(Eren's POV)

Passei na cozinha antes de chegar ao portão enferrujado da entrada do terreno do quartel general para pegar uma caneca com café. As duas gárgulas que o ladeavam pareciam acompanhar-me com os olhos naquela noite iluminada por estrelas e tão quente e sem ventos do outono. Suspirei, encontrando um canto no chão que não estava tão sujo e encostei-me à estátua da direita, colocando a caneca ao meu lado e prendendo os cabelos em um coque desajeitado. Krista havia me ensinado como lidar com aquele emaranhado de cabelos, mas talvez eu não nascera para a coisa; os fios continuavam caindo pela minha testa, grudando-se por ela e pela minha nuca por causa do suor.

Droga. Eu havia me esquecido de cortá-los. Eu temia que Levi não gostasse do tamanho dos meus cabelos, mesmo que eu já tivesse me acostumado com eles e até mesmo gostado um pouco. Ainda havia o restante da noite para que eu os cortasse, mas a parte infantil de mim temia se levantar e, em um piscar de olhos, a noite se transformar em dia e perder a chegada do meu capitão. E eu sempre poderia cortar o cabelo depois, Levi até poderia me ajudar, então não havia problemas. Beberiquei um pouco do café – arrependendo-me quase instantaneamente, pois estava tão quente quanto o clima e desceu queimando pela minha garganta –, tirei um maço de folhas com algo que Jean havia escrito para que lêssemos para o treino do dia seguinte e me concentrei na leitura.

A ansiedade pulava em meu peito com força, martelando meu coração contra as costelas e era difícil respirar. Mais de uma vez me peguei olhando para o horizonte escuro, buscando algum sinal dos nossos superiores apesar de saber que eles só chegariam pela manhã. Naquela hora, deveriam estar na estrada, sobre seus cavalos, em direção à nossa casa.

E, quando pensei em casa, respirei um pouco mais aliviado por Mikasa ter me dado um dia livre para que eu pudesse ir até na cabana que Levi me dera para arrumá-la depois da estadia dos nossos companheiros de divisão. O local não estava bagunçado, mas algumas coisas estavam fora do lugar e eu sabia que o capitão não gostaria daquilo. Na verdade, ele poderia até mesmo não gostar do fato de eu ter levado pessoas até o lugar que deveria ser somente nosso. Quando Mikasa me disse que contou a ele, e que Levi não respondera nada sobre essa parte do relatório, senti o coração se comprimir um pouco no peito. O que poderia significar aquele silêncio? Quando ele chegasse, eu iria me desculpar. Mas aquilo se fez necessário. Nós não poderíamos arriscar nossa família enquanto lutávamos uma luta que não saberíamos se daria certo ou não.

Escutei um rugido ao fundo e me lembrei dos Policiais. Eles ainda estavam presos no centro dos titãs, como Connie começara a chamar o lugar, e, duas vezes ao dia, Mikasa ou Nanaba iam até lá alimentá-los. Uma das vezes, eu até me transformara para poder recolher os restos do corpo de Mikaella dali, pois o cheiro começava a ficar insuportável. Nesse momento, não pude evitar pensar que, não somente eu, mas todos nós tínhamos um pouco de monstro dentro de nossas mentes. Não era humano deixar os homens da capital daquela forma, noite e dia sob a vigilância de titãs que queriam comê-los a todo custo, o sol rachando em suas cabeças durante os dias e a noite vazia entre seus corpos. Então, outra parte de mim me repreendia por pensar desta forma. Fora exatamente o que eles fizeram conosco, onde nós éramos as vítimas em seu meio e eles agiam como os titãs que agora os ameaçavam – prontos para nos abocanhar na primeira chance.

Sacudi a cabeça e senti mais alguns fios se desprenderem do nó improvisado na minha cabeça. Levantei a mão e os afastei da minha testa e nuca, desejando poder afastar os pensamentos com a mesma facilidade com que o fazia com os cabelos. Voltei a atenção para as anotações de Jean e anotei mentalmente que deveria cumprimentá-lo mais tarde. Ele estava fazendo um trabalho muito bom, e eu iria falar com Levi sobre ele. Se haviam duas pessoas que mereciam o posto de líderes eram ele e Mikasa. Tanto minha irmã quanto Kirstein estavam cuidando de nós com o mesmo zelo do comandante Erwin e nos ensinando tanto que, às vezes, eu não podia evitar me perguntar se havíamos nos formado juntos mesmo.

Levantei o rosto para o céu, encarando as estrelas, na dúvida se havia realmente alguém ali em cima e dei de ombros, lembrando-me das coisas que Jean me contara sobre suas cartas para Marco.

– Armim – comecei –, se você e Marco estão aí… bom, obrigado.

Os primeiros raios do dia começaram a despontar no momento em que eu já havia esvaziado a caneca e lido mais de duas vezes tudo o que estava escrito nos papeis. Naquele ponto, as gárgulas já pareciam amigas distantes, e eu até mesmo trocava uma ou duas palavras com elas. O sol começou a subir no horizonte e, com ele, a excitação e empolgação começara a subir pelas minhas pernas, impedindo-me de ficar sentado por tanto tempo. As feridas das correntes ainda não haviam se curado completamente, e eu ainda não estava totalmente recuperado da desnutrição, tanto que meu corpo inteiro protestou quando levantei de um pulo só, mas não me importei.

Podia ser coisa da minha cabeça, ou não, mas eu jurava que estava escutando cascos de cavalo à distância. Esfreguei os olhos, reprimindo um bocejo longo e esforcei a visão para além do alcance que eu tinha.

E então, eu vi. Vi um pontinho claro em movimento na minha direção, lá no fundo. Atrás dele, mais quatro pontos se revelaram, um mais escuro e menor que os outros disparando na frente dos outros. O coração voltou a martelar em meu peito, minhas mãos suavam e os joelhos tremeram. Apertei os olhos e o vi. Era ele.

Meu Levi.

–––

(Levi's POV)

Disparei na frente, escutando Erwin chamar meu nome, mas o ignorei. A primeira visão que eu tinha do quartel general era Eren de pé, o braço para o alto, acenando para nós. Uma corrente de choque percorreu meu corpo quando o vi. Apertei os olhos, tentando focalizar seu rosto melhor, enquanto esporava Justine para que corresse mais rápido. Eu precisava me lembrar de me desculpar com o pobre animal mais tarde, mas naquele momento era tudo apenas somente sobre Eren. E ele ficava mais perto a cada galope.

Alguns poucos metros era o que restava entre meu garoto e eu, e eu já via seus braços abertos, chamando por mim. A aproximação parecia despertar algo dentro de mim, um calor estranho, meu coração batia de uma forma totalmente descompassada, quase dolorido, parecendo vibrar em uma frequência que emitia o nome de Eren pelas minhas impressões. Desmontei de Justine em um salto descuidado, pousando no chão com um pouco de dor que se dissipou no momento em que meus olhos se encontraram com os de Jaeger, e eu o puxei para junto do meu corpo, fechando os braços à sua volta e sentindo o abraço ser retribuído.

De repente tudo o que acontecera sumira; as audiências, a luta, a dificuldade em voltar para cá… tudo havia sumido, exceto a saudade que eu sentia tão forte em meus ossos que fazia todo meu corpo doer. O cheiro de Eren entrou em mim como um rompante, seu calor inundando meu corpo, penetrando pela minha pele sem pedir permissão enquanto ele deslizava as mãos pelas minhas costas, afastando-nos ligeiramente e inclinando o rosto na direção do meu, beijando-me nos lábios passionalmente.

Segurei seu rosto entre as minhas mãos, beijando-lhe de volta, mantendo os olhos abertos e presos nos seus que me olhavam com curiosidade, aquelas grandes piscinas verdes nas quais eu me jogava agora sem volta. Mordi sua boca e a puxei para junto de mim, sentindo-o inclinar-se sobre mim, dobrando-me ligeiramente enquanto o fazia, as mãos em minha cintura apertando-me levemente. Uma mecha de cabelo desprendeu-se do topo de sua cabeça e caiu sobre os nossos rostos, fazendo com que, finalmente nos separássemos. Erwin e os outros chegavam atrás de nós, mas o som que faziam parecia apenas um barulho de fundo. Todo o restante estava desfocado, e eu conseguia apenas ver a nós dois ali, parados.

– Desculpe – ele pediu, levantando uma das mãos e afastando o cabelo do rosto, mantendo a outra firme em mim. – Preciso cortá-los, logo o farei…

– Cale-se, moleque – ordenei, descendo as mãos do seu rosto e puxando-o pelos cordões de sua blusa e beijando-o novamente.

Aquele não era o nosso primeiro beijo, e eu sabia que também não seria o último, mas havia algo naquele momento que o fazia ser tão especial, tão incrível que eu não pude evitar pensar que, talvez, poderia viver o resto da minha vida preso naquele instante, na volta.

– Eu senti tanto a sua falta, capitão – Eren sussurrou, entre um beijo e o outro, mal desgrudando os lábios dos meus, suas mãos espalmadas deslizando até as minhas costas e mantendo-se ali enquanto ainda nos olhávamos.

– Eu também, Jaeger – respondi, colocando uma mão em seu peito e o afastando gentilmente. Eu precisava olhá-lo, ver que estava ali, que era meu e que estava inteiro para mim.

Os cabelos, maiores do que eu me lembrava, agora caíam em cascata pelo seu rosto, emoldurando-o e deixando Eren ainda mais deslumbrante do que era de fato. Ele estava, sim, muito mais magro do que eu me lembrava, os ossos pontudos sendo visíveis sob suas vestes, mas estava mais alto, e algo em seus olhos os fazia brilhar ainda mais. As roupas estavam folgadas em seu corpo por causa da magreza, mas eu podia ver que as mangas da jaqueta estavam ligeiramente mais curtas e as calças pareciam um pouco apertadas nas pernas. Meu garoto estava crescendo e ficando cada dia mais belo do que já era.

–… depois do café da manhã, faremos uma reunião com os soldados, ok? – Disse Erwin ao fundo e apenas assenti.

Desci os dedos pelo braço de Eren, encontrando sua mão e os entrelacei nos seus, puxando-o para junto de mim, em direção ao quartel. Lancei um último olhar para trás, vendo uma Hange Zoe verde pelo enjoo levantar o polegar positivamente para mim e Erwin apenas assentir, sabendo que não adiantaria discutir comigo naquele momento. Ao menos meu melhor amigo me conhecia bem o suficiente para saber que eu não mudaria de ideia quanto a passar um tempo com Eren. Mike e Nile mantinham-se atrás do casal, Nile olhando para mim com olhos arregalados e assustados.

Virei-me, recebido pelo sorriso de Eren, com as bochechas tão levantadas e inchadas que comprimiam seus olhos em linhas finas. Puxei-o para dentro, subindo a rampa rapidamente e dando graças por termos chegado tão cedo; não havia viva alma no caminho para nos atrapalhar. Esperei impaciente até que Eren destrancasse a porta e o empurrei para dentro, chutando a porta atrás de mim e passando o trinco de qualquer jeito e já me virando para encontrar o garoto sentado à beira da cama, os braços relaxados para baixo e os olhos…

Os olhos pedindo por mim. Eren mordia o lábio inferior, um sorriso insinuando-se enquanto seu corpo se balançava ao ritmo de nenhuma música. Ele era meu. Céus, e como era! Apertei o passo em sua direção e me postei entre suas pernas, olhando-o se cima, a cabeça abaixada até a sua, nossas testas unidas e os olhos tão presos uns nos outros que pensei que nunca mais conseguiria me liberar deles. As mãos de Eren lentamente subiram até os lados de meu corpo e se apoiaram em meus quadris, gentis, enquanto deixei meus dedos embrenharem-se em seus cabelos longos. Eu não deixaria que Eren os cortasse. Os cabelos eram parte de si, e todo seu corpo era meu. Eu queria cada pedaço dele, até mesmo os cabelos.

Puxei sua cabeça de forma que ele me olhasse nos olhos mais uma vez antes de me inclinar sobre si e beijá-lo. Seu gosto voltou a inundar a minha boca, quente e confortável, como casa deveria ser. Eren era a minha casa; eu poderia estar em qualquer lugar, desde que ele estivesse, e tudo estaria bem. Desci as mãos até seus ombros, colocando os polegares por dentro da gola de sua jaqueta, abaixando-a até que terminei de puxá-las pelas mangas. Por baixo da camisa fina cor de creme que Jaeger usava por baixo, eu podia ver seus ombros pontudos projetando-se para fora. Uma tristeza instantânea se apossou de mim e todo o fogo pareceu congelar em um mar de arrependimento e culpa. Era minha culpa que ele estava daquela forma, magro e desnutrido.

A culpa fora tanta, e tão esmagadora, que não consegui continuar. Meus olhos estavam presos nos ossos visíveis sob a pele e, rapidamente, eu comecei a notar o restante de seu corpo, onde mais sinais da falta de alimentação pareciam gritar pela minha atenção. As maças de seu rosto estavam praticamente secas, os ossos das bochechas protuberantes sob os olhos de Eren, o queixo quadrado e pontudo e os braços, finos.

– O que foi, Levi? – Ele me perguntou quando viu que não continuei.

Puxei a camisa que vestia por baixo para cima, revelando o restante de seu tórax em puro osso. Os poucos músculos que Eren havia adquirido em seu treinamento, agora já como uma lembrança distante. Como ele estava conseguindo ficar de pé daquela forma? E por que ainda não havia começado a se curar? As feridas em seus pulsos eram visíveis agora que ambas as camisas haviam sido retiradas e eu tinha certeza que, por dentro das botas seus tornozelos estavam tão feridos quanto, por causa das correntes que o prendiam na cela.

– O que fizeram com você, Eren? – Falei, por fim, sentando-me ao seu lado e segurando suas mãos nas minhas.

– Nada que eu não conseguisse lidar, capitão…

O tom de riso em sua voz me irritou.

– Não é engraçado, garoto – o repreendi, chegando meu corpo mais perto do seu. – Não é nada engraçado. Você poderia ter morrido… e, pelo que eu estou vendo, você também não está se curando, Eren. Isso não está certo.

Eu não queria ter que sair do quarto tão cedo, mas aquilo pedia alguma medida mais drástica. Peguei a blusa de Eren no chão e comecei a forçá-la pela sua cabeça quando ele me parou, os olhos arregalados. Seus dedos ossudos se fecharam em volta das minhas mãos e obrigaram-me a abaixar.

– Levi, o que você está fazendo?

– Te vestindo – respondi, encarando-o com pouca paciência. – Vou te levar ao doutor Marcel para olharmos…

– Mikasa já fez tudo isso; eu já falei com o médico.

– Então porque você ainda está tão fraco? Tão… – ergui suas mãos para que ele as visse. – Ferido?

Aquelas palavras doíam para sair, uma dor tão forte que senti a garganta secar. Eren estava ferido. Ler sobre isso e ver eram coisas totalmente diferentes e, agora que toda a empolgação da volta havia sido dissipada pela preocupação e pela cura, eu podia enxergar muito bem o que haviam feito com meu garoto. Que os céus me deem forças, porque eu quero ir até aqueles policiais e matar um por um com as minhas mãos!

– Dr. Marcel não sabe – ele falou, a voz baixa. – Ele não consegue me examinar muito bem por causa dos meus poderes… ele tem medo de enfiar uma agulha no meu braço e eu me transformar…

– Besteira do velho – levantei-me, puxando-o pelo braço. – Venha, Eren.

– Levi, não! – Jaeger berrou, e parei de sobressalto. Ele nunca havia gritado comigo. – Não vá… fique comigo. – Seus olhos pediam que eu ficasse de uma forma tão dolorida que não consegui me mover por um instante. O que havia de errado com o meu garoto?

– O que foi, Eren? Vamos logo, vou conversar com o médico, nós vamos dar um jeito nisso… – falei, e vi que minha voz não passava de um sussurro. Talvez a culpa já começara a corroer-me e decidira começar pelas minhas cordas vocais. – Por favor, moleque…

Seu aperto foi mais forte em minha mão, começando a puxar-me de volta para a cama. A camisa ainda pendia com somente a gola passada pelo seu pescoço e o restante do tecido pendendo pelo seu corpo. Seus ombros estavam encurvados, revelando os ossos da sua espinha também protuberantes nas costas. Aquela visão me doía, e doía ainda mais que ele resistisse ao meu esforço de levá-lo dali. Eu precisava levá-lo ao médico, precisava descobrir o que fazer para que Eren voltasse ao normal, e mesmo que para isso eu tivesse que amarrá-lo e enfiar remédios e comida pela sua goela, eu o faria.

– Levi, apenas fique. Eu estou bem – um sorriso derrotado delineou seus lábios. – Olhe só, eu estou bem melhor agora que você chegou. Veja – e então se desvencilhou do meu aperto e levantou os pulsos na minha frente.

Um filete de fumaça branca saía de cada um deles, ainda que bem pouco, e eu podia ver que a carne nova começava a nascer das feridas avermelhadas. Então ele estava se curando. Mas como?...

– Por que só agora?

Jaeger deu de ombros, o sorriso aumentando em seu rosto.

– Não sei… talvez desde que você chegou.

Adiantei-me em sua direção e segurei seu rosto com força, puxando-o para cima, olhando tão dentro de seus olhos que quase senti que realmente mergulhava neles.

Eren Jaeger, por que você não estava se curando?

– Eu não sei – ele voltou a dar de ombros. – Eu não sei, Levi, mas estou feliz que você está de volta… ficar sem você fez tudo isso parecer tão frio. E eu queria tanto te abraçar, e ter você perto de mim… Como eu queria que você voltasse para casa, Levi!

Os olhos de Eren estavam molhados de lágrimas que ele não queria deixar cair e o choque me impedia de falar. Deslizei o dedo pela sua bochecha, sentindo-a esquentar e mais fumaça sair de dentro da sua boca. Ele também estava se curando ali, de dentro para fora. As mãos de Eren voltaram a se fechar em minha cintura, tão quentes que eu podia sentir seu calor por baixo das camadas de roupa que eu usava.

– E agora que você voltou parece que eu finalmente saí dessa noite infinita na qual eu estava desde que você se fora. E agora eu preciso que você fique.

Mantive o silêncio. Aquilo era tão… profundo, tão verdadeiro e sincero que eu não sabia como reagir. De repente, eu não quis levar Eren ao médico, ou ao refeitório, queria apenas segurá-lo em meus braços e nunca mais sair do seu lado. Como ele podia ser tão forte e, ao mesmo tempo, tão frágil? Por que ele estava se revelando daquela forma para mim e o que eu deveria fazer com aquilo tudo? Eu sentia minhas mãos atadas em seu rosto e o coração comprimido em algo que eu não sabia o que era. Eu queria proteger o garoto, queria amá-lo e sanar todas as suas necessidades. Eu nunca mais sairia do seu lado.

Isso é amor, irmão, disse a voz de Isabel dentro de minha cabeça, e dei de ombros, concordando. Que fosse amor, que fosse qualquer outra coisa. Mas aquilo afirmava ainda mais que Eren era meu e que, em certo ponto, eu me tornara dele também. Estar de volta parecia o certo, e não soltá-lo jamais outra vez era o correto a se fazer. Abaixei-me até seus lábios e antes de beijá-lo outra vez, murmurei:

– Me desculpe. Desculpe-me por ter ido e por ter causado isso a você. Eu nunca mais vou sair outra vez, ok?

Ele assentiu, abrindo a boca para receber a minha e fechando os olhos vagarosamente enquanto eu deitava suas costas na nossa cama. Terminei de tirar a camisa do pescoço de Eren e postei-me ao lado de seu corpo, que agora levantava fumaça dos mais variados locais. Temi tocar se corpo e machucá-lo ainda mais; por baixo da camisa, agora que tinha ampla visão de seu abdome, eu via alguns hematomas espalhados aqui e ali, manchando sua pele clara.

Mas então a mão de Eren alcançou a minha e a colocou sobre seu corpo, e eu senti a alta temperatura de sua pele sob meus dedos. Céus, como eu sentira falta do toque de seu corpo em minhas mãos! Soltei-o rapidamente para tirar os sapatos e subir apropriadamente na cama, passando minhas pernas em volta do garoto e sentindo-o nas palmas de minhas mãos que agora desciam e subiam pelo seu tórax, e alguns arrepios pequenos já roubavam a expressão dele. Abaixei-me vagarosamente até seus lábios e o beijei com calma.

Não havia necessidade de correr naquele momento. Eu escutava seu corpo se curando na forma do tss que saía dos pontos de fumaça e sentia todo o calor que emanava dele vir para dentro de mim. Eu estava ali, com ele, e aquele momento era nosso. Eu não iria apressar nada. Apenas… senti-lo. Beijei seus lábios e suas bochechas, seus olhos, ainda molhados pelas lágrimas que ele reprimira, seu nariz, sua testa… E escutei Eren chamar meu nome pela primeira vez quando suas mãos alcançaram meus cabelos enquanto eu mordiscava seu pescoço com cuidado.

Suas unhas se cravaram em meu couro cabeludo quando Eren puxou meus cabelos, guiando minha cabeça de volta à sua com uma força que achei que não fosse ter por causa da sua magreza. Aquela fora, com certeza, uma surpresa muito boa. No momento em que meus lábios tocaram os seus, as mãos de Eren alcançaram meu casaco preto e, enquanto eu pedia mentalmente que ele não rasgasse aquele que era o meu blazer favorito, escutei as fibras do tecido se romperem e a roupa ser jogada no chão sem esforço. O garoto não tivera problema com a camisa branca que eu usava por baixo e também a rasgou, colocando-a de lado e deslizando as mãos pela minha cintura.

Inconscientemente, movi o quadril sobre seu corpo e senti um gemido pedir para escapar dos seus lábios colados nos meus, os olhos de Eren fechados e apertados, a expressão passando da tristeza de minutos atrás para algo… bom. Voltei a descer os dentes até o seu pescoço enquanto minhas mãos me levavam mais para baixo em seu corpo e eu deslizava os lábios pelo seu corpo febril. Quando olhei de relance, Eren havia coberto os olhos com um dos braços, enquanto o outro segurava o lençol com força, arrancando-o do colchão, o lábio preso entre os dentes.

Desatei o nó que prendia o cós da calça de Eren, e depois, um a um, abri os botões, descendo sua calça lentamente. Mais uma vez, seu estado chamou minha atenção quando vi seu quadril despontando sob a cueca, mas balancei a cabeça rapidamente, afastando o pensamento. Ele queria que eu fizesse isso, não queria? Eu precisava estar seguro para que ele também se sentisse assim. E, se eu o machucasse com certeza Jaeger me diria para parar. Antes de descer suas calças, abri o zíper de suas botas e as arranquei lentamente, tirando suas meias e o suporte do DMT em seguida, jogando-os no chão. Eren não precisaria de nada daquilo. Terminei de puxar sua calça branca e beijei suas pernas enquanto voltava a subir, encontrando o volume de sua cueca e deixando um beijo ali também.

Ajoelhei-me sobre a cama, as pernas ladeando seu corpo e desabotoei minha calça enquanto contemplava o corpo do meu garoto, seminu, contraindo-se em espasmos involuntários todas as vezes que eu voltava a friccionar meu quadril contra o seu membro; eu já vira que ele gostava daquilo, tanto que na segunda vez que o fiz, Eren chamou meu nome com tanta força que meu corpo inteiro se retesou, relaxando só depois de vê-lo comprimir os lábios e mordê-los em seguida. Suspirei quando o vi se levantando na minha direção, os cotovelos apoiados na cama, içando-o para mim. Gentilmente, Eren me afastou dele, e arrastei os joelhos pela cama até que ele pudesse se ajoelhar na mesma altura que eu e assumir a tarefa de tirar minha calça. Seus dedos ágeis puxaram a fileira de botões de uma vez só e deslizaram pelas minhas pernas, passando a calça pelos joelhos e depois pelos meus pés.

Parei um momento para olhá-lo antes de continuarmos. Aquele corpo era meu… é aquele garoto pelo qual eu me apaixonara de uma forma a qual nem eu sabia se tinha explicação, agora era um homem e era inteiramente meu – seu coração é seu corpo também. A pele branca de Eren contrastava com seus cabelos escuros que, agora eu via, chegavam aos seus ombros, e seus olhos verdes como pedras preciosas, cheios de vida e mandando mensagens para os meus, coisas que eu não sabia decifrar, mas que guardava dentro de mim como meu tesouro particular. Ainda erguidos sobre o colchão, puxei o corpo de Eren para o meu, passando um braço pela sua cintura e acariciando seu rosto com a outra mão, sentindo a quentura de sua pele me queimar e lançar uma corrente de dor gostosa pelo meu sistema nervoso.

Descansei a mão em seu traseiro, vendo o rosto do meu garoto corar quando segurei seu rosto firme em direção ao meu ao que roçava minha virilha na sua mais uma vez, e seus dentes de travavam por querer segurar um suspiro. Beijei seus lábios rapidamente, sugando aquele gemido para fora e olhando em seus olhos. O corpo de Eren sacudia-se ligeiramente em minhas mãos, e não pude evitar esboçar um sorriso fino.

– Do que você está rindo, capitão? – As palavras saíram de seus lábios naquele tom provocante, meio rouco e baixo. Suas duas mãos fumegantes estavam sobre meu peito, impedindo-me de avançar em sua direção.

– Não estou rindo – falei, aproximando-me com um pouco mais de força e beijando sua bochecha e seu pescoço, arrancando um sorrisinho do fundo de sua garganta. – Estou sorrindo para você. Eu me lembro de você dizendo que eu deveria sorrir mais vezes, e eu gosto de fazê-lo para você, meu amor. – Voltei a sorrir.

O rosto de Eren se tornou escarlate, depois roxo. Ergui sua face e beijei a ponta de seu nariz. A mão em seu traseiro o apertou levemente e os olhos verdes se arregalaram para mim, momentaneamente envergonhados. Usei a mão para aproximar ainda mais nossos corpos e a subi pelas suas costas. As mãos repentinamente desajeitadas de Eren desceram pela minha cueca, tirando-a de mim ao passo que eu fazia o mesmo, e deixava nossos corpos completamente nus. Afastei sua mão enquanto ele se apoiava em mim pelos ombros e mordia-me no momento em que segurei seu membro junto do meu.

– Ah… – Ele gemeu, segurando-se em mim, as unhas cravadas em minha pele. Aquele era o som mais incrível do mundo, e era para mim, o que o fazia ser ainda melhor.

Bombeei a mão para cima e para baixo algumas vezes e, a cada uma delas, sentia o corpo de Eren se retesar cada vez mais, os músculos tornando-se rígidos e o aperto de suas mãos em meus ombros tornando-se ainda mais forte. Eu mesmo não pude evitar morder-lhe a orelha e chamar pelo seu nome enquanto tocava nossos membros juntos, aquelas ondas de sensações alastrando-se pelo meu corpo junto com o calor de Jaeger e os sons que ele emitia sempre que minha mão voltava a deslizar por ele.

Quando sua boca entrou a minha, voraz, eu sabia que ele já estava perto do clímax. Eu conhecia seu corpo e suas reações, e sabia como o corpo do meu garoto reagia quando estava quase lá. Suas pernas tremiam ligeiramente, e, gentilmente, o deitei de costas na cama, envolvendo seu membro completamente com minha mão, movendo-a com mais rapidez enquanto as costas de Eren se arqueavam e suas mãos voltavam a segurar os lençóis. Meus dedos deslizaram para cima de seu membro uma última vez, meu polegar tampando o topo enquanto Eren se contorcia embaixo de mim, pedindo para que eu o libertasse.

E assim o fiz. Jaeger derramou-se completamente, sujando a mim, a si mesmo e à minha cama. Ele voltou a estremecer, a boca aberta em um esgar silencioso, seus olhos fechados e os pela do corpo completamente eriçados. Uau, aquilo fora… Incrível.

Cuidadosamente, deitei-me por cima de seu corpo, beijando seus lábios suavemente, sentindo seu gosto em mim. Toquei seu rosto, afastando os cabelos que haviam se grudado ali com o suor. As bochechas de Eren estavam rosadas e seus olhos verdes brilhavam. Beijei sua testa e apoiei o rosto em uma das mãos, olhando-o.

– Pare de ficar me olhando, Levi – ele pediu num sussurro.

– Eu não consigo. Você é tão…

– Cale-se – e então, lançou os braços pelo meu pescoço e calou-me com um beijo profundo e, ao mesmo tempo, tranquilo.

Eu podia sentir que estávamos aproveitando aquele momento entre nós dois ao máximo, e sentia também as batidas de seu coração ali, contra o meu peito. Aspirei o cheiro de seu perfume e separei nossos lábios, subindo uma das mãos até eles e delineando seu contorno lentamente. A boca quente de Eren deslizou pelos meus dedos, abocanhando-os e passando sua língua até o final, os olhos presos nos meus sem nem mesmo piscar. Meu corpo inteiro foi percorrido por uma onda de eletricidade; eu estava estático e sem saber como reagir. Aquilo era tão… Sensual que, por um instante, me senti constrangido. Eren sabia o que estava fazendo e nem parecia mais aquele menino e rosto corado de minutos atrás.

Tal como fizera mais cedo, Jaeger apoiou-se nos cotovelos, sem tirar os olhos dos meus e também sem cessar o que estava fazendo com a língua em meus dedos, e empoleirou- em meu colo, seu traseiro tocando meu membro levemente e causando-me de gemer sem que me desse conta. Gentilmente, ele tirou meus dedos de sua boca, levando-os para baixo, em direção a si, e então eu entendi o que ele queria que eu fizesse. Minha ereção latejou ainda mais quando Eren içou seu corpo para cima, deixando seu abdome na altura de minha boca, e guiou meus dedos em direção à sua entrada.

De começo, ele não fez nenhum som. Eu havia feito algo errado? Fiz movimentos repetidos com os dedos onde estavam, e só então Eren gemeu baixinho, os braços presos ao meu pescoço enquanto ele ditava o ritmo dos movimentos, subindo e descendo vagarosamente. Beijei seu peito e seu abdome e me permiti passar a língua pelo seu mamilo enquanto o fazia, sem saber se Eren gostaria daquilo ou não. E a resposta veio na melhor forma possível.

– Ah, capitão… – gemeu Eren enquanto seus braços davam a volta em meu pescoço e agarravam meus cabelos, puxando-os com força.

Inseri mais um dedo, sentindo todos os seus músculos enrijecerem de uma vez só. Mais uma vez, silencio, dessa vez seguido por uma mordida tão forte em meu pescoço que, com certeza absoluta arrancara algum sangue. Eren precisava se lembrar de que eu não me curava como ele quando fazia coisas assim. Jaeger lambeu o local aonde havia mordido e levou os lábios até minha orelha, assoprando o caminho até lá e a mordiscando suavemente enquanto sussurrava em meu ouvido.

– Por favor, Levi.

Retirei os dedos, atendendo ao seu pedido, e o encaixei de encontro à minha virilha, penetrando-o lentamente, deixando seu corpo descer sobre o meu aos poucos. Quando Eren atingiu a base, totalmente sentado em meu colo, nossos rostos estavam quase na mesma altura, e ele sorrir para mim. A ponta de sua língua delineou o contorno de sua boca e ele se inclinou para me beijar. Coloquei as mãos em sua cintura e, só então, comecei a movimentá-lo para cima e para baixo em mim, soltando pequenos gemidos de praxes enquanto o penetrava sem urgência, sentindo a contração do seu corpo enquanto o fazia.

Mantive os olhos presos nos seus, enquanto Eren quicava por contra própria, os olhos fechados e a boca aberta, deixando sair uma respiração entrecortada e salpicada de gemidos baixos. Aquele momento estava sendo tão devagar quanto possível, quase uma tortura, visto o tempo em que estivemos longe e toda a falta do seu corpo no meu que eu sentia, mas a sensação era, ainda assim, impagável.

Os dentes de Eren prendendo seus lábios, seus cabelos soltos movendo-se pelos seus ombros e caindo pelo seu rosto, a forma com que seus braços e suas mãos apoiavam-se em minhas pernas para pegar mais impulso na subida e descida… Tudo aquilo transformavam aquele momento em um dos melhores da minha vida. Senti o gatilho começar a ser disparado dentro de mim quando o garoto se levantou, e o clímax veio quando ele voltou a se abaixar. Meus braços estavam em volta de seu corpo e eu o apertei, ignorando os ossos pontudos sob sua pele machucando-me quando o fiz.

Desfiz-me dentro de Eren, segurando-o em meu colo por um tempo, afundando o rosto em seu peito suado e puxando seu perfume para dentro de mim. Nós éramos um naqueles momentos, nos sempre éramos um quando ele me permitia ter seu corpo sem restrições e me amava de volta. A saudade parecia uma história distante quando o apertei contra mim, nossos corações batendo audivelmente em conjunto enquanto respirávamos pesadamente e, lentamente, nos deitávamos na cama. Jaeger saiu de cima de mim e deitou-se com as costas no meu peito, aninhando-se em meus braços.

Beijei sua nuca, o gosto salgado do suor maculando minha boca, e suspirei. Um som ameno entrava pela janela, incidindo sobre nós. Notei que Eren não estava mais com o corpo em chamas, e nem soltado fumaça. Talvez ele já estivesse completamente curado. Não consegui reprimir um sorriso de alívio e escondi meu rosto em seu pescoço.

- Bem vindo de volta, capitão Levi – ele falou, bocejando logo em seguida.

- É bom estar de volta.

Com certa dificuldade, Eren virou-se para mim, os olhos vermelhos e cansados. Ele bocejou novamente.

- Podemos ficar aqui, só um pouco? – O garoto perguntou, aninhando-se ainda mais nos meus braços. – Não dormi a noite inteira, e não tenho dormido bem nesses dias sem você…

Meu rosto se esquentou de súbito. O abracei com mais força, passando uma de suas pernas por cima da minha cintura e a prendendo lá, vendo o sorriso fino se formar nos lábios do meu garoto, já quase adormecido. Seus olhos se abriram uma última vez antes que ele me jogasse um beijo rápido e, finalmente, adormecesse. Eu sabia que Erwin havia me dito que faríamos uma reunião logo após o café da manhã, mas eu não poderia largar Eren ali, não depois do tempo em que o obriguei a ficar sozinho e depois do momento que do que acontecera ali, naquela mesma manhã. Eu também estava cansado e talvez um pouco de sono me fizesse bem.

Encostei a testa na dele, fechei os olhos e me deixei ser embalado pelo som da sua respiração pesada.

–––

Acordei menos de uma hora depois, completamente descansado e com uma leve dor nas costas. Eren havia se empoleirado completamente em mim, as pernas e braços prendendo meu corpo ao seu, e sua cabeça enfiada na curva do meu pescoço. Ele roncava audivelmente e tinha a expressão serena, de quem estava imerso no mais profundo, finalmente descansando. Beijei sua testa antes de me desvencilhar do seu aperto forte e tomei um banho rápido, lavando os cabelos, o corpo e a alma.

Meu armário estava organizado exatamente como eu deixara antes de sair, exceto por algumas mudas de roupa de Eren que agora também estavam ali e outras que eu havia deixado para lavagem antes de partir. Tudo estava dobrado e organizado por cores, conforme eu mesmo deixava. Lancei um olhar para o garoto, adormecido de braços e pernas grandes demais estirados no colchão e anotei mentalmente que o agradeceria mais tarde por isso. Ele estava aprendendo a fazer as coisas do meu jeito e aquilo era algo que me deixava muito feliz.

Peguei uma calça preta e uma blusa de mangas longas da mesma cor e me vesti rapidamente, calçando os sapatos e dobrando as mangas da camisa até os cotovelos. Olhei-me no espelho e apenas joguei o cabelo para trás; estava grande e precisava ser cortado com urgência. Eu precisava me lembrar de pedir a Hange que o cortasse para mim. Desde que Isabel de fora, ela era a única que conseguia aparar meu cabelo da forma certa. Lembrei-me de Eren e de quando disse que cortaria aqueles cabelos longos e também fiz uma nota mental e que não iria permitir, definitivamente, que ele o fizesse. Havia algo incrível na forma com que os cabelos longos caíam pelo seu rosto, emoldurando-o e eu não queria perder aquela visão.

Saí furtivamente pelo corredor, deixando a porta destrancada atrás de mim e dei de cara com Erwin, encarando-me de braços cruzados.

– Opa – falei, dando um passo para trás.

– Eu estava indo te ver – disse Erwin, descruzando as mãos e levando uma até os olhos. – Hange está passando mal de novo, e não quer ir à enfermaria. Ela está me deixando louco, Levi.

Indiquei o caminho, convidando Erwin para uma caminhada até o refeitório comigo, e meu amigo me acompanhou de bom grado. Era estranho ver aquele homem daquele tamanho e força, comandante da divisão mais importante do exército, parecer de mãos tão atadas frente a uma mulher. Dei de ombros, lutando contra a vontade de contar a ele o que realmente estava acontecendo e respirei profundamente antes de continuar.

– Leve um pouco de chá e alguns biscoitos para ela – respondi, olhando para frente e tampando os olhos com as mãos quando saímos para o sol. – Pode ser só enjoo da viagem.

– Mas ela está enjoada assim há dias! Vou acabar amarrando-a e levando-a a força para ver o Dr. Marcel…

– Erwin – parei, virando-me de frente para o comandante –, não. Eu posso conversar com ela mais tarde, se você quiser. Posso tentar ajudar.

Smith deu de ombros, sabendo que não haveria nada mais o que fazer. Hange era resoluta demais para ceder para qualquer um, mas talvez eu conseguisse enfiar um pouco de juízo na sua cabeça, afinal seu corpo não era somente seu, mais. Havia uma vida crescendo dentro dele, e eu a protegeria a todo custo, até de si mesma. Peguei uma xícara e a enchi com chá, estendendo a Erwin e pegando uma para mim. Acenei para Sasha dentro da cozinha, e ergui a mão quando ela fez menção de se aproximar.

Puxei uma cadeira.

– Eu acho que está acontecendo alguma coisa e ela não quer me contar – ele falou, por fim, a expressão derrotada.

Engoli em seco, levando a xícara aos lábios. Eu estava com vergonha de manter aquele segredo. Não era certo.

– Mas então… – ele começou novamente, abaixando o copo na mesa e me olhando. – Como vai… Eren?

Por um instante, fiquei surpreso com a pergunta. Nós nunca havíamos conversado sobre Eren e eu, não depois da única vez que Erwin mencionou o assunto, e eu não sabia se a nossa amizade era do tipo que permitia conversas sobre as nossas relações amorosas. Pigarreei, limpando a garganta e tentando pensar em algo para responder.

– Bem, eu acho – falei, apoiando a mão no queixo e olhando para o lado. – Um pouco magro, mas está bem.

– Hm.

Mais um momento em que o único som que escutávamos era a voz de Braus dentro da cozinha, dando ordens a algum pobre coitado que havia feito algo errado. Aquela menina era um soldado fantástico, apesar de não ser tão assustadora assim no campo de batalha. Mas quando estava dentro da cozinha… até mesmo eu sentia um ligeiro medo dela. Seus olhos brilhavam de uma forma sinistra quando mexia com a comida e ela parecia estar possuída por alguma força que fazia até a sua voz engrossar. Sacudi a cabeça. Por que eu estava pensando naquilo?

– Você está feliz? – Erwin me perguntou, e ergui as sobrancelhas em surpresa.

– Como nunca estive – respondi de imediato, as palavras saindo da minha boca sem que eu nem percebesse. Minhas bochechas coraram instantaneamente e me apressei em devolver a pergunta. – E você?

– Estou… – a hesitação na voz do comandante me fez apertar os olhos em sua direção, em dúvida. – Eu tenho medo de que aconteça algo no futuro, em alguma das missões, ou que o plano dê errado e isso reflita nela, entende?

Assenti.

– É por isso que eu havia decidido não me envolver com ninguém, para não ter este tipo de medo e não ter a vida de outra pessoa em minhas mãos, mas Hange tem algo que eu não sei explicar o que é, algo que derrubou a minha barreira e entrou em mim num rompante antes que eu percebesse. E agora ela já está alojada em todas as partes de mim, sem querer sair. E eu não quero que saia.

Meu coração estava disparado no peito por causa daquela conversa. Era a primeira daquele tipo que nós tínhamos e, apesar de toda a estranheza da situação, eu não me sentia desconfortável. Estiquei a mão por cima da mesa e toquei o braço grosso de Erwin, tentando passar a ele alguma força. Nossos olhos nos encontraram e ele sorriu para mim.

– Eu entendo o que você quer dizer – falei. – Eu também me sinto responsável pela vida de Eren, mesmo sabendo que ele é capaz de se virar sozinho. Mas… acho que certas coisas não estão sempre sob o nosso controle. – Dei de ombros, esvaziando a xícara em um último gole. – Venha, vou te ajudar a preparar algo para ela.

Levantei-me e peguei duas bandejas, dispondo uma xícara em cada e um pequeno bule com chá que pedi à Sasha pela janela que dava para dentro da cozinha. Erwin postou-se ao meu lado, escolhendo alguns biscoitos e colocando-os em um prato de porcelana pequeno, junto com algumas frutas. Não era muito, eu sabia. A verba destinada para a nossa tropa mal dava para a nossa sobrevivência, mas todos nós havíamos crescido com pouco, e o que tínhamos ali nos era dado como um banquete. Sorri para meu amigo antes de vê-lo sair pela porta, carregando a bandeja com firmeza nas mãos grandes.

Fiz o mesmo para Eren, coloquei alguns biscoitos e um pedaço de pão. Estiquei o braço pela janela pequena e peguei frutas e algo que parecia um bolo mais pesado. Talvez eu devesse levar um pouco de caldo de legumes também, o garoto estava muito magro e precisava comer urgentemente. Despedi de Braus com um aceno, dizendo-lhe rapidamente que depois do café da manhã, nós faríamos uma reunião no pátio, e ela assentiu para mim.

– Bom dia, capitão. Bem vindo de volta.

Maneei a cabeça e saí. Alguns soldados já começavam a se levantar; escutei o barulho de passos pelo corredor e vozes em direção aos vestiários para que se banhassem e trocassem de roupa. Apertei o passo, querendo evitar qualquer tipo de contato que pudesse me atrasar e entrei no quarto para encontrar Eren sentado na cama, esfregando os olhos. O garoto sorriu largamente quando me viu, puxando o lençol para cima de seu corpo, cobrindo-o.

– Então eu não sonhei – ele falou em meio a um bocejo.

Deixei a bandeja sobre a mesa e sentei na cama, puxando-o para junto de mim. Aninhei Jaeger em meus braços e beijei o topo de sua cabeça.

– Sonhou com o que, moleque?

– Que você tinha voltado – disse, enroscando-se em mim. – Você está aqui.

– Estou – respondi, acariciando seus braços. – Trouxe comida para você.

O ergui em meus braços, carregando-o como se fosse um saco de penas de tão leve que estava, e o sentei na cadeira. Eren puxou ainda mais o lençol para seu corpo, cobrindo-lhe os ombros, e jogou os cabelos para fora. Sua mão se esticou na direção dos biscoitos e ele comeu lentamente, enquanto olhava para mim e, vez ou outra, dava um sorriso fino.

– O que foi? – Perguntei.

Ele negou com a cabeça, enfiando mais um biscoito na boca, evitando responder. Suas bochechas ficavam mais coradas à medida que ele comia, e um alívio se abateu dentro de mim. Seu rosto parecia até mesmo menos descarnado, e eu via que ele estava melhor. Talvez aquele fosse realmente o caminho certo. Eu faria Eren comer e não deixaria que participasse dos treinos. Ackerman fora muito irresponsável ao deixar que ele praticasse com o dispositivo enquanto ainda não havia se recuperado completamente – eu a repreenderia por isso. A garota ainda precisava aprender muito sobre como coordenar sua equipe.

Quando Eren terminou, não sobrou uma única migalha em toda a bandeja. Ele comera tudo o que eu levei e tomara todo o chá. Levantei-me, voltando a puxar seu corpo para os meus braços e o deitei na cama, tirando os sapatos rapidamente e o abraçando. Era bom ficar daquele jeito, somente segurando o seu corpo junto do meu e olhando em seus olhos tão grandes e quentes. Acariciei seu rosto mais de uma vez, dando um beijo aqui, outro ali, algumas vezes tocando seus e separando-nos só para poder continuar olhado o seu rosto.

– Levi? – Ele chamou, depois de um tempo em silêncio.

– Hn?

– Eu te amo.

– Eu também te amo, Eren – respondi, passando meu braço por baixo do seu pescoço e puxando o garoto para mais perto de mim. – Muito.

– Eu senti tanto a sua falta… – ele fungou, o rosto afundado em meu peito.

– Eu sei, eu sei – sussurrei em resposta, acariciando sua cabeça e suas costas. – Eu senti sua falta também, desde o momento em que parti. Mas agora eu estou aqui, e nós estamos juntos, ok? Não precisa chorar.

Sua cabeça se moveu para cima e para baixo repetidas vezes e então seus olhos se levantaram para encontrar os meus.

– Eu não vou mais te deixar – falei, sentando-me e puxando-o comigo. Sua cabeça deitou-se em mim e Eren deslizou seus dedos pelo meu braço até encontrar os meus, e os entrelaçou. – E se eu precisar ir, eu o levo comigo.

Ele riu.

– Me lembrarei disso.

– Lembre-se também que, depois da reunião de hoje, vamos arrumar uma bolsa pequena com algumas roupas e vamos passar uns dias na sua cabana, tá bom? – Falei, levantando seu rosto na direção do meu. – Só nós dois por um tempo. Se você quiser, é claro.

Novamente, as bochechas dele assumiram aquele tom vermelho vibrante, irradiando calor. E Eren apenas assentiu, escalando-me até encontrar meus lábios e me beijar novamente. Fechei os olhos, aproveitando cada segundo daquele beijo, sentido o corpo de Eren por sob o lençol e a forma com que ele se encaixava perfeitamente em mim, nossos corpos parecendo um apenas e nossos corações batendo em um só ritmo.

Eu nunca imaginar que um dia experimentaria tal sentimento, tal calor e ali estava ele, no formato do corpo de um homem que retribuía a mim todos os gestos que eu fazia por ele sem que eu precisasse pedir. Naquele momento, naquele exato momento, prometi a mim mesmo que viveria por Eren, que lutaria por ele. Eu consertaria o mundo para que eu pudesse levar o meu garoto para conhecer a grande água salgada e as planícies de gelo, e construiria uma família para que ele não se sentisse só em momento algum.

Iríamos caminhar para o mundo de braços abertos e sempre juntos.