Não passou nem vinte minutos de Carrie quando Rachel começou a murmurar, "Estou tão feliz em ter dois pais gays, estou tão feliz em ter dois pais gays..."

"Berry," Santana murmurou do lugar dela na poltrona reclinável, aninhada bem perto de Brittany. "Pare de choramingar. Nada sequer aconteceu ainda."

A única resposta de Rachel foi fungar ligeiramente e aumentar a pressão do seu aperto na perna de Quinn.

Porque, sim, ela estava enrolada no sofá em posição fetal com sua mão na parte superior da coxa de Quinn e suas mãos estavam enroladas fortemente ao redor de dita coxa. Quinn estava sentada com as pernas esticadas na frente dela, pés repousando na mesinha de café.

Rachel estava segurando nela por tudo que era mais sagrado. Ela tinha dito que era uma bundona e não estava ciente de como Santana já tinha esquecido tão facilmente o que ela dissera. Ah sim, ela pensou, eu sei bem porque ela já esqueceu – as mãos de Brittany estão fora de vista desde antes de eu ir e fazer pipoca pra todo mundo... Só levou cinco minutos para que elas começassem um comportamento inapropriado na minha sala de estar!

Rachel foi dirigida pra longe dos seus pensamentos quando ela sentiu a mão de Quinn ao seu lado. A loira se inclinou pra baixo, posicionando os lábios logo acima da orelha de Rachel e sussurrou, "Está tudo bem, Rach. Eu não vou a lugar algum. E Santana e Brittany? Elas não zoarão você se você ficar com medo. Elas provavelmente ficarão completamente incoerentes antes de qualquer coisa realmente intensa aconteça, de qualquer forma." Ela arrasou a mão dela – em um movimento dolorosamente lento, Rachel notou – pra longe do lado de Rachel e de volta pra tigela de pipoca.

A respiração de Rachel tinha ficado presa na garganta desde o primeiro momento que a mão de Quinn tinha passeado pelo seu lado através da camiseta fina que ela normalmente usava pra dormir. Quando a mão de Quinn tinha se afastado, a sensação de dedos fantasmas contra o seu lado vestido tinha causado às pálpebras de Rachel um flutuante fechamento. O tremor que correu pelo seu corpo à perda de contato foi involuntário, mas Rachel não o tiraria, mesmo se ela pudesse.

Porque imediatamente, a mão de Quinn estava de volta ao lugar e ela estava se inclinando novamente sobre Rachel. Rachel não pôde deixar de ver a preocupação atrelada aos olhos dela – ela podia ouvi-la em sua voz. "Você está com frio?" Quinn perguntou.

Momentaneamente com a língua presa pela doce exalação de ar na sua orelha, Rachel titubeou. Sim. Não. Talvez. "N- não," ela gaguejou. Ela mordeu o lábio e encolheu suas sobrancelhas juntas. Resposta errada, Rachel!

"Não?" Quinn perguntou.

Uma segunda chance! Rachel pensou. "É," foi sua resposta dessa vez. "Estou com um pouquinho de frio." Mas eu estou completamente sem vontade de me mover dessa posição pra fazer algo em relação a isso.

Quinn não respondeu verbalmente. Ao invés disso, ela se esticou e pegou a coberta das costas do sofá e gentilmente a colocou sobre o corpo de Rachel.

"Melhor?" Quinn perguntou.

Todo a força de vontade reunida por Rachel deu a ela força suficiente pra fazer uma coisa – acenar com a cabeça num incrivelmente pequeno gesto de afirmativa.

Infelizmente, esse movimento do seu rosto na pele da coxa de Quinn causou um turbilhão totalmente novo de problemas pra Rachel.

Ai meu Deus, a mente de Rachel entrou em ebulição. A pele de Quinn é possivelmente a coisa mais macia que eu já senti na minha vida! E isso inclui o lindo cachecol de cachemira que Papai me deu no último Hanukkah... Antes que ela pudesse se parar – antes que o cérebro de Rachel pudesse alcançar suas mãos – ela se achou soltando o aperto na perna de Quinn. Sua mão direita começou a acariciar a carne exposta de Quinn. Rachel pode até talvez ter passado o rosto suavemente na maravilhosamente suave pele embaixo do seu rosto. Ai Meu Deus, Ai Meu Deus, AI Meu Deus, Rachel freneticamente pensou quando sua mente entendeu o que estava acontecendo. Ela imediatamente parou toda a movimentação. Sem qualquer percepção da outra garota, Rachel se sentou de forma correta, seus olhos imediatamente procurando os de Quinn numa tentativa de explicar suas ações.

Mas ela não conseguiu ver os olhos de Quinn. De fato, os olhos de Quinn estavam fechados. E ela estava mordendo o lábio gentilmente entre os dentes. Bem, isso é o que eu chamaria de incrivelmente sexy, Rachel pensou consigo mesma. A mão direita de Rachel ainda estava no topo da coxa de Quinn, então ela deu um leve apertão na perna antes de sussurrar, "Quinn?"

Os olhos de Quinn flutuaram – flutuaram – e se abriram, e Rachel não pôde evitar que o pequeno sorriso achasse o caminho para seus lábios com esse movimento. Quinn piscou algumas vezes antes de responder, "Sim, Rach? Tem algo errado?"

Rachel ficou temporariamente sem saber o que dizer – ela assumiu que Quinn estava totalmente ciente do que tinha acontecido – com as mãos de Rachel praticamente molestando a perna de Quinn; então, desde que Quinn parecia estar fingindo que nada acontecera, isso fez Rachel supor que ela também devia fingir que nada tinha acontecido.

"Uhh, não. Não há nada errado," Rachel disse rapidamente. "Eu só não queria machucar sua perna de apertar tão forte." Quinn apenas sorriu ligeiramente e balançou a cabeça.

"Você não está me machucando de forma alguma, Rachel." Você teria que ser bem mais rude do que isso, a mente de Quinn disse pra ela.

"Tudo bem, só pensei que deveria checar," Rachel disse antes de voltar a se deitar. Dessa vez, ela de propósito deitou a cabeça mais perto do estômago de Quinn – assim provendo para si mesma uma ampla visão da coxa na frente dela. A pele dela é realmente linda, Rachel pensou. Novamente, como se por vontade própria, seus dedos lentamente fizeram seu caminho de volta pra perna de Quinn. Ela levemente tocou sua mão na pele – primeiro cada dedo, um de cada vez, e então a palma da sua mão descansou totalmente contra a coxa de Quinn. Estando perto o suficiente do estômago de Quinn, Rachel sentiu (mais do que ouviu) Quinn respirar profundamente e soltar lentamente.

O filme continuou. Os dedos de Rachel continuaram. Ela se achou mais envolvida com a pele embaixo dos seus dedos, do que com as manipulações horríveis que estavam acontecendo na tela. Como se tornava vastamente mais aparente que Quinn não estava planejando nada para parar Rachel de tocá-la, os movimentos de Rachel se tornaram mais liberais. Um surto de felicidade fluiu pelo corpo de Rachel enquanto ela sentia a própria mão de Quinn embaixo da coberta – começando a levemente imitar os movimentos de Rachel no braço exposto desta. Dentro de trinta minutos mais ou menos, Rachel estava certa de que ela tinha mapeado cada centímetro da pele da coxa direita de Quinn com o seu toque. Se somente eu pudesse ter acesso total ao resto do corpo dela, Rachel pensou.

E então ela percebeu o que ela tinha pensado. E ela parou. Os dedos de Quinn continuaram a se mover por um segundo ou dois depois de Rachel ter parado, e então sua mão também parou. Quinn moveu a mão pro rosto de Rachel e ela começou a levemente retirar o cabelo do rosto dela, correndo os dedos por ela suavemente, calmamente. "Tudo bem?" ela mal sussurrou. Mas Rachel escutara.

Rachel escutara e Rachel percebera com um assombro que a resposta era 'não'. Não, ela não estava ok. Ela estava deitada no colo da garota e – não que importasse que essa fosse a garota que tinha a torturado por anos – ela tinha percebido em um impressionante momento de claridade que ela queria mais do que simplesmente deitar em seu colo. Ela queria Quinn. O fato de que essa revelação fosse tão impressionante pra Rachel também a confundiu – Rachel tinha sido a possuidora atípica de uma quedinha por Quinn há meses. Quando Finn tinha contado pela primeira à Rachel que ele estava namorando Quinn, ela tinha ficado surpresa – mas só surpresa porque, bem, isso queria dizer que Quinn estava fora do mercado. E (provavelmente) hétero. Rachel tinha ido tão longe quanto tentar seduzir Finn para causar dissensão entre Finn e Quinn para que ela pudesse ter a oportunidade de perseguir Quinn pra si.

Obviamente, Rachel notou tristemente para si mesma, isso não funcionou. Então novamente, a gravidez de Rachel tinha jogado um balde de água fria em seus planos também. Ela não era desejável para Quinn antes – não havia forma alguma que Quinn iria querer algo com ela depois que ela descobrira que Rachel estava grávida.

E ainda sim, aqui estávamos nós, Rachel confirmou pra si mesma. Se, depois de tudo isso, era possível para Quinn e eu sermos amigas – deitar aqui nesse sofá e ter perdoado e esquecido as indiscrições passadas – por que não seria possível para Quinn e eu sermos mais? Mas havia várias razões bem óbvias para Rachel do motivo pelo qual as coisas não podiam funcionar entre elas.

Um – Quinn era incrivelmente religiosa e então potencialmente tinha objeções fortes à relações entre pessoas do mesmo sexo.

Esse primeiro ponto, Rachel descontou por lembrar a si mesma sobre as menções à The L Word mais cedo naquela noite. De fato, Quinn não pareceu aversa ao show de forma alguma. E o show continua sexo lésbico – muito sexo lésbico.

Dois – Quinn era a presidente do Clube do Celibato.

Quando ela pensou no segundo ponto, Rachel imediatamente brigou consigo mesma. Não é tudo sobre sexo, Rachel! Mas então ela titubeou. Ela deveria saber melhor. Em sua condição de grávida com seus hormônios pregando várias peças nela, pensar sobre sexo não era o melhor jeito de lidar com a presente situação. E certamente não ajudava na clareação de sua mente. Bem o oposto, na verdade...

Três – Bem possível o problema mais importante... Quinn não era livre. Ela tinha Finn. Finn tinha Quinn. Rachel tinha um bebê crescendo em sua barriga e uma transa de uma noite que ela não podia lembrar nem pra salvar a própria vida. Se mesmo ela quisesse lembrar...

E então a mente de Rachel parou de fazer listas e testar teoremas em sua mente. Ela decidiu que era legitimamente ok querer algo. Ela podia querer Quinn. Na verdade, ela podia ir tão longe quanto dizer que era ok perseguir Quinn. Talvez meu erro tenha sido simplesmente avançar na pessoa errada da relação, Rachel pensou. Talvez ao mostrar minhas afeições reais por Quinn, eu possa ganhar o coração dela. Rachel suspirou. Talvez.

"Rachel?" Quinn se inclinou em direção à Rachel, claramente com a intenção de receber uma resposta dessa vez. "Eu posso praticamente sentir sua mente girar. O que está errado?"

Rachel rolou de costas, cabeça ainda colocada firmemente no colo de Quinn. Ela sorriu pra Quinn, de repente sentindo mais certa e auto confiante do que nunca. Ela pegou a mão de Quinn que havia estado previamente tirando o cabelo de seu rosto e a trouxe ao peito, envolvida firmemente na mão de Rachel. "Me desculpe por lhe preocupar, Quinn. Eu prometo, que tudo está mais do que ok."

Quinn sorriu amorosamente de volta, seu rosto há meros centímetros do de Rachel.

"Vocês podem manter a voz baixa aí? Estou tentando me focar no fogo avassalador que está tomando a formatura delas. K, obrigada," Santana murmurou.

"San," Brittany riu. "Você não está vendo nada do filme. Estamos nos beijando pelos últimos 15 minutos."

Santana suspirou e Quinn fez um som de chicote e um movimento com o pulso dela na direção de Santana.

"Oh, por favor," Santana respondeu, atitude pesadamente entrelaçada na voz – como sempre. "Olhe pra si mesma, Fabray, e apenas tente me dizer que você não está planejando ser completamente manobrada você mesma."

A cabeça de Quinn olhou pra baixo imediatamente pra Rachel, um olhar quase culpado no rosto. E então ambas as garotas caíram numa gargalhada.

Oh yeah, Rachel pensou. Eu acho que eu tenho uma chance nisso.