O dia anterior tinha efetivamente levado Rachel à uma falsa sensação de segurança dentro dos corredores da escola. Então quando três atletas sem nome jogaram não um – não dois – mas três slushies de uva na cara de Rachel um logo após o outro, Rachel só podia achar a energia dentro de si para pensar, Bem, pelo menos eles escolheram uva.
"Beba, Preggers!" Eles maliciosamente gritaram sobre os ombros enquanto deixava a cena, a risada nojenta deles ecoando pelas cabeças de quem estava no corredor, para dentro do tímpano de Rachel.
Ela suspirou e levou um momento para se recompor. Mas só um momento.
Ela reabriu seu armário, o qual ela tinha acabado de fechar. Ela puxou uma pequena mochila de ginástica. Dentro estava o que ela tinha cognominado de Kit de Limpeza de Emergência Slush. Consistia de uma toalha, uma muda de roupas, material de banho e tudo que ela precisava para refazer a bagunça grudenta que estava atualmente no cabelo dela.
O coração dela doía tristemente ao perceber que ela tinha a necessidade legítima de um Kit de Limpeza de Emergência Slush...
Rachel jogou a mochila sobre o ombro e lentamente fez seu caminho para o vestiário das meninas – um conjunto de armários e chuveiros completamente separados do vestiário das Cheerios, como demandando pela Treinadora Sylvester e seu prestigioso Clube de Incentivo. Ao longo do último ano e meio, Rachel tinha se tornado intimamente familiar com os vestiários que eram notavelmente mais ruins do que – bem, não havia outra palavra para ele – os elegantes vestiários para as Cheerios. Ela muitas vezes se achava tendo só o período do almoço ou até mesmo minutos entre as aulas para se recuperar de um ataque de slushie. Felizmente, ela tinha diminuído o Processo de Recuperação de Slushie para um período de vinte minutos. A maioria dos professores entendia quando Rachel se atrasava para as aulas – apesar de Rachel nunca podia compreender o motivo pelo qual os professores não faziam algo para parar totalmente os slushies ao invés de só aceitar o fato que de que Rachel estaria eternamente atrasada.
Apesar disso, o fato que permanecia era que Rachel tinha sofrido um ataque de triplo slushie, e ela tinha que chegar na próxima aula tão logo quanto possível – ela tinha uma prova nesse dia, pelo amor de Deus. É como se eles planejassem essas coisas, tentando tornar minha vida tão miserável quanto humanamente possível. Então novamente, Rachel realmente sabia que eles não tinham inteligência suficiente para infligir esse nível de dor que eles infligiam intencionalmente; eles foram sortudos e isso frustrava Rachel mais do que o costume.
Enquanto ela entrava debaixo do chuveiro, a água quente batia na pele dela – retirando o slushie de uva, as lágrimas, a vergonha e a solidão – e levava tudo ralo abaixo.
Apesar de tudo que Rachel fora sujeita, ainda havia uma parte dela – escondida atrás de cicatrizes emocionais e o constante peso presente nos ombros dela de uma criança crescendo dentro dela – que seriamente desejava que isso fosse simples assim.
Infelizmente, coisas nunca eram simples assim. A situação de Rachel não iria mudar. Ela não ia tornar-se de repente melhor amiga com todo mundo no coral, o infinito assédio nos corredores da WMHS não iria parar e aquela uma pessoa que Rachel queria que simplesmente se importasse nunca o faria. Nunca seria simples assim. Algumas vezes, as pessoas só não podiam mudar.
No almoço, os componentes do coral que ainda eram considerados na maior parte 'párias' estavam sentados todos juntos.
Tina. Mercedes. Kurt. Artie.
As Cheerios e os jogadores de futebol normalmente sentavam no lado oposto do refeitório. Então quando A Quinn Fabray se aproximou da mesa deles – flanqueada de cada lado por Brittany e Santana (ligadas pelos mindinhos) – eles ficaram surpresos. Eles ficaram, também, ligeiramente assustados.
"Oi pessoal," Quinn disse quando chegou na cabeceira da mesa, mãos firmemente colocadas nos quadris dela.
Houve uma gagueira de "Uhhh oi" de todos. Mercedes – provavelmente a pessoa com mais confiança – falou primeiro.
"Oi Quinn. Há algo que você precisa?" Ela perguntou de um jeito cético – quase condescendente.
Quinn escolheu deixar passar o tom de voz de Mercedes e continuou, "Pra falar a verdade, há algo que eu preciso de todos vocês." Quatro pares de sobrancelhas levantaram-se perigosamente alto, ameaçando se perder entre a linha do cabelo. "É pro coral..."
Quinn começou a contar a todos sobre a música que ela pensara que eles deviam preparar para apresentar depois da escola no dia seguinte. Eles não a questionaram realmente – ela era a HBIC, questioná-la não era o protocolo. Eles apenas, cheios de medo, concordaram logo, mas então eles perceberam que isso seria na verdade muito divertido – uma ótima música, um arranjo de arrasar e Quinn tinha já montado uma coreografia simples e bonita com Santana e Brittany.
"Estou certo de que Rachel ficará tão excitada para cantar essa música," Artie disse baixo.
"na verdade," Quinn disse. "Eu tinha planejado que Tina cantasse como capitã. Finn cantará como capitão. As partes englobam bem ambas as vozes de vocês."
Um enorme sorriso iluminou o rosto de Tina e Mercedes deu um abraço nela, guinchando excitadamente. Artie bateu na mão dela e Kurt pareceu irritado – como era o costume quando ele não conseguia ganhar o solo pra ele.
"Nós vamos praticar depois da escola hoje. E então apresentaremos depois da escola amanhã." Quinn se virou pra ir embora, mas se parou e voltou-se para os meninos que estavam na mesa. "Ah, e Rachel não vai treinar conosco hoje. Então não deixe vazar pra ela." Apesar de que só Tina parecia ter alguma semelhança à uma ameaça de vazar pra Rachel – Mercedes e Kurt despreocupadamente recusavam-se a esconder o desdém deles pela outra garota e Artie era, normalmente, o primeiro a falar do comportamento irritante dela.
"Não que eu realmente me importe, mas porque exatamente não podemos contar à Rachel?" Kurt perguntou.
"Porque," Quinn respondeu. "Nós apresentar para ela." Com isso, Quinn se virou e marchou pro lado 'popular' do refeitório e se sentou próxima à Finn – apesar de que qualquer um com um cérebro podia dizer que ela o ignorava com o intuito de conversar com Brittany e Santana pelo resto do período do almoço.
Ela tinha, entretanto, deixado um grupo de garotos chocados pra trás.
"Alguém sente como se nós talvez tivéssemos em algum tipo de realidade alternativa?" Artie perguntou, seus olhos flutuando nervosamente entre as outras três pessoas na mesa. Todas as três cabeças concordaram em sincronia.
No dia seguinte depois da aula, Rachel estava se encaminhando pra sala do coral para o treino da tarde de quarta. Enquanto ela colocava a mão na porta para entrar, uma voz ressoou no corredor, efetivamente parando o progresso dela.
"Rachel!"
Ela se virou em direção à voz e ficou aliviada em ver Tina – pior cenário: poderia ser algum atleta com um Grande Super Jumbo Slush vindo pra dar em Rachel a última dose de tortura do dia. Ela já tinha levado slushie duas vezes hoje. Duas vezes. E era por isso – ao invés de usar o suéter costumeiro com padrões diagonais ou as saias plissadas – ela estava vestindo um jeans azul escuro e uma camiseta de botão branca de manga longa (enfiada na calça). Isso não era, no pensamento de Rachel, sua escolha de vestuário rotineira, mas isso seria o suficiente para o treino do Coral. De qualquer forma, era absolutamente a única muda de roupas que ela tinha deixado em qualquer lugar do edifício.
"Oi Tina," Rachel disse enquanto a outra garota se aproximava dela. Ela tinha claramente corrido por todo o corredor e ela diminuiu até parar quando os seus pés levaram-na diretamente pra Rachel.
"Oi, você tem que vir comigo," Tina disse abruptamente à guisa de cumprimento antes de agarrar a mão de Rachel e a arrastar pra longe da sala do coral.
"Mas... Mas e o coral?" Rachel perguntou, uma ponta de histeria entrelaçada na sua voz. Ela realmente odiava estar atrasada. E o coral dava à ela a chance de cantar, uma chance de se expressar de um jeito que ela certamente não podia na maior parte do dia dela nos corredores da Escola de Ensino Médio William McKinley.
"Não se preocupe," Tina replicou brevemente enquanto ela continuava a liderar Rachel para a misteriosa destinação delas. Tina olhou pra outra garota por um momento, apenas notando pela primeira vez o que ela estava usando – o jeans era apertado em todos os lugares certos nas pernas de Rachel e a camisa estava acentuando as curvas de Rachel de uma forma que suas seleções normais de vestuários não faziam. Seu cabelo estava fluindo em cachos soltos e ondas ao redor do rosto dela e sobre os ombros dela. Uau, Rachel está realmente gostosa hoje, Tina pensava consigo mesma. Alto ela disse, "Roupa legal, Rachel," e deu a garota um sorriso brilhante e largo.
Rachel não estava normalmente do lado que recebia elogios. Slushies, apelidos horríveis, abuso emocional e ser empurrada no corredor – essas eram as coisas que Rachel estava inerentemente familiarizada em receber. Então quando Tina disse que a roupa dela estava legal... Bem, Rachel ficou do tom mais escarlate que ela já tinha ficado; um sorriso verdadeiro agraciou suas feições e ela apertou a mão de Tina levemente e murmurou um sincero, "Obrigada." Tina só sorriu novamente em resposta.
"Tina," Rachel hesitou quando elas entraram no local. "Há alguma razão pra estarmos no auditório? Afinal de contas, está escuro aqui. Eu não posso imaginar que seja particularmente seguro andar por aqui no escuro –" Rachel foi interrompida quando o palco foi prontamente aceso e ela ficou boquiaberta com o que viu.
No palco, vestidos em roupas combinando e parados em uma formação bem ordenada, estava o New Directions inteiro. Sr. Schuester estava sentado atrás da mesa do diretor na audiência, um pequeno sorriso no rosto.
Dessa vez, foi Tina que apertou a mão dela primeiro, puxando Rachel para segui-la em frente até o palco. Tina foi pro lugar dela na frente, próxima à Finn.
Depois, Finn deu um passo à frente.
"Nós ensaiamos esse número ontem, Rachel. Nós sabemos que você não sabe a coreografia, mas tudo bem. Você pode ficar aqui com a gente enquanto apresentamos. Você pertence à esse lugar. E essa música... É pra você." Ele sorriu timidamente e estendeu a mão para ela pegar.
Ela pegou... Mas houve uma leve relutância nela em querer tocá-lo. Ela realmente não achava necessário que ele segurasse a mão dela para levá-la por apenas alguns passos. No final, não importou realmente. Ela apenas cessou o toque assim que pôde fazer de forma respeitosa.
Os garotos do coral se posicionaram em duas fileiras ao redor de Rachel. À esquerda dela, Santana. À direita, Quinn.
Rachel não tinha certeza do que era, mas ela sabia que ter Quinn assim tão próxima à ela era eletrizante. Ela não podia deixar de olhar pra baixo pros sapatos dela, seu cabelo caindo para emoldurar o lado esquerdo do rosto dela. Ela podia sentir o olhar de Quinn nela.
E quando a música começou... Quando a música começou, Rachel pensou que talvez seu coração podia explodir da emoção intensa e pura que estava correndo nas veias dela. Ela conhecia a música e a letra. Ela se questionou se os 11 componentes queriam ou não realmente dizer o que eles estavam prestes a cantar.
As vozes de Tina e Finn se encaixavam perfeitamente. Os outros se moviam ao redor de Rachel – ela notou com orgulho que a coreografia era realmente impressionante. Lágrimas vieram aos olhos dela, ela não podia evitar. Ela tinha lidado com a implicância que a escola lhe dava dia após dia, e tudo que os seus companheiros de coral estavam dizendo agora – das suas vozes aos movimentos ao jeito que eles interagiam com Rachel no palco – estava, talvez, funcionando pra começar a curar, ainda que ligeiramente, algo dentro dela.
Todos estavam cruzando para o lado oposto das fileiras onde tinham começado. Rachel ficou parada no meio, como ela tinha estado desde o começo. Lágrimas estavam caindo gentilmente pelas suas bochechas. Quando cada pessoa passava por ela, eles gentilmente passavam os dedos pelo braço e pela mão dela, onde eles apertavam a mão dela de forma a confortá-la antes de se moverem pra posição seguinte no arranjo. Alguns sorriam docemente pra ela, alguns jogaram beijos enquanto se afastavam e Quinn – a última pessoa a se aproximar dela – na verdade segurou a sua mão e não soltou, além de esticar a mão livre para enxugar as lágrimas que ainda estavam molhando a bochecha de Rachel. Sua mão demorou na pele de Rachel. Esta soltou uma respiração trêmula, não inteiramente certa de que aquele momento fosse real.
Eles pararam em quatro colunas, todos de frente pra Rachel (que ainda estava de mãos dadas com Quinn). A formação se fechou ao redor das duas garotas, todos ficando juntos pros momentos finais da música. Todos se deram as mãos nesse momento. Rachel sorriu através das lágrimas.
Apesar do grupo inteiro estar cantando pra ela, Rachel só tinha olhos pra Quinn Fabray.
E para o crédito de Quinn durar mais ainda, ela não tirou os olhos dos de Rachel nem por um segundo.
Enquanto a música parava, o auditório foi jogado num silêncio absoluto. O único som que podia ser ouvido era uma leve exalação de ar dos lábios de Rachel.
O que se seguiu foi um abraço grupal bem clichê. E Rachel amou.
E a deixou ainda mais próxima de Quinn.
Ela se encontrou com os braços enlaçados ao redor de Tina e Kurt. Finn estava logo atrás de Quinn e também estava tentando colocar os braços dele ao redor de Rachel – a única coisa que se sucedeu disso foi colocar o corpo de Quinn de encontro ao de Rachel.
Rachel podia jurar que sentiu as mãos de Quinn nas costas dela. Uma estava bem baixo logo próximo à cintura do jeans dela. A outra estava na base das costas dela. Rachel continuava se dizendo que os toques suaves de Quinn sobre suas roupas não eram tão suaves, carinhosos e amorosos quanto ela se imaginava. Porque isso não faria sentido se fosse de outra forma.
E a bochecha de Quinn estava pressionada na dela.
Mas Rachel não podia mentir pra si mesma – a pele de Quinn estava definitivamente suave desse jeito contra a de Rachel.
O grupo lentamente se separou e cada um foi pro seu lado. Por conta da sua proximidade, Quinn foi a última a se afastar de Rachel. Qualquer força que tivesse sido dado pra Quinn – a força que tinha permitido à ela encarar os olhos da garota que ela tinha torturado por anos e cantar pra ela sobre esperança – tinha ido embora. Ela rapidamente olhou pro outro lado e deixou o palco atrás de Finn.
Tina, entretanto, se demorou. Ela puxou Rachel pra um abraço final e Rachel deu de volta. Seu corpo estava mais leve do que estivera em muito tempo. Ela sentia que algo dentro do coração dela parecia com... felicidade.
"Muito obrigada, Tina. O que você fez por mim hoje foi lindo. Você e todo mundo do coral. Eu apreciei tudo demais."
Tina se afastou um pouco, colocando uma mão macia na bochecha de Rachel (imediatamente, Rachel mentalmente confirmou que a mão de Tina não era tão macia quanto à de Quinn), abaixou a cabeça dela para se certificar que Rachel estava olhando diretamente para os olhos dela, e disse, "Se você quer agradecer alguém, você deve agradecer à Quinn. Foi ideia dela, afinal de contas. Nós apenas ajudamos a acontecer." Tina deu um pequeno aperto nos ombros de Rachel para reconfortá-la antes de ir embora, deixando Rachel completamente chocada.
Um sentimento quente se espalhou pelo peito de Rachel enquanto ela ficava parada no palco sozinha – parecia um pouco com esperança – e Rachel pensou consigo mesma, Talvez pessoas possam mudar.
