Quinn se sentou ereta na cama, um soluço engasgado escapando da garganta dela. Sua mente estava confusa. Seus pensamentos, uma bagunça tamanha. O que ela tinha acabado de ver?
O que ela tinha acabado de fazer?
Ela esticou as mãos e sentiu o fofo tecido do seu edredom, a leveza da seda dos seus lençóis, sua mesinha de cabeceira onde o despertador dela estava atualmente piscando "3:41 AM" pra ela. E apesar de todas as tentativas de reconforto, Quinn ainda se sentia mal no estômago – como se ela tivesse que, de alguma forma, confirmar o que ela tinha acabado de testemunhar e não tomado parte.
Ela ficou sentada na cama, embolando os lençóis ao redor dela. O sono não ia voltar nem tão cedo. O sonho dela tinha sido vívido demais. Tinha deixado-a lutando por ar, mesmo agora. Quinn percebeu que tinha estado chorando quando os lençóis que ela apertava nas mãos estavam encharcados pelas suas lágrimas.
"Controle-se, Fabray," ela disse entredentes. E ainda sim as lágrimas fluíam.
A imagem mental de Karofsky empurrando Rachel de encontro à alguns armários ainda estava dramaticamente passando várias vezes na mente dela. Rachel estava gritando, gritando por alguém para ajudá-la. Por toda a extensão do corredor, alunos estavam rindo e apontando e isso fez Quinn querer socar cada um deles no rosto. Ela se sentia fisicamente doente enquanto ela via Rachel se debater em vão. Rachel até mesmo a olhou nos olhos – ela tinha encarado Quinn direto no rosto e sussurrado suavemente, "Por favor, Quinn, me ajude," e Quinn tinha ouvido as palavras como se elas tivessem sido ditas diretamente na concha da orelha dela.
E ela tinha ficado paralisada.
Ela não estava certa de sequer poder piscar, muito menos desviar o olhar ou, mais importante, ajudar Rachel. Ela simplesmente não podia mover nenhum músculo no corpo dela. O seu eu do sonho era, aparentemente, um completo idiota – inapto a resgatar uma dama em perigo quando ela tão claramente precisava de alguém.
Não que Rachel fosse o que ordinariamente alguém iria considerar uma "dama em perigo", mas ainda assim... Ela tinha estado em perigo e ela tinha visto desamparada enquanto Quinn ficava parada e fazia nada.
Quinn fechou bem os olhos e balançou a cabeça para limpar a mente das imagens brutais que sua cabeça tinha forçado-a a presenciar. Ela tinha que sair disso. Ela tinha uma imagem, ela tinha um conjunto de padrões que foram impostos pra ela – e ela iria manter esses padrões. Que tipo de Capitã Cheerio ela seria se deixasse um sonho afetá-la desse jeito e pessoas, Deus não permita, soubesse sobre isso? Não, ela tinha que deixar isso de lado.
Apesar dela poder facilmente reiterar pra si mesma várias vezes que ela tinha que deixar isso de lado, ela não estava certa de que podia. Ao invés disso, ela se levantou e foi pro banheiro, tomar um banho e se preparar pro treino cedo das Cheerios – Treinadora Sylvester estava mandando pelo menos três treinos às 5 da manhã toda semana até o próximo troféu delas nas Nacionais estivesse seguro no seu aperto. Quando ela estava pronta pra deixar a casa dela, era apenas 4:37 da manhã. Ela ainda tinha tempo suficiente e tinha condições de sair alguns minutos mais tarde, mas só ficar parada no quarto já era o suficiente para quase induzi-la ao pânico.
Quando ela chegou na escola, as luzes brilhantes do estádio ainda estavam acesas. Isso, Quinn pensou amuada, deveria ser um sinal para Treinadora Sylvester de que é um pouco cedo demais para um treino matinal...
Quinn pegou a bolsa de ginástica e foi diretamente pro estádio. Ela já estava vestida com seu uniforme das Cheerios que ela usava nos treinos, pronta pra ir.
Ela jogou a bolsa perto de um dos bancos próximos ao campo e fez seu caminho para o topo das arquibancadas. Ela puxou seu telefone, não realmente certa do que ela iria fazer com ele. Como se tivessem vontade própria, seus dedos a levaram pela lista de contatos dela e baixaram até que a tela piscasse com o nome STUBBLES, mostrados em letras grandes e largas. Quinn respirou tremulamente.
Em apenas alguns toques, Quinn tinha copiado o número de Rachel e colocado manualmente junto com os dígitos *67 na frente dele – ela nunca saberia quem estava ligando pra ela em hora tão inapropriada. Era à prova de erros. Quinn podia conseguir o reconforto que ela precisava de que Rachel estava bem – ela estava provavelmente só dormindo na cama dela, segura em casa, intocada e ilesa.
Quinn apertou o botão de ligar.
A linha tocou uma, duas, três vezes e uma última vez antes da caixa de mensagem de Rachel atender. Em um pequeno pânico agora, Quinn cancelou a ligação. Ela estava provavelmente só dormindo e não chegou ao telefone a tempo, Quinn tentou convencer a si mesma. Certamente era isso, certo? Ela só não tinha ouvido a chamada do telefone. Talvez estivesse no silencioso para preservar o sono de beleza dela – e, pelo amor de Deus, a garota estava grávida e precisava do máximo descanso que ela pudesse conseguir.
Sem se importar, ela apertou o botão de ligar novamente.
Tocou uma, duas, TR – e então uma pequena, e parecendo cansada, voz atendeu dizendo, "Alô?" Quinn literalmente suspirou enquanto o alívio percorria todo seu corpo. Ela mordeu o lábio para não fazer barulho com o ar saindo pelos seus lábios então Rachel não pôde ouvir. "Alô? Tem... tem alguém aí?" Os olhos de Quinn se fecharam e lágrimas espontâneas e indesejadas vazaram das suas pálpebras. "Bem, talvez você tenha o número errado, me desculpe," e Quinn estava certa de que Rachel estava prestes a desligar. O que estaria tudo bem pra ela.
Mas então a Treinadora Sylvester falou pelos alto-falantes do estádio – os quais ela usava durante os treinos a fim de inspirar terror nas Cheerios mais impressionáveis.
"Você acha que treinar às cinco da manhã é difícil? Tente sentar por toda uma produção da creche de HAIR! Agora ISSO é difícil! AGORA ME DÊ CINCO VOLTAS!"
Quinn não pôde terminar a ligação rápido o bastante. Ela estava certa de que Rachel escutara algo, e não era algo que iria informar a Rachel que a pessoa misteriosa que estava ligando pra ela às cinco da manhã era uma Cheerio? Quinn talvez fizesse piada sobre a inteligência de Rachel, mas ela sabia que a garota era bem afiada. Exceto em cálculo – Berry era terrivelmente ruim em matemática.
Quinn rapidamente correu pra baixo, valentemente tentando ignorar o fato de que ela tinha, mais uma vez, reforçado a noção na cabeça dela que ela sabia muito, muito além da conta sobre Rachel Berry.
Eram 8 horas em ponto quando Rachel passou pelas portas do McKinley. Quando ela começou a andar pelo corredor em direção ao armário dela, sua cabeça estava bem erguida. Ela passou por muitas pessoas paradas conversando amigavelmente, passando quase sem ser notada. Mas então o sussurro começou.
Rachel Berry estava acostumada a ser o assunto das conversas. Ela geralmente era chamada de nomes. Ela sofria com slushie atrás de slushie desde que ela entrara no ensino médio. Mas esse sussurro que parecia estar acompanhando-a para todos os lados, era novo. Isso tinha algo diferente.
A cabeça dela foi baixando e baixando até que seu queixo estivesse quase batendo no tórax dela. Mesmo assim, quando algum atleta idiota bateu nela, derrubando todos os livros dela no chão, ela não pôde deixar de pensar que ele podia ter tido pelo menos um pouquinho de atenção para que não causasse algum dano físico em potencial.
Ela se abaixou para pegar os seus livros antes que eles fossem pisoteados pelos estudantes que começavam a dirigir pra suas aulas. Outra mão apareceu na visão dela, e a cabeça de Rachel levantou-se rapidamente para encarar o rosto de ninguém menos que Tina.
Rachel deu um pequeno sorriso pra outra garota, tentando se convencer que ela não estava genuinamente surpresa que a conversa com Tina no dia anterior não tinha sido uma farsa total. Tina sorriu de volta. As duas garotas tinham a primeira aula do dia juntas, então elas andaram – ombro a ombro – em direção à História.
Há apenas alguns centímetros de distância, Quinn Fabray estava parada assistindo a troca entre Rachel e Tina. Pelo menos alguém está a ajudando, Quinn pensou. Ela virou de volta pro armário dela onde ela tinha colocado o telefone. Ela rapidamente o pegou e rolou pelos contatos dela para aquele listado como STUBBLES. Ela deletou as letras e ao invés disso escreveu "Rachel Berry."
O fim do dia veio muito lentamente para Rachel. Em cada esquina por todo o dia, ela estivera esperando um rosto cheio de slushie. Em cada sala de aula, o sussurrar continuava. Fique com a cabeça erguida, ela continuava a dizer pra si mesma. É um ótimo treino para quando você for uma estrela e todo mundo estiver falando sobre sua vida pessoal. Você precisa se acostumar com isso agora, deixará as coisas mais fácil no futuro. Mas não importava o que ela dissesse a si mesma, ela não conseguia manter sua cabeça tão erguida quanto normalmente era. Ela, muitas vezes, se achava colocando uma mão gentilmente sobre a barriga que já estava se formando – uma barriga que, a não ser que você estivesse procurando e fosse (intimamente) familiar com o corpo de Rachel, você nunca teria achado por si só. Dava ela meio que um propósito, uma força que ela estava contente em achar.
Depois da escola, o treino do coral foi uma distração bem vinda para Rachel. Ela realmente tinha sentido falta de cantar com todos no dia anterior. De todas as atividades extracurriculares dela, era fácil de ver que o coral era a favorita de Rachel. Então quando ela entrou na sala do coral e Sr. Schuester a cumprimentou calorosamente e imediatamente entregou à Rachel a partitura da nova música – na qual ela tinha grande participação – um dos primeiros sorrisos verdadeiros que ela tinha dado em dias se manifestou no rosto dela.
"Ótima escolha de música, Sr. Schue. Essa é uma balada fantástica e combina muito bem com a minha voz."
"Estou contente por pensar assim, Rachel," Sr. Schue respondeu. "Vai ser um dueto com Finn."
Ao som disso, Rachel pareceu um pouco em dúvida – mas ela se recuperou rapidamente. "Ótimo," ela sorriu.
Não tão ótimo, ela pensou em sua cabeça. Tinha passado algum tempo desde que ela tentara qualquer flerte com Finn e ela tinha – na maior parte – conseguido evitar cantar com ele ou interagir com ele em qualquer forma desde então. E agora ela estava sendo jogada em uma música muito emocional com ele como parceiro. Fantástico.
Todos os outros componentes do coral chegaram, tomaram seus assentos e olharam para a partitura de música.
"Ok, vamos começar do começo," Sr. Schue anunciou feliz depois que todos pareciam relativamente confortáveis com o arranjo. Rachel deu um passo à frente com Finn bem perto atrás. Rachel não perdeu o olhar furioso que Quinn mandou em sua direção enquanto Finn se aproximava mais de Rachel – talvez um pouco perto demais. Rachel percebeu que isso era definitivamente perto demais pro gosto de Quinn, mas o que Quinn não percebeu é que isso era também perto demais pro gosto de Rachel.
Eles começaram a cantar a canção e Finn estava claramente tomando a coreografia em suas mãos – algo que Rachel iria dizer a ele que nunca deveria tentar no futuro.
Finn estava segurando as mãos de Rachel, puxando-a pra mais perto dele, tocando o rosto dela – e Rachel se afastando, várias vezes seguidas. Sr. Schue parecia bem contente com todo o "ato", pra falar a verdade. Aparentemente tudo aparentava ser muito teatral e por isso aceitável.
Rachel viu os olhos de Quinn mais uma vez e a tristeza que brilhava dentro deles foi o suficiente para fazer com que Rachel não visse mais os olhos dela por todo o resto da performance.
Depois do treino do coral, Rachel se encaminhou pro armário dela. Ela tinha que juntar suas coisas pra um projeto de História que estava perto de ser entregue...
Enquanto Rachel o fechava, alguém achou necessário bater a porta com toda a força por ela. Ela foi agraciada com o olhar ameaçador de Quinn Fabray – Quinn Fabray em modo HBIC.
"Escute, Rachel, e escute com atenção. Você e eu estamos prestes a ter um acerto de contas. Você está tendo o bebê de outra pessoa. Afaste-se de Finn. Estou pedindo pra você do jeito mais legal possível que eu posso – Deixe. O. Em paz. Quer você sinta algo por ele ou você só quer seriamente trazer à tona minha fúria, você precisa parar. Não está certo, Rachel. Você o beijou." Seu olhar falhou no de Rachel momentaneamente. "Não está certo." A fachada de Quinn pareceu se desfazer no final, e Rachel obviamente notou. Ela notou e ela estava ao mesmo tempo assustada que Quinn sabia sobre o beijo.
"Você está certa," ela respondeu com um pouquinho de medo na voz dela. "Eu tive motivos românticos ocultos na minha perseguição por Finn." Se apenas você soubesse minhas motivações verdadeiras, ela adicionou mentalmente. "Mas eu sequer tentei procurá-lo por aí, fora do coral, em meses. Você sabe sobre o beijo... E por isso, eu sinceramente me desculpo. Eu tentaria explicar, mas eu tenho medo que nunca haverão palavras suficientes para isso." Ela parou e suspirou pesadamente, seus olhos baixos. "Eu estou contente –" sua voz quebrou com emoção e ela olhou pros olhos de Quinn novamente. "Eu estou contente que você olhou além das nossas indiscrições. Você merece... Vocês dois devem ser felizes." Quinn notou que lágrimas brilhavam nos olhos de Rachel e uma onda séria de confusão passou por ela. "Novamente, me desculpe pelas minhas ações passadas. Tenha uma boa noite, Quinn."
Rachel andou pra longe de Quinn e em direção ao estacionamento. Um pequeno sorriso agraciou suas feições e seu único pensamento foi "Ela me chamou de Rachel..."
