruzasse meu caminho. As palavras da carta dobrada em meu bolso se faziam ler em todo canto que eu virava, impressas nas paredes, no chão, na sombra das tochas.
"Recebemos os relatórios de nossos policiais em guarda na cidade de Trost, muralha Rose, e nos foi notificado que o atual capitão e líder de esquadrão da Tropa de Exploração, Levi – nome único –, e o então soldado Eren Jaeger, recolhido à divisão em questão, possuem relacionamento interpessoal entre os referidos, o que viola a emenda V da legislação militar regente das tropas e divisões responsáveis pela guarda e regimento das muralhas no que diz respeito às relações extracurriculares."
Meu sangue pulsava nas têmporas. Aquilo não tinha cabimento. Eren e eu não fizemos nada quando estávamos fora do quartel da tropa de Exploração. Nós apenas fomos a um encontro, e eu nem o tocara naquele dia, nada que fosse lá aquelas coisas. Poderia ter passado simplesmente como o relacionamento comum entre um capitão e seu soldado, ainda mais que o capitão em questão tivesse pegado esse soldado como discípulo. Aquilo deveria ser normal. Erwin havia deixado claro antes de partirmos para a cidade que deveríamos se discretos e Eren e eu havíamos concordado com aquilo.
"Visto os atuais fatos, faz-se necessária a averiguação dos resultados prometidos pela Tropa de Exploração no que concerne o treinamento do soldado Jaeger e o desenvolvimento de suas 'habilidades de titã', uma vez que ainda não foi apresentado ao rei nenhum relatório a respeito."
Abri a porta com o pé, provocando um estrondo no corredor vazio e entrei em meu quarto enfurecido finalmente liberando aquele esgar de fúria que reprimi em meu peito por todo o trajeto. Deixei toda a raiva daquela situação se apossar de mim e virei a mesa com as mãos. A besta dentro de mim apossando-se de meu corpo e destruindo tudo à minha volta. Meus olhos pulsavam nas órbitas quando o último parágrafo enquanto eu pisava nas xícaras que haviam caído no chão e as chutava para longe, os cacos se espalhando pela parede, ricocheteando nelas e voltando a cair.
Arranquei o papel do bolso e me larguei sentado na cama enquanto voltava a ler aquelas últimas linhas ridículas e pensando no que eu diria a Eren. Eu realmente estava perdido naquele momento. O garoto não iria querer mais problemas para si, ainda mais com a capital envolvida e aquele seria o fim para nós, eu tinha certeza absoluta. Pensei em Erwin e tudo o que fizera para nos ajudar e ajudar a esconder nosso relacionamento, todo apoio que o comandante nos dera, indo ralo abaixo naquele momento.
"Solicita-se a presença do dito capitão e seu comandante responsável, juntamente com os demais líderes da Tropa de Exploração, para apresentarem-se ao conselho do rei dentro de sete dias, em razão de responderem ao inquérito por negligência de tarefas, desvio de verbas para atividades fora do quartel que não dizem respeito às pesquisas, coerção de menor, aliciamento de menor, abuso de autoridade e relação ilegal. O descumprimento desta ordem acarretará na prisão dos referidos até o final do inquérito."
Eu perderia Eren, meu posto, minha liberdade, minha vida.
O que eu faria?
–––
Desci as escadas lentamente. Evitei todos que tentavam me parar para o que quer que fosse e me dirigi até o refeitório. Eu não estava com fome, nem um pouco, mas precisava me alimentar. E também era o aniversário de Eren, de qualquer forma. Ele havia escolhido permanecer no quartel, e eu escutara uma conversa paralela de que Sasha e seus outros amigos do 104º haviam preparado uma refeição para o garoto. Feliz ou não, eu deveria estar lá para ele, afinal era um dia importante e, como uma das últimas coisas que eu poderia fazer para ele, eu tinha que garantir sua felicidade até pelo menos o final da noite.
Não pense isso, Levi, me repreendeu a voz em minha mente. Não é o fim do mundo.
Era sim. Eu estava prestes a perder Eren para um problema que eu mesmo causara e não havia nada que pudesse fazer a respeito. Apenas me afastar para que não o afetasse mais. À chance de ter o garoto tirado da nossa divisão, além de perdermos todo o esforço que fizemos até ali para garantir-lhe o melhor treinamento, e entregá-lo à polícia militar que planejava estudá-lo como um animal, meu corpo inteiro estremeceu. Céus, nós já não tínhamos problemas o suficiente para lidar? Eren poderia ser levado para longe de mim e eu nunca mais o veria.
Entrei no refeitório e encontrei algumas faixas penduradas no teto, as luzes cobertas por vidros coloridos lançando cores vivas nas paredes e um grupo de soldados novos amontoados em uma mesa, conversando animadamente. Havia um bolo no meio da mesa, simples de chocolate com aquelas folhas de hortelã em volta, parecido com a torta que comemos no restaurante. Ao me ver, Eren levantou o braço e acenou, as bochechas coradas e um sorriso que ia de orelha à orelha. Ele me chamou com a mão.
Suspirei, enfiando as mãos nos bolsos e, pela primeira vez, não fui recebido com apreensão pelos soldados. Todos abriram passagem para mim, mas sorriam, sem timidez ou medo, e Connie até mesmo puxou uma cadeira para que eu me sentasse ao lado de Eren. Eles continuaram a conversar entre eles enquanto eu me sentia um velho deslocado em meio a toda aquela juventude. E, por mais que a aura ali fosse a mais feliz possível, meu espírito não conseguiu se aquietar. Era como se houvesse um relógio dentro de mim, tiquetaqueando os segundos para que aquilo se acabasse.
– Está tudo bem? – Perguntou Eren, olhando em meus olhos.
Assenti, forçando um sorrisinho, servindo-me de um pouco do líquido que havia na jarra à nossa frente. O engoli todo de um gole só, limpando os lábios com um guardanapo de pano que encontrei sobre a mesa. Senti a mão de Eren procurar a minha por baixo da mesa e me permiti segurar seus dedos um pouco; estavam quentes e suados, inquietos. O garoto traçava desenhos aleatórios em minha mão, ainda conversando com seus amigos. Eu apenas respondia algo ininteligível vez ou outra, maneando a cabeça e tentando sorrir de volta. Até mesmo Mikasa olhava para mim com simpatia.
Toda aquela comemoração passou em um flash para mim. Vi o bolo ser cortado em meio a uma canção de aniversário, comi um pedaço e me vi servindo Eren de uma garfada direto na boca quando Sasha, em toda sua empolgação, envolveu nossos corpos com uma das faixas que estava no teto. O garoto sorria o tempo inteiro, mas seus olhos não paravam de me esquadrinhar, buscando qualquer indício do que pudesse estar errado. Ele me conhecia e sabia que eu estava escondendo alguma coisa. Abaixei a cabeça e deixei o resto do tempo correr até que todos acenassem e subissem para os dormitórios.
Já era madrugada quando nos levantamos da mesa, apenas Eren e eu, e de forma inconsciente, comecei a limpar a bagunça que havia sido deixada. Eu retirava os copos sujos quando a mão do garoto se fechou em meu pulso. Parei o que estava fazendo na metade e olhei em seu rosto. As sobrancelhas estavam franzidas e sua expressão pedia em silêncio para que eu falasse com ele, que contasse o que estava acontecendo. Suspirei e dei de ombros, olhando para qualquer lugar, menos para ele. Senti-o puxando-me de volta para a mesa e sentando-se ao meu lado.
– Levi, o que há? – Ele perguntou, retirando de si alguns enfeites que os amigos colocaram durante a noite.
Dei de ombros. O que eu diria? Eu poderia contar a ele toda a verdade, contar-lhe sobre a carta e sobre o inquérito, sobre meus medos e tudo o mais, ou então poderia apenas terminar ali aquele relacionamento, evitando mais problemas para ele, mais dores de cabeça e apenas guardando a verdade para mim e os outros. Não havia por que envolver o moleque naquilo tudo se eu simplesmente poderia resguardá-lo. O pensamento de me destacar para a divisão da tropa de Exploração que vivia do outro lado da muralha Rose passou pela minha cabeça, e aquilo pareceu o certo a se fazer. Assim nenhum de nós teria suas vidas tão afetadas assim.
Só não teríamos mais um ao outro. Mas, se fossemos seguir o plano inicial, nós nunca teríamos, de qualquer forma.
– Levi, por que você está chorando? – Falou Eren, os dedos alcançando meus olhos e limpando algumas lágrimas que escorreram pelo meu rosto sem que eu visse.
Afastei suas mãos e as segurei entre as minhas, sobre meu colo. O coração pulsava em minha garganta, impedindo o ar de entrar em meu corpo e as palavras de saírem. O que eu deveria dizer a ele?
Diga a verdade, irmão, disse-me Isabel.
– Eren, eu… – pigarreei. Respirei fundo e fechei os olhos. – Eren, nós precisamos ter-
– Você está terminando comigo, Levi? – a voz de Eren era carregada de surpresa e desespero.
Abri os olhos para encontrar os seus arregalados, verdes e vibrantes, gritando para que eu dissesse algo. Apertei ainda mais a suas mãos entre as minhas, tentando buscar a voz dentro de mim. Isabel dizia coisas dentro de mim mente, e as vozes de Pixis e Erwin faziam coro a ela, cada uma falando algo diferente, e então, vi novamente as palavras daquela carta impressas nas linhas que se formavam no rosto do moleque.
E quando a primeira lágrima escorreu de seus olhos, em um aperto forte de meu coração, eu vi que não poderia mentir para ele.
– Estou sendo solicitado na capital – comecei, engolindo em seco. – Erwin, Hange, Mike e eu, em conjunto com alguns outros da Guarnição. – O conselho quer alguma coisa conosco a respeito de resultados, principalmente seus.
Ele assentiu, sem dar sinais de que iria me interromper. Prossegui.
– E há um inquérito… – nesse momento minha voz falhou. Eu não deveria despejar aquilo sobre ele, mas algo dentro de mim simplesmente me impedia de mentir para Eren. Ele era a minha vida naquele momento e seria como traí-lo se eu omitisse o que quer que fosse. – Veja, não é sua culpa, nunca fora, nunca será, você precisa entender isso. Por favor, não pense que você é responsável por algo, porque você não é, a culpa e a escolha foram minhas e eu trouxe isso para nós…
– Vá direto ao ponto – ele pediu, a voz mais firme que a minha estivera.
– O conselho instaurou um inquérito de averiguação do nosso… da nossa relação. – Falei, por fim. – O que temos é ilegal, Eren, e estivemos correndo um risco enorme. E agora eles sabem.
Prendi o ar dentro de mim enquanto procurava qualquer indício de que ele soltaria minhas mãos e sairia dali rapidamente, deixando-me finalmente para trás com meu processo, para que eu lidasse com as consequências do que estávamos fazendo – o que eu faria de bom grado se fosse para protegê-lo. Mas, pelo contrário, algumas lágrimas voltaram a escorrer dos meus olhos verdes e alguns soluços fizeram seu corpo subir e descer violentamente, até que Eren puxou um pouco de oxigênio para dentro dos pulmões e fixou o olhar no meu. Seus dedos se entrelaçaram nos meus.
– Me perdoe por todo esse problema – comecei. – Eu não queria que ninguém se metesse em nosso meio, não queria que houvesse um inquérito e não queria me afastar de você, garoto.
– Você não tem que pedir desculpas por nada, capitão – ele falou.
– Sim, Jaeger, eu tenho. Eu o envolvi nisso e agora…
– Cale-se – ele falou. Quando ele começara a falar comigo desta forma? – Você não me envolveu em nada, Levi.
– Tanto envolvi que agora corro o risco de perdê-lo para a Polícia Militar.
Um silêncio denso se instalou entre nós. Era como se o ar respirável estivesse sendo sugado de nós lentamente. Vi o rosto de Eren fungar, se contorcer enquanto reprimia o choro mais um pouco e sua boca se curvou em um sorriso. Como ele consegue sorrir?
– Esse não é o melhor presente de aniversário – ele começou, forçando um tom brincalhão na voz.
– Isso não é brincadeira, moleque – o cortei. – É algo sério. Não diz respeito somente a nós dois, mas a toda a nossa tropa.
– Eu sei – respondeu. – Mas é irônico para caralho, sabe? Ontem estávamos bem, em nossa casa e hoje você quer terminar comigo…
– Eu não quero, eu preciso. Eu tenho que protegê-lo, garoto.
– Você não tem que me proteger – ele bradou, a voz repentinamente alta. – Eu não vou quebrar, Levi. Eu sou forte, eu aprendi a ser forte com você e agora você quer me deixar para me proteger? Qual o sentido nisso tudo?
– Não há sentido, Jaeger, você não entende? – Levantei-me da cadeira, exasperado, levando as mãos até o cabelo e dando uma volta pela mesa. – Eu não posso deixar você ser levado de mim!
A próxima coisa que vi foi o garoto se aproximando de mim e tomando as minhas mãos, forçando-as para baixo, inclinando-se em minha direção e arrebatando meus lábios em um beijo apaixonado carregado de significado. Nossos olhos se mantiveram conectados, abertos, o tempo inteiro, até que, por fim, sem ar, ele me soltou e eu o envolvi pela cintura em um abraço desesperado. Eu não poderia perder aquele toque, aquele corpo em minhas mãos, aquela paz que parecia nos envolver como uma casca. Eu não poderia deixar aquela casca se quebrar.
– O que eu vou fazer, garoto? – Senti que eu começava a chorar naquele momento, as lágrimas queimando meu rosto como ácido à medida que desciam pelas minhas bochechas. Cheirei os cabelos de Eren como se fossem uma droga e deixei que seu cheiro inundasse todo meu corpo que pedia por um pouco de tranquilidade. – Eu o amo tanto que dói em mim somente a possibilidade de perdê-lo para o que quer que seja!
– Levi, eu o amo também, amo tanto que você nunca vai conseguir entender – aquelas palavras me atingiram em cheio.
– Eu temo que você me deixe – falei, por fim, sendo o mais sincero que eu poderia ser. – Eu tenho medo que você se canse de mim, que você se sinta jovem demais para acompanhar esse velho inválido que eu estou me tornando. Tenho medo que você descubra que não precisa passar por todo esse problema por estar comigo. Eu tenho medo…
– Eu não tenho medo, Levi – ele disse. – Você também não deveria. Confie em mim.
Levantei meus olhos em direção aos seus e os encontrei me encarando com toda aquela ternura que fez com que eu me sentisse uma criança desamparada.
– Aconteça o que acontecer – ele começou, voltando a inclinar-se em minha direção –, eu não vou sair do seu lado. Eu o amo, capitão. E não é um inquérito aqui, ou um problema ali, que me farão desistir de você.
O sorriso que estampou seus lábios me transmitiu uma pequena segurança, e a voz de Isabel em minha cabeça me dizia que tudo ficaria bem. Ficaria mesmo? Naquele momento eu não era o soldado mais forte da humanidade. Eu era apenas um homem velho, com medo do futuro e pelo futuro, tanto meu quanto dos meus amigos e do meu companheiro.
