Mãos e joelhos no chão, lancei um olhar para o homem sentado atrás da mesa, mãos cruzadas sustentando o queixo e olhos faiscando na minha direção. Djel Sanes me encarava com as bochechas levemente repuxadas para cima, o que significava um sorriso pretensioso. A situação me surpreendera de tal forma que apenas fiz continuar olhando-o de baixo, lançando olhares furtivos aos meus amigos.
– Capitão Levi – começou o homem, atraindo minha atenção de volta a si. – Estávamos esperando o senhor.
Apertei os olhos, tentando enxergá-lo melhor na escuridão que voltava a invadir o cômodo. Tentei me levantar, mas fui invadido por uma onda de dor que subiu pelo meu joelho machucado e meus olhos lacrimejaram. Respirei profundamente, o punhal preso à minha cintura me espertando dolorosamente, mas ignorei aquela dor. Se notassem que eu estava armado, iriam tirar meu punhal de mim, e eu não podia permitir que ninguém tirasse a faca que Kenny me dera. Foi então que senti alguns dedos fechando-se no topo de minha cabeça e levantando meu corpo pelos meus cabelos. A dor era lancinante; parecia que meu couro cabeludo estava se desprendendo de meu crânio e eu podia jurar que sentia as fibras que os ligavam se romper uma a uma.
Mal fui colocado de pé, um par de braços se fechou à volta do meu pescoço, muito bem acomodados devido à minha pouca altura. A chave de pescoço mal feita impedia que o ar entrasse pelos meus pulmões, e apliquei um dos exercícios de respiração que eu aprendera no subsolo. O segredo era respirar lenta e profundamente, prendendo o ar por mais tempo. O fiz algumas vezes e consegui reunir, além de oxigênio, um pouco de calma. Quando a chuva começou a tamborilar nas janelas de vidro, Sanes começou a falar, e sua voz era arrastada, carregada de algo maligno o qual eu não soubera identificar.
– Capitão – ele falou –, comandante Smith, tenentes Zacharius e Zoe, é um prazer imenso tê-los sob nosso teto. Infelizmente, as circunstâncias não são as melhores, certo? – O homem abaixou as mãos e revelou um sorriso de dentes amarelos e tortos. Um arrepio percorreu minha espinha; aquilo era nojento. – Teria sido muito mais fácil não precisarmos ter este tipo de conversa, dessa forma, mas os senhores não nos deixaram escolha. Essa Tropa de Exploração é bem… furtiva. Vocês sempre arrumam um jeitinho sórdido de safarem das coisas, não é?
Troquei um olhar com Erwin, e meu comandante apenas balançou a cabeça sutilmente em sinal negativo. Eu não deveria interromper, ok, eu pegara a mensagem, mas meu coração, em chamas, pedia por uma reação. Eu via o rosto de Hange novamente assumir aquele tom esverdeado e macilento, e eu não sabia o que fazer. Havia algo errado com ela e ela queria me dizer, mas eu simplesmente não conseguia entender o que era. Como eu podia ser tão estúpido? Mais um trovão se fez escutar depois de um raio e, finalmente, Sanes acendeu as lamparinas sobre sua mesa, inundando o quarto com uma luz amarela sinistra.
– O que significa essa palhaçada? – Perguntei, finalmente, ignorando a ordem de Erwin.
– Achei que o senhor não perguntaria, capitão – falou Sanes, soltando uma risada curta e baixa, cheia de escárnio. – Os trouxemos aqui porque tínhamos certeza de que acharíamos uma brecha nos seus relatórios; veja, precisamos trazer o garoto Jaeger para nossa Polícia, acreditamos que o senhores saibam o por que. Desde o começo, ele deveria ter vindo para cá.
– Para ser tratado como um animal – Hange falou entre dentes, o homem apertando-a ainda mais e sua voz falhando no final.
Djel deu de ombros.
– Talvez. Por que é isso o que ele é, correto, tenente? – Sanes fez uma pausa na qual esquadrinhou nossos rostos e voltou a mim. – Um monstro, não é, capitão?
Mantive o silêncio. Eu podia jurar que meu rosto estaria vermelho de cólera e que Sanes estava usando isso contra mim. O homem estava conseguindo me provocar de tal forma que eu queria apenas voar em seu pescoço e estrangulá-lo com minhas mãos. Mas, novamente, senti o olhar de Erwin e procurei me acalmar. O comandante sabia que eu era capaz de acabar com aquela situação em um piscar de olhos, mas ele queria escutar o resto, eu tinha certeza. Repeti o exercício de respiração e esperei.
– Você vê, capitão, a nossa intenção era prendê-lo pelos crimes que o senhor cometeu com o soldado Jaeger, mas recebi o relatório da audiência e, uau, o senhor é bem astuto, hein? – A forma com que Sanes falava era estranha… ele parecia estar sob algum tipo de influência que o fazia soar tanto tolo quanto ameaçador. Agucei a audição, tentando identificar o que poderia ser. – E nem mesmo na corte militar os senhores nos deram motivo para prendê-los. Mas cá estamos. Nós daríamos um jeito de pegá-los, eu sabia que daríamos, afinal vocês estão em nosso território e aqui nós temos mais poder. Os senhores não são páreos para nós, até porque todos os meus oficiais são os melhores de suas turmas, então a Polícia Militar tem apenas a nata dos soldados, enquanto vocês aceitam qualquer um. Você vê aí a diferença entre nós e vocês? E, neste exato momento, meus soldados em seu quartel general estão subjulgando os seus homens e tomando o controle do local. Eu sei, eu sei… vocês não esperavam por isso, mas nem deveriam, senão nosso plano teria ido por água abaixo, e sua majestade nos ordenara que a tropa de vocês fosse dissolvida. – Djel fez uma pausa dramática, olhando dentro dos olhos de Erwin, inclinando-se sobre a mesa. Havia um quê de insanidade em sua expressão, e aquilo o fazia ser ainda mais assustador. – O que faremos com seus integrantes? Claro, eu já ia chegar lá, caros capitão Levi e comandante Erwin. Os integrantes da antiga Tropa de Exploração que não demonstrarem resistência serão remanejados para as outras duas divisões, de acordo com seu posto. Os demais…
Mais um olhar assustador. Erwin e eu voltamos a nos encarar e então escutei a voz de Sanes, em um sussurro, concluir o que iria dizer.
– Os que não forem tão cooperativos, bom, terão os mesmos destinos que os senhores. Enforcamento em praça pública por serem inimigos do rei e, por consequência, de toda a humanidade.
O silêncio que se seguiu pareceu sufocar a todos nós. Aquilo estava mesmo acontecendo? Desde o começo, quando eu entrara para a tropa, Erwin suspeitava que o rei e a capital queriam boicotar nossas atividades. Havia algo nas nossas missões que o deixavam extremamente desconfortáveis, mas nós nunca conseguíamos descobrir de fato o que era. Nossa desconfiança era de que poderia ser apenas ambição – nossas missões sempre demandavam o maior orçamento, e talvez os nobres estivessem preocupados demais com suas fortunas para ter algum interesse no avanço das pesquisas em prol dos seres humanos. Mas aquilo era simplesmente absurdo.
Eles queriam nos prender e depois… nos matar?
– E bom, comandante e capitão, se vocês não sucumbiram por bem, então será por mal.
As mãos em meu pescoço ameaçaram se mover, mas escutei Hange gemer perto de mim, os olhos castanhos por três dos óculos tentando pela última vez pedir minha ajuda. Ela olhava freneticamente para mim, para Erwin e depois para as mãos do brutamonte que a segurava. Ele a estava machucando, isso eu podia ver, mas eu não podia ajudá-la até que Smith me dissesse que eu poderia agir. Eu sabia que deveria salvar meus amigos, mas não havia como agir ainda. Novamente, ela tornou a olhar para nós dois e para baixo, em direção ao seu abdome. Por que a mulher não falava logo o que estava errado?
E foi então que, como se uma luz se acendesse em minha cabeça que entendi. Não poderia ser… poderia? Sacudi a cabeça, negando a ela, mas ela via em meus olhos que eu finalmente havia captado sua mensagem. Tudo parecera escurecer à minha volta, e meus olhos apenas enxergavam Hange e os braços à volta de sua barriga, a qual, em todo o desespero que me tomou naqueles nano segundos, eu podia ver crescendo na minha imaginação. Meus lábios delinearam "não é possível", mas minha melhor amiga apenas se limitou a concordar com o que eu já entendera como verdade. Aquele homem estava machucando-a e… ao seu filho.
Meu coração disparou como uma arma em meu peito. Aquilo não se tratava mais de nós quatro, adultos, que poderíamos dar conta da situação sozinhos. Aquilo envolvia uma quita pessoa que começava a crescer dentro do corpo de Hange e cabia a mim salvá-la daquele lugar. Virei-me para Djel.
– Então o rei sabe disso? – Perguntei, sentindo novamente o olhar de Erwin queimar em minha nuca.
– O rei ordenou que os detivéssemos. – O homem levou a mão à testa, encenando como se estivesse pensando. – Ah, mas os senhores podem ter uma moeda de troca. Segundo sua majestade, vocês podem nos entregar Eren Jaeger e Krista Lenz. Assim, terão direito a um julgamento, então pode ser que vocês só fiquem presos pelo resto de suas vidas. – E deu de ombros.
Escutar o nome de Eren daquela forma, da boca suja daquele homem tão asqueroso fez com que eu voltasse a sentir aquele calafrio percorrer minha espinha. Meu garoto estava preso no quartel general que deveria lhe dar conforto e ser sua casa, e eu estava aqui, aguardando pelo momento de agir e salvar meus amigos. As coisas pareciam tão fodidas e injustas que, repentinamente, senti vontade de rir. Há apenas dias atrás estávamos tão bem, em nossa cabana no meio da floresta e agora olha aonde havíamos chegado. Eu apenas queria matar todas aquelas pessoas e voltar para casa.
Sanes abaixou as mãos na mesa e sua boca se abriu, jorrando palavras sem fim. O homem parecia tão louco quanto possível e, para nossa sorte, ele mesmo falava as coisas que queríamos saber sem que precisássemos perguntar.
– Lenz é alguém importante para lorde Reiss, vocês devem saber. Bom, ele é o verdadeiro rei, vocês devem saber, certo – bom, nós não sabíamos, mas agradeci mentalmente pela informação valiosa. – E o rei teve uma filha bastarda que, depois de um tempo, foi enviada para a muralha Rose, pois queria evitar um escândalo envolvendo seu nome e de sua família. Mas, como os senhores também sabem, quando a muralha Maria caiu, toda a família Reiss caiu consigo, exceto pelo lorde, que estava em viagem de negócios à capital. E então… quem sobra?
Permanecemos em silêncio. Aquele homem era louco. Não havia outra explicação para seu tom e suas expressões.
– Isso mesmo, a bastardinha. A tal Historia Reiss que agora ingressava na 104ª turma de recrutas sob o nome falso de Krista Lenz e, mais tarde, viria a integrar o corpo da Tropa de Exploração.
Notei Erwin e Mike trocarem um olhar – então aquela história do caso extraconjugal do rei era verdade. Mas nunca, em todos os nossos palpites, imaginávamos que a dita filha poderia ser Lenz, a menina minúscula que ficara entre os dez melhores de sua turma, mas que lutava como se sentisse pena dos titãs.
– E agora sua majestade precisa que Lenz e Jaeger sejam levados de volta para o palácio, pois tem planos para os dois. Vocês conseguem entender, não é? – Perguntou ele, inclinando-se para trás, os olhos arregalados em nossa direção buscando a resposta para algo que não conseguíamos acreditar. – O rei também acredita que Eren precisa de treinamentos mais… específicos, podemos dizer assim. Ele ficaria na mesma divisão da Polícia Militar que Annie Leonhart, para que desenvolvam suas habilidades juntos. Os senhores conseguem entender enxergar o quadro todo e entender que a situação aqui vai muito além dos seus desejos pessoais e suicidas de saírem da segurança das muralhas para explorar um mundo que não nos pertence?
Havia algo errado ali. Aquela era a segunda vez que mencionavam a tal menina Annie e falavam sobre habilidades e treinos em conjunto com Eren. Aquilo significava que havia algo de diferente com a menina, e minha mente já sabia a resposta. Olhei para o comandante, que parecia ter chegado ao mesmo ponto de pensamento que eu, e agora curvava a boca em uma ordem silenciosa de que eu poderia finalmente agir.
Comecei a escutar as engrenagens de minha cabeça funcionando em busca de uma forma de revertermos aquela situação. Eu apenas precisava chegar a alguma maneira de libertar Mike para que ele pudesse me ajudar. Olhei-o, encontrando seus olhos resolutos, como os meus, e ele acenou, positivamente. A sobrecarga de emoções e de informações obscureciam meus olhos um pouco, então os fechei e voltei a respirar profundamente. Eu precisava desligar minha humanidade naquele momento para que tudo desse certo. Sem medo, sem apreensão. Apenas eu, meu punhal e minha força. Eu era um.
Um com minha arma.
Com os olhos ainda fechados, visualizei onde estariam as mãos do homem, icei meu corpo totalmente para frente e o empurrei com os dois pés, afastando nossos corpos e pousando no chão com um giro. Aquilo teria que ser rápido, muito rápido. Saquei o punhal de Kenny do cós da minha calça e, ignorando a dor em meu joelho, avancei em direção ao homem e deslizei a lâmina em seus dois punhos. Suas mãos penderam quase soltas de seus braços presas por apenas uma faixa fina de pele, enquanto o sangue e o grito do homem inundavam o cômodo. Pelo canto do olho, vi Mike usar daquela distração para tomar a arma que estava prensada contra sua nuca e, em um tiro certeiro, acertar o policial no meio da testa.
A lâmina da espada que o prendia começou a cair da mão do homem morto e ele a agarrou com suas mãos livres, o sangue vermelho escorrendo por elas. Zacharius, tão rápido quanto eu mesmo, apareceu atrás de Djel e colocou a arma em sua têmpora esquerda, lançando a espada para mim com a outra mão. A agarrei no ar, ligeiramente enojado pela quantidade de sangue que a recobria.
– Mande que eles soltem o comandante e a tenente – falou Mike, a voz retumbante sobressaindo-se aos sons do homem que eu machucara. – Agora.
– Marcus, Felix… – começou Djel, os olhos arregalados. – Por favor, terminem o serviço.
Meu coração disparou e o sangue ferveu em minhas veias. Eu não tinha mais tempo. Estreitei os olhos e calculei minha área de atuação. Entre Hange e Erwin, o espaço era mínimo para que eu pudesse derrotar os dois grandões, e eu teria apenas uma chance, a qual não poderia desperdiçar de forma nenhuma. E também precisava ter cuidado; um milímetro executado errado e eu poderia ferir os meus dois melhores amigos. Girei o punhal e a lâmina em meus dedos, segurando-os por trás e, voltando a sentir a corrente elétrica em meu corpo quando forcei a perna machucada, projetei-me para frente, agradecendo pelo meu pouco peso e corpo pequeno, girando no ar e, com um último impulso, saltando sobre as cabeças dos homens.
– Zoe, abaixe a cabeça! – Gritei.
– O que?...
– Abaixe!
E, bem a tempo, Hange abaixou-se quando girei a espada contra a cabeça do homem que a segurava e o punhal pelo pescoço do policial que prendia o corpo de Erwin. Então, silêncio.
A chuva ainda era forte do lado de fora, e a luz dentro da sala não era mais tão forte. Um relâmpago estourou no céu, jogando uma luz branca, mórbida, lá dentro, bem a tempo de que todos vissem a cabeça daquele chamado Felix cair no chão com um baque surdo. Erwin se levantou com um pouco de dificuldade e acendeu a luz do quarto, revelando os detalhes daquela carnificina e escutei Hange segurar o vômito novamente. Naquele momento, enquanto sacudia o excesso de sangue da espada e a entregava para meu comandante, enquanto caminhava em direção à mesa de Sanes, senti-me como um monstro. Eu havia tirado a vida de duas pessoas indiscriminadamente. O que eu fizera?
De repente, senti-me como um titã. Inconsciente, apenas sedento da vida dos outros, nada mais, nada menos. Num lampejo de clarividência, consegui entender como Eren se sentia, e o porquê do garoto se sentir tão mal pela morte dos outros quando estava em sua forma de titã, e por ter tanto remorso de ter machucado Mikasa no dia em que tampou o buraco na muralha Rose. Aquela sensação era indescritível em muitos níveis, passando por incrível até esmagadora e o que restava quando ela passava era apenas uma estranheza incômoda consigo mesmo.
Respirei fundo, chegando perto da mesa e voltando-me para o homem que agora me olhava realmente amedrontado. Aquele sentimento precisaria ficar para depois. Talvez eu conversasse com Erwin sobre, e ele pudesse me ajudar com a culpa que começava a se apossar de mim. Falar com Eren também podia ser que ajudasse, afinal o meu garoto passara por situações semelhantes, por motivos parecidos e, bom… era bom contar para Eren sobre mim. Era como se o peso das coisas se tornasse menor em meus ombros e eu pudesse andar ereto novamente.
Puxei a gola da jaqueta de Djel e a usei para limpar a lâmina de meu punhal, girando-o em meus dedos depois e deixando-o cair, com a ponta para baixo, próximo à sua mão. Eu podia quase escutar as batidas do coração de Sanes, desesperadas, sob sua roupa e aquilo soou como música para os meus ouvidos. O homem o qual eu cortara as mãos ainda gemia de dor, a garganta provavelmente já estourada pelos gritos e, benevolente, Mike lhe deu o tiro de misericórdia.
Voltei a pegar o punhal depois de lançar um olhar para trás e ver que Erwin agora segurava a espada na mão direita, enquanto a esquerda amparava o corpo de Hange e a mantinha de pé. A tenente repousava a cabeça em seu ombro e parecia realmente esgotada. Imaginei que Smith não soubesse sobre o neném, e por isso ele não fizera nada a respeito, nem falara nada. Isso vai ter que esperar um pouco, pensei, tenho assuntos urgentes agora. Troquei um aceno de cabeça, pedindo autorização ao comandante, que me concedeu com as sobrancelhas franzidas e os olhos ardendo em chamas.
– Então, Sanes – comecei, vendo-o abrir a boca, mas Mike o impediu de falar quando deslizou o cano da arma pelos seus lábios. – Eu vou contar até três e você vai me contar quem mais está por trás disso. Quero todos os nomes e quero o nome dos responsáveis pelos seus soldados de merda no meu quartel general. E quero agora. Porque esse – apontei para a bagunça de corpos e sangue atrás de mim – é o meu "por bem". Você não quer que eu arranque essas respostas de você por mal.
Girei o punhal no ar, o agarrei pelo cabo enquanto voltava a cair e finquei sua ponta na mão que Djel mantinha espalmada sobre a mesa.
–––
Havia sangue. Muito mais sangue do que antes. Dentes e unhas faziam companhia àquela imagem macabra que Mike e eu pintamos no cômodo onde estávamos por não mais que algumas horas. Nós tínhamos certeza de que não acabaria bem, mas Erwin estava pensando em algo para nos ajudar a nos safar daquilo. Feliz ou infelizmente, havia sido em legítima defesa. O único problema é que estávamos em território inimigo e se não déssemos logo um jeito de encontrar aliados, seria o nosso fim.
Mike inseriu o alicate que encontrara em uma das gavetas da mesa sob a última unha que Djel tinha nas duas mãos e o fechou suavemente. O corpo de Sanes voltou a tremer. Levei a mão até os olhos, esfregando-os ligeiramente.
– Djel – falei, a voz baixa –, você não tem mais unhas nas mãos. Eu terei mesmo que tirar também as dos seus pés?
Ele negou com a cabeça.
– Então me responda. Eu preciso apenas de um nome. Um nome bem pequenininho – juntei o polegar com o indicador e o sacudi em sua frente. – Basta me dizer e eu te libero. Carrego-lhe nos meus próprios ombros até o hospital. – Então, fechei a mão em punho e bati na mesa. – Só me dê a merda do nome!
Djel ainda sacudia a cabeça. Talvez o homem houvesse perdido o juízo depois de tanta dor. Eu não iria me espantar se o houvesse. Havíamos arrancado alguns dedos e nove das dez unhas que tinha nas mãos, isso além do soco único que dei em seu rosto, transferindo toda a força que eu conseguira juntar em meu punho diretamente para seu olho esquerdo. O inchaço fora tão grande que eu já não saberia dizer aonde acabava a pálpebra fechada e começava o restante do rosto.
– Levi, é melhor pararmos – a voz de Erwin me alcançou, a mão pousando em meu ombro.
Virei-me bruscamente, encontrando meu melhor amigo parado atrás de mim, os olhos sombrios e preocupados. Precisei levantar os olhos para encontrar os seus, e sua autoridade de comandante fazendo com que eu parasse. Acenei para Mike, que retirou o alicate da unha de Sanes. Ambos respiramos audivelmente, cansados tanto física quanto mentalmente. Desempoleirei-me da mesa com um salto e senti a corrente de dor trespassar minha perna quando o fiz. Com uma careta, caminhei entre os corpos dos mortos na sala e me postei de encontro à parede. Meus ombros relaxaram instantaneamente no momento em que deixei meu corpo escorregar até o chão na única área limpa.
Tampei o rosto com a mão, sentido os últimos resquícios de força quererem deixar meu corpo e fechei os olhos. As mãos quentes do sono começaram a envolver meu ser e, lentamente, minha mente se tornou anuviada, os pensamentos oscilando entre a audiência e depois Eren e, então, o momento em que matei aqueles homens e o tanto que eu torturara Sanes. Aquilo parecia ter acontecido no decorrer de anos, mas se passara apenas algumas horas desde que eu me sentara frente ao conselho do Comitê de Ética para contar detalhes da minha relação com o meu namorado. Eren… ficaria ele enojado de mim quando soubesse o que eu acabara de fazer?
Talvez eu não contasse isso para ele quando eu chegasse ao quartel general. Afinal, havia uma parte de mim, aquela mais obscura e sombria de minha alma que eu não poderia deixar que ele conhecesse nunca, senão Eren me deixaria com certeza. E ele não podia me deixar. Eu me tornara mais forte, mais homem e mais humano desde que ele entrara em minha vida, e me sentira feliz pela primeira vez desde que Isabel e Farlan me deixaram quando ele aceitou ser meu. Eu não poderia simplesmente arriscar perdê-lo para o monstro negro que vivia dentro de meu coração.
Tombei para o lado, esgotado e sem forças para levantar. O chão de pedra era frio, o que foi reconfortante para mim. Todo meu corpo estava febril e meu coração insistia naquele ritmo frenético dolorido, martelando o sangue nas minhas têmporas e fazendo meus olhos se espremerem de dor. Tudo já estava ficando escuro quando escutei a porta se abrir e, em silêncio, botas negras cruzaram meu campo de visão, movimentando-se de acordo com as ordens que eu escutava vir de Erwin – escutava, porém não ouvia o que diziam.
Senti um par de mãos me colocarem de pé e me levar de volta ao nosso quarto. Preocupei-me apenas em me certificar de quem era, e vi Mike guiando-me. Relaxei. Eu estava nas mãos de um amigo. Minhas pernas fraquejaram e senti os joelhos ceder ao mesmo tempo em que o tenente me amparava por baixo dos braços, afastava uma porta que eu não sabia onde era e deitava meu corpo na cama.
Fechei os olhos e apaguei.
–––
Quando os abri, ao contrário do que eu esperava, vi a noite cair pelas janelas. A madrugada pesada caía sobre meu corpo com um peso esmagador e precisei respirar profundamente antes de arrastar o corpo para cima. Eu ainda usava a mesma roupa com a qual me vestira mais cedo depois do banho, e todas as partes de mim doíam, inclusive o joelho. Ele latejava, protestando contra todos os esforços que eu fizera. No fundo de minha mente, uma voz riu de escárnio, dizendo-me que eu teria que acabar amputando aquela perna se não entendesse que agora eu já estava me tornando um homem velho e meu corpo não era mais o mesmo de antes.
O quarto no qual eu me encontrava não era o mesmo em que nos colocaram quando chegamos a Mitras. Era maior, e a cama onde eu estava era de casal, com o dobro do tamanho da cama pequena onde dormi os dias que se passaram. Joguei as pernas para o lado de fora e firmei o corpo de pé, ainda sentido as juntas reclamarem e pedirem para voltarmos. Eu estava sozinho no escuro, e me apressei em afastar as cortinas, deixando a lua banhar todo o cômodo, inundando o quarto de luz.
Encontrei a porta e a abri, apreensivo. Eu não havia encontrado meu punhal em lugar nenhum, e aquilo me incomodou ligeiramente. Sem ele, eu tinha apenas as mãos para me defender ou atacar, e Kenny me dissera que um homem que possui somente as mãos está fadado à derrota, pois a carne nunca é o suficiente; a carne se fortifica com o metal, e por isso que todos os homens deveriam ter a sua própria lâmina.
Minhas botas ecoaram no piso frio quando saí para um corredor iluminado. Aquela cena me dava uma sensação de déjà vu e me perguntei se eu não estaria indo, naquela hora, encontrar meus amigos e tudo o que eu vira de sangue e morte não fora apenas um sonho premonitório. Porém, pela primeira vez, sorri ao me descobrir enganado. Atravessei um portal de pedra e encontrei Erwin inclinado sobre uma mesa, as sobrancelhas franzidas e alguns papéis à sua frente. Sua expressão era indecifrável, e seus lábios se moviam rapidamente a cada palavra que lia. Aproximei-me com cautela e coloquei a mão em seu ombro.
Smith deu um pulo, lançando um olhar para trás e permitindo-se relaxar ao me encontrar.
– Levi – ele falou, afastando a cadeira e as folhas. – Você acordou!
– Não – respondi. – Ainda estou lá, adormecido.
Erwin soltou uma risada alta.
– Deixe de ser rude. Como você está?
– Dolorido – falei, puxando uma das cadeiras e sentando-me ao seu lado. Cruzei as pernas e os braços, esticando o pescoço para tentar ler o que estava escrito nas folhas, mas Erwin as recolheu e dobrou. – O que aconteceu, Erwin? As coisas parecem um pouco turvas na minha mente e eu não consigo acreditar muito bem…
– Levi, nós matamos quatro homens – falou o comandante, a risada sumindo de sua voz na mesma rapidez com que aparecera e seu semblante vestindo-se se austeridade. – E torturamos o segundo homem no comando da Polícia Militar.
Assenti. Então aquilo tudo realmente acontecera.
– Mas Nile está do nosso lado – ele continuou –, ele e Zachly. E, para todos os efeitos, nada aconteceu. Darius nos encobriu no que aconteceu hoje e Sanes… bom, Sanes não falará nada por um bom tempo. Precisamos apenas saber onde pisar e como agir de agora em diante.
– O que você quer dizer?
– Bom, nós declaramos guerra ao rei, Levi – disse Erwin, e vi seus olhos faiscarem. O homem tinha um espírito de revolta dentro de si que era tão grande que por vezes chegava a me surpreender.
– Não declaramos nada. O rei que veio atrás de nós e…
– E nós revidamos. E continuaremos a revidar, porque eu tenho um plano para acabar com isso.
Empertiguei-me na cadeira.
– Que plano, Smith?
– Lembra-se da história sobre Krista? – Ele me perguntou, levantando uma das sobrancelhas sugestivamente. – Sobre ela ser a herdeira da família Reiss? A única que sobrara? – Assenti, e então Erwin continuou. – E se nós destronássemos o falso rei e colocássemos a garota no trono?
Ergui uma das mãos, fazendo-o parar.
– Você perdeu o juízo? – Perguntei, vendo sua expressão de surpresa. – O povo adora o rei. Nós não podemos simplesmente tirar um homem do poder e colocar uma garota de dezesseis anos em seu lugar. Por mais que a família governe por trás dos panos, eles têm feito a coisa funcionar. E nosso objetivo, o objetivo da Tropa de Exploração, não é lutar contra os humanos, e sim contra o inimigo natural da humanidade, Erwin.
– Levi, eles querem nos liquidar. O rei quer; o verdadeiro rei, lorde Reiss. Há algo errado nisso, porque eles sabem do nosso avanço com as pesquisas e as missões, e, como nós, eu sei que eles sentem que estamos cada vez mais próximos da verdade desse mundo. E isso os incomoda de alguma forma, é como se não quisessem que nos aproximássemos…
– Digamos que você esteja certo – o interrompi –, como faremos isso? Eu quero dizer, como iremos fazer com que o povo aceite a nossa rainha no lugar do rei que cresceram adorando?
– Hange e Mike já estão cuidando disso. Estão na editora do jornal neste exato momento, com os redatores, contando toda a história que Sanes nos contou. Zachly assinará tudo, e temos o apoio da Tropa de Guarnição e da Polícia Militar até onde a influência do comandante for – disse Erwin. – E, assim que destronado esse falso rei, traremos Krista para cá. Ela irá assumir a coroa sob seu verdadeiro nome, Historia Reiss. Quando ela estiver no trono, nós conseguiremos todos os subsídios para que possamos sair das muralhas e ter mais equipamentos e suprimentos para as missões. – O comandante fez uma pausa, puxando um pouco de ar para dentro dos pulmões e finalizando com um sorriso. – O que você acha?
Eu precisava admitir, aquela era uma ótima ideia e, com certeza, daria certo. Afinal, por mais que a Tropa de Exploração não fosse a maior das três muralhas, éramos os mais fortes, pois tínhamos os melhores homens; Djel não sabia do que estava falando quando menosprezou nossas qualidades e nossa força. Levei a mão ao queixo, subindo e descendo a cabeça diversas vezes, concordando com meu amigo. Realmente, um bom plano.
– E faremos isso tudo? – Perguntei, olhando-o dentro dos olhos.
– Levará tempo – disse Erwin, a empolgação parecendo diminuir em seu rosto. – Tudo irá depender de Krista. Ela precisa concordar conosco antes de levarmos isso à diante.
– Entendo – falei. – Então, quando voltamos para casa?
– Em duas semanas. Preciso apenas terminar de resolver algumas coisas com Zachly e Pixis, e Hange precisa recuperar um pouco de forças antes de viajarmos.
– Como ela está?
– Bem… – respondeu Erwin, a voz vacilante. – Acho que está escondendo algo de mim, mas não vou forçá-la a me contar o que é.
Senti-me ligeiramente culpado por saber o que era e não contar a Erwin. Na próxima vez em que me encontrasse com Zoe, eu iria mandar que contasse logo, ou eu o faria. Eu não era o melhor mentiroso do mundo, e também não gostava de omitir informações, ainda mais quando eram tão importantes quanto essa. Suspirei.
– Levi – a voz de Erwin voltou a me chamar à realidade. Ele me entregava os papéis. – Hange me contou dos relatórios que você pediu que os nossos soldados te enviassem. Não sei por que você não me disse, mas foi uma ótima ideia – ele bateu em meu ombro. – Muito bem. Leia esses, chegaram hoje de Mikasa. E acredito que você vai ficar muito orgulhoso deles e de Eren. Eles são realmente homens da humanidade.
Com um aceno, meu melhor amigo se foi, deixando-me sozinho naquela sala. Apenas o turbilhão de pensamentos que rodopiava em minha cabeça me fazia companhia, e era tão desagradável que, por um momento, pensei que gostaria de ser surdo só para não precisar escutar nada daquilo. Pensei em Eren e no quartel e, em minha cabeça, pedi que o plano do comandante desse certo. Não teríamos chance de nos redimir quando atentássemos contra o rei, e seríamos todos condenados à morte. Eu não poderia deixar que Eren morresse por um erro de julgamento nosso, e não poderia deixar que caísse nas mãos do rei, porque se sabe lá o que queriam fazer com o meu garoto. Era minha função como capitão e namorado era protegê-lo a todo custo e, se para fazê-lo, eu precisasse que o plano de Erwin desse certo… bom, então faria com que desse.
Desdobrei o papel e o levei para perto da vela que estava sobre a mesa. A letra corrida de Ackerman dizia que estavam todos bem e que Eren não estava mais preso. Meu coração disparou, a felicidade correndo pelas minhas veias como sangue, conseguindo até mesmo aliviar aquela dor constante em meu joelho. Mas a verdadeira alegria se fez sentir quando li sobre o plano que ela e Kirstein desenvolveram para tomar o quartel de volta, e forma com que executaram e o jeito com que se organizaram para lidar com a situação. Não pude evitar me orgulhar dos garotos naquele momento e imaginar o quão feliz Erwin também não tinha ficado. Eram os nossos homens, lutando pelos seus companheiros e pela nossa casa.
Mas o orgulho murchou lentamente quando Mikasa disse sobre Eren e sua forma de titã, e como ele perdera o controle momentaneamente. A preocupação pareceu pesar meus ossos como chumbo, e me odiei mais uma vez por não estar lá para ele, por não ter arrancado-o daquele monstro e protegido seu corpo com meus braços como eu fizera anteriormente. Aliviei-me em saber que ele recobrara a consciência depois de um tempo, mas, ainda assim, havia inquietude em meu coração. Ackerman contava que Eren estava dormindo pelo quarto dia seguido depois da retomada e que ela começava a se preocupar, porque ele nunca ficara tanto tempo desacordado. Pensei em Jaeger magro, como ela dizia que ele estava, desfalecido em minha cama.
Eu precisava voltar para casa. Para ele.
Rascunhei uma resposta de qualquer jeito e disparei em direção ao posto de correio, agarrando a primeira ave que vi e lançando-a no ar. Esperei que a mensagem não demorasse muito para chegar e que logo Eren estivesse em meus braços novamente.
Desci as escadas lentamente, contando os degraus e vendo o sol nascer atrás das muralhas. Um vento frio percorreu a minha descida até alcançar meu corpo e me abraças com dedos frios, porém confortáveis. A sensação de já ter vivido aquela situação anteriormente voltou a me inundar e não lutei contra ela daquela vez.
Pensei que, talvez, nós realmente tivéssemos uma chance ali de fazer a diferença. De ter uma vida, de levar a humanidade para frente e de, finalmente, vivermos sem sentir medo. Talvez quando o fizéssemos, eu comprasse uma casa para Eren e eu, em Shiganshina, onde ele vivera com seus pais no começo de sua vida. Acho que Eren gostará. Vamos fazer planos.
Suspirei para mim mesmo. Encontrei Erwin e Hange de mãos dadas no final do corredor, Mike parado atrás deles e os três acenaram para mim quando me viram. Adiantei-me em sua direção e fui recebido por um abraço caloroso daquela mulher louca que, de repente, passara a ter uma importância ainda maior em minha vida pelo simples fato de me lembrar de que nós ainda éramos capazes de gerar vidas em meio ao caos, e que éramos fortes para protegermos os nossos. Saímos em direção à cidade e tomamos café da manhã em algum restaurante o qual não vi o nome. A conversa fora descontraída, sem assunto de plano ou retomada de nada. Éramos apenas meus amigos e eu, em uma situação tão descontraída e nova para mim que me senti momentaneamente deslocado e… feliz.
