Rachel lentamente fez o caminho pela passarela em direção à porta da frente. O clima estava mudando. Ela podia sentir a brisa gelada em sua pele exposta, leves gotas de chuva eram bem mal notadas mas traziam o cheiro de uma tempestade. Ela olhou pra cima e notou que o céu estava escuro, preocupante. Um leve tremor correu da cabeça aos pés dela, e ela procedeu pra dentro do calor da casa dela.

Ela levemente colocou as chaves dela no prato que estava na mesa do corredor. Depois, ela tirou a jaqueta e pendurou no cabide de casacos atrás da porta. As luzes estavam desligadas por toda a casa – "Desperdiçar energia enquanto ninguém está em casa é absolutamente ridículo! Eu exijo que toda luz na casa esteja desligada antes da última pessoa sair pro dia," Rachel tinha proclamado um dia depois de assistir Uma verdade inconveniente – o que era um sinal certo de que Rachel estava sozinha.

Sua primeira parada foi a cozinha. Ela levou alguns minutos pra preparar uma tigela de cereal para ela antes de cuidadosamente carregá-la para a sala. Enquanto comia, ela zapeava pelos canais. Não haviam bons filmes no Starz. Nada digno de nota na HBO. Disney Channel produziu resultados ruins. The Discovery e Learning Channels eram decepcionantes. Rachel continuou a mudar de canal até chegar à MTV. "16 e grávida" piscava duramente pra ela da televisão grande de tela plana.

Ah, a ironia.

Mas ela estava paralisada. Não havia como distanciar o olhar. O drama, a loucura, as circunstâncias... Rachel não estava ansiando a escola no dia seguinte.

Ela percebera que a vida dela estaria mudando – duramente e rápido.

Só tinha passado alguns meses desde que ela solfejara com Finn, tentando cumprir seu plano de que ela estava tão certa de que seria frutífero... Pensando de volta naquele beijo que eles partilharam, Rachel percebera que – talvez, só talvez – ela tinha sido precipitada. Beijar Finn era realmente o jeito de conseguir o que ela queria? Ela percebera a sua lógica às avessas e suspirou.

Infelizmente, ninguém iria querer ela agora. Ela era uma grávida de dezesseis anos carregando o bebê de uma estrela sem rosto da escola rival. Ninguém queria ela antes dela ficar grávida, de qualquer forma. Não havia razão pras coisas mudarem.

A sala escura, o brilho da televisão, o calor do coberto que ela tinha posto sobre si mesma e o cereal assentado contentemente no estômago dela induziu uma sonolência severa. Pelo menos quando ela estivesse dormindo, sua mente poderia ficar em paz. Então ela deu as boas vindas ao abraço quente do sono e deixou a escuridão no canto da visão dela tomar conta.


Antes de passar muito tempo, os sons dos pais dela retornando do trabalho a acordaram. Ela sentou sonolenta e dobrou o cobertor dela. Ela carregou o prato sujo para cozinha e o colocou na cozinha antes de sair pro corredor e cumprimentar os pais enquanto eles guardavam os casacos, cachecóis e chaves.

"Oi Pai, Papaizinho," ela disse baixo, um pequeno sorriso no rosto. Ela realmente amava os pais.

"Oi docinho," seu Pai, Brendon, respondeu, dando um passo pra frente para levemente beijar Rachel na testa. Ele era um homem relativamente pequeno – já que Rachel era notavelmente pequena, esse era claramente o pai com quem ela compartilhava genes – com óculos preto estiloso, uma face amigável e olhos castanhos brilhantes que continham em suas profundidades a sabedoria na qual Rachel se apoiava pesadamente através dos anos. Ele passou por Rachel e foi pra cozinha, provavelmente para verificar a coleção de menus de comida a domicílio sempre à mão para escolhas de jantar apropriadas.

"Olá, querida," seu Papaizinho, Marcus, deu um passo à frente e envolveu os braços ao redor de Rachel. Ela automaticamente envolveu os braços no pescoço dele e ele de repente a levantou no ar e a girou algumas vezes. Ele era facilmente o maior homem de longe no concernente à sua estatura física. Rachel sempre pensou que a pele escura cor de chocolate dele parecia impressionante em relação ao do seu Pai quando eles davam as mãos ou andavam de braços dados em algum lugar. Ele também tinha uma aparência muito agradável, mas Rachel sabia que havia uma ferocidade dentro dele que poderia incutir medo nas pessoas. Um ano na Black Friday, Rachel tinha literalmente quase começado a chorar quando o último jogo SingStar foi tomado bem debaixo do nariz dela por uma mulher bem intimidante no Best Buy. Infelizmente para aquela mulher, os instintos de Marcus entraram em ação, e tudo que ele teve que fazer foi aparecer em toda sua altura e curvar os lábios ligeiramente, mostrando os dentes – e foi tudo que precisou, realmente. E Rachel estava estática porque, bem, tinha funcionado. Ela talvez tivesse a aparência de Brendon, mas os pontos da personalidade dela eram igualmente herdados de cada um dos seus pais.

Ela riu quando ele a colocou de volta no chão.

"O que você gostaria de jantar? Eu tive um dia intenso no hospital e eu tenho vontade de comer um animal inteiro, por assim dizer. Faminto!" Marcus exclamou, dramaticamente jogando as mãos no ar.

Rachel riu um pouco nas mãos antes de ficar repentinamente séria. "Eu realmente não tenho uma preferência hoje à noite. Só se certifique que tenha picles." Com isso, ela virou e seguiu Brendon pra cozinha pra olhar os menus, deixando Marcus para coçar a cabeça pensativamente.

"Mas você odeia picles..." Ele murmurou baixo antes de sair do estado pensativo e seguir a família dele pra cozinha também.


Uma deliciosa refeição entregue à domicílio depois e os três Berrys estavam sentados ao redor da mesa da sala conversando sobre seus respectivos dias. Brendon divertiu o marido e a filha pela maior parte da conversa enquanto ele recontava sobre um cliente zangado na farmácia naquele dia.

"E então ele correu pelas portas gritando, 'Veja se eu vou lhe contar novamente sobre meus contratempos com Viagra novamente, seu empurrador de pílulas bom pra nada!' Foi bem fantástico. E todas as damas ficaram seriamente impressionadas."

Marcus se inclinou e colocou um beijo amoroso na bochecha de Brendon. Enquanto ele se afastava, ele continuou a rir suavemente. Rachel continuou estranhamente contida durante todo esse último Conto de Horror da Farmácia, e, os pais dela notaram.

"Rachel," Brendon perguntou. "Está tudo bem?"

Rachel tinha se feito essa pergunta por dias agora. Nas últimas horas, a resposta seria um ressoante NÃO! Ela certamente não estava bem. Ela estava grávida. Ela sequer relembrava de participar do ato que tinha resultado na citada gravidez, pelo amor de Deus. O pai do seu bebê era um gigôlo de show de palco em barco que iria se formar no ensino médio em questão de meses e tinha uma bolsa em UCLA – ele teria ido embora e Rachel estaria sozinha. Com um bebê. Talvez.

Mas então ela olhou pros olhos amorosos dos pais dela e ela sabia sem sombra de dúvida que ela definitivamente não ficaria sozinha – não importasse quais decisões ela tomasse em relação ao bebê, não importava por quais dificuldades ela enfrentasse durante os nove meses nos quais uma pequena criança estaria crescendo dentro dela seria sua prioridade número um. Ela sabia que tudo ficaria bem.

Rachel Berry era uma grande fazedora de discursos. Quando sua família visitou pra formatura dela do fundamental, Rachel sentou todos eles pela sala e fez um discurso de 30 minutos que cobria assuntos desde o sistema educacional passando pelas escolhas de um estilo de vida vegetariano até os clássicos da Broadway. Bem no ano passado, seus pais renovaram os votos e Rachel foi a primeira a fazer o brinde – cerca de doze pessoas tinham planejado fazer um discurso, mas o discurso de Rachel demorou tanto que ela tornou-se a única oradora. Ela tinha discursos planejados pra formatura do Ensino Médio, Primeira Vitória do New Directions nas Seccionais, Regionais e Nacionais (como também as segunda e terceira vitórias do New Directions pra cada nível de competição), como também sua aceitação em várias faculdades (Juilliard, Roosevelt, etc.) E claro, ela tinha os seus discursos já escritos para o primeiro Emmy, Oscar, Grammy e Globo de Ouro, respectivamente.

Então quando Rachel abriu a boca e disse as palavras, "Estou grávida," foi quase desnecessário seguir com: 'todos na mesa estavam completamente e pra lá de chocados que Rachel tinha conseguido inserir toda a gravidade da situação em apenas duas palavras.'

É possível que o tempo tenha parado por um segundo. Rachel deu uma olhada no Pai dela e depois no seu Papaizinho e fez o mesmo caminho novamente, e então olhou pro seu relógio para confirmar que, sim, tempo tinha não estava de fato parado.

"Pai? Papai?... Digam algo?"

Marcus se esticou e agarrou uma das mãos de Rachel com ambas as dele. "Rachel, querida, qual é o nome desse jovem?" Rachel conhecia aquele tom. Naturalmente, Brendon também.

"Agora, querido, pense sobre isso antes de fazer algo bobo –" Ele tentou aplacar o marido mas ele foi cortado com um olhar rápido de Marcus.

"Algo... bobo? Oh, não, não será 'bobo' – vai ser bem o contrário. Agora," ele virou de volta pra Rachel. "Qual é o nome dele, querida?"

"Jesse St. James. Ele é o principal do clube do coral da Escola Carmel, Vocal Adrenaline. Papaizinho, antes de você fazer qualquer coisa maluca, eu só quero que você saiba... Eu quero que saiba que foi um erro. Eu fui com Beth e Amy da aula de dança. Eu só... Acabei bebendo. E uma coisa levou à outra. Eu..." Ela fungou e começou a chorar silenciosamente. "Eu sequer me lembro. Eu só lembro de acordar algumas horas depois. E eu fui embora."

"St. James. Obrigada, querida," Marcus disse enquanto se levantava rapidamente e retirava o casaco do cabide atrás da porta. Ele voltou pra cozinha e se ajoelhou na frente de Rachel, segurando ambas as mãos dela nas dele dessa vez e a forçou a olhar nos olhos dele. "Rachel, você é nossa querida garotinha. Eu entendo o quão difícil deve ter sido pra você nos contar isso. Saiba que eu não estou chateado com você e seu Pai e eu estaremos aqui pra você não importa o que aconteça." Nessa parte ele olhou amorosamente pra Brendon que só sorriu em resposta, silenciosamente concordando com a cabeça e se aproximando pra envolver um braço nos ombros de Rachel. Marcus se levantou então, dizendo, "Estarei de volta mais tarde! Não me esperem acordadas, moças. Um homem tem que fazer o que um homem tem que fazer." Ele beijou Rachel na bochecha e Brendon nos lábios antes de ficar com uma pose bem masculina, pegou as chaves e saiu da casa.

Brendon apertou os ombros de Rachel. "Bem, eu acho que ele ganha Pontos de Herói nessa situação, não é mesmo? Você está decepcionada que eu não saí daqui com ele para vingar sua honra, docinho?"

Rachel riu mesmo que ainda através das lágrimas. "Oh Pai, ambos são tão incríveis. Claro que você também ganha Pontos de Herói. E eu não estou de forma alguma decepcionada. Agora nós podemos ir ver Funny Girl e Papaizinho não terá que reclamar de estar assistindo pela centésima vigésima segunda vez!"

Brendon apenas beijou Rachel carinhosamente na testa antes de começar a tirar a mesa. Uma vez que a cozinha estava em ordem, eles foram pra sala pra começar o filme.


Rachel se encontrou incrivelmente cansada. Ela deu um beijo de boa noite no Pai dela (Papaizinho ainda não estava em casa, para sua mortificação) e subiu as escadas. Ela lavou o rosto. Ela terminou o pouco de dever de casa que ela ainda não tinha completando durante a sala de estudos. Ela escovou os dentes. Ela escolheu um vestuário pra usar no próximo dia de escola. E então ela escolheu um segundo conjunto antecipando um ataque de slushie. Ela finalmente engatinhou na cama, impressionantemente exausta.

Apesar da exaustão dela, ela sentia algo parecido com felicidade. Ela sabia que as coisas seriam difíceis na escola, mas certamente com o sistema de apoio forte que ela tinha em casa, tudo ficaria ok... Certo? Ela só podia esperar que isso fosse o suficiente para mantê-la vivendo.

Com um último pensamento flutuando na cabeça e os suaves sons de Coltrane tocando pelo iHome dela, Rachel adormeceu.


Rachel se achou caminhando pelos corredores de se sentia envergonhada, mas ela não conseguia entender o motivo. Então ela percebeu que ela estava completamente nua. Ela instantaneamente tentou cobrir todas as suas partes femininas de uma vez só, mas então a zoação começou.

Previamente havia estado quase calmo demais – a calmaria antes da tempestade. Então alguma voz de garota aleatoriamente chamou por ela, "Ei, Man Hands. Você esqueceu algo essa manhã?" Os amigos dela riram alto, cruelmente e bateram na mão dela pela inteligência.

Os insultos continuaram, "Treasure Trail" (apesar, Rachel pensou, de ela obviamente não ter um), "Preggers," "Tubbers," etc. etc. E aquelas palavras odiosas foram seguidas por um geladíssimo slushie atrás de geladíssimo slushie. Eles estavam jogando-os em cada centímetro da carne exposta dela, sem misericórdia. Enquanto eles começavam a jogar outras coisas nela – cadernos, borrachas, papéis amassados, bolsas de ginástica – Rachel abandonou qualquer pretensão de modéstia, deixando a mão cair do seu peito para proteger o frágil montinho que ela só recentemente começou a fazer sua presença conhecida.

Ela tinha que protegê-lo.

Repentinamente, Karofsky estava parado na frente dela, encarando Rachel com uma ira no olhar que fez com que lágrimas imediatamente saíram dos seus olhos e fizeram seu caminho pelas bochechas cobertas de slushie, misturando com blueberry e mistura de cereja na pele dela. Ele grunhiu pra ela. Ele literalmente grunhiu. E então ele a agarrou pelos ombros e a empurrou pra trás, batendo ela nos armários mais próximos. Ela gritou com o impacto, sua cabeça girando ligeiramente.

Karofsky se inclinou pra baixo e falou, alto e claro o suficiente para cada pessoa no sonho de Rachel pudesse escutar, "Então Berry, eu ouvi dizer que você gosta com força? Bem, se prepare para isso. Porque eu sou um homem real, e eu vou mostrar a você como homens reais fodem." Todos no corredor riram. Eles riram e o corpo de Rachel tremeu de medo. Ela continuou a segurar o estômago, a criança dela não nascida.

Karofsky começou a abrir o zíper da calça. Rachel olhou pelo lado de David. Quinn Fabray estava parada diretamente do outro lado do corredor e ela estava encarando os olhos de Rachel. Ela não estava sorrindo ou rindo junto com o resto do corpo estudantil enquanto Karofsky preparava-se para fazer coisas não mencionáveis com o corpo de Rachel, mas ela não fazia muito também.

Quinn só ficou parada ali, olhando pros olhos de Rachel.


Rachel acordou abruptamente. Ela não se moveu, ela quase não respirou. Era o seu pior pesadelo. E Rachel estava enojada consigo mesma. Não por ter tido um pesadelo, mas pelo fato de que o pesadelo propriamente dito não era o estupro intencional de Karofsky – era o fato de que Quinn Fabray ficou parada e não fez nada.