Jean bateu à porta do quarto do capitão, o qual eu havia tomado posse como meu nas últimas semanas. Todos os dias, quando acordava, sentia o perfume dele cada vez mais fraco, e, mais de uma vez, considerei voltar a dormir em meu quarto no subsolo, só para que o cheiro de Levi não fosse substituído pelo meu; e mais de uma vez o medo de ficar isolado no andar de baixo me assolava e, covarde, eu voltava a me aninhar nos lençois.
Desci da cama com um pulo e me adiantei até a porta, abrindo-a levemente. Encontrei Jean parado, o rosto queimando em vergonha e um punhado de folhas debaixo do braço. Dei um passo para o lado, deixando que entrasse no quarto. Fechei a porta suavemente e passei o trinco. Virei-me para Jean e indiquei a cadeira da mesa que ficava no centro do cômodo. Eu deixara tudo preparado, inclusive um bule com chá preto e duas xícaras. Jean puxou uma cadeira e se sentou, colocando as folhas sobre a mesa.
– Jaeger, estou quase desistindo disso – seu rosto ainda estava escarlate, e parecia irradiar calor.
– Está tudo bem, Jean, eu não vou contar para ninguém, se esse é o problema.
– Não é isso. Essas cartas são muito particulares – ele falou, abaixando ainda mais o rosto. – E eu tenho medo que isso se perca um pouco agora que você sabe…
– Pare com isso, Kirstein…
– Marco pode achar que não estou levando isso a sério.
Fiquei um instante em silêncio enquanto colocava a xícara na frente de um Jean envergonhado e com o semblante triste. Pensei em tocar seu ombro e tentar lhe dar um pouco de conforto, mas, em minha cabeça, eu não sabia até onde ia a nossa intimidade para que eu pudesse fazer isso. Há apenas algumas semanas, trocávamos farpas perigosas e ali estávamos nós agora, Kirstein se abrindo para mim. Eu sabia que ele sentia falta de Marco, e eu o entendia, porque eu também sentia tanta falta de Armim que às vezes meu coração se comprimia e a dor parecia que havia nunca passaria. Respirei fundo, tentando encontrar alguma palavra amiga dentro de mim. Eu queria ajudá-lo e precisava começar de algum lugar.
Estiquei a mão e toquei seu braço esquerdo. Seus olhos se levantaram na minha direção, vermelhos e molhados.
– Calma, cara – falei. – Eu entendo a sua dor. Quando perdi Armim, eu também achei que a conexão que eu tinha com ele ia se perder, mas eu sei que isso nunca vai passar. Talvez em outra vida eu o encontre novamente, e isso me dá um pouco de paz. E eu sei que ele está comigo. Aqueles que nos amam nunca nos deixam de verdade. Você pode sempre encontrá-los aqui – e toquei meu peito.
E então, como que solto por um gatilho, os olhos de Jean voltaram a transbordar as lágrimas pesadas que ele lutava para conter, o peito irrompendo em soluços e o corpo inteiro se sacudindo. Eu não sabia o que fazer e, quando me dei por mim, o envolvia pelos ombros, tentando segurar seu corpo que convulsionava por causa do choro. O que eu estava fazendo? Aos poucos, depois de longos minutos, senti Jean finalmente começar a se acalmar. Mantive os braços ao seu redor, tentando acalmá-lo e ligeiramente aliviado por ele não ter me repelido. Escutei seu choro diminuir até não passar de um fungar e só então Jean levantou o rosto, abrindo os braços sutilmente pedindo para que me afastasse.
O soltei rapidamente e fui até a cômoda, aonde Levi guardava os lenços e tirei um, oferecendo-lhe. Kirstein me agradeceu em voz baixa e voltou aqueles olhos inchados na minha direção.
– O que você faria se o capitão o deixasse? – Ele perguntou de supetão.
– Hm… – Balbuciei, tentando encontrar uma resposta. Eu nunca havia pensado naquilo. Levi era bom demais para que se permitisse ser morto por um titã, mas sempre havia a chance de que ele se cansasse de mim ou desistisse de nós por todos os problemas que eu tinha. – Eu… eu não sei…
– Eu também não sabia o que fazer quando Marco me deixou – Falou. – Quando eu o achei naquele beco… uau… eu não sei nem descrever o sentimento. Foi como se a metade dele que estivesse faltando também tivesse sido arrancada de mim. E doeu… ainda dói até hoje.
Pensei em falar alguma coisa, mas ele parecia tão absorto em suas palavras que resolvi não interromper.
– E hoje eu vejo você e o capitão e eu penso que nós também poderíamos ter sido alguma coisa, sabe? Ele e eu… juntos. Como ele queria que fosse. – Seus olhos voltaram a encontrar os meus. – Peço todos os dias a Deus que você nunca sinta essa dor, Jaeger. Ver a pessoa que você ama ser levada de você de forma tão brutal… cara, não desejo isso para ninguém.
Meu coração se contraiu. A dor de Jean era muito diferente do que eu imaginava. Não era a mesma dor que eu sentia pela perda do meu melhor amigo. Era a dor de quem havia perdido seu amado e eu não conseguia nem imaginar o quão cruel aquilo devia ser. Ninguém deveria chorar sob o corpo da pessoa que ama. Aquilo soava tão… errado.
– Jean… eu não sabia… – gaguejei, estendendo-lhe outro lenço, que ele agarrou de bom grado. – Eu não sabia de vocês dois.
– Ninguém sabia – Kirstein me respondeu. – Marco era muito discreto. Ele dizia que as pessoas só saberiam no momento certo. Só que o momento nunca chegou.
Ele suspirou, coçando os olhos e bebendo mais do chá.
– Sinto muito – falei, tocando seu ombro. – Muito mesmo.
– Obrigado. Obrigado por me escutar. Eu nunca falei sobre isso com ninguém e, de repente, desabafar me fez sentir melhor. Obrigado, Jaeger.
– Não tem o que agradecer, cara. – Esbocei um sorriso fino. – Sou seu amigo. Seu melhor amigo. Estou aqui para isso. Não reprima mais os seus sentimentos. Você pode falar comigo sempre que quiser, ok?
Jean assentiu, tentando me devolver o sorriso, falhando miseravelmente quando sua cara se contorceu de um jeito que me causou calafrios.
– Pare de fazer essa cara feia – falei, dando um soco leve em seu braço. – Você está ainda mais feio do que é normalmente.
E então, ele riu. Senti-me aliviado por escutar aquele som, esperando que ele estivesse bem de verdade. Peguei uma das folhas e uma caneta.
– Vamos começar? – Perguntei, tendo um aceno de cabeça como resposta. – Como você começa?
– Ah… não sei. Geralmente, eu falo "Ei, Marco", ou só coloco "Marco".
– Entendi. – Abaixei a caneta no papel e escrevi, recitando as palavras. – "Querido Marco"…
– Que gay, Jaeger – Jean disse, mas vi que ainda sorria. Aquilo era um bom sinal, certo? – Pergunte como ele está.
– Ok.
"Querido Marco, tudo bom?", escrevi e empurrei o papel para Jean. Ele assentiu. Puxei de volta para a minha frente e, antes que Jean continuasse, achei melhor mandar meus cumprimentos também. "Tudo bem, cara? Aqui é o Eren."
– Você é muito abusado, Jaeger, essa é minha carta – Kirstein falou, o tom grosseiro voltando à sua voz.
– Não me importo – falei, dando de ombros. – Eu estou escrevendo e eu também tenho saudades do Marco, então me deixe escrever algumas palavras para ele também.
O rosto de Jean voltou a se contrair em uma careta e vi que, finalmente, meu amigo voltava ao seu normal.
– Tá, tá… continua escrevendo aí. – Ele abanou a mão, assumindo a derrota. – "O plano foi um sucesso. Retomamos o quartel e agora Mikasa é a nossa 'capitã' até que o capitão Levi e o comandante Erwin voltem". – Ele me olhou, e sorri, tentando incentivá-lo a continuar. Kirstein respirou fundo, procurando palavras, e me aproveitei daquela brecha para escrever mais um pouco por minha conta.
"Jean agora também é nosso líder", escrevi, "e Connie e Sasha o olham como se fosse lá essas coisas e agora ele se sente o próprio tenente"…
Senti o punho de Jean fechado encontrar meu braço e soltei um grunhido de dor.
– Não escreva essas coisas para o Marco, Jaeger, seu idiota – ele resmungou.
– Estou escrevendo apenas a verdade, Jean – falei, voltando a sorrir para ele. – E não é como se Bott não te conhecesse, né…
Outro soco me acertou, mas esse era mais leve. Eu podia ver em Jean que ele se sentia melhor por se soltar completamente com alguém, e eu estava feliz por ser essa pessoa. Eu não queria que nenhum deles sentisse dor, eu queria estar ali para todos os meus amigos e, mesmo que a nossa amizade fosse algo ainda um pouco estranho, eu amava Jean o bastante para que deixasse que ele me batesse vez ou outra se isso o fosse deixar melhor.
– Escreve aí: "Eren dormiu uma semana e deixou a bagunça para nós limparmos; isso depois de virar titã e tocar o terror em todo mundo. O muleque é estranho e assustador, mas até que deu conta do recado. Acho que podemos usar seu poder de vez em quando, se ele aprender a controlar o temperamento estourado". – E sorriu para mim. Eu sabia que ele estava me provocando.
Escrevi mais um bocado de palavras, trocando uma provocação e outra entre as frases, até o momento em que Jean riu tão abertamente que, pela primeira vez, ele pareceu realmente feliz. Ainda era visível a dor em seus olhos e em suas palavras. A forma com que escrevia para Marco era tão triste e saudosa que me peguei divagando diversas vezes se eu faria o mesmo caso Levi morresse. A dor de tê-lo longe era ínfima comparada à dor que eu antecipava em meu peito se ele viesse a me deixar. Talvez eu também escrevesse cartas ao meu capitão, mas, turrão como era, ele me enviaria um sinal logo, logo, mandando que eu seguisse minha vida e o deixasse em paz.
Sacudi a cabeça, afastando os pensamentos e voltando para Jean. O sol começava a cair quando terminamos.
– Como você quer que eu escreva a despedida, Kirstein? – Perguntei, e vi Jean levar a mão até o queixo e pensar.
– Hm… – ele começou. – Pode colocar "sinto sua falta".
– Ok.
"Sinto sua falta (eu também), Jean Kirstein (e Eren Jaeger)."
– Eu já falei que você é muito bico nas coisas dos outros? – Perguntou Jean, mas dessa vez não havia arrogância em seus olhos.
– Já. Eu já falei que não me importo?
Ele assentiu, voltando a socar meu braço. Dei graças pelo meu poder de titã e por saber que aquele hematoma que, com certeza, se formara ali logo, logo se curaria. Dobrei a folha e a entreguei nas mãos de Jean, que já afastava a cadeira e a enfiava no bolso da calça.
– Obrigado, Jaeger – ele disse, voltando a sorrir para mim.
– Não tem o que agradecer – falei, indo com ele até a porta. – Sempre que precisar, cara, estamos aí.
Jean assentiu, aguardando que eu abrisse a porta. Kirstein saiu com um último aceno de cabeça, os olhos carregados daquela gratidão inocente e genuína e saiu pelo corredor em direção ao quarto dos soldados. Fechei a porta e a tranquei, sentindo uma dor profunda se apossar de mim. Antes que pudesse ver, eu chorava copiosamente, soluçando audivelmente sem nem mesmo saber o por que. Eu não podia suportar a dor de imaginar encontrar Levi morto e não podia nem imaginar o que Jean estava passando.
A noite entrou sem que eu conseguisse parar de soluçar. Se tudo corresse como Levi havia informado à Mikasa, ele estaria de volta no dia seguinte. A dor se apertou ainda mais em meu peito. Eu precisava vê-lo logo, encontrá-lo, abraçá-lo, senti-lo vivo ao meu lado. Senti-me mal por pensar que eu tinha meu amado ao meu lado e Jean não, mas eu não podia evitar o sentimento de alívio em saber que o meu namorado era o melhor soldado do mundo e que nada daquilo jamais aconteceria com ele.
Limpei as lágrimas e disparei pelo corredor. Eu esperaria Levi do lado de fora, e eu seria a primeira pessoa que ele veria quando retornasse.
