– Capitão Levi, me ajude a te ajudar – disse Beatrice, a mulher que presidia o Comitê de Ética.
Depois de uma hora completa, sentados naquelas cadeiras desconfortáveis, eu já havia experimentado o tédio, a raiva, o desespero, mais tédio e agora estava imerso em um monte de apatia. Eu chegara ao ponto de apenas concordar com tudo o que diziam, pois minha garganta estava seca de tanto responder a mesma coisa e eu não beberia nada que me oferecessem. Suspirei, inclinando-me para frente e sentindo meu casaco escorregar pelos ombros. Levei as mãos às têmporas e as massageei, tentando afastar a dor incômoda que se instalara ali.
Eu amava Eren de todo meu coração, até o mais profundo de minha alma, mas eu não aguentava mais falar sobre ele. Nunca imaginei que um inquérito pudesse ser tão entediante – ainda mais presidido por um conselho de velhas que olhavam para mim como se eu fosse algum tipo de criança perdida. Abri os olhos e encontrei as seis bruxas me encarando, esperando que eu dissesse algo. Bufei, cruzando as mãos em frente ao meu corpo. Recostei as costas na cadeira e pensei em palavras diferentes para falar tudo o que eu já havia dito desde que me sentara ali.
– Eu não vejo como a senhora – fiz um gesto que abrangesse todas as cadeiras à minha frente –, ou as senhoras, possam me ajudar. Foram vocês que me chamaram aqui; eu já nem sei mais o que dizer.
– O senhor pode começar nos explicando o quão beneficiária é a sua relação com o soldado Jaeger para a sua tropa, senhor – disse Dolores, a velha rechonchuda, totalmente vestida em rosa, na ponta. A mulher tinha uma cara de sapo e sua voz, infantil ao extremo, despertava em mim um nervoso descomunal.
Suspirei novamente. Nós já havíamos ido por aquele caminho e de volta, e sem resultados. Tudo o que eu falava parecia entrar por um ouvido e sair pelo outro.
– Não há benefícios para a Tropa de Exploração no relacionamento que eu tenho com Eren – repeti. – Como as senhoras ainda não conseguiram entender isso?
– Ah, nós entendemos – ela disse, apertando os olhos miúdos. – Mas o senhor há de concordar que é muito conveniente que o garoto tenha apresentado melhores resultados desde que o senhor… bom, começou a relacionar-se com ele.
– Não vejo conexão entre os fatos – rebati. – Resultados ruins também estão anotados nos relatórios que a senhora tanto gosta de sacudir na frente da cara – falei, rude. Notei suas sobrancelhas se erguerem e então Dolores se abaixou e escreveu algo em um bloco lilás à sua frente.
A velha rosada soltou um risinho e balançou a cabeça antes de continuar.
– O senhor é um homenzinho muito arisco, Levi…
– Capitão Levi – a interrompi.
– Certo… capitão. – Mais anotações no papel. – Bom, ainda estamos aguardando sua posição.
– Eu não vejo em que momento da minha vida eu teria tempo para dispensar em um garoto e isso servisse de apoio para nossa tropa – comecei, novamente. As palavras saíam de meus lábios automaticamente de tanto que eu as repetira. – Eu sou o melhor soldado da humanidade, e não preciso usar de artifícios de natureza duvidosa para potencializar o poder de ataque da minha divisão. Tenho mais o que fazer, ao contrário das senhoras que se sentam pateticamente aqui e me tiram de meu serviço apenas para fazer perguntas sobre a minha vida pessoal, que, repito, não lhes diz respeito.
A presidente soltou uma risada alta. Virou-se para Norma, uma mulher bonita à sua direita, apesar de ter o rosto marcado pela idade, e cochichou algo. A segunda concordou, um sorriso maligno desenhando-se em seus lábios. Norma, então, virou seus olhos azuis gigantes em minha direção, apertando os lábios e voltando a passar as páginas da minha ficha que tinha em suas mãos. Sua voz era suave como o silvo de uma serpente e os pelos de meus braços se eriçaram. Ela não havia dito nada até aquele momento e eu podia ver muito bem o por que; era a mais assustadora de todas as mulheres ali presente, e a presidente provavelmente a usava como instrumento de tortura psicológica, tamanha a força em sua voz tranquila.
– Meu querido capitão – começou Norma, a voz envolvendo todo o cômodo. – O senhor sabe muito bem que o que está acontecendo é proibido pela ementa do direito do menor de idade e pela legislação que rege o nosso exército. Estou apenas tentando entender o motivo de se envolver com o rapaz de forma romântica sendo que esta relação está fadada ao fracasso pelo número exorbitante de infrações que ela causa em nossas leis.
Respirei profundamente. Apesar de ser extremamente cruel com seus olhos, Norma era a primeira que se pronunciava de forma coerente, buscando fatos antes de acusações vazias. Por mais que eu soubesse que ela seria a mais difícil de lidar ali dentro, finalmente senti que alguém estava no mesmo nível intelectual que eu; toda a pesquisa que eu fizera serviria para alguma coisa, afinal de contas. Retirei alguns papéis da pasta que eu carregara comigo e que estivera intacta todo aquele tempo, passando o olho rapidamente antes de voltar-me para ela.
– Compreendo o ponto onde há infração da lei que protege o menor de idade – comecei, e cruzei os dedos sobre a mesa. – Mas Eren completará dezoito anos dentro de menos de um ano e…
– Mas quando os senhores começaram a se relacionar o garoto ainda tinha... – ela folheou os papeis, passando um para o topo. – Ele ainda tinha dezesseis anos, certo, capitão?
– Certo – confirmei.
– Então o senhor estava ciente do erro desde o começo?
– Sim – respondi. Erwin e Zachly me instruíram a não mentir, nem omitir. Seria pior. – Eu estava.
– E ainda assim o senhor levou isso adiante?
Permaneci em silêncio. Na dúvida, o silêncio é a melhor resposta, pensei. Eu sabia o que estava fazendo quando comecei com Eren e mesmo assim ignorei qualquer consequência que nossa relação pudesse ter esperando que não houvesse consequência. Suspirei, procurando colocar as ideias em ordem enquanto os olhos de Norma estavam fixos em meu rosto, aguardando minha resposta. Eu precisava cuidar muito bem das palavras que se seguiriam; qualquer passo em falso significaria um abismo sob meus pés.
– Levei – falei. – Mas, em momento algum, houve intenção de uso dessa relação para os propósitos da Tropa de Exploração.
– E como podemos confiar nas suas palavras, capitão? – Perguntou-me Norma, esticando os dedos longos de unhas pintadas da mesma cor de seus olhos e pegando uma das folhas que Dolores lhe estendia. – Como podemos acreditar que realmente não houve nenhuma intenção por trás quando o garoto dera um salto nos treinamento e, inclusive, na última missão da sua divisão, onde lutara contra diversos titãs e ainda lhe prestara suporte?
Engoli em seco. Elas tinham tudo.
– Coincidência, acredito – respondi, momentaneamente inseguro. – Eren ainda teve muitas dificuldades, como ainda têm. Seu poder é muito inconstante para que você possa traçar um padrão de sucessos e fracassos – falei, repensando em todas aquelas notações malucas que Hange me fizera repassar consigo durante todo o tempo em que não estávamos com o tribunal de contas. – Talvez o fato de estar feliz contribua para um número maior de sucessos em contrapartida ao fracasso, é possível, mas posso lhe garantir que, em momento algum, precisei usar de qualquer artifício… corporais para fazer o garoto alcançar resultados. Este tipo de postura não é da minha índole.
Silêncio. Norma ainda me encarava com os olhos redondos, um sorriso fino brincando nos lábios comprimidos. Na outra ponta da mesa larga onde as mulheres estavam, uma velha de cabelos brancos presos em um coque, e uma túnica igualmente alva, fechada até o pescoço, chispou os dentes e atraiu minha atenção.
– Creio que, com os fatos e as declarações do próprio capitão, podemos pedir a transferência do senhor para a unidade da Tropa de Exploração que se situa ao norte da muralha Rose, na intenção de provar seus argumentos verdadeiros; se o senhor não é mesmo a causa do avanço do soldado Eren Jaeger, não fará diferença que esteja em outra unidade. – Seus lábios se comprimiram ainda mais. – Certo?
Meu coração disparou. Eu sabia que tentariam usar deste argumento para encerrar o inquérito, mas escutá-lo da boca de outra pessoa fazia tudo parecer mais real do que eu imaginaria que fosse. Eu precisava me controlar, mas minha vontade era apenas de voar daquela mesa e esmurrar cada uma das mulheres do Comitê. Era desnecessário eu estar ali, tão desnecessário quanto o próprio Comitê. Havia tanto o mais com o que me preocupar e ali estava eu, segurando-me para não tremer e não demonstrar aquele medo que incitava a raiva dentro de mim que eu lutar para reprimir naquele tempo inteiro em que estiver ali.
– Ou então – começou Marianna, outra velha, de cabelos pretos e longos, o rosto pálido como giz marcado por olheiras profundas que lhe conferiam um ar mórbido –, podemos trazer Eren Jaeger para a custódia da Polícia Militar, como deveria ter sido desde o começo. Fora um erro deixá-lo ser levado por vocês – ela apontou o dedo fino para mim –, da divisão de suicidas, e agora precisamos correr atrás do tempo perdido. Dentro de Mitras, o rapaz poderá receber o treinamento especial junto com uma de suas colegas da 104ª turma de recrutas, Annie Leonhart. Ele não estará sozinho, capitão, e poderá desenvolver melhor suas habilidades quando junto de seus semelhantes.
Estreitei os olhos para Marianna. O que ela queria dizer com aquilo? Que tipo de preparação a Polícia tinha para receber Eren? O garoto, apesar de seus poderes de titãs, tinha necessidades especiais que envolviam muito mais do que um treinamento físico – Eren precisava treinar a cabeça, o coração, Ele precisava desenvolver muito mais do que força. E, querendo ou não, comigo, conosco, ele tinha tudo isso. A mulher me devolveu um sorriso sugestivo, esperando que eu rebatesse o que havia dito com algum argumento grosseiro, como eu já fizera anteriormente, mas limitei-me a sacudir a cabeça, voltando a cruzar os braços em frente ao corpo e soltando um suspiro.
– Me desculpem – pedi. – Mas vocês não estão preparados para receber Eren. Vocês não têm a estrutura que demanda cuidar de um moleque que, além de estar passando pela transição da adolescência, têm um poder que nenhum de nós tem conhecimento o suficiente para administrar.
– E o senhor tem, pelo visto, sob os lençóis de sua cama – falou Beatrice, os olhos avermelhados esquadrinhando meu rosto.
Senti o sangue ferver nas veias. Eu não poderia aceitar provocações. Você tem que manter a calma, Levi, escutei a voz em minha cabeça. Você é melhor do que eles. Minha língua pedia para que eu respondesse com um "com certeza" para a presidente, mas minha cabeça sabia que o melhor era ignorar. Se eu sucumbisse à provocação, acabaria com aquele inquérito mais rápido do que deveria, e o resultado não seria positivo para mim de nenhuma forma.
Voltei a mexer no papel dentro da pasta e encontrei o que procurava. Abaixei os olhos para o papel, reunindo forças e, então, me levantei da cadeira, entregando uma cópia de cada folha para cada uma das seis representantes do comitê, retendo-me rapidamente na mulher onde seu crachá informava o nome de Samantha e pensando no por que dela me ser tão familiar. Voltei a me sentar, aguardando que todas lessem o adendo que estava em suas mãos, a satisfação de estar certo começando a se apoderar de meu peito.
– O que é isso? – Perguntou Dolores, o rosto repentinamente assumindo uma coloração rosada como suas roupas. A mulher se virou para as colegas, que apenas balançaram a cabeça.
Quem se pronunciou fora Norma.
– Senhor capitão – ela começou, abaixando a folha na mesa e apoiando seus dedos sobre o papel. – Agradeço por nos compartilhar essa informação. – Norma tirou um par de óculos de dentro de uma bolsa de veludo e os colocou no rosto. – "A partir do momento que o soldado entende-se como parte integrante permanente do exército – podendo estar designado como Policial Militar, protetor do rei, guarda da Tropa de Guarnição ou soldado da Tropa de Exploração –, o Estado e o rei o entendem como maior de idade, responsável pelos seus atos, passível de prisão por crimes e homem ou mulher formado para adquirir posses.".
Norma abaixou os óculos e esfregou os olhos rapidamente com as pontas dos dedos. Ainda havia medo em meu coração, mas eu sentia uma ponta luminosa despontar dentro de meu peito.
– Acredito que o senhor saiba, entretanto – ela voltou a falar, e vi seu rosto se retrair em uma expressão de prazer que indicava que havia vencido mesmo meu argumento –, que uma infração sobressai à outra e que, ainda que Jaeger seja – ela fez o sinal de aspas com as mãos – maior de idade perante o estado, ainda há corrupção de patente e abuso de poder uma vez que o rapaz ainda é um mero soldado em treinamento, sem nem mesmo esquadrão específico ou destacamento permanente, e o senhor ocupa a posição de poder de capitão. A relação entre patentes é expressamente proibida pela lei décima quarta do artigo segundo da legislação dos Três Poderes Militares.
Seu corpo se inclinou sobre a mesa e ela comprimiu os seios nos braços, avolumando-o e lançando-me uma piscadela sugestiva. Senti o rosto corar instantaneamente. O que aquela mulher estava fazendo?
– Creio que este fato ficou de fora das suas pesquisas, não?
Engoli em seco. Norma era, com certeza absoluta, a pior de todas. Desviei o olhar e encontrei Samantha encarando-me fixamente, e então vi de onde a conhecia. A mulher tinha o mesmo rosto que Mikaella, uma das policiais destacadas para ficar em nosso lugar no quartel da tropa enquanto estivéssemos fora. A única diferença eram as linhas de expressão que circulavam seu rosto e a forma com que sua boca se contraía quando falava; exceto por isso, a mulher era a mesma coisa que a policial.
– Então, capitão – ela falou, a voz rouca. – O que será? O senhor se afastará por conta própria ou traremos Jaeger para cá? Ambas as escolhas, o senhor acaba perdendo nessa relação doentia.
– Não há nada de doentio na minha relação com Eren – rebati, repentinamente furioso.
– Com certeza, há – respondeu Dolores, adiantando-se. – O senhor é um homem na casa dos trinta se envolvendo com um garoto que mal saíra da puberdade. Há algo de errado com o senhor, capitão. Quais prazeres obscuros esse rostinho esconde?
– Como? – Perguntei, horrorizado demais com o tamanho daquela asneira para esboçar qualquer outra coisa.
– Talvez apenas remanejamento de unidade não seja o suficiente para o senhor – ela prosseguiu, ignorando meu questionamento. – Podemos conversar com o seu superior e lhe conseguir a melhor clínica mental de internação para que o senhor possa descansar por alguns dias…
– Cale-se – falei, por fim, não segurando mais aquela besta que parecia rasgar minha pele pedindo para sair. – Cale a sua boca, mulher! Céus, o que você tem na cabeça? Vejo apenas uma pessoa doente nesta sala e a senhora pode ter certeza de que não sou eu!
Os olhos de Dolores de arregalaram, e a mulher voltou a escrever no papel, nervosa. Não falou mais nada, porém o som de seu lápis contra a superfície seca da folha. As outras cinco bruxas me olhavam, estupefatas, e somente Norma tinha os olhos mais tranquilos que assustados. O sorriso fino voltou a brincar pelos seus lábios e ela tornou a se inclinar na minha direção.
– Desculpe-nos por Dolores – ela pediu. – Ela é um pouco… bom, nos desculpe.
Assenti, passando a mão pela testa e afastando os cabelos que começavam a grudar no suor. Voltei a me acomodar em minha cadeira, puxando ar para dentro e tentando me acalmar. Eu perdera o controle. Merda. Fechei os olhos e os cocei com os dedos, pensando no que ainda faltava ser dito e no resultado daquilo tudo. De repente, no meio de todo aquele absurdo, todas as conversas que tive com Erwin, Hange e Mike pareciam ter sumido da minha cabeça; eu não conseguia me lembrar dos argumentos que tanto treinamos para rebater o Comitê, e eu me sentia perdido. Eu perderia Eren.
– Capitão Levi – chamou-me a presidente, e levantei o rosto. Ela me encarava, austeramente com seu semblante neutro. – Precisamos chegar ao fechamento deste inquérito e contamos com a sua ajuda.
Suspirei. Eu estava me esquecendo de algo, tinha certeza. Havia algo que Mike me dissera, e, dentro de mim, a voz de Isabel repetia insistentemente que eu deveria me lembrar, que aquele único fato me ajudaria a safar do inquérito e colocaria um fim pelo menos na parte que dizia respeito ao fato de Eren e eu estarmos juntos mesmo ele sendo menor de idade.
– Capitão – voltou a me chamar Beatrice. – O senhor terá o direito de escolha, e peço que a faça com consciência. O senhor não gostaria de ser afastado dos seus amigos, eu sei que não. – Sua voz tinha um tom maternal que me irritou profundamente, abalando a pouca calma que eu conseguira reunir. – O mais sensato é entregar o garoto ao local onde suas habilidades serão mais bem exploradas. O senhor sabe que não há futuro em uma relação dentro do exército… o senhor é o capitão e Jaeger é apenas um soldado…
– Eu não sou capitão – rebati, sem saber de onde as palavras saíram. Era isso! Eu não era capitão de fato! – Eu nunca fui oficialmente declarado capitão da Tropa de Exploração. Erwin Smith me trouxe para o exército como um apoio – falei, escutando o jorro de palavras engasgadas sair por mim sem controle. – E desde então, fui seu soldado, mas nunca houve formalização deste contrato e eu nem mesmo possuo vínculo com a escola de recrutas, uma vez que eu nunca passei por lá. Minha estadia na Tropa de Exploração se prolongou após a sanção do próprio Zachly e – procurei uma folha dentro da pasta e sacudi o papel pardo e gasto no ar – tenho sua autorização como prova; ambas assinaturas do general e do rei, em conjunto com a minha própria e a de meu comandante.
– Como o senhor explica o fato de ser respeitado como capitão? – Perguntou Norma, finalmente demonstrando alguma emoção em seu rosto que não presunção.
– Respeito, acho – dei de ombros, recostando-me na cadeira, sentindo minha vitória.
– Isso não é… – começou Samantha a protestar, mas levantei a mão, impedindo-a.
– É, sim – falei, mesmo sem saber o que a mulher diria. – A senhora vai discordar da assinatura do próprio rei?
– Posso? – Perguntou Beatrice, esticando a mão para mim.
Levantei-me novamente, já colocando todos os papeis organizados dentro da pasta e a colocando sob meu braço. Entreguei o documento nas mãos da presidente, aguardando pacientemente até que lesse até o final, seus olhos arregalando-se e uma expressão furiosa tomando conta do seu semblante. A mulher abaixou a folha, empurrando-a de má vontade para mim e virando-se para as demais.
– Não há nada sobre o que inferir aqui – ela começou. A raiva que saía de dentro de si era palpável. – O capitão Levi está correto. Ele não possui vínculo oficial com o exército, de forma que não há quebra de regras no que diz respeito à relação entre patentes. – E então, virou-se para mim, os olhos em chamas. – Obrigada pelo seu tempo, senhor.
– Eu é que agradeço – falei, lançando-lhe um sorriso. Tomei o papel de volta, gentilmente acomodando-o dentro da pasta. Um alívio momentâneo se apossou de mim quando caminhei até a porta, porém algo me fez parar e virar-me para trás. Lancei à Dolores meu olhar mais cruel e a chamei. – Dolores?
A mulher me devolveu o olhar com as sobrancelhas erguidas. Ela havia sido a que eu menos gostara e seu rosto estava tão vermelho quanto o de Beatrice.
– Sim?
– Fique à vontade para abrir outro inquérito – falei, sorrindo-lhe abertamente. – Ou quantos mais você – levantei a mão e apontei para as outras –, todas vocês, quiserem. Ficarei mais do que satisfeito em negligenciar meu trabalho e deixar os titãs comerem sua família e destruírem sua vila enquanto me sento novamente nessa cadeira para perder o meu tempo e o das senhoras dando respostas vazias e repetidas sobre algo que não mudará.
Houve silêncio às minhas palavras e voltei a mão para a maçaneta.
– Agora, com a sua licença.
–––
– Capitão?
A voz me alcançou no meio do corredor, e o som de saltos finos se fez ouvir no chão de madeira da corte. Virei-me para Norma correndo em minha direção com meu casaco nas mãos. Eu nem me dera falta dele. Estiquei a mão, tomando-o dela.
– Obrigado – falei, jogando-o por cima dos ombros e continuando minha caminhada.
A mão da mulher, muito gelada, alcançou meu braço e me segurou. Olhei-a por cima do ombro, encontrando aquele par de olhos azuis muito bonitos e me senti momentaneamente confuso.
– O que é?
– Você gostaria de tomar um café? – Perguntou, um sorriso insinuando-se em seus lábios que agora mais próximos me mostravam uma coloração rosada quase imperceptível. – Eu gostaria de me desculpar com o senhor pelo transtorno…
– Não – rebati, cortando-a. Tudo o que eu queria naquele momento era apenas me afastar dali e de toda aquela confusão estúpida o mais rápido possível, e não tomar café com ela.
Sua mão insistentemente segurava meu braço, me impedindo de continuar. Quando me mexi, tentando desvencilhar-me de seu aperto sem precisar usar de força. Aquele final da audiência tinha sido bom o suficiente para me devolver o bom humor e eu podia senti-lo saindo de mim pelo aperto que Norma dava em meu braço. Que mulherzinha mais irritante!
– Eu devo insistir – ela falou, fazendo a mão deslizar pela linha do meu antebraço e segurando em minha mão. Seu toque gelado era desconfortável e trouxe à minha mente a memória de Eren e o quão quente o meu garoto era. Aquela mulher era exatamente o contrário, e tão desagradável que eu não conseguia imaginar, naquele momento, alguém mais avesso a Jaeger. – Por favor, capitão.
– Norma – puxei a mão com força, levanto-a aos olhos, apertando-os –, eu não tenho interesse nenhum em tomar um café com você. Eu quero apenas voltar para o alojamento e descansar. – Vi seus olhos se apertarem ao ser contrariada e franzi ainda mais minha própria expressão. – Espero não vê-la na minha frente nunca mais – destaquei as últimas palavras com a maior ênfase que consegui dar naquele momento. – Uma boa tarde para você.
Meus sapatos bateram no chão enquanto caminhava de volta para o quarto, e não me atrevi a olhar para trás um minuto sequer. Algo me dizia que, caso eu o fizesse, a mulher voltaria a insistir naquela ideia estúpida de café, ou arrumaria qualquer outra coisa para fazermos juntos. Eu não conseguia entender aquele interesse repentino em mim depois de todo o cansaço que ela me dera dentro da sala e algo dentro de mim me dizia que coisa boa não podia ser. Suspirei enquanto me aproximava dos quartos, encontrando-me com Mike do lado de fora, um cigarro pendurado nos lábios e os braços cruzados.
Nossos olhares se encontraram quando me aproximei e, com os olhos, o tenente me perguntou como havia sido. Dei de ombros, erguendo o polegar em afirmação e um sorriso se curvou nos lábios do homem. Mike abriu a porta para mim e me seguiu ao que entrei. Encontramos Erwin sentado à cama, a expressão cansada e preocupada, os olhos indo vez ou outra em direção ao banheiro, de onde um barulho monstruoso vinha.
– O que está acontecendo aqui? – Perguntei.
– Hange está trancada lá dentro desde o café da manhã – ele respondeu, levando as mãos aos cabelos. – E não queria sair até você chegar.
– Eu? – Apontei para mim mesmo, tirando a pasta de debaixo do meu braço e jogando-a sobre a mesa de centro. Caminhei até a porta do banheiro e dei duas batidas ligeiras com os nós dos dedos. – Zoe, o que você tem?
– Mal estar – veio a voz abafada do outro lado, enquanto mais daqueles sons grotescos se faziam escutar. – Como que foi lá?
Suspirei.
– Saia daí para eu contar para todos de uma vez – falei, voltando-me para a mesa, sentando-me sobre a superfície, as pernas sem alcançar o chão, e debrucei os cotovelos sobre os joelhos. – Não quero ter que repetir a história.
– Tá – ela resmungou do outro lado.
Pouco depois, escutamos o som da descarga sendo dada e o trinco da porta girando. A pessoa que saíra do banheiro era quase irreconhecível, uma mulher pálida e de rosto macilento, cabelos soltos e desgrenhados e olheiras profundas. Tanto Mike quanto eu a olhamos surpresos enquanto Erwin saltava da cama e a amparava, que parecia a ponto de cair. O comandante passou a mão pelo rosto de Hange, afastando os cabelos e a levou pelos braços até a cama onde estivera há instantes atrás, sentando-se e puxando-a para seu colo. Os braços grossos de Erwin se fecharam em torno do corpo de Zoe e ela o abraçou pelo pescoço.
Mike me ofereceu uma xícara de chá fumegante que aceitei de bom grado depois de todo aquele tempo sem colocar nem uma gota de líquido para dentro e respirei fundo antes de narrar todos os acontecimentos da audiência, finalizando com o acontecido no corredor, quando Norma me procurara.
– Não sei o que ela queria – falei, passando as mãos pelos cabelos, afastando-os dos meus olhos. – Mas eu não iria aceitar de qualquer forma.
– Eu sei o que ela queria – falou Hange. – Ela queria algo que deixaria Jaeger furioso.
– Não tem graça, quatro-olhos. – Rebati, lançando-lhe um olhar mal-humorado.
– Pelo menos essa parte acabou – disse Erwin, fechando os olhos e acomodando o rosto na curva do pescoço da tenente. – Precisamos apenas encarar mais duas sessões com a corte militar e, se der tudo certo, iremos embora em breve.
– Sobre isso… – comecei, relatando minha conversa com Nile na noite passada.
O rosto de Erwin expressou raiva, pesar, resolução e, por fim, as sobrancelhas comprimidas, ele finalmente falou.
– O que ele quer dizer com essa história sobre Lenz? – Perguntou.
– Você nunca escutou o boato, Smith? – Disse Mike, sentando-se na cadeira. – Sobre a família Reiss?...
– Os nobres Reiss?
– Sim – respondeu o homem.
Eu já escutara aquela história demais para ter que ouvir tudo novamente, e saltei da mesa, indo em direção ao banheiro para me banhar e lavar aquele dia exaustivo para fora de mim. Eu havia conseguido acabar com aquele inquérito em apenas um dia, o que era um puto feito, mas algo me dizia que havia sido fácil demais, que as coisas não acabariam ali. A janela aberta, um vento frio entrou por ela e fez meu corpo inteiro se arrepiar. Aquilo deveria ser um mau presságio. Dedos gelados tocaram meus braços e, à lembrança de Norma, desvencilhei-me rapidamente só para dar de cara com uma Hange assustada com meu ato.
– Calma, rapaz – ela falou. – Sou eu.
– Desculpe – minha mão repousava sobre a maçaneta enquanto eu esperava que a mulher dissesse o que queria e me liberasse logo para tomar banho.
– Chegou mais um relatório hoje cedo – ela sussurrou. Hange sabia sobre meu plano de pequenos esquadrões, ao contrário de Erwin, e empurrou um pedaço minúsculo de papel para os meus dedos. – As coisas não estão boas lá, Levi. Precisamos voltar.
– Precisamos voltar desde o momento em que partimos – respondi, desembrulhando a folha e lendo uma dúzia de palavras que diziam sobre o treinamento, Sasha, o braço quebrado de Jean e Eren, sem comida.
Meu coração deu um salto, parecendo parar momentaneamente e voltar a bater com força contra minhas costelas.
– Vamos terminar aqui o mais rápido possível – ela ainda sussurrava, mais por falta de forças do que por discrição. – E voltamos logo. Sinto muito por essa situação, por você estar tão longe de Jaeger.
Passei a mão pelos seus cabelos suados e senti o quão fria estava sua pele.
– Cale-se, quatro-olhos. – Senti sua testa e a temperatura estava muito abaixo do que deveria. – Você está bem?
– Estou – respondeu-me Hange, um sorriso inocente trespassando seu rosto. – Estou ótima, na verdade – ela se abraçou. – Apenas um pouco de enjoada do café da manhã.
– Hm – resmunguei. – Vá se sentar de novo. Obrigado pela mensagem – enfiei o papel no bolso da minha calça.
Zoe deu de ombros e se afastou, voltando a se aninhar nos braços de Erwin e olhando significativamente para mim enquanto ainda abraçava o próprio corpo, as sobrancelhas erguidas tentando me passar alguma mensagem que eu não estava conseguindo identificar. Balancei a cabeça negativamente, indicando que ainda não havia entendido e entrei para o banheiro, despindo-me com rapidez e entrando debaixo do chuveiro quente.
Deixei a água lavar para fora de meu corpo todo o cansaço daquele dia que ainda não havia acabado, esperando não receber mais nenhum tipo de surpresa. Ainda precisávamos estudar com Zachly para a corte do dia seguinte, e depois para a reunião com Pixis e mais alguns responsáveis pela Guarnição. Eu ainda precisava ler o restante das mensagens e pensar em uma forma de respondê-los sem que os policiais captassem a mensagem antes que chegasse às mãos dos meus líderes de esquadrão.
Parte de mim sentiu-se culpada ao extremo ao imaginar o que eles estariam passando no quartel enquanto vivíamos relativamente bem naqueles dias. Saber que Kirstein havia quebrado o braço por tentar ajudar Eren, que ainda estava preso, fazia-me sentir infeliz além das palavras. Era ruim o suficiente que uma porção de pessoas cruéis estivesse usando dos nossos soldados como saco de pancadas para ainda saber que as coisas poderiam demorar por ali e adiar ainda mais nosso retorno para casa, quando colocaríamos tudo em ordem. Mais de uma vez, minha mente me levou de volta à Eren, tentando visualizá-lo acorrentado em uma cama e sem comer, tratado como um animal.
A raiva queimou ardente em meu peito, alastrando-se pelos meus olhos e escorrendo como fogo na forma daquelas lágrimas cheias de ódio que eu deixava sair de mim. Depois de tudo que Eren passara, era simplesmente injusto demais que ele ainda estivesse confinado no lugar que deveria ser sua casa. Mentalmente, anotei que, assim que voltasse, iria levar o garoto para mais uma temporada em nossa cabana, e o trataria até que estivesse completamente recuperado – isto é, se Eren me perdoasse por haver partido, em primeiro lugar.
Suspirei, girando a manivela e acabando com a cascata que caía sobre minha cabeça. Sequei-me rapidamente com a toalha e apanhei uma calça e camisa que eu havia deixado penduradas no gancho atrás da porta. Saí com a toalha ainda sobre a cabeça, evitando que meu cabelo molhado respingasse no chão. Para minha estranheza, o quarto estava vazio, as janelas abertas batendo-se com o vento forte que entrava por elas, anunciando uma tempestade. O candelabro que estava aceso sobre a mesa de centro agora jazia apagado e derrubado no chão, e uma pilha de papeis se espalhava pelo tapete à nossa frente.
Mais uma brisa fria correu pelo aposento, entrando pelas minhas roupas e acentuando ainda mais aquele péssimo pressentimento. Troquei-me rapidamente, puxando as janelas para que parassem de bater, e cerrei as cortinas. O dia começava a se fechar em uma cor cinza opressiva, e o primeiro raio caiu do céu enquanto eu vestia minhas botas. Enfiei o punhal de Kenny no cós da minha calça, repetindo o que fizera na noite passada quando conversei com Nile e saí para um corredor vazio, desprovido de pessoas e sons, as luzes apagadas.
Algo estava errado, eu podia sentir no ar, no vento que entrava pelas frestas na madeira e tocava meu rosto com dedos frios e cruéis. Meu coração se apertava no peito enquanto me esgueirei pelo caminho, sem saber exatamente o que procurar, sabendo apenas que precisava encontrar meus amigos, porque havia, com certeza absoluta, alguma coisa fora do lugar. E não precisei procurar muito para escutar o primeiro grito de Hange atrás de uma das portas duplas de mogno que davam para os escritórios particulares dos oficiais de maior patente da Polícia Militar.
Saquei a faca e empurrei a porta da esquerda com a mão aberta. O cômodo estava envolto na penumbra e, antes dos meus olhos acostumarem-se com a vista, escutei a porta ser fechada às minhas costas e um pé acertar-me na parte de trás do joelho direito, lançando uma dor transcendental pela minha perna e caí no chão, de quatro, os olhos lacrimejantes pela dor.
Não havia nenhuma fonte de luz até que mais um raio desceu do céu, acompanhado de um trovão ensurdecedor e, por milésimos de segundo, vi Erwin preso nos braços de um homem do tamanho de um monstro, Mike parado com uma pistola e uma espada apontadas para si e Hange, presa pela cintura pelos braços de um homem semelhante ao que segurava Erwin, a expressão desesperada e os olhos, novamente, pedindo por ajuda enquanto transmitiam a mensagem silenciosa que eu ainda não conseguia entender.
