Humilhe-me
Enquanto Rachel se encaminhava pro carro, ela achou altamente difícil tirar o sorriso do rosto.
Sim, ela tinha acabado de ser confrontada pela garota cujo namorado ela beijara.
Sim, ela tinha acabado de ser ameaçada com um "acerto de contas."
Sim, ela tinha visto a tristeza nos olhos de Quinn.
E sim... Ela tinha pensado, mesmo que por um breve momento, que ela podia oferecer Quinn alguma consolação, alguma garantia de que a outra garota deveria ficar com Finn – que Finn a merecia e que ela merecia Finn e que, naturalmente, eles iriam viver felizes para sempre e que Rachel ficaria bem com isso. Ela tinha se desculpado por beijar Finn, mas ela estava realmente só sentida que o plano dela não tinha sido bem sucedido, de fato.
Mas não, Rachel honestamente não estava certa se quaisquer das palavras que ela dissesse seriam verdadeiras.
Ela tinha tentado permanecer com os pés no chão durante toda a conversa. Mas o nome dela, "Rachel", tinha atravessado os lábios de Quinn e isso tinha sido mágico. Por um segundo, Rachel tinha imaginado que a Quinn do sonho era uma completa impostora – que aquela garota que tinha o poder de deixar Rachel sem fôlego por dizer o nome dela não podia possivelmente coexistir no mesmo universo que a garota que tinha ficado parada sem fazer nada, vendo Rachel sofrer.
Simplesmente não era possível.
De fato, Rachel estava tão distraída com os pensamentos e o ato de tentar parar de sorrir que, quando ela entrou no carro dela e colocou a chave na ignição, ela estava totalmente alheia ao fato de que ela não estava sozinha... Até alguém limpar a garganta do lado dela.
Rachel soltou um grito bem agudo e imediatamente proclamou, "EU TENHO SPRAY DE PIMENTA!" enquanto ela virava pra mulher sentada no banco do passageiro do carro dela. Ela levou um momento – um momento tentando acalmar seu coração que batia errado e respirações em pânico – pra perceber que ela de fato reconhecia essa mulher. "Sra. Schuester? O que danado você está fazendo no meu carro?"
Terri Schuester sorriu pra Rachel e algo no jeito que os lábios dela se curvaram pra cima e o pequeno som da voz dela e o fato de que Rachel podia claramente dizer que o sorriso da mulher não alcançava os olhos dela imediatamente fez com que as defesas delas se multiplicassem exponencialmente.
"Bem, fico feliz que você perguntou," Sra. Schuester começou. Rachel mentalmente rolou os olhos – mentalmente, porque Sra. Schuester era, de fato, uma adulta e por isso merecia respeito; e rolou os olhos porque, bem, obviamente ela iria perguntar o que a mulher estava fazendo no carro dela...
"Estou ciente da sua situação atual, Rachel," ela falou suavemente, esticando a mão para colocá-la no pulso delicado de Rachel. Rachel tremeu com a forma que ela tinha dito "situação."
"Eu quero ajudar você. Nenhuma garota de dezesseis anos deveria criar um bebê, muito menos sozinha." Rachel quase grunhiu com o tom condescendente da mulher. "Acontece que eu tenho a solução pra você. E, vamos ser honestas, você seria absolutamente boba se não aceitasse." Rachel arqueou a sobrancelha, curiosa e ofendida ao mesmo tempo. "Você tem algo que eu preciso. Nós podemos nos beneficiar mutuamente."
A essa altura, Rachel teve que interromper. Ela se recusava a pensar que a Sra. Schuester estava insinuando o que ela estava seriamente insinuando. Ela tinha que esclarecer. "Me desculpe, Sra. Schuester, eu estou um pouco confusa. Você poderia me dizer que 'benefício' é esse que nós representamos uma pra outra?"
Sra. Schuester sorriu novamente e Rachel colocou o braço esquerdo protetoramente ao redor do estômago dela. "Rachel, eu preciso de um bebê." Os dentes de Rachel estavam implorados para serem cerrados, pra serem mostrados em um rosnado. Ao invés disso, ela se conformou com arrancar o pulso direito do aperto de Terri.
"O que você está dizendo?" Rachel exclamou. "Que você quer meu bebê? Porque danado eu lhe daria minha criança? O que tem de errado com você que te faz pensar que em algum grau é bom se aproximar de uma garota de dezesseis anos – uma menor – sozinha, no carro dela, depois da escola, sem nenhuma supervisão? A lista continua e todos apontam pro fato que você está claramente descompensada. Eu tenho na minha mente de ligar pra alguém da UALC (União Americana de Liberdades Civis), meu advogado e meus pais! Nessa ordem!"
Nesse ponto, Terri teve a decência de parecer um pouco envergonhada – apesar de ser só um pouco. Entretanto, ela se recobrou rapidamente.
"Pense sobre isso, Rachel. Você quer que seu bebê cresça sem um pai? Você quer ter que voltar pra escola depois de ter um bebê e ver as outras crianças te zoando e jogando bebidas congeladas no seu rosto e então ter quer ir pra casa no final do dia escolar e tomar conta de um bebê? Rachel, você está pronta pra ser mãe? Eu preciso de um bebê. Você precisa da sua adolescência. Pense sobre isso." Ela parou. "Você está tomando vitaminas? Você marcou médico? Você já considerou as despesas?"
Rachel estava vendo vermelho.
"Ok, Sra. Schuester. O que estou prestes a dizer, direi uma vez e apenas uma vez. E então eu nunca mais quero ver você perto de mim pelo tempo que essa criança esteja na minha barriga ou na minha vida – se eu escolher manter essa criança na minha família, meus pais serão figuras paternas excepcionais para ela. E quanto as crianças na escola? Eu lidei com eles desde que me entendo por gente. Eu posso lidar com isso, apesar de eu sinceramente apreciar sua preocupação. O pensamento de tomar conta de outra vida, apesar de consideravelmente assustadora, não é algo que eu iria me afastar – se eu mantiver esse pequeno bebê, eu o amarei e o alimentarei. É destinada só a mim a decisão de se eu estou ou não pronta pra ser uma mãe. Bem longe de você determinar tal coisa." Ela respirou profundamente. "Quanto às vitaminas, médicos e problemas com dinheiro – meus pais irão me ajudar com tudo isso. Eles já sabem –" com isso, os olhos de Terri se acenderam surpresos, "- e eles me apóiam, 100%. Então eu garanto a você – não há absolutamente nada pra você se preocupar com minha vida ou a do meu bebê."
Depois de Rachel terminar esse discurso improvisado, ela olhou esperançosamente pra Sra. Schuester. Entretanto, a outra mulher estava encarando Rachel com um olhar perplexo no rosto, claramente sem saber o que fazer ou dizer em resposta a atitude confiante de Rachel.
"Você pode gentilmente deixar meu carro agora, Sra. Schuester," Rachel polidamente ofereceu.
Sem dizer nenhuma palavra, Sra. Schuester virou e saiu do caro, gentilmente fechando a porta atrás dela.
Rachel não podia acreditar muito no que tinha acabado de acontecer. Apesar de que ela se recusava a se deixar demorar pensando nisso – ao invés disso, ela fechou os olhos e respirou profundamente, segurou o ar nos pulmões por apenas alguns momentos mais do que o necessário e então soltou o ar lentamente através dos seus lábios entreabertos. Ela abriu os olhos, pôs o carro na ré, e deixou o estacionamento da escola, indo pra casa.
Quinn estava deixando a escola depois de pegar a mochila dela da sala dos armários das Cheerios quando ela viu Terri Schuester sair do pequeno carro que ela reconhecia como de Rachel. Franzindo ligeiramente a testa, Quinn se aproximou do próprio carro que estava há algumas vagas do de Rachel. Terri parecia decididamente sacudida, então Quinn focou no que ela podia ver do rosto de Rachel – a garota estava claramente tentando se acalmar, seus olhos fechados enquanto ela aparentemente... segurava a respiração? Quinn não estava certa, mas ela sabia que algo tinha acontecido. E isso não era aceitável.
Ela abriu a parte de trás do carro dela, jogando sua mochila pra dentro. Nesse momento, Rachel já tinha deixado o estacionamento mas Terri ainda não tinha alcançado o próprio carro. Quinn correu em direção à outra mulher, alcançando-a tão logo ela estava para abrir a porta do lado do motorista.
Quinn fechou-a com toda força pra ela.
"Oi, Sra. Schuester," Quinn disse, um sorriso doce como sacarina graciosamente em seus lábios. Seu tom estava entrelaçado com uma falsa alegria.
"Oh uhh... Oi pra você também. Quinn, é isso?"
Quinn concordou em resposta antes de replicar com um tom honesto de curiosidade na voz, "Eu acabei de ver você conversando com Rachel Berry?"
Quinn não precisava que Terri respondesse verbalmente – o olhar no rosto dela parecia uma criança pega com a mão no pote de biscoitos, Quinn sabia que ela tinha pegado a mulher fazendo algo errado.
"Olhe, Terri," Quinn disse, instantaneamente derrubando cada porção de sinceridade falsa e se mostrando com todo o porte dela (uns bons centímetros sobre a linha de visão da Sra. Schuester). "Eu posso honestamente dizer que eu não me importo com o que você tinha pra dizer à Rachel, ou se qualquer coisa sequer foi dita. Você ficará longe de Rachel Berry, me fiz clara? Ela não precisa do estresse de você acossando-a dessa forma, por qualquer razão." Quinn deu um passo pra mais perto da mulher mais velha, fazendo Terri dar um pequeno passo pra trás com medo. "Se eu vir você perto dela novamente..." Quinn deixou no ar; as implicações da declaração dela estavam abominavelmente claras.
Com seu pensamento exposto, Quinn se virou e andou de volta pro carro dela.
Terri ficou em silêncio e imóvel por alguns segundos antes de entrar no carro dela. Ela não podia fazer realmente muito além de suspirar profundamente e pensar, Eu não sei o que se tornou a juventude hoje em dia – eu definitivamente não era tão vadia desse jeito quando eu tinha 16.
Ela tremeu ligeiramente, lembrando do olhar penetrante dos olhos de Rachel Berry, perplexa com a fúria da mulher cujo filho tinha sido ameaçado e o igualmente intimidante olhar de Quinn Fabray que estava claramente defendendo alguém que ela considerava uma amiga.
Crianças, ela pensou novamente, saindo do estacionamento.
