Bom dia, melhores leitores do mundo! :)

Tudo bom?

Então, segue para vocês o capítulo 16. Esse capítulo já estava pronto desde quinta-feira, mas como eu estava sem computador, só consegui postar hoje... desculpas! Aproveitei para ir para a casa da minha mãe, descansar um pouquinho (só tentei, porque ainda tive que dar um curso no sábado D:) e acabei contraindo uma gripe do inferno. :(

De qualquer forma, hoje mais tarde tem mais uma Carta de Mil Palavras e espero que até no final da semana eu já tenha outro capítulo de Semelhante para dar a vocês.

Um super beijo e uma ótima semana!

P.S.: Notas finais com observações! :)

LEVI'S POV

Os dias seguintes se passaram como se o inferno houvesse se instalado dentro do quartel general. Hange parecia cada vez mais paranoica, andando de um lado para o outro falando sozinha, não ia aos treinamentos e vivia imersa em uma pilha de papeis que, se tivessem vontade própria, correriam dela. Erwin também estava pilhado, mas conseguia disfarçar muito bem. Chamava-me todos os dias para uma luta que eu aceitava de bom grado e, mais de uma vez, precisamos ser separados por Mike, que aparecia por trás de nós e, com suas mãos gigantes, e nos levantava como se fôssemos sacos de areia.

No final do sexto, às vésperas de partirmos para a capital, eu já estava cheio de hematomas e um olho roxo, mas sentindo-me muito mais leve por ter descontado em meu melhor amigo toda aquela raiva que havia se concentrado em meu peito desde que eu lera aquela carta maldita. Eu estava em meu quarto, dobrando algumas roupas, quando Eren entrou sem bater. O garoto encostou-se na porta e ficou me olhando até que eu o percebesse ali.

– Olá – falei, levantando os olhos e parando o que estava fazendo.

– Ei…

Assenti para ele sem saber o porquê de ter feito aquilo e voltei às minhas roupas. Senti os braços compridos de Eren me envolverem e me permiti parar um instante, aproveitando aquele momento que, se eu não estivesse errado, não aconteceria por algum tempo. Joguei a cabeça para trás e a encostei em seu peito, olhando em seus olhos por baixo. A diferença de altura entre nós estava cada vez mais acentuada à medida que o garoto crescia, mas eu já deixara de me importar com aquilo. Se eu tinha que aceitar que ele ainda estava em fase de crescimento, precisava me acostumar que ele ainda ficaria muito maior do que já era. No final, eu seria apenas o minúsculo velho encarquilhado ao seu lado, de qualquer forma.

– Eu não quero que você vá, Levi – ele falou, apoiando o queixo em minha testa.

Larguei a camisa que estava em minha mão e coloquei meus braços sobre os seus. Ele estava quente – eu sentiria falta daquilo também. Suspirei, fechando os olhos e pensando no que diria a ele. Eu nunca fora muito bom com despedidas, até porque todas as vezes em que eu dava adeus para alguém era sempre de forma definitiva. Só o pensamento fez meu coração disparar dentro do peito.

– Eu também não quero ir, garoto – falei por fim, soltando outro suspiro. – Serão longos dias, eu sei. Eu sentirei a sua falta.

– Hm-hm – ele respondeu, concordando comigo. Virou-me em seus braços e abriu meus olhos entre seus dedos. – Olhe para mim, capitão.

– Hm – resmunguei, abrindo os olhos. – Me desculpe, Eren – pedi novamente, sentindo uma ligeira pontada de dor no olho que estava machucado. – Me desculpe por toda essa merda.

– Eu já disse que você não precisa se desculpar, Levi. Foi uma escolha, certo? Eu escolhi, e você também.

Levantei meus pés e o beijei rapidamente. Seus lábios estavam secos e ligeiramente rachados, mas ainda assim eram calorosos e convidativos. Eu sabia que tinha pouco tempo até os soldados da Polícia chegarem para assumirem nossos lugares, mas eu precisava ter Eren uma última vez antes de partir. Investi contra ele, ignorando a dor dos hematomas espalhados pelo meu corpo e o joguei de costas na cama. Puxei sua calça e suas botas de uma só vez; inclinei-me e beijei suas pernas, suas coxas, beijei o volume em sua cueca e seu tórax, sentindo o gosto do suor que ainda estava ali.

As mãos de Eren alcançaram meus cabelos e os apertaram com força, provocando aquela dorzinha que era tudo, menos incômoda, e me vi descendo novamente em direção à sua roupa de baixo e a tirei, meus dedos trabalhando habilidosamente em conjunto com a minha mente, que me lançava àqueles arrepios à medida que o moleque entrelaçava seus dedos ainda mais em meus cabelos e soltava pequenos suspiros, as costas arqueando-se cada vez mais enquanto eu me aproximava de seu membro.

Segurei seu quadril em minhas mãos e o guiei em direção à minha boca, passando a língua pela extremidade de seu pênis e escutando o primeiro gemido mais alto de Jaeger quando o fiz. Delineei o formato de seu membro com a minha língua por um tempo, ele se retorcendo em minhas mãos e, por fim, quando o abocanhei, deslizando os lábios para cima e para baixo, escutei o garoto gemer meu nome alto, diversas vezes. Àquela altura, a minha própria ereção já estava dolorida contra o tecido de minha calça, e meu próprio corpo reagia inconscientemente junto com o garoto.

– Ah… Levi… – ele chamou por mim, as mãos segurando-se ao lençol com tanta força que os nós de seus dedos ficaram brancos. Suas costas se levantavam violentamente, o rosto corado e os olhos apertados.

Céus, como ele era lindo. E era completamente meu, e se estava sentindo todo aquele prazer, era porque eu o estava dando, e aquilo fez com que eu me sentisse o homem mais sortudo da face da terra. Aqueles momentos em que nos conectávamos iam além do físico e do carnal, era como se nossos espíritos se unissem sobre nós, nos tornando uma pessoa só, um corpo, um coração. Aumentei a intensidade dos movimentos com a boca, deslizando as mãos por baixo de sua camisa, sentindo sua pele se arrepiar ao meu toque e, antes mesmo que eu pudesse ver, Eren derramava-se completamente em meus lábios, um último esgar de prazer escorrendo pelos seus lábios enquanto voltava a deitar as costas na cama.

Limpei o rosto com as costas das mãos e subi lentamente pelo seu corpo, beijando todos os pedaços de pele ao meu alcance até me largar ao seu lado, somente o rosto virado em sua direção. Eren ofegava com um sorriso largo estampado nos lábios e, após alguns minutos de olhos fechados, ele se virou para mim, sorrindo ainda mais abertamente, completamente corado, as bochechas tão vermelhas que pareciam a ponto de explodir. Aqueles olhos verdes lindos brilhavam à luz do sol que entrava pelas frestas abertas da cortina dando-me a paz que só eles conseguiam.

Deslizei dois dedos pela sua face, correndo da bochecha até o seu queixo, sentido o toque arder em minhas mãos. Seria a saudade já batendo em mim?, me perguntei, sabendo que a resposta era positiva de qualquer forma. Apesar de já ter aprendido a sentir falta dos mortos, eu ainda não havia aprendido a ter saudade dos vivos, e não sabia como lidar com aquilo. Era diferente. Saber que a pessoa ainda estaria lá, viva, vivendo sua vida, longe de você, ainda era um peso tão esmagador quanto ter a consciência de que nunca mais veria aquele alguém especial.

Eren levantou a cabeça quando estiquei meu braço em sua direção e deitou-se sobre ele, o corpo virado em minha direção, se acomodando na volta de meu pescoço e a mão repousando suavemente sobre meu peito. Cheirei seus cabelos e beijei o topo de sua cabeça, aconchegando-o em mim e passando o outro braço em sua cintura, puxando-o para mais perto. Suspirei, deixando todo seu perfume invadir minhas narinas e ficar registrado em minha memória olfativa. Aquela seria a lembrança dele que eu teria que levar por todos os dias em que estivéssemos longe um do outro.

– Eu te amo, Eren – falei rompendo o silêncio que havia se instalado entre nós. – Muito.

Ele assentiu, os cabelos roçando em meu pescoço e provocando cócegas. Ele depositou um beijo em meu ombro e virou-se, apoiando-se nos cotovelos. O sol ainda brilhava em seus olhos, as bochechas ainda coradas e o sorriso aos poucos diminuindo até uma linha fina que contornava seus lábios rosados.

– Eu também te amo, capitão. – Sua boca alcançou a minha em um beijo demorado e apaixonado, nossos olhos mais uma vez abertos, presos uns nos outros. – Volte para mim logo.

Concordei e devolvi-lhe aquele beijo que, além de acalentar meu espírito, despertou uma pontada de apreensão em meu peito. Por que aquilo se parecia com uma despedida de fato?

Continuamos na cama por um tempo, conversando sobre o quartel, e passei todas as recomendações possíveis para o garoto, pedindo mais de uma vez que se cuidasse e que respeitasse os líderes que a capital mandaria. A última coisa que nós precisávamos naquele momento era de mais algum tipo de problema, ainda mais se envolvesse a Polícia Militar. Eren me contou algumas coisas sobre seus amigos, sobre Mikasa e a forma que ela vinha tratando-o desde que voltaram a conversar, e me disse que a garota estava se aproximando de Jean cada vez mais. Notei uma pontada de ciúme em sua voz, e tentei disfarçar o próprio ciúme que despontou em mim. Eu não seria aquele tipo de namorado que se sentia daquela forma por causa da irmã do garoto.

Namorado… eu nunca pedira a ele para que fosse o meu, apesar de achar que, depois de tanto tempo juntos, não fosse necessário pedir. Nos amávamos, certo? Aquilo já era o suficiente para selar qualquer compromisso. Pelo menos era isso que eu pensava.

– E eu acho que Connie e Sasha estão… – ele ainda falava, o rosto apoiado em uma mão, enquanto a outra mexia nos cabelos que caíam em meu rosto.

– Eren, namore comigo – o interrompi, vendo seus olhos arregalarem-se, dobrando de tamanho.

Sua boca ainda se abriu e fechou algumas vezes, uma gota de suor escorrendo pelo seu pescoço e o lábio inferior tremendo ligeiramente.

– Mas nós já…

– Namore comigo – repeti, sério, sentando-me na cama e passando a mão pela testa. – Oficialmente. Seja meu.

O rosto de Eren ficou subitamente vermelho. O garoto se esforçou para sentar ao meu lado e foi se encaixando lentamente no meio de minhas pernas, virado para mim.

– Mas eu já sou seu, Levi – ele falou, pegando meus braços e passando-os pela sua cintura.

– Eu disse oficialmente, Jaeger. Quero dizer em frente à corte que você é meu namorado.

Ele voltou a corar.

– Você não precisa pedir a minha permissão para isso… – sua boca se apertou em um bico.

– Eu sei que não. – Rebati, olhando dentro de seus olhos. – Mas eu gostaria de escutar de você se você aceita ser o meu namorado.

Tomou um grande esforço dizer aquelas palavras. Eu ainda me sentia um adolescente declarando-se para o namoradinho da escola, e aquilo não era nada confortável. Como eu pudera chegar até aquela idade e nunca ter feito nada desse tipo? O que eu faço se ele disser que não?

– Sim – respondeu Eren, por fim. – Eu sou seu namorado, capitão.

Permiti a mim mesmo um suspiro de alívio. Por que aquilo parecia tão complicado?

– Obrigado… – falei. Eu não sabia que tipo de palavras eu deveria dizer para aquela resposta, mas sabia que também não poderia ficar em silêncio.

Eren riu daquele jeito inocente, e me puxou para um beijo rápido. A empolgação que ele transpirava era palpável; eu poderia esticar as mãos e agarrá-la se quisesse. Mas preferi puxá-lo pela gola da camisa e colar nossas testas, deixando a sua respiração mesclar-se com a minha, procurando tirar dela toda a força que eu precisava ter por mim, por nós e pelos outros. Acariciei seu rosto, seu pescoço, seus braços e suas costas uma última vez antes de me levantar, puxando-o junto de mim para o banheiro. Precisávamos estar prontos para a chegada da Polícia, e, pelas contas de Erwin, eles chegariam ao por do sol.

Tomamos um banho rápido e antes que Eren a pegasse, tomei sua camisa de mangas compridas e a vesti por baixo de minha jaqueta marrom da Tropa. A ajeitei em frente ao espelho, enfiando a barra para dentro da calça para disfarçar um pouco o tanto de tecido que ficou sobrando. Os braços de Eren esticaram-se por trás de mim, descendo até a gola da camisa e arrumando os cordões que havia na altura do pescoço, deixando o par de pontas para baixo da mesma forma com que usava. Virei-me para ele, esboçando um sorriso – meu rosto ainda se contraía um pouco quando eu o fazia, mas já me era menos estranho do que fora anteriormente – e calcei as botas.

Puxei o garoto para meus braços antes de sairmos do quarto e dei-lhe mais um beijo. Aquele seria realmente o último antes da minha viagem. Eu não poderia nem mesmo passar a noite com ele. Erwin me proibira de vacilar enquanto estivéssemos com as visitas.

– Vamos, garoto.

– Sim, capitão! – Ele bradou e saiu ao meu encalço, passando as mãos pelos cabelos e esperando-me no final do corredor, enquanto eu ainda trancava a porta e guardava a chave em meu bolso.

–––

Já era quase noite quando chegou a caravana da capital. Cinco soldados, três homens e duas mulheres. Todos com caras feias para todos nós, nos olhando de cima de seus cavalos como se fôssemos menores que eles. Aquilo me irritou profundamente. O que vinha à frente da pequena formação, mais velho, cabelos e barba dando os sinais da idade. Apesar da cara feia, tinha olhos austeros e calmos, como um predador prestes a dar o bote. No momento em que os vi cruzando o portal da propriedade do nosso quartel general, chamei Erwin e cochichei em seu ouvido que não deveríamos confiar em nenhum deles, principalmente o líder. Ele era mau, eu podia dizer.

Cruzei o braço em frente ao peito e, quando desceram e estenderam as mãos para nos cumprimentar, mantive meus olhos fixos no de cada um que passava à minha frente, sem tocar-lhes de forma nenhuma. Aqueles olhos me diriam tudo o que eu precisava saber sobre as pessoas que ficariam em nosso lugar durante toda a viagem à capital. Isso vai dar merda, pensei. Com certeza daria.

– Sou o general Caius – disse o mais velho, após apertar a mão de Mike, que parecia tão soturno quanto eu. – Estes são Josef e Nigel – ele apontou para os dois homens à sua direita, o primeiro um pouco mais alto que eu apenas e de cabelos loiros, mais claros que os de Erwin, e o outro tão alto quanto Mike e que ostentava um bigode negro, cheio, acima dos lábios. – Estas são Mikaella e Johanna. Os quatro são líderes de esquadrão da Polícia Militar e estarão responsáveis pelos seus soldados pelos próximos dias.

– É um prazer recebê-los sob nosso teto, senhor – disse Erwin, respeitoso. – Chamo-me Erwin Smith, sou o comandante da Tropa de Exploração. Estes são o meu capitão, Levi, e meus dois tenentes e também líderes de esquadrão, Hange Zoe e Mike Zacharius.

– Ótimo – disse o velho, descalçando as luvas e dando-nos as costas rudemente, entrando em nosso prédio sem ser convidado. – Nos apresente o local.

O tom na voz daquele homem me conferia uma raiva tão grande que precisei agradecer mentalmente diversas vezes por todas as vezes em que lutei com Erwin nos últimos dias. Eu poderia atacá-lo e dilacerar aquela sua garganta velha, cheia de peles caindo pelos lados. Ele era nojento. O velho se projetou para dentro do nosso quartel, carregado de pretensão, e seu cenho se franzia para cada pedra nas paredes. Os outros quatro vinham atrás de nós, os passos tão silenciosos que pareciam cobras rastejando atrás da presa.

Troquei um olhar com Hange que felizmente estava mais calma e seus olhos pareciam mais sóbrios, sem aquela energia toda que os fazia girar de um lugar para o outro como se fossem saltar das órbitas. A tenente se limitou a dar de ombros, tão apreensiva quanto eu mesmo e os outros, mas manteve o silêncio.

Caminhamos calados enquanto Erwin apresentava as dependências do nosso quartel e os quartos aonde os oficiais novos se acomodariam durante o período em que estivéssemos fora. Ao passarem em frente ao meu quarto, trocaram um olhar entre eles, carregado de significado, e escutei um deles cochichar algo para o companheiro ao seu lado. Fechei os olhos e respirei fundo, minha mão se fechando em punho. Senti Hange tocar-me o cotovelo e negar com a cabeça, pedindo silenciosamente que eu não fizesse nada impensado. Eu não faria, claro, pensei. Mas vontade era o que não me faltava naquele momento.

Chegamos à sala de reuniões e nos sentamos, nós quatro de um lado e quatro do outro. O homem chamado Nigel permaneceu de pé, os braços atrás do corpo e uma expressão de maníaco trespassando seu olhar. Um calafrio percorreu minha espinha, um medo repentino não somente por Eren, mas por todos os meus outros soldados. Querendo ou não, ainda eram crianças e haviam se acostumado conosco que, apesar de rígidos, ainda tínhamos nossas exceções. O que seria deles enquanto não estivéssemos por lá?

Depois de algumas instruções que Erwin passou aos novatos, o tal Caius começou a falar sem parar sobre os planos da capital para padronizar as expedições a fim de evitar custos desnecessários – nessa hora ele me olhou como se falasse diretamente para mim. O velho ainda falou mais sobre a rigidez com a qual deveríamos tratar os soldados, porque eles estavam à vontade demais, e tínhamos uma permanente crise nas mãos no formato de humanoides gigantes que comiam os seres humanos que restaram nas muralhas.

Tch – soltei, involuntariamente. – Nós sabemos bem dessa "crise" – fiz o sinal de aspas com as mãos –, porque, enquanto vocês sentam suas bundas gordas, protegidos pelas três muralhas, somos nós e nossos soldados que se arriscam do lado de fora.

– Desculpe-me? – Perguntou Mikaella, inclinando-se em direção à mesa, os olhos apertados enquanto me encarava.

Desculpe-me o que, mulher? – Rebati, remedando-a. – Você é surda?

– Levi… – repreendeu-me Erwin, lançando-me um olhar cortante.

Empertiguei-me na cadeira, totalmente desconfortável. Senti a barra da camisa de Eren soltar-se do cós de minha calça e um vento gelado entrou por baixo da camisa. Não tinha como ser outra coisa senão um presságio de algo ruim. Pigarreei, os braços cruzados em frente ao peito, sentindo os olhares fulminantes dos integrantes da Polícia.

– Acredito que o capitão se expressou mal – disse Caius, a voz grossa cheia de desdém.

– Me expressei claramente bem, general. Se os seus soldados não têm a capacidade de entender, eu não posso fazer nada; aliás, isso só faz reiterar ainda mais o que eu disse.

Trocamos alguns instantes de silêncio, a tensão pairando sobre nós como um peso invisível, e pude escutar Hange ajeitando os óculos no rosto ao meu lado. Ela também se empertigou em seu lugar, endireitando as costas e esticou as mãos sobre a mesa, cruzando os dedos. Nenhum de nós falou mais nada, nem Erwin, e quando já estava tarde o suficiente para que continuássemos com aquela palhaçada, afastei minha cadeira e me levantei, dirigindo-me em direção à porta, puxando-a com força.

Sorri para mim mesmo quando escutei o baque surdo da madeira de encontro ao tal Nigel, que ainda estava parado e imóvel encostado na parede. Eu podia jurar que Erwin estaria me amaldiçoando dentro de sua mente e guardando uma porção de berros para despejar em mim pelo meu comportamento. Mas eu já estava cansado daquela brincadeira de tratar bem os otários que tratavam os únicos soldados úteis da humanidade como lixo. Nós éramos a única chance deles e eles precisavam mais de nós do que o contrário.

E se eles fariam da nossa vida um inferno, que pelo menos fosse recíproco.

–––

EREN'S POV

Levi apareceu à porta do refeitório no momento em que terminávamos o jantar. Havia algo demoníaco em seu olhar enquanto se dirigia até nós, olhando para ambos os lados antes de subir em uma das cadeiras livres e bater as mãos pedindo por atenção. Troquei um olhar confuso com ele, mas não obtive resposta. Que diabos estava o capitão fazendo? E que expressão era aquela?

– Seus inúteis – ele começou –, prestem atenção em tudo o que eu vou dizer.

Os pescoços se viraram em sua direção, e vi todos se ajeitando em suas cadeiras para ter uma melhor visão do capitão. Levi esperou até que todos nós estivéssemos de olhar fixo em si para continuar.

– Braus, pare de comer e preste atenção – ele disse à Sasha, que engoliu um pedaço de pão rapidamente, limpando a boca com as costas das mãos. – Como vocês sabem, o comandante, os tenentes e eu estaremos fora por algum tempo. – Meu coração se apertou quando ele disse. Eu não me acostumaria com aquilo nunca, e falar parecia fazer a coisa ser mais real e permanente. – Hoje recebemos os oficiais da Polícia Militar que ficarão responsáveis por vocês em nossa ausência. E vocês vão anotar tudo o que eu disser e farão exatamente da forma que eu mandar.

Houve uma comoção geral de bolsas sendo abertas, pedidos de canetas e o farfalhar do papel sendo pego e colocado sobre a mesa. Levi começou a nomear as pessoas que chegaram, suas características e as suas impressões pessoais sobre cada um. Disse-nos também sobre o discurso do general Caius e suas intenções para conosco. Naquele momento, o único de toda aquela noite, ele me olhou, transmitindo-me alguma mensagem silenciosa que eu não consegui captar. Balancei a cabeça negativamente, tentando demonstrar que não havia entendido, mas ele resolvera me ignorar e continuou falando.

– Eu não quero saber de nenhum – ele levantou o dedo –, nenhum de vocês desafiando os oficiais. Farão tudo o que lhes é mandado como se fosse um de nós – e então apontou para si. – Mas eu quero relatórios diários dos líderes de esquadrão que separarei nesse momento. Quem eu chamar, favor dar um passo à frente. Vamos lá… Mikasa Ackerman, por favor.

Minha irmã se levantou, assumindo posição de continência, o olhar fixo em Levi. Ela era o melhor soldado que nós tínhamos, depois do capitão, eu tinha certeza. Não havia dúvidas que seria escolhida para liderar o que quer que fosse.

– Jean Kirstein – continuou Levi. – Bertolt Hoover. Gelgar. Nanaba.

Quando todos haviam levantado de seus lugares, Levi desceu da cadeira com um salto, pousando suavemente sobre o chão com toda a classe que tinha e os chamou com a mão. Os chamados foram enfileirados à nossa frente, todos em posição de continência, olhando fixamente para frente. O capitão deu uma volta por eles, esquadrinhando seus corpos, um por um, e então voltou a falar, sua voz soturna e séria.

– Vocês cinco irão escrever relatórios diários para mim e para o comandante Smith com tudo, eu repito, tudo o que acontecer aqui dentro. Desde a hora em que os policiais se levantarem até a hora que forem ao banheiro cagar. Eu não quero que deixem passar nenhum detalhe, porque, caso eu note algo faltando, será do couro de vocês – ele esticou o dedo e apontou para o rosto de cada um – que vou tirar as informações que eu preciso. Fui claro?

– Sim, senhor! – bradaram os cinco em uníssono.

– Ótimo. Agora vou chamar os soldados que estarão sob sua vigia. Jaeger, Ymir e Lenz, por favor, atrás de Ackerman.

Eu não estava entendendo o porquê de tudo aquilo, mas me limitei a seguir as ordens de Levi. De todo o tempo em que passamos juntos como companheiros, era muito estranho vê-lo agindo como meu capitão novamente. Ele permanecia de pé, olhando nos olhos de todos que passavam por si sem demonstrar nem mesmo uma ponta de emoção e algo dentro de mim sentiu-se mal por isso. Aquele não era o mesmo homem que, horas mais cedo, me pedira para ser seu namorado.

Minhas bochechas coraram. Aquele não era o momento para aquele tipo de pensamento.

– Braus, Springer e Pere com Jean. – Ele voltou a chamar, nos organizando de acordo com nossos líderes. – Nifa, Moblit, Luke, vocês estão com Nanaba; Braun, Darius, Pere, Sayram e Jurgen, vocês ficaram com Bertolt. O restante irá com Gelgar.

Depois de todos organizados em seus grupos, ainda havia alguns soldados sentados nas mesas, e estes olhavam inquisidores para o capitão.

– Vocês não ficarão sob nenhum esquadrão, pois continuarão com as atividades normalmente, exceto pelo fato de que irão se organizar em turnos para ficar de olho nos intrusos. Quero um esquadrão pela manhã, outro à tarde, um à noite e o último nas madrugadas. Mikasa será responsável pelos vigias da manhã, Jean pelos da tarde, Gelgar e Nanaba pelos outros dois, respectivamente.

– E eu, senhor?... – perguntou Bertolt, levantando a mão timidamente.

– Você irá manter o DMT reserva, que guardamos no subsolo, bem preparado e pronto para o uso caso se faça necessário. Seu esquadrão também revezará, de dois em dois, para vigiar os titãs de Hange. Não sabemos o que esses caras da Polícia farão aqui dentro, mas tenho certeza que tentarão mexer com as criaturas da tenente, e não podemos permitir. – Ele se virou para todos nós, dando um pequeno giro em torno de si mesmo. Notei que Bertolt e Reiner trocaram um olhar desconfortável entre si. Eles realmente não gostavam dos titãs. – Estamos entendidos?

– Sim, senhor! – Bradamos todos juntos, os punhos fechados chocando-se contra nossos corações, os pés batendo no chão.

– Estão dispensados por hoje. Antes de partirmos amanhã, quero ver a formação no pátio, os esquadros dividos da forma que organizei, inclusive os grupos de vigia.

Houve mais um coro de concordância enquanto os outros pediam permissão para sair e Levi a concedia. Propositalmente, fiquei para trás, Mikasa ao meu encalço e esperamos Levi virar-se para nós. Minha irmã ainda estava calada; não dissera nenhuma palavra desde que se levantara da mesa além das respostas ao capitão. Quando ele se voltou para nós, entretanto, ela se adiantou, a mão esticada.

– Obrigada pela oportunidade, senhor – disse, a voz firme. Levi segurou a mão de Mikasa na sua e a sacudiu sutilmente. – Não irei decepcioná-lo.

– Espero que não.

Notei a troca de olhares entre eles e não soube dizer se era apenas algo entre capitão e soldado, mas havia um toque de cumplicidade entre eles. Aquilo fez meu coração saltar de meu peito. Em todo o tempo em que estive dentro do refeitório durante aquela noite, aquele foi, sem dúvidas, o momento em que me senti mais feliz. Mikasa bateu continência mais uma vez e me deu um abraço rápido antes de sair. Olhei para os dois lados e o abracei, sentindo suas mãos me afastarem de seu corpo com a mesma rapidez com que ele matava um titã.

– Eren, por favor… – ele começou, olhando para mim com os olhos carregados de culpa. – Eu não posso correr mais nenhum risco com você, pelo menos não agora.

– Eu sei. Desculpa – respondi, coçando o pescoço. – Esses caras parecem ser mesmo assustadores, Levi. Eu estou com um pouco de medo.

– Eu também. Mas, se as coisas correrem conforme o organizado, vocês mesmos vão conseguir evitar os problemas.

– Espero que sim – puxei uma cadeira para mim e servi duas xícaras de chá preto para nós. Levi se sentou à minha frente e esticou as pernas até que tocassem as minhas por baixo da mesa. Um arrepio involuntário percorreu meu corpo e vi os pelos dos meus braços se eriçarem. – Vai ser uma longa viagem, capitão.

– Sim… – ele disse, levando a xícara aos lábios, segurando-a daquela forma excêntrica. – Mas logo eu estarei de volta, é uma promessa.

– Eu já lhe disse que você promete demais – as palavras saíram com um tom mais triste do que eu queria, e vi a expressão do meu namorado murchar um pouco. Ele relaxou as sobrancelhas, permaneciam franzidas desde que chegara.

– E eu já falei que eu cumpro demais, também.

Um silêncio frio tomou conta da mesa, tão frio que pareceu até mesmo resfriar o líquido em nossas xícaras. Inclinei-me sobre a mesa e deitei a cabeça nos braços cruzados, encarando meus pés. Aquele sentimento de apreensão não parecia querer me deixar de forma nenhuma. Os minutos passaram-se arrastando como horas, o ar era pesado como chumbo em meus pulmões e uma súbita vontade de chorar me tomou de assalto, os soluços saindo antes mesmo que eu os pudesse conter. Ouvi a cadeira de Levi se arrastar pelo chão e sua mão tocar minha cabeça, acariciando um pouco. Senti as cicatrizes em seus dedos quando estes desceram pela minha nuca e puxaram meu rosto para cima.

– Vamos lá, Eren, não chore – ele pediu. – Eu voltarei e tudo será melhor do que está agora, eu prometo isso também. Erwin e eu estudamos muito as leis e os nossos relatórios, orçamentos, tudo. Temos argumentos e provas e o conselho não pode lutar contra fatos… E quanto a nós dois… Nada mudará.

Assenti, fungando.

– Tome – ele me estendeu um lenço. – Limpe esses olhos e o nariz, e vá para seu quarto. Nós partiremos ao nascer do sol, e eu gostaria de ver você uma última vez.

– Não será a última – rebati.

– Ok… – em um movimento rápido, Levi se abaixou e beijou minha testa antes de se afastar em direção à entrada, acenando para mim antes de murmurar um "boa noite" quase inaudível e sair.

Voltei a abaixar a cabeça na mesa mais uma vez, as lágrimas escorreram pelo meu rosto sem que eu nem soubesse o por que.

–––

À primeira luz do sol, eu já estava pronto, sentado em minha cama no subsolo. Eu segurava um pedaço de papel com uma carta curta que tinha escrito durante a noite para que Levi levasse consigo durante a viagem. Eu queria que houvesse algo meu com ele além daquela blusa que ficava gigante em seu corpo. Que ele pelo menos tivesse as minhas palavras. Suspirei e levantei, olhando-me no espelho. Pela primeira vez em muito tempo, escorria um filete de sangue pelo meu nariz, o qual me apressei para limpar com o lenço que Levi me dera no dia anterior.

Eu parecia mais abatido do que nunca e, enquanto arrastava meus pés escadas à cima em direção ao pátio, sentia cada batida de meu coração em meu pescoço, sufocando-me. Aquela sensação ruim precisava passar para que eu me despedisse corretamente de meu capitão e, principalmente, ela precisava sair para que eu tivesse um pouco de paz nos dias que se seguissem. Encontrei todos os soldados em fila da mesma forma que o capitão ordenara, e havia um lugar entre Mikasa e Ymir que imaginei ser para mim. Dirigi-me até lá e entrei em posição, olhando para Levi, a tenente Hange, o tenente Mike e o comandante de pé à nossa frente na pequena elevação.

Atrás deles estavam os policiais e, de início, consegui identificar todos pela descrição que Levi me dera. Realmente, aquele Nigel e a mulher esguia e reta como uma tábua, que ele dissera ser Mikaella eram os mais assustadores. Seus olhos lembravam os olhos de um titã, tamanha a maldade que continham. Levi dissera que eles estiveram entre os dez mais fortes de sua turma quando recrutas e fora por aquele motivo que entraram para a Polícia. Outro calafrio percorreu meu corpo quando cruzei olhares com a mulher e senti, em meu âmago, que ela não seria fácil.

– Bom dia, soldados – começou o comandante, descruzando os braços e andando de um lado para o outro, os olhos fixos nas fileiras. – Vocês já conhecem nossos convidados e sabem o que devem fazer. Não envergonhem a Tropa de Exploração.

O comandante bateu continência e se dirigiu para a saída, onde os cavalos os esperavam. Tanto a tenente, quando o líder de esquadrão, não disseram uma palavra, apenas saíram. Levi, entretanto, antes de sair, deu-me um sutil sorriso de lado e maneou a cabeça quase imperceptivelmente. Vi Mikasa retribuir-lhe o gesto tão sutilmente quanto. Senti minhas entranhas se contraírem quando Levi se dirigiu até a saída e montou em Justine, batendo as rédeas e disparando em direção à capital. Meus olhos se perderam no horizonte quando o vi sumir por entre os montes e minha mente pareceu pairar, solta, entre a consciência e a saudade esmagadora que começava a me assolar somada ao medo que voltava a corroer meus ossos.

– Então, vocês são os tão aclamados soldados da Tropa de Exploração – a voz carregada de escárnio de Nigel me trouxe de volta do meu devaneio. – Vamos ver do que vocês são capazes.

Ele saltou de cima da elevação, caindo não tão graciosamente quanto Levi o teria feito, e se dirigiu até a nossa fileira, afastando Mikasa rudemente com a mão. Naquele exato momento, senti meu sangue começar a ferver. Quem aquele cara achava que era?

– E você é o garoto-titã?

– Sim – respondi, segurando-me com todas as minhas forças para não vociferar a resposta.

– Sim, senhor – ele falou, frisando a última palavra.

Todas as palavras de Levi sumiram de minha cabeça naquele momento, todas as recomendações de cuidado e de que eu deveria manter o respeito. Meus olhos pulsavam vermelhos nas órbitas e, quando falei, minhas mãos já estavam cerradas.

– Não precisa me chamar de senhor – falei.

Um suspiro coletivo tomou meus companheiros. Meus olhos encontraram os de Mikasa e vi sua expressão se contrair em um esgar de fúria enquanto ela avançava em minha direção, mas um punho grande e pesado veio primeiro, atingindo meu rosto em cheio.

E então desmaiei.

1. Alguém gostou da postura badass do Levi? Porque, assim, eu quase tive uma ataque moe quando escrevi, fiquei pensando "nooooooo, que cara foda, meu deeeeeeusss". Sou dessas, me julguem.

2. Curtem Harry Potter? Eu amo a saga, é a minha favorita da vida (tanto que tenho duas tatuagens sobre) e eu TINHA que colocar uma referência, e o diálogo entre o Harry e o Snape no Enigma do Príncipe é simplesmente o meu favorito da vida. Imaginei que iria caber perfeitamente na situação. O que vocês acharam?