Passei as mãos pelos ombros e senti as pontas dos ossos se projetando para fora. Eu estava sujo e magro além da conta, com os cabelos caindo pelo meu rosto quase chegando à base do pescoço. Eu não tinha muita noção de tempo – ali no subsolo não havia janelas e a minha cela era a última, de forma que a luz do dia não chegava até mim quando a porta era aberta. A pouca ideia que eu tinha de tempo era com base nas poucas horas de sono que tinha, e por ela eu contava os dias que tinham se passado, mesmo que soubesse que não poderia confiar muito na minha contagem. Eu aprendera a disfarçar a fome com sono e, por isso, eu dormia demais, até se acordado com alguns pontapés na costela e um copo com água sendo despejado pela minha goela a baixo.

Mikasa e Jean pararam de aparecer depois de alguns dias e imaginei que as coisas tivessem ficado feias para eles. Mas o sentimento ruim que senti no começo também passou. Eu não tinha muita energia para pensar, então me limitava a manter o corpo estirado no catre, os olhos vidrados no teto escuro da cela, tão sujo que faria Levi ter um colapso.

Levi.

Eu sentia falta do capitão. Não somente de Levi como um homem, o meu homem, mas como a figura de poder que nos protegia e nos tornava soldados de verdade. Senti falta do comandante e da tenente Hange, da sua voz estridente e da forma que ela me sufocava quando me atolava de papel para que eu descrevesse minhas sensações quando titã. Minha cabeça vagou pelo vazio negro que havia se instalado em mim naqueles últimos tempos e não escutei quando as grades da cela se abriram e Johanna apareceu com o rosto logo acima do meu, inclinada em minha direção com mais um copo com água. Eu já estava começando a odiar aquele líquido, e sentia que meu corpo, logo, logo, se desfaria em água de tanta que eu bebia.

– Abra a boca, Jaeger – ela disse, já despejando em minha boca antes que eu conseguisse afastar os lábios. – Engula.

Deixei a água escorrer pelos cantos de meu rosto, umedeci os lábios com a língua e engoli o pouco que conseguiu entrar para minha garganta. Estava fria, como tudo ali. Frio e sem vida, e, ao contrário do que deveria fazer, pareceu sugar ainda mais da pouca força que eu tinha ao invés de me dar mais. Meu coração voltou a pedir por Levi, por ajuda, por socorro ou por, pelo menos, notícias do que estava acontecendo lá fora.

Tentei balbuciar alguma coisa e senti um gosto ruim invadir a minha boca; tanto tempo sem comida fazia parecer que havia algo morto dentro de mim, apodrecendo, e aquele cheio horrível vinha à tona sempre que eu tentava falar alguma coisa. Tossi um pouco, a água entrando pelo buraco errado e saindo pelo meu nariz. E pela primeira vez, vi algo de humano naquela policial. Ela pegou uma ponta do meu lençol sujo e limpou a sujeira em meu rosto. Um meio sorriso rápido se formou em seus lábios, mas sumiu na mesma rapidez com que aparecera. A mulher afastou os cabelos soltos e sussurrou em meu ouvido:

– Eu sinto muito, rapaz. – E saiu.

Meus olhos se arregalaram. Senti uma risada gutural se formar em meu peito. Aquela mulher estava demonstrando um pouco de humanidade? Acho que eu já começara a delirar, não havia outra explicação. Depois de todos aqueles momentos, aqueles dias intermináveis de dormir, beber água, mijar em um balde e ser rebaixado à condição de sobrevivência, aquela era a coisa mais sensível que eu escutava. Mas aquele pedido de desculpa apenas fez acender uma centelha em meu peito que havia se apagado nos primeiros dias sem comida. Eu havia me entregado, mas quando Johanna aparecera com uma porção de meias palavras vazias, todo aquele fogo voltou.

Ergui-me na cama, encostando as costas na parede e observei as barras à minha frente, de ferro escuro e parcialmente enferrujado. Puxei um punhado de ar, sentindo os pulmões queimarem e não me importei. Rasguei uma barra do lençol e amarrei as pontas, usando aquele círculo de pano para prender meus cabelos no topo da cabeça. Meus membros protestaram ao esforço, tamanha a minha fraqueza, mas mais uma vez os ignorei, jogando os pés para fora da cama e me firmando no chão, sentindo o piso de pedra fria lançar um choque pela sola dos pés até minha espinha.

Fraquejei um pouco, os joelhos ameaçando ceder e os forcei um pouco mais. Eu precisava reagir. Por que eu havia me entregue àquele marasmo? Onde estava toda a vivacidade que me colocara ali em primeiro lugar? Eu precisava me curar, me transformar, eu precisava ajudar meus amigos e colocar aquele lugar em ordem. Em minha cabeça, eu sabia que se visse Mikasa, e me juntasse à minha irmã, nós conseguiríamos cuidar uns dos outros. Todo aquele choque inicial só serviu para testar a força dos soldados da Tropa de Exploração, e nós havíamos falhado miseravelmente, cedendo.

Perguntei-me como estaria Ymir, se já teria se curado, se suas mãos estavam bem. Pensei em Mikasa também, mais uma vez tentando me lembrar de seu rosto da última vez que a vi. O hematoma no rosto estava muito melhor, mas ela exibia marcas nos braços e nos pescoços, como se alguém a tivesse apertado com força. Sua voz, inclusive, estava muito mais grossa do que era normalmente. Boom. Mais uma vez o calor voltou a percorrer meus braços, minhas pernas, meu coração. As correntes limitaram meu trajeto até as barras, e as puxei com mais força, sentindo o atrito do ferro contra os meus pulsos abrir as feridas que já estavam cobertas com sangue seco mais uma vez.

A dor foi lancinante por um momento rápido, mas voltei a bloqueá-la em minha mente quando senti o sangue quente escorrer pelos meus pulsos e meus tornozelos. Era a primeira coisa quente que eu sentia em dias, e aquilo teria que me dar alguma força. Fechei os olhos, respirei fundo, prendendo um pouco mais daquele ar ácido dentro de meu peito e berrei. Berrei o mais alto que pude.

E parei, sentindo uma leve tontura se apossar de meu corpo, por pouco não caindo no chão. Apoiei as mãos nos joelhos, respirei mais um vez, tentando gritar novamente.

Porém, antes que o fizesse, escutei a porta se abrir, a tranca girando e um par de botas de saltos descer os degraus fazendo aquele barulho oco e seco. Um par de olhos avermelhados cruzou meu campo de visão quando levantei o rosto, e um emaranhado de cabelos quase os cobria. Nigel se inclinou em minha direção, olhando para mim de cima para baixo, a expressão contorcida naquilo que eu já descobrira ser seu normal – um rosto demoníaco, dando a entender que faria algum mal a qualquer momento.

– O que você está fazendo, Jaeger?

– Eu quero sair – falei entre dentes, sentindo o gosto em minha boca descer pela minha garganta. Escarrei no chão e continuei. – Eu vou me transformar.

– Ah, é? – Perguntou Nigel com escárnio. – E por que agora eu devo acreditar em você, garoto? Você não achar que já fez muita hora com a nossa cara?

– Como?… – Ofeguei, levantando a cabeça e sentindo umas mechas de cabelo soltarem-se da amarração improvisada que eu fizera. – Eu não fiz hora com a sua cara, senhor – frisei a última palavra, lembrando-me do "incidente" de dias atrás.

Pelo visto, Nigel também não se esquecera, pois seus olhos se estreitaram em uma fenda e esquadrinharam todo meu corpo, possivelmente procurando um lugar que ainda não estava fraco o suficiente para que me acertasse. Novamente aquele prazer estranho se apossou de mim enquanto eu estudava sua reação, e pedi, internamente, que ele viesse para cima de mim. Eu não conseguiria reagir, é claro, mas eu teria o prazer de descontar futuramente tudo aquilo. Em minha cabeça, eu já estava traçando meu próprio plano de vingança mesmo que não houvesse sofrido tanto quanto meus companheiros. Aquela era a minha família. E não se mexe com a família.

– Não? – voltou a falar o homem, inclinando-se em direção às barras, segurando-as com suas mãos que, pelo que observei, tinham uma cor escarlate que eu já sabia de onde vinha. – O que você esteve fazendo preso aqui em baixo, então?

Senti aquela risada se formar em meu peito, mas a reprimi com toda a força que eu tinha.

– Estive preso… talvez?

Nigel sorriu para mim aquele sorriso de demônio. O homem sabia que não tinha argumentos contra mim e eu não entendia o porquê de ainda tentar sustentar aquela discussão. Mas, ao mesmo tempo, eu sabia que a estava perdendo uma vez que o outro não demonstrava sinais de que iria me soltar conforme eu queria. Suspirei, tentando buscar dentro de minha mente algo que pudesse ser usado de bagatela, mas nada veio às claras exceto o rosto de Levi.

Ah, Levi… como eu sentia sua falta.

Levi!

– O capitão sabe o que vocês estão fazendo lá em cima, Nigel? – Perguntei, lembrando-me que Levi não era apenas meu namorado, era meu capitão e que esses loucos deveriam prestar contas a ele e ao comandante quando voltassem. – Porque, eu acredito – continuei, tentando manter a postura confiante –, o capitão gostaria de ver avanço de seus soldados quando voltasse, e o comandante com certeza ficaria intrigado com o fato de que vocês me mantiveram aqui por tanto tempo ao invés de explorar minhas habilidades que, como vocês mesmos disseram, estavam sendo negligenciadas.

Dei de ombros na melhor imitação de Levi que consegui.

– É meio hipócrita da parte de vocês, não? – Me arrastei de volta para a cama, as correntes batendo umas nas outras e no chão enquanto eu me sentava sobre o catre. Eu precisava apenas esperar que surtisse o efeito de minhas palavras tal qual eu desejava.

Lembra-me do capitão, e usá-lo como chantagem fez com que eu me sentisse o ser humano mais desprezível, e contar com a sua força para que nos vingasse, ainda mais, mas fora preciso. Era mais do que uma necessidade que eu saísse dali e me encontrasse com Mikasa e os outros, e visse como estavam. Eu precisava saber de Ymir e suas mãos, precisava saber como estava o andamento dos relatórios; naquele momento, eu me sentia como um guardião que falhou em sua missão e precisava urgentemente recuperar o tempo perdido. Eu também era um par de olhos para Levi e Erwin lá dentro, e nada iria me desviar daquilo. Não mais.

– Usar seu namoradinho não vai me assustar, Jaeger – respondeu-me Nigel, levando as mãos aos bolsos e tirando uma corrente de lá. Seu tom não me agradou e só fez atiçar ainda mais o fogo dentro de mim, mas me contive.

Vi que o havia convencido quando ouvi o som da chave na fechadura, e aquele ranger seco de metal contra metal dar lugar à liberdade, um par de botas ecoando no piso de pedra e, uma por uma, as algemas sendo retiradas de meus pulsos e tornozelos. Senti dor ao ser libertado aquele peso que se tornara familiar para mim, e algumas cascas de ferida seca voltaram a se abrir – estas haviam se colado às algemas, e a separação brusca só fez as feridas se reabrirem.

Esfreguei levemente as mãos e bati os pés no chão, como que provando aquela nova liberdade e ajeitei precariamente os trapos sujos que eu chamara de roupa dias atrás. Nigel segurou-me grosseiramente pelo cotovelo, colocando-me de pé e arrastando-me para fora, mal me dando tempo de olhar para minha cela. Enquanto eu subia os degraus do porão pela primeira vez em tanto tempo, dei uma rápida olhadela para trás e me prometi que nunca, nunca mais voltaria a pisar naquele lugar e, se o fizesse, eu nunca mais passaria mais do que algumas horas ali. E, como todas as promessas que eu me fazia, ainda que me custasse muito esforço, eu a cumpriria. Eu me tornaria um adulto como Levi – eu não faria muitas promessas, eu cumpriria muitas promessas.

Suspirei, sentindo a cabeça bater de encontro à porta quando Nigel me usou como uma espécie de suporte humano para abri-la, e fui recebido por raios de sol que me cegaram momentaneamente, atingindo-me como uma espada afiada e fazendo todo meu corpo puro-osso fraquejar. O homem que me arrastava firmou meus pés no chão, soltando meu cotovelo e cutucando-me nas costelas para que eu andasse. E, assim que meus olhos se acostumaram à luz, enxerguei um campo de treinamento vazio, sem árvores, apenas uma viva alma de pé no meio da antiga clareira.

O cachecol vermelho de Mikasa voava no sentido do vento, indo para leste, quase se desprendendo de seu pescoço como se ele mesmo pedisse por liberdade. As mãos de minha irmã repousavam sobre as lâminas em sua cintura, e, de costas para mim, ela me parecia tão… serena. Adiantei-me em sua direção e fui rudemente retido pelas mãos daquele maníaco, que se abaixou e sussurrou em meu ouvido:

– Não faça besteiras, Jaeger – ele levou dois dedos aos olhos. – Estou de olho em você.

Desvencilhei-me de seu aperto e dei de ombros novamente. Caminhei com o máximo de rapidez que minhas pernas ossudas me permitiam e alcancei minha irmã, a mão esticada em sua direção, tocando seu ombro e recebendo um par de olhos naturalmente estreitos, escuros e vazios, buscando a origem daquele toque que, eu tive certeza no momento em que um fino sorriso brotou em seus lábios, era o primeiro em muito tempo. Os braços de Mikasa se fecharam em volta do meu corpo, provocando uma série de ondas de dor, mas me deixei consumir por aquele momento. Como era bom estar do lado de fora!

– Eren, como deixaram?... – uma lágrima solitária brotou em seus olhos no momento em que ela me soltou, passando as mãos pelos meus cabelos, meus ombros, meus braços. – Você está tão magro…

- Ei, calma – falei, levantando as palmas das mãos em sinal de rendição. – Eu… eu apenas consegui sair. Disse a Nigel que me transformaria, e também usei o fato de que Levi não gostaria que estivéssemos fora de forma.

Vi minha irmã lançar um olhar apreensivo para o lugar de onde eu viera instantes atrás e virei meu rosto também, procurando o homem que me trouxera e encontrando apenas o vazio. Ele era realmente um demônio que sumia e aparecia nos lugares do nada, sem que esperássemos. Suspirei, virando-me de volta.

– Onde estão os outros? – Perguntei, vendo uma expressão estranha cruzar o semblante de Mikasa.

– Venha, vamos entrar – ela me pegou pela mão, ignorando o que eu havia dito antes. – Você precisa de um banho e de uma sopa.

– Mikasa…

– Eren, aqui não – sua voz era apreensiva, carregada com um medo que eu nunca havia sentido antes. – Só me escuta dessa vez, ok?

Assenti, contrariado. Eu custara conseguir sair e queria respostas. Todo o resto poderia esperar. Escutei meu estomago reclamar ao pensamento e concordei que nem tudo poderia esperar, então. Eu realmente precisava comer. Mikasa me acompanhou até o corredor do primeiro andar onde os soldados tinham o vestiário e os quartos, e ela esperou encostada na parede do lado de fora até que eu me banhasse. Arrastei os pés para dentro do cubículo do chuveiro, sentindo uma leve nostalgia se apoderar de mim; fazia muito tempo desde que eu não pisava naquele lugar.

Tirei as roupas, deixando-as caírem no chão, olhando-as de cima com nojo. Eu tinha certeza que Levi também teria nojo de mim, e aquele pensamento fez-me sentir ainda pior, se é que isso era possível. Soltei o tecido em meu cabelo, deixando-o cair pelos meus ombros, tamanha a rapidez com que cresceram. Decidi que os lavaria antes de cortar, e entrei de cabeça na água gelada do chuveiro. Aquele primeiro banho em dias me pareceu como o paraíso, a água escorrendo pelo meu corpo junto com o sabão e lavando todas aquelas impurezas que se acumularam ali por tanto tempo, desconvidadas e inconvenientes. Esfreguei todos os centímetros de pele que eu tinha ao meu alcance até que ficassem em carne viva.

A todo o momento, meus pensamentos me traíam, levando-me de volta a Levi, e ao que ele pensaria de mim se me visse magro daquela forma e tão sujo. Deixei a água escorrer pelos cabelos, ensaboando-os mais de uma vez, esfregando as unhas no couro cabeludo até que elas começaram a voltar com resquícios de sangue embaixo de si. Desliguei o chuveiro, deixando a água escorrer por si só, sem interromper o processo natural. Um vento frio passou correndo pelo meu corpo, e tentei ser como Levi, sentir a vibração das coisas pelas correntes de ar. Mas a única coisa que senti foi meus pelos se eriçarem, e, finalmente, me enrolei na toalha e saí.

Meu armário ainda estava da mesma forma que eu deixara; girei a tranca com meu código e abri a portinhola de ferro, retirando de lá uma cueca, uma calça e uma camisa, vestindo as e largando a toalha sobre o banco de madeira. Olhei-me no espelho, acreditando estar vendo a mim mesmo dentro de um corpo de um estranho. Olheiras profundas circulavam meus olhos e, além dos ossos nos outros lugares mais protuberantes, minhas bochechas estavam… chupadas, como se não tivesse nada de carne ali. Sacudi a cabeça, desarrumando os cabelos e, surpreendendo-me, gostei do resultado desarrumado que obtive.

Saí e encontrei Mikasa parada na mesma posição onde a deixei, os braços cruzados em frente ao peito, olhos fechados e um dos pés encostado na parede. Parecendo sentir minha chegada, minha irmã levantou os olhos, recebendo-me com aquele mesmo sorriso de antes, caloroso e sincero. Um sorriso que encheu meu coração. Ela voltou a tomar meus dedos entrelaçados nos seus e me puxou em direção ao refeitório.

– Vou pegar um pouco de sopa para você – ela falou, olhando em todas as esquinas de corredor antes de prosseguirmos. – Depois, vamos conversar. Irei te colocar a par de tudo o que está acontecendo.

– Ok – respondi, concordando.

Chegamos ao refeitório e outro ambiente novo para mim se apresentou. Todas as cadeiras haviam sido substituídas por bancos de madeira sem encosto, e as mesas eram ainda mais estreitas. Mikasa me guiou até uma delas e me sentou, indo até as portas da cozinha e voltando com uma tigela funda e um pedaço pequeno de pão nas mãos. Sentou-se à minha frente, e, quando estiquei as mãos para pegar a colher, ela me deu um tapa estalado.

– Deixe que eu faço, Eren – ela disse, repreendendo-me com o olhar.

Dei de ombros – eu estava ficando realmente igual a Levi naquele ponto – e deixei que ela fizesse, afinal, eu não queria fazer mais nenhum esforço. Aquele banho sugara todas as minhas forças e eu voltara a me sentir como um inválido esquelético. Mikasa encheu a primeira colherada somente com o caldo ralo da sopa, com uma camada de gordura brilhante por cima, que encheu meus olhos e fez meu estomago roncar mais uma vez.

Abri a boca e senti a sopa preencher minhas papilas gustativas e provocar uma explosão de sabores dentro de minha boca que eu acreditava que nunca mais voltaria a sentir. Engoli rapidamente, sentindo meu corpo reagir mal frente à comida, mas ao mesmo tempo agradecendo-me por ela e, mais uma vez, voltei a abrir os lábios e deixei que Mikasa me alimentasse até o final, com direito a alguns pedaços de pão molhados no caldo que restara quando os legumes se acabaram. Limpei-me com as costas das mãos e pude jurar que sentia meu corpo voltando a preencher aquele vazio entre os ossos que agora se projetavam para fora.

– Obrigado pela refeição – falei, sorrindo para minha irmã.

Ela me devolveu o gesto, afastando a tigela e a colher de nós, e empurrando um copo com água em minha direção.

– Agora, Eren, tome isso. – Ela ordenou, todo aquele tom maternal sumindo de sua voz e a Mikasa líder de esquadrão voltando a aparecer. – E não me interrompa enquanto eu falo.

Assenti, engolindo a água e não desviando meus olhos dos dela nem por um segundo.

– Eren, me desculpe por não levar mais comida para você – ela começou, os olhos ainda duros mas, no fundo, doloridos. – Pegaram Jean com um saco de batatas cozidas, descendo para o subsolo e quebraram o braço dele, e eu decidi que não poderia mais me arriscar. Lamento.

– Não precisa… – comecei, mas logo fui interrompido.

– Eu mandei não me interromper. Beba mais – ela voltou a me dar outro copo cheio de água.

Eu odiava água, eu não queria beber mais água, até porque aquilo fora tudo o que eu tivera naqueles dias de cativeiro e havia me cansado daquele tanto. Eu queria uma bebida forte, café ou chá preto, ou então mais caldo de sopa. Mas, conhecendo minha Irmã como eu conhecia, eu sabia que não haveria mais nada para mim até que ela acabasse de falar. Prendi a respiração, dando mais um gole do copo e terminando-o de uma vez só.

– Agora Jean está bem – ela falou, continuando depois que coloquei o copo de volta à mesa. – Mas não o deixam faltar aos treinos, mesmo ferido. Sasha continua na enfermaria desde o primeiro dia. Sempre que apresenta alguma melhora, colocam-na para lutar novamente e, no mesmo dia, ela volta para lá. Acho que agora tem feito de propósito, só para não ficar entre os outros, passando por esse inferno. Os homens estão pegando leve somente com o esquadrão de Bertolt, porque, de alguma forma, ele possui contatos dentro da Polícia, e usa isso para se safar dos castigos.

– Maldito… – comecei novamente, e Mikasa acertou-me com um tapa na orelha.

– Não diga bobagens de coisas que você não sabe – me repreendeu. – Bertolt e Reiner agora usam esses privilégios para dar comida para nós, que só estamos comendo duas vezes ao dia e treinando como loucos. O restante de nós de divide entre quase mortos por feridas e os quase mortos de raiva – uma risadinha triste escapou de seus lábios. – Acho que estou beirando o "quase morto de raiva" e o "quase matando de raiva".

Senti um pouco de pena de Mikasa. Estávamos todos tão fodidos ali dentro que eu apenas conseguia pensar em nós mesmos como um corpo só, sofrendo as mesmas penalidades por coisas que não havíamos feito. Em momento algum eu pensara que, individualmente, cada um tinha seu próprio fardo, e que talvez minha irmã tivesse carregando um pesado além da conta. Pobre Mikasa… tão forte e, ao mesmo tempo, tão fraca. Estiquei os braços e a trouxe para mais perto de mim, notando sua surpresa quando deitei sua cabeça em meu peito. Afaguei seus cabelos e suas costas, tentando encontrar um pouco de paz para que eu pudesse dar à ela.

– Mikasa… nós vamos mudar isso – falei, a voz um pouco rouca ainda. Uma ligeira dor de cabeça se instalava em minha testa e fechei os olhos tentando espantá-la. – Vamos começar mandando uma ave até o capitão… ele precisa saber que fui solto. Depois, vamos à enfermaria. Preciso ver os outros.

Mikasa assentiu, o rosto ainda afundado em mim, mas pude sentir seu coração bater um pouco mais vivo contra meu peito. As coisas mudariam ali dentro do quartel. Eu não consegui imaginar o porquê de termos entregado os pontos tão facilmente, mas, com a mesma facilidade, os recolheríamos de volta.

Mikasa terminou a carta com sua assinatura, somente o sobrenome, e um risco fino por baixo com uma curva no final. Esticou o papel para mim, junto com a caneta que usara.

– Não preciso ler… – comecei, mas ela me lançara um olhar severo.

– Não é para você ler – cortou-me, rispidamente. – Desculpe… só… só escreva para o capitão que você está bem, com a sua letra mesmo. Ele vai acreditar mais.

– Ah… – falei, constrangido.

Peguei a caneta e, no canto do papel, escrevi rapidamente meu nome e, abaixo, em letras ainda menores, ruborizando por Mikasa estar lendo, escrevi "sinto sua falta". Se aquilo não o convencesse de que eu estava bem, nada o faria. Suspirei, dobrando folha rapidamente para não dar chance de Mikasa voltar a ler o que estava escrito, enrolando-a em seguida e prendendo ao pé do falcão negro que aguardava para entregar a mensagem. Caminhamos em direção à janela para soltarmos a ave quando, com um estrondo, a porta foi aberta e uma Mikaella furiosa nos encarava com os olhos em chamas.

– Podem parar por aí… – ela começou e eu podia jurar que saía fumaça de suas narinas. – Vocês não vão enviar mensagens aos seus…

Meu coração voltou a se inflar com aquela raiva que me fizera reagir mais cedo e em um único movimento, lancei o pássaro para o ar, vendo-o bater as asas e voar para longe do quartel. Virei-me para a policial possessa que me encarava e lancei-lhe meu melhor olhar perverso.

– Opa – falei, permitindo-me sorrir em retribuição ao esgar de fúria que saía do fundo de sua garganta. – Já era – dei de ombros.

Ao meu lado, ouvi Mikasa soltar uma risada alta, divertida. Uma das coisas que eu amava em minha irmã era que ela sempre sabia dançar conforme a música e, com certeza, já havia entendido minha intenção de provocar aquela bruxa. Peguei em sua mão, puxando-a em direção à porta, esbarrando propositalmente em Mikaella antes de sair. Escutei-a bufar atrás de mim ao que descemos as escadas sujas às gargalhadas. O sentimento de estar de volta era maravilhoso e, apesar de sentir fraqueza e tontura hora sim, hora não, havia um bem estar se espalhando desde a raiz dos meus cabelos até os dedos dos meus pés.

Chegamos à enfermaria e, para meu alívio, estava menos cheia do que eu pensei que estaria. Apenas quatro dos dez leitos estavam ocupados e o mais distante da porta era o de Sasha. Caminhei até ela e segurei em sua mão, notando alguns hematomas já amarelados começando a se curar. Quando a garota batata abriu os olhos e me viu, uma linha fina se verteu em sorriso em seus lábios e ela apertou meus dedos. Não foi preciso dizer nada para que eu soubesse que ela estava aliviada em me ver, da mesma forma que eu também estava em vê-la. Ficamos em silêncio até que ela bocejou e fechou os olhos novamente, rapidamente entregue a um sono leve, a expressão mais tranquila.

– Mikasa – comecei –, por que ninguém está treinando hoje?

– Os policiais disseram que hoje era nosso dia de… folga – ela fez o sinal de aspas com as mãos. – É o segundo que temos, e nesses dias eles não nos perturbam.

Cruzamos o pátio em direção ao prédio, passando pela rampa rapidamente enquanto ela me dava apoio para subir os degraus; descer era muito mais fácil do que o contrário para alguém na minha condição. A cada passo que eu dava parecia que minhas pernas iriam quebrar em milhares de pedacinhos. Chegamos à sala comum e nos sentamos em um dos sofás. Deixei minha cabeça pender para trás naquilo que era o mais fisicamente confortável que eu sentia em tempos. Escutei a porta se abrir e logo Connie e Jean entraram em meu campo de visão, Connie aparentando estar bem e Kirstein com o braço direito em uma tipoia.

Quem eu queria ver, pensei.

Os dois se acomodaram à nossa frente, ambos cruzando os pés sobre a mesa de centro e me encarando.

– Desculpa, cara – pediu Jean, a expressão assumindo uma humildade que chegou a doer em mim. – Pela comida.

– Não tem o que desculpar, Kirstein – respondi, dando de ombros novamente. – Está tudo bem.

– Não, cara… – ele voltou a falar, mas Connie o cutucou com o cotovelo bem nas costelas. – Ai!

– Pare de ficar se lamentando por aí, Kirstein – falou Connie, inclinando-se para frente, apoiando os cotovelos nos joelhos. – E você, Eren, como você está?

Sacudi os ombros.

– Bem, acho – respondi, passando as mãos pelos cabelos compridos. Eu estava começando a me acostumar com eles. – Preocupado com as coisas. Com Sasha.

O rosto de Springer ruborizou levemente e pude notar que ali havia algo que ele não estava me contando. Deixei passar pela situação, mas anotei mentalmente que voltaria a perguntar. Senti-me bem pelo pensamento e por notar que mesmo no meio de toda aquela desgraça, eu ainda conseguia me sentir com a idade que de fato tinha, um adolescente preocupado com a vida dos amigos. Deixei um sorriso brincar pelos meus lábios antes de ser trazido de volta pela voz de Jean. Ele parecia mais velho e mais maduro naquela hora e não pude evitar a estranheza que aquilo me causava.

– Precisamos fazer algo – ele começou e Mikasa assentiu em concordância. – Eu queria poder ter um lugar para levar o pessoal machucado… aqui eles não irão melhorar… não com esses abutres nos circulando como se fôssemos carniça.

– Exato – disse Mikasa, apoiando o queixo entre os dedos. – Precisamos de um escape, um lugar seguro para levarmos os mais fracos para que possamos agir.

– Mas para onde? – Perguntou Jean, ajeitando o braço na tipoia.

– Para a minha casa – falei sem nem mesmo pensar nas palavras antes. Elas simplesmente saíram involuntariamente de meus lábios. – Levi me deu… – meu rosto esquentou – uma cabana na floresta.

Um silêncio pesado se abateu sobre nós quatro enquanto três pares de olhos arregalados se voltavam em minha direção, sendo os de Mikasa os mais surpresos. Notei Jean começando a rir abertamente, enquanto eu sentia a vermelhidão de meu pescoço se apossar de minhas orelhas e meu pescoço, e meu coração começar a disparar no peito. Por que eu estava sentindo vergonha de dizer aquilo? Afinal, a cabana era minha, não é? Levi a dera para mim em meu aniversário, era a nossa casa e não havia nada de errado em cedê-la aos meus companheiros naquele momento de necessidade. Voltei a dar de ombros, desviando o olhar para o lado, evitando qualquer contato visual com os outros.

– Podemos levar Sasha e os outros para lá – continuei, esforçando-me ao máximo para falar com a voz firme. – Durante a madrugada… como é a patrulha deles?

Connie pigarreou, ainda lutando contra a risada. Pelo menos nesse ponto ele era melhor que Jean e se esforçava para não me fazer sentir ainda mais vergonha do que eu sentia, e voltou a se inclinar, limpando uma lágrima do canto do olho.

– Eles não patrulham de madrugada – ele respondeu, a voz ainda fraquejando. – Desculpa, cara, mas o capitão te deu uma casa?

– Mais ou menos isso – falei, ainda sem olhá-lo nos olhos.

– Vocês vão se casar, cara?

– Connie, não perca o foco – repreendeu-o Mikasa, a voz séria. – Eren, olhe para cá.

Quando encontrei seus olhos, o rosto de minha irmã estava tão lívido quando o meu, e me esforcei para manter a seriedade. Acenei com a cabeça para que ela falasse, apoiando o rosto na mão de forma a escondê-lo quase completamente. Ao fundo, Kirstein ainda ria, relinchando tal qual um cavalo provando que não havia mesmo nenhum apelido que melhor lhe coubesse.

– Eles nos trancam nos dormitórios, com correntes nas portas – Mikasa respondeu à pergunta que eu havia feito a Connie. – Então não há necessidade de patrulha. Mas eu consegui me esgueirar pela janela um dia para visitar Ymir, logo no começo. Os oficiais se retiram depois da meia-noite e não saem mais, porque acreditam que nós estamos bem trancados.

Mikasa fez uma pausa, limpando a garganta e eu podia quase sentir seu desconforto se esticasse a mão.

– E lá tem lugar para acomodar todos os que estão na enfermaria e alguns dos mais fracos?

– Sim – respondi, sustentando seu olhar.

– O quão longe é essa sua… casa? – A forma que ela pronunciara a última palavra deixou mais do que claro que não estava contente com o fato de que eu escondera sobre a cabana dela.

Um arrepio percorreu minha espinha antes de responder.

– Alguns minutos de cavalo. Talvez quinze – falei, tentando traçar o trajeto a pé, tentando ter alguma noção. – Se fossemos a pé, levaríamos um pouco mais, mas teríamos menos chance de fazer algum barulho…

– Sasha não pode caminhar – me cortou Connie, cruzando os braços em frente ao corpo.

– Você pode carregá-la – falou Jean, mais sério apesar de ainda ter aquele sorriso estúpido no rosto. – Só ela precisa de transporte, e se for só isso, você dá conta, Springer.

– É… acho que sim – ele falou.

Ficamos mais alguns instantes em silêncio. Então a pergunta surgiu em minha mente.

– Por que precisamos transportar essas pessoas?

Os três trocaram um olhar entre si, culpado, e logo voltaram para mim. Quem começou a falar foi Jean, o tom sério voltando a tomar sua voz, dando-me aquela imagem de líder que eu só conseguia ver em Mikasa. Aquele garoto era muito estranho.

– Que bom que você está de volta, Jaeger – ele começou, um novo tipo de sorriso estranho se formando em seus lábios enquanto ele se empertigava no sofá e tirava um papel do bolso da calça com certa dificuldade.

Com uma mão só, ele abriu a folha que estava dobrada em quatro e me mostrou um desenho estranho, estratégico. Nostalgicamente, aquilo me lembrou de Armim. Ele era o melhor naquele tipo de plano e, naquele momento, além de todos os outros, eu senti falta de meu melhor amigo.

– Nós vamos reassumir o controle do quartel assim que tivermos colocado todos os outros em segurança. – Ele apontou para o desenho da área onde ficavam os titãs da tenente. – E que bom que não precisamos resgatar você, porque você entra aqui.

Engoli em seco, sentindo a excitação formigar em meu peito.