EREN'S POV
Acordei no mesmo momento em que meu rosto atingiu o chão e o gosto ferroso do sangue invadiu a minha boca. Meus olhos perderam o fogo momentaneamente e eu conseguia apenas distinguir as silhuetas das botas se movendo próximas a mim. Uma bagunça de vozes ecoava em minha cabeça e eu podia jurar que várias delas chamavam pelo meu nome, mas a tontura não me permitia discernir quais. Senti um par de mãos me erguendo e deixei meu pescoço pender para trás, sem força para os lados, mole, sem forças para firmar a cabeça. Pisquei repetidas vezes até que consegui focalizar o rosto de quem me segurava, olhando-me com desdém e um sorriso maníaco em seus lábios.
– Solte-o! – Berrava Mikasa, de algum lugar que eu não conseguia ver. – Se você colocar mais um dedo em Eren, eu juro que vou…
E então, um som abafado de choque. Na mesma hora, uma luz se acendeu em minha cabeça. Alguém havia acertado minha irmã. Toda a névoa que cobrira minha mente desde o momento em que me levantaram foi dissipada pelo calor da raiva que me fizera ser acertado em primeiro lugar. Me debati nos braços de Nigel, tentando me soltar, mas seu aperto era forte demais, e eu podia sentir os hematomas se formando enquanto ele me segurava ali. Uma de suas mãos se soltou de meu braço e virou meu rosto em direção à Mikasa, que estava encurvada sobre a barriga, mas o rosto ainda erguido naquele olhar enfurecido de quem não deixaria aquilo barato.
– Olhe bem para a cara da sua irmãzinha, sua aberração – sussurrou o homem ao meu ouvido, e senti gotículas de cuspe salpicarem meu rosto. – É bom você se comportar, ou então nós vamos dar uma lição nela.
– Deixe-a em paz – vociferei em resposta, ainda lutando para desvencilhar-me daquele homem asqueroso. – Eu cooperarei com vocês, mas não toquem em minha irmã.
– Oh, então temos um protetor aqui – ele disse, dando uma risada forçada, desprovida completamente de humor, sendo acompanhado pelos seus outros companheiros. – Vamos, Mikaella, solte a garota. Nós temos outra pessoa para nos divertirmos.
Nigel me lançou até onde estava Mikasa, e a ajudei a se levantar, escondendo meu rosto entre seus cabelos e tentando sussurrar em seu ouvido.
– Fique calma – falei –, não se esqueça do que o capitão falou. E me desculpe por ter te dado trabalho.
– Eren…
– Mikasa, não. – Eu já conhecia aquele tom de voz e, por mais que meu coração pedisse que minha irmã desse uma lição naqueles caras, nós precisávamos nos ater ao plano para que tudo corresse da forma correta. – Vamos voltar às fileiras, venha.
Puxei sua mão e voltamos ao nosso lugar, ela completamente erguida sem demonstrar nenhum sinal de dor, o rosto contraído e os olhos já apertados ainda mais estreitos, saltando de um para outro dos soldados da Polícia Militar. Passei a mão rapidamente pelo maxilar que estivera momentaneamente quebrado e pude senti-lo se firmar de volta ao lugar quando uma fina fumaça começou a sair por entre os meus dentes. Entrei em posição de continência, trocando um rápido olhar com Connie ao meu lado, assentindo à sua pergunta silenciosa de que se eu estava bem.
Suspirei e olhei para frente. Johanna e o outro homem o qual não me recordava o nome se dirigiram para o meio dos soldados com pranchetas em uma mão e uma caneta na outra, sacudindo a cabeça e anotando alguma coisa que parecia ser o nosso destino, tamanha a apreensão que eu via tomando meus colegas quando passavam por eles. A mulher parecia ser a menos cruel dos quatro, com um olhar tenro e calmo, quase se desculpando pela ação dos colegas. Quando passou por mim e por Mikasa, ela apenas olhou dentro de nossos olhos e maneou a cabeça, sem anotar uma única palavra. Aquilo era bom?
– Bom – começou o general Caius, descendo da elevação –, hoje prosseguiremos com as atividades normalmente, pois queremos averiguar o desempenho de vocês – disse, acenando com a mão para a primeira fileira na ponta. – Vocês ficarão com o treino a cavalo, os seguintes, DMT, a terceira e quarta fileira estão encarregadas da cozinha e estábulos, respectivamente. Ele se adiantou para Mikasa, olhando minha irmã nos olhos e inclinando o corpo levemente para o lado de forma a me olhar. – Vocês irão para o penhasco, pois queremos estudar as habilidades do garoto titã.
Suas botas produziram um eco surdo no chão de terra quando se dirigiu à última fileira, ao meu lado, as mãos cruzadas atrás das costas e ele olhou para Jean, o líder do último esquadrão de Levi e o primeiro de sua fila. Caius se inclinou levemente em direção a Kirstein, e pude ver o garoto tremendo.
– Vocês vão para o treino físico, com Nigel – um assobio percorreu os oficiais mais velhos. – E, sinceramente, desejo boa sorte a vocês.
Dito isso, o velho se afastou, os soldados seguindo cara um para seu canto, e Mikasa se deixou ficar para trás, trocando uma porção de palavras rápidas com Jean e Connie, instruindo-os em alguns macetes de luta para que não se tornassem tão vítimas nas mãos daquele demônio em forma de homem. Disse a eles que passassem as instruções aos outros de seu esquadrão e que ficassem juntos – só tinham uns aos outros e deveriam se apoiar.
Jean assentiu, agradecendo à ela e pedindo que também tivéssemos cuidado. Sua mão pousou em meu ombro antes de sair e nossos olhares se cruzaram por alguns segundos em que ele me transmitiu uma mensagem calada, pedindo que o encontrasse ao final do dia. Eu estava intrigado demais com o significado daquilo para sentir a mão que me puxava em direção ao penhasco.
– Eren, vamos – disse Mikasa, a voz forte. – Não vamos dar mais motivos, ok?
Ymir e Krista nos seguiam silenciosas, trocando olhares ora sim, ora não, os equipamentos tilintando ao movimento que fazíamos ao subir e descer os pequenos morros do quartel até chegarmos à parte mais isolada da área, onde eram realizados os testes de Hange comigo. Um arrepio percorreu minha espinha quando me lembrei da última vez em que estive ali e tentei devorar Levi, um arrependimento instantâneo e pesado se abatendo sobre meu coração.
Mikasa pegou minha mão na sua e entrelaçou nossos dedos, passando-me um pouco de força. Ela me conhecia tão bem que sabia o que estava se passando pela minha cabeça naquele momento, e a amei por isso. Mikasa era realmente especial, e a forma com que estava lidando com aquilo tudo só fazia confirmar em minha cabeça que ela seria uma capitã tão boa quanto Levi se ele a pegasse de discípula. Pela primeira vez naquele dia, senti um sentimento bom ao pensar nos dois juntos, como colegas e talvez até amigos, as duas pessoas mais importantes para mim finalmente existindo juntas.
Ela soltou minha mão, sacudindo-me de leve, trazendo-me de volta à realidade, escapando dos pensamentos que me levavam para cada vez mais longe dali.
– Eren, vamos, tire seu DMT – ela ordenou, olhando para os lados rapidamente antes de me ajudar a desafivelar as correias. – Krista e Ymir, verifiquem o gás do equipamento de vocês, o cinto e as lâminas. Se precisarmos, vamos intervir na transformação de Eren antes que eles possam. Entendido?
– Sim – respondeu a garota maior, os olhos caídos naquele tédio eterno que tinha.
– Eu vou te levar até lá em baixo, Eren – disse Mikasa quando tirei minha jaqueta e as botas, ficando apenas com a calça dobrada até o meio da canela e a blusa mais fina que usava por baixo com as mangas arregaçadas até os cotovelos. – Não vou deixar mais nenhum desses caras encostarem um dedo em você.
– Mikasa, não precisa de tanto… – comecei, mas ela me interrompeu apertando seu cinto em volta da minha cintura.
– Eu sou a sua líder, Eren. Me obedeça.
Ok, aquela situação era a mais estranha possível. Talvez a responsabilidade que Levi dera à Mikasa estava subindo à sua cabeça para que ela falasse comigo daquela forma. Eu sempre estivera acostumado à ela concordando comigo e fazendo as coisas do meu jeito que aquela mudança de postura causara um baque ainda mais forte do que o soco que tomei de Nigel mais cedo. Pisquei por uns instantes antes de concordar com a cabeça, sentindo que via um Levi mais novo e muito, mas muito mais feminino ali à minha frente.
Mikasa lançou o DMT em uma das árvores, Krista e Ymir já próximas a nós, penduradas nas árvores ao redor, observando-nos com apreensão. As pernas de Mikasa se dobraram para trás, lançando ambos nossos corpos no ar e mergulhando em direção ao final do abismo no qual eu havia me transformado na última vez. Nossos pés pisaram no chão suavemente e minha irmã me soltou com mãos precisas, desligando-me de seu cinto. Juntou seus equipamentos de volta ao seu próprio corpo e me deu uma última recomendação de que ficasse bem e tivesse calma antes de partir.
E então eu esperei. De onde estava, não era possível ouvir nada do que se passava lá em cima, e minha cabeça continuou funcionando freneticamente, tentando buscar as imagens das últimas batalhas, todo aquele sangue e morte, na esperança de que funcionasse como um gatilho para a minha transformação. Mas, ao contrário das outras vezes, não senti o formigamento característico na ponta dos meus dedos e nem subindo pelas minhas pernas. Em meu coração havia apenas uma ponta de medo e um vazio estranho, como se meu lado titã houvesse me deixado. Temi por mim naquela hora, covardemente, com medo do que seria feito comigo quando os soldados da Polícia vissem que eu não havia conseguido me transformar.
– Acalme-se – disse a mim mesmo.
Andei de um lado para o outro, respirando profundamente e olhando para cima, aguardando o sinal verde de confirmação. O céu estava particularmente cinzento naquela manhã, num presságio estranho de que algo não estava certo. E de fato não estava. Levi estava indo para a capital naquele momento, acompanhado dos nossos oficiais e do comandante Erwin para responder a um inquérito por minha causa. Estávamos sozinhos em nosso próprio quartel general com cinco dos seres mais aterrorizantes que eu já vira em toda a minha vida, que faziam os titãs raros parecerem um bando de garotinhas indefesas. E também havia o plano de Levi, que eu temia ser descoberto, o que faria as coisas piorarem ainda mais. Definitivamente aquele céu refletia todo o inferno que se instalara sobre nossas cabeças, sem nenhuma previsão de se dissipar.
Levantei os olhos novamente e encontrei a fumaça verde sumindo entre as árvores. Fechei os olhos, respirando fundo, e levei a mão direita até os lábios, abrindo a boca ligeiramente e descendo os dentes em direção à carne e mordendo-a com toda a força que eu tinha. O gosto do sangue voltou a inundar meu paladar, a dor aguda da pele se rompendo descendo outra descarga de adrenalina em meu corpo, porém o formigamento ainda distante, lá na sola de meu pé, sem forças para subir.
O que estava acontecendo? Olhei para o local recém-machucado e não encontrei nem um indício de que começaria a se curar; no lugar da costumeira fumaça, vi apenas mais sangue brotando da ferida. Meu coração disparou. O que eu faria se não conseguisse me transformar? E pior, por que não estava conseguindo? Limpei o sangue na calça, olhando para cima novamente e apertando os olhos, tentando identificar de quem era a cabeça que se projetava na beira do penhasco, olhando lá para baixo, acenando uma mão para mim com uma arma. Levei o antebraço à boca, tal como fizera com a mão, e novamente o mordi, arrancando mais sangue e acarretando mais dor ao meu corpo.
E, novamente, nada acontecera. Agora eu simplesmente sangrava de forma profusa e copiosa, uma dor lancinante percorrendo meu braço enquanto eu acenava com o outro, esperando que quem quer que fosse ali entendesse que a transformação não iria acontecer. Eu precisava sair daquele abismo antes que sangrasse demais; as forças já parecendo se esvair de mim. Arranquei uma tira da camisa e enrolei a mão e o antebraço, esperando que o sangue estancasse, apertando com força tal como já vira o Dr. Marcel fazer uma vez, quando a mesma coisa acontecera. Agachei no chão, as pernas flexionadas para evitar que eu me sentasse na terra e fechei os olhos, puxando o ar com força para os pulmões.
Por que ninguém ainda descera para me pegar? Quando era com Hange, sempre havia uma porção de soldados prontos, tal como ela mesma, para me traze de volta quando a transformação não acontecia ou acabava. Senti falta daquela mulher doida naquele momento pelo simples fato de que havia um medo ligeiro despontando dentro de meu coração que me fazia sentir como uma criança pequena, esmagada pelo tamanho da elevação de erra que me separava dos outros, como se eu nunca mais fosse voltar a ver a superfície. E onde estava Mikasa? Eu tinha certeza que ela seria a primeira a se lançar ali para baixo para me pegar, e não ter visto sinal nenhum de minha irmã ainda era mais preocupante do que tudo.
A nossa vida estava realmente se tornando um inferno. Se aquele era apenas o primeiro dia, a primeira manhã, eu temia pelo resto. Suspirei enquanto levava o braço bom até o nariz e limpava, inconscientemente, um filete de sangue que começou a escorrer pelo meu nariz e meus lábios. Olhei para a cor vermelha escura na manga de minha camisa, tentando estabelecer a relação a esses sangramentos – aquele já era o segundo em um mesmo dia – depois de tanto tempo sem e o fracasso em minha transformação. Minhas mãos estavam brancas além da conta, e sua cor contrastava com o sangue que ainda pingava em gostas largas em meu braço. Meus olhos saíram de foco mais uma vez, as mãos lentamente sendo contornadas por sombras de si mesmas, movendo-se lentamente à minha frente até que boom.
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– Eren? Eren? – Ouvi Mikasa me chamar.
Meu corpo inteiro parecia ter sido drenado e eu me sentia como uma casca vazia, desprovido de qualquer coisa senão cansaço. Mexi-me na cama dura que havia sob meu corpo e ouvi o som de correntes. Abaixei os olhos em direção aos meus punhos e tornozelos e vi grossos elos de metal prendendo-me à parede em uma lembrança nostálgica à primeira vez em que estive sob a capital, preso, enquanto o comandante e o capitão me pediam que entrasse para a Tropa de Exploração. A falta de forças me impediu de questionar, mas somente meu olhar já deu à Mikasa a pergunta que eu queria fazer.
– Eren, eles são bárbaros – ela falou, segurando-se nas barras de ferro, do lado de fora. Seu rosto estava levemente inchado e seu olho esquerdo estava quase totalmente fechado por um hematoma. Sua boca se movia lentamente e pude ver um corte sobre os lábios. – Essas pessoas… me desculpe, eu não consegui te proteger…
Ouvi um embargo em sua voz denunciando o choro que se formava em sua garganta e me apressei em procurar forças para falar.
– Por que você está chorando, Mikasa? – Perguntei, engolindo em seco. – Você está com dor?
– Não, não dói. Mas estou preocupada com você…
– Não se preocupe comigo – falei, puxando o corpo para cima e tentado me sentar, acomodando as costas na parede. – Eles acabaram com você.
– Isso não é nada – ela respondeu, puxando a franja um pouco por cima do olho ferido. – Você precisa saber o que fizeram com Ymir quando Josef encostou em Krista para afastá-la de você. Quebraram as duas mãos de Ymir apenas com os pés.
Voltei a engolir em seco. Desejei mais do que tudo naquele momento que Levi e Erwin estivessem ali, porque nenhum dos dois deixaria aquela barbaridade acontecer conosco. Eles nos protegeriam e colocariam aqueles monstros em seu lugar. O que fariam se descobrissem o que acontecera somente no primeiro dia de sua ausência. Um prazer obscuro passou pelo meu coração ao imaginar o que Levi faria se soubesse o que fizeram conosco naquele momento. Eu tinha certeza que ele apareceria ali no mesmo momento, lâminas às mãos, apenas para dar seu giro mortal e arrancar daqueles monstros muito mais carne do que somente pedaços de suas nucas.
– Você está escrevendo o relatório para Levi, Mikasa? – Perguntei.
– Sim. Estou com o de hoje pronto, e espero somente os outros me entregarem os seus, e então eu despacharei pelos gaviões. Tivemos que escolher um mais fraquinho, assim não correria o risco de ser interceptado. Mas vai demorar mais para entregar.
Assenti.
– Olhe, Eren, preciso ir… – ela disse, a voz carregada de tristeza. – Não posso ficar aqui e se me pegarem… temo que não poderei mais cooperar, entende?
– Sim – falei, sacudindo as correntes, infeliz. – Não é como se eu fosse sair daqui também, de qualquer forma.
– Nos foi dito que não deveríamos trazer comida para você. Irão apenas te dar água, para que você reponha o sangue que perdeu – ela continuou. – Mas Jean e eu estamos bolando um plano para te alimentarmos. No meio da madrugada, ele descerá aqui com algumas coisas. Por favor, Eren, coma.
– Tudo bem. – Respondi, limpando a garganta seca. – Por que me prenderam?
Minha irmã me lançou um olhar carregado de tristeza e pena, e se limitou a encolher os ombros. Ela não precisava responder àquela pergunta quando era tão simples o motivo. Os seres humanos eram realmente as piores criaturas e, não fosse toda a minha vontade de exterminar os titãs pelo bem daqueles que eu amava, eu mesmo faria questão de quebrar todas as três muralhas apenas para ver essa nossa raça, tão desprezível, extinguir-se entre os dentes de monstros.
Deixei a cabeça cair de encontro à parede, os olhos fechados e a força parecendo voltar para mim aos poucos. Perguntei-me onde estaria Levi naquele momento, se ainda era dia e se eles já haviam chegado à capital. Pedi à força superior que sua recepção fosse melhor que a nossa.
–––
LEVI'S POV
Desmontei de Justine com um salto, pousado no chão com ambos os pés e agradecendo por não estar mais sentado. Eu amava meu cavalo, mas não aguentava mais ficar sentado em seu dorso; tamanha era a distância que havíamos percorrido, e o tempo em que ficamos quicando sem parar. Estiquei-me completamente, levantando os braços até onde conseguia e soltei um suspiro de alívio audível, Hange e Mike fazendo coro a mim. Erwin puxou as nossas malas da carroça e as entregou, tomando Zoe pela mão e nos conduzindo em direção ao local onde alguns oficiais nos aguardavam.
Ele estava fazendo o máximo ao seu alcance, o capitão. Durante a viagem, ele contou para Mike e eu que estava com Hange, como se nós não soubéssemos, e disse que usaria sua relação com a tenente como argumento contra a corte. Se ele podia se relacionar com ela, não deveria haver limitações para Eren e eu, e aquilo me fez amá-lo um pouco mais. O homem era realmente meu melhor amigo e eu podia ver em suas ações o quanto ele lutava por mim. O quanto lutara desde o começo. Erwin ignorou os olhares inquisitivos quando passou de mãos dadas com a mulher, carregando tanto sua mala quanto a dela, e continuou se dirigindo para as instalações que nos foram destinadas.
Senti-me ofendido ao ser confinado no mesmo quarto que os três. No mínimo eu esperava acomodações em separado para nós, respeitando nossas patentes e nos colocando junto com os oficiais da Polícia Militar. Mas então me lembrei de que não estávamos ali somente como convidados; éramos réus na visão daqueles malditos e não teríamos nenhum luxo ou conforto. Aquela velha raiva voltou a se espalhar pelo meu peito, mas me limitei a respirar profundamente, colocando minha bolsa sobre a cama e retirando algumas camisas e calças, colocando-as dentro da pequena cômoda que havia ao lado.
– Os senhores são solicitados na corte – disse o homem que nos levou até o quarto. – O conselho os aguarda para a primeira sessão.
– Certo – respondeu Erwin, fazendo o mesmo que eu, mantendo sua pose de capitão enquanto assentia para o homem.
– Com a sua licença – pediu o soldado, fechando a porta consigo enquanto saía.
– O que vamos fazer, Erwin? – Perguntou Hange, sentando-se à cama e tirando os óculos. Eles não seriam necessários ali. – Por onde começaremos?
– Pelo começo deles – respondeu o comandante, acenando para Mike e para mim, ordenando que nos afastássemos. – Não sei qual será a primeira pauta desses malditos, mas estamos prontos para responder qualquer de suas perguntas. Não se desesperem – ele disse, esquadrinhando nossos rostos –, e não digam coisas desnecessárias. Não se esqueçam de que estamos aqui a trabalho para a humanidade também. O tempo que gastarmos aqui em Mitras será para, acima de tudo, juntarmos informações sobre o conselho e o rei. Não me decepcionem. Não teremos tempo para acertarmos novos erros.
Concordamos e saímos, Erwin trancando a porta atrás de nós. O lugar era relativamente pequeno, fazendo nosso quartel parecer gigante e perto daquele prédio. Era todo cimentado, as paredes cinzas e frias, com uma lâmpada ali e outra aqui sem realmente lançar nenhuma luz. A tarde já caía e o pouco sol que ainda havia ali, se punha pelas frestas das janelas altas, entreabertas, que ladeavam o corredor. Nossas botas não faziam som no piso acarpetado e aquilo soou como algo ruim para mim. Eu sempre estivera acostumado ao som oco dos saltos no piso de pedra e estar ali, naquele lugar e circunstâncias, em um silêncio mortal, me trazia todo tipo de sensações – exceto as boas.
Um par de mulheres vestidas com o unicórnio verde nos recebeu, abrindo a porta da corte marcial e nos guiando para dentro, os olhos duros em nossos rostos. Zachly presidia aquela sessão, e aquilo nos fez sentir um alívio momentâneo. Até onde sabíamos, o velho estava do nosso lado desde sempre pois já havia perdido muitos filhos para os titãs e apoiava a nossa causa, dizendo que nossa tropa precisava de mais apoio para evitarmos as baixas. Indicou-nos os lugares, Erwin e eu à frente e os outros dois atrás, em cadeiras mais baixas. Colocamos os papéis que havíamos trazido sobre a mesa e esperamos.
O conselho das três paredes se erguia à nossa frente, sentados de forma a ladear o velho, todos nos olhando de cima como se fôssemos vermes, o mesmo olhar que notei dos soldados da Polícia Militar que foram para o nosso quartel. Como eu os odiava, todos eles! Homens gordos, velhos e pretensiosos, preocupados somente com suas próprias riquezas e em manter suas vidas dentro das muralhas, sem saber o que era o verdadeiro medo dos titãs, sem ter visto a morte sequer uma vez em suas vidas, tentando encher seus bolsos com os impostos dos cidadãos para apenas morrerem mais ricos. Homens e mulheres estúpidos, com medo do que havia ao lado de fora e sua ganância se focando apenas no dinheiro e não na vida que nos aguardava quando saíssemos dali. Vermes… sim, os verdadeiros vermes são esses homens que não sabem o que é viver de verdade, disse-me Isabel, dentro de minha mente.
Homens fracos. Era isso que eram. Fracos e covardes. E eu daria até a minha última gota de sangue para acabar com suas vidas de merda.
– Levi – sussurrou Erwin, cutucando-me com a perna. – Relaxe.
Lancei-lhe um olhar duro, só então percebendo que todo meu corpo estava retesado em raiva. Soltei os dedos que estavam fechados em punhos, e relaxei as costas, voltando a sentar-me normalmente. Saquei um lenço e limpei o suor da testa, voltando a dobrar o tecido e enfiando-o de volta em meu bolso. O malhete de Zachly bateu três vezes sobre a mesa de madeira e sua voz retumbante soou pela sala cheia, porém silenciosa.
– Boa noite, senhores – ele disse, lançando um olhar aos membros do conselho e acenando a cabeça. – Boa noite comandante Erwin Smith e capitão Levi – foi a vez de assentir para nós, logo dirigindo o olhar para os tenentes. – E boa noite senhores tenentes, Hange Zoe e Mike Zacharius.
– Boa noite, senhor – respondeu Erwin, formalmente. O comandante cruzou as mãos sobre a mesa, e pude ver sua apreensão.
– Estamos aqui, frente ao conselho do rei das Três Muralhas, para averiguação de resultados. Pedimos aos responsáveis pelo garoto Eren Jaeger que se levantem, por favor.
À menção do nome de Eren, senti um calafrio percorrer meu corpo. Em momento nenhum, desde minha partida, eu havia pensado nele e em como estaria. Senti-me culpado por isso, por não tê-lo em minha mente por tanto tempo e um peso se abateu em meu coração. Naquela noite, eu só dormiria depois do primeiro relatório chegar, e eu esperava com todas as minhas forças que fosse o de Mikasa. A garota era líder do esquadrão em que Eren estava e eu sabia que não me deixaria sem notícias dele. Levantei-me da cadeira, com as folhas em mãos e aguardei a primeira pergunta de Zachly, olhando para os ouvintes, o escrivão, os conselheiros e, por fim, a figura encarquilhada e magra que sustentava uma coroa de ouro vermelho incrustada de pedras preciosas – o rei em pessoa.
– Capitão Levi – o velho começou –, o senhor poderia apresentar os resultados do treinamento de Jaeger?
Suspirei, levantei as anotações à altura dos meus olhos e comecei a ler.
–––
– Para a primeira noite, até que não fomos tão mal assim – disse Hange, retirando as botas e largando-as de qualquer jeito perto da cama. – O que vocês acharam?
Erwin envolveu a mulher com os braços, acomodando-se em sua cama estreita. O comandante olhou para mim, enquanto eu pegava as botas de Zoe e as colocava no lugar, junto com as demais. A pior coisa ali seria, com certeza, aguentar a bagunça alheia. Se queriam me punir por alguma coisa, com certeza estavam conseguindo daquele jeito.
– Não sei – respondi enquanto me largava em minha cama também, cruzando os braços atrás da cabeça. – Foi muito…
– Fácil – completou Mike, sentando-se ao pé de minha cama, uma toalha pendurada sobre os ombros. A expressão do homem era cansada, como a nossa própria deveria ser, e senti pena dele. – Podem ter certeza de que as coisas irão piorar. Eles não querem apenas que fiquemos lendo relatórios.
– Eu sei – disse Erwin, sentando-se e puxando Zoe consigo. – Eu sei disso, mas temos nosso plano, não temos?
Concordamos em silêncio, olhando para o capitão. Havia algo em sua expressão que parecia diferente do que estávamos acostumados, mas eu não soube identificar o que era. Talvez agora que sua relação com a mulher estivesse clara para nós, ele estivesse se sentindo mais tranquilo. Ainda assim, aquilo não era motivo para menos receio. Estávamos no território do inimigo que deixava bem claro querer acabar conosco. Qualquer passo em falso e seria o nosso fim.
– Amanhã pela manhã teremos outra sessão – ele continuou, esfregando os olhos. – E na parte da tarde…
– Eu já sei – respondi, tampando os olhos com os braços cruzados.
A mão de Mike pousou sobre minha canela com um pouco de força, provocando um pouco de dor, que não me importei.
– Vai dar tudo certo, Levi – ele falou, a voz grossa.
– Eu espero que sim – respondi em um sussurro.
Eu já quase pegava no sono quando escutei um farfalhar de asas e uma bicada na janela. Apoiei o corpo nos cotovelos e me levantei para ver uma ave velha bicando o vidro, olhando para mim. Finalmente, pensei, adiantando-me até o animal e retirando os rolos de papel presos em sua pata. Os desenrolei e li à luz da lua, mandando a ave de volta. Eu não iria escrever a eles em resposta, apenas iria ler e fazer minhas próprias anotações.
Os primeiros relatórios eram de Bertolt e Nanaba, e contavam o que haviam feito durante o dia, ressaltando que a tal Mikaella era cruel e não sabia tratar aos outros. O relatório de Nanaba dizia que as refeições foram reduzidas a duas por dia, apenas, de forma a otimizar o tempo e colocar os soldados por mais tempo em treinamento. Aquilo era ridículo, e foi minha primeira anotação. Não deixar os homens sem comida. Pessoas fracas não rendem e, se aquele era o pensamento que a capital tinha em relação aos soldados… bom, então teríamos mais a fazer ali em Mitras do que imaginávamos.
O de Jean não dizia nada muito conclusivo, apenas que estavam todos muito machucados devido ao treinamento físico. O homem chamado Nigel batera em Sasha até que beirasse à inconsciência, e nenhum deles pode fazer nada, pois estavam todos tão feridos quanto a garota. Aquilo me enfureceu de uma forma violenta. Como alguém poderia encostar um dedo sequer em meus soldados? Ainda mais daquela forma, deixando-os quase mortos de tanto apanhar? Qual era a necessidade daquilo, e por que estavam agindo daquele jeito?
Amassei a folha, o corpo tomado de ódio e pulei o relatório de Gelgar direto para o de Ackerman. Eu precisava saber o que estava acontecendo com Eren. Meu peito se contraiu quando comecei a ler, os olhos correndo linha por linha mais de uma vez, sem saber qual reação processar. Haviam… batido no meu garoto no momento em que eu saí? Não esperaram nem que sumíssemos? E como eu não escutara a agitação? Por que eu não voltei? Um bolo se formou na boca de meu estômago quando li as palavras disformes de Mikasa contando-me da surra que deram na garota por proteger Eren quando não conseguiu se transformar, e odiei aqueles policiais ainda mais quando li que quebraram as mãos de Ymir.
Mas o ponto mais forte, o pico de toda a minha raiva foi quando cheguei ao último parágrafo e lia-se que Eren havia sido preso pois "seus poderes eram por demais inconstantes para que o garoto continuasse a andar empertigado pelo quartel general". Mikasa havia escrito aquilo dizendo que foram essas as palavras que Caius disse quando acorrentaram o corpo de Jaeger à cama. Eu podia sentir a raiva nas suas frases, porque se havia algo que compartilhávamos, era o amor por Eren e aquele sentimento forte de proteção. Respirei fundo, buscando discernimento para ler o restante do relatório e uma pontada de alívio me invadiu quando Ackerman disse que estariam se revezando para alimentar Eren, e que continuariam com as observações.
A garota terminava a carta desculpando-se pelo que havia ocorrido com seu irmão e dizendo que iria se reparar comigo.
Mas não havia nada que ela pudesse fazer, porque não era sua culpa. Os portões do inferno haviam se aberto no momento em que deixamos o quartel general e agora os demônios faziam a festa.
Levantei-me da mesa, deixando as folhas com as anotações dos meus soldados sobre a mesa de cabeceira de Erwin, que roncava pesadamente, o corpo de Hange ainda entre seus braços, calcei minhas botas mais escuras, uma calça preta e meu sobre-tudo também negro. Retirei aquele punhal que Kenny havia me dado quando me ensinou a matar minha primeira vítima e o guardei no cós da calça, bem na base das costas. Saí do quarto sem fazer um barulho e caminhei em direção ao quarto de Nile, o policial que estudara com Erwin na época da academia.
Entrei sem bater e encontrei o homem sentado à mesa, com uma vela iluminando-lhe o rosto de forma assustadora, e ele deu um pulo quando me viu chegar. Vi seus olhos procurarem algo para se defender, mas ele era lento demais. Avancei em sua direção, sacando o punhal e encostando-o em seu pescoço, o outro braço segurando seu peito, as costas de encontro à parede.
– O que você está fazendo, Levi? – ele perguntou, tentando soltar-se de mim, sem sucesso. – Perdeu a cabeça?
– Quem perdeu a cabeça foram vocês, Dok – respondi, a voz não passando de um sibilo. – O que os seus soldadinhos estão aprontando no meu quartel, hein?
Prensei a faca com um pouco mais de força contra a pele do homem e vi a primeira linha vermelha se formar em gotículas de sangue que começavam a manchar minha lâmina. Em minha cabeça, eu ouvia a voz perguntando-me o que eu estava fazendo ali, mas nenhuma resposta conseguia se formar em meus pensamentos, porque a única coisa que eu conseguia ver em minha frente era Eren algemado à cama, Jean e os outros sendo espancados e as mãos de Ymir, aquela garota estranha que nunca trocou nem mesmo uma palavra comigo, esmagadas por um bando de pessoas que não deveriam estar ali. Alguém deveria pagar por aquilo. E que fosse Nile.
– Eles estão lá apenas para…
Meu punho cerrado acertou a boca do homem e, como já havia se provado ser minha especialidade, o homem cuspiu um dente no chão, junto com saliva e sangue. Senti um prazer maligno se formar em mim. Em toda a minha insanidade, era como se estivesse vingando Eren e os outros. Segurei o Dok pela gola da camisa e o lancei em direção ao chão, passando minhas pernas por cima das suas e segurando o punhal com ambas as mãos sobre seu peito.
– Levi…
– Agora… – vociferei, olhando dentro de seus olhos e vendo meus próprios demônios interiores refletidos neles à luz da vela que ainda estava sobre a mesa, inundando-nos em penumbra. – Agora você vai me contar palavra por palavra tudo o que os seus homens estão fazendo no meu quartel e o porque.
Nile engoliu em seco, olhando para mim, a boca entreaberta escorrendo baba e sangue, o coração disparado e todo o corpo paralisado pelo medo. Eu não gostava de ser assustador, não gostava que qualquer um exceto os titãs me temessem, mas, naquele momento, eu precisava reunir todas as informações necessárias para que pudesse lutar pelos meus. Passou-se um tempo sem que o Nile dissesse uma palavra e, então, desci o punhal em direção aos seus dedos.
– Você tem dez chances, Dok – falei, deslizando a ponta da faca suavemente pela pele calejada de suas mãos. – Não vamos prolongar isso mais do que o necessário, vamos?
Ele negou com a cabeça.
– Bom… – falei, permitindo-me um sorriso. – Então comece a falar antes que a minha paciência se acabe e você passe a me responder depois de perder alguns dedos.
– Está bem! – Ele exclamou, a voz carregada de horror. – Está bem, capitão, eu direi!
Esperei, ainda com o corpo sobre o seu, sentindo gotas de suor escorrerem pelo meu corpo, e o coração batendo em um ritmo frenético, mas que em nada alterou minha calma. Pensei novamente em Eren e em como ele deveria estar naquele momento, se já me odiava por tê-lo deixado e o acondicionado aquilo, e se sentiria minha falta. Pedi de todo coração que ele soubesse que eu o protegeria mesmo à distância e, quando chegasse, daria cabo de todos aqueles que encostaram em seu corpo e em seus amigos. Além de tudo, aquelas pessoas eram a minha família. E não se mexe com a família.
– O conselho destacou os piores da companhia para o seu quartel – começou Nile, tossindo um pouco mais, colocando ainda mais sangue para fora. – Porque queriam suprimir os soldados da Tropa de Exploração enquanto vocês estivessem fora. Caius, Nigel e Mikaella são da guarda pessoal do próprio rei, matam qualquer um que se aproximar de sua majestade… – ele tossiu. Pressionei minha faca com um pouco mais de força contra sua garganta.
– Não é hora para tossir, Dok – falei, sabendo que aquilo soava irracional. – Continue a porra da sua narrativa porque a minha paciência já está acabando.
– O plano era mandá-los e usar de tortura física e psicológica para persuadi-los a deixar a sua tropa… – mais tosse – e dissecar as partes de titã de Jaeger depois que ele saísse da tropa. Eles usariam esses métodos para manipular o garoto e colocá-lo de acordo com o plano inicial, antes de vocês o roubarem de nós.
Meu sangue voltou a ferver. Como seres humanos conseguiam ser tão desprezíveis?
– E isso justifica trancá-lo? E surrar todos os meus soldados?
– Eles trancariam Eren e o deixariam sem comida para que seu corpo ficasse ainda mais fraco – Dok falou, a voz não passava de um sussurro. – E assim seria mais fácil manipulá-lo…
Suspirei. Então era isso. Aquele circo todo montado para nos tirar do quartel não era nada além de uma desculpa para deixarmos nossos soldados desprotegidos e atacarem como um bando de animais em nosso ninho. Mas aquilo acabava ali. Eu enfrentaria aquele bando de seres desprezíveis e os colocaria em seu lugar. Ninguém tinha o direito de fazer aquilo.
– Tem mais um coisa… – começou Nigel enquanto eu me levantava.
– O que é? – perguntei, rasgando um pedaço do seu lençol e limpando as manchas de sangue em minha faca e nos nós dos meus dedos.
– Eles estão interessados particularmente naquela garota…
– Mikasa? – Questionei, aquela me parecendo a única opção plausível que despertasse interesse nos policiais pelo nível de suas habilidades.
Mas Nile Dok se limitou a negar com a cabeça. Senti-me confuso antes de flexionar as pernas, ignorando a pontada de dor que trespassou meu joelho, e agachar-me ao seu lado. Segurei sua cabeça, emaranhando seus cabelos em meus dedos e os puxando para cima, fazendo seus olhos encontrarem-se com os meus. Ele passou a língua pelos lábios e sua boca se curvou em um sorriso triste.
– É, Levi… se vocês acharam que tinham o que se preocupar… – Nile falava com um tom triste, diferente do que eu esperava. – Vocês ainda não viram metade da podridão que cerca a Polícia e o rei.
– Do que você está falando?
– Os policiais estão atrás de Krista Lenz – ele disse e, pela minha expressão confusa, entendeu que eu não havia entendido. – Essa garota é a única chance que vocês têm de descobrir o que há de errado com o mundo. Ela é a verdadeira rainha, a única herdeira viva da família Reiss.
Meus olhos se arregalaram instantaneamente. Não era possível… aquele era somente um boato que corria pelas fileiras da Tropa de Exploração, e nós já havíamos deixado de acreditar naquilo há muitos anos.
– Isso não é possível… – murmurei, dando voz aos pensamentos.
– Pois é, Levi. Vocês ainda não viram nada.
