Notas iniciais:
Olarrr, galera!
Primeiro de tudo, desculpem por não postar na sexta-feira. Alguns contratempos aconteceram e eu acabei entregando o capítulo para a minha irmã muito em cima da hora e ela só pode betar para me dar hoje. Então, me desculpem, Já me organizei para que isso não volte a acontecer.
Hoje entrego a vocês um dos capítulos que eu mais gostei de escrever e espero que gostem tanto quanto eu. Ele está CHEIO de referências do mangá além do anime, e, nas notas finais, explico todas elas. Quem não quiser ter spoiler, é só não ler; mas, como eu já falei, a pessoa pode ficar um pouco perdida, ou achar que eu estou viajando demais, rs.
Enfim, é isso.
Uma ótima leitura e, mais uma vez, obrigada pelo carinho!
Mikasa nos ensinou naquela noite como conseguiríamos abrir as grades das janelas com a última parte das nossas lâminas, que sempre sobravam dos treinos. Ela entregou um pedaço para mim e um para que Connie abrisse a grade do dormitório que dividia com Jean e os outros garotos. Quando a noite caiu e nos retiramos para a cama, deitei em meu colchão macio no quarto que o comandante arrumara para mim quando entrei para a tropa e esperei até que fosse perto das três da madrugada. Aquele era o horário que os relatórios de Bertolt diziam que os policiais já haviam verificado cada janela das construções e iam para seus próprios quartos.
Calcei as botas por cima da calça branca e amarrei bem meu cinto, ciente de que poderia precisar do DMT caso algo ocorresse diferente do planejado. Olhei-me no espelho uma última vez, sentindo-me a cara da própria morte toda vez que meus olhos caíam sobre aqueles ossos protuberantes e em meu rosto descarnado. Suspirei. Eu precisava me recuperar logo; não queria me sentir como um inútil como sabia que seria durante aquela missão que Mikasa confiara a nós. Vesti a jaqueta, acertando a gola para fora, peguei o pedaço de lâmina que minha irmã me dera e fui até a janela, puxando as cortinas e vendo a pequena fenda pela qual meu corpo teria que passar quando cortasse as grades de ferro.
Comecei a serrar as barras finas, pequenos calos se formando nas voltas das minhas mãos na parte de dentro, doendo um pouco, mas mordi o lábio e segurei a dor. Depois de alguns minutos, um pouco de sangue e faíscas, consegui, finalmente, quebrar a primeira. Faltavam apenas três. Busquei força de algum lugar que não dentro de mim e voltei para minha tarefa. A falta de força física era traiçoeira e eu acreditava que meu cérebro começara a me pregar peças em algum momento, pois minha visão ora escurecia, ora estava límpida e uma pequena tontura fazia com que eu precisasse parar de vez em quando para respirar ou tomar um gole de néctar que roubamos da cozinha antes de irmos nos deitar.
Quando, por fim, acabei, esgueirei-me para o lado de fora, sendo recebido por uma lufada de ar quente de outono. Jean, Connie e Mikasa já me esperavam sob a árvore grande no centro do campo de treinamento e me juntei a eles ofegante, apoiando as mãos nos joelhos e puxando um pouco de ar. Aquele pouco esforço quase me matara e eu precisava de um momento, apesar de saber que nossos minutos eram contados e qualquer um perdido poderia culminar no fracasso da missão.
Senti a mão de Mikasa em minhas costas, afagando-me gentilmente e quando falou, o tom de preocupação era acentuadíssimo em sua voz.
– Você está bem, Eren? – Ela perguntou puxando meu queixo para cima e encontrando o olhar no meu – Quer desistir?
– Nem pensar – respondi, as palavras cortadas entre suspiros – Vamos logo antes que o médico desista de nos ajudar.
Escutei um murmúrio de concordância e caminhamos em direção à enfermaria, escondidos pela sombra que as árvores restantes lançavam no campo aberto – Jean contara que os policiais cortaram grande parte delas para aumentar o perímetro de treinamento. Os odiei um pouco mais por aquilo. A lua estava cheia, no meio do céu, iluminando nosso caminho e fornecendo todos os possíveis esconderijos para que continuássemos em nosso caminho com o mínimo de chance de sermos descobertos. Connie bateu com os nós dos dedos na porta e Dr. Marcel nos recebeu com o rosto apreensivo, suado e ligeiramente assustado. A fresta da porta que o homem abrira fora suficiente apenas para que nos espremêssemos para dentro e ele a trancou com a mesma rapidez com que abrira.
– Eles já estão prontos, doutor? – Perguntou Jean, naquele tom sério.
– Sim – concordou o velho, acertando os óculos no rosto. Notei a falta de Connie e presumi que havia ido até o quarto onde ficavam os leitos. – Por favor, tenham cuidado – nos preveniu o velho –, eu não terei leitos para acomodar vocês também e alguns lá dentro não estão em condições de sofrer mais nem um arranhão.
– Pode deixar – respondi, agradecendo-o com o olhar e indo atrás de Mikasa e Kirstein, que atravessavam o portal.
Encontramos Ymir e Sasha primeiro, a garota abraçada com força ao corpo de Connie, os olhos marejados e a boca se abrindo e fechando como se tentasse dizer algo, porém sem sucesso. Springer afagava os cabelos dela e dizia em sussurros que ficaria tudo bem, que ela ficaria segura e aquilo logo acabaria. Senti uma imensa falta de Levi naquele momento. Ele também dissera que ficaria tudo bem, mas lá estávamos nós, um bando de soldados iniciantes que haviam vivido demais para a idade e de menos para a experiência que aquela noite nos exigia. Suspirei. Se ele estivesse ali tudo seria tão diferente…
– Eren – chamou-me a voz grossa de Ymir e precisei levantar um pouco os olhos para poder encontrar os dela. – Me ajude aqui, cara.
Adiantei-me em sua direção e passei um de seus braços pelos meus ombros, segurando sua cintura desajeitadamente com o outro braço. Ela era um pouco mais forte do que eu imaginava que seria – ou talvez eu estava mesmo mais fraco do que esperava – e rapidamente nos arrastou para longe dali. Estranhei aquele gesto, mas quando me virei para questioná-la, ela negou com a cabeça, silenciosamente pedindo que eu ficasse calado e a seguisse. Quando chegamos ao quarto privado, escuro pela falta de velas, Ymir se soltou de mim e sentou-se na cama feita.
– Jaeger – ela começou –, preciso te pedir um favor.
– Você não está machucada? – Perguntei antes de deixá-la prosseguir. Olhando um pouco mais de perto, a garota estava melhor do que aparentava.
– Não. – Ela me respondeu, coçando o pescoço. Sua expressão parecia… culpada. – Mas não é algo para conversarmos agora. Não é sobre mim que eu quero falar. Andei percebendo que aquele velho… o de barba branca e óculos, cara de mau…
– Caius?
– Isso – Ymir concordou. – Ele demonstra um interesse muito estranho em Krista – sua voz abaixou mais um tom e precisei inclinar-me para escutá-la. – E eu tenho medo que ele faça algo com ela enquanto não estou aqui.
Eu não precisava de iluminação para perceber que o rosto da garota estava vermelho – de tão corado, estava quente e eu podia sentir as ondas de calor me atingindo. Assenti, sabendo que ela entenderia meu gesto e incitando-a a prosseguir.
– Por favor, fique de olho nela. Eu estou realmente preocupada e andei escutando umas conversas de que eles queriam levá-la para a…
Ymir foi interrompida pela silhueta de Mikasa parada à porta, o corpo desenhado contra a luz que vinha do cômodo ao lado. Ela tinha a mão na cintura e segurava um dispositivo, esticando-o em minha direção.
– Está na hora – disse minha irmã, ajudando-me a afivelar o equipamento ao corpo. Anotei mentalmente de agradecer à Bertolt por ter furtado aqueles para nós. Sem a ajuda dele, seria tudo um pouco mais difícil.
Ymir voltou a se pendurar em meu ombro naquela encenação de fraqueza e a levei de volta para o quarto onde as pessoas que seriam transportadas para a minha cabana já nos esperavam com pequenas bolsas de panos com remédios penduradas nos pescoços e braços. Connie carregava Sasha nas costas, segurando as pernas da menina com firmeza em sua cintura. E Jean, mesmo de braço quebrado, segurava um garoto magricela que tinha olhos tão assustados quanto os meus quando vi minha mãe ser devorada pelo titã.
Sacudi a cabeça rapidamente. Por que aquele pensamento estava me ocorrendo naquele momento? Respirei fundo algumas vezes e segui Mikasa, que nos guiava para fora. Ela parou à porta, olhando para ambos os lados duas ou três vezes e acenando com a mão para que a seguíssemos. Foi um longo trajeto até alcançarmos as gárgulas ao lado do portão principal e Jean precisou de toda a sua concentração para abri-lo sem fazer muito barulho; mesmo que a entrada ficasse a uma distância considerável do prédio onde estavam os quartos, qualquer cautela era pouca. Nós não poderíamos ser pegos.
Quando alcançamos a estrada, adiantei-me à frente, levando meus amigos pelo caminho que Levi e eu fizemos quando ele me levara até a cabana que era sua e de seus falecidos parceiros. Engoli em seco diversas vezes, perguntando-me se não o estaria traindo por levar pessoas ao nosso santuário particular – aquelas dúvidas persistiam e martelavam em meu cérebro como pregos e senti o coração se apertar ao imaginar Levi irado e decepcionado comigo. Sacudi a cabeça novamente, afastando aquelas pensamentos. Eu poderia me resolver com ele depois. A prioridade ali era colocar os outros em segurança.
– Caraminholas na cabeça, Jaeger? – Perguntou Ymir com aquele tom de deboche que estava impresso em todas as suas palavras.
– Nada que te interesse – respondi rudemente.
– Hm – ela resmungou, segurando um sorriso dentro do peito e transformando-o em um ronco grave.
Alguns vinte minutos mais tarde, alcançamos a trilha que adentrava pela floresta. Virei para trás, encontrando diversos pares de olhos me pedindo por instruções. Pigarreei, ajeitando Ymir de encontro ao meu corpo – ela era pesada e aquilo já estava desconfortável demais.
– A trilha é escura – comecei, olhando no rosto de cada um ali. – E não há iluminação porque as árvores são muito juntas e a luz da lua não penetrará pela copa delas. Por favor, fiquem juntos e sigam atrás de mim. Como estamos mais distantes do quartel, podem chamar qualquer um de nós – indiquei Mikasa, Jean e Connie, que também arrumava o corpo de uma Sasha já adormecia sobre seus ombros – e iremos ajudá-los.
– Ok – ouvi alguém responder e segui à frente.
Ymir me ajudava a afastar os galhos da entrada e aguardou junto comigo até que todos passassem. Voltamos à frente da pequena formação caminhando a passos lentos, dando a chance de todos nos acompanharem sem muito esforço. E, depois de mais vinte minutos, alcançamos a cabana, a única parte iluminada da floresta, situada no exato centro da clareira. A luz incidia sobre ela e lhe dava toda uma aura estranha. O velho sentimento de casa voltou a me inundar ao mesmo tempo em que a saudade se apertava um pouco mais em meu peito. Eu nunca imaginara ser possível sentir tanta falta de alguém daquela forma, dolorida e sufocante. Meu capitão precisava voltar logo para mim.
Coloquei a chave na fechadura, girando três vezes para a esquerda e uma para a direita, empurrando a porta com o pé e guiando os outros para dentro. Ymir sentou-se por conta própria no sofá, demonstrando aquela força enquanto ninguém havia entrado – seu rosto expressava o tédio por ter que fingir estar fraca. Ela esticou os pés sobre a mesa do centro e me apressei em tirá-los dali. Levi não gostaria daquilo.
Acendi as lamparinas a óleo e, quando o cômodo estava suficientemente iluminado, observei o rosto de todas as seis pessoas que ficariam ali enquanto os outros e eu tentaríamos trazer o quartel de volta para o poder da tropa de exploração.
– Não há camas para todos – indiquei o quarto com o dedo. – Mas vocês podem juntar as três camas do quarto e dormirem horizontalmente, ou dividirem-se no sofá também. Desculpem por isso.
– Não há o que desculpar, Eren – falou Sasha entre um bocejo. – Está ótimo.
Os outros murmuraram em concordância e minhas orelhas esquentaram. Assenti, envergonhado, e saí para a sacada enquanto Mikasa ajudava Connie a acomodar os outros e passava algumas instruções, junto com alguns alimentos que conseguiram furtar. Encostei-me ao mastro de madeira que sustentava o teto da varanda e escutei passos atrás de mim. Virei-me para Jean com aquele semblante de líder que lhe caía melhor do que eu esperava e os olhos cansados, levantados em direção à noite. O modo com que brilhavam me dava um sentimento estranho e senti uma repentina pena de Kirstein.
– Você está bem? – Perguntei ao que ele se sentava na grade, virado para o lado de dentro.
– Não sei, cara – respondeu-me Jean. – Esse braço só fode – ele levantou a tipoia.
– Eu imagino. Desculpe por isso.
– Não é nada – disse ele, os lábios curvando-se em um sorriso vazio. – Mas preciso te pedir um favor, Eren.
– Claro.
– Eu… hm… – Kirstein gaguejou e me empertiguei. Imaginei que pediria para que eu fizesse algo relacionado à Mikasa e eu já me preparava para negar quando ele voltou a falar. – Eu tenho escrito essas cartas para… hm… para Marco.
Meus olhos saltaram.
– Mas com o braço assim eu não consegui escrever a dessa semana ainda.
Seu rosto se contraiu de vergonha e ele voltou a olhar para cima, deixando-se banhar mais uma vez pela lua.
– Você…
– Eu escrevo para você, Kirstein – respondi, resguardando-o de ter que pedir aquilo. Eu sabia que não era fácil para ele quando se tratava de Marco e sua morte, mas nunca imaginei que veria Jean tão vulnerável daquela forma.
Recebi apenas um sorriso sincero em resposta e nos levantamos, acenando um breve adeus à Ymir, que trancava a porta e saímos em direção ao quartel general. Connie se inclinou na direção de Sasha e beijou-lhe rapidamente os lábios, despido de qualquer vergonha que tivesse de demonstrar seus sentimentos e desceu os três degraus da varanda conosco.
Havia fogo em meu peito e um nó em minha garganta. Minhas mãos suavam e, antes de cruzarmos os portões, Jean e eu trocamos um ligeiro toque de braços, desejando forças um ao outro em uma nova cumplicidade que crescia entre nós e sacamos as lâminas.
Encontramos Reiner parado à porta do prédio dos quartos, igualmente equipado de seu DMT e a expressão resoluta. O brutamonte apenas acenou para nós quando passamos, segurando a porta ao que entramos. Bertolt e Nanaba nos esperavam no final do corredor, os dois também tão bem equipados que pareciam prontos para uma luta com titãs.
– Vocês estão certos disso? – Perguntou Nanaba, a mais velha de nós, com mais tempo de experiência como soldado.
Assentimos.
– O pior que pode acontecer é sermos jogados nas celas até que o comandante volte – respondeu Mikasa, voltando a assumir a liderança. – Reiner e Bert, como vocês têm mais facilidade um com o outro, vocês vão até o quarto dos homens. Acredito que aquele Nigel será um problema e vocês têm força de sobra para darem conta dele e de Josef. – Os dois assentiram e partiram para a esquerda, em direção ao quarto masculino de visitas. Os olhamos sumir no breu do corredor mal iluminado e então minha irmã voltou a falar: – Nanaba, você poderia, por favor, lidar com a outra mulher, Johanna? Ela me pareceu a menor pior deles e ela tem uma atitude diferente com você.
Nanaba corou, mas assentiu. Achei muito legal de sua parte que acatasse as ordens de Mikasa mesmo que nós ainda tivéssemos apenas alguns meses de tropa e ela, anos. Ela também partiu e voltamos a ficar só nós quatro no dentro do corredor escuro. Os sons das botas dos três ainda eram audíveis bem ao longe, e temi que fosse barulho demais. Tudo ali era delicado o bastante para desandar toda a missão.
As mãos de Mikasa seguraram meu rosto e nossos olhos se encontraram de forma demorada. Ela me beijou na testa e me puxou para um abraço apertado, machucando-me inconscientemente.
– Você está bem mesmo?
– Estou – respondi, batendo no peito. – E, na pior das hipóteses, farei conforme combinamos. Transformarei-me e…
– Não precisa falar – ela me cortou, sabendo que o assunto me deixava desconfortável. – Jean, você vem comigo, vamos até Caius e depois Mikaella. E Connie… cuide bem do meu irmão, por favor.
– Sim, senhora – respondeu Connie, batendo continência e, quando o olhei esperando uma expressão de brincadeira, vi apenas respeito em seus olhos. – Vamos, Jaeger. Temos titãs para soltar.
Acenei para Mikasa uma última vez antes de ser puxado por Jean e tê-lo sussurrando em meu ouvido.
– Jaeger, se algo der errado, diga ao Marco que…
– Cale-se – o interrompi, pensando se eu não estaria realmente ficando parecido com Levi em certos pontos. – Não diga besteiras, cara de cavalo.
Virei-me e o deixei ser puxado pelo braço por Mikasa enquanto iam em direção ao piso superior e os quartos dos dois últimos que faltavam. Connie e eu voltamos para fora do prédio, passando as correntes na porta, na esperança de que elas segurassem os policiais, caso tentassem escapar de nós. Corremos em direção à parte mais isolada do quartel, onde quatro grandes muralhas de pedras se erguiam e serviam de prisão para os titãs da tenente. Trocamos um olhar rápido, como que nos reafirmando, e abrimos as grandes portas de madeira com as mãos espalmadas.
Subimos nas muralhas e esperamos.
O sinal de Mikasa chegou pouco depois que entramos no pátio dos titãs. Connie e eu vestíamos nossas melhores máscaras de coragem e esperávamos no meio dos monstros. Havia algo de estranho neles naquela noite; não rugiam nem se debatiam como faziam sempre. Apenas olhavam fixamente para mim com grandes olhos e as bocas escancaradas, como predadores que aguardam até que sua presa abaixasse a guarda. Suspirei, segurando com força os controles do meu DMT, sentindo os nós dos dedos ficarem dormentes, tamanha a força que eu fazia. Olhei de esguelha para Springer e ele também estava apreensivo, diversas gotículas de suor escorrendo pelo seu rosto e se formando em sua testa. Como eu, Connie também se segurava ao equipamento, pronto para escapar dali na primeira chance.
Quando vimos o refletir das luzes, conforme Mikasa e Jean haviam combinado conosco, voltei a guardar os controles e pedi a Connie que se afastasse.
– Cara, você tem que tomar cuidado – ele começou, aproximando-se de Carlo, o titã mais antigo do quartel, de classe quatro metros. – Você está bem fraco e isso pode vir a dar merda.
– A gente já está na merda, Connie – respondi, tentando parecer descontraído e lançando-lhe um sorriso ossudo que, provavelmente, fez exatamente o contrário. Acenei para meu amigo levando dois dedos à testa e, com a outra mão já próxima à boca, abri os dentes e os desci com força em minha pele.
O gosto ferroso do sangue invadiu minha boca no mesmo momento em senti meu corpo inteiro inflar-se como um enorme balão de gás quente. Toda minha pele pegava fogo de uma forma quase insuportável, e me permiti gemer de dor bem alto, escutando a minha voz dar lugar ao rugido da besta que morava dentro de mim e corria pelas minhas veias. Mas quando o grito terminou de sair de meu peito e morreu em minha garganta em um gemido alto. A dor se fora, e com ela todo o peso de meu corpo fraco. Olhei para baixo e vi Connie parado aos meus pés, os olhos arregalados procurando por algum tipo de reação de minha parte. Assenti e levantei o polegar; aquela velha sensação de controlar um corpo que não era meu voltando a percorrer meus sentidos.
Springer engoliu em seco e acenou com a mão para mim. Precisávamos terminar aquilo o quando antes. Provavelmente todos no quartel teriam visto ou escutado o trovão e o raio que se seguiam à minha transformação, e era questão de tempo até que os veteranos viessem verificar o que ocorrera – quando aquilo acontecesse, nós já deveríamos ter tudo executado.
Virei-me para os três titãs ainda calados que me olhavam com uma expressão diferente da anterior. Havia algo que arremetia… respeito em seus olhos. Senti meu corpo humano arrepiar-se sob a pele do meu titã e apressei-me em afastar aquele sentimento. Aquela transformação estava sendo diferente das anteriores, havia claramente algo errado. Eu não sentia somente o poder e a raiva conflitantes dentro de mim. Talvez isso se devesse ao fato de que eu estava mais fraco que das vezes anteriores e, pelo fato de meu corpo humano estar mais suscetível, os poderes do titã estivessem se apossando de mim com mais força. Senti o coração disparar e respirei fundo algumas vezes antes de me abaixar em direção ao primeiro monstro.
Carlo se encolheu quando minha mão se esticou para tocar sua pele e começou a se agitar, levantando fumaça de si ao se curar rapidamente das feridas que abria em seu próprio corpo quando o forçava contra os pregos no chão. Mas ao sentir meu toque, o monstro parou imediatamente. Uma corrente elétrica passou do seu corpo para o meu e de volta, enquanto eu pedia mentalmente que ele não demonstrasse muita resistência; como se lesse meus pensamentos, o titã aquietou-se e voltou a olhar dentro de meus olhos com os seus, a cabeça maneando-se ligeiramente enquanto ele se calava e parava de mexer. Acenei para que Connie lançasse seu DMT e se preparasse: eu iria soltar aquele primeiro.
Com as duas mãos gigantes, alcancei os primeiros pregos e os puxei, esperando receber um urro de dor ou qualquer tipo de manifestação, porém Carlo continuou calado. Retirei os outros e, fazendo algo totalmente discrepante para mim, o ergui do chão. Springer continuava olhando para mim, tão assustado quanto os outros dois titãs pregados no chão, e assentiu quando voltei a colocar o monstro na parede, voltando a pregá-lo na pedra com um pouco de dificuldade. Vez ou outra meus braços fraquejavam e eu tinha medo de que aquilo pudesse ser prejudicial ao nosso plano. Qualquer mínima falha iria desandar tudo e não teríamos apenas os policiais ao nosso encalço, mas também os titãs dentro das muralhas.
Carlo e Sean, os dois menores, foram os mais fáceis de conter e transportar. Formei a primeira parte do cercado dentro do pátio com facilidade, Connie me assistindo de vez em quando, quando levantava um prego ou lançava o DMT em um deles, ajudando-me a firmá-los na parede. E então chegou a parte mais difícil, transportar o maior titã de todos, o que fora capturado pela tenente quando Armim morrera. Ele era quase dez metros mais alto que os demais e, por ser o mais jovem, ainda não havia se acostumado com a presença humana. De todos, era o mais agitado e que tinha aparência mais feroz. Quando o toquei, o monstro jogou a cabeça para traz e rugiu audivelmente.
De forma automática, sem pensar no que estava fazendo, acertei seu maxilar com o punho fechado, vendo-o desprender do osso que o mantinha junto e uma nuvem de vapor inundar o ambiente. Meu coração voltou a disparar dentro de meu peito. Aquilo ali seria difícil, com certeza. Um pressentimento ruim se instalou em meus membros e congelei por hora, escutando Connie berrar meu nome, pedindo que eu fizesse logo o que tinha que fazer, porém eu estava por demais assustado para reagir. Meus olhos se tingiram de vermelho quando o titã se soltou dos pregos por conta própria e veio em minha direção, com a boca já quase toda curada aberta em minha direção, e fileiras de dentes prontos para me mastigar.
– Eren! – Voltou a gritar Connie, sacando as lâminas e lançando-se em direção ao titã, pronto para matá-lo.
Mas, instintivamente, levantei a palma da mão e o parei, deixando que seu corpo se chocasse contra o meu e fazendo meu amigo recuar de seu movimento. Havia algo dentro de mim, um fulgor estranho correndo pelo meu sangue, um poder que me dava medo e segurança ao mesmo tempo, e eu não sabia o que fazer com ele. Virei-me para o titã anormal que me encarava – ele não demonstrava interesse em Connie, somente em mim, levantando-se do chão e sua altura quase igual à minha, olhava em meus olhos, a cabeça voltando a jogar-se para trás e outro grito escapando de sua garganta.
Juntei as pernas e os braços em posição de luta, sabendo que aquilo seria desnecessário contra um ser que não tinha consciência, e passei o braço em volta de seu pescoço, dando-lhe uma chave e esperando até que parasse de se debater. Lancei um olhar para Connie, esperando que ele entendesse meu sinal e o vi saltar da parte, as lâminas novamente em mãos, e decepar os braços do monstro. Novamente fomos inundados por uma onda de fumaça e, com toda a rapidez que podíamos ter, prendemos as pernas, tronco e pescoço do monstro, sua cabeça ficando para fora do pátio murado por ser alto demais.
Respirei fundo mais algumas vezes, buscando um pouco de autocontrole e senti um grito se formar involuntariamente quando olhei nos olhos daquele titã. Tudo nele me arremetia ao dia que perdi meu melhor amigo e, ainda que ele não tivesse sido o culpado, para mim a culpa era dele. Há situações em que se precisa coloca a culpa em alguém, e aquela era uma delas. Vire-me para ele, sentindo meus olhos novamente cobertos em carmim e soltei aquele berro que havia crescido em meu peito, tão alto que notei Connie tampar os ouvidos com as mãos e olhar desesperado para mim. O titã à minha frente se calou e seus olhos rolaram nas órbitas, a expressão completamente distorcida em dor.
Um prazer maligno percorreu meu corpo quando notei sua boca se retorcer em uma expressão tortuosa. Levantei o punho para acertá-lo mais uma vez, minha própria boca escancarada esperando o momento em que eu mesmo fosse arrancá-lo dali às dentadas e mastigar cada parte do seu corpo… eu queria sangue, o seu sangue, queria ver a vida deixar seus olhos quando eu o matasse com minhas mãos e levasse seus pedaços até meus dentes e destrinchasse sua carne e…
– Eren! – Escutei uma voz sussurrando ao fundo. Aquilo teria que esperar.
Segurei a cabeça e o ombro do titã ainda aterrorizado e senti sua pele chegar aos meus lábios descarnados e sua pele entrar em contato com meus dentes. Os cravei na curva do pescoço e, então, mordi. Um prazer maior do que qualquer outro que eu havia experimentado em toda a minha vida invadiu meu corpo quando puxei as fibras de seu tecido muscular, as rompendo e comendo, engolindo aquele bocado de carne de monstro sentindo que estava vingando meu melhor amigo.
– Jaeger, o que você está fazendo? – Outra voz me perguntou.
Não era óbvio? Eu estava vingando Armim. Como eles não conseguiam ver aquilo?
Minha vítima se contorceu levemente sob meu corpo, os braços em formação começando a me apalparem quando os alcancei com minhas mãos e os arranquei de um puxão só, soltando outro berro. O cheiro de seu medo era tão forte e inebriante que conseguia ser melhor que qualquer outro perfume que eu já sentira e minha vida, e o gosto quente de sua carne e seu sangue escorrendo pela minha boca provocavam sensações ímpares, que eu nunca sentira antes em toda a minha vida. Até mesmo meu corpo humano sob a pele em chamas do meu titã se regozijava estranhamente, deixando as sensações correrem pelas minhas veias e meu sangue.
Até que veio a dor. Uma dor forte, lancinante. Tão intensa que me cegou momentaneamente. O prazer sumiu com a mesma rapidez que veio e então me vi. O que eu estava fazendo? De repente, todos os sentidos se titã sumiram e me vi de pé em frente à criatura que eu mais odiava em toda minha existência; uma criatura que me olhava com medo e, em seus olhos, eu via meu reflexo: um monstro ainda pior do que aqueles titãs do lado de fora.
Céus, o que acontecera comigo?
– Eren – escutei a voz de Mikasa próxima a mim e, quando me virei, encontrei minha irmã sobre meus ombros. – Eren, acalme-se. Eu estou aqui, calma.
Meus olhos encheram-se de lágrimas dentro do titã. Eu havia deixado o monstro tomar conta de mim novamente. Eu havia me tornado o monstro que eu lutava contra. O desespero corria como veneno dentro de mim, corroendo meu corpo e murchando-me até um ponto em que me senti apenas um bagaço. Sacudi a cabeça energicamente, vendo Mikasa equilibrar-se sobre meu corpo fincando as lâminas em minha pele. A dor não importou. Ela era bem vinda. Eu precisava sofrer pelo que estava fazendo, ainda que não estivesse fazendo mal para nenhum ser humano. Suas mãos alcançaram meu rosto e correram pela minha bochecha gigante, com aquela expressão maternal que deveria fazer eu me sentir melhor só me dragando mais para baixo.
Puxei mais ar, que entrava em meu corpo como ácido, queimando meu rosto tal como aquelas lágrimas que me escorriam dentro da musculatura do meu titã. Monstro. Ecoava dentro de minha mente a palavra que agora parecia impressa em minhas retinas. Monstro. Titã.
Um soluço escapou de meu corpo gigante e novamente Mikasa tocou meu rosto.
– Eren, pare – ela começou, a voz séria. – Vamos terminar o que viemos fazer – e indicou com o polegar algo atrás de si.
Virei-me para encontrar Caius e Johanna presos com algemas, os rostos inchados e algemados. O mais velho lançava-me um olhar de desprezo e eu não podia condená-lo. Eu era realmente desprezível. A mulher, entretanto, tinha a expressão maravilhada igual à que Hange me dava quando eu me transformava. Não pude evitar notar a semelhança entre elas e a odiei por ser parecida com alguém tão querida para mim mesmo sendo má daquela forma. Minha irmã saltou de meu ombro, indo pousar ao lado de Reiner e Jean, que seguravam os outros prisioneiros.
Havia uma faixa empapada em sangue no rosto de Josef, cobrindo um de seus olhos e não precisei perguntar o que acontecera. Nigel também tinha o rosto machucado, porém ainda sustentava o orgulho que o acompanhava como uma sombra. Aquele era o pior de todos, em minha opinião. E se havia alguém que deveria pagar pelo que acontecera conosco dentro do quartel, com certeza deveria ser ele.
Até que me virei e vi Mikaella de pé, os braços cruzados enquanto Nanaba segurava seus cabelos com força, sua lâmina rente ao pescoço da policial. Ela também era má. Ela e Nigel. Os dois poderiam arder no mais profundo do inferno e ainda seria pouco. aquele calor voltou a se apossar de meu corpo, o poder novamente aflorando pelas minhas veias e chegando ao meu coração, fazendo-o pulsar novamente; outra vez, vi em vermelho e senti ondas de tremores percorrerem meus membros gigantes.
Mikasa começou a falar, sua voz ecoando pelas paredes de pedra, misturando-se ao som dos gemidos que os titãs agora começavam a emitir. Talvez aquela influência que eu exercia sobre eles havia passado quando recobrei parte da minha consciência humana, mas aquilo não era de todo ruim. A cada som que os gigantes emitiam, eu via que os policiais se encolhiam ligeiramente. Eu tinha certeza de que nunca haviam visto um titã de perto e agora tinham quatro à sua frente, todos prontos para destroçá-los um por um.
Sim, eu estava me incluindo na lista, porque eu já não sabia o que eu era de qualquer forma e, com eles, eu não precisava me esforçar para ser homem. Naquele momento específico, o monstro se fazia mais necessário.
– Mocinha, você não sabe o preço das suas ações – disse Caius, a voz austera. – Isso não ficará por isso mesmo…
A mão de Mikasa acertou o homem no rosto. Todos nos assustamos com seu gesto. Minha irmã conseguia surpreender a todos nós sem esforço quando mostrava seu lado selvagem que diferia totalmente da calma e frieza que sustentava desde sempre. O tapa estalado ecoou pelas paredes junto com sua voz e o barulho dos titãs e Caius lançou a ela um olhar fulminante.
– Tudo que vai, volta – ela respondeu. – Vocês fizeram o mesmo conosco. E, como você mesmo disse, não ficaria por isso mesmo.
Reiner riu. Havia algo sinistro nele também, mas eu nunca imaginei que fosse crueldade. Ele cutucou as costas de Josef com o pé, levando-o para a beira da muralha que se erguia em torno dos titãs. Carlo virou o rosto para o humano que se aproximava de si e sua mandíbula se abriu em um sorriso enorme. O homem tremeu.
– Não, por favor – começou a pedir Josef, olhando para os rostos de todos nós, um por um, tentando encontrar um sinal de benevolência. – Por favor!...
– Cale a boca, seu estúpido – disse Jean, o rosto suado e salpicado de sangue que eu imaginei não ser seu. O braço na tipoia parecia ainda mais torto do que estivera antes e, apesar da expressão resoluta, meu amigo aparentava dor. Ergueu a espada em direção a Reiner e depois apontou para os titãs. – Reiner, leve-o primeiro.
O grandalhão passou o braço enorme em volta da cintura do policial e lançou-se em direção ao meio do pátio; três metros de circunferência, os únicos onde estariam seguros dos titãs que havíamos rearranjado. Quando seus pés tocaram o chão, Reiner deu mais uma pancada em Josef e voltou a subir. Por um instante, um sentimento de dever cumprido se abateu sobre nós, e vi Connie cumprimentar Bertolt com a mão, como se estivessem satisfeitos por terem colocado o primeiro daqueles demônios no que seria o seu inferno pessoal.
Um a um, os outros também foram transportados. Johanna não ofereceu resistência, nem Caius. Este apenas olhou dentro dos olhos de Mikasa e disse que iríamos nos arrepender. O primeiro sentimento realmente bom daquele dia que começava a nascer despontou de meu peito quando a vi acerta-lo no rosto outra vez e dizer que o único arrependimento que sentia era de não ter feito aquilo antes.
Nosso problema começou quando Nanaba retirou a lâmina do pescoço de Mikaella para levar a última deles para o centro do círculo. O sol começava a raiar quando a mulher arrancou a espada da mão de Nanaba e a usou para tentar acertá-la e a Jean, o mais próximo. Vi quando todos investiram contra ela, mas aos meus olhos pareciam se mover em câmera lenta. Sem que eu tivesse consciência do que estava fazendo, nem o porquê, e estiquei a mão e apanhei o corpo de Mikaella entre meus dedos gigantes e o sacudi até que ela largasse as espadas.
Seis pares de olhos assustados me olharam quando o fiz, e seis bocas berraram meu nome quando virei-me em direção ao titã maior, aquele com o qual eu lutara, e levei o corpo de uma policial que berrava por sua vida insistentemente na reta da boca do monstro. Um jorro de sangue voou do tórax partido ao meio de Mikaella e caiu sobre os policiais que estavam abaixo de nós. Os quatro policiais – dessa vez, incluindo o próprio Caius – olhavam para mim aterrorizados e recuaram um passo para trás, juntando seus corpos ainda mais no centro do círculo quando me inclinei em sua direção, joguei o corpo de sua ex-parceira aos seus pés e dei o grito mais alto que consegui.
Eu queria que sentissem medo, queria que sentissem que estavam perdidos. Eu precisava ver o arrependimento estampado em seus rostos cruéis. E, novamente naquela sincronia estranha, os três titãs berraram comigo, na mesma frequência que eu, e os policiais voltaram a tremer. Voltei meus olhos para meus companheiros e, apesar de estarem todos os seis com expressões amedrontadas, no fundo eu podia ver seu alívio. O primeiro raio de sol despontou no horizonte, iluminando nossos rostos e, finalmente, me vi sem forças. Fechei os olhos e projetei meu corpo para fora do titã, escutando a carne do monstro se romper à medida que eu ia para fora.
Os braços de Mikasa se fecharam em volta do meu tronco e ela me levou para cima do muro, onde encontrei com os outros. Num último lampejo de força, vi meu corpo monstruoso se esvanecer em fumaça em frente aos policiais que agora se amontoavam uns aos outros procurando escapar dos titãs que os cercavam.
Meus olhos se fecharam nos braços e minha irmã enquanto ela acariciava meu rosto.
– Me desculpem – pedi, esticando as mãos e sentindo dedos ásperos fecharem-se em torno dos meus.
– Não tem que desculpar nada – falou Jean, repetindo para mim aquela frase que ele já se acostumara a me dizer naqueles dias. – Agora vá descansar. Nós conseguimos!
Sorri.
E então, apaguei.
Acordei deitado na cama de Levi. Um sol ameno incidia pela janela, as cortinas cor de creme afastadas da janela e amarradas com faixas de um tom mais escuro. Os travesseiros fofos continham aquele perfume do capitão e pensei se tudo o que acontecera não fora apenas um sonho. Virei-me para o lado, procurando-o, certo de que encontraria seu corpo musculoso logo que esticasse minhas mãos, mas fracassei e senti-me um idiota quando alcancei nada além do colchão forrado com o lençol de algodão. Suspirei. Todo meu corpo doía e, com algum esforço, estiquei-me e me sentei com as costas no encosto da cama. Havia uma muda de roupas separada para mim sobre uma cadeira e um barulho incessante entrava pela janela e era audível também do lado de fora da porta.
Joguei as pernas para fora e me vesti de qualquer jeito, arrastando os pés para fora. Encontrei um bilhete pregado na porta, com a caligrafia de Mikasa e sua assinatura. Ela agradecia pelo trabalho e dizia que eu deveria descansar pelo resto do dia, que ela não queria nem ver a minha cara – eu deveria apenas descansar. Então fora ela que me colocara ali, pensei. Arranquei o bilhete, já sabendo que encontraria um par de olhos severos quando a visse e saí, puxando a porta atrás de mim e a trancando. Guardei a chave dentro do bolso da jaqueta e encontrei ali a carta que eu escrevera para Levi.
Eu deveria tê-la dado ao capitão quando ele partiu. Uma ligeira tristeza se instalou em meu peito ao constatar quanta saudade dele eu sentia, e a falta enorme que ele fazia dentro do quartel. Não somente como meu companheiro, Levi também era meu capitão, e eu me sentia um soldado perdido, solto, ali dentro sem ele. Ele lutara por mim e me levara para dentro da Tropa de Exploração e, de repente, nada parecia fazer muito sentido sem a sua figura. Esperei que estivesse tudo bem em Mitras, que o estivessem tratando melhor do que fomos tratados e que ele voltasse logo.
Encontrei alguns soldados no caminho. Ymir e Krista se abraçavam em um canto, e fiquei imaginando quem havia os trazido de volta. A garota maior acenou para mim quando passei, dizendo um "obrigado" em silêncio, apenas delineando as palavras com os lábios. Assenti e continuei andando. Jean e Connie sentavam-se na sala comum, os pés sobre a mesa de centro daquela forma irritante que sempre faziam e sorriram para mim quando entrei.
Jean se levantou, erguendo o braço esquerdo e envolvendo meus ombros quando me aproximei.
– Aí está o nosso garoto titã favorito! – Exclamou, batendo em minhas costas com as mãos espalmadas.
O afastei gentilmente, sentando-me entre ele e Connie. Ambos pareciam descansados e com o rosto até ligeiramente corado. Joguei a cabeça para trás, deitando-a no encosto do sofá e me deixei olhar para o teto de pedra e madeira, sustentado por vigas grossas. Um lustre gigante descia por uma corrente de metal enferrujado até quase metade da altura da parede e sustentava algumas velas acesas. Escutei passos e mais uma pessoa se acomodando no sofá, mas não me dei ao trabalho de olhar. Eu ainda estava exausto.
– Achamos que você não acordaria nunca – disse uma voz feminina que reconheci imediatamente como de Sasha. Virei o rosto e a encontrei empoleirada no colo de Connie, que lhe afagava as costas com uma mão e a outra descansava sobre a coxa da garota. O rosto de Braus estava muito mais cheio e quase sem hematomas. Um sorriso largo delineava seus lábios enquanto ela levava um pedaço de pão à boca.
– Você está tão… bem – comecei, a voz saindo rouca. – Quanto tempo se passou desde…?
– Uma semana – respondeu Jean, do meu lado – Você apagou por uma semana, Jaeger, e deixou todo o trabalho duro de colocar esse lugar em ordem para nós – seu tom era brincalhão, mas eu me senti mal ainda assim.
– Desculpem – falei – Vocês deveriam ter me acordado.
– E lidar com Mikasa? – Falou Connie – Ela é louca, cara. Ela não deixou ninguém nem se aproximar do seu quarto – ele abraçou Sasha um pouco mais – E quando ela viu que você não melhorava ficando no quarto do subsolo, fez todos nós limparmos o quarto do capitão e colocarmos você lá.
Senti meu rosto esquentar.
– E lá você começou a melhorar – Springer completou, dando uma piscadela.
– Hm – resmunguei. Eu realmente me sentia fisicamente mais disposto.
– Mikasa deu sopa para você todos os dias, enquanto você esteve dormindo – ele continuou. – E quando ela começou a ver a sua melhora, aí sim foi descansar. Agora ela está na sala do capitão namoradinho, mandando os relatórios. Ackerman passou uns três dias lá dentro, sem dar as caras aqui fora.
Ao dizer isso, Connie se calou, lançando um olhar em direção à porta atrás de mim.
– Até agora, pelo menos – ele completou, dando de ombros.
Virei-me para encontrar minha irmã, completamente uniformizada, usando uma gravata com a pedra redonda e azul que o comandante Erwin usava. Mikasa me encarava com um sorriso e venceu a distância entre nós rapidamente, puxando meu corpo para um abraço apertado e quente.
– Você está bem? – Ela perguntou, segurando meu rosto entre as mãos e olhando em meus olhos.
– Sim, eu acho – falei. – E você?
– Ótima! – Ela sacudiu um papel entre os dedos. – Tenho notícias da capital, finalmente!
Meu coração deu um salto. Minha irmã se afastou de mim e, sem que eu visse, um círculo de soldados havia se formado à nossa volta. Voltei a me sentar, esperando que ela lesse o que estava escrito.
– Depois de uma breve repreensão do comandante – ela começou, lançando olhares sugestivos pra Connie, Jean, Nanaba, Bert, Reiner e eu – pelo que fizemos aos policiais, e depois um tipo de parabéns subentendido – Mikasa riu –, o capitão Levi disse que voltam em duas semanas!
Meu coração voltou a saltar dentro de meu peito. Houve uma comoção generalizada, saudações e vivas e, então, Mikasa entregou o papel em minhas mãos, sorrindo para mim de forma sincera.
O peguei e li as palavras ali escritas, sentindo o rosto ferver e a saudade apertar em meu peito.
"Estou chegando. Levi."
Vamos lá!
Comecemos com a citação de Harry Potter que eu não pude deixar de fazer. Eu sou fascinada pela saga, então sempre vai ter uma coisinha aqui ou outra ali que arremetam à HP. Agora, ao mangá:
1. A Ymir também é uma humana que se transforma em titã, por isso que ela se curou tão rápido. Você encontra esse fato a partir do capítulo 40, que leva o mesmo nome da personagem.
2. Esse "grito" que o Eren tem e que "comanda" os demais titãs também é real. Ele se apresenta no capítulo 50, quando eles estão para ser devorados por um titã e o Eren, ainda humano, da um berro e atiça os titãs contra esse que iria matar a ele e à Mikasa. No mangá, ele descobre isso por acidente e não volta a usar esse poder. Na fic eu quis colocar isso como algo que ele e a Hange estivessem desenvolvendo, porque esse tipo de "poder" se fez necessário na situação que eu apresentei. Esse poder é algo que ele herdou dos poderes de titã que seu pai injetou, algo que é capaz de mudar o curso da história, como vocês podem ver no mangá - e poderão ver nos capítulos que se seguirem.
3. Mais menção ao interesse na Krista, né? Então, pois é. Quem acompanha o mangá a partir do capítulo 41 já deve ter alguma noção do que vai acontecer, mas quem ainda não chegou lá, ou não vai ler, ainda pode ficar um pouco perdido. É só ter um pouco de calma que dentro de dois capítulos eu já vou trazer os fatos para vocês.
- Vocês viram a menção à Mil Palavras? Vai ter crossover sim! hihi
- O que vocês acharam do Eren sucumbindo momentaneamente ao titã dentro dele?
Esse capítulo é dedicado à minha irmã, que me disse para ter mais confiança nas minhas sequências de ação, porque elas estavam boas. Espero que ela esteja certa.
Uma ótima semana para todos vocês! 3
